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Rosés e Pizzas

14 de Fevereiro de 2016

O vinho rosé sempre ficou meio deslocado no consumo brasileiro. Diz-se que é um vinho de verão, bom para paella, bouillabaisse, e mais alguns pratos  específicos. Pois bem, há um prato que o brasileiro de modo geral não dispensa pelo menos uma vez por semana, sobretudo os paulistanos, que é a nossa querida pizza. O número de estabelecimentos e a variedade de sabores são cifras surpreendentes. Pois bem, se a moda pegar, os rosés podem encontrar um caminho seguro e permanente para seu consumo.

Já testei diversas vezes esta harmonização e em todas elas não me lembro de nenhum momento de decepção ou arrependimento. Pelo contrário, sempre foi um encontro estimulante e agradável. Sabemos que o casamento de pizzas com vinho está calcado fundamentalmente no molho e seus recheios diversos. Sabemos também, que o vinho deve ter corpo de leve a médio na maioria dos casos, boa acidez, e certa informalidade. Afinal, trata-se de um prato corriqueiro, sem grandes sofisticações. É claro, que há exceções. Portanto, os rosés encaixam-se muito bem neste perfil.

rosé brumont

Blend exótico do sudoeste francês

Pessoalmente, estou falando de rosés do Velho Mundo, os europeus, sobretudo os provençais. Eles não são invasivos, têm um belo frescor, e seus aromas cítricos, de tempero e ervas, combinam com boa parte das pizzas, inclusive as mais pedidas como Margherita, Muçarela (que o pessoal insiste em Mussarela), Calabresa, Alici, Atum, entre outras.

O molho de tomate, o alho, a cebola, as ervas (orégano), pimenta, e outros temperos, vão de encontro aos sabores dos rosés tradicionais. Estão neste grupo os provençais, os rosés de Navarra (Espanha), os rosés italianos (Abruzzo, Toscana, Sicilia, Sardegna, para citar alguns), e os portugueses (Bairrada, Dão e Vinho Verde).

Ott Romassan 2013

Domaines Ott: referência em Provence

Os rosés do Novo Nundo, via de regra mais encorpados, mais pesados, ficam para as pizzas também mais ricas em textura e sabores como Pizza Portuguesa, à Moda da Casa (ingredientes incógnitos), e aqueles sabores estranhos (Bolonhesa, Mineira, Frango com Catupiry, e tudo que a imaginação mandar …).

Alguém poderia pensar em champagnes rosés. Tecnicamente, não há nenhum senão. Entretanto, é uma bebida muita requintada para um prato tão frugal. A menos  que seja um pizza ultra sofisticada com ingredientes nobres como trufas, funghi porcini fresco, morilles, e coisas do gênero. Quanto aos demais espumantes rosés; os nacionais, cavas, prosecco e outros bem elaborados, não vejo empecilhos. Dê preferência aos elaborados pelo método Charmat (mais simples, mais frutados e florais). Quando cogumelos participarem da brincadeira, os elaborados pelo método tradicional (champenoise) são mais indicados.

Outra dica interessante para os rosés são os fartos buffets self-service tipo Ráscal, por exemplo. Aquela infinidade de entradinhas com vários sabores, molhos e pimentas, são muito bem-vindas com os rosés. Dá para ficar só neles com a fartura destes buffets. Escolhendo bem o prato principal, a continuidade dos rosés está garantida.

Para aqueles que gostam de comida natural, lanches, os vegetarianos, os veganos, podem encontrar no rosé seu vinho ideal. Sua versatilidade, frescor e leveza, são atributos irresistíveis.

Esta aí um caminho. Há boas ofertas no mercado com preços ainda decentes. Importadoras como Decanter, Mistral, Grand Cru, Cellar e outras tradicionais, apresentam opções interessantes.

Champagne e Bourgogne à mesa

7 de Janeiro de 2016

Champagne talvez seja o vinho mais gastronômico por seu ecletismo. Tem boa acidez, álcool comedido, e não se sobrepõe aos pratos, mantendo revigorado o paladar. Os dois senões são: carnes vermelhas e comidas rústicas, pesadas, já que trata-se de um vinho com certa aristocracia. Num almoço oferecido por um grande amigo, pudemos comprovar mais uma vez esta versatilidade.

jacquesson

Cuvées numeradas

É bem verdade, que tratava-se de um champagne acima da média, o espetacular Jacquesson Extra-Brut Cuvée 738. Esta cuvée baseia-se no ano de 2010, sendo que 33% do blend são vinhos de reserva. Na sua composição, temos 61% de Chardonnay, fornecendo elegância, 39% entre Pinot Noir e Pinot Meunier, proporcionando estrutura ao conjunto. O resultado é um champagne de grande frescor, cremoso, profundo e muito persistente. Acompanhou muito bem as entradas de funghi e patinhas de caranguejo com molho tártaro. E se quiséssemos, podia ir mais longe à mesa.

clos des lambrays

vinho com muita história

O vinho acima apesar de muita tradição, só foi promovido a Grand Cru em 1981. Sua história começa no século quatorze onde monges beneditinos cultivavam vinhas numa parcela chamada “Cloux des Lambrey”. Durante a revolução francesa as terras foram divididas em 74 proprietários. Com o tempo, a propriedade volta a um domínio familiar sendo que em 1996, o casal Günter e Ruth Freund assume o domaine com muitos investimentos no vinhedo.

Clos des Lambrays é constituído de 8,7 hectares, propriedade grande para padrões borgonheses. Suas vinhas têm em média 40 anos com alta densidade de 10 a 12 mil pés/hectare e rendimento de 30 hectolitros/hectare. Nessas dimensões, o terroir é dividido em três partes: meix rentier, les larrets e les bouchots. O primeiro são terras mais argilosas e pesadas. O segundo tem excelente exposição solar e drenagem, enquanto que o terceiro é bem protegido dos ventos do norte. Neste contexto, combina-se finesse, elegância, com estrutura e corpo.

