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A denominação “Aias da Toscana”

24 de Agosto de 2019

Um almoço onde a Itália brilhou com ícones toscanos e do Piemonte. Falar de supertoscanos é lembrar da revolução dos vinhos nesta região a partir dos anos 70 com o pioneiro Sassicaia e sua primeira safra 1968. A partir daí, uma sucessão de mitos começaram a surgir como Tignanello, Solaia, Ornellaia, Masseto, e tantos outros. Como eles eram fora da lei, sem legislação específica, eram conhecidos como meros Vino da Tavola, a classificação italiana mais rasa. Isso obrigou os legisladores a criarem uma denominação intermediaria entre o Vino da Távola e a DOC, já que o abismo era imenso. Surgem então os chamados IGT (indicazione geográfica típica) em 1992. Nesta transição nasce a maior safra do Sassicaia de todos os tempos, o lendário Sassicaia 1985 (100 pontos eternos) com a irônica menção no rótulo, “Vino da Távola”. 

O melhor Chardonnay do Piemonte

Iniciando os trabalhos, um par de brancos do venerado produtor Angelo Gaja. Já provei vários dos seus Gaia & Rey, um Chardonnay que pela elegância lembra um belo Puligny-Montrachet. Este especificamente da safra 98 (foto acima), estava divino. Com seus 20 anos de idade, estava pleno de sabores, ainda com fruta, e um equilíbrio fantástico. Garrafa muito bem conservada. Já seu oponente, um Gaia & Rey bem mais novo, safra 2006, tinha todos os trunfos da juventude. Fresco, vibrante, bem estruturado, tem muita vida pela frente, mas vai ser difícil alcançar o esplendor deste 98. Na boca, percebe-se que falta integração do vinho com a madeira que será resolvida com o devido tempo. Acompanharam muito bem a polenta com brie gratinado do restaurante Gero.

a59bf616-f633-4f50-9430-22f8aab7881ba turma toda no belo bar do Gero

O almoço transcorreu no excelente restaurante Gero sob a batuta do carismático Maître Ismael, entre polenta, risoto, bollito misto, e outras iguarias.

primeiro e segundo vinhos

Um embate interessante entre o Grand Vin Ornellaia e seu segundo vinho Le Serre Nuove, ambos 2016. Fica claro em boca a diferença de estrutura entre os dois vinhos. Ornellaia bem mais tânico, embora com taninos ultrafinos. O Le Serre Nuove é bem mais agradável no momento. É um corte onde a Merlot predomina com o aporte das Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Petit Verdot. A maciez deste vinho é notável, embora deva ser decantado por ser muito jovem. 

Já seu oponente, o grande Ornellaia, se mostra mais fechado, mas com aromas finos e boca muito elegante, embora um pouco austera. Neste corte há o predomínio da Cabernet Sauvignon, seguida pelas uvas Merlot, Cabernet Franc, e Petit Verdot. Com maior tempo de barrica, percebe-se que falta integração entre seus componentes que será ditada certamente pelo tempo de guarda em adega. Dois grandes vinhos com notas muito próxima, provando a excelência da vinícola. Contudo, a hierarquia foi mantida com o grande Ornellaia se impondo como um dos grandes ícones de Bolgheri. Os dois tintos arremataram muito bem o saboroso tagliolini com ragu de coelho, prato preferido de nosso querido confrade Moreira.

a bela safra 1997 na Toscana

Aqui um embate entre os terroirs de Bolgheri e Chianti Classico, ambos baseados na casta Cabernet Sauvignon. O Sassicaia 97 em Magnum mostra toda sua elegância e prontidão com muito Cabernet Sauvignon e uma pitada de Cabernet Franc, o que lhe confere elegância. Contudo, neste páreo, estava concorrendo com uma safra histórica do Solaia 1997. Neste corte, embora haja ampla predominância da Cabernet Sauvignon, a presença da Sangiovese no blend confere muito frescor e aquele toque toscano. Um vinho ainda não totalmente pronto, cheio de energia, e que deve ser obrigatoriamente decantado. Apesar da fruta fresca, especiarias em seus aromas, já há um lado terciário partindo para toques animais e de couro. Bela persistência aromática com 96 pontos merecidos. A costeleta de vitela acompanhada de  risoto zafferano foi muito bem com ambos os vinhos.

