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Esses caras chamados Taninos

3 de Setembro de 2016

Se você gosta de vinho e detesta química, basta saber que taninos são substâncias desagradáveis, ou seja, são adstringentes e amargas. Geralmente, o pessoal não gosta. Outra coisa, taninos são um dos maiores vilões na enogastronomia. Tanto o sal, como a acidez, potencializam sua ação, tornando um verdadeiro tormento combiná-los com certos pratos. Para comprovar, basta experimentar um Tannat com queijo azul (tipo gorgonzola) claramente salgado, e/ou uma salada com molho tendendo para a acidez, característica absolutamente normal.

Agora, se você gosta de vinho tinto e quer entender um pouco mais sobre este vilão, vamos tentar esclarecer o assunto sem que você precise fazer um doutorado em química.

taninos

o bom português: tânico ou tanante?

Os taninos presentes no vinho são supostamente naturais, embora haja na indústria química taninos sintetizados. Eles existem na natureza como forma de preservação e defesa das plantas frente a ataques de animais. Estão presentes nos vegetais, frutos e todo o material lenhoso. Além de adstringentes e amargos, são indigestos. Portanto, é um aviso de alerta ao predador, sobretudo insetos.

Quimicamente, os taninos são definidos como polifenóis, que nada mais são do que núcleos aromáticos ligados à hidroxilas (OH). Portanto, são substâncias altamente reagentes, solúveis na água e no álcool. Apesar de possuírem hidroxilas, característica comum dos álcoois, não devem ser confundidos com os mesmos, tendendo mais a substâncias ácidas.

Uma das reações mais importantes dos taninos e que nos interessa muito, são suas ligações com proteínas. Quando bebemos vinho tinto sem alimento, percebemos muito mais a sensação dos taninos. A explicação vem do fato dos mesmos reagirem com uma proteína da saliva chamada mucina, responsável pelo poder de lubrificação da mesma. Portanto, percebemos claramente aquela sensação de adstringência. Daí, uma das melhores pedidas para conciliarmos taninos com comida é combiná-los com carne vermelha suculenta, pelo menos ao ponto, grelhada corretamente, e rica em proteínas. Os taninos agradecem e deixam sua saliva em paz.

suculencia

suculência: os taninos agradecem

Os taninos que percebemos no vinho vêm em parte da própria uva, sobretudo as mais tânicas como Cabernet Sauvignon, Tannat e Nebbiolo, e em parte, das barricas de carvalho, principalmente as novas. Ocorre, que esses taninos pertencem a grupos diferentes chamados: taninos hidrolisáveis (da madeira) e taninos condensados (do vinho propriamente dito).

Taninos Condensados

São taninos mais estáveis, não hidrolisáveis, embora sejam solúveis em água, dependendo de sua dimensão molecular. Sofrem a polimerização, juntando-se em cadeias longas e assim, diminuindo a adstringência com uma textura mais agradável. Num certo momento da polimerização, precipitam-se formando sedimentos na garrafa devidamente adegada, o que chamamos também de borra.

A qualidade desses taninos está ligada à maturação fenólica do cacho de uvas, em última análise, de cada grão de uva, e também das partes envolvidas no processo de esmagamento e maceração das uvas. Os melhores taninos vêm da pele da uva, ou seja, a casca devidamente madura. O engaço (estrutura ramificada que sustenta os grãos de uva) e sobretudo as grainhas (sementes dos grãos), fornecem taninos de qualidade inferior, com adstringência e amargor demasiados. Se forem utilizados, mesmo com o passar do tempo do vinho em garrafa, o problema ameniza, mas persiste sem solução. Em alguns casos, de uma perfeita maturação das uvas, o próprio engaço pode ser vinificado junto, embora certos produtores não concordem com este procedimento. Na maioria das vezes, as uvas são totalmente desengaçadas.

Taninos Hidrolisáveis

Presentes na madeira de carvalho, matéria-prima importantíssima no amadurecimento dos vinhos tintos mais estruturados e ricos em taninos, os taninos da madeira são mais reativos formando o ácido gálico. Isso é importante na preservação do vinho em termos de estabilização de seus componentes. A micro-oxigenação fornecida pelas aduelas das barricas (ripas de madeira que forma o barril) reage sobretudo com os taninos hidrolisáveis da madeira, preservando assim da oxidação os taninos condensados do vinho. Portanto, para os vinhos sabidamente de guarda, os taninos condensados da uva e do vinho em última análise, seguem tranquilos numa lenta evolução em garrafa, se polimerizando lentamente, e contribuindo para a formação do chamado bouquet ou aromas terciários.

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    Barolo: rico em taninos, mas pobre em antocianos

Antocioanos

É um outro grupo de polifenóis responsável pela cor violácea dos vinhos tintos. São altamente reagentes, oxidando-se e polimerizando-se com facilidade. Não fornecem estrutura ao vinho em termos de corpo e também não são adstringentes. É importante separar bem estas duas famílias de polifenóis, taninos e antocianos, para entender a evolução de certos vinhos.

Por exemplo, um Beaujolais de boa qualidade e procedência costuma ter quando jovem uma coloração intensa e violácea por sua riqueza em antocianos. Com pouco tempo em garrafa, a cor decai rapidamente atingindo toques atijolados. Como ele é pobre em taninos, o vinho tem vida relativamente curta, oxidando-se rapidamente.

De modo contrário, quando nos deparamos com um Nebbiolo do Piemonte, Barolo ou Barbaresco, pobre em antocianos, sua cor não costuma ser muito intensa, tendendo ao atijolado em tempo relativamente curto. Contudo, a Nebbiolo é rica em taninos e daí vem a explicação pela incrível longevidade de seus vinhos.

pigeage

pigeage: extração de cor e taninos

Longevidade dos Tintos

Em muitos casos, o componente mais importante para um vinho tinto vencer o tempo, adquirindo complexidade e maciez, são os taninos. Para isso, os taninos devem ser de boa qualidade, em última análise, de boa textura, e em quantidade considerável, contribuindo para a estrutura do vinho. Essas características só são alcançadas com um ciclo de maturação da uvas estendido, visto que a maturação e acumulação fenólicas são mais vagarosas que o ganho de açúcar nas uvas. Os exemplos clássicos são a Cabernet Sauvignon na margem esquerda de Bordeaux, e a Nebbiolo no Piemonte para os vinhos Barolo. Duas uvas sabidamente tânicas.

