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Chateau Margaux e seus requintes

29 de Julho de 2018

Falar dos vinhos do Chateau Margaux é sempre um tema de grande prazer, mas ao mesmo tempo de certa incapacidade em descreve-los “comme il faut”. Falar então de pratos que pode acompanha-los, chega a ser insolente. Lembro-me bem  de uma grande garrafa de Margaux 1900, uma safra histórica para o Chateau, absolutamente perfeita e inesquecível. No entanto, no belo livro Chateau Margaux do jornalista Nicholas Faith, três grandes sommeliers descrevem propostas ousadas para determinadas safras do Grand Vin, expostas abaixo.

img_4901Paul Pontallier in memorian

Par Georges  Lepré

Apaixonado pelo Chateau Margaux 1961, Georges Lepré foi sommelier da Velha Guarda em grandes restaurantes, entre os quais L´Espadon do hotel Ritz, além de pertencer à Academia du vin à Paris.

Para um vinho desta magnitude, os pratos devem ser relativamente simples, sem ofuscar o astro maior, segundo suas palavras. De fato, a safra 61 para os grandes Bordeaux possui sólida estrutura e enorme longevidade, gerando riquíssimos aromas terciários.

Nas várias sugestões de pratos, Lepré fala em carré de cordeiro, contrafilé com osso, guarnecidos por sauce bordelaise (molho à base de vinho tinto) com trufas ou cogumelos. Fala também das caças de pena como codornas, perdizes e faisão, sempre com molhos que não agridam o vinho.

Por fim, ele menciona uma receita inusitada com L´Ortolan, um pássaro relativamente pequeno que hoje é protegido por lei na Europa. Muito apreciado em outras épocas na Aquitânia, ele sugere um receita rápida no forno ou em panela com poucos temperos servida com batatas soufflées.

Para os queijos, os franceses gruyère ou Comté, e os holandeses Gouda ou Mimolette. Na verdade, Mimolette é do norte da França, imitando o estilo holandês.

img_4902Sala de jantar em estilo Império

Par Markus Del Monego

Reconhecido como um dos melhores sommeliers da Alemanha em 1986, o suíço Markus del Monego sagrou-se campeão mundial em 1998. Com uma visão bastante eclética, Markus propõe harmonizações inusitadas da entrada à sobremesa.

Começando com peixes, um Margaux 85 com seus taninos macios e delicados pode perfeitamente acompanhar um turbot (peixe semelhante ao linguado) grelhado com molho de vitela. Nesta mesma linha, uma lamproie (lampreia ou enguia) à la bordelaise pescada no Gironde, acompanhará um Margaux 94 de maior riqueza aromática e estrutura. Lembrando que neste último exemplo, o peixe é de rio e o molho à base de vinho tinto.

Partindo para as aves grelhadas, um molho rôti caminha para o Margaux 89. Já um Margaux 99 com mais vigor, dez anos mais jovem, irá melhor com molho de frutas escuras, como o cassis.

Para as caças como coelho, veado, ou lebre, vinhos de grande estrutura e toques de evolução como Margaux 90. Se o molho exigir mais vigor com presença de azeitonas ou cacau, a safra 93 é uma boa pedida.

No caso de um suflê de queijo Gruyère, um vinho elegante e aromático como um Margaux 78, plenamente evoluído. Em uma tábua de queijos, o Margaux 85, vigoroso e macio, pode caminhar bem entre eles.

Encerrando com a sobremesa, um velho hábito bordalês é marinar morangos frescos em vinho tinto, de preferência vinhos de Margaux, e acompanha-los com um Margaux plenamente evoluído como a safra de 1982.

img_4903 perfeitamente decantado

Par Shinya Tasaki

Formado pela Academie du Vin à Paris, Shinya Tasaki brilhou na sommellerie de Tóquio, sagrando-se campeão mundial em 1995. Há muitos anos, tem importante papel na direitora da ASI (Association de la Sommellerie Internationale).

Em 1975, provou seu primeiro Margaux 1966 com Steak au Poivre, uma combinação um tanto arriscada. Mais tarde, já em atividade, provou várias safras históricas, dentre as quais o Margaux 1900, comentado neste artigo. Realmente um vinho imortal.

Suas escolhas tem a ver com a cozinha japonesa e tintos mais evoluídos. Começando pelo Margaux 1900, um vinho que eu não ousaria combinar por não estar á altura do mesmo, Tasaki propõe uma harmonização extremamente pontual. Trata-se de um estufado de pombo chamado Palombe (um pombo grande), acompanhado de trufas negras e cogumelos Matsutake, o qual apresenta um aroma de resina. Pois bem, o lado animal da ave combinado com o resinoso do cogumelo, segundo Tasaki, faz o par perfeito com os sabores e aromas do vinho. Bem, só nos resta confiar no campeão …

Um outro Margaux de sua predileção é o 1958, ano de seu aniversário. Ele propõe combina-lo com uma espécie de sushi, construído da seguinte maneira: um pedaço de foie gras com lâminas de trufas, um toque de vinagre balsâmico envelhecido e de caldo de carne. Tudo isso embrulhado em alumínio e três minutos de forno. Diz que a fusão de sabores com o vinho  é sensacional!