dois Ornellaias históricos

Já no final do almoço chegam dois Ornellaias envelhecidos e de grandes safras, 95 e 98. O Ornellaia 98 foi o vinho do ano da Wine Spectator de 2001. Um tinto raçudo, fino, elegante, taninos muito bem moldados, e um equilíbrio perfeito. Com seus 20 anos, está no auge de seu esplendor, provando a longevidade desta notável Tenuta. O Ornellaia 95 um ponto abaixo, mas também num ótimo momento para ser abatido. Não tem toda a estrutura do 98, mas esbanja elegância e presença em boca. Os aromas mais complexos de ambos os tintos acompanharam muito bem o excelente cotechino com lentilhas, executado com maestria.

img_6557um mero “Vino da Tavola”

O final apoteótico veio com o mitíco Sassicaia 1985 numa garrafa muito bem conservada. Quando falamos de um vinho imortal, falamos de um vinho que impressiona em todos seus aspectos pela juventude, sem marcas do tempo. Um vinho com quase 35 anos pleno de frutas, cor rubi intensa, e uma vivacidade em boca notável. Um vinho que não parece ter mais do que dez anos. Seus taninos são massivos e ultrapolidos, boca ampla e muito bem equilibrada com 13 graus de álcool perfeitamente balanceados. 

Com toda a lentidão da legislação italiana, o maior de todos os Sassicaias nasceu como Vino da Tavola, perpetuando no rótulo o descalabro da legislação italiana vigente na época.  Sem maiores explicações, a safra 85 obedece o corte tradicional da Tenuta San Guido com 85% Cabernet Sauvignon e 15% Cabernet Franc, que neste ano foi mágico. Fizeram o vinho e jogaram a fórmula fora. Excepcional tinto, dentro os melhores de toda a história enológica da Itália. A raridade desta garrafa é refletida em altos preços e o perigo das falsificações em vinhos lendários. 

Agradecimentos a todos os confrades presentes pela companhia, bom papo, e a imensa generosidade das belas ampolas. A Itália desfilou em alto nível neste memorável almoço. Que outros venham em breve com as benções de Bacco!

 

Haut-Brion e seus encantos

20 de Julho de 2019

Nos subúrbios da cidade de Bordeaux, as velhas vinhas de Haut-Brion plantadas em 1423 se renovam ao longo do tempo num trabalho viticultural minucioso. Sua primeira safra em 1525 mostrou aos ingleses o surgimento de uma nova era de vinhos, colocando definitivamente Bordeaux no topo dos vinhos de elite.

Num terroir diferenciado do Médoc, Haut-Brion desfruta de muitas pedras em meio à areia, argila e calcário com raízes profundas. O blend tem alta porcentagem de Merlot, a qual confere ao vinho uma notável maciez. A longevidade é garantida pela Cabernet Sauvignon e um toque de refinamento é dado pela Cabernet Franc. Em média temos: 45% Merlot, 45% Cabernet Sauvignon, e 10% Cabernet Franc.

Haut-Brion costuma ser um vinho muito agradável mesmo jovem, sem a costumeira austeridade dos vinhos do Médoc. Aqui estamos falando da apelação Pessac-Léognan, a qual antigamente era chamada de Graves. Haut-Brion portanto, desfruta da classificação de 1855 e também da classificação de Graves em 1953, sempre como vinho de exceção. 

828151d1-1ccb-4bca-9d25-1d16f90f3124cinco safras em taças Zalto

Num belo almoço no restaurante Gero, sob a batuta do carismático Maître Ismael, cinco safras deste Premier Grand Cru Classé confirmaram toda a complexidade, elegância e sedução em taças Zalto. O estranho no ninho, à esquerda da foto, é o espetacular Chevalier-Montrachet de Michel Niellon, um dos especialistas nesta apelação. São apenas 0,23 hectare de vinhas antigas com baixos rendimentos. A vinificação visa preservar ao máximo a acidez e frescor dos vinhos. O toque de madeira é discreto, quase imperceptível, valorizando a elegância e sutileza dos grandes Chevaliers. Neste exemplar extremamente novo e já muito prazeroso, a sutileza, o equilíbrio, e a pureza de aromas, são notáveis. Final refrescante e persistente. Belo inicio para ativar as papilas!

01342177-1366-46ef-8d8e-b27c5295c117mudança de rótulos

Aqui o ponto alto do almoço no sentido de prontidão e puro prazer. Duas garrafas muito bem guardas, mostrando como evoluem bens os grandes Bordeaux. O Haut-Brion 82 com 95 pontos faz jus à esta mítica safra. Um tinto ainda com força bons anos em adega, mas já muito prazeroso. Polido, elegante, taninos super finos, e um final de extremo equilíbrio, ainda com fruta. Sempre um porto seguro. 

