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Obrigado, Maestro

4 de Janeiro de 2018

Iniciando 2018, Vinho Sem Segredo agradece a todos seus seguidores, sempre ávidos e em busca da boa mesa, dos bons vinhos, e de alguma fumaça azul. O ano que se foi há pouco, teve grandes momentos enogastronômicos, mas um disparadamente mereceu destaque, inclusive internacional. Reveja artigo neste blog, Quando o céu é o limite!

Recordando o evento numa mesa exclusiva para dez pessoas, John Kapon, um dos presentes, e um dos maiores degustadores e conhecedores de vinhos raros, habituado a grandes eventos, postou em seu site http://www.ackerwines.com, sua análise, e sobretudo sua enorme satisfação de participar no Brasil de um almoço com vinhos deste quilate. O link abaixo, detalha suas impressões. Muitos desses vinhos estão na sua lista do ano de 2017.

marcos flight john kapon

Obrigado, Maestro – Acker Merrall & Condit

Todo mundo idealiza uma degustação de vinhos excepcionais, vinhos de sonhos, que dificilmente estarão reunidos ao mesmo tempo, num mesmo evento. Neste caso, os vinhos e safras são irrepreensíveis. Senão vejamos, recordar sempre é bom.

Logo de cara, um trio de Krugs envelhecidos. Para muitos, o melhor champagne. Mesmo que você não concorde, é uma Maison de prestígio e qualidade irrefutáveis. Em seguida, um trio de Montrachets. Novamente, produtores como DRC e Ramonet da bela safra 1999 dispensam apresentações.

Passando aos tintos, Richebourgs DRC e Domaine Leroy safra 1988 mostraram a delicadeza e poder de envelhecimento destes Grands Crus. Pulando para o Rhône, quatro tintos de sonhos com safras maravilhosas. Primeiramente, o embate de Chateauneufs. Chateau Rayas e Henri Bonneau, ambos 1990, deram um show de expressão da casta Grenache. Em seguida, no Rhône Norte, Hermitages La Chapelle e Jean-Louis Chave de outra excepcional safra 1978. Momento, raro de provar essas preciosidades de Syrahs envelhecidos numa apelação que exige esse tempo em garrafa. A finalização se deu com dois Pauillacs de primeiro escalão, Mouton e Latour da safra 1959, felizmente meu ano. Decididamente, uma safra de Mouton daquelas inesquecíveis. E olha que bater um Latour 59 é quase uma missão impossível. De fato, a decisão foi no fotochart.

Como é difícil finalizar um almoço desse nível após desfile de vinhos encantadores. É claro que o anfitrião pensou em tudo, e o final tinha que ser arrebatador. Um trio de vinhos de sobremesa, de vinhos doces, ou melhor ainda, de néctares. O que falar de um Yquem 1921, um Porto Colheita Krohn 1900, e um Taylor´s Single Harvest 1863, pré-filoxera. Para escolher o melhor, só no palitinho. 

2018 promete, mas vai ser difícil superar este almoço. Contudo, se tratando do “Maestro”, nada é impossível. Ele conhece o caminho das pedras …

Falando agora de novidades, acaba de entrar na rede o site http://www.pisandoemuvas.com do meu grande amigo Roberto Rockmann. Fanático pelos vinhos da Borgonha, suas postagens são detalhistas sobre o assunto. Ele é capaz de esmiuçar cada um dos 640 Climats Premiers Crus, por exemplo. Além disso, têm vídeos, entrevistas, e belas dicas de enogastronomia.

Feliz 2018 a todos!

 

Americanos em Ação

20 de Setembro de 2017

Calma! Não é um filme de efeitos especiais. São apenas três vinhos californianos com todo o glamour que Hollywood pode oferecer. Quando falamos que os Estados Unidos são o quarto produtor mundial de vinhos, não é apenas em quantidade, mas sobretudo em qualidade. O problema são os preços. Eles praticamente bebem tudo que produzem e ainda faz um estrago na importação de vinhos, sendo um dos principais destinos de grandes vinhos europeus exportados mundo afora.