Para que o trabalho de campo seja complementado com sucesso na cantina, esses taninos precisam ser extraídos com precisão e sem excessos. A temperatura ideal de fermentação fica um pouco acima de 30°C (trinta graus centígrados) e o tempo de maceração, inclusive pós-fermentativo é muito variado, podendo prolongar-se por algumas semanas.

Em contrapartida, a baixa extração de taninos quando queremos um vinho macio desde jovem, sem as características de um vinho de guarda, é fermentá-lo em temperaturas mais baixas, por volta de 25°C, e com macerações curtas. O clássico exemplo vem de boa parte dos tintos australianos, bastante frutados e macios.

Pronto, ficou mais fácil de digeri-los …

Bordeaux 1982

16 de Agosto de 2016

Logo de cara, um painel com oito Bordeaux 82 parece ser um paraíso, além de um porto seguro. Não foi exatamente o que ocorreu, embora como experiência, sempre prazerosa. Para começar, logo dois tintos bouchonée, um Léoville-las-Cases e um Lafleur. Uma pena, pois são dois belos 82. Outra decepção foi o Mouton 82, um pouco oxidado, cansado, longe do esplendor de uma boa garrafa.

bordeaux 1982

Bordeaux 82: rótulos de respeito

Felizmente, nem tudo é problema. Chega um Cheval Blanc divino, roubando a cena do almoço. Um margem direita delicado, elegante, soberbo, com todas as notas terciarias de um grande Bordeaux. Equilíbrio, taninos ultra finos, numa sinfonia de ervas finas, tabaco, couro, e incenso. Delicioso e talvez no seu melhor momento.

cheval 82

a nobreza de um grande Cheval

Outro que fez bonito foi o altivo Haut-Brion. Sempre elegante, agradavelmente evoluído, mesclando frutas, ervas, especiarias, notas terrosas e o característico toque animal. Bem próximo do grande Cheval. É um grande parceiro para pratos com trufas.

haut brion 82

sempre espetacular

Fechando o trio do almoço, o consistente, o aristocrático, o imponente, Chateau Latour. Personifica com maestria toda a essência de um Pauillac. O cassis impressionante, as notas de couro e tabaco, e uma estrutura de taninos portentosa. E sempre com a marca Latour, quase atingindo seu apogeu. Extremamente prazeroso de ser tomado, mas com uma guarda ainda de pelo menos mais dez anos. Um monumental margem esquerda.

latour 82 (2)

o imponente Latour

Um destaque dentre os pratos do Maní é esta leitoa com abóbora num sabor bem brasileiro. Um prato saboroso pelo assado e os toques adocicados do molho, cebolas e abóbora cambotcham. Ficou muito bem com o grande Cheval, o qual tinha acidez para combater a gordura e não necessitava de taninos na harmonização, e sim delicadeza, o que tinha de sobra.

mani leitoa

Maní: leitoa com abóbora

Para encerrar o almoço, nada menos que um Climens 1990, com seus 27 anos de plena juventude. Que equilíbrio! que delicadeza!. É o grande nome de Barsac, moldando um estilo elegante e menos opulento que os demais Sauternes. O poder de fruta, os toques de botrytis e o ponto certo entre açúcar, acidez e álcool. Agradavelmente macio, intenso, e longo, num final lindo com notas de marron-glacê.

climens 90

a delicadeza em forma de Botrytis

A sobremesa abaixo do restaurante Maní é uma releitura do quindim. Proporcionou um contraste de texturas muito interessante com o Sauternes, além da sintonia de sabores. O vinho com sua delicada untuosidade caiu como uma calda para a sobremesa, valorizando a sensação de ambos, prato e vinho.

mani quindim

Maní: a releitura do quindim

Falando um pouco das decepções, Petrus 82 novamente uma surpresa. É bem verdade, que 82 não foi um grande ano para este enigmático chateau. Normalmente, o rei de Pomerol está sempre aquém de seu apogeu e muitas vezes, irritantemente fechado, não quer conversa. Neste caso não, estava sem graça. Agradável para beber, mas sem a complexidade esperada. Em algum momento, ainde pego ele de jeito.

Quanto aos dois Pichons, um supostamente falso, nenhum agradou em cheio. E olha que Pichon 82 para muitos, é o melhor 82 de todos, o que não é pouca coisa. O mais interessante é que o supostamente falso, estava melhor que o sem grandes predicados verdadeiro. De certo modo tem lógica. Ninguém vai fazer uma falsificação barata com este tipo de vinho. Não tem dúvida que o falsário é um grande degustador.

coche 2013

a grande surpresa do almoço

Terminando pelo início, o vinho acima da Niepoort, notável casa do Douro, reputada pelos seus magníficos Colheitas, mostrou que agora existe o grande branco de Portugal. Ele foi servido às cegas ao lado de um Meursault-Perrières Leroy 1998. Deu um banho de elegância e sutileza, mostrando que as castas brancas do Douro quando bem trabalhadas, são capazes de fazer maravilhas. Fermentado em barricas francesas, essas vinhas entre 60 e 100 anos, geram vinhos profundos e sutis. Esse Dirk Niepoort sabe fazer vinho! E o nome Coche é de uma irreverência ímpar. Parabéns!

Agradecendo a companhia de todos presentes e lamentando a ausência de alguns, espero ve-los em breve para novos desafios e o bom papo de sempre. Abraço a todos!

Latour de Force!

