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Bourgogne à Mesa

23 de Julho de 2018

Sempre que falamos de vinhos da Borgonha, nos deparamos com três fatores essenciais: produtor, vinhedo e safra. Sabemos que neste terroir, as referências de cada comuna são fundamentais. Neste jantar, testamos e degustamos várias destas referências, analisando e confrontando pratos da enogastronomia.

De início, a referência absoluta no terroir Pouilly-Fuissé, Domaine Ferret. Seus vinhos tanto jovens, como envelhecidos, são de uma pureza e finesse extraordinárias. Não confundir com Pouilly-Fumé, uma apelação do Loire para a uva Sauvignon Blanc.

img_4882cuvée intermediária

Nesta cuvée “Autour de la Roche, temos vinhas com idades de 10 a 40 anos numa vinificação em cuba sem nenhum resquício de madeira nova. O vinho aporta um frescor e mineralidade notáveis. Seus delicados aromas vão no sentido de frutas brancas delicadas como pêssegos e um toque sutil de amêndoas. Muito equilibrado com final extremamente agradável .

img_4885bacalhau e siri

Na foto acima, temos uma casquinha de siri e um folhado de brandade de bacalhau. Embora a carne de siri seja delicada, os temperos da casquinha sobrepujaram o sabor do vinho. Em compensação, o delicado folhado teve intensidade de sabor exato para a personalidade do vinho, fazendo um casamento perfeito.

img_4883o melhor em Chevalier-Montrachet

O branco acima dispensa comentários. A delicadeza de vinificação de Domaine Leflaive combina à perfeição com o terroir de Chevalier-Montrachet. Este Grand Cru, imediatamente acima do grande Le Montrachet, disfruta de um solo pedregoso com toda a elegância  do calcário. Neste exemplar, percebemos toda a complexidade de um Montrachet com uma delicadeza indescritível. A madeira que faz parte da vinificação e amadurecimento do vinho é de uma integração total em perfeita harmonia. Algumas gotas de limão sobre a casquinha de siri deram a liga exata para os sutis toques cítricos do vinho. Uma harmonização de sabores marcantes, mas de extrema delicadeza.

img_4886uma força impressionante

Para completar o jantar, um tinto de Morey-St-Denis num momento difícil. Explico melhor, o vinho estava no período de latência. Domaine Dujac é uma das grandes referências na apelação Clos de La Roche, um dos mais austeros Grands Crus da Côte de Nuits. Não era de se esperar esta condição num tinto de onze anos de garrafa numa safra teoricamente precoce. No entanto, alguns vinhos pregam estas surpresas. A cor era espantosamente pouco evoluída com nítidos reflexos violáceos. Os aromas não tinham defeitos, mas estavam bastante discretos, sem sinais de toques terciários evidentes. A boca estava perfeita em equilíbrio com taninos extremamente polidos. Contudo, uma expansão discreta. Garrafa muito bem conservada. Nesta fase, o vinho se fecha para formar complexos aromas terciários. Foi somente um momento infeliz. Talvez mais uns cinco anos, e o vinho certamente iniciará um lindo apogeu.

img_4888galeto com farofa de frutas secas

De todo modo, o galeto da foto acima foi bem tanto com o tinto, como o Chevalier-Montrachet. A textura da carne de aves vai muito bem com os Borgonhas. Os aromas e sabores da farofa de frutas secas e cogumelos Portobello assados forneceram a elegância necessária aos vinhos.

img_4889vale a experiência

Como sobremesa, uma mousse de chocolate amargo contrastando com um autêntico Irish Whiskey. O uísque irlandês costuma ser triplamente destilado, proporcionando delicadeza e maciez notáveis. Os aromas de mel e cevada maltada deste Jameson equilibram perfeitamente os sabores de cacau num final de grande intensidade e prazer. A despeito da bela combinação com os Portos, essa é uma experiência surpreendente.

img_4890combinação perfeita

O Gran finale não poderia ser melhor, Puros e Cognac, os Espíritos mais nobres. A expressão “Grande Champagne” no rótulo da bebida indica o mais exclusivo terroir de Cognac onde o solo de greda faz toda a diferença para a extrema finesse da bebida. X.O., Extra Old, indica o maior envelhecimento em madeira pelas leis atuais. 

Quanto aos Puros, Bolivar Belicosos já comentado em outros artigos, é um clássico da marca que prima pela elegância, a despeito da fortaleza da marca. Em seu modulo e tamanho, uma referência dos melhores Havanas. Do outro lado, uma edição especial da marca Montecristo com um blend ligeiramente mais forte que a média da Casa.

Na harmonização, um belo expresso dá início às primeiras baforadas. Entretanto, no segundo e terceiro terço sobretudo, a complexidade e força de ambos, Cognac e Charuto, propiciam a sublimação de sabores. Uma noite memorável!

Puros: um pouco de fumaça !!!

