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O Mezzogiorno repaginado

11 de Maio de 2017

Na chegada do inverno, procuramos sempre por tintos mais robustos, mais intensos, mais quentes, bem de acordo com a culinária de sabores e molhos marcantes. Neste contexto, os vinhos do sul da Itália devem ser lembrandos, fugindo um pouco dos encorpados Cabernets. Tannats e Malbecs do Mercosul. Além de originais, autênticos, como todo os italianos, são muito gastronômicos.

Há décadas passadas, esses tintos foram sempre desprezados, e extremamente discriminados pelos próprios italianos, sobretudo a turma do norte, onde Barolos e Barbarescos sempre foram os vinhos mais nobres e elegantes. Contudo, os tempos mudaram. O sul da Itália abriu mão da quantidade, reavaliando suas vinhas, seus altos rendimentos, e sua vinificação arcaica. Atualmente, a turma do norte tem mais volume no cômputo geral dos vinhos, algo impensável em outras épocas. O mar de Proseccos, Lambruscos e Soaves atualmente, depõem negativamente à tão promulgada superioridade qualitativas desta região setentrional mais abastada.

Campania

Antes de falar dos tintos, vamos enfatizar os brancos desta região. Sem dúvida, tanto Greco di Tufo, como Fiano di Avellino, são brancos que dignificam o sul da Itália. Sempre muito frescos, originais, e gastronômicos, muitos deles são agraciados com tre bicchieri, pontuação máxima do mais tradicional guia de vinhos italiano. As uvas são Greco e Fiano, respectivamente.

Os tintos baseados na potente uva Aglianico, podem envelhecer com dignidade. A nobre denominação Taurasi é seu terroir mais clássico. Entretanto, outras denominações menos restritivas moldam tintos modernos, indo de encontro ao gosto internacional dos consumidores. Enfim, escolhendo bem os produtores, tem tintos muito bons para o inverno, de todos os gostos e bolsos.

ABS irpinia aglianico

equilíbrio e tipicidade

O tinto acima vem de uma denominação mais genérica em torno da DOCG Taurasi chamada Irpinia. Apresenta boa fruta, álcool relativamente discreto para os padrões da região e pouco invasivo no sentido gastronômico. Safra 2010 já com seus seta anos, pronto para consumo.

Puglia

Já foi um máquina de fazer vinhos, embora tenha ainda uma produção considerável. Faz cerca de 15% de todo vinho italiano. De relevo praticamente plano, lembrando uma mesa, a proximidade do Adriático e do mar Jônico, refresca um pouco o sol implacável no tempo de maturação das uvas. Seus tintos baseados nas uvas Primitivo e Negroamaro principalmente, moldam vinhos densos, cheios de fruta, chegando até a uma sensação de doçura. Os preços geralmente apontam para os vinhos mais profundos e concentrados. A denominação Primitivo di Manduria é a mais badalada no momento.

ABS primitivo cinquanta

as famosas vinhas velhas

Para aqueles amantes de tintos densos, encorpados, cheios de fruta, chegando até parecerem doces, este é o tinto a ser procurado. Um vinho musculoso, macio, lembrando a densidade de um Porto. A concentração se explica pelo emprego de parreiras com mais de 50 anos, rendendo apenas um quilo por planta. Carnes ensopadas com molhos vigorosos e sabores agridoces são grandes parceiras, sobretudo nesses dias de inverno mais intensos.

Sicilia

Se tem uma região no Mezzogiorno onde a renovação chegou pra valer, esta região é a Sicília, a maior ilha do Mediterrâneo. Outrora baseada no vinho fortificado Marsala, a Sicília hoje é premiada por seus tintos robustos, modernos e cheios de personalidade, baseados sobretudo nas uvas Nero d´Avola e Nerello Mascalese. Enquanto a primeira é um pouco mais eclética, indo desde de vinhos frutados e de consumo imediato, até alguns tintos de guarda como por exemplo, Don Antônio, importado pela Ravin (www.ravin.com.br), a Nerello Mascalese tem estrutura para vinhos mais complexos e de guarda, transmitindo toda a mineralidade dos solos vulcânicos nas cercanias do Etna.

ABS sicilia due lune

duas grandes uvas sicilianas

No tinto acima, uma fusão interessante de concentração, potência, e estrutura para bons anos de guarda. Enquanto a Nero d´Avola entra com muita fruta e maciez, a Nerello Mascalese, passificada no pé (ainda na vinha), mostra toda sua força, sobretudo nos taninos presentes e bem moldados. Um tinto que dignifica as raízes da ilha sem abrir mão da modernidade dos vinhos atuais.