1 de Maio de 2016

Um almoço a toque de caixa reuniu oito pessoas para uma mini-vertical de Latour, o poderoso tinto de Pauillac. Três pares de décadas diferentes proporcionaram a avaliação de longevidade e de consistência deste tremendo margem esquerda. Antes porém, um trio de brancos antecederam o sacrifício. Um champagne Jacques Selosse, um Chardonnay californiano Peter Michael Point Rouge 2005, e o elegantíssimo Domaine Leroy Corton-Charlemagne 2000, acompanhando o couvert multifacetado do restaurante Gero.

selosse substance

o exotismo em Champagne

O champagne Selosse Substance Blanc de Blancs é algo sui generis. É uma cuvée com várias safras de Chardonnay desde 1986, mantida em sistema solera (o mesmo de Jerez) com dégorgement em 2013. O resultado é um mix de Champagne e Jerez, ou seja, temos o frescor, a textura da mousse, próprios de Champagne, e ao mesmo tempo, toques de oxidação, frutas secas, bem ao estilo Jerez. Uma maravilha de entrada, enfrentando até uma porção de queijo Grana Padano em lascas.

leroy corton 2000

a definição de elegância

Em seguida, um embate desleal. Embora o branco americano fosse potente, equilibrado e com aromas bem presentes, a elegância de Madame Leroy deixou-o mais bruto e até um tanto tosco, usando uma palavra mais forte. Tem coisas que não se pode confrontar, pois a famosa frase diz: a comparação é cruel. Numa outra situação, num momento isolado, o branco poderia sair-se muito bem, mostrando suas qualidades.

latour vertical

Latour: 59, 64, 82, 85, 95 e 96

Partindo agora para as duplas de tintos, o primeiro embate deu-se entre Latour 1996 e 1995. Duas safras muito próximas em idade e qualidade. A prática demonstrou isso, provocando palpites diversos.  O que realmente ficou claro é que 1995 apresenta-se um tanto prazeroso para ser tomado agora, a despeito de sua longa guarda prevista. Já o 1996, mostrou-se mais austero, mais tânico, mas com um potencial imenso, vencendo anos a fio em boas adegas. Vinhos que devem ser obrigatoriamente decantados por algumas horas antes do serviço.

risoto gero

risoto com ossobuco para os 59 e 64

O segundo par reunia as safras 1982 e 1985, anos de grande destaque na década de 80. Por mais que eu ame os Bordeaux 85, vinhos de prazer, charme, sedução, confrontar 82 chega a ser um devaneio. Este foi o embate mais discrepante da degustação. Nos aromas nem tanto, mas o corpo, a textura em boca, e a persistência  aromática, foram fatores decisivos na avaliação. Safras prazerosas e de platô amplo de evolução.

costeleta de vitelo gero

costeleta de vitelo e creme de espinafre para os 82 e 85

O último flight foi dos velhinhos 1959 e 1964. E que velhinhos! Vinhos prazerosos, sem arestas praticamente, e muito bem acabados. Não porque é minha safra (nascido em 1959), mas a mesa concordou no extremo prazer em bebe-lo agora. Já o 64 não ficou atrás. Bem agradável de ser bebido, mas com taninos a resolver. Precisa de mais uns aninhos de guarda. Não tem jeito, Latour é Latour …

noval 1967

50 anos de pura elegância

A propósito, o pessoal da mesa se entusiasmou bastante com o 59, chegando a ponto  de alguns dizerem que ultrapassa o mítico 1961. Volto à frase acima: a comparação pode ser cruel. Pessoalmente,  o único Bordeaux com estrutura, poder de tanicidade e longevidade quase eterna para suceder o praticamente indestrutível Latour 61, é o Mouton 1986. Mas isso é uma outra história …

queijos azuis diversos gero

queijos azuis: cabra, ovelha e vaca

A finalização deste mega desfile de tintos não ficou por menos. Para acompanhar três queijos azuis, um Porto Noval Nacional 1967 foi devidamente decantado. Só lembrando, Nacional quer dizer parreiras pré-filoxera. Vinho de uma elegância e profundidade ímpares, pronto para ocasiões especiais. Depois de grandes safras de Latour, os sabores de Pauillac se prolongaram nos mistérios do Douro. Que venham outras encontros inesperados como este. Abraço a todos!

Paul Pontallier: Elegância e Nobreza em Margaux

28 de Março de 2016

Neste sexcentésimo artigo (600 artigos) gostaria de falar algo importante e de modo algum triste. Entretanto, apesar da tristeza, é acima de tudo uma merecida homenagem a um dos grandes homens do vinho, Paul Pontallier, Diretor Técnico do Château Margaux. Respeitado pela aristocracia bordalesa e por todos que cercam o mundo do vinho, Pontallier soube como poucos destacar, respeitar e promover o grande terroir do único Premier Grand Cru Classe de Margaux. Já em seu primeiro ano, em 1983, marca o chateau com uma safra histórica e uma das minhas preferidas deste grande tinto. Daí para frente, um caminho de sucessivos sucessos, mostrando mais uma vez a importância do fator humano num terroir de grande expressão.

Desde sua presença no chateau, fica claro e notório os detalhes e extremo cuidado na elaboração do “Grand Vin” a cada safra. Parker, um dos maiores especialistas em Bordeaux, fornece notas altíssimas e consistentes na grande maioria das safras lideradas por Pontallier. Infelizmente, neste março de 2016, ele nos deixou, vítima de câncer. Contudo, sua presença será perpetuada nas inúmeras safras com sua decisiva participação que com certeza, envelhecerão maravilhosamente nas mais famosas adegas do planeta por longos anos.

margaux 83

O grande tinto do Médoc na safra 83

Anos atrás, tive o privilégio de comandar e organizar uma vertical histórica do chateau desde 1900. Aliás, o vinho desta safra foi o melhor provado por mim até hoje, sem comparação com qualquer outro vinho, seja de que região for. Um tinto centenário com uma cor escura de grande preenchimento. Os aromas ainda joviais, com muita fruta, eram impressionantes. O sabor, o equilíbrio, o corpo, e a presença de taninos de cadeia longa totalmente polimerizados, promoviam uma textura em boca impar, com total integração com o álcool. Um vinho impressionante, imortal e quase indescritível.

Nesta degustação, comentada neste mesmo blog em artigos anteriores, as safras foram divididas em quatro grupos.

Os imortais: 1900, 1904, 1918, 1924, 1928, 1945 e 1961. destaque para 1900 e 1928.

Os maduros: 1947, 1953, 1959 e 1979, sendo 59 minha safra de nascimento.

Os vigorosos: 1982, 1983, 1985 e 1990. A safra do coração, 1983.

As promessas: 1986, 1995, 1996 e 2000. a safra 2000 foi um verdadeira infanticídio.

