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Aniversário às cegas

6 de Março de 2024

Se Deus for de Chassagne, Volnay ou Beaujolais, já comecei desde essa terça-feira à noite a pedir clemência para não ir ao inferno. Em uma degustação de alto nível de Côte de Beaune e Gamay na terça à tarde, eu nunca cuspi tanto vinho bom na vida, incluindo-se vinhos de Lafarge, um dos domaines preferidos do site, mas a razão era nobre: aniversário de um confrade. Menu às claras, vinhos às cegas, todos da adega de @alejugdar, safra 1973. Vinho com segredo aniversaria, mas os presenteados foram os cinco convidados para o jantar, no ristorantino.

Atraso inevitável diante de uma tempestade em São Paulo, mas a correria foi brindada com um espumante. Champagne? Tudo levava a crer que sim, mas será? Não havia um toque que experimentamos no riserva dal fondatore 2007, brilhante blanc de blancs de Ferrari, de Trento, norte da Itália? Uma cremosidade, um toque de fruta seca, um cítrico. Peraí: isso é mesmo um blanc de blancs? Sim, parece com essa tensão, mineralidade, não?

Não. Trata se de um blanc de noirs, cujas uvas de pinot noir vêm de Dizy, mais especificamente da número um do site: jacquesson, que mudou de mãos depois do impecável trabalho dos irmãos Chiquet. Safra 2013. Intensidade, mineralidade, persistência de um champagne que, esperamos, a artemis nao os torne de bilionários. Um abre alas de primeira e um contraponto aos blanc de blancs da casa, que revolucionou a região com o lançamento da série 700. (tem post aqui no site com detalhes sobre a champagne preferida de Napoleão). Esse champagne com uns aninhos mais de adega e umas trufas brancas de alba…

No primeiro tempo do menu, um tartare de atum, chegou à mesa uma taça com um espumante cuja perlage e efervescência denotavam a timidez do envelhecimento. Aromas de frutas secas, mel, com um leve sous bois, acidez ainda marcante. E aí? Agora um corte? Quantos anos? 20? Não, 25, né? Acho que mais de 30, né? É Champagne? Parece ser, não?

Não. São borbulhas italianas, mais especificamente oriundas da denominação mais reputada pelos espumantes da Velha Bota: Franciacorta. O produtor? O mais premiado na Itália por seus espumantes: ca del bosco. O rótulo: Annamaria Clementi, homenagem à matriarca da família, feita desde 1979 e apenas engarrafada quando o ano é excelente. É fruto da seleção mais especial da casa e a maior rival de ferrari, sendo a preferida da crítica inglesa Jancis Robinson. Safra 1999, corte de chardonnay, pinot bianco e pinot nero. Mais uma prova de que a Itália produz espumantes que rivalizam com os franceses sobre a mesa e às cegas te põem em enrascadas.

Segundo tempo do menu, uma espécie de carpaccio de finas fatias de pato ao forno, abobrinha, mel e laranja. A harmonização é com um vinho cujo aroma na taça mostra o toque de petrolato, característico da riesling. Mas estamos na Alsácia ou na Alemanha ou na Áustria? Na boca, a delicadeza e a elegância (que os franceses não se aborreçam) que aponta para os tedescos. Quanto custa isso? Dá para comprar de caixa? Qual terroir? Mosel, não?

Não. Estamos em Rheinhessen, nas mãos de Wittman, do vinhedo GG (seria o correspondente ao grand cru francês) de Morstein, safra 2018. A delicadeza e elegância desse riesling me deixam com vontade de colocá-lo às cegas com um riesling de Markus Molitor. É um dos três melhores rieslings bebidos pelo site desde 2020. Com o tempo, ele ganhará muito mais complexidade e camadas. Feito para o peixe cru do Sororoca?

Terceiro tempo: saboroso taglioglini nero com frutos do mar ganha a companhia de um vinho branco que vem de um decanter. Nos aromas, parecemos estar na Borgonha, mas estamos mesmo? Vinhocomsegredo é famoso pelas pegadinhas. É Portugal? Então vou morar lá. Não é francês? É? Meursault, tem elegância do Clos de Bouchères do Roulot, não? Tem um caju, um mineral, um toque de bala toffle, um herbáceo. Que é isso?  Parece Chassagne, não?

Não. Clos Vougeot e Corton Charlemagne padecem do mesmo mal: grandes áreas, muitos produtores, poucos se sobressaem, são grands crus cujos resultados são desiguais, mas existem referências absolutas nas duas denominações. Coche Dury, Lalou Bize Leroy e Bonneau du Martray (tem post no site escrito pelo Nelson) jogam na liga dos Cortons que fariam Carlos Magno brindar a unificação europeia com o vinho.

Esse 2007 é um Borgonha que conjuga tudo que faz o chardonnay na Côte de Beaune atingir o ápice: persistência, complexidade, elegância, camadas que vão e voltam em um conjunto de rara delicadeza. Já ouviu falar de mão de ferro em luva de veludo? Aula de Borgonha branco, com um uso de madeira de aplaudir de pé (o Criots Batard Montrachet 2004 de Fontaine Gagnard, bebido poucas horas antes, foi esquecido diante desse branco grandioso).

Quarto tempo: codorna desossada servida com o próprio molho e cogumelos. Chega uma taça que denota que deveremos ter Borgonha. Mas não é nebbiolo? Não parece no aroma. O toque de chá preto, leve carne, alcaçuz denotam um pinot, mas o aniversariante é de pegadinhas. Não é gamay? Se tiver um produtor que faz gamay assim, me manda o endereço. É gevrey? Não parece. É Vosne? Mas e as especiarias? Não é chambolle, pela elegância?

Não. Estamos em Vosne Romanée, mais precisamente no melhor (sim, aqui tomamos partido) premier cru da terra em que não existem vinhos comuns: Malconsorts. Safra 2008, domaine montille, que ainda faz um malconsorts especial, denominado de Christianne, homenagem à esposa de Hubert de Montille, parcela que está colada ao la Tâche. Um Borgonha no seu momento de degustação.

Quinto tempo: filé Rossini com lascas de tartufo nero. Aqui entra mais um tinto cujo aroma de pitanga lembra a Borgonha de novo. Mas é uma pegadinha? lembra que ele levou aquele moulin do Foillard? Porra. Mas isso é pinot. Onde estamos? Volnay? Não. Estamos em chambolle musigny, nas mãos de Faiveley, no premier cru de Combe Orveau, safra 2013. E logo ele ganha a companhia de um tinto servido do decanter.

Estamos em Bordeaux? A mulher do Nelson diria que sim, porque estamos com aroma de bolsa e sapato de couro velhos. Ou é italiano? Ou é californiano?

Não, é bordeaux mesmo e não é qualquer um: chateau Margaux, a referência de Margaux, um dos cinco premiers grands crus classés e um dos quatro classificados em 1855 (Mouton levou apenas em 1973). Nesse momento, sempre recordo das tardes da pensão Santo André ou da Vila Madalena, quando fumávamos depois da refeição e o Nelson brindava com comentários. Os grandes Bordeaux vão além do departamento de bolsas e sapatos das mulheres e se estendem por outras áreas, como a de tabacaria, da caixa de charuto aos puros tabacos de Havana. Margaux tem um conjunto de elegância e potência que lembra um Cohiba. Foi o vinho que deixei na taça no final para arrematar após a sobremesa. Pode nessa safra não ser um gigante, mas é sempre um vinho a se reverenciar.

Sexto round: pudim de pistache com mel e um vinho de sobremesa de elegância. Markus Molitor e seu zeltinger scholsberg auslese 2017, dois asteriscos, que mostram a maturidade mais tardia das uvas e a seleção especial de colheita de um produtor perfeccionista ao extremo.

Chegamos ao fim de uma festa de babette. Ao término, ao andar pelas ruas para chegar em casa, só se pode contemplar as estrelas e rememorar os vinhos, a comida, os amigos e os momentos compartilhados. O que é a vida?

Um brinde a vinho com segredo, que venham outros aniversários e que Baco nos proteja! Com e sem segredo!

A santíssima trindade francesa

13 de Outubro de 2019

Quando juntamos Champagne, Bourgogne e Bordeaux, só pode sair coisa boa. São regiões modelos em seus estilos de vinhos com várias cópias mundo afora, mas poucas com sucesso. Foi o que aconteceu num agradável almoço com meu amigo Roberto Rockmann onde a enogastronomia reinou soberana.

casamento perfeito

A entrada começou arrasadora com o excelente champagne Agrapart, um dos mais premiados na atualidade. Trata-se de um millésime 2012 Blanc de Blancs de vinhedos Grand Cru sob a cuvée Mineral. É exatamente esta palavra que define esta maravilha. Passa cinco anos sur lies antes do dégorgement. Sua versão extra-brut tem apenas 3 g/l de acúcar residual. Extremamente seco, mineral, acidez cortante, e toda a classe da Chardonnay neste terroir calcário. Corpo leve, elegante, final salino, de muita sapidez. Não é à toa que este champagne tem 95 pontos com apogeu previsto para 2030. O carpaccio de salmão com molho de limão siciliano, azeite, sal, mostarda de Dijon e mel, ficou perfeito. A acidez de ambos bem como as texturas se equilibraram perfeitamente. O sabor de peixe in natura com o molho valorizou o sabor delicado e inciviso do champagne. Uma combinação leve e estimulante para o andamente do almoço.

outra harmonização de classe

Não é todo dia que nos deparamos com um Corton-Charlemagne do tradicionalíssimo produtor Bonneau du Martray 2004. Um vinho de extrema classe, cheio de sutilezas. A madeira dá uma leve pincelada em seus aromas que mesclam frutas brancas delicadas, notas florais e um fundo mineral. Sua textura em boca é singular, lembrando um Chablis Grand Cru. O que mais impressiona neste vinho é sua juventude, embora já com quinze anos. Tem acidez e estrutura para ganhar pelo menos, mais dez anos em adega. Essa textura delicada foi muito bem com o cuscuz marroquino com caldo de frango feito em casa, cenoura, pimentão vermelho e um toque de gengibre para levantar o sabor. As vieiras com o coral por cima foram levemente grelhadas, onde posteriormente foi feito um redução com saquê e molho de ostras. O sabor adocicado das vieiras encontrou eco nas frutas do vinho e sua textura levemente amanteigada. Sabores de muita classe e sutileza se harmonizando perfeitamente.

mais um ótimo nota 100

No prato principal, Bordeaux não deixou por menos, La Mission Haut Brion 1989. Um vinho com 30 anos que ainda não está totalmente pronto, mas incrivelmente delicioso. Uma aula de taninos em profusão de rara textura. Seus aromas terrosos, de tabaco, ervas finas e um fundo de café, são de extrema classe. Em boca, outra perfeição. Não sobra álcool, acidez, e nem taninos, tudo em harmonia. Persistência aromática notável. O blend La Mission tem alta proporção de Merlot, embora a soma das Cabernets seja majoritária. O vinho passa pouco mais de 20 meses em barricas novas, totalmente integradas ao conjunto. O filé com ervas frescas à milanesa acompanhado de tagliatelli com molho de funghi porcini ficou muito adequado aos aromas e a classe deste grande tinto. Os terrosos do vinho com o funghi foi um caso à parte. O vinho pode se expressar em sua plenitude sem ser arranhado pelo prato. Um gran finale!

a mousse reconfortante!

Adoçando agora o paladar, uma deliciosa mousse de morangos frescos com sua própria calda. Ao final, uma bela grappa Levi estupidamente gelada, refrescando e animando o paladar para fora da mesa, onde Puros e destilados fechariam a tarde.

Trinidad e Hoyo de Monterey com Fine Bourgogne DRC

Um belo café, Porto Reserva, dando início aos Puros. As duas marcas muito elegantes com charutos de média fortaleza. Após o primeiro terço, Fine Bourgogne DRC, um brandy da região, Cognac Martell e  Bourbon Wild Turkey Rye 101, formaram o arsenal para baforadas mais intensas. 

Almoço bom é assim, começa com champagne e termina com fumaça, além de um meio de campo bem recheado. Que outros venham em breve!

O vinho e o tempo

17 de Dezembro de 2017

Como é difícil prever a longevidade de um vinho, sem falar nas questões de gosto pessoal que variam imensamente. Embora os tintos tenham mais atributos para vencer o tempo, alguns brancos parece seguir o mesmo caminho.

Vamos nos ater somente a vinhos secos, de mesa, de duas grandes regiões francesas: Bordeaux e Bourgogne. Uma dupla de brancos e uma de tintos.

uma década de diferença

Pessac-Léognan

Na foto acima, temos uma double magnum de Smith Haut Lafitte 2000, um dos mais prestigiados chateaux para brancos bordaleses, embora faça tintos também. O tamanho da garrafa traz mais um fator de longevidade onde a evolução do vinho é mais lenta. Esses vinhos costumam ser uma mescla de Sauvignon Blanc e Sémillon em partes quase iguais. Particularmente para este Chateau e nesta safra, temos 95% Sauvignon Blanc e 5% Sauvignon Gris, nada de Sémillon. Embora o vinho seja fermentado em barricas com posterior processo de bâtonnage, o fato de não haver Sémillon, afeta de maneira significativa a longevidade do vinho. Afinal, é esta uva que dá estrutura e potência ao conjunto. O que segura de fato neste caso, é a bela acidez da Sauvignon Blanc. Entretanto, sozinha, não consegue caminhar por períodos muito longos. Como este é um vinho de exceção, encontra-se no auge aos 17 anos de idade. Muita fruta no aroma, toques de mel e flores, e uma textura macia pelo contato sur lies. Começa insinuar alguns toques oxidativos bem discretos. A própria cor denuncia o fato, pois seus toques dourados claros são bem evidentes. É hora de beber.

Corton-Charlemagne

Assim como no caso bordalês, Bonneau du Martray produz tintos e brancos. Os vinhedos ficam na montanha de Corton com amplo destaque para os brancos. Seu perfil é elegante, altivo e bem mineral. Este é um terroir que me agrada muito pela textura e mineralidade de seus vinhos que de certo modo, lembram os grandes Chablis Grands Crus como Les Clos, por exemplo. Novamente, um trabalho preciso e marcante em barricas e posterior bâtonnage. Neste solo com alta porcentagem de calcário, a Chardonnay ganha elegância e acidez notáveis para uma grande guarda. De fato, este 1991 com seus 26 anos não sente a passagem do tempo. A própria cor, muito mais clara e jovial se comparada ao bordalês. Pelo vigor, pela vivacidade, pelo equilíbrio, é vinhos para mais dez anos com muita segurança. E olha, que estou falanda de garrafa standard (750 ml). Coisas da Borgonha. Aqui, a Chardonnay ganha outra dimensão.

trajetórias diferentes

Praticamente tintos de mesma idade, sendo os dois exemplares em double magnum. Brigar com a longevidade de um grande Bordeaux não é para qualquer terroir, mesmo se tratando de Borgonha. Aqui, chega a ser até covardia, dada a procedência de cada um dos vinhos.   

Clos Vougeot

Um dos Grands Crus mais polêmicos da Côte de Nuits, este exemplar parte não de um produtor, mas um negociante de prestígio na região, Dominique Laurent. Ele gosta de comprar e educar os vinhos em sua coleção própria de barricas. A safra 99 é muita boa, generosa em aromas e de textura muito agradável. O vinho tem até um bom extrato, concentração, mas falta uma lapidação mais apurada. Pessoalmente, acho a madeira um pouco invasiva, tirando aquelas sutilezas tão apreciadas nesses caldos delicados. Um vinho que encontra-se no auge, pronto a oferecer seu melhor, ainda com bom poder de fruta. Já se fosse um Méo-Camuzet ou um Domaine Leroy, a história seria bem diferente. Saudades de Clos Vougeot Leroy 1988 …

Chateau La Mission Haut-Brion     

Voltamos à Pessac-Léognan e a comparação com seu eterno rival, Haut-Brion, é inevitável. Embora de estilos diferentes, são vinhos de altissimo nível, capazes de romper décadas. Haut-Brion tem a sutileza de um Lafite, enquanto La Mission tem a força de um Latour. Neste exemplar da safra 2000, estamos diante de um nota 100. E aqui não tem conversa, é um vinhaço. Com seus 17 anos de idade, realmente é um adolescente com todo o vigor. A cor ainda impenetrável, os aromas minerais, de frutas escuras e defumados, são intensos e austeros. Uma estrutura de taninos admirável, densa, profunda, e de alta qualidade. Vai precisar de décadas para polimerizar tudo isso. Apenas com um ano de diferença do Borgonha citado acima, a comparação é cruel. Seria como um bom carro de luxo lado a lado com uma Ferrari. Não dá para a saída …

Voltando ao tema

Terroir é um conceito que precisa sempre ser interpretado com precisão e filosofia bem definida. Cada produtor em sua porção de terreno, procura extrair suas potencialidades e particularidades no sentido de imprimir um DNA seu, distinto, que marque o estilo de seus vinhos.

No caso do Smith Haut Lafitte, bordeaux branco, a opção pela Sauvignon Blanc de maneira exclusiva é sua marca diferenciada. Já Bonneau du Martray, segue o classicismo absoluto na montanha de Corton, potencializando sua mineralidade sem invenções.

No caso dos tintos, Dominique Laurent imprime seu estilo próprio nos vinhos que educa em suas barricas. Paga um preço caro por esta distinção,  já que o homem deve interferir até certo ponto num terroir cheio de sutilezas.

Por fim, La Mission Haut-Brion. A conjunção perfeita do terroir (solo, clima, uvas e interpretação humana). Numa safra magnífica como 2000, as características são potencializadas numa estrutura monumental. Aqui, só o tempo, a longevidade, são capazes de traduzir na taça este futuro promissor.

 

Corton-Charlemagne: A montanha mágica

30 de Dezembro de 2015

Em minhas aulas sobre Terroir, a montanha de Corton é um exemplo inconteste que este conceito existe e é palpável. A composição de solo neste caso, determina criteriosamente o plantio de Chardonnay e de Pinot Noir em porções bem definidas. Hugh Johnson em seu livro diz que há uma espécie de Alice no País das Maravilhas permeando esta montanha, capaz de mudar repentinamente o cenário e nossas percepções.

A parte mais alta da montanha, rodeando seu cume, é rica em fragmentos de calcário, fazendo um terroir perfeito para a Chardonnay. Abaixo desta zona, no meio da montanha, a argila ganha força na composição do marga (mistura judiciosa de argila e calcário), tornando o solo mais frio e propicio ao cultivo da Pinot Noir. Deste raciocínio saem dois vinhos mágicos, ambos Grand Cru, o branco Corton-Charlemagne e o tinto simplesmente Corton, o único Grand Cru em Pinot Noir da Côte de Beaune. Especialmente neste artigo, falaremos do branco Corton-Charlemagne de um produtor de destaque, referência para a apelação.

Bosque de Corton ao fundo

A primeira vez que provei um Bonneau du Martray, o vinho estava num período de latência, sem grande expressão, mas ao mesmo tempo, dava para perceber o grande potencial de guarda do mesmo. A safra era de 1985, grande ano na Borgonha, como de modo geral em toda a Europa. Este branco Corton-Charlemagne, é um dos Grands Crus da Côte Beaune com características totalmente distintas.

Se Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet e Meursault, são vinhos que falam entre si, o branco de Corton tem personalidade diferente, mais próxima aos Grands Crus de Chablis. Seus aromas lembram a mineralidade do Chablis, mas a textura tem um Q de Beaune, sem perder a semelhança com um Les Clos, o mais vigoroso entre os Grands Crus de Yonne.

bonneau du martray

veja a luminosidade desta cor no decanter

No exemplar acima com onze anos de idade, a cor se destaca pela jovialidade e o brilho dos grandes vinhos. Os aromas têm sempre algum mistério, mas notas sutilmente cítricas, florais e um fino boisé, são claramente percebidos. Em boca, impressiona como um autêntico Grand Cru. Percebe-se de início aquela tensão e mineralidade do Chablis, mas ao mesmo tempo uma maciez, uma densidade, com aquele Q de Beaune. O frescor, a vibração, a persistência e o equilíbrio, são notáveis. Pelo seu vigor, podemos vislumbrar pelo menos mais dez anos de guarda.

Alguns dados sobre Bonneau du Martray Corton-Charlemagne: vinhas de 45 anos divididas em 16 parcelas. Fermentação com leveduras naturais. Utilização de carvalho na fermentação e amadurecimento por 12 meses, sendo somente 30% novo. Trabalho judicioso de bâtonnage (contato sur lies revolvendo as borras).

Os grandes brancos da Borgonha

  • Bâtard-Montrachet – textura semelhante a Meursault com mais complexidade
  • Chevalier-Montrachet – elegância de um Puligny-Montrachet beirando a perfeição
  • Montrachet – (Bâtard + Chevalier)²
  • Corton-Charlemagne – Chablis Les Clos com textura de Beaune
  • Chablis Grand Cru – mineralidade e intensidade