24 de Novembro de 2016

Existem Champagnes e espumantes, Cognacs e brandies, Puros e charutos. Sem entender muito do assunto, mas já dando meus pitacos, Cuba é soberana quando o assunto é charutos. Geralmente, eles têm começo, meio e fim, em grande harmonia. Existe uma zona no lado oeste da ilha chamada Vuelta Abajo com condições ideais de cultivar o melhor tabaco do mundo. Essas condições que envolvem plantas, clima, solo, e um savoir-faire peculiar, os franceses chamam de terroir. Transferindo para um assunto pessoalmente mais familiar (vinhos), Vuelta Abajo é uma espécie de Côte d´Or para Borgonha, ou se quiserem, uma espécie de Médoc para Bordeaux.

cuba-map

Pinar del Rio e San Luis, referência em Vuelta Abajo

O negócio do charuto em Cuba funciona de certo modo com muita similaridade à Champagne. Pequenos produtores (vegueros no caso de Cuba) vendem sua produção para grandes marcas de charutos como Partagas, Bolívar, Hoyo de Monterrey; similarmente a Pol Roger, Bollinger, Taittinger, em Champagne.

Quando falamos em excelência do tabaco cubano, estamos nos referindo a puros (designação do charuto cubano) elaborados por estas grandes marcas tabaqueras mencionadas acima. São charutos feitos com folhas inteiras submetidas a pelo menos duas fermentações, baixando muito os índices de nicotina da planta.

A confecção dos puros é um capítulo à parte com torcedores (pessoas que confeccionam charutos) hábeis, trabalhando manualmente com ferramentas extremamente simples como a chaveta, por exemplo. A estrutura de um puro envolve o miolo ou tripa (blend de folhas a cargo do torcedor), capote ou subcapa (para fixar e moldar as folhas da tripa), e finalmente a capa (folha especial, muito macia) para dar acabamento à peça. Um dos segredos para uma boa confecção dos puros é a pressão que o torcedor impõe com as mãos nos vários movimentos das operações a fim de não travar o charuto, ou seja, deixar o fluxo sem obstruções, proporcionando prazer aos consumidores.

É bom esclarecer aos marinheiros de primeira viagem, que charuto não se traga. Portanto, não precisar saber fumar, lembrando o ato dos fumadores de cigarros. O prazer da brincadeira fica todo na boca, no palato, sendo a fumaça expelida naturalmente.

Um dos pontos de preferências e discussões é a chamada fortaleza do charuto. Cada marca traz consigo este estilo, semelhante ao estilo das casas de Champagne. No caso do tabaco, tem muito haver com a mistura das folhas para a formação da tripa, primeira parte do charuto. Conforme esquema abaixo, dependendo da região da altura da planta, temos três tipos de folha, basicamente.

tabaco-folha

as proporções da mescla definem a fortaleza do puro

Os charutos de maior fortaleza aumentam a proporção de ligero (parte alta da planta), acentuando seus sabores. Os de média fortaleza, diminuem um pouco esta proporção, dando mais ênfase ao aroma. Por fim, os de baixa fortaleza apresentam proporções tímidas de ligero, proporcionando fumos bem suaves. É importante que os três tipos de folha participem do blend mesmo o volado, pois aporta facilidade e condições para a queima do charuto.

Pessoalmente, para os puros habitualmente consumidos, excetuando módulos específicos, e fixando apenas as marcas, segue relação abaixo:

  • grande fortaleza: Partagas, Bolívar e Cohiba
  • média fortaleza: Montecristo e Romeu & Julieta
  • baixa fortaleza: Hoyo de Monterrey

O acendimento do puro também requer alguns cuidados e um certo ritual. É deselegante acender um charuto na boca, aspirando gases indesejáveis. Melhor acende-lo como manda a etiqueta de um habano, conforme vídeo abaixo.

Por último, evite comprar charutos por encomenda, via internet, caixa fechada, a menos que você tenha total confiança na operação de venda. Pessoalmente, acho importante a pessoa ir à tabacaria, tocar os charutos, verificando a uniformidade da construção e a umidade dos mesmos. Os charutos devem ter uma maciez, uma maleabilidade agradável ao toque.

A certeza de um verdadeiro Puro você confirma ao longo dos terços:

  • Primeiro terço: pode ser um cubano
  • Segundo terço: acho que é um cubano
  • Terceiro terço: tenho certeza que é um cubano

Boas Baforadas!

Entre tintos, brancos, secos, doces …

17 de Novembro de 2016

Belos exemplares degustados recentemente, envolvendo uvas diversas, regiões, denominações e safras diferentes. Para começar, duas feras da Borgonha, lado a lado, cada qual especialista em seu terroir específico. Iniciando os trabalhos, Raveneau Valmur Chablis Grand Cru 2009 (foto abaixo).

raveneau-valmur-2009

Valmur: um dos Grands Crus de Chablis

Embora seja uma safra relativamente nova e muito badalada, mostra-se incrivelmente precoce e sobretudo, atípica. Aquela acidez cortante, aguda dos grandes Chablis, é muito mais esmaecida, dando lugar a um toque frutado destacado pouco comum neste tipo de vinho. E olha que estamos falando de um Raveneau, o epitome nesta apelação francesa. De todo modo, não deixa de ser um vinho brilhante, muito bem equilibrado, e de final bem acabado.

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Chevalier Leflaive: What Else?

A segunda fera, foto acima, resume a perfeição de uma apelação em todos os sentidos: produtor, vinhedo, e safra. Domaine Leflaive é o grande nome de Chevalier-Montrachet na excepcional safra 2005. Ainda jovem, mas extremamente prazeroso para consumo. Aromas intensos de tudo que a família Montrachet é capaz de proporcionar. Frutas, especiarias, tostado fino, mineral, entre outros aromas. Em boca, aquela sutil leveza que o diferencia de um Montrachet sem de maneira alguma, ser um demérito. Pelo contrário, pessoalmente, adoro este lado mais vivaz e ligeiro. O equilíbrio e a persistência aromática são quase indescritíveis. Felizes daqueles  que tiverem esta chance!