Recentemente, tive o privilégio de decantar uma Imperial (seis litros) da safra 1990. E realmente, o vigor desta safra é notável. Um vinho que está se revelando aos poucos, mas com muita qualidade, beirando a perfeição.

margaux 90

Imperial 1990 no cavalete

margaux collection

Margaux Collection

A família Château Margaux inclui também os vinhos Pavillon Rouge, o segundo tinto do chateau, muito comum na hierarquia bordalesa, e o Pavillon Blanc, seguramente o melhor branco de todo o Médoc. Um Sauvignon Blanc fermentado e amadurecido em barricas novas de grande complexidade e poder de envelhecimento.

Os vinhos da comuna de Margaux costuma ser definidos como femininos. De fato, o solo de Margaux tem uma presença importante de calcário que normalmente gera vinhos elegantes. Mas quando se trata de um Château Margaux, pense numa mulher forte, de fibra, sem perder a feminilidade. Neste chateau, a proporção de Cabernet Sauvignon é alta. Daí, seu poder de longevidade.

Fazendo um paralelo como os vinhos da Borgonha, temos a comuna de Chambolle-Musigny com a marca de feminilidade. Contudo, quem já provou um Les Amoureuses e um Musigny, lado a lado, percebe esta feminilidade muito mais facilmente em Les Amoureuses. Já o Musigny, esconde esta feminilidade atrás de estrutura monumental, fazendo dele um dos maiores de toda a Borgonha. Numa expressão famosa em sua referência diz-se que um Musigny na boca é como uma calda de pavão. O vinho se abre em sabores multifacetados. Voltando ao Margaux, Pontallier compara-o a um bailarino, que por trás de toda a leveza e elegância de sua expressão, dispõe de uma força descomunal para o equilíbrio da bailarina. Um pouco mais de Pontallier no vídeo abaixo:

https://youtu.be/-FVhJZ-3m0w

Assim era Pontallier; culto, afável, técnico, esclarecedor, e fiel a seu terroir. Château Margaux com certeza encontrou sua alma gêmea, unindo de maneira brilhante fatores naturais e humanos que são a essência de um grande terroir. Um brinde a Pontallier, do outro lado da taça!

Cuidado com o nível do vinho!

29 de Fevereiro de 2016

Os vinhos comprados em nosso dia a dia passam desapercebidos quanto ao nível do liquido dentro da garrafa. Por serem via de regra muito jovens, este nível não apresenta problemas, geralmente próximo à rolha em sua extremidade interna. Embora sejam situações de exceção, pode ocorrer um nível baixo dentro da garrafa fechada dando indícios de vazamentos decorrentes por exemplo, de mau arrolhamento, qualidade da rolha, refermentações por ações de bactérias, geometria defeituosa do gargalo, entre outros fatores. Não é o caso deste artigo. Aqui vamos falar do assunto quando se refere a vinhos antigos, de colecionadores, de grandes adegas, e evidentemente vinhos de alta qualidade e reputação no mercado, sobretudo internacional.

ullage

bordeaux antigos: níveis variados nas garrafas

O termo técnico para este parâmetro chama-se ullage (inglês) ou ouillage (francês). É o espaço de ar entre a superfície líquida e os limites aonde o líquido está contido. No caso, líquido (vinho) e o limite de espaço (rolha). Esse termo também é muito utilizado no caso das barricas de carvalho. Voltando ao assunto, com o passar do tempo, esse espaço tende a aumentar no envelhecimento dos vinhos, mesmo que as condições de conservação sejam ideais. Os motivos aceitáveis são absorção do vinho na rolha e discreta evaporação do líquido através de trocas gasosas pela porosidade da mesma, ou seja, o vinho de certa modo respira pela rolha no que chamamos de micro-oxigenação. Contudo, há limites bem definidos para a evolução desta diminuição do líquido. No esquema abaixo, elaborado por Michael Broadbent, Master of Wine consagrado e durante muito tempo, homem forte da conceituada Casa de Leilões Christie´s, fica mais fácil entendermos o assunto.

ullage bordeaux

esquema para garrafa bordalesa

Até os dois primeiros níveis partindo da base da rolha (entre 3 e 5 milímetros), não há problemas com o vinho para qualquer idade do mesmo. No terceiro nível (top shoulder), até 1,5 centímetros, é aceitável para vinhos antigos até 15 anos de idade. Num quarto nível, até 2,5 centímetros, é aceitável para vinhos acima de 20 anos de idade. Entre 3 e 3,5 centímetros, no final do ombro da garrafa, já poder haver possibilidade de oxidação e portanto, o preço deve levar em conta um certo risco. Níveis entre 6 e 7 centímetros ou valores maiores, o risco é extremamente grande e a “potabilidade” do vinho é bastante questionável.

comparativo: bourgogne x Bordeaux

No caso das garrafas borgonhesas, podemos definir alguns parâmetros: até 2 centímetros, aceitável para qualquer idade. Entre dois e três centímetros, vinhos até dez anos. De três a quatro centímetros, vinhos entre 20 e 30 anos de idade. Até 5 centímetros, vinhos em torno de 30 anos. Entre 6 e 7 centímetros, vinhos entre 35 e 50 anos. Acima de 7 centímetros, o risco pode ser grande. De todo modo, são apenas referências. As exceções são verificadas caso a caso.

Outras considerações em vinhos antigos diz respeito ao estado dos rótulos, cápsulas, e a própria cor do líquido, conforme parâmetros abaixo:

Rótulo

Dados ilegíveis como safra, produtor, vinhedo, graduação alcoólica, e cortes no rótulo com mais de meia polegada, são problemas para comercialização e leilões. É aceitável uma ligeira descoloração para vinhos acima de 15 anos. Rótulos ligeiramente manchados. Rótulos com inscrições e dedicatórias, ou cópias coladas no lugar dos mesmos, também são objetos de rejeição.

rótulos e cápsulas

Rolha

Situações em que a rolha está abaixo do topo da garrafa (mais de um milímetro), pode denunciar exposição do vinho a extremos de temperatura (freezer ou aquecimento). Também pode ocorrer certa oxidação. Pode haver rolhas com sinais de penetração por algum tipo de objeto.