A produção é grande para um Grand Cru, entre 30 e 40 mil garrafas por safra. A vinificação envolve uma boa extração com trabalho constante de pigeage. O amadurecimento dá-se em barricas de carvalho por dezoito meses, sendo metade novas.

codorna assada

Codorna: um clássico para borgonhas

Babette já mostrava o caminho: codorna com Clos de Vougeot. Quem sou eu para contraria-la! Esta da foto acima preparada no forno, acompanhada de arroz puxado no próprio molho é um clássico do restaurante Tatini, fundado em 1954. Continua em plena atividade como os tradicionais “concorrentes” La Casserole e Freddy. Seu atendimento com os réchauds pelo salão é um espetáculo à parte. Fruto do trabalho sem tréguas de Mário Tatini, patriarca e alma deste restaurante, moldou uma geração de garçons à sua maneira, ampliando muito seus conhecimentos à mesa e não apenas, em servir e retirar pratos. Seu filho Frabizio, dá prosseguimento à saga com conhecimento e elegância.

Voltando ao tinto, a harmonização comprovou-se muito boa. A delicadeza da codorna com ervas casou perfeitamente com a elegância do vinho. Seus aromas terciários, além das especiarias, alcaçuz e sous-bois foram de encontro aos sabores do prato. Tinto de bom corpo, taninos macios e final persistente. Bom momento para ser apreciado.

Outros tintos do domaine são um Premier Cru Les Loups e um comunal Morey-St-Denis, perfazendo em média quinze mil garrafas por safra. Evidentemente, são cuvées que não estão à altura de um Grand Cru. Além disso, o domaine elabora um Fine des Lambrays no mesmo processo feito em Cognac. “Fine” é o brandy mais sofisticado da Borgonha. Envelhece por sete anos em carvalho da floresta de Tronçais. É engarrafado sem redução de álcool com graduação de 49° graus. São pequenas partidas de vinho, próprias para destilação. Os vinhos são trazidos pela importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Enfim, quando Champagne e Bourgogne estão à mesa, a companhia e a comida devem estar à altura. E estavam …

Festas: sugestões de vinhos

10 de Dezembro de 2015

Nesta época do ano é normal as pessoas procurarem dicas, conselhos, informações sobre vinhos. Seja para consumo próprio ou presentear, as opções são inúmeras. Infelizmente, os preços não ajudam. Com a alta do dólar e também de impostos, a equação está cada vez mais difícil de ser resolvida. Portanto, vinhos que realmente valem a pena indicar estão na faixa entre R$ 100,00 e 200,00 reais.  E olha que não estou falando em sofisticação, pois nesta área o céu é o limite.

Segue abaixo uma relação para vários tipos da bebida, desde entrada até sobremesas, cafés, charutos, etc …

Cave Geisse: bela surpresa

Espumantes e champagnes

  • Cave Geisse (espumante nacional entre os melhores, se não for o melhor). veja site abaixo, na própria vinícola, ou na Ville du Vin.
  • Chandon Brasil (sempre consistente, fácil de encontrar e preços razoáveis). Várias lojas de bebidas em São Paulo.
  • Cava (tradicional espumante espanhol). Raventós da Decanter e Gramona da Casa Flora, sempre confiáveis.
  • Champagnes (é uma questão de gosto e estilo. Louis Roederer, Gosset, Deutz e Larmandier têm preços honestos. Evidentemente, acima da faixa de preço no início do artigo). Importadoras Franco-Suissa, Grand Cru, Casa Flora e Cellar, respectivamente.

Um dos grandes alemães da Decanter

Vinhos brancos

  • Rieslings alemães (importadora Decanter tem boas opções).
  • Chablis William Fèvre (importadora Grand Cru).
  • Sauvignon Blanc (Terrunyo da Concha Y Toro, vinícola Pericó de Santa Catarina e Jackson Estate da Nova Zelândia, importadora Premium). A linha Concha Y Toro é encontrada na Ville du Vin.
  • Chateau Reynon e Clos Floridene (dois bordeaux da Casa Flora)
  • Chardonnay (Catena Alta da Mistral  e De Martino Quebrada Seca da Decanter)

Bierzo e a uva Méncia

Vinhos tintos

  • Rioja de vários tipos (Crianza, Reserva e Gran Reserva). Rioja Alta da importadora Zahil, CVNE da Vinci e Luis Cañas da Decanter).
  • Tintos de Bierzo (região espanhola pouco conhecida. Boas opções na Decanter e Grand Cru).
  • Chianti Classico (Castello di Ama da Mistral, Fontodi da Vinci, e Felsina Berardenga da Mistral).
  • Tintos do Douro (Quinta do Crasto, Quinta do Noval, Niepport).
  • Malbecs da Argentina (Catena da Mistral, Viña Cobos da Grand Cru, Noemia da Vinci e Achaval Ferrer da Inovini).
  • Merlots nacionais (Miolo Terroir, Pizzato DNA 99 e Desejo da Salton). Encontrados em boas lojas de bebidas.
  • Chateau Giscours 2009 Margaux – Grand Cru Classe – importadora Cellar
  • Chateau Sociando-Mallet 2009 – Haut-Médoc – importadora Cellar
  • Vinícola Rippon (grande Pinot Noir da Nova Zelândia). Importadora Premium.

Tawnies e Charutos

Portos, fortificados e colheita tardia

  • Porto Fonseca Bin 27 (Mistral ou Casa Santa Luzia)
  • Burmester Tawny Jockey Club (Adega Alentejana)
  • Quinta do Noval LBV Unfiltered (Grand Cru)
  • Jerez: Emilio Lustau da Ravin e Hidalgo da Mistral
  • Morandé Late Harvest da Grand Cru
  • Chateau Haut-Bergeron Sauternes da Cellar

Se você pensar em vinhos franceses ou italianos, a escolha natural é a importadora Cellar. A seleção é ótima e os preços não são abusivos. Responsável: Amauri de Faria.