Nota: uma das explicações desta leveza do Chevalier em relação ao Montrachet é dada pela altitude do terreno (Chevalier está acima de Montrachet), aliada à forte pedregosidade de Chevalier, proporcionando uma textura de solo mais leve, mais aerada.

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tartare de pato com morilles

O prato acima preparado pelo Nino Cucina foi bem com os dois brancos acima. A carne de pato e a delicadeza do cogumelo entrelaçaram-se bem com a força, elegância e acidez dos brancos. Ora, o Chablis com sua acidez realçava o prato, ora o Chevalier entrava com sua força e complexidade enriquecendo a combinação.

A safra 2006 em Bordeaux, especialmente na margem esquerda, quase nem é mencionada. Muito provavelmente, foi e ainda é ofuscada pelo monumental ano 2005. Entretanto, preste atenção em alguns exemplares do Médoc. É uma safra de qualidade, sem ter que esperar longos anos para seu apogeu. Foi o caso deste Calon-Segur 2006, foto abaixo. Aromas típicos com notas de frutas escuras, minerais, e erva finas. Em boca, aquela acidez que marca a tipicidade da comuna, taninos presentes, e muito bem equilibrado. O que realmente falta é aquele meio de boca, próprio das safras espetaculares. De todo modo, preço relativo e precocidade são bons atrativos.

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ótima referência de Saint-Estèphe

Montevetrano é o grande tinto do sul da Itália quando se trata de um vinho moderno, calcado na internacional Cabernet Sauvignon. Complementado por Merlot e uma pitada de Aglianico (10%), é praticamente um corte bordalês da Campania. Seu mentor, o grande Ricardo Cotarella, uma espécie de Michel Rolland italiano, tem feeling para este tipo de vinho. De estilo encorpado, combinando bem com o jeito sulino, é um dos preferidos de Robert Parker que o chamou de “Sassicaia of the South”.

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Montevetrano: Sassicaia do sul da Itália

Neste exemplar safra 2004 (foto acima), mostra todo seu vigor com seus 12 anos de vida. Muita concentração de fruta, especiarias, notas defumadas e de chocolate. Sucedeu bem o Calon Segur descrito acima, acompanhando carnes como um bife de chorizo grelhado.

A riqueza dos vinhos doces do Loire é um capitulo à parte, sendo o grau de doçura um ponto importante de diversidade, desde os menos doces, até paulatinamente aos intensamente doces. Apelações como Coteaux du Layon, Bonnezeaux, Quarts de Chaume, e Vouvray, baseadas na casta Chenin Blanc, mostram vinhos delicados e absolutamente profundos. São os que mais se aproximam do estilo alemão e ao mesmo tempo, lembram a bela acidez dos vinhos húngaros Tokaji. O ponto em comum entre eles é a Botrytisação, ou seja, o ataque do fungo Botrytis Cinerea que resumidamente gera vinhos de muita complexidade aromática, muito equilibrados, de muito frescor, e de texturas únicas.

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Chenin Blanc Botrytisado

No exemplar degustado da bela safra 2005 (foto acima), este Quarts de Chaume do Chateau de Suronde, apresenta rendimentos por volta de 10 hectolitros por hectare, 18 meses em barricas de carvalho, e várias passagens no vinhedo, colhendo seletivamente as uvas botrytizadas. O resultado é um vinho que se assemelha a um bom alemão doce entre a categoria Beerenauslese e Trockenbeerenauslese,  ou se preferirem, um Tokaji entre 5 e 6 Puttonyos.

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Tatin de Pêssegos

Acompanhou maravilhosamente uma Tatin de pêssegos, tanto na similaridade de sabores, como também de texturas. As notas de mel, cera, e caramelo, eram notáveis no vinho, sempre mantendo um enorme frescor.

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Vintage: Datas de safra e engarrafamento obrigatórios

Existem Vintages e Vintages para a categoria máxima em Vinho do Porto, mas 1994 está certamente no rol das melhores safras do século XX. Felizmente, tenho o privilegio de ter provado vários 94 em suas várias fases de evolução até agora. Não foi diferente com este Graham´s 1994 com 96 pontos. É uma safra que está saindo da infância agora, de evolução muito lenta. Não sei se vou ter tempo para ver seu apogeu. Atualmente, mostra com muita intensidade notas de licor de jabuticaba, especiarias, chocolate e um traço mineral. Muito equilibrado e de final bastante longo.

bolivar-e-montecristo

Torpedos, sempre ótimas pedidas

Acompanhou muito bem esta dupla de Puros, Montecristo n°2 e Bolívar Belicosos. As melhores harmonizações ocorreram no segundo terço do Montecristo, mais potente que este Bolívar, que por sua vez, ficou melhor na sua fase final com o Porto.