Aquela degustação de 1976, o famoso julgamento de Paris, já dava indícios que os americanos não ganharam por um mero golpe de sorte. Esses vinhos envelhecem de maneira soberba, e são muito bem trabalhados no campo e na vinificação. Podem ter lá seu estilo próprio por serem musculosos e potentes, o que também é louvável,  mostrando personalidade e tipicidade, mas a qualidade e concentração dos mesmos são inegáveis. Para provar a tese, seguem três joias degustadas.

sertao harlan 94 magnum

Harlan Estate 1994 em Magnum

Tinto com mais de 20 anos. Um dos mais consistentes californianos, sempre com notas altíssimas em inúmeras safras. Nesta por sinal, 100 pontos. De certo modo, foi o maior infanticídio do almoço. O vinho tem uma riqueza de frutas fabulosa. É vibrante, vigoroso, uma montanha de taninos ultra finos, e longa persistência aromática. Combinou muito bem com uma série de cortes nobres grelhados, onde a suculência das carnes deram as mãos aos polidos taninos. Vai dormir sossegado por pelo menos mais dez anos em adega. Para mim, está tranquilamente num dos dedos da mão entre os melhores de Napa Valley.

sertao dominus 94

Bordeaux na California 

Um vinho que tem a assinatura de Christian Moueix (proprietário do Petrus) e o design de rótulo do Lafleur, já conquista o cliente pelo visual. Mas de fato, é um baita californiano. Sou suspeito sempre que comento este vinho. Pessoalmente, é o mais bordalês desses grandes Napas. Essa safra por exemplo, tem 99 pontos. Eu exijo uma explicação! Onde tiraram um ponto deste vinho?. Outro exemplar com mais de vinte anos. Uma maravilha, aquele autêntico margem esquerda, com virilidade e classe ao mesmo tempo. Seus 14º de álcool e madeira nova em seu amadurecimento, perfeitamente integrados ao conjunto. Está extremamente prazeroso agora, embora com um platô de estabilização imenso.

sertao heitz martha vineyard 74

Um dos míticos americanos

Lembra daquela famosa caixa do século XX da Wine Spectator com doze garrafas de sonhos?. Pois bem, eis aqui uma delas. Um tremendo Cabernet Sauvignon com mais de quarenta anos de vida. E que vida!. Exuberante em fruta, nenhum sinal de decadência, integração perfeita de todos os seus componentes. É isso que realmente define os grandes vinhos e as grandes safras. A passagem do tempo tornam esses vinhos imortais. Sem dúvida, o mais prazeroso do almoço com um meio de boca fantástico. Martha´s Vineyard é um vinhedo histórico na sub-região de Oakville, Napa Valley, reduto de um dos melhores Cabernets californianos. Apenas uma observação, seus toques resinosos (eucalipto, menta), sutis e deliciosos, deixavam transparecer sua identidade americana. Esse então, foi o motivo de abrirmos o bordalês abaixo da região de Graves, para uma comparação. Notem no rótulo, que a menção Pessac-Léognan ainda não existia. Somente a partir de 1987.

sertao la mission 76

vinho com pedigree

Longe de ser uma grande safra, La Mission ainda assim mostra seu berço, seu terroir. Clássico aroma terroso, mineral,  com notas de cacau e cogumelos. Percebemos estas safras menores no chamado meio de boca, um tanto oco, e sem grande persistência. Contudo, um vinho elegante, fino, e delicado nesta sua fase final. Deixaria ele certamente para uma massa leve com creme de leite e funghi porcini, acompanhando seus sabores etéreos e sua delicadeza em boca.

passando a régua

Os grandes Vintages Taylor´s são sempre prazerosos para selar uma grande refeição. Este 85, já saindo de sua terceira década, começa a alçar voos para uma velocidade de cruzeiro. Está saindo daquele estágio intenso e dominante de frutas para a formação de aromas terciários. Sempre muito equilibrado, pleno de sabor, é uma das vindimas clássicas do Porto. Decantação obrigatória, pois seus sedimentos são marcantes.

Fim de tarde, sol ameno, nada melhor que a dupla acima. Um Cohiba Siglo V para acompanhar nosso Porto. Bitola Lonsdale, pouco usual na atualidade, bastante apropriada para a ocasião. Fortaleza média, vinho e charuto se respeitaram, um procurando valorizar o outro. No segundo terço, as forças se equilibraram bem.

Agradecendo aos amigos neste belo final de domingo com as lembranças dos grandes tintos de Napa Valley. Saúde a todos!

 

Pratos, Vinhos, Harmonizações

28 de Maio de 2016

Num apanhado dos últimos eventos, vinhos e pratos surpreendentes merecem destaques. Os pratos do artigo são de um jantar oferecido pelo amigo Patrick Delfosse, grande conhecedor de Puros, música (especialmente Jazz) e obras de arte como quadros, esculturas, peças de decoração.