rolha afundada

Cápsulas

Corrosão excessiva ou perfuração da cápsula causa desproteção para a rolha. Ausência da cápsula ou parte da mesma recortada é outro sinal de preocupação. Cápsulas de cera podem estar parcialmente inteiras ou até mesmo, totalmente removidas. Neste último caso, devem ser rejeitadas para compra. Cápsulas não originais podem ser indício de falsificação.

ullage e cor compatíveis para a idade

Cor do líquido

A cor do vinho dentro da garrafa trata-se de uma avaliação com certa margem de erro. De todo modo, alguns parâmetros devem ser considerados. Para vinhos brancos, especialmente borgonhas, a cor dourada é aceitável de acordo com a idade do vinho. Cores ambares ou amarronzadas devem ser rejeitadas. Para vinhos doces, especialmente Sauternes, são aceitas cores douradas até 15 anos de idade. Para vinhos mais velhos, a cor âmbar é aceitável. Uma cor muito escura, os riscos são grandes. Para os vinhos tintos até 15 anos de idade, a cor amarronzada é totalmente rejeitada. Vinhos mais envelhecidos devem ser avaliados caso a caso, pois há um clareamento na cor provocada pela precipitação de polifenóis.

taylor´s 1970

sedimentos do vinho

Numa garrafa de Porto Vintage envelhecido como da foto acima, podemos encontrar sedimentos bastante presentes no líquido. Basicamente são polimerizações de polifenóis, sobretudo dos taninos, inclusive impregnando a rolha.

Enfim, são muitos os parâmetros para avaliação de vinhos antigos. O conhecimento exato do histórico do vinho em termos de conservação é fundamental para a credibilidade e segurança nos critérios de avaliação acima mencionados.

Franceses em tempos de crise

1 de Fevereiro de 2016

Se você não abre mão de um bom vinho francês, ainda há solução sem desembolsar uma fortuna. O que a gente ve de porcaria nas prateleiras de supermercados é qualquer coisa de assombroso e ainda por cima, caro !!!. Portanto, vamos nortear uma das saídas, conforme sugestões abaixo:

  • Albert Mann Riesling Tradition 2014 – R$ 80,00

Belo produtor alsaciano com vinhos bem moldados e muita tradição. Este Riesling é para você não esquecer o charme desta uva onde as inúmeras tentativas mundo afora é geralmente frustrante.

  • Frédéric Magnier Crémant de Bourgogne Extra-Brut Blanc de Noirs – R$ 90,00

Bela alternativa para um champenoise autêntico. Elaborado com Pinot Noir, tem boa estrutura para ir à mesa com pratos leves de verão.

puligny boillot

Um de seus Premier Cru

  • Jean-Marc Boillot Bourgogne Blanc 2013/14 – R$ 60,00 (1/2 gf) e R$ 135,00 (750 ml)

Este produtor sabe os segredos de um belo Puligny-Montrachet. Portanto, seu Borgonha branco básico está garantido nas opções de meia garrafa ou garrafa inteira. Elegante, bem elaborado e sem sustos.

  • Gay-Coperet Moulin-à-Vent Vieilles Vignes 2013 – R$ 90,00

A primeira dica para se comprar um bom Beaujolais, típico tinto de verão, é não estar escrito Beaujolais no rótulo. Moulin-à-Vent é a comuna de maior expressão desta apelação. As vinhas antigas garantem autenticidade e concentração.

champagne arlaux

Cuvée Especial

  • Arlaux Champagne 1º Cru Brut Grande Cuvée – R$ 220,00

Aonde você encontra hoje em dia um champagne por R$ 220,00? Já tem espumante nacional neste preço! Além do mais, trata-se de um champagne artesanal com vinhas Premier Cru. Na versão rosé, basta mais quarenta reais. Para os amantes da bebida, não há desculpa.

  • Yann Chave Crozes-Hermitage Rouge 2013/2014 – R$ 105,00 e R$ 115,00

Está cansado daqueles Shiraz pesados do Novo Mundo? Crozes-Hermitage é uma apelação onde o produtor faz a diferença. Esté Syrah é equilibrado, autêntico, e muito adequado nesta época do ano onde vinhos musculosos são enfadonhos.

Fleurie chignard

Outra bela opção em Cru du Beaujolais

Agora para os amantes de Bordeaux, sempre de boas safras.

  • Château Potensac 2005 – R$ 360,00

Tinto sempre confiável da excelente safra 2005. Já passando de seus primeiros dez anos, mostra o que um Bordeaux oferece a quem tem paciência. Tinto para pratos estruturados com excelente equilíbrio e classe.

  • Château Sociando-Mallet 2009 – R$ 400,00

Um dos mais confiáveis tintos do Médoc com jeitão de “Grand Cru Classe”. Outra bela safra com bons anos em adega pela frente. Taninos polidos, equilíbrio perfeito e longo em boca.

  • Château Meyney 2010 – R$ 240,00

Outra bela safra na região com ótimo potencial de guarda. Se for toma-lo agora, pelo menos uma hora e meia de decantação. A comuna de Saint-Estèphe costuma gerar vinhos de destacada acidez e certa austeridade quando jovens. Contudo, o tempo devolve tudo em dobro.

  • Château Haut-Bergeron Sauternes 2010/11 – R$ 120,00 (1/2 gf) e R$ 220,00 (750 ml)

Esta é por anos a fio a maior pechincha em Sauternes. Sempre muito consistente, independente da safra, traz toda a tipicidade de um Sauternes. E ainda, na opção de meia garrafa. Não corra riscos por aí.

Enfim, essas são dicas de compra neste feriado de carnaval que se aproxima. Passando por todos os tipos: espumante, champagne, brancos, tintos e vinho de sobremesa, temos franceses confiáveis. Muitos deles, com preços girando em torno de cem reais. Notem que não se trata de saldões, desovas ou coisa do gênero, tão comum nesta época.

Sem nenhum interesse e para sua facilidade, todos esses vinhos num só lugar, importadora Cellar. O expert Amauri de Faria seleciona com carinho e conhecimento há anos, opções sempre interessantes a preços justos. http://www.cellar-af.com.br

Temas de Degustação

29 de Janeiro de 2016

Ao longo do ano, inúmeras confrarias programam seus temas para serem realizados em datas previamente divulgadas entre os participantes. Existem as famosas Verticais (um determinado vinho em várias safras), Horizontais (uma denominação de vários produtores numa mesma safra), Varietais (uma determinada uva), Regionais (geralmente regiões clássicas da Europa), e assim por diante. No entanto, certos temas podem ser polêmicos e muitas vezes surpreendentes. Nesto contexto, vamos explorar abaixo alguns desses embates.