Porto Fonseca e champagne Louis Roederer são encontrados na Casa Santa Luzia. Os nacionais acima mencionados, também.

Importadoras

Champagne Rosé

23 de Outubro de 2015

Champagne rosé é caro porque é raro ou é raro porque é caro? De fato, a produção de rosés em Champagne é muito pequena, em torno de 8% do total produzido, e 11,3% em 2014 nas exportações francesas em valores, conforme gráfico abaixo.

champagne 2014Champagne: exportação 2014

O primeiro rosé em Champagne foi criado pela Maison Ruinart, primeira casa de Champagne fundada em 1729, a despeito da Maison Gosset fundada em 1584 na elaboração de vinhos tranquilos.

Os dois métodos mais frequentes na elaboração do rosé são: Assemblage (mistura ou corte) e Saignée (sangria).

O primeiro método bastante utilizado, trata-se de acrescentar uma pequena porcentagem de vinho tinto no vinho-base em branco, calibrando a coloração final e a estrutura do vinho, o qual será fermentado novamente em garrafa (método champenoise). Esta mistura de vinho branco com tinto só é permitida em Champagne e na elaboração de espumantes rosés mundo afora. Nos rosés tranquilos é uma medida proibitiva e ilegal. Invariavelmente, o vinho tinto a ser acrescentado é proveniente da casta Pinot Noir.

No segundo método denominado Saignée, parte das castas tintas presentes no vinho-base são maceradas com as cascas (pele das uvas) durante um tempo relativamente curto afim de tingirem convenientemente o mosto. Normalmente também, a uva é a Pinot Noir. A escolha da Pinot Noir para os champagnes rosés é extremamente adequada, pois esta uva apresenta uma estrutura de taninos muito discreta, a qual neste caso adequa-se perfeitamente ao processo.

Tecnicamente, não há uma supremacia de um dos dois métodos embora pessoalmente, a opção pela leve maceração (saignée) das castas tintas possa transmitir um maior cuidado na elaboração de um rosé mais delicado. Como sugestão, seguem abaixo três rosés de casas da mais alta reputação em estilos diferentes.

Krug: sofisticação em rosé

A Maison Krug não seria diferente na elaboração de seu rosé. Sofisticação, complexidade e exotismo no mais alto nível. Preservando as três castas de Champagne (Pinot Noir, Pinot Meunier e Chardonnay), seu vinho-base apresenta o lote de Pinot Noir elaborado em rosé, maceração das cascas (saignée), em proporções muito bem orquestradas. Além disso, o contato sur lies antes do dégorgement é de pelo menos cinco anos.

Importada pelo grupo LVMH e encontrada em várias lojas multimarcas de vinhos.

Rosé delicado

Outra casa de grande reputação, Billecart-Salmon é famosa por seus rosés elegantes. Nesta cuvée, novamente as três castas estão presentes (Pinot Noir, Pinot Meunier e Chardonnay). Quanto ao Pinot Noir, é adicionado uma pequena proporção de vinho tinto, tingindo o vinho-base. Em seu rosé mais sofisticado, Cuvée Elisabeth Salmon, sempre safrada, entram os melhores vinhos-bases em Chardonnay e Pinot Noir.

Importadora World Wine: http://www.worldwine.com.br

Rosé gastronômico

Antiquíssima casa em Champagne, Gosset foi fundada em 1584. Num estilo mais encorpado e profundo, seu rosé não foge à regra. Vinho-base composto de 58% Chardonnay, 35% Pinot Noir e 7% Pinot Noir en rouge (adição de vinho tinto),  este champagne passa três anos sur lies antes do dégorgement. Outro detalhe é que o vinho-base não faz a fermentação malolática. Portanto, conserva alta acidez. Existe ainda seu rosé mais exclusivo da linha Celebris, sempre safrado.

Dos três exemplos citados, Billercat-Salmon por ser mais leve e delicado, pode ser servido como aperitivo, entradas e pratos leves. Já o Krug Rosé pede pratos refinados como foie gras, comida asiática com especiarias bem dosadas, e sushis bem elaborados. Por fim, Gosset Rosé é um champagne de mesa, acompanhando aves com molhos elaborados e carnes como vitela. Fica difícil beberica-lo sem comida, apenas com entradinhas.

Importadora Grand Cru: http://www.grandcru.com.br

Enfim, os exemplos acima já serve como dicas para o final de ano que se aproxima.

Facetas do Rhône

10 de Julho de 2015

Saindo de Bordeaux e Bourgogne, o destino natural do vinho francês é o Vale do Rhône, sobretudo quando se pensa em tintos. Fazendo a transição entre o sul da Borgonha e a Provença, o Vale do Rhône divide-se em dois macro-terroirs: o Rhône Norte e o Rhône Sul, conforme mapa abaixo:

Rhône Norte e Rhône Sul

O mapa acima mostra claramente um fator de terroir evidente, a forte mudança de relevo, topografia, entre o norte e o sul da região. A norte, temos escarpas dramáticas junto ao rio, obrigando as vinhas treparem em terraços. A declividade, as inclinações podem chegar a 70%, ou seja, quase sessenta graus em declive. Esta é a razão dos vinhedos do norte estarem muito próximos ao rio, numa faixa estreita de terreno. Já no Rhône Sul, o relevo é bem mais amplo, muito menos acentuado, e as vinhas portanto, podem se espalhar para mais longe do rio. Aqui também, o clima se torna mais quente.

Feita a introdução, passemos a alguns vinhos degustados na importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) sob o comando didático de  Hervé  Robert, diretor do Domaine Delas Frères. Quatro tintos se destacaram conforme comentários abaixo.