Muito dos vinhos são de um belo evento da Qualimpor com a divulgação competente de Gabriela Galvêz, onde além dos vinhos tivemos uma série de azeites portugueses e queijos nacionais diferenciados.

creme brulee salgado

entrada super original

A entrada acima surpreendeu a todos, criação da amável Emilie no jantar do amigo Patrick. Um crème brûlée salgado à base de salmão defumado, ou seja, a textura do creme lembrava o doce original, mas com o sabor salgado e um defumado bem elegante. A fina camada de açúcar tostado fez um contraponto muito interessante. Para este prato, sugiro um Vouvray Sec Tendre (com leve açúcar residual) ou um Riesling alemão do Mosel categoria Spätlese. Bela combinação, sem marcar muito o paladar. O copo trata-se de um creme de ervilha suave que não interfere na harmonização.

aperitivo suze

cocktail: fond de culotte

O coquetel acima chamado de fond de culotte é mistura de Suze, água com gás e creme de cassis. A proporção dos ingredientes gera bebidas diferentes. Um pouco mais de água com gás deixa o drink refrescante, enquanto um pitada apenas de cassis não o deixa muito doce. A propósito, Suze é um bitter de origem francesa criado em 1889. Agradavelmente amargo.

cubo de salmão

cubo de salmão em crosta de gergelim

O salmão fresco grelhado é um bom parceiro para vinhos com a uva Pinot Noir, sobretudo Sancerre tinto ou Borgonha. Apesar de peixe, sua carne escura, sanguínea e de textura firme, pede mais um tinto, desde que seja delicado em taninos e não muito invasivo. Este cubo de salmão estava crocante por fora e extremamente úmido em seu interior. Comme il faut!

williams selyem

Russian River: Côte d´Or de Sonoma

Que tal este Pinot para o prato de atum? William Selyem faz dessa uva uma cópia quase fiel à original. Muito bem balanceado, com elegância, e uma madeira criteriosamente dosada. Estilo fora da curva das inúmeras tentativas do Novo Mundo. Acesso e preços quase proibitivos.

tabua de queijos

queijos variados em todos os sentidos

A foto acima é um clássico num final de jantar francês. Os queijos têm como função finalizar o último vinho, além de dar sequência ao provável vinho de sobremesa ou outros que se seguiram. Um dos bons parceiros nesta hora é o vinho do Porto, principalmente quando a potência e a textura de certos queijos se fazem presentes.

taylor´s 30 anos

Taylor´s 30 anos: grande pedida nos tawnies da casa

Neste estágio, um 30 anos exige muito equilíbrio e complexidade. Se estes requisitos forem atingidos, então percebemos que a mão do homem foi sábia. Assim é dito: “Vintages estão nas mãos de Deus, Tawnies nas mãos do homem”. Portanto, é esta precisão do blend tanto em proporções, como na escolha dos vinhos de reserva certos, que foram bem envelhecidos e que por sua vez, tinham extrato e concentração para tal. É uma tarefa de perfumista. Importado pela Qualimpor (www.qualimpor.com.br).

taylor´s colheita 1966taylor´s 1994

Taylor´s: Colheita 66 e Vintage 94 – lado a lado

Continuando em Porto, continuando em Taylor´s, a foto acima mostra claramente como as categorias Tawny e Ruby podem sublimarem-se em Colheita e Vintage, respectivamente. O Vintage 94, já comentado várias vezes neste mesmo blog, vai maturando lentamente em garrafa, provado felizmente em vários momentos e estágios de evolução. Já este Colheita estagiado em cascos por 50 anos, mostra toda a complexidade e maciez que um Porto pode atingir. Lançamento da Taylor´s num bonito estojo pela Qualimpor, foto abaixo.  

taylor´s colheita 1966 (2)Colheita de altissimo nível

Para encerrar o assunto Taylor´s, temos este monumental Vintage safra 2011. Infelizmente, não estarei mais aqui para ver seu esplendor, provavelmente no final deste século. Escuro, denso, multifacetado em várias camadas de aromas. Precisa ser decantado por horas nos prováveis infanticídios que virão. Bom presente para seu neto que está nascendo agora, ou para aqueles em que o ano 2011 foi significativo e marcante.

taylor´s vintage 2011

Vintage: safra e engarrafamento obrigatórios no rótulo

ameal solo loureirogrande mineralidade

Quinta do Ameal é uma propriedade portuguesa na região dos vinhos verdes mais especificamente, na sub-região do Lima, cultivando a casta Loureiro. Pessoalmente, a melhor casta da região depois da gloriosa Alvarinho. Esta cuvée chamada Solo, expressa um vinho de grande mineralidade, equilíbrio e persistência. Vale apena ser provado. Importado pela Qualimpor.

quinta do crasto vinhas velhas

Um clássico nos tintos durienses

Finalizando o artigo, o tinto acima requer paciência e decantação na hora do serviço. Partindo de vinhas antigas (diversas castas, algumas centenárias), este tinto exibe alta concentração, tipicidade, e profundidade. Seus taninos são abundantes e finos. Requer muita paciência para seu lento desenvolvimento em adega. Deve ser obrigatoriamente decantado. Páreo duro em qualquer painel de alto nível do Douro.

