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Bordeaux na virada do Milênio

8 de Fevereiro de 2020

De tempos em tempos é sempre bom revisar alguns Bordeaux que estão evoluindo em garrafa como é o caso da safra 2000. Safra esta um tanto fechada que demanda muito tempo em garrafa. Os grandes desta safra só entrarão no auge por volta de 2050. Foi o que fizemos num belo almoço no badalado restaurante Le President de Eric Jacquin. 

Salão Privê e taças Zalto bordalesas

carpaccio com caviar

Tudo começou com um belo Chevalier-Montrachet 2009 de Madame Leflaive abrindo os serviços. Um vinho de 94 pontos num estilo próprio de leveza, mas com profundidade. Toques cítricos e uma madeira elegante completamente integrada ao conjunto. Foi muito bem com um carpaccio recheado de temperos e caviar. Numa das fotos, você mistura tudo e enrola, fatiando todos os sabores.

img_7307as primeiras surpresas!

Os quatro classificados classe A de Saint-Emilion num painel surpreendente. Os dois da ponta mais tradicionais e menos estruturados que o meio. A começar pelo Ausone, um vinho delicado, pouco tânico, afável, bem ao contrário do que poderia se esperar. Ele costuma misturar Merlot e Cabernet Franc em partes iguais. Em seguida o Chateau Pavie, um vinho de 100 pontos e um dos destaques da safra. Neste ano fez um blend de 60% Merlot, 30 Cabernet Franc, e 10% Cabernet Sauvignon. Muito bem estruturado, denso, e final elegante. Lembrava alguns anos do Cheval Blanc.

Na sequência, Chateau Ângelus 2000, um dos grandes destaques do almoço. Certamente, o vinho menos pronto do painel com uma estrutura monumental. Um dos grandes Ângelus da história com 60% Merlot e 40% Cabernet Franc. O que impressiona neste vinho é seu corpo e sua estrutura tânica. Um vinho com notas de incenso, defumado e notas de tabaco. Seu auge está previsto par 2045. Um vinho que atualmente deve ser obrigatoriamente decantado.

Por fim, um Cheval sem o mesmo brilho de outras safras. O blend é parecido com o anterior tendo 53% Merlot e 47% Cabernet Franc. Um vinho como sempre elegante, bem equilibrado, mas sem a estrutura para uma longa guarda.

img_7308painel sem surpresas!

Começando pelo Latour, um vinho com 77% Cabernet Sauvignon, 16% Merlot, 4% Cabernet Franc e 3% Petit Verdot. Um vinho encorpado, taninos finos e um toque de couro característico. Já o Mouton, outro Pauillac com 86% Cabernet Sauvignon e 14% Merlot. Foi o vinho mais pronto do painel e talvez do almoço com taninos polimerizados, aromas francos e desenvolvidos com a nota característica de café.

Na sequência os mais elegantes. A começar pelo Lafite com 93,3% Cabernet Sauvignon e o restante Merlot. Um vinho com essa porcentagem de Cabernet Sauvignon e com essa elegância, sem ser pesado. Sua acidez cortante e sua tensão foram fatores decisivos para sua descoberta. Por fim, Chateau Margaux, um blend muito parecido com o anterior, sendo 90% Cabernet Sauvignon e o restante Merlot. Novamente, a elegância impera com um dos melhores Margaux da história. É um vinho de lenta evolução, um tanto fechado no momento, necessitando de decantação. Previsão de apogeu, entre 2050 e 2060. 

cordeiro e entrecôte

Foram muitas carnes sempre raladas a trufas pretas. Entre magret, entrecôte e cordeiro, tivemos uma minifeijoada à moda do chef e uma mousseline de batata com trufas.

img_7309um flight polêmico!

A começar pelo Haut-Brion com 99+ pontos, um vinho praticamente perfeito. Com 51% Merlot, 43% Cabernet Sauvignon e uma pitada de Cabernet Franc, um vinho de muita estrutura e longevidade. Seu apogeu está previsto entre 2050 e 2060. Seus aromas de animais e de estábulo eram muito discretos e uma estrutura tânica monumental. Praticamente um empate técnico com o seul rival La Mission, um dos vinhos da safra. Este tem 58% Merlot, 32% Cabernet Sauvignon e 10% Cabernet Franc. Embora possa parecer mais macio que seu oponente, o vinho tem uma estrutura e uma elegância notáveis. Um vinho também para esquecer na adega e se for prova-lo agora, uma longa decantação.