Bela alternativa aos caros Châteauneufs

Vacqueyras Domaine des Genêts 2012

Vacqueyras é uma apelação criada nos anos 90 vizinha ao famoso tinto Châteauneuf-du-Pape, e tem como concorrente uma apelação contígua chamada Gigondas. São cerca de 1.300 hectares de vinhas, bem menor que os 3.000 hectares em Châteauneuf-du-Pape. É uma bela alternativa de preço em relação ao tinto mais famoso do Rhône Sul, e muitas vezes superior a vários Châteauneufs de negociantes, preocupados mais com os preços e a fama, do que com a qualidade em si. Preço na importadora: R$ 138,00 (cento e trinta e oito reais). Vinho em torno de 90 pontos para Robert Parker com seu devido entusiasmo pelo Rhône.

A boa safra de 2012 mostra o corte típico do sul da região, o famoso GSM (70% Grenache, 20% Syrah e 10% Mourvèdre). O vinho passa cerca de 30% em barricas de carvalho, na sua maioria não novas, e o restante com cubas inertes para a preservação da fruta e evitar a micro-oxigenação. Mostra-se num bom momento para consumo, com fruta madura, notas de especiarias, ervas, e defumados lembrando incenso. Bom corpo, macio, caloroso, sendo uma ótima opção para noites frias.

Crozes-Hermitage confiável

Delas Freres Crozes-Hermitage des Grands Chemins 2010

Agora estamos no chamado Rhône Norte, onde impera o reino da Syrah em solo granítico. Muito cuidado com a apelação Crozes-Hermitage com cerca de 1.300 hectares de vinhas em uma vasta área ao redor do astro maior, o grande Hermitage. A diversidade de solos, topografia do terreno, ângulo de inclinação e a filosofia do produtor, podem levar a vinhos bem diversos e ao mesmo tempo, com exemplares decepcionantes. Neste caso, o vinho acima da bela safra de 2010 tem 92 de Robert Parker. Preço: R$ 225,00 (duzentos e vinte e cinco reais).

O vinho degustado, 100% Syrah, mostrou-se novo em cor, praticamente sem evolução. Seus aromas de frutas escuras, notas defumadas (embutidos), minerais e de especiarias estão bem presentes. Vinho de bom corpo, com um belo frescor, taninos presentes e de boa qualidade. Muito bem equilibrado e razoavelmente persistente. Deve evoluir bem em garrafa, sendo sua decantação obrigatória com boa aeração, sobretudo nesta fase de juventude. O vinho passa de 10 a 14 meses em barricas de um a três anos de uso, conforme a potência da safra.

Cornas com boa tipicidade

Delas Freres Cornas Chante Perdrix 2010

Continuando no Rhône Norte, temos a apelação Cornas 100% Syrah, como bela alternativa aos caros e badalados Hermitages. Chamado com certo exagero como Hermitage dos pobres, este terroir trata-se de vinhas encravadas num terreno de anfiteatro de clima quente e forte insolação. São vinhos potentes, densos e com bom poder de longevidade. Parker confere a este exemplar 90 pontos. Preço: 395,00 (trezentos e noventa e cinco reais).

O vinho degustado mostrou-se com uma cor escura, praticamente sem evolução. Seus aromas lembram frutas escuras em licor, alcaçuz, especiarias e traços de torrefação (café). Encorpodo, macio, e com boa tanicidade. Persistente, bem acabado e agradavelmente quente. Pede pratos encorpados. O vinho passa entre 14 e 16 meses em barricas de primeiro a terceiro uso, dependendo da safra.

Saint-Joseph de alta costura

Delas Freres Saint-Joseph Sainte Epine 2011

Neste ultimo exemplar, temos a apelação Saint-Joseph com 100% Syrah. Mais uma vez, cuidado!. Trata-se de uma apelação vasta em área de vinhas a sul de Côte-Rôtie. Novamente, a localização do vinhedo e a filosofia do produtor são fundamentais. Neste caso, estamos falando de um vinho muito especial de um vinhedo único (Vin Parcellaire) chamado Sainte Epine, produzindo apenas 4.000 garrafas por safra, e somente em anos especiais. Parker confere 93 pontos para este vinho. Preço: R$ 485,00 (quatrocentos e oitenta e cinco reais).

A safra de 2011 produziu vinhos agradáveis para beber jovens com taninos bem moldados. O vinho degustado apresentou cor muito semelhante ao Cornas, fato já diferenciado nesta apelação. Os aromas são muito elegantes com madeira fina. Aqui temos uma passagem por barricas novas entre 14 e 16 meses, conforme a safra. Mas de modo algum ela é dominante. Seus aromas mostram uma pureza de fruta, toques lácteos, florais e de especiarias. Relativamente encorpado, belo frescor e boa estrutura tânica. Boa persistência aromática, taninos muito finos e um final muito bem delineado. Falta um pouco de integração entre fruta e madeira, fator que certamente será solucionado com o devido tempo em adega. Um dos melhores Saint-Joseph já degustados.

Filosofias: Bourgogne e Bordeaux

3 de Julho de 2015

Numa garrafa de Bourgogne ou Bordeaux há muito mais filosofia do que se pensa. Evidentemente, estamos falando dos grandes vinhos destes míticos terroirs. A despeito da enorme diferença do solos, climas e uvas envolvidas, o fator humano me parece ser mais decisivo e mais apaixonante. Um dos encantos da França é classificar, selecionar e individualizar certas filosofias sobre seus vinhos.

No caso da Bourgogne, Deus presenteou um terroir abençoado, sobretudo no que chamamos de Côte d´Or (não é costa dourado e sim, costa do oriente). As duas colinas (Côte de Beaune e Côte de Nuits) foram concebidas em plena harmonia na composição de seus solos, drenagem e insolação perfeitas e clones criteriosamente adequados ao plantio. Couberam aos monges cistercienses o devido tempo e paciência para formar perfeitamente o intrincado mosaico de vinhedos com classificações hierárquicas muito bem definidas.