Vinhos da Arca de Noé: Parte III

14 de Março de 2016

Chegando ao fim do diluvio, temos o último flight da sobremesa, totalizando doze (quatro brancos, sete tintos e os vinhos doces). Fora da mesa, a festa continuou com Portos, Cognacs e Puros.

climens e yquem

Os ícones de Sauternes-Barsac

As apelações Barsac e Sauternes são separadas pelo rio Ciron e formam terroirs distintos. Os vinhos de Barsac primam pela elegância com os châteaux Coutet, Doisy-Daëne e o astro maior Climens. Já do outro lado do rio, temos Suduiraut, Rieussec, por exemplo, e o incontestável Yquem reinando absoluto.

A comparação foi muito interessante, tratando-se de safras antigas e muito bem avaliadas para os respectivos châteaux. A prática confirmou a teoria. Climens, complexo, delicado e muito equilibrado em todos os seus componentes (açúcar, acidez e álcool). Contudo, quando chega o Yquem, não podemos voltar atrás. Ele é denso, profundo, enibriante, e bem marcado no seu lado potente. A escolha é realmente uma questão de estilo e gosto pessoal.

mil folhas e goiabada

mil-folhas com sorvete e goiabada

Sobremesa do último flight fechando um almoço magnifico. Na sequência, nos esperando no terraço, um Taylor´s Vintage 1945 devidamente decantado. Casa de Vintages lendários, nesta safra mostra um ano histórico.

 taylor´s 1945

O ano da Vitória

Trata-se de uma colheita clássica, abundante e de grande qualidade. Encontra-se num momento extremamente prazeroso, onde os aromas terciários se fazem mais presentes. Tabaco, defumado, especiarias, mas um núcleo frutado ainda brilhante. Platô amplo de estabilização, podendo ser guardado por décadas. Só mesmo uma seleção de Puros abaixo para fazer frente a um Porto de estirpe.

umidores

Seleção de Puros Ímpar

Nosso Noé além dos vinhos, é um aficionado por Puros. A foto acima ilustra bem seu requinte e paladar apurado. Na foto abaixo, um torpedo H. Upmann devidamente maturado, foi uma das estrelas num cenário enevoado. Bitolas e marcas para todos os gostos.

h. upmann rr

Torpedo H. Upmann Reserva Especial

Já com os Puros entre o segundo e terceiro terço, chega a hora dos destilados. A potência vai aumentando e chega o momento dos rums ou cognacs. Diante do cenário abaixo, fica difícil escolher outro destilado. Simplesmente, lado a lado, o topo de gama da Maison Hennessy (Richard, à direita), e o astro maior da Rémy-Martin (Louis XIII, à esquerda). A disputa já começa pela sofisticação das garrafas em cristal Baccarat. O grau de envelhecimento destas bebidas é amplo, repousando nas melhores caves da região. Os aromas e sabores são extremamente complexos, deixando um final de boca interminável. Notas de chá, frutas secas, caramelo, entre outras, estão harmoniosamente distribuídas e bem integradas.

richard e louis XIII

Tudo o que você espera de um Cognac

Os cognacs acima partem de blends minuciosamente balanceados com eaux-de-vie de grande envelhecimento em tonéis (as idades variam entre 40 e 200 anos). O maître de chai (cellar master) precisa ser suficientemente experiente e altamente qualificado para compor uma equação complexa de inúmeras partidas envelhecidas nas proporções exatas. Estas séries são lançadas em garrafas numeradas e de absoluta exclusividade.

polenta calabresa

polenta artesanal de um grande confrade

Para os mais insistentes, a noite chegou e mais vinhos rolaram. Entre eles, o excepcional Hermitage La Chapelle de Paul Jaboulet safra 1978. Como ninguém é de ferro, o confrade Moreira executou uma de suas especialidades, polenta artesanal com calabresa. Feita na hora, o sabor estava sensacional. Talvez, o melhor prato do dia. Grande Moreira!

la chapelle 78

uma das safras míticas desta cuvée

Para tomarmos um Hermitage como se deve, precisamos de tempo, muito tempo em adega. A foto acima, mostra um Hermitage maduro, pleno de sabores, e com taninos completamente polimerizados, momento raro para este tour de force. Além de ser um La Chapelle, a safra de 1978 é sensacional para este vinho. Realmente, um dia e uma noite para ficar na memória.