Por fim, as revelações mais polêmicas do painel e do almoço. Começando pelo Petrus, simplesmente  o vinho da safra com 100 pontos e apogeu previsto acima de 2060. A descrição é de um vinho bem encorpado, longa persistência e muita cor. Descritores que não batiam com a amostra num vinho mais frágil e completamente aberto. Das duas uma, ou o vinho era falso ou trocaram o vinho na decantação, pois foi servido às cegas. Ou então havia problemas com esta garrafa. Já tomei esta safra e o vinho era totalmente diferente. Passando para o Leoville, um vinho que entrou no apagar das luzes, um dos melhores Leovilles da história. Um vinho rico, muito estruturado e de longa guarda. Encarou de frente o Petrus, um vinho com custo dez vezes mais. Realmente, Leoville é um deuxième subestimado por muitos. Um final polêmico e surpreendente.

um dos Portos mais exclusivos e históricos!

Um Porto que tive o privilégio de degusta-lo algumas vezes. Seus aromas (toques divinos de violeta e licor de cereja) e sua persistência em boca são excepcionais. O mil-folhas com frutas vermelhas estava divino.

Falando um pouquinho mais do Noval Nacional, são vinhas pré-filoxera de rendimentos muito baixos. Nos anos em que é elaborado, são apenas 250 caixas em média de produção para apenas 2,5 hectares de vinhas frente aos 145 hectares da propriedade. Fazendo as contas estamos falando de apenas 9 hectolitros por hectare, redimento de Chateau d´Yquem. Para completar, a safra é excepcional, demonstrando a juventude do vinho. Não poderia ter final melhor!

Foi o primeiro grande encontro da confraria em 2020 com muitos confrades presentes. Que o ano todo seja regado a vinhos excepcionais como estes e o clima festivo e descontraído dos presentes. Que Bacco nos proteja!

Mestres da Borgonha

10 de Dezembro de 2019

Todos sabem a importância que um produtor tem na Borgonha, sobretudo em vinhos mais artesanais. Cada uma das principais comunas da Côte d´Or tem suas estrelas, verdadeiros especialistas em determinados terroirs. Entretanto, há um trio praticamente imbatível que pela grandeza de seus vinhos, marcaram seus nomes na história definitivamente. São eles: Henri Jayer, Madame Leroy (Domaine Leroy e Auvenay), e o emblemático Aubert de Villaine (Domaine de La Romanée-Conti). Jayer, talvez o mais talentoso, não perpetuou seu trabalho diretamente após sua morte em 2006, mas os vinhos que ainda restam, são de uma profundidade a toda prova e altamente valorizados em leilões mundo afora.

Neste contexto, num agradável almoço na Osteria del Pettirosso, pudemos analisar lado a lado vários embates entre esses gigantes, numa experiência incrível cheia de prazer e emoções. O terroir da Borgonha foi certamente exaltado no mais alto grau de sofisticação, principalmente a comuna de Vosne-Romanée onde segundo dizem: não existem vinhos comuns …

a escolha de Solfia

Como na Borgonha os vinhos começam pelos brancos, dois domaines excepcionais abriram o almoço com extrema classe, Coche-Dury e Domaine Leflaive. Começando pelo Corton-Charlemagne Coche-Dury é bom lembrarmos a exclusividade deste vinho, apenas um terço de hectare (0,33 Ha). Esta safra 2010 é um dos mais perfeitos dos últimos tempos com 98 pontos. O vinho é de uma mineralidade incrivel, um frescor imenso, e um textura que lembra os grandes Chablis Grand Cru. Foi muito bem com o crudo de lagostins cobertos de ouriço (foto abaixo). Os sabores de maresia se infusionaram à mineralidade do vinho numa explosão de sabores.

pratos muito bem executados

Já num estilo de Beaune, mais denso, o belo Chevalier-Montrachet de Domaine Leflaive, uma de suas especialidades, na safra quente de 2006. São dois hectares de vinhas antigas num trabalho preciso de barricas. O vinho mostra um perfil exuberante em aromas denotando mel, compota de pêssegos, fino tostado, e algo cítrico. Um Chevalier mais denso que o normal, lembrando um pouco o terroir de Batard-Montrachet. De todo modo, uma textura rica e muito expansivo em boca. Foi muito bem com o arancini recheado de burrata (foto acima). Texturas muito harmoniosas de ambos. Pratos talentosos nas mãos do Chef Marco Renzetti.

f42d824a-b0d8-4836-a386-ca95b59263a3e agora José?