Já no caso bordalês, a natureza não foi tão privilegiada a principio, sobretudo na sub-região do Médoc, a chamada margem esquerda de Bordeaux. No final da idade média, tínhamos sérios problemas de drenagem na região que sofria com cheias periódicas do Gironde. A solução foi contratar engenheiros holandeses, especialistas em represamento de águas, para drenarem toda a região. Assim o presente divino começa a ser desvendado. Encontrou-se então um solo e subsolo de destacada pedregosidade  e com grande capacidade de escoamento de águas. Nessas condições aliadas ao clima moderado com a influência do Gironde, a Cabernet Sauvignon encontrou seu lar ideal. Mas não foi só isso. Do lado do Atlântico, o avanço das grandes dunas de areia, mais a umidade e salinidade dos ventos marinhos tiveram que ser barradas. A solução foi uma enorme floresta de pinheiros com mais de um milhão de hectares, chegando até os Pirineus, divisa com a Espanha. Portanto, podemos dizer que Bordeaux, ao contrário da Bourgogne, foi um terroir forjado pelo homem.

Agora vem a parte filosófica, talvez a mais interessante. No Médoc sempre reinou a aristocracia, os imponentes châteaux e uma polêmica classificação exclusiva e imutável (classificação de 1855). Contudo, a concepção do vinho bordalês parte de uma visão socialista. Em propriedades que chegam perto de cem hectares, às vezes um pouco mais, o vinhedo é dividido em inúmeras parcelas, mesmo em se tratando de uma das uvas, ou seja, parcelas de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e uma pitada de Petit Verdot, quando muito. Após vinificação individual das parcelas, opta-se pelo famoso Assemblage, o chamado corte bordalês. É aí que entra o socialismo: “a união das parcelas para um todo melhor”. Normalmente faz-se dois assemblages. Um para o “Grand Vin”, com as melhores parcelas degustadas e o restante, para o chamado “segundo vinho do château”.

clos de tart 1996

Dois belos monopólios

Já na concepção da Borgonha, as propriedades dos melhores domaines não passam de cinco hectares de vinhas. Números acima destes são verdadeiras exceções. Curiosamente, sua filosofia de vinho muda completamente. Após a Revolução Francesa, os vinhedos borgonheses foram todos fragmentados e repartido entre as famílias. Porém, a concepção do vinho continuou a mesma. Parcelas pequenas de vinhedos com uma só uva para tintos (Pinot noir) e uma só uva para brancos (Chardonnay). Com isso, temos uma visão aristocrática do vinho. Embora a fragmentação dos vinhedos tivesse uma ideia mais igualitária entre os viticultores, cada parcela sempre foi individualizada e hierarquizada no rígido sistema de classificação (Grand Cru, Premier Cru, Villages, …). Portanto, os melhores vinhos não se misturam com os plebeus, uma divisão de castas em todos os sentidos. São vinhos extremamente elitizados onde a procura pelos melhores produtores é uma constante, além das complicações de safras.

clos de tart

Clos de Trat: Concepção curiosa

Sou suspeito para falar do vinho acima, o belíssimo Clos de Tart. Provei uma garrafa safra 1988 ano passado e ainda estava longe de estar pronto. Talvez o mais enigmático dos borgonhas, tanto quanto o imaculado Romanée-Conti. Entretanto, bem mais em conta, naturalmente neste padrão de qualidade e relativismo. Mas vamos à sua concepção. Trata-se de uma propriedade extensa para padrões borgonheses. É um monopólio de 7,5 hectares repartidos em várias parcelas ao longo da colina. As zonas no alto da colina com solos de marga (mistura judiciosa de argila e calcário), bem como as zonas carbonatadas contando com vinhas antigas agregam parcelas privilegiadas. Reparem na diferença de altitudes entre a parte baixa e alta da colina. Exatamente, na faixa dos Grands Crus (entre 250 e 300 metros).

O assemblage das parcelas juntamente com a ideia de se conceber um “Grand Vin” e um “segundo vinho” tem de certo modo uma vertente bordalesa. O primeiro está classificado como Grand Cru e o segundo vinho  etiquetado como Premier Cru. Que o doutor Roberto, borgonhês juramentado, me perdoe a ousadia. Os vinhos são respectivamente Clos de Tart Grand Cru Monopole, e La Forge de Tart Morey-Saint-Denis Premier Cru.

A taça não corresponde ao vinho

Há também paradoxos no lado bordalês, sobretudo em Pomerol, com uma área total de 800 hectares de vinhas. Um lado borgonhês na chamada margen direita, com propriedades pequenas e sem a imponência do Médoc. Se compararmos com o total de área para brancos e tintos da Borgonha de primeira linha (Grand Cru e Premier Cru), temos algo como 3.500 hectares de vinhas. Separando ainda o joio do trigo, podemos reduzir seguramente para metade desta área. Os números começam a ficar próximos.

Só para destacar um dos grandes vinhos de Pomerol, acima temos o Château Le Pin com 2,7 hectares de vinhas, não produzindo mais do que 5.000 garrafas por safra. A base do vinho é praticamente Merlot com pitadas de Cabernet Franc. É elaborado apenas o “Grand Vin” numa concepção bastante borgonhesa.

Um fator altamente decisivo na opção destas filosofias é o tamanho das propriedades. Tanto de um lado, como de outro, Bordeaux e Borgonha se confundem em aspectos de concepção dos vinhos, conforme exemplos acima. Pondo um pouco mais de lenha na fogueira, a famosa frase de Friedrich Engels, uma marxista convicto. “Um momento de felicidade: Margaux 1848”. Um vinho aristocrático, mas com concepções socialista, onde o conjunto das partes forma um todo melhor.