Outra combinação muito boa com este Vintage foi o pão de mel. Textura, chocolate e os toques de especiarias deste bolinho delicioso, estavam bem balanceados com a força e complexidade do vinho, valorizando ambos. Enfim, outras experiências virão …

Clássicos e Enogastronomia

11 de Julho de 2016

Mais um almoço entre amigos e sempre boas surpresas. Estilos de vinhos variados, novas experiências enogastronômicas e aprendizado constante no assunto. De início, um Pouilly-Fuissé de livro do Domaine Ferret. Mais uma de suas cuvées espetaculares num terroir discreto em relação aos grandes brancos da Borgonha. Desta feita, a cuvée Tête de Cru “Les Perrières”. Vinhedo de um hectare no meio da encosta em solo argilo-calcário com presença de pedras (sílex) e idade média de 35 anos. Fermentação e amadurecimento sobre as borras (sur lies) em madeira por dez meses. Vinte a trinta por cento de madeira nova, imperceptível ao nariz e em boca. Os aromas remetem a notas minerais, de mel, resinosos e toques florais. A boca é o ponto forte com uma textura untuosa sensacional, quase igual a de um Sauternes. Contudo, seu suporte de acidez permite um bom equilíbrio com o álcool, relativamente discreto de apenas treze graus. Amplo, persistente e expansivo. Tudo o que você pode esperar de um Pouilly-Fuissé em grande estilo. Detalhe importante, safra 2004. Portanto, doze anos de vida e esplendor. Sem sinais de decadência.  Mais um tesouro da Terra Santa.

pouilly fuisse les perrieres

textura deliciosa em boca

Acompanhou muito bem a quiche abaixo com escarola, nozes e gruyère, bem cremosa. Aliás, o acordo de texturas foi o ponto alto da harmonização. Os aromas de mel e acidez do vinho complementaram bem a gordura e sabores da torta. A valorização de ambos, comida e vinho, foi de fato ressaltada. Um começo arrasador.

quiche de escarola

quiche de escarola e nozes

Abaixo, outro grande vinho do almoço. Um Barbaresco de gente grande. Potente, macio, equilibrado e taninos de grande categoria. Estamos falando de La Spinetta, vinhedo Gallina, safra 2005. O rinoceronte mostra bem a estrutura do vinho. Gallina é um vinhedo de cinco hectares localizado em Neive, uma das famosas comunas da denominação. As vinhas com mais de trinta anos trabalham com rendimentos baixos. O vinho é amadurecido entre 20 e 22 meses em barricas de carvalho francês novas. E aonde está a barrica? Realmente a resposta só pode ser esta: o vinho está à altura da barrica. Discretamente evoluído, tem muita vida pela frente. Aromas de frutas escuras (cereja), toques de especiarias, alcatrão, alcaçuz e fumo. A boca é de um equilíbrio fantástico com tudo lá em cima. Acidez agradável e taninos de rara textura, embora ainda bem presentes. Em termos de corpo e estrutura, não é qualquer Barolo que o enfrenta de igual para igual. Ele é mais ou menos o que um Dal Forno Romano é para a denominação Valpolicella.

la spinetta barbaresco

Se fosse Bordeaux, seria um Barbaresco de margem esquerda

Entretanto, nem tudo é perfeito. A combinação com a bacalhoada abaixo ficou a desejar. Esperávamos num Barbaresco de dez anos, algo mais evoluído, taninos polimerizados, e não foi isso que aconteceu. Além dos taninos ainda muito presentes, embora finíssimos, destoarem do prato, sua potência aromática dominou a cena. Contudo, uma agradável surpresa apareceu na mesa, um champagne Pol Roger cuvée básica bem envelhecido, quase sem perlage. A cor extremamente dourada dava sinais evidentes desta evolução, mas a boca além de agradável, caiu como uma luva na harmonização com o bacalhau. Sua acidez marcante, mousse surpreendente ainda com boa presença, combateram de maneira brilhante a gordura do prato. Os aromas de evolução do champagne com seus toques empireumáticos, de mel, e certa oxidação, foram de encontro aos sabores e aromas do bacalhau. Conclusão: champagnes envelhecidos e de certa oxidação, já têm uma função enogastronômica segura.

bacalhoada

bacalhoada tradicional

Mais uma estrela abaixo, completando este triunvirato, um Porto Vintage 1985 da excelente casa inglesa Warre´s. Esta é uma safra até certo ponto injustiçada, sem o glamour que verdadeiramente ela merece. Com seus trinta anos, este Porto esbanjou complexidade, classe, exotismo e ainda, muita longevidade. Inteiro, integro, e muito equilibrado. Um toque floral encantador lembrando de certo modo alguns Novais Nacionais. Desceu macio e de repente, desapareceu no decanter. De tão bom, mereceu uma degustação solo.

porto warre 85

elegância sobrepujando a potência

A sobremesa abaixo, finalizou em grande estilo o almoço. Flambada momentos antes do serviço com um belo Calvados envelhecido, esta tarte tatin acarinhou nossas papilas com grande suavidade. Merecia um bom branco de sobremesa do Loire. Um Quarts de Chaume ou um Bonnezeaux, talvez.

tarte tatin

tarte tatin de grande sutileza

calvados vieux

Calvados Vieux ou Réserve

Elaborado na Normandia, Calvados é um destilado de cidra (fermentado de maçãs). O termo Vieux é o equivalente ao Réserve que prevê um envelhecimento em madeira por pelo menos três anos. A menção “Pays d´Auge” é destinada a uma área restrita dentro da apelação Calvados. Não é o caso desta bela garrafa.

bolivar, partagas, montecristo

trio de ferro cubano

Finalizando a tarde, um trio de Puros de primeira linha. Bolivar Belicosos, Partagás E2 e Montecristo n° 2. Elegância, potência e exclusividade, respectivamente adjetivam os Puros citados. Expressos, chás e o Calvados Vieux, acompanharam a fumaça azul. Abraços e vida longa aos amigos!

Sua Excelência, Cognac Louis XIII

8 de Julho de 2016

Dando prosseguimento ao artigo anterior, continuamos com Louis XIII, um Cognac de exceção da Maison Rémy Martin. Após todo o longo e intrincado processo de elaboração, o engarrafamento desta bebida precisa de alguma forma ser impactante, mostrar implicitamente todo o cuidado e sofisticação envolvidos nesta trajetória. Assim nasce o decanter Louis XIII, uma garrafa de cristal de Baccarat confeccionada por onze artesãos com uma tampa reproduzindo a flor-de-lis e o gargalo decorado com ouro 24 quilates. Não existem duas garrafas perfeitamente iguais de Louis XIII. A garrafa em si, já é uma joia.

cognac tampa louis xiii

detalhes minuciosos

As variações da bebida

Será que só existe um Louis XIII? um único tamanho? um único tipo? claro que não. Vamos a eles.

Além da tradicional garrafa de 700 ml, existe uma miniatura com 50 ml, um verdadeiro perfume. Uma réplica fiel do tamanho original, elaborada com o mesmo artesanato, inclusive numerada também.

Para tamanhos maiores, existe Louis XIII Le Jeroboam com capacidade quatro vezes maior  que o tamanho original. É confeccionado na Cristallerie de Sèvres, acompanhado com quatro taças devidamente lapidadas e uma pipeta de metal para o serviço da bebida. Tudo isso acondicionado em um caixa de madeira exclusiva com o brasão Louis XIII.

cognac louis xiii pipeta

sofisticação não tem limites

Aqui começa a exclusividade dentro da exclusividade, se é possível. Um tierçon (casco) perdido na adega da família Grollet escondia um Cognac envelhecido de rara complexidade. Pois bem, este casco foi engarrafado totalmente sem misturas adicionais, perfazendo somente 786 garrafas numeradas e confeccionadas num exclusivo cristal negro de Baccarat, batizado como Louis XIII Black Pearl, conforme foto abaixo.

cognac louis xiii black pearl

Baccarat: cristal negro

Existem mais dois exclusivos Louis XIII denominados Rare Cask com teores alcoólicos parecidos, mas ligeiramente diferentes. O primeiro trata-se do Rare Cask 43,8 Louis XIII, um tierçon (casco) especialmente pinçado na adega, o qual apresentou características especiais. Observado por mais quatro anos, veio então a decisão de engarrafa-lo separadamente numa partida especial. Evidentemente, num decanter de cristal negro especialmente confeccionado por artesãos que trabalham contra uma negritude perfeitamente opaca. O gargalo é revestido de paládio, um metal tão nobre quanto o ouro ou a platina.

cognac louis xiii cask 42,6

decanter impecável

O outro Rare Cask é o 42,6. Nos mesmos moldes e critérios do Cask 43,8 seu engarrafamento também é numerado e especial. O decanter em cristal negro e o gargalo revestido em ouro-rosa produzem um efeito divino sob a luz. Seus aromas são destacados pelas tâmaras, folhas de tabaco e gengibre.

Temperatura de serviço

Diferentemente do vinho, a temperatura de serviço de um Cognac não é muito esclarecedora e tão pouco divulgada. Diz-se em temperatura ambiente, termo altamente subjetivo. Contudo, algumas referências sobre o assunto falam entre 15 e 18°C, como intervalo de temperatura correto. Pessoalmente, ainda acho alto, levando-se em conta que um vinho do Porto de estilo Tawny com seus 20° de álcool, recomenda-se servir-lo por volta de 14°C. Um conhecedor de Cognac da região, serviu para a surpresa de seus convidados, um Cognac mantido no congelador a menos 20°C onde nesta temperatura, a bebida cria uma textura oleosa, bastante untuosa, a despeito de algumas camadas de aromas mais pesadas tornarem-se desapercebidas. Enfim, o assunto é polêmico.

Como dica pessoal, em épocas mais frias e em ambientes convenientemente refrigerados, temperaturas até 20°C podem ser aceitas para sua devida apreciação. Já em épocas mais quentes, bem recorrentes em nosso país, somadas a ambientes sem a devida refrigeração, mergulhar a garrafa de cognac em um decanter com algumas pedras de gelo é uma atitude sensata. A sensação excessiva do álcool fica sensivelmente rechaçada e por conseguinte, seus aromas mais agradáveis.

Taças adequadas

Outra discussão polêmica. Os tradicionalistas preferem a taça balão (ballon ou ballonn), enquanto os mais inovadores, a taça tulipa (tulipe ou tulip). Tecnicamente, a taça tulipa é a indicada para uma degustação técnica  e avaliação da bebida pelos mestres de adega. De fato, o formato tulipa minimiza os aromas excessivos do álcool, privilegiando aromas mais frutados e sutis da bebida. Por outro lado, a taça balão sobretudo no inverno, deixa a sensação alcoólica mais aconchegante. Além disso, em boca, o ângulo de borda da taça balão privilegia a sensação de acidez, promovendo um melhor equilíbrio gustativo.

cognac e charuto

verre ballon et cigar

Novamente, opinião pessoal. No inverno, buscando algo mais aconchegante, minha preferência é pela taça balão. Já em pleno verão, buscando aromas mais sutis e frutados, além de uma bebida mais refrescada, a taça tulipa é mais adequada. Enfim, cada qual com sua decisão.