Este é um embate muito difícil, pois o DRC Echezeaux é o mais delicado do Domaine, indo de encontro ao estilo Jayer. Por outro lado, esta garrafa do Echezeaux 90 de Henri Jayer estava impecável, muito bem conservada, e pouco evoluída, dificultando ainda mais a decisão. Não que o Echezeaux DRC estivesse com algum problema, mas o Henri Jayer estava perfeito. Ao mesmo tempo que mostrava delicadeza, tinha uma força, um frescor, impressionantes. Dois Echezeaux de livro, mostrando toda a elegância deste terroir.

img_7092a vida não está nada fácil …

Agora mudamos o terroir, mas o nível continua altíssimo. O Richebourg DRC estava muito bem nesta bela safra 2002, mas deu azar de pegar um Richebourg Leroy quase perfeito com 97 pontos, sendo o melhor entre todos os Richebourg deste ano. O vinho explode em cerejas quase em licor, alcaçuz, e finas especiarias. Os dois vinhos apresentam ótimo potencial de guarda, embora no caso do DRC possam haver garrafas melhores. De todo modo, mais uma disputa sensacional.

img_7089evolução dentro do mesmo terroir

É claro que num primeiro momento, o Romanée-St-Vivant 90 parece ser uma escolha óbvia em termos de safra. No entanto, não tinha a mesma exuberância da dupla de Echezeaux de mesmo ano comentada a pouco. Já tinha seus toques de evolução denotando sous-bois, notas florais, e algo terroso, mas sem muita vibração. Já o RSV 2007 embora jovem, tinha muita energia, muita fruta, alcaçuz, e especiarias, vislumbrando uma boa guarda. É uma safra acessível e muito agradável de se tomar jovem. Requer evidentemente, algum tempo de decantação.

algumas das especialidades de Marco Renzetti

Para acompanhar estas maravilhas alguns dos pratos do Pettirosso. O risoto zafferano com tutano, prato extremamente saboroso e absolutamente al dente, bem à maneira italiana. Outro prato interessante foi a fregola com porco preto, tudo num caldo de sabores marcantes. Esse foi melhor com os exemplares mais jovens, mais vigorosos.

jovens e de evoluções diferentes

A diferença entre os dois DRCs acima além do terroir, lieu-dit, são as safras relativamente jovens para este naipe de vinho. Começando pelo Richebourg 2008, estava extremamente evoluído para a idade, mas ao mesmo tempo delicioso, sobretudo nos aromas. Todos os terciários desenvolvidos com sous-bois, mineral, especiarias, toques balsâmicos, notas de café, uma delicia. Em boca, taninos totalmente polimerizados, muito macio, mas não de final muito longo. Houve claramente uma aceleração no processo evolutivo desta garrafa com previsão de apogeu para 2043 na crítica especializada. 

Já no caso do Echezeaux 2011, evolução normal da garrafa com um vinho ainda muito jovem. Não está no topo da lista entre os melhores Echezeaux deste ano, mas é muito saboroso, equilibrado, com notas de frutas vibrantes como cerejas, toques florais e de alcaçuz. Deve evoluir por bons anos em garrafa, embora não tenha estrutura para uma longa guarda como acontece em safras mais destacadas. De todo modo, uma agradável promessa.

Moscato do sul da Itália

No final, tivemos a generosa doçura dos passitos italianos, especialmente este de Pantelleria, ilha pertencente à Sicília, bem próxima da costa africana. O solo é todo vulcânico na ilha com o cultivo da uva Zibibbo, mais conhecida como Moscato di Alessandria. As uvas depois de maduras, são colhidas e soleadas por algumas semanas em pedras vulcânicas, perdendo água e concentrando açúcares. Processo semelhante ao Pedro Ximenez nos vinhos andaluzes. Por sinal, os aromas intensos deste moscato lembram algo do Pedro Ximenez com toques de rapadura e bananada. Em boca, é menos untuoso que o PX, com doçura equilibrada e relativamente expansivo. Foi bem com a delicada Panna Cotta com calda de mel, encerrando o almoço.