1 – Pouilly-Fumé x Chablis

Apesar de estarem em jogo uvas diferentes, Sauvignon Blanc e Chardonnay, a mineralidade e textura de ambas apelações francesas podem confundir. Preferencialmente com safras novas, ou seja, vinhos jovens, esta disputa pode ser bastante acirrada. É evidente que particularidades de determinados produtores devem ser avaliadas para proporcionar um equilíbrio justo e confundir os degustadores.

raveneau 2012

Chablis e Pouilly-Fumé: mesmo tipo de taça

2 – Pessac-Léognan x Saint-Émilion

Bordeaux de margens opostas, mas que guardam certas semelhanças. Os tintos de Pessac-Léognan são os mais abordáveis na juventude e os que amadurecem mais cedo em comparação com as demais comunas da margem esquerda. A proporção de Cabernet Sauvignon costuma ser menor no corte, dando mais destaque ao Cabernet Franc e Merlot. Do outro lado, Saint-Émilion têm vários tintos com boa presença de Cabernet Franc no corte, além da onipresente Merlot. Portanto, são vinhos com corpo, textura e poder de longevidade parecidos, proporcionando uma disputa bem bacana.

3 – Pommard x Barolo

Novamente, uvas, regiões, e países diferentes, defrontando Pinot Noir e Nebbiolo. Pommard costuma gerar borgonhas com certa rusticidade, apesar de muita força e poder de envelhecimento. Neste raciocínio é que os poderosos e viris Barolos podem proporcionar uma batalha equilibrada, gerando dúvidas e conclusões confusas.

4 – Riesling Alsacianos secos x Alemães Trocken

Aqui o segredo é calibrar o teor alcoólico e o açúcar residual dos vinhos alemães. Quando estamos na categoria Trocken (seco) aí sim, os vinhos podem ficar bem parecidos. A região francesa da Alsácia se não for a única, é certamente a que mais se aproxima do padrão alemão de vinhos. Disputa interessante.

vertical la tache

Vertical: La Tâche

5 – Supertoscanos 100% Sangiovese x Brunellos

O detalhe acima quanto à soberania da Sangiovese nos Supertoscanos é fundamental, já que a ideia de deste termo é muito genérica e pouco elucidativa. É bem verdade, que apesar de tratar-se da mesma uva, a Sangiovese na região do Chianti Clássico apresenta um clone diferente com relação ao terroir de Brunello di Montalcino, conhecida localmente como Sangiovese Grosso. Sobretudo quando os vinhos têm uma certa evolução em garrafa, a briga fica bem acirrada.

6 – Corte Bordalês Americano x Bordeaux Margem Esquerda

Aqui a inspiração é o inesquecível desafio de Paris em 1976. Talvez a degustação mais famosa do mundo pelas consequências inevitáveis na época. O corte bordalês, embora seja reproduzido em várias regiões e países, só mesmo os Estados Unidos são capaz de confrontar os grandes tintos bordaleses de margem esquerda. Estou me referindo aos tintos de Napa Valley com alto grau de sofisticação. É evidente que precisam ser escolhas que priorizem a elegância, o equilíbrio, e não a potência e explosão de aromas. Stags´ Leap  Winery provou e ratificou isso.

bordeaux 61

Horizontal: Bordeaux 1961

7 – Pauillac x Saint-Julien

As apelações acima na chamada margem esquerda de Bordeaux são contiguas. Daí, a extrema semelhança dos vinhos. Embora Saint-Julien não tenha nenhum Premier Grand Cru Classe, seus Deuxièmes são de tirar o fôlego. Só para dar dois exemplos, temos Léoville Las Cases e Ducru-Beaucaillou. O primeiro tendendo para um estilo Latour (Pauillac) e o segundo, para um estilo elegante (Lafite). Dá o que falar este embate.

8 – Vouvray x Rieslings Alemães

Novamente, disputa entre uvas: Chenin Blanc e Riesling. Vouvray é uma das mais famosas apelações do Loire, gerando vinhos delicados e com diferentes graduações de açúcar residual (sec, tendre e moelleux). Neste contexto, os Rieslings alemães das categorias Kabinett, Spätlese e Auslese, apresentam o mesmo perfil. A mineralidade, a textura em boca, também são semelhantes. Embora aparentemente “frágeis”, o poder de longevidade destes vinhos é notável. Enfim, uma aula de delicadeza e elegância.

grandes espanhois

grandes espanhóis

9 – Barbarescos x Barolos

Aqui temos regiões muito próximas trabalhando com a mesma uva, Nebbiolo. Sabemos a priori, que os Barbarescos são menos complexos e menos longevos que seu concorrente mais ilustre. Contudo, não podemos esquecer de produtores mais modernos que dão força a estes vinhos, assim como temos vários estilos dentro da denominação Barolo. Portanto, se bem escolhidos, a briga é boa.

10 – Sauternes x Barsac

Duas apelações muito próximas separadas pelo rio Ciron elaborando os grandes vinhos doces bordaleses. Em resumo, podemos dizer que os vinhos de Barsac por questões de terroir, são mais elegantes e menos untuosos que os Sauternes. Entretanto, há Sauternes com perfis mais delicados, sobretudo quando a porcentagem de Sauvignon Blanc aumenta no blend com a Sémiilon, sempre majoritária. Esses detalhes, põem mais lenha na fogueira.

Em resumo, são temas apaixonantes, mas de custo elevado. Normalmente, mais interessantes para grupos que já têm uma longa estrada no mundo do vinho e portanto, mais experiência para avaliar este tipo de degustação, pois os vinhos devem ser bem escolhidos para o objetivo final ser atingido. De todo modo, há principiantes que gostam de trilhar caminhos diferentes dos habituais. Afinal, são nos erros que aperfeiçoamos os acertos.