Clos des Réas: Uma visão triangular

30 de Junho de 2015

Em Vosne-Romanée a hierarquia que separa os Grands Crus e Premier Crus nem sempre é tão marcante. Certos Premiers caminham numa linha tênue entre essas classificações. É o caso do Cros Parantoux, comentado em artigos anteriores neste mesmo blog, quando ainda era gerenciado pelo mítico Henri Jayer. Outro de grande destaque é Malconsorts, ao lado do imponente La Tâche. O elegido para o presente artigo é o monopólio Clos des Réas da família Gros, mais especificamente de Michel Gros, conforme foto abaixo. Em termos de altitude, o vinhedo fica um pouco abaixo da linha inferior dos Grands Crus (250 metros ao nível do mar). Em anos mais secos, pode ser uma vantagem devido a melhores reservas hídricas. Não confundir este vinhedo com Aux Reás, um dos Villages de Vosne-Romanée a oeste, de área bem maior, caminhando para a comuna de Nuits-Saint-Georges, de vinhos mais firmes e um tanto rústicos para os padrões de Vosne.

Clos: vinhedo murado

Vinhedo de 2,12 hectares em formato triangular (vide mapa abaixo) com solo típico dos grandes terroirs de Vosne. Solo argilo-calcário com destaque para o segundo componente, em meio a fósseis  de outras eras geológicas calcinados em pedra calcária de cor salmonada. Este perfil confere vinhos elegantes, além da ótima drenagem do terreno. A vinificação é feita com total desengaço das uvas. A fase fermentativa passa por remontagens e pigeages constantes para uma melhor extração e homogeneização do mosto. O vinho amadurece em barricas de carvalho majoritariamente novas (50 a 80%, dependendo da safra) por 18 meses.

Parte Central: Constelação de Grands Crus

Michel Gros assumiu o comando do vinhedo em 1995, após uma repartição de propriedades em família. Sua primeira safra dá-se em 1996. Entre outros vinhedos, como Aux Brullés já comentado neste blog, possui seu único Grand Cru, uma parcela ínfima em Clos de Vougeot, apenas 0,2 hectares, ou seja, dois mil metros de área total. Sua localização no alto da colina é privilegiada, fazendo vizinhança com o Grand Cru Grands-Échézeaux.

Não encontrado no Brasil

O exemplar acima degustado mostrava-se ainda com uma cor jovem e um centro de copo bem preenchido. Os aromas foram se desenvolvendo pouco a pouco com a típica elegância dos vinhos de Vosne. As frutas escuras lembrando cerejas, os toques de especiarias, alcaçuz e notas balsâmicas. Gustativamente, um bom ataque de acidez (frescor) e uma estrutura tânica sólida, completando um bom meio de boca. Equilibrado, taninos sedosos, presentes, e um final bem acabado, com todos os componentes em harmonia. Deve evoluir com segurança por mais dez anos.

Chablis x Pouilly-Fumé: O Relativismo da Cepa

26 de Fevereiro de 2015

Quando as pessoas referem-se à Chardonnay para falar da Borgonha, os franceses ficam de certa maneira surpresos e até incomodados com a importância dada à cepa. Eles sentem-se muito mais confortáveis quando discorrem sobre comunas como Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet, Meursault, e assim por diante. Para eles, o “Climat” é mais importante, ou seja, um conjunto de fatores que determinam um terroir específico onde a cepa é mera coadjuvante. Para o pessoal do Novo Mundo é difícil assimilar este conceito, provocando em certos casos até uma sutil ironia. Neste contexto, o título do presente artigo faz todo o sentido. Às vezes, precisamos de fatos e de exemplos extremos para entender algo um tanto camuflado.

Obviamente, sabemos que as apelações francesas mencionadas acima partem de uvas e regiões distintas. Portanto, num primeiro momento de precipitação, parece não haver nenhum sentido no tema proposto. Ocorre, que os diversos fatores de terroir caminham às vezes em rotas diferentes, mas acabam revelando resultados bastantes próximos, os quais podem confundir e por conseguinte, meditar sobre esses caminhos. Esclarecendo melhor, nas apelações Chablis e Pouilly-Fumé, o clima é rigoroso, frio, mesmo para padrões europeus, sobretudo no inverno, e o solo de cada uma das regiões, extremamente particular e muito específico. Esses dois fatores, clima e solo, sobrepujam e muito as características das uvas e a própria intervenção do homem, o qual sabiamente, isto inclui os melhores vinhateiros de cada uma destas apelações, a realizarem um mínimo de intervenção possível. Só assim, esses vinhos passam a ser únicos, emblemáticos e por vezes, incompreendidos. Resumindo, não há Chardonnay no mundo que possa reproduzir o que acontece em Chablis. Da mesma forma, não há Sauvignon Blanc no mundo que possa reproduzir o que acontece em Pouilly-Fumé. Entretanto, os solos e climas destas duas regiões são tão particulares e tão intensos, que os vinhos em degustações às cegas se confundem agradavelmente.

Argile à Silex

Quando degustamos Chablis ou Pouilly-Fumé há um certo mistério de início. São vinhos que não se mostram de cara. Pouco a pouco, vão aparecendo alguns toques florais, um frutado muito sutil, e os característicos traços minerais, esfumaçados. Em boca, a dureza fala mais alto, acidez marcante, algo quase cortante, e a mineralidade mostra-se com certa salinidade. Esses são os pontos mais evidentes e categóricos para confirmar as semelhanças dos vinhos. O lado varietal, o ponto que distingue uma cepa de outra é extremamente sutil, difuso, quase totalmente encoberto pela força extraordinária de seus solos e climas respectivos.