Contudo, a grande surpresa foi o Haut-Brion 71, de longe, o melhor Bordeaux 71 que já provei. A garrafa estava perfeito nos seus quase 60 anos de idade. Todos os terciários bem desenvolvidos, sem sinais de decadência. Embora não tivesse a força do 82, esbanjava elegância e incríveis aromas de funghi porcini. Uma maravilha e prova de consistência deste grande Chateau, mesmo em safras não tão badaladas.

harmonizações perfeitas

Para fechar os comentários, os pratos acima foram muito bem com os vinhos. O da esquerda, Paccheri (espécie de rigatoni gigante) ao molho reduzido de vitela tinha a intensidade e compatibilidade de sabores com o Haut-Brion 82. Já o risoto de funghi porcini só fez revelar e amplificar os complexos aromas do Haut-Brion 71. Ponto alto do almoço.

grandes safras!

Embora o Haut-Brion 95 ainda esteja em evolução, sua maior porcentagem de Merlot em relação à safra 89, confere boa maciez e maior acessibilidade, mesmo relativamente jovem. Os aromas terrosos e animais ainda estão entremeados por cacau e chocolate com taninos muito presentes, mas de ótima textura. Um vinho com força para evoluir muitos anos em adega. Quanto ao Haut-Brion 89 será certamente um das safras históricas do chateau. Um vinho com trinta anos, mas pleno de energia e fruta. Tem uma densidade acima do normal, própria dos grandes vinhos. Seus taninos muito finos e abundantes garantem um longa guarda em adega.

É interessante notar a diferença dessas duas duplas degustadas, percebendo que nos exemplares 89 e 95 já temos uma formação dos terciários, mas com a fruta ainda muito presente e taninos a resolver, embora de extrema qualidade. No caso dos exemplares 82 e 71, os vinhos estão num estágio mais avançado, com os terciários muito mais presentes, e boca bem resolvida, sem arestas. De todo modo, todos os dois muito vivos e sem nenhuma pressa para serem abatidos.

Não deu tempo de provar o Haut-Brion 98 desta vez, mas trata-se de outra safra quase perfeita, 99 pontos. Com praticamente 60% de Merlot no corte, é um vinho macio, bem acessível pela idade, mas com futuro brilhante, já que a fruta está muito presente. Deve evoluir bem, adquirindo os maravilhosos aromas terciários, dignos deste grande Chateau. 

Agradecimentos aos amigos e confrades por mais esta oportunidade, numa prova de amizade e generosidade. A boa conversa se prolongou com cafés, charutos e muitas risadas. Vida longa aos confrades e que Bacco nos proteja!

Gaja e os Cabernets

6 de Julho de 2019

Em uma de suas explanações, Angelo Gaja faz uma analogia interessante entre as uvas Nebbiolo e Cabernet Sauvignon com os atores John Wayne e Marcello Mastroianni. Diz ele: se John Wayne (Cabernet Sauvignon) entrasse numa sala, ele ocuparia o centro da mesma em uma posição de destaque, sendo o centro das atenções numa figura muito carismática. Já Marcello Mastroianni (Nebbiolo), ficaria no canto da sala, meio introspectivo, sem se promover muito. De fato, apesar de grande ator, Marcello tinha o mérito de realçar as mulheres com quem trabalhava, deixando elas brilharem, enriquecendo as cenas. Assim é a Nebbiolo, uma uva que faz pensar, meio misteriosa, mas de grande brilho na enogastronomia, enaltecendo os pratos que a acompanha.

Foi exatamente este cenário que se apresentou num belo almoço com alguns Cabernets famosos do mundo e uma das joias de Gaja, seu vinhedo Sori San Lorenzo da ótima safra 97. Todo mundo só falou dos Cabernets que de fato eram maravilhosos sem darem muito bola para o estupendo Gaja. Comentaremos os vinhos oportunamente.

A propósito, Gaja faz um ótimo Cabernet no Piemonte chamado Darmagi. Um vinhedo escondido do seu pai durante certo tempo que quando descoberto, o velho Giovanni exclamou: Darmagi, em dialeto piemontês, que pena!

