Posts Tagged ‘Paul jaboulet La Chapelle’

Bordeaux 1961: Adagio

21 de Agosto de 2015

Passado o primeiro ato, vamos rumo à apoteose com seis Bordeaux de tirar o fôlego. Na verdade cinco, pois havia um intruso no caminho. Contudo, suas credenciais permitiam tal ousadia. Trata-se do La Chapelle 1961, o Hermitage do século do produtor Paul Jaboulet. Esse não precisa ser convidado.

As duas joias de Saint-Julien

Pessoalmente, os châteaux acima representam o que há de melhor no nobre comuna de Saint-Julien. O primeiro, Léoville Las Cases, é vizinho de comuna do consagrado Latour em Pauillac, tendo muitas vezes esse estilo viril, clássico, e com um poder de longevidade imenso. Mas não se esqueçam, estamos na safra 1961 e suas armadilhas. E desta feita, o château errou a mão. Sua cor é escura, pouco evoluída para a idade, mas os aromas tem toques tostados e herbáceos que incomodam um pouco. Em boca, percebemos uma estrutura tânica de extração em demasia. Tem força, tem poder, mas quiseram fazer parece-lo o que efetivamente não é. Lógico que a comparação com os demais é cruel. Contudo, quem tem uma garrafa desta devidamente adegada, numa degustação solo pode ser fascinante. Agora quem ainda não comprou, compre uma de seu rival que comentaremos a seguir. Este é tiro certo!

Château Ducru-Beaucaillou 1961, que marravilha Claude! Esse é daqueles vinhos que sabe aliar potencia e elegância como poucos. Aromas multifacetados com frutas deliciosas, tostado fino, caixa de charuto, especiarias e uma madeira de cedro que é marca registrada deste Bordeaux. Encorpado na medida certa, muito equilibrado em seus componentes e uma persistência aromática notável que se esvai com muita classe, deixando saudades. Um grande cinquentão!

Bordeaux 61: Aqui está a perfeição

Os detalhes fazem a diferença. Porém, aqui, só no fotochart. Foi sem dúvida, a disputa mais acirrada, cabeça a cabeça. Lindos Bordeaux, maduros, suaves, profundos e inesquecíveis. Não há palavras para esses gigantes. Embora todos os aromas terciários clássicos desta comuna estejam presentes, tais como, trufas, toques terrosos, animais, ervas finas, entre outros, a fruta ainda está presente, o frescor é incrível e os taninos são verdadeiras rolimãs em boca. Mais uma vez pessoalmente, pendi para o Haut-Brion, mas o La Mission valorizou muito esta escolha. Isto é de fato o que se espera de um Bordeaux de longo envelhecimento. Bebe-los agora é a recompensa pela paciência e sabedoria. Nem é preciso dizer: os dois com 100 pontos absolutos de Robert Parker.

Bordeaux e Rhône em vinhos de legenda

Neste grand finale, não dá mais para pontuar. São vinhos fora da curva, incomparáveis. Começando pelo La Chapelle, também 1961. Já impressiona pela profunda cor escura, mostrando o poder de longevidade dos Hermitages. Os aromas que mesclam frutas escuras em geleia, especiarias, defumados, balsâmicos e algo de charcuterie (embutidos), estavam presentes. Em boca, potente, taninos em profusão e um equilíbrio dos grandes vinhos. Pessoalmente, apesar de grande, achei este exemplar um pouco cansado. De fato, o histórico destas garrafas é sempre um mistério que culmina no famoso ditado: “Em vinhos antigos, não existem grandes safras e sim, grandes garrafas”.

E finalmente chegamos ao monumental Chateau Latour 1961. Esse é aquele vinho que você prova e fica sem reação. Silêncio absoluto. É imponente, te cumprimenta à distância, exige um certo protocolo, mas é maravilhoso! Não sei ainda onde ele vai chegar, mas certamente o destino final é o paraíso. Que cor! que aromas maravilhosos do mais autêntico cassis, cedro, minerais como grafite, terroso, toques de cacau, chocolate escuro, e assim vai. A boca é como um bailarino segurando a moça com mão forte, mas transmitindo extrema delicadeza e elegância. E aí você degusta, ele passa, mas ele fica, fica, … Não entenderam? prove uma garrafa. Garanto que até 2040 a magia não acaba.