Marnes à Petites Huîtres (Virgule)

Só para lembrar, Chablis é a sub-região da Borgonha mais a norte, bem deslocada das demais sub-regiões contíguas a sul. Esta no meio do caminho, entre Dijon e o sul da Champagne. Um clima extremamente rigoroso e um solo muito específico chamado de Kimméridgien ou Kimmeridgiano, sobretudo nos melhores terroirs. Neste solo estão presentes fósseis marinhos que “teoricamente” seriam responsáveis pela tal mineralidade. Da mesma forma, em Pouilly-Fumé, o clima é rigoroso e os solos também específicos. Um deles é o chamado Sílex, solo pedregoso composto de pedras de argila calcinadas em outras eras geológicas, além do solo chamado “Virgule”, o mesmo encontrado em Chablis.

Importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br)

Possivelmente, o melhor produtor encontrado no Brasil

Os dois rótulos acima são dignos representantes de suas apelações. O Premier Cru Montée de Tonnerre é de grande tipicidade. Este Chablis é encontrado na importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br). Um confronto sem vencedores, ou melhor, sem perdedores.

Para aqueles que se  interessarem em comprovar na prática, é uma degustação bastante didática. Evidentemente, não é fácil convencer amigos, confrarias, associações, a realizarem degustações de temas polêmicos. O óbvio sempre é mais fácil e menos trabalhoso. Contudo, para os inquietos, os destemidos e os que procuram novos desafios, este é um dos caminhos.

Bourgogne: Os detalhes fazem a diferença

19 de Janeiro de 2015

Falar da Borgonha é sempre um tema complicado, polêmico e ao mesmo tempo, fascinante. Seus tintos e brancos são listados por vários críticos, escritores e experts no assunto como os melhores dentre os mais destacados vinhos no mundo. Contudo, há muita decepção nessas afirmações, pois só uma ínfima parcela de produção é capaz de tirar o fôlego dos mais experientes degustadores. Embora haja diversas tentativas de reproduzir esses mágicos caldos, apenas algumas regiões de planeta obtêm relativo êxito. Pessoalmente, alguns Pinots de Russian River (Califórnia) e o grandíssimo Chardonnay de Angela Gaja (Gaia & Rey) podem ser comparados.

Elite de vinhos privilegiada

Olhando a produção de vinhos acima fica fácil entender porque os grandes borgonhas são caros e raros. Pouco mais de um por cento da produção refere-se aos Grands Crus. Entre tintos e brancos são apenas trinta e três apelações. Logo abaixo, também com baixíssima produção, temos dez por cento dos chamados Premier Cru. O restante são apelações comunais e genéricas onde as decepções são muitas. Só quem sabe garimpar muito bem essas inúmeras opções pode garantir prazer a preços relativamente honestos. Porém, não se enganem! mesmos os Grands Crus e Premiers Crus não são garantia de sucesso. É preciso escolher muito bem o produtor, a safra e a apelação específica  a cada um dos poucos excepcionais artistas deste complicado pedaço de terra. Neste terreno minado não há espaço para clínico geral. Aqui, os especialistas de cada comuna fazem a diferença e conhecem em detalhes cada palmo de chão e cada videira de seus poucos hectares de vinhas. Esta elite de vinhos está concentrada num pedacinho da Borgonha chamada Côte d´Or ou Encosta do Oriente e não Dourada, como muitos pensam, ou seja, é a encosta banhada pelo sol da manhã, desde de seus primeiros raios, conforme esquema abaixo:

Duas Encostas: Beaune e Nuits

Na chamada Côte de Beaune, parte sul da Côte d´Or, concentram-se os melhores brancos da Borgonha à base de Chardonnay, quiçá os melhores do mundo, sob as famosas apelações Chassagne-Montrachet e Puligny-Montrachet. Vinhos como Bâtard-Montrachet, Chevalier-Montrachet e o mítico Le Montrachet, são Grands Crus de estrutura e longevidade excepcionais. Só para citar um exemplo, o irrepreensível Domaine Leflaive, não confundir com Olivier Leflaive, é um especialista na apelação Puligny-Montrachet. Um de seus belos vinhos, segue abaixo:

Este Premier Cru não deve ser aberto antes de seu décimo ano

Bonneau du Martray: Um dos brancos mais enigmáticos

O rótulo acima fala de um dos Grands Crus brancos mais respeitados da Côte d´Or, enobrecido enormemente pelo estupendo produtor Bonneau du Martray. Não ouse abrir uma garrafa deste branco antes de seu décimo ano. Você cometerá um dos maiores infanticídios. Este vinho evolui maravilhosamente por décadas.

Já a chamada Côte de Nuits, porção norte da Côte d´Or, podemos dizer que trata-se do berço espiritual da Pinot Noir. Não há lugar no mundo capaz de reproduzir esses tintos sedutores quando elaborados pelos especialistas da região. Aqui o imponderável dos diversos fatores de terroir chega a seu limite, permanecendo os mistérios de seus vinhos. Comunas como Chambolle-Musigny, Gevrey-Chambertin e Vosne-Romanée, sublimam os melhores caldos. Delicadeza, virilidade e complexidade, são alguns dos adjetivos para essas comunas citadas, respectivamente. É fascinante como a madeira comunga com os demais componentes desses tintos em perfeita harmonia. Raramente, temos mais de quarenta por cento de madeira nova, mesmo nos Grands Crus, com raras exceções. Uma delas, com cem por cento de barricas novas, pois a estrutura de seus vinhos permite esta ousadia, é o Domaine de La Romanée-Conti com seu astro maior na foto abaixo:

Safra 1985: Belo momento de sua evolução

Infelizmente, a Borgonha não vive só de sonhos. A realidade tem seu lado cruel. É fato comum, a figura do Négociant que nada mais é do que empresas da região que negociam uvas ou vinhos de vinhateiros que muitas vezes não possuem sua própria marca para ser colocada no mercado. Portanto, esses negociantes podem vinificar essas uvas ou amadurecer, educar vinhos já elaborados por vinhateiros em suas próprias caves. E aí, dependendo do negociante, pode ir-se do céu ao inferno. Evidentemente, há negociantes sérios como Louis Jadot, Drouhin, Louis Latour, Bouchard Père & Fils, entre outros, que colocam no mercado produtos honestos por preços relativamente competitivos. Como exceção, nos vinhos de elite, Bouchard Père & Fils elabora um Chevalier-Montrachet La Cabotte, de primeiríssima linha, entre os melhores da apelação.