Champagne, Bordeaux e Porto

27 de Outubro de 2015

Nada como iniciar uma refeição com Champagne. Seu frescor, sua harmonização com comidinhas de entrada, e seu final de boca sempre límpido, vivaz, preparando o paladar para a sequencia de vinhos, é perfeito. Neste caso, era um Barnaut Brut, carro-chefe da casa, com boa presença de Pinot Noir. Proveniente de vinhedos Grand Cru, dois terços são de Pinot Noir e  um terço, Chardonnay. O contato sur lies é de pelo menos dois anos. Quarente mil garrafas produzidas por ano.

champagne barnaut

Boa harmonização com patês

Na sequencia, acompanhando uma fraldinha ao forno com molho roti, temos este segundo vinho abaixo do Chateau Pichon Lalande, Rèserve de la Comtesse da bela safra de 2005. Apesar de seus dez anos, mostrou-se ainda jovem com muita fruta lembrando cassis, toques tostados elegantes e um fundo de tabaco. Como em seu blend há boa proporção de Merlot, seus taninos são polidos, fruto também da qualidade do ano. A madeira é bem dosada e seu final bastante harmônico. Os segundos vinhos em Bordeaux costumam agradar nas belas safras  da região. É impressionante a longevidade sempre constatada nos bons bordaleses.

reserve de la contesse

Bordeaux de equilíbrio notável

Fechando a refeição e seguindo com os Puros, um Porto Colheita de estupenda qualidade. Trata-se de um Krohn 1983 engarrafado após 27 anos envelhecendo nas tradicionais pipas, como mostra a foto abaixo. Esta informação obrigatória é sempre importante para avaliarmos o tempo de envelhecimento destes tesouros. Após o engarrafamento, cessa sua evolução. Seus aromas terciários são incríveis mesclando caramelo, frutas secas, especiarias, toques balsâmicos e muito mais. Sua doçura é maravilhosamente equilibrada por sua notável acidez. Persistência aromática expansiva.

porto colheita 83

Um Colheita de rara beleza

Acompanhando o Porto, os Puros abaixo fizeram bonito. O Partagas P2 expressa toda a potência característica da casa desenvolvendo-se bem ao longo da degustação. Já o Bolivar Belicosos, foge um pouco da fortaleza da marca com toques elegantes, mas com muita personalidade. Duas expressões magnificas de Cuba.

partagas e bolivar

Marcas tradicionais e consistentes

Enfim, três belos vinhos expressando com fidelidade o terroir de suas respectivas regiões. Só mesmo os vinhos para transmitir com riqueza e harmonia sua incrível diversidade de estilos, aromas e sabores. Aliados à boa gastronomia, fica tudo perfeito.

Bordeaux 1961: Vivace

25 de Agosto de 2015

Deixamos para o final algumas preciosidades sem entretanto, ofender as maravilhas dos artigos anteriores. É que este último grande 1961 motivou o tema da degustação. Trata-se do Château Latour à Pomerol, o único margem direita do painel. Tudo começou com um relato de Mr. Parker comparando este 61 com o mítico Cheval 47 e o colocando no topo da lista. Foi o suficiente para fazermos a prova. Aliás, em defesa de Robert Parker, um degustador polêmico e temido, devo dizer que ele é mestre em Bordeaux. As outras regiões eu não discuto, mas Bordeaux, este é o cara. Todos os vinhos degustados nesta série de artigos batem com seus comentários e notas.

Magnum nas mãos do mestre Beato

Vamos então à estrela da tarde. A cor escura impressiona pela intensidade e profundidade. Os aromas são avassaladores, passando por aquela fruta deliciosa e decadente dos grandes de Pomerol. Outros aromas de evolução como humus, sous-bois, alcaçuz, toques de menta, terrosos e finas especiarias inundaram as taças. Ótimo momento para ser provado. Em boca, é extremamente sedoso, generoso e com uma integração álcool/taninos que só essas raridades possuem. São taninos de cadeia longa, totalmente polimerizados e que se fundem ao álcool criando uma textura única. Grande persistência, final expansivo, reverberando todas essas sensações em golpes sincronizados. Uma maravilha!. Porém, tudo tem um senão. Eu não ia falar nada, tal a raridade do momento e o entusiasmo dos confrades, mas mestre Beato não perdoa, é implacável. O vinho tinha um leve bouchonné, mas muito tênue, a ponto de ser quase confundido com o sous-bois também presente, que trata-se de um aroma evoluído de decomposição de folhas úmidas. Conclusão, o vinho era tão maravilhoso e o bouchonné tão desprezível, que dane-se o bouchon! Nota cem com louvor!

Alguns mimos entremeando a degustação: costelinha e canjiquinha

A carne de porco como da costelinha acima vai muito bem com esses tintos evoluídos. Os taninos ficam na medida certa para a fibrosidade delicada da carne. Além disso, a acidez dos vinhos é suficiente para a gordura do prato, sem falar nos aromas tostados de forno que complementam bem os toques de evolução do vinho.

A foto abaixo trata-se de outra raridade, Porto Taylor´s Scion. A história deste vinho começa com uma família tradicional do Douro que entre algumas preciosidades de sua adega tinha duas pipas de vinho do Porto muito antigas. Tratava-se da colheita de 1855 com uvas pré-filoxera, permanecendo todo esse tempo em madeira, ou seja, uma Porto Colheita de excepcional estágio em pipas. Só para lembrar, esta categoria de Porto exige um mínimo de sete anos em madeira. Após muitas conversas, a família resolveu vender as pipas para a Casa Taylor´s. A ideia inicial e natural era das mesmas entrarem na composição dos lotes para elaboração do Porto 40 anos, máxima categoria para um Porto com declaração de idade. Contudo, decidiu-se por uma solução ousada e criativa. Lançar uma edição especialíssima engarrafando o vinho sem mistura em lindas garrafas de cristal (foto abaixo) com o nome Scion. O significado deste nome engloba tradição familiar e uvas pré-filoxera.