Acompanhamentos

Quando se trata de um Louis XIII, a bebida em si não necessita de companhia obrigatória. Contudo, há sempre as preferências e indicações. Em sua ampla paleta aromática, este Cognac admite várias opções.

cognac e chocolate

cognac et chocolat

Bebendo-o isoladamente, pode-se acompanha-lo com frutas secas, tanto as oleaginosas (amêndoas ou nozes), como as passificadas (tâmaras ou figos). Como entrada exótica, pode acompanhar muito bem patês de caça, patê campagne, inclusive foie gras trufado. Na sobremesa, acompanhando uma Tarte Tatin, pode ser divino. Chocolate amargo (alto teor de cacau) preferencialmente, é outra combinação que vale a pena. E por fim, os grandes Havanas podem ser ótimos parceiros, sempre respeitando a tipologia. Charutos diferenciados para um Cognac fora de série. Exemplos: Hoyo de Monterrey Double Corona, Cohiba Esplendidos, Bolibar Belicosos, Partagás Lusitanias, entre outros.

Champagne, Bordeaux e Porto

27 de Outubro de 2015

Nada como iniciar uma refeição com Champagne. Seu frescor, sua harmonização com comidinhas de entrada, e seu final de boca sempre límpido, vivaz, preparando o paladar para a sequencia de vinhos, é perfeito. Neste caso, era um Barnaut Brut, carro-chefe da casa, com boa presença de Pinot Noir. Proveniente de vinhedos Grand Cru, dois terços são de Pinot Noir e  um terço, Chardonnay. O contato sur lies é de pelo menos dois anos. Quarente mil garrafas produzidas por ano.

champagne barnaut

Boa harmonização com patês

Na sequencia, acompanhando uma fraldinha ao forno com molho roti, temos este segundo vinho abaixo do Chateau Pichon Lalande, Rèserve de la Comtesse da bela safra de 2005. Apesar de seus dez anos, mostrou-se ainda jovem com muita fruta lembrando cassis, toques tostados elegantes e um fundo de tabaco. Como em seu blend há boa proporção de Merlot, seus taninos são polidos, fruto também da qualidade do ano. A madeira é bem dosada e seu final bastante harmônico. Os segundos vinhos em Bordeaux costumam agradar nas belas safras  da região. É impressionante a longevidade sempre constatada nos bons bordaleses.

reserve de la contesse

Bordeaux de equilíbrio notável

Fechando a refeição e seguindo com os Puros, um Porto Colheita de estupenda qualidade. Trata-se de um Krohn 1983 engarrafado após 27 anos envelhecendo nas tradicionais pipas, como mostra a foto abaixo. Esta informação obrigatória é sempre importante para avaliarmos o tempo de envelhecimento destes tesouros. Após o engarrafamento, cessa sua evolução. Seus aromas terciários são incríveis mesclando caramelo, frutas secas, especiarias, toques balsâmicos e muito mais. Sua doçura é maravilhosamente equilibrada por sua notável acidez. Persistência aromática expansiva.

porto colheita 83

Um Colheita de rara beleza

Acompanhando o Porto, os Puros abaixo fizeram bonito. O Partagas P2 expressa toda a potência característica da casa desenvolvendo-se bem ao longo da degustação. Já o Bolivar Belicosos, foge um pouco da fortaleza da marca com toques elegantes, mas com muita personalidade. Duas expressões magnificas de Cuba.

partagas e bolivar

Marcas tradicionais e consistentes

Enfim, três belos vinhos expressando com fidelidade o terroir de suas respectivas regiões. Só mesmo os vinhos para transmitir com riqueza e harmonia sua incrível diversidade de estilos, aromas e sabores. Aliados à boa gastronomia, fica tudo perfeito.

Vinhos de Inverno

10 de Junho de 2015

Com a aproximação do inverno, os pratos ficam mais ricos, saborosos e intensos, sendo muito bem-vindos com as baixas temperaturas. E com o vinho não é diferente. O teor alcoólico é um bom indicador destas características. Portanto, vinhos encorpados do Novo Mundo encaixam-se perfeitamente neste cenário. Contudo, para aqueles que não abre mão dos europeus, alguns clássicos são imbatíveis.

Pensando na Itália, o grande tinto do Vêneto é o primeiro a ser lembrando, Amarone della Valpolicella. Vinho macio, quente e de taninos bem amalgamados. Os tintos do sul da Bota também cumprem seu papel. Primitivo de Manduria na Puglia, Taurasi com a uva Aglianico na Câmpania e os atualmente baldados tintos da Sicília. Logicamente, não esquecendo do Piemonte, temos os Barolos e Barbarescos calcados na temperamental casta Nebbiolo.

Grana Padano e Amarone: Casamento eterno

Agora dirigindo-se à França, tintos do Rhône e da Provença são os mais indicados. Châteauneuf-du-Pape é o mais emblemático. Como alternativas de preço, Gigondas e Vacqueyras são belas escolhas. O tinto Cornas baseado na Syrah é o legítimo representando do Rhône Norte. Da Provença, a apelação Bandol resume bem o poder da casta Mourvèdre, assim como outros tintos do sul da França. No sudoeste francês, como não lembrar das apelações Madiran e Cahors, baseadas respectivamente nas castas Tannat e Malbec, acompanhando os gordurosos e densos Cassoulet e Confit de Canard.