Um pouquinho de paciência, pois não terminou. Próximo artigo, o grande Latour à Pomerol, Scion e dois Sauternes daqueles. Não percam!

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte V

22 de Outubro de 2014

Agora deixando a Borgonha, e partida para Bordeaux. Chegando em Bordeaux, fomos almoçar em Saint-Emilion no Château Troplond-Mondot (pronuncia-se “Trolon-Mondô). Belo restaurante com menu bem executado. Estamos falando da margem direita de Bordeaux.

20141005_211214

Branco de margem direita

20141005_142152

A delicadeza de Pessac-Léognan

20141005_211234

À sombra do grande Yquem

20141005_141204

Pessac-Léognan de estrutura

Para dar início aos trabalhos, um quarteto muito  bem representado dos brancos bordaleses, vinhos de uma certa maneira subjugados frente ao enorme destaque dos tintos. De início, Jean Luc Thunevin Blanc nº 1 2009. Muito agradável, mas o menos complexo do painel. Madeira bem casada com a fruta e final fresco. O segundo trata-se de um branco bem elegante, Château Carbonnieux 2011. Aromas sutis, toques florais e textura delicada em  boca. Sempre um bom início de refeição. O terceiro vinho, o branco seco do Château d´Yquem, “Y” , Ygrec 2008. Elaborado com proporções semelhantes de Sémillon e Sauvignon Blanc, é um vinho marcante, com boa presença em boca e bastante gastronômico. Por último, um grande Pessac-Léognan, Domaine de Chevalier 2007. Um dos melhores de Bordeaux, apresenta ótima estrutura para envelhecimento. Bom corpo, textura macia e boa evolução de aromas. Fechou com chave de ouro esta série.

20141005_140115

Não estava em sintonia com os demais

20141005_143959

Chateauneuf-du-Pape de exceção

20141005_205909

Um dos melhores bouchonné

Na sequência de tintos, vamos abordar os três não bordaleses em primeiro lugar. Começando pelo Masseto 2001, foi o tinto que destoou no painel. É claro que se tomado individualmente, trata-se de um belo toscano baseado na casta Merlot. Contudo, diante dos bordaleses que virão a seguir, não há termo de comparação. Em seguida, um Chateauneuf-du-Pape fora de série do mítico produtor Henri Bonneau Réserve des Celéstins, uma cuvée especial de sua cave. Aromas lembrando o sul da França como garrigue (vegetação típica da Provence), ervas, especiarias e toques balsâmicos. Boca sedosa e extremamente longo. Por último, o que deveria ser talvez o vinho da viagem, o lendário Hermitage Paul Jaboulet La Chapelle 1961, estava bouchonné. Uma pena, mas sua cor, estrutura, e potência de taninos impressionaram.

20141005_140034

Concorrente à altura do astro Petrus

20141005_140202

Le Pin: Produção minúscula

20141005_140129

Petrus: Sempre misterioso

20141005_140213

Haut Brion em suas grandes safras

Enfim, chegou a vez dos bordaleses. E que vinhos, que safras! Uma sequência de 1990 inesquecíveis. Começando  pelo Château Lafleur 1990, um Pomerol de rara beleza. Boa evolução de aromas lembrando um toque terroso, cogumelos, ameixas escuras e chocolate. O mais pronto da trilogia. Em seguida, o minúsculo Chateau Le Pin 1990. Muita estrutura de taninos, ainda um pouco fechado, dando a certeza que uma boa decantação só trará benefícios. Muita vida pela frente. Por fim, o Chateau Petrus 1990. Uma criança ainda. Este é o Romanée-Conti de Bordeaux. Vinho misterioso, que não se revela facilmente. Apesar de seus mais de vinte anos, muitos segredos a serem desvendados. Um das grandes safras deste tinto. Realmente, não tinha como o Masseto ficar pequenininho.

Para não ficarmos só na margem direita, que tal para finalizar um Haut Brion 1989, um dos cem pontos de Parker. Safra histórica para esta estupenda propriedade de Pessac-Léognan. Uma maravilha já acessível, mas sem nenhum sinal de cansaço. Nos aromas, o característico toque animal, trufas, toques terrosos, algo de café, de chocolate, envolvidos em taninos sedosos. Um verdadeiro Premier Grand Cru Classe. Bravo!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.


%d bloggers like this: