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Facetas do Rhône

10 de Julho de 2015

Saindo de Bordeaux e Bourgogne, o destino natural do vinho francês é o Vale do Rhône, sobretudo quando se pensa em tintos. Fazendo a transição entre o sul da Borgonha e a Provença, o Vale do Rhône divide-se em dois macro-terroirs: o Rhône Norte e o Rhône Sul, conforme mapa abaixo:

Rhône Norte e Rhône Sul

O mapa acima mostra claramente um fator de terroir evidente, a forte mudança de relevo, topografia, entre o norte e o sul da região. A norte, temos escarpas dramáticas junto ao rio, obrigando as vinhas treparem em terraços. A declividade, as inclinações podem chegar a 70%, ou seja, quase sessenta graus em declive. Esta é a razão dos vinhedos do norte estarem muito próximos ao rio, numa faixa estreita de terreno. Já no Rhône Sul, o relevo é bem mais amplo, muito menos acentuado, e as vinhas portanto, podem se espalhar para mais longe do rio. Aqui também, o clima se torna mais quente.

Feita a introdução, passemos a alguns vinhos degustados na importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) sob o comando didático de  Hervé  Robert, diretor do Domaine Delas Frères. Quatro tintos se destacaram conforme comentários abaixo.

Bela alternativa aos caros Châteauneufs

Vacqueyras Domaine des Genêts 2012

Vacqueyras é uma apelação criada nos anos 90 vizinha ao famoso tinto Châteauneuf-du-Pape, e tem como concorrente uma apelação contígua chamada Gigondas. São cerca de 1.300 hectares de vinhas, bem menor que os 3.000 hectares em Châteauneuf-du-Pape. É uma bela alternativa de preço em relação ao tinto mais famoso do Rhône Sul, e muitas vezes superior a vários Châteauneufs de negociantes, preocupados mais com os preços e a fama, do que com a qualidade em si. Preço na importadora: R$ 138,00 (cento e trinta e oito reais). Vinho em torno de 90 pontos para Robert Parker com seu devido entusiasmo pelo Rhône.

A boa safra de 2012 mostra o corte típico do sul da região, o famoso GSM (70% Grenache, 20% Syrah e 10% Mourvèdre). O vinho passa cerca de 30% em barricas de carvalho, na sua maioria não novas, e o restante com cubas inertes para a preservação da fruta e evitar a micro-oxigenação. Mostra-se num bom momento para consumo, com fruta madura, notas de especiarias, ervas, e defumados lembrando incenso. Bom corpo, macio, caloroso, sendo uma ótima opção para noites frias.

Crozes-Hermitage confiável

Delas Freres Crozes-Hermitage des Grands Chemins 2010

Agora estamos no chamado Rhône Norte, onde impera o reino da Syrah em solo granítico. Muito cuidado com a apelação Crozes-Hermitage com cerca de 1.300 hectares de vinhas em uma vasta área ao redor do astro maior, o grande Hermitage. A diversidade de solos, topografia do terreno, ângulo de inclinação e a filosofia do produtor, podem levar a vinhos bem diversos e ao mesmo tempo, com exemplares decepcionantes. Neste caso, o vinho acima da bela safra de 2010 tem 92 de Robert Parker. Preço: R$ 225,00 (duzentos e vinte e cinco reais).

O vinho degustado, 100% Syrah, mostrou-se novo em cor, praticamente sem evolução. Seus aromas de frutas escuras, notas defumadas (embutidos), minerais e de especiarias estão bem presentes. Vinho de bom corpo, com um belo frescor, taninos presentes e de boa qualidade. Muito bem equilibrado e razoavelmente persistente. Deve evoluir bem em garrafa, sendo sua decantação obrigatória com boa aeração, sobretudo nesta fase de juventude. O vinho passa de 10 a 14 meses em barricas de um a três anos de uso, conforme a potência da safra.

Cornas com boa tipicidade

Delas Freres Cornas Chante Perdrix 2010

Continuando no Rhône Norte, temos a apelação Cornas 100% Syrah, como bela alternativa aos caros e badalados Hermitages. Chamado com certo exagero como Hermitage dos pobres, este terroir trata-se de vinhas encravadas num terreno de anfiteatro de clima quente e forte insolação. São vinhos potentes, densos e com bom poder de longevidade. Parker confere a este exemplar 90 pontos. Preço: 395,00 (trezentos e noventa e cinco reais).

O vinho degustado mostrou-se com uma cor escura, praticamente sem evolução. Seus aromas lembram frutas escuras em licor, alcaçuz, especiarias e traços de torrefação (café). Encorpodo, macio, e com boa tanicidade. Persistente, bem acabado e agradavelmente quente. Pede pratos encorpados. O vinho passa entre 14 e 16 meses em barricas de primeiro a terceiro uso, dependendo da safra.

Saint-Joseph de alta costura

Delas Freres Saint-Joseph Sainte Epine 2011

Neste ultimo exemplar, temos a apelação Saint-Joseph com 100% Syrah. Mais uma vez, cuidado!. Trata-se de uma apelação vasta em área de vinhas a sul de Côte-Rôtie. Novamente, a localização do vinhedo e a filosofia do produtor são fundamentais. Neste caso, estamos falando de um vinho muito especial de um vinhedo único (Vin Parcellaire) chamado Sainte Epine, produzindo apenas 4.000 garrafas por safra, e somente em anos especiais. Parker confere 93 pontos para este vinho. Preço: R$ 485,00 (quatrocentos e oitenta e cinco reais).

A safra de 2011 produziu vinhos agradáveis para beber jovens com taninos bem moldados. O vinho degustado apresentou cor muito semelhante ao Cornas, fato já diferenciado nesta apelação. Os aromas são muito elegantes com madeira fina. Aqui temos uma passagem por barricas novas entre 14 e 16 meses, conforme a safra. Mas de modo algum ela é dominante. Seus aromas mostram uma pureza de fruta, toques lácteos, florais e de especiarias. Relativamente encorpado, belo frescor e boa estrutura tânica. Boa persistência aromática, taninos muito finos e um final muito bem delineado. Falta um pouco de integração entre fruta e madeira, fator que certamente será solucionado com o devido tempo em adega. Um dos melhores Saint-Joseph já degustados.

Vale do Rhône: Parte X

4 de Junho de 2012

Neste último artigo, falaremos dos números atuais do Rhône. Segundo nosso site oficial (www.rhone-wines.com), a colheita de 2010 mostra os seguintes dados abaixo:

Dê um zoom no mapa acima

O Vale do Rhône é atualmente o segundo maior vinhedo da França. Em 2010, foram elaborados mais de dois milhões e oitocentos mil hectolitros de vinho numa área  de quase setenta e quatro mil hectares. A maior apelação de longe, é Côtes-du-Rhône. Com praticamente hum milhão e quatrocentos mil hectolitros, responde por quase metade de todo o vinho produzido no Vale do Rhône, conforme gráfico abaixo:

Vale do Rhône – Produção total: 2.833.154 hectolitros

Notem no gráfico acima que a apelação Côtes-du-Rhône Villages tem produção bem menor. Chamamos de principais apelações, aquelas mais famosas como Hermitage, Côte-Rôtie, Cornas, entre outras. Dentre estas, destaquei a apelação Châteauneuf-du-Pape com a maior produção entre as chamadas principais apelações, com somente três porcento de todo o total produzido.

As chamadas outras apelações incluem as seis últimas apelações citadas no último post (Vale do Rhône: Parte IX), destacando-se em produção, Costières de Nîmes, Luberon e Ventoux.

A porcentagem na elaboração de vinhos tintos em todo o Vale do Rhône é de 80%, ficando os rosés com 14% e os brancos com 6%. Evidentemente, conforme a apelação e os vários grupos de apelações, essas porcentagens variam um pouco, mas não há dúvida  que trata-se de uma região fundamentalmente de tintos.

Por hora, fazemos uma pausa neste importante vale, retomando o assunto em ocasiões e artigos oportunos.

Vale do Rhône: Parte IX

31 de Maio de 2012

Após uma série de apelações famosas do extenso Vale do Rhône, chegamos às apelações mais periféricas, muitas delas influenciadas ora pelo terroir provençal, ora pelo terroir do Languedoc. Em nosso site de referência para esses artigos (www.rhone-wines.com), as seis apelações abaixo descritas são catalogados como apelações do Vale do Rhône, e não apelações das Côtes (encostas), por ficarem relativamente longe das imediações do rio Rhône.

Dê um zoom no mapa acima

 

Costières de Nîmes e Clairette de Bellegarde

Duas apelações bem ao sul do Rhône, num clima mais quente e com muita infuência do Languedoc, situado mais a oeste do mapa.