Basilicata e Calabria

Nessas duas regiões acima, a modernidade não foi tão impactante como nas acima já citadas. O tradicionalismo  e as raízes destes locais estão ainda muito presentes. A Calabria é comandada em termos de qualidade pelo respeitado produtor Librandi. O potencial da região é certamente muito mais vasto do que seu tradicional e tosco tinto Cirò baseado na uva Gaglioppo.

Já a Basilicata, prende-se à denominação Agliancio del Vulture, a mesma uva da vizinha Campania. A altitude gera a devida amplitude térmica para equilibrar uvas perfeitamente maduras. Aqui, a mão do produtor pode trilhar por caminhos mais tradicionais ou alternativas mais modernas.

Sardegna

A famosa ilha de veraneio de alguns bilionários teve na história uma importante influência espanhola, trazendo para essas terras uvas como Garnacha (localmente chamada de Cannonau) e Cariñena (Carignano para os italianos). Essas duas tintas parrudas encontraram na ilha sol suficiente para uma perfeita maturação. Seus vinhos são densos, encorpados, e com uma agradável rusticidade, bem de acordo com pratos de sabores rústicos e selvagens. Não podemos esquecer de um grande branco da ilha agradabilíssimo, o DOCG Vermentino di Gallura. Fresco, vibrante, e intenso, acompanha bem pratos de peixes e crustáceos, grelhados ou in natura. Outro branco curioso é a Vernaccia di Oristano, uma espécie de Jerez da ilha que combina muito bem com massas aromatizadas com botarga (ovas secas de tainha).

ABS argiolas sardegna

tradição com competência

O vinho acima, retrata fielmente um clássico Cannonau di Sardegna. Aquela fruta exuberante típica da Garnacha, seus toques balsâmicos e cheios de especiarias. Um tinto agradavelmente quente, moldado em tonéis de madeira apenas para a devida micro-oxigenação. Um cabrito assado com ervas e batatas ao forno é um grande parceiro para este representante sardo.

Nos últimos tempos o tinto Carignano ganhou status, deixando para trás o tradicional Cannonau di Sardegna, elaborado em toda a ilha. A denominação Carignano del Sulcis atingiu seu ápice no grande tinto Terre Brune da vinícola Santadi. Investimentos do poderoso grupo envolvendo Tenuta San Guido (Sassicaia) e Cantina Santadi também faz sucesso com seu tinto Barrua, sofisticando o padrão da ilha.

Enfim, mais uma opção para tintos de inverno e principalmente, para estarem à mesa acompanhando os pratos mais calorosos. Aí, é só acender a lareira …

Festas: sugestões de vinhos

10 de Dezembro de 2015

Nesta época do ano é normal as pessoas procurarem dicas, conselhos, informações sobre vinhos. Seja para consumo próprio ou presentear, as opções são inúmeras. Infelizmente, os preços não ajudam. Com a alta do dólar e também de impostos, a equação está cada vez mais difícil de ser resolvida. Portanto, vinhos que realmente valem a pena indicar estão na faixa entre R$ 100,00 e 200,00 reais.  E olha que não estou falando em sofisticação, pois nesta área o céu é o limite.

Segue abaixo uma relação para vários tipos da bebida, desde entrada até sobremesas, cafés, charutos, etc …

Cave Geisse: bela surpresa

Espumantes e champagnes

  • Cave Geisse (espumante nacional entre os melhores, se não for o melhor). veja site abaixo, na própria vinícola, ou na Ville du Vin.
  • Chandon Brasil (sempre consistente, fácil de encontrar e preços razoáveis). Várias lojas de bebidas em São Paulo.
  • Cava (tradicional espumante espanhol). Raventós da Decanter e Gramona da Casa Flora, sempre confiáveis.
  • Champagnes (é uma questão de gosto e estilo. Louis Roederer, Gosset, Deutz e Larmandier têm preços honestos. Evidentemente, acima da faixa de preço no início do artigo). Importadoras Franco-Suissa, Grand Cru, Casa Flora e Cellar, respectivamente.

Um dos grandes alemães da Decanter

Vinhos brancos

  • Rieslings alemães (importadora Decanter tem boas opções).
  • Chablis William Fèvre (importadora Grand Cru).
  • Sauvignon Blanc (Terrunyo da Concha Y Toro, vinícola Pericó de Santa Catarina e Jackson Estate da Nova Zelândia, importadora Premium). A linha Concha Y Toro é encontrada na Ville du Vin.
  • Chateau Reynon e Clos Floridene (dois bordeaux da Casa Flora)
  • Chardonnay (Catena Alta da Mistral  e De Martino Quebrada Seca da Decanter)