Mais uma vez, meus sinceros agradecimentos a todos os confrades, sempre muito generosos. Pode ter sido nosso último encontro do ano, mas com essa turma nunca se sabe. Que 2020 seja repleto de eventos espetaculares como este e que a presença dos confrades seja maciça. Abraço a todos! 

A Chave de Hermitage

24 de Novembro de 2019

A maioria das pessoas não tem a dimensão exata do que é um grande Hermitage, um dos maiores tintos da França. A razão é simples. Poucos têm paciência em esperar pelo menos vinte anos de safra para abri-lo e além disso, desembolsar um valor considerável por uma garrafa dos produtores como Jean-Louis Chave e Paul Jaboulet com seu mítico La Chapelle.

Em almoço inesquecível no Parigi Bistrot do Shopping Cidade Jardim, tivemos a oportunidade de provar lado a lado uma trilogia de primeira grandeza desta apelação na excepcional safra 1990. Para entender melhor esta degustação, é bom esclarecer os detalhes e a concepção dos grandes Hermitages.

hermitage lieux ditsa montanha de Hermitage fatiada

Hermitage é uma das mais prestigiadas apelação do chamado Rhône-Norte, juntamente com a apelação Côte-Rôtie. Embora Hermitage se baseie na uva Syrah, é um vinho de assemblage, não de uvas, mas de pequenos vinhedos conhecidos como Lieu-Dit. Ao contrário da Borgonha, onde os vinhedos são individualizados, em Hermitage a complexidade do vinho dá-se pela junção de vários Lieux-Dits. É justamente esta diversidade e quantidade maior de Lieux-Dits que fazem de Chave e Jaboulet seus maiores expoentes nesta apelação. Neste contexto, fica fácil entender porque a periférica apelação Crozes-Hermitage é apenas uma pequena sombra do Gran Vin.

Olhando o mapa acima, temos uma montanha de subsolo granítico e solos variados entre areia, pedras, argila, e depósitos aluviais. Sua área é de apenas 136 hectares de vinhas, aproximadamente a área de um grande Bordeaux de margem esquerda como o Chateau Lafite. Na parte mais ocidental da montanha, temos os melhores lieux-dits para o chamado Hermitage tinto. Já a parte oriental fica predominantemente para os longevos Hermitages brancos com as uvas Marsanne e Roussanne. Analisando individualmente os lieux-dits, temos as seguintes informações:

L´Hermite

Fica bem no topo da montanha onde vemos a famosa capela com visão privilegiada do rio. A maioria das vinhas pertence a Jean-Louis Chave com solo granítico e de idade avançada, ao redor de 80 anos.

Les Grandes Vignes

Também de solo granítico, os produtores Jaboulet e Delas possuem as principais vinhas.

Les Bessardes

De solo granítico e pedregoso, talvez seja o lieu-dit mais famoso, pois suas vinhas têm grande participação na Cuvée Cathelin do produtor Chave e do lendário La Chapelle de Paul Jaboulet.

Les Beaumes

Boa participação de Chave nesta vinhas com solo misturado de areia, argila e depósitos aluviais.

Le Méal

Solos com depósitos aluviais e muito cascalho. Planta-se Syrah e Marsanne com boa participação do produtor Marc Sorrel.

Les Greffieux

Solos aluviais com muito cascalho e argila. Exclusivamente Syrah.

Péléat

Terroir quase todo de Chave com solos sedimentares pedregosos, argila, e sílex. Tanto uva Syrah, como Marsanne para o Hermitage branco.

Les Doignières

Além das uvas Marsanne e Roussanne, há um pouco de Syrah. Vários produtores se abastecem de suas uvas, inclusive Chave.

Les Vercandières

Vinhedo na parte baixa da colina, onde Chave cultiva Syrah e Marsanne.

Les Recoules

Outro reduto para as uvas brancas Marsanne e Roussanne em solos de argila, calcário e pedras glaciais. Muito importante para os Hermitages brancos de Chave.

Falando agora dos dois melhores produtores de Hermitage, embora nomes como Chapoutier, Delas, Marc Sorrel, devam ser lembrados, Jean-Louis Chave e Paul Jaboulet estão num degrau acima.