Costières de Nîmes foi promovida à apelação em 1986, produzindo sobretudo tintos e rosés, com apenas 10% de vinhos brancos. O corte GSM (Grenache, Syrah e Mourvèdre) é liderado pela Grenache com alguma adição de Cinsault e Carignan. São vinhos relativamente simples, para o dia a dia.

Apesar de antiga (apelação desde 1949), Clairette de Bellegarde apresenta produção muito pequena, com área em torno de sete hectares. São vinhos brancos com a uva homônima (Clairette) de fácil oxidação. Devem ser tomados jovens.

Côtes du Vivarais e Grignan les Adhémar

As duas apelações estão na mesma latitude, uma de cada lado do rio Rhône. Côtes de Vivarais é uma apelação relativamente pequena com 406 hectares, criada em 1999. Elabora tintos, rosés e alguns brancos, com as uvas típicas do Rhône, já mencionadas em várias oportunidades.

Grignan les Adhèmar é o nome recente da apelação Coteaux du Tricastin. A mudança ocorreu devido ao nome Tricastin estar envolvido em pequenos acidentes nucleares na região. A apelação engloba mais de 1600 hectares, com vasta predominância de tintos (72%), seguida por rosés (22%) e brancos (6%). São vinhos agradáveis para o dia a dia, sem grandes pretensões.

Luberon e Ventoux

Luberon conforme mapa acima, tem clima muito mais provençal com alguma infuência dos Alpes meridionais. Prova disso, é a grande produção de rosés (48%), quase metade de todos os vinhos, seguida por tintos e brancos em proporções relativamente iguais. A área de plantio é de 3200 hectares de vinhas e as uvas são as mesmas do Rhône, com as brancas sofrendo forte influência da Provença, a exemplo das típicas Vermentino (chamada localmente de Rolle) e Ugni Blanc.

O rio Coulon determina os limites entre as apelações Luberon ao sul e Ventoux, ao norte. A apelaçãoVentoux data de 1973 e é a maior em produção e área das seis citadas neste artigo. Com mais de seis mil hectares, Ventoux produz sobretudo tintos (64%) , rosés (32%) e um pouco de brancos (apenas 4%). O relevo é montanhoso, culminando com o monte Ventoux atingindo 1912 metros de altura. O clima é provençal com as montanhas e a aproximação dos Alpes meridionais refrescando as vinhas. Nos tintos e rosés predominam a Grenache, Mourvèdre, Cinsault e e Carignan. Nos brancos, as uvas locais já mencionadas em outras apelações, dominam os cortes.

Quem quiser provar vinhos destas duas últimas apelações que são maiores, e com alguma oferta de vinhos no Brasil, Paul Jaboulet Ventoux Les Traverses 2009 e M. Chapoutier La Ciboise Luberon 2009, ambos da importadora Mistral (www.mistral.com.br) e com preços atrativos, são belas opções.

 

Vale do Rhône: Parte I

3 de Maio de 2012

Uma das regiões clássicas francesas mais antigas, o Vale do Rhône, é berço de famosos vinhos como Hermitage, Châteauneuf-du-Pape e os triviais Côtes-du-Rhône.

Para enterdermos esta bela região é fundamental separarmos desde já, o chamado Rhône Norte do chamado Rhône Sul, conforme mapa abaixo:

Norte e Sul do Rhône: disposição diferente dos vinhedos

No mapa acima, a região do Rhône localiza-se abaixo da Borgonha, sempre tendo o rio Rhône como linha mestra, rio este que nasce na Suiça, alimenta o famoso lago Léman, entra em território francês de leste para oeste, fazendo um curva acentuada para o sul. Neste caminho, o indolente vento Mistral vai varrendo os vinhedos na trajetória do rio até chegar à ensolarada Provence.

Voltando ao mapa,  reparem como há uma faixa estreita de vinhedos na porção norte do vale, onde a topografia extremamente acidentada, faz com que as vinhas espremam-se em encostas bastante íngremes, semelhantes ao vale do Mosel, na Alemanha.

Já a porção sul do vale, os vinhedos espalham-se ao redor do rio Rhône, pois a topografia bem menos dramática, permite tal avanço das vinhas.

Além das diferenças topográficas entre Norte e Sul, há diferenças de solos, clima e composição das uvas. Enfim, fatores básicos de terroir que serão esmiuçados nos próximos artigos. Não percam!


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