Canard e Cahors

Falando agora da Terrinha, Portugal tem nos vinhos alentejanos a força e o calor de seus tintos. Baseados no binômio Aragonês e Trincadeira, também conhecida em outras paragens como Tinta Roriz e Tinta Amarela, respectivamente. Porém, os tintos durienses não ficam para trás, principalmente levando-se em conta a dinamização recente da região conhecida com “Douro Boys”.

No outro lado ibérico, a Espanha mostra força nos robustos tintos do Priorato, calcados nas uvas Garnacha e Cariñena, as mesmas francesas Grenache e Carignan. Os potentes tintos de Ribera del Duero e de seu vizinho mais humilde da denominação Toro são também exemplos clássicos. Não esquecendo de Rioja, os estilos mais modernos e de certa potência, permitem enquadra-los neste cenário.

Safra histórica de Vintages (1994)

Para os vinhos de sobremesa ou de meditação, a península ibérica é especialista. Jerezes, Portos, Madeiras, Moscatéis, fazem boa companhia aos queijos mais curados, sobremesas mais intensas, na apreciação do Puros após jantares mais ricos, ou mesmo em apresentação solo, lendo um bom livro e ouvindo boa música, ou uma boa prosa. Quanto aos Puros (cubanos), marcas como Partagás, Bolívar e Cohiba, têm a força para o clima invernal.

Do lado francês, Banyuls e Maury são os fortificados mais perto do Porto, conhecidos também por Vin Doux Naturel. Já a Itália, os Passitos são emblemáticos. Essa denominação cai bem no sul do país com a ilha de Pantelleria. Já ao norte, a expressão Recioto emblematiza o mesmo processo. Não poderíamos deixar de mencionar o famoso Vinsanto, o vinho de meditação símbolo da Toscana.

Lógico que tudo isso vale para o Dia dos Namorados, data clássica em nosso calendário. Se você é daqueles que não abre mão do Champagne nesta ocasião, procure por exemplares mais densos, calorosos, como Bollinger, Krug, um Blanc de Noirs e evidentemento, os rosés, especialmente um Gosset.

Harmonização: Compota de Figos

22 de Abril de 2014

Mais uma receita do adorável livro l´Accord Parfait do sommelier Philippe Bourguignon. Trata-se de uma exótica compota de figos escoltada por um autêntico Banyuls do célebre produtor Domaine du Mas Blanc.

Compota de figoErvas e especiarias em profusão

Les figues compotées au romarin

12 pièces de figue violettes

2 bulbes de gingembre confit

un bâton de cannelle divisé en quatre morceaux

2 étoiles de badiane divisées en deux

4 branches de romarin

2 cuillères à soupe de miel de romarin

4 cuillères à soupe de gelée de groseille

10 grains de poivre noir

le jus d´un citron

Banyuls é um vinho fortificado do sul da França, mais especificamente da região de Roussillon. Nesse terroir escarpado beirando o mar Mediterrâneo, os terraços são cultivados em solo xistoso (pedras) com a uva Grenache. Assim como o Porto, há vários estilos de Banyuls. Pessoalmente, o que mais me agrada é o estilo oxidativo, amadurecido em tonéis e muitas vezes ainda soleados em garrafões, lembrando um Porto Tawny a grosso modo. É um estilo chamado localmente de Rancio. Pois bem, os aromas lembram frutas em compota, especialmente ameixas e figos, inúmeros toques de especiarias, ervas e toda a família dos empireumáticos, notadamente o cacau e o chocolate. Daí, sua combinação clássica com a polêmica iguaria.

Provar um Banylus do Domaine du Mas Blanc é como provar um Porto de uma grande casa do quilate de Taylor´s, Fonseca ou Quinta do Noval. Sua fidelidade ao terroir é impressionante. É um daqueles vinhos imortais.

Solo xistoso com videiras antigas

A harmonização de hoje visa enaltecer este grande terroir com uma sobremesa pouco comum, uma compota de figos aromatizada com alecrim. Além desta erva de personalidade marcante, temos canela em pau, pimenta negra em grãos, mel, geleia de frutas vermelhas (groselha, framboesa ou morangos, por exemplo), suco de limão, anis estrelado e gengibre, conforme foto acima.

O suco de limão, o anis estrelado e o gengibre levantam os sabores do prato, equilibrados pela acidez do vinho. Já o alecrim, a canela, a pimenta, exaltam os gloriosos aromas terciários do vinho. Por fim, o figo a geleia e o mel, enaltecem seu lado frutado, com o açúcar na medida certa. 

Sobrando vinho, se for possível, um belo puro como Bolivar ou Partagás com seus aromas terrosos, é certamente um gran finale. Santé!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes FM 90,9 às terças e quintas-feiras. Pela manhã no programa Manhã Bandeirantes e à tarde no Jornal em Três Tempos.

Single Malt: O Explosivo Talisker

25 de Novembro de 2013

Jim Murray (especialista britânico em Whisky) diz em seu livro: “Islay precisou de oito destilarias para entrar no mundo do Scotch Whisky, Skye precisa de uma só”. Se você acha que já provou tudo sobre single malt, prepare-se para fortes emoções antes de enfrentar Talisker, uma explosão de sensações. Se for acompanhá-lo de charutos, escolha um puro potente (Partagás Lusitanias, Bolivar Coronas Gigantes, Cohiba Esplendidos, Montecristo nº 2, Ramón Allones Coronas Gigantes).