Para completar a Borgonha, não poderíamos deixar de mencionar Chablis, a norte da Côted´Or, a meio caminho de Champagne. Um terroir único, bem diferente da Côte d´Or, incluindo clima e solos. Aqui a Chardonnay assume contornos diferentes, moldando brancos incisivos, de bela acidez e destacada mineralidade. Aliás, as taças corretas para Chablis devem ser de bojo esguio, bem diferentes das bojudas, utilizadas nos demais borgonhas brancos.

O clima na região é mais frio, lembrando Champagne. Seu solo também é formado por argila e calcário, misturados a fósseis marinhos, dando origem ao termo Kimmeridgian, os melhores solos de Chablis. Seus vinhos não costumam passar por barricas, especialmente os mais clássicos e fieis ao terroir. A madeira eventualmente utilizada é normalmente usada, proporcionando apenas uma leve micro-oxigenação dos vinhos, embora haja uma linha de vinicultores mais modernos que imprimem em seus vinhos o aporte da barrica nova.

Nesta apelação, existem sete Grands Crus, todos juntos numa porção específica da encosta: Les Clos, Bougros, Vaudésir, Valmur, Grenouilles, Les Blanchots, e Les Preuses. Aqui a mineralidade e o terroir afloram com a competência de produtores artesanais.

Grand Cru Les Clos: grande poder de longevidade

Produtores como Dauvissat e Raveneau são “hors concours” e não chegam ao Brasil, por enquanto. De produção diminuta, esses brancos exprimem o terroir com rara competência, mostrando uma incrível mineralidade e tremenda longevidade para esta apelação. Outros produtores encontrados no Brasil como Williams Fèvre (importadora Grand Cru), Geoffroy (importadora Decanter) e Billaud Simon (importadora World Wine), trazem belos exemplares.

Em resumo, a Borgonha continua sendo um mistério. Degustações, discussões, estudos específicos, artigos de experts, fornecem dados e histórias enriquecedores. Contudo, no esclarecimentos de alguns fatores, surgem outros tantos sem resposta. Se a inquietação, se as surpresas e decepções te fascinam, este é o caminho. Degustar, degustar, e muito provavelmente idolatrar a dúvida.

Nota: Este artigo foi publicado há alguns meses na revista Enoestilo (www.enoestilo.com.br)

Verão e Bebidas

5 de Janeiro de 2015

Nesses primeiros meses do ano, sobretudo janeiro e fevereiro; muito sol, calor, altas temperaturas. Neste cenário, as bebidas devem estar de acordo. Lógico que muita água, sucos, pratos leves, são a tônica da boa alimentação. Contudo, para quem não abre mão das bebidas alcoólicas, seguem abaixo algumas sugestões: Vinhos

Precisam ser frescos, aromáticos, minerais e estimulantes. Uvas como Sauvignon Blanc e Riesling saem na frente. Os Alvarinhos (Portugal) e Albariños (Espanha) são ótimas pedidas. O espanhol de Rueda (Denominação de Origem) com a uva Verdejo, e puxando o gancho, o Verdicchio, italiano de Marche, engrossam o pelotão. É claro que todos os espumantes estão neste time, mas procure pelos mais leves, elaborados pelo método Charmat. Os Proseccos e muitos nacionais da Serra Gaúcha são exemplos didáticos. Se você gosta de um toque adocicado, os argentinos com a uva Torrontés são bem interessantes, sobretudo os oriundos da região de altitude chamada Salta. Abaixo um ótimo Sauvignon Blanc da vinícola Matetic, importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Brancos chilenos dos vales frios (Casablanca)

Cervejas

O estilo popular de cerveja no Brasil cai muito bem no verão. São leves e servidas bem geladas. É a preferência nacional. E as marcas todos conhecem e cada um tem sua preferida. É o chamado estilo Pilsen. As importadas neste estilo costumam ser um pouco mais amargas. Fuja daquelas mais gastronômicas do tipo Ale. Apesar de serem saborosas e algumas até complexas, são muito encorpadas para a alta temperatura do ano. Pilsner Urquell abaixo, a primeira cerveja neste estilo criada na província checa da Boêmia.

Pilsen Checa: pioneira no estilo

Coquetéis

Novamente, o item frescor deve prevalecer. Mojito, o clássico drink de Cuba é ótima sugestão. O italiano Negroni ao cair da tarde pode ir muito bem. As nossas caipirinhas são clássicas no verão brasileiro. Fora a original com limão e cachaça, frutas e outros destilados fazem fluir a imaginação. Se o assunto insistir no vinho, as sangrias estão liberadas. Entretanto, não vai colocar aquele vinhaço neste tipo de mistura.

Bela pedida para noites de verão

Whisky ou Whiskey

Este destilado, apesar de fora de moda no Brasil, comparativamente a outros tempos, ainda tem força considerável no consumo de bebidas. Prefira os blends aos Single Malts, por exemplo. São mais leves, podem ser misturados com gelo e com outras bebidas, tornando-se drinks.

O Single Malt mais leve do mercado

Se você não abre mão da essência do legítimo Scotch, o Single Malt acima o fará entender que suavidade pode ter profundidade. Ótima opção para o encerramento de um jantar com algumas fumacinhas …