ótimo prato de inverno

Como sempre, aqueles branquinhos para aquecer os motores. Dois belos exemplares da Borgonha tanto em produtores, como em vinhedos e safras. Roulot é um monstro em Meursault. Seus vinhos estão cada vez mais valorizados e com toda a justiça. Esse exemplar do vinhedo Perrières 2009 tem 96 pontos mais do que justos. Um Premier Cru com caráter de Grand Cru. Uma elegância, uma sofisticação, e personalidade, marcantes. O vinho tem uma tensão e mineralidade incríveis sem perder aquela textura amanteigada dos Meursaults. Já o Chevalier de Niellon, excelente produtor, estava um pouco prejudicado, um pouco cansado. Vinho de grande elegância e presença, num equilíbrio perfeito com aquela textura mais delgada dos Pulignys. Talvez seja um problema de garrafa, mas seus aromas estavam evoluídos demais pelo tempo de safra. Essa polentinha com frutos do mar (foto acima) caiu muito bem para acompanhar a dupla de brancos.

img_6288um Cabernet de respeito!

Esse foi o vinho mais comentado do almoço, lembram, John Wayne, pois é. Pouca gente sabe que esta linha Estiba Reservada não tem nada de Malbec. É um corte de 85% Cabernet Sauvignon e 15% Cabernet Franc com 18 meses em carvalho francês novo. Um vinho servido às cegas que lembrou alguns franceses, americanos, australianos, chilenos, e tantos outros palpites. O fato é que Catena nesta alta gama de vinhos colocou a Argentina no pódio dos grandes tintos do mundo. Um vinho elegante, de grande personalidade, taninos finos, numa safra histórica na Argentina. Este vinhedo Agrelo faz parte de Lujan de Cuyo, zona alta do rio Mendoza, uma das mais prestigiadas e tradicionais do terroir mendocino. Solo pedregoso e aluvial tão propício ao cultivo dos Cabernets.

outro Cabernet de respeito

Saindo de Mendoza, vamos para Bolgheri, litoral toscano onde o marquês Mario Incisa dela Rocchetta realizou seu sonho de fazer um Bordeaux na Toscana com mudas de Cabernet Sauvignon trazidas do Chateau Lafite. Em 1968, sua primeira safra, Sassicaia mostrou ao mundo um vinho toscano de grande refinamento sem uma classificação oficial. Nascia assim o termo “super tuscan” ou  “supertoscano”. 

Nos exemplares acima, o 2008 com 97 pontos é um dos melhores Sassicaias já elaborados com muita maciez e taninos ultrafinos. Bom corpo, belo equilíbrio e um final persistente. No caso de 2005, a comparação chega a ser cruel. Não que 2005 não seja bom, mas perde para seu concorrente em refinamento. Seu taninos são mais duros e sua persistência é menor. Deve evoluir bem por mais alguns anos, tornando-se mais macio. De toda forma, Sassicaia segue sendo um dos grandes Cabernets do mundo.

belos pratos para tintos

O almoço no restaurante Gero seguiu na sequência de belos pratos para acompanhar os tintos como este Paccheri, espécie de rigatoni gigante, com um molho reduzido de carne com muito umami, saborosíssimo. O risoto de parmesão com pato desfiado também estava muito bem executado. Sempre contando com a gentileza e fidalguia do maître Ismael. 

Chateau Palmer em Magnum

Safra muito prazerosa e precoce, Palmer 98 esbanja elegância. Elaborado com 52% Merlot, 43% Cabernet Sauvginon, e 5% Petit Verdot, o vinho é macio em boca, taninos bem trabalhados, e um final bastante harmônico. Talvez sua nota não seja tão alta devido à persistência aromática não muito longa. Bom momento para bebe-lo, sobretudo acompanhando um lombo de cordeiro no próprio molho e purê de mandioquinha. Mais um belo prato do almoço. 

uma das joias de Gaja

Finalmente, chegamos ao esquecido Nebbiolo, lembra do começo, Marcello Mastroianni. Pois é, poucos comentaram deste belo tinto com 98 pontos e uma elegância impar. O melhor da década de 90. Sorì San Lorenzo faz parte da trilogia de vinhedos de Angelo Gaja em Barbaresco (Sori Tildin e Costa Russi são os outros dois). Notem que no rótulo a partir de 96, a denominação Barbaresco muda para Langhe, pois Gaja introduziu uma pitada de Barbera no blend de seu Nebbiolo. Para que isso fosse permitido, precisou mudar a denominação para Langhe, uma legislação mais moderna e mais branda para eventuais mudanças. De fato, o nome Gaja fala mais alto do que a pomposa denominação Barbaresco. 