Bierzo e a uva Méncia

Vinhos tintos

  • Rioja de vários tipos (Crianza, Reserva e Gran Reserva). Rioja Alta da importadora Zahil, CVNE da Vinci e Luis Cañas da Decanter).
  • Tintos de Bierzo (região espanhola pouco conhecida. Boas opções na Decanter e Grand Cru).
  • Chianti Classico (Castello di Ama da Mistral, Fontodi da Vinci, e Felsina Berardenga da Mistral).
  • Tintos do Douro (Quinta do Crasto, Quinta do Noval, Niepport).
  • Malbecs da Argentina (Catena da Mistral, Viña Cobos da Grand Cru, Noemia da Vinci e Achaval Ferrer da Inovini).
  • Merlots nacionais (Miolo Terroir, Pizzato DNA 99 e Desejo da Salton). Encontrados em boas lojas de bebidas.
  • Chateau Giscours 2009 Margaux – Grand Cru Classe – importadora Cellar
  • Chateau Sociando-Mallet 2009 – Haut-Médoc – importadora Cellar
  • Vinícola Rippon (grande Pinot Noir da Nova Zelândia). Importadora Premium.

Tawnies e Charutos

Portos, fortificados e colheita tardia

  • Porto Fonseca Bin 27 (Mistral ou Casa Santa Luzia)
  • Burmester Tawny Jockey Club (Adega Alentejana)
  • Quinta do Noval LBV Unfiltered (Grand Cru)
  • Jerez: Emilio Lustau da Ravin e Hidalgo da Mistral
  • Morandé Late Harvest da Grand Cru
  • Chateau Haut-Bergeron Sauternes da Cellar

Se você pensar em vinhos franceses ou italianos, a escolha natural é a importadora Cellar. A seleção é ótima e os preços não são abusivos. Responsável: Amauri de Faria.

Porto Fonseca e champagne Louis Roederer são encontrados na Casa Santa Luzia. Os nacionais acima mencionados, também.

Importadoras

Rosés pelo mundo em números

8 de Novembro de 2015

Em recente estudo realizado pela OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) veremos a seguir alguns números de 2015. A produção mundial de rosés parece estabilizar-se em torno de 24 milhões de hectolitros, aproximadamente 10% da produção mundial de vinhos.

roses 2014

Pouca variação na produção

Dentre os principais produtores mundiais de rosés estão a França, indiscutivelmente, Espanha, Estados Unidos e Itália. Esses quatro países respondem por três quartos da produção mundial de rosés. Só a França, produz 30% do total mundial. O mapa abaixo ilustra a situação.

rose grafico 2014

No topo: França, Espanha, Estados Unidos e Itália

Quanto ao consumo mundial, a França também tem larga vantagem. Mais de 30% dos rosés do mundo são consumidos por lá. Em seguida, Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, puxam a fila.

rose 2014 consumo

França: domínio absoluto

No quesito exportações, A Espanha lidera com larga vantagem em termos de volume, seguida pela Itália, França e Estados Unidos. As exportações mundiais estão em torno de nove milhões de hectolitros por ano. Os quatro primeiros países exportadores do gráfico abaixo (Espanha, Italia, França e Estados Unidos) respondem por 80% do volume mundial exportado.

roses exportação 2014

Espanha comanda as exportações de rosés

Neste final de ano que se aproxima, os rosés são bem versáteis, quer seja pela facilidade de harmonização, quer seja pela conveniência de temperaturas mais elevadas. A mistura de pratos, entradas e várias comidinhas servidas num tempo só, torna os vinhos rosés uma espécie de coringa, agradando os mais diversos paladares e compatibilizações.

Como indicações, a França tem muitas opções. Evidentemente, a Provença é uma dica certeira. Porém, os vales do Rhône e do Loire, mostram diversidades de sabores e de preços. Em linhas gerais, os rosés do Loire são mais leves e delicados, enquanto os rosés do Rhône tendem a ser mais encorpados e gastronômicos.

Do lado italiano, a Toscana tem boas opções, sobretudo na região de Bolgheri, próximo ao litoral tirreno. Abruzzo, no litoral adriático, tem rosés interessantes. O nordeste italiano com as regiões do Veneto, Friuli, e Trentino, apresentam inúmeras opções. Nestas regiões mais frias, os rosés costumam ser mais frescos.

Na Espanha, os rosés de Navarra, região contigua a Rioja, apresentam-se bem equilibrados. Rioja produz praticamente o mesmo volume que Navarra. Em seguida, temos as regiões de La Mancha, Valencia e Catalunha juntas, perfazendo o mesmo volume de Navarra ou Rioja. As uvas mais utilizadas são Garnacha, Bobal e Tempranillo. Os rosés à base de Garnacha tendem a ser mais macios e gastronômicos. Já a Tempranillo, dificilmente é utilizada como varietal. Por se tratar da melhor uva para tintos de longa guarda, os cortes são mais frequentes.