Porto Colheita com mais de 150 anos

A embalagem é condizente com o conteúdo

Agora falando do vinho, é uma peça de exceção. Cor maravilhosa, bem menos evoluída do que se espera par um Porto desta idade. Já é um sinal diferenciado. Os aromas são ao mesmo tempo intensos e delicados com aquela fruta em compota espetacular, frutas secas, toques balsâmicos, minerais, resinosos e de especiarias. Um equilíbrio notável entre álcool e acidez que só os raros e grandes Colheitas são capazes. Vale a pena informar alguns dados técnicos deste vinho: 189 gramas de açúcar residual por litro e 8,76 gramas de acidez tartárica. São valores superlativos e dificilmente alcançados, mesmo em vinhos especiais. Só para comparar, um Porto na categoria de 40 anos, que tem vinhos extremamente selecionados onde os valores acima ficam em 134 gramas de açúcar por litro e 5,2 gramas por litro de acidez tartárica, já são indicadores bem acima da média. O fato é que os Colheitas com longa permanência em pipas concentram mais açúcares por conta da evaporação relativa da água. Por isso, só os vinhos com alta acidez tartárica são capazes de restabelecer o equilíbrio necessário.

Sauternes em alto estilo

Encerrando a tarde, duas referências da botrytisação, da famosa apelação Sauternes. A safra 2001 é de alto nível, prometendo muito ao longo dos anos, mas de vez em quando, temos que cometer algum infanticídio. Começando pelo Suduiraut, é um dos melhores abaixo do mítico Yquem. Concentrado, potente, rico em aromas e de um equilíbrio notável. Tudo que se espera de um Sauternes de estirpe. Contudo, a comparação é cruel. O astro maior, o fabuloso Yquem, ainda mais numa grande safra, não tem como medir forças. A potência, a complexidade aromática, e o alto nível de botrytisação, convergem para uma elegância, equilíbrio e untuosidade ímpares. Este pode ser guardado para os futuros netos. É vinho para virar o século!

E assim foi-se mais um longo sacrifício. Entretanto, o que a gente não faz pelos amigos!. Resta-me agradecer a companhia de todos, os momentos mágicos vividos, e expectativa de novos encontros. Saúde a todos!

Bordeaux 1961: Adagio

21 de Agosto de 2015

Passado o primeiro ato, vamos rumo à apoteose com seis Bordeaux de tirar o fôlego. Na verdade cinco, pois havia um intruso no caminho. Contudo, suas credenciais permitiam tal ousadia. Trata-se do La Chapelle 1961, o Hermitage do século do produtor Paul Jaboulet. Esse não precisa ser convidado.

As duas joias de Saint-Julien

Pessoalmente, os châteaux acima representam o que há de melhor no nobre comuna de Saint-Julien. O primeiro, Léoville Las Cases, é vizinho de comuna do consagrado Latour em Pauillac, tendo muitas vezes esse estilo viril, clássico, e com um poder de longevidade imenso. Mas não se esqueçam, estamos na safra 1961 e suas armadilhas. E desta feita, o château errou a mão. Sua cor é escura, pouco evoluída para a idade, mas os aromas tem toques tostados e herbáceos que incomodam um pouco. Em boca, percebemos uma estrutura tânica de extração em demasia. Tem força, tem poder, mas quiseram fazer parece-lo o que efetivamente não é. Lógico que a comparação com os demais é cruel. Contudo, quem tem uma garrafa desta devidamente adegada, numa degustação solo pode ser fascinante. Agora quem ainda não comprou, compre uma de seu rival que comentaremos a seguir. Este é tiro certo!

Château Ducru-Beaucaillou 1961, que marravilha Claude! Esse é daqueles vinhos que sabe aliar potencia e elegância como poucos. Aromas multifacetados com frutas deliciosas, tostado fino, caixa de charuto, especiarias e uma madeira de cedro que é marca registrada deste Bordeaux. Encorpado na medida certa, muito equilibrado em seus componentes e uma persistência aromática notável que se esvai com muita classe, deixando saudades. Um grande cinquentão!

Bordeaux 61: Aqui está a perfeição

Os detalhes fazem a diferença. Porém, aqui, só no fotochart. Foi sem dúvida, a disputa mais acirrada, cabeça a cabeça. Lindos Bordeaux, maduros, suaves, profundos e inesquecíveis. Não há palavras para esses gigantes. Embora todos os aromas terciários clássicos desta comuna estejam presentes, tais como, trufas, toques terrosos, animais, ervas finas, entre outros, a fruta ainda está presente, o frescor é incrível e os taninos são verdadeiras rolimãs em boca. Mais uma vez pessoalmente, pendi para o Haut-Brion, mas o La Mission valorizou muito esta escolha. Isto é de fato o que se espera de um Bordeaux de longo envelhecimento. Bebe-los agora é a recompensa pela paciência e sabedoria. Nem é preciso dizer: os dois com 100 pontos absolutos de Robert Parker.

Bordeaux e Rhône em vinhos de legenda

Neste grand finale, não dá mais para pontuar. São vinhos fora da curva, incomparáveis. Começando pelo La Chapelle, também 1961. Já impressiona pela profunda cor escura, mostrando o poder de longevidade dos Hermitages. Os aromas que mesclam frutas escuras em geleia, especiarias, defumados, balsâmicos e algo de charcuterie (embutidos), estavam presentes. Em boca, potente, taninos em profusão e um equilíbrio dos grandes vinhos. Pessoalmente, apesar de grande, achei este exemplar um pouco cansado. De fato, o histórico destas garrafas é sempre um mistério que culmina no famoso ditado: “Em vinhos antigos, não existem grandes safras e sim, grandes garrafas”.

E finalmente chegamos ao monumental Chateau Latour 1961. Esse é aquele vinho que você prova e fica sem reação. Silêncio absoluto. É imponente, te cumprimenta à distância, exige um certo protocolo, mas é maravilhoso! Não sei ainda onde ele vai chegar, mas certamente o destino final é o paraíso. Que cor! que aromas maravilhosos do mais autêntico cassis, cedro, minerais como grafite, terroso, toques de cacau, chocolate escuro, e assim vai. A boca é como um bailarino segurando a moça com mão forte, mas transmitindo extrema delicadeza e elegância. E aí você degusta, ele passa, mas ele fica, fica, … Não entenderam? prove uma garrafa. Garanto que até 2040 a magia não acaba.

Um pouquinho de paciência, pois não terminou. Próximo artigo, o grande Latour à Pomerol, Scion e dois Sauternes daqueles. Não percam!