Neste exemplar, um aroma refinado lembrando alcaçuz, notas tostadas, defumadas, e um toque terroso. Em boca é muito equilibrado com uma acidez refrescante. O vinho está vivo, sem sinais de decadência e taninos finíssimos. Acompanhou muito bem o cotechino com lentilhas, um embutido italiano dos mais refinados. Um tinto muito distinto lembrando vinhos franceses, especialmente os Côte-Rôtie do norte do Rhône, talvez com uma carga de taninos maior. Seguramente, um dos cinco melhores vinhos italianos. Gaja não brinca em serviço!

creme de mascarpone e chocolate para encerrar

Na foto acima, temos um Passito do mestre Quintarelli, talvez a maior referência na zona de Valpolicella. A partir de um blend de uvas Garganega, Sauvignon Blanc, Trebbiano di Soave, colhidas tardiamente e postas para secar (appassimento), o mosto fermenta lentamente, deixando um importante teor de açúcar residual. O vinho passa entre cinco e seis anos em pequenas barricas francesas. Um vinho já evoluído, inclusive na cor, com notas de frutas secas, mel e toques tostados. Pronto para ser tomado. Já seu oponente, o todo poderoso Yquem 89, esbanja frescor, exuberância, sem nenhum sinal de decadência. Vinho untuoso, muito equilibrado, e final extremamente longo. Belo fecho de refeição!

Só me resta agradecer aos confrades pela excelente companhia, boa conversa, e imensa generosidade. Com dois dos confrades de notável carinho pela Itália, o painel não poderia ser melhor. Que Bacco sempre nos guie nesta longa jornada de prazeres! 

Vosne também tem seu lado masculino!

25 de Maio de 2019

Segundo Pepeu Gomes em sua canção: Masculino e Feminino, todos nós temos nosso lado oposto, aquele que contradiz o que somos realmente. Pois bem, os vinhos da Borgonha têm o glamour da delicadeza, da feminilidade, da sensualidade, sobretudo na comuna de Vosne-Romanée, berço dos mais espetaculares tintos borgonheses. Num agradável almoço no restaurante Gero, um desfile de grandes Borgonhas, mostrou com propriedade que o lado masculino desta comuna abençoada também existe, convivendo em harmonia com a feminilidade onipresente. 

uma viagem no tempo …

Essa história começa com a dupla de vinhos acima, mostrando muitos contrastes e uma viagem pelo tempo. O vinho da esquerda é um dos mais tradicionais monopólios da Borgonha, o clássico Clos des Mouches, localizado na Côte de Beaune. Embora a família Drouhin detenha boa parte da propriedade, a Maison Chanson tem uma parcela significativa de 4,5 hectares. Este exemplar degustado no estilo old school é da safra 1964 com todos seus terciários desenvolvidos, sobretudo toques terrosos, de cogumelos e de chá. Um tinto com uma masculinidade incrível, ora lembrando um Barolo ou Barbaresco, ora lembrando alguns tintos do sul do Rhône. Bem evoluído, mas ainda íntegro. 

O outro lado da moeda é o Volnay Premier Cru do Domaine Chassorney safra 2013. Além de bem mais jovem e uma vinificação mais moderna, Volnay expressa toda a feminilidade na Côte de Beaune. Um tinto de fruta muito limpa, toques florais e especiarias finas, tudo calcado num equilíbrio harmonioso. Portanto, os sexos dos anjos estão apresentados.

img_6128um abismo separa estes tintos

Neste primeiro embate, o maior contraste do almoço, quase um disparate, inclusive na opção sexual. Embora seja um Grand Cru de um mesmo produtor, as safras falam por si e mostram imensos contrastes. Os tintos de 83 são geralmente duros, austeros e masculinos. Além disso, esta garrafa 83 estava um pouco prejudicada com um vinho turvo e um tanto cansado. Mesmo que estivesse em sua melhor forma, não seria páreo para o vinho do almoço, sua majestade DRC Romanée-St-Vivant 1978. Um tinto lendário de Vosne-Romanée cheio de feminilidade e principalmente, jovialidade. Seus aromas de carne, rosas, alcaçuz, especiarias delicadas, permeavam a taça. Um equilíbrio fantástico em boca com final bastante expansivo, sem nunca perder a delicadeza. Um tinto de sonhos para ser colocado na prateleira dos grandes tintos de Vosne na história. O mestre Jayer já dizia sobre a safra 78: este foi o melhor Richebourg e o melhor vinho que fiz, outro tinto lendário. 

img_6130mais alguns contrastes …

DRC Grands-Echezeaux 1988 personifica em estilo e safra o lado masculino de Vosne-Romanée. Uma safra dura para um vinho austero deste belo Grand Cru. Só mesmo o tempo com seus trinta anos para domar esta fera. O vinho já está evoluído, taninos polimerizados, aromas terciários de adega úmida, além de um final arrebatador. Um tinto para quem tem paciência em adega, mas vale cada segundo de envelhecimento. Bravo!