Jean-Louis Chave

Chave elabora dois Hermitages tintos e um Hermitage branco. Possui 14 hectares de vinhas, sendo 10 hectares de Syrah. O restante fica entre Marsanne (80%) e Roussanne (20%). As vinhas são muito antigas com média de idade de 50 anos.

Sua superioridade começa com a diversidade de vinhedos. Possui 14 parcelas espalhadas por nove Lieux-Dits mencionados acima. O Lieu-Dit Bessard onde Chave possui dois hectares tem vinhas que chegam a 80 anos. É considerado pelos especialistas, o coração e a alma dos vinhos de Chave.

As vinhas destinadas ao Hermitage branco são de solos variados e muito antigas. Isso faz destes brancos algo único na apelação com níveis de qualidade e complexidade bem longe da concorrência.

Os Hermitages tintos de Chave passam cerca de 18 meses em barricas de carvalho, sendo de 10 a 20% novas, dependendo da safra. Muitos dos barris usados vêm da Borgonha.

Sua cuvée de luxo, Cuvée Cathelin, parte de um blend especial onde o Lieu-Dit Les Bessards tem grande importância. O vinho tem mais concentração, mais finesse, e a porcentagem de barricas novas em seu amadurecimento é maior. São apenas 200 caixas por safra, onde somente em anos excepcionais ocorre sua elaboração. As garrafas são numeradas e sua primeira safra foi em 1990.

Paul Jaboulet

Este produtor possui 22 hectares de vinhas muito bem localizadas nos principais Lieux-Dits, entre eles, Le Méal com 6,8 hectares, Les Bessards com 2,6 hectares, além de Greffieux, Recoules, e mais alguns outros. Sua mais famosa cuvée La Chapelle parte do assemblage destes vinhedos mencionados. A porcentagem de barricas novas depende muito da qualidade da safra em questão. Geralmente o vinho é encorpado, bela estrutura tânica, e apto a longo envelhecimento. Nas grandes safras, seu apogeu costuma acontecer a partir de 30 ou 40 anos. São por volta de 2000 caixas de La Chapelle por safra.

Decantação

É imprescindível uma longa decantação com os vinhos de Hermitage, tantos brancos, como tintos. A uva Syrah é bastante redutiva e nesta apelação ela se torna mais robusta e fechada. Portanto, precisamos de duas a três horas de decantação antes de servi-los. No caso do La Chapelle, talvez um pouco mais pela robustez do vinho.

img_7001a fina flor de um grande Hermitage

Um embate sem perdedores. A ótima safra de 1990 só ratifica a excelência destes vinhos. O mestre Chave mostra um Hermitage mais delicado, cheio de nuances, e uma acidez, um frescor, impressionantes. O vinho mesmo depois de decantado, demorou a se abrir na taça. Muita mineralidade, algo terroso, toques defumados bem sutis, frutas vermelhas com muito frescor, notas de especiarias, e um toque de azeitonas. Um Hermitage de certa sutileza onde sua acidez comanda o equilíbrio do vinho, além de sua incrível longevidade.

No lado de Jaboulet, a cuvée La Chapelle mostra toda a virilidade de um grande Hermitage. O mais fechado e o mais denso entre os dois. Essa safra de 90 é tão espetacular como foram as lendárias 1961 e 1978. Com quase 30 anos, ainda é um vinho jovem, longe de seu apogeu. Deve seguir os mesmos passos do 1978, agora atingindo a plenitude. Um vinho espetacular com taninos finos e abundantes. Os aromas são arredios, difíceis de se mostrarem, mas o toque defumado, de frutas escuras, pimenta, e um lado animal, lembrando sela de cavalo ( um misto de suor e couro), são sensacionais. Um Hermitage de livro. Ao mesmo tempo que é blockbuster, seu equilíbrio é perfeito com todos os seus componentes (álcool, acidez e taninos) nivelados por cima. Um dos tintos mais poderosos da França. 