Algumas sugestões:

  • Chivite Gran Feudo Rosado – espanhol da Mistral (www.mistral.com.br)
  • Zaccagnini Montepulciano d´Abruzzo Cerasuolo – italiano da Ravin (www.ravin.com.br)
  • Chateau St-Hilaire Tradition – francês provençal da Premium (www.premiumwines.com.br)
  • Paul Jaboulet Côtes-du-Rhône Rosé – francês do Rhône (www.mistral.com.br)

Os Tesouros de Jerez: Almacenistas

30 de Outubro de 2015

Infelizmente, os vinhos de Jerez são pouco conhecidos, pouco divulgados e por consequência, pouco consumidos. No entanto, termos como Fino, Amontillado e Oloroso, são familiares mesmo para os iniciados no assunto. Agora, existe uma categoria dificilmente encontrada no Brasil, chamada Almacenista, vinhos raros, muito bem lapidados, e apreciados só por conhecedores.

JOSÉ LUIS GONZÁLEZ OBREGÓN

Almacenista: José Luis González Obrégon

Normalmente, Almacenista é um bodegueiro famoso, de larga experiência na criação de Jerezes, que cria e supervisiona lotes especiais deste vinho para um envelhecimento lento, de características muito especificas, e que são lançados no mercado numa partida limitada de garrafas. São considerados vinhos de meditação, podendo ser harmonizados com pratos singulares, muitas vezes de difícil casamento. Aliás, almacenar em espanhol significa guardar, armazenar. Abaixo, daremos alguns exemplos destas maravilhas, elucidando melhor o assunto.

manzanilla pasada

Manzanilla Pasada. Almacenista: Manuel Cuevas Jurado

Sabemos que a categoria Manzanilla trata-se do mais fino e delicado Jerez. Tendo a particularidade de ser criado em Sanlúcar de Barrameda, próximo ao mar, além do frescor de um autentico Fino, há um toque inconfundível de salinidade muito particular. Este tipo de vinho criado com a proteção da chamada Flor (camada de leveduras específicas na região) deve ser consumido jovem, sendo um excelente aperitivo de entrada.

Até aqui, nenhuma novidade. É neste momento que entra o talento de um Almacenista. Existem partidas especiais de Jerez conforme a safra, ou um vinhedo especial, ou desenvolvimento particular do vinho sob as leveduras (flor), que são percebidas por estes especialistas. Estes lotes então, são criados de uma maneira especial, dando a personalidade de seu criador numa bebida distinta, fugindo às características de sua categoria inicial. É o caso deste Manzanilla Pasada. Uma Solera de 80 botas (pipas) que envelhece lentamente com a perda gradativa da flor, adquirindo toques oxidativos. Num Manzanilla padrão, este tipo de envelhecimento destruiria o vinho, perdendo suas características de frescor que devem ser preservadas a qualquer custo. Contudo, nestes lotes especiais, há uma interação entre o toque oxidativo e a reminiscência do frescor desta categoria, surgindo aromas e sabores incríveis. Como harmonização por exemplo, salmão defumado ou aspargos podem ser belos acompanhamentos.

amontillado sanlucar de barrameda

Amontillado de Sanlúcar de Barrameda. Almacenista: Manuel Cuevas Jurado

A categoria Amontillado apresenta uma flor não muito espessa que ao longo de um tempo relativamente curto morrerá, deixando a oxidação dominar o envelhecimento. Contudo, sempre haverá um toque de frescor e salinidade permeando os aspectos oxidativos da crianza. Neste lote, o almacenista selecionou 21 botas para formar a solera. Os Amontillados de Sanlúcar tem uma elegância muito particular. Especialmente este, é ideal para acompanhar sopas, foie gras, e embutidos.

oloroso del puerto

Oloroso del Puerto. Almacenista: José Luis González Obregón

Na categoria Oloroso, o estilo oxidativo sem a formação de flor é marcante. Neste caso, mais uma vez, o almacenista perceber lotes especiais e neste vinho trata-se de uma solera de 110 botas (pipas) que envelhece lentamente. São vinhos de corpo, muito aromáticos e de forte presença gustativa. É ideal para acompanhar frutas secas e queijos curados de difícil casamento. Um Manchego Viejo é um exemplo clássico.

É importante ressaltar que nesta gama Almacenistas, a bodega Lustau faz questão de mencionar no rótulo o nome do bodegueiro, verdadeiros mestres na arte de selecionar e criar jerezes especiais.

Como não há esses vinhos no Brasil, podemos nos contentar com os ótimos Jerezes da bodega Lustau dos três exemplos acima. Atualmente, a importadora Ravin (www.ravin.com.br) é responsável por esta marca no Brasil. Há várias opções de Jerez com preços bem convidativos.