Por outro lado, Madame Leroy fez milagre na pobre safra 1992 para tintos, pois os brancos são espetaculares. Apesar de ser um tinto do Domaine e não da Maison, falta a ele profundidade e maior riqueza aromática num nível Grand Cru. Mesmo assim, é um vinho extremamente feminino e com o toque elegante desta bruxa maravilhosa. 

img_6134um embate de gigantes!

Nesta briga de titãs, a hierarquia foi mantida. Embora o Richebourg 90 estivesse maravilhoso e muito mais pronto no momento, teve que ceder à suntuosidade do grandioso La Tache, um dos maiores vinhedos sobre a Terra, já dizia Hugh Johnson. Richebourg teve que ficar com o lado feminino com muita graciosidade e sedosidade em boca. Já o La Tache 90 tem um toque oriental de incenso maravilhoso, muito equilíbrio em boca, e uma persistência aromática bastante ampla. Deve ainda evoluir em adega e dar muito prazer por décadas. Um tinto marcante!

img_6135cinco anos faz diferença

Duas obras de arte pareadas em nota, 95 pontos cada um. É claro que o 95 não está pronto e acabou sendo o infanticídio do almoço, mas é muito bem elaborado e com futuro brilhante pela frente. Contudo, acho que não chega na grandiosidade do La Tache 90, um tinto que beira a perfeição. Aqui, os sexos se misturam e o que vale é o prazer. Aliás, falando de La Tache,  a safra 99 vai ser lendária como um dos melhores La Tache da história. Lembro-me até hoje do maravilhoso La Tache 62 degustado com muitas saudades …

alguns dos pratos do menu

A polenta com funghi e o tagliarini com molho de costela, fotos acima, foram um dos pratos que casaram bem com os vinhos, sobretudo os de certa evolução. A fidalguia do maître Ismael e toda a equipe do Gero sempre nos conforta. Adendo especial ao sommelier Felipe Ferragone com um serviço de sommellerie perfeito e rolhas intactas, foto logo mais abaixo. 

img_6140Terroir de duas comunas

Bonnes Mares é uma das poucas apelações na Borgonha que divide comunas contíguas. Uma boa parte está em Chambolle-Musigny, mas seu caráter parece ser de Morey-St-Denis. Dujac é um dos especialistas na apelação com os dois exemplares acima de safras muito pontuadas. Servidos às cegas, o 2005 parecia mais jovem, tanto na cor, como nos aromas e taninos mais presentes. Já o 2009, muito mais gracioso, feminino, e acessível no momento. Um flight aparentemente fácil, mas surpreendente, onde a maioria arriscando pela lógica, trocou as safras. Nosso presidente, homem forte da confraria sentenciou: o 2005 é mais austero, mais fechado, de evolução mais lenta em garrafa. Mais um acerto taxativo. 

o único branco e rolhas intactas

No final do almoço já com os queijos, surge um branco da Madame, Domaine d´Auvenay, sua reserva particular de produção limitadíssima. Auxey-Duresses é uma apelação sem grande expressão, frente aos badalados brancos de Beaune. No entanto, em se tratando de Auvenay, nada surpreende. Um lieu-Dit comunal, Les Boutonniers, nas mãos da bruxa, se transforma num verdadeiro Grand Cru. Com seus quase 20 anos, é um branco complexo com toques de evolução e equilíbrio perfeito. Expansivo em boca e de alta classe. Bate com folga muitos Grands Crus de Beaune. 

parceria harmoniosa

Passando a régua, um Yquem 98 para encerrar o almoço. 95 pontos com apogeu previsto para 2050. O vinho encontra-se naquela fase de transição, entre a juventude e maturidade. Doçura bem equilibrada com a acidez, textura macia e envolvente da Botrytis, e um final longo. Foi muito bem com o pudim de pistache da Casa com calda de caramelo.

Por fim, os agradecimentos aos confrades, companheiros de mesa e copo, que sempre nos proporcionam momentos de  descontração, alegria, e imensa generosidade. Que Bacco nos proteja nesta gostosa caminhada aos prazeres da vida!