img_6999a maestria de Jean-Louis Chave

Aqui não se trata do melhor ou pior, trata-se de estilos de vinho. Nesta Cuvée Cathelin, imprime uma lado mais musculoso, mais exuberante, fugindo um pouco de seu classicismo de sutileza e discrição. A espinha dorsal dos vinhos é a mesma. Há um DNA em comum, na Cuvée Cathelin existe um poder de ousadia, sem perder jamais o refinamento. O vinho é mais musculoso, mais envolvente, mais direto, mas continua elegante e sedutor. É uma questão de gosto, mas o perfume do Cuvée Cathelin é arrebatador. Tem um mix de especiarias e incenso que lhe dá um toque oriental maravilhoso. E em boca, é pura seda. Em termos de longevidade não se enganem. Ele é maravilhoso agora e o será por anos a fio. 

img_6998um guisado de pato maravilhoso

Para acompanhar estas preciosidades, nada melhor que um belo guisado de pato, especialidade da Chef Vanessa, discípula do mestre Jacquin. De fato, o pato é a única ave não indicada para Borgonhas, normalmente muito delicados. Esta carne é sempre mais escura, mais sanguínea, de trama mais fechada. Isso pede vinhos mais densos e tânicos, haja vista as indicações de Cahors e Madiran no sul da França. 

Voltando aos Hermitages, eles foram muito bem com o prato num caldo muito saboroso, incluindo um mix de cogumelos. Os taninos se amoldaram muito bem com a fibrosidade da carne, enquanto a acidez cortou magnificamente a gordura do prato. Uma combinação espetacular.

a exclusividade de Madame Leflaive

Antes dos Hermitages, tivemos a companhia do ótimo Batard-Montrachet Domaine Leflaive safra 1996. Um vinhedo de menos de dois hectares com vinhas de idade entre 1962 e 1974. O mosto é fermentado em barricas de carvalho dos bosques de Allier e Vosges, e posteriormente amadurece mais doze meses em barricas com bâtonnage. 

Este exemplar teve uma evolução magnifica com seus mais de 20 anos. Notas de frutas secas e frutas confitadas, notas empireumáticas de caramelo e tostado, especiarias e muita mineralidade. Acompanhou muito bem vieiras grelhadas ao ponto com creme de couve-flor. Tanto a sutileza de sabores, como a textura de ambos, prato e vinho, se harmonizaram perfeitamente.

img_6995execução perfeita

Enfim, vinhos e pratos excepcionais, além da companhia dos amigos. Agradecimentos especiais ao Presidente que escolheu a dedo todas estas preciosidades com a generosidade de sempre. Os pratos só abrilhantaram ainda mais as taças degustadas. Que Bacco nos guie sempre nos melhores caminhos!

A melhor adega em Alphaville

2 de Novembro de 2019

Alguns tesouros ficam muito bem guardados em lugares que menos se esperam. É o caso de um dos meus confrades que estoca em caixas de madeira originais na maioria de sua coleção, mais de dez mil garrafas de vinhos de primeiro escalão. Sua paixão pelo vinho é antiga e desde então, vem abocanhando em vários leilões as melhores ampolas do planeta. Abaixo, um pequena amostra de seu arsenal.

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DRC em caixas originais

Num belo almoço em sua propriedade, desfrutamos um pouco da França entre Bordeaux, Bourgogne e Champagne. Para começar um velho conhecido, Dom Perignon Oenotheque 1996 com 12 anos sur lies antes do dégorgement.

a antiga nomenclatura das plenitudes

Equivalente nos dias de hoje à P2, este é um champagne de safra excepcional. Muito frescor, mousse aveludada, mostrando muita juventude. O contato sur lies preserva o champagne da oxidação, fornecendo textura macia e aromas incríveis. Nada melhor para dar inicio a um belo almoço.

bela combinação

O único branco do almoço brilhou com seus 14 anos de idade. Um Batard-Montrachet 2005 de Madame Leflaive. Mesmo em Batard, sua textura continua elegante, mostrando o estilo do domaine. Muito bem conservada, esta garrafa mostrava muita juventude. Aromas envolvendo cítricos, frutas secas, e um tostado muito fino. O equilíbrio em boca é notável com uma acidez refrescante e textura aveludada sem ser pesada. Fez um belo par com o risoto zafferano e trufas brancas.

img_6869um Mouton histórico!