Paladares Marcantes

Sabemos que todo famoso Blended Scotch Whisky, ou seja, as marcas mais comerciais e portanto, extremamente conhecidas do grande público, têm por trás um grande Single Malt na essência. Pois bem, Talisker é a alma do badalado Johnnie Walker.

Talisker: única na ilha Skye

O processo de elaboração de Talisker começa na pureza da água. São quatorze fontes de água cristalina e subterrânea. A escolha do malte é rigorosa quanto ao potencial alcoólico e ao nível de turfa (entre 30 e 40 ppm – parte por milhão), índice significativo, mas inferior aos da ilha de Islay. Em seguida, a cevada é imersa em água quente com temperatura controlada onde extrai-se o líquido rico em açúcar a ser fermentado. Após a fermentação, o líquido cristalino é submetido à uma dupla destilação criteriosa em alambiques de cobre. Na sequência, chega o momento da maturação em barricas originalmente usadas no Bourbon Whiskey (americano). Uma pequena parte provêm de barricas utilizadas no amadurecimento dos vinhos de Jerez. Esta predominância em barricas americanas enfatiza os aromas marcantes de baunilha, mel e especiarias. O amadurecimento junto ao mar absorve sutilmente um gosto de salinidade, maresia, incorporada à bebida. No final do processo, principalmente no Whisky básico da destilaria, aromas de tostado, defumado e cítricos são marcantes. É um single malt potente e impactante. Veja as observações a seguir do competente crítico Ralfy Mitchell, no vídeo abaixo:

Abaixo, o mapa mostra as principais sub-regiões escocesas na produção de whisky. A ilha de Skye, mais a oeste, fica praticamente isolada.

Talisker: único na ilha Skye

Como curiosidade, o famoso licor de whisky Drambuie, é elaborado nesta ilha com a participação de Talisker. Uma mistura de ervas, açafrão, açúcar, limão, mel, especiarias e outros segredinhos guardados a sete chaves. Embora haja concorrentes neste seguimento, Drambuie reina absoluto entre os melhores licores de scotch.

Homenagem a Cole Porter

5 de Setembro de 2013

Um dos grandes compositores do século passado, Cole Porter também era um gourmet refinado, figura marcante da Belle Époque parisiense. Anfitrião brilhante, ofereceu várias festas e jantares famosos. Um deles, vale a pena revê-lo. Trata-se de um jantar em Nova Iorque no ano de 1947, oferecido ao Duque de Windsor na residência dos Porters, conforme texto abaixo:

canard a marengoChâteau Ausone: a estrela da noite

Este menu foi reproduzido em vários restaurantes de Nova Iorque na época. Um menu extenso, mas bem elaborado, onde temos pratos variados incluindo sopa, peixe, ave e cordeiro, além de salada, queijos e sobremesa. Curta abaixo Night and Day na voz de Frank Sinatra, enquanto comentamos o jantar.

http://youtu.be/h1ctPCMfdf0

O menu inicia-se com Amuses-Gueules (entradinhas e canapés para fazer a boca) acompanhado de Jerez Fino Williams & Humbert, uma harmonização à inglesa. O jantar propriamente dito inicia-se com uma sopa fria à base de tomate (Cole Madrilène à la Mimosa). Perfeita com Sancerre branco (Sauvignon Blanc do Loire). Em seguida com o mesmo vinho, segue-se Campanile de crêpes aux Fruits de Mer (frutos do mar envolto em massa delicada). Seguindo em frente, o primeiro prato de carne, Le Canard à la Marengo de Joséphine (normalmente um magret com molho de ervas, tomates e cogumelos com redução de vinho branco), acompanhado do Chãteau Ausone (o grande rival do Cheval Blanc em Saint-Émilion).

Neste momento, uma pausa para o paladar. É servido então um sorbet (sorvete à base de frutas, geralmente com algum destilado neutro na receita). No caso, um Sorbet au Gingembre Wunderbar (aromatizado com gengibre). Limpando o palato, um Blanc de Blancs Comtes de Champagne Taittinger para o acompanhamento.

Após esta pausa, Milk-Fed Lamb, Légumes de Saison, Bâtons de Pommes de Terre (costeletas de cordeiro de leite, guarnecidas com legumes da estação e bastonetes de batata). Segue o mesmo Ausone para a harmonização.

Para arrematar o assado antes dos queijos, Salade Le Dôme de la Belle Géraldine. Com a tábua de queijos, um belo Chambertin. 

Cole Porter e Champagne em 1913

Finalmente, chegamos às sobremesas. Croquembouche (profiteroles crocantes), Kiss me Kate Spice Cake (bolo de especiarias à base de cardamomo), acompanhadas de Champagne Perrier-Jouet Cuvée Belle Epoque. Tecnicamente não chega a ser uma harmonização, mas Champagne no final da festa era bastante comum naqueles tempos. 

Para finalizar outro docinho preferido de Porter, Peru Indiana Chocolate Fudge. Chocolate amargo ou meio amargo, leite condensado, frutas secas (pistache, nozes, avelãs), um pouco de manteiga e extrato de baunilha, tudo isso em banho-maria. Acompanhado de um bom café e/ou Cognac Extra Old. Neste final de um lauto jantar, por que não um Puro (Partagas, Bolivar, Montecristo) ou outro de sua preferência?


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