Só deu tempo de decanta-lo por três horas. Um monstrinho engarrafado com um montanha de taninos. Talvez seja o sucessor do grande Latour 61, um vinho que esta se abrindo aos poucos numa lenta evolução. Dos nota 100 de Parker, este Mouton 86 está no topo da lista com previsão de apogeu para 2050 embora já o tenha feito para 2090. Já decantaram este vinho em Magnum por 48 horas. Esta garrafa provada estava perfeita com seus aromas terciários começando a aparecer. Notas de café, couro, caixa de charutos e um núcleo frutado muito intenso. Seus taninos são abundantes e muito finos, de textura muito agradável. Parece que começa a se desenhar uma fase de franco amadurecimento. Um tinto para quem tem paciência em adega.

Panceta crocante e brioche com ovos e trufas

Alguns dos pratos do almoço que foram muito bem com o champagne e o branco Batard-Montrachet. A gordura e os sabores da panceta foram escoltados pelo belo frescor do champagne e seus aromas de panificação e tostados. Já o brioche com ovos e trufas brancas foram de encontro ao sabores do Batard, além da  harmonia de texturas.

uma bela fromagerie

Além do almoço em si, vale a pena mostrarmos a sala de queijos do anfitrião onde são afinados peças de parmegiano reggiano por longos anos. São prateleiras com queijos de data de maturação diferentes com controle de temperatura e umidade. Pouco a pouco eles vão apurando e concentrando sabores. É o chamado affinage para os franceses. Existem alguns com nove anos de amadurecimento ricos em tirosina. São cristais de aminoácidos (proteínas) que provocam uma agradável salivação, enriquecendo a percepção dos sabores.

a vez dos velhinhos

Em safras antigas o que vale são boas garrafas e não grandes safras. Neste páreo entre os velhinhos, destaque para o Lafite 1967, totalmente evoluído em uma safra inexpressiva. A garrafa muito bem conservada mostrou um Lafite etéreo com seus terciários de notas terrosas, minerais, de chá e ervas finas. Percebe-se na boca a idade que pesa e não sem tempo, mas seu pedigree fala mais alto, mostrando que é um verdadeiro Premier Grand Cru Classé. Com as trufas fica maravilhoso.

Já o La Mission 1955 é um dos notas 100 deste chateau e o melhor entre todos os 1955. Lembro-me de uma garrafa tomada na França que estava maravilhosa. Um Bordeaux tão delicado que lembrava a textura dos grandes borgonhas. Este provado na foto acima, já estava bem evoluído, sobretudo na boca com a acidez desequilibrada. Os aromas ainda tinham notas de torrefação e um leve couro. Com certeza, já teve dias melhores.

Vale dizer que este vinho não é uma garrafa do chateau. Nesta época ainda era possível comprar barricas dos grandes chateaux de Bordeaux e engarrafa-las com o selo do négociant. No caso, um famoso comerciante belga, Vandermeulen,  que engarrafava vários chateaux famosos, dentre eles o La Mission. São vinhos de grande reputação com valores condizentes aos grandes chateaux no mercado. É que realmente esta garrafa não era daquelas especiais, onde vinho está perfeito.

img_6881bela surpresa do almoço por sua exuberância

Um Pomerol clássico com o corte de 80% Merlot e 20% Cabernet Franc. O vinho estagia entre 16 e 18 meses em barricas novas. Nesta bela safra 2000, o vinho encontra-se na juventude com muita fruta escura em geleia e lindos toques florais. A madeira é fina com taninos bem polidos. Deve ser decantado por duas horas, devendo envelhecer bem por pelo menos mais dez anos. São 5,9 hectares de vinhas produzindo em torno de 2400 caixans por ano. Tem uma vizinhança nobre ao lado de Trotanoy e Chateau Clinet.

img_6883Yquem nos seus melhores anos

O grande fecho de refeição se faz com Yquem, sobretudo este de safra 1990, uma das melhores do século passado. Embora já entrando nos seus 30 anos, está muma fase transitória entre a juventude e maturidade. Sua cor começa a ficar um pouco mais escura, lembrando caramelo. E é exatamente este sabor que ele transmite na taça. Muito bem equilibrado, seu teor alcoólico não passa dos 13 graus. Boa untuosidade com acidez compatível ao teor de açúcar. Foi muito bem com as frutas flambadas e o sorvete de creme.

Agradecimentos aos presentes e sobretudo ao anfitrião que nos recebeu com muito carinho. Com Champagne, Bordeaux e Bourgogne, fica tudo ainda mais especial. Teremos que voltar mais vezes, pois seu arsenal é poderoso. Que Bacco seja o guardião desta bela adega!