Por fim, a proposta é com atum, melhor o Toro, sua parte mais nobre. A receita consiste num molho reduzido à base de soja e um pouco do vinho de Margaux com as borras ou lias. Esse atum ligeiramente grelhado com o molho descrito e bolinhos de arroz, resultam em sabores interessantes  para a harmonização com o Margaux 83, uma das melhores safras já elaboradas e um destaque entre os grandes Bordeaux deste ano.

Resumindo, opções de experiências gastronômicas não faltam. Mesmo com a dificuldade das receitas, talvez fique mais fácil executa-las, do que conseguir nos preços atuais algumas destas maravilhas de safras excepcionais. De todo modo, a experiência de provar um Margaux é sempre inesquecível. Como dizia Engels, filósofo alemão: um momento de felicidade!

Bordeaux em Segundos

25 de Fevereiro de 2018

Os Chateaux bordaleses na chamada margem esquerda além de aristocráticos, são de dimensões muito maiores que as propriedades de margem direita, notamente Pomerol e Saint-Emilion. Estamos falando de uma relação de um para dez em termos de áreas, onde a noção de micro parcelas fica pulverizada. É neste contexto, que surge a ideia do chamado segundo vinho do Chateau, e em alguns casos, até o terceiro.

Recordando o processo, no Chateau Margaux por exemplo, temos quase 100 hectares de vinhas plantadas com Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot. Para cada um destes varietais, temos várias micro parcelas espalhadas na propriedade. Esses parcelas são colhidas e vinificadas separadamente. Em seguida vem o estágio crucial para a montagem do Grand Vin. A equipe enológica do Chateau se reúne exaustivamente compondo o blend das várias parcelas de cada um dos varietais. Isso era comandado com maestria até  pouco tempo atrás pelo saudoso Paul Pontallier, que nos deixou recentemente. Desta seleção rigorosa, nasce o Grand Vin. As amostras que foram rejeitadas para este fim, comporá o chamado segundo vinho. No caso de Margaux, existe agora um terceiro vinho.

Este foi exatamente o propósito da degustação que será descrita abaixo, num agradável almoço no restaurante Gero. Já de pronto, devo dizer que as conclusões tiradas neste evento não devem ser generalizadas para todos os Chateaux bordaleses, pois os quatro vinhos provados nesta ocasião eram de grandes safras e de Chateaux excepcionais. Afinal, quase 400 pontos estavam na mesa!

6eba4821-dd75-427c-bced-711188e508da.jpgtexturas compatíveis

Antes porém, uma pausa para abertura dos trabalhos. Talvez o branco mais austero de toda a Alsácia, Clos Sainte-Hune da Maison Trimbach, um Riesling seco de extrema mineralidade. Este provado da safra 2004, estava surpreendentemente pronto, já que trata-se de um branco de grande guarda. Seus aromas cítricos e destacadamente defumados foram muito bem com um atum marinado. As texturas de ambos (prato e vinho) casaram-se perfeitamente. O vinho apresentou ótimo equilíbrio e um final de boca extremamente persistente.

b4597437-e2c9-46ab-b950-588b4e4ea5ff.jpgdistância considerável neste embate

Único embate de margem direita, Cheval Blanc tem uma propriedade considerável em termos de área, 41 hectares, para padrões em Saint-Emilion. Nesta safra, apenas 55% do vinho elaborado passou pelo crivo de Grand Vin. O rigor deste julgamento se traduz na taça com ampla superioridade deste Cheval com 99 pontos. Gostaria de uma explicação de Mr. Parker pela não perfeição do vinho. Embora com décadas pela frente, este Cheval mostra uma elegância impar, própria dos grandes vinhos. Seus taninos, seu equilíbrio, e sua expansiva persistência, faz dele um dos grandes Chevais da história. Já o Petit Cheval, mostrou-se muito prazeroso para o momento, uma das vantagens dos chamados segundos vinhos. Nota-se sutis aromas de pirazinas (pimentão), advindo sobretudo dos Cabernets, fruto de uma maturação imperfeita de alguns setores das vinhas. Isso claro, numa sintonia fina, comparado a seu astro maior. De todo modo, um belo vinho para ser apreciado sem comparações. Nota 87 de Parker, um pouco rigorosa.

gero latour 2000

Latour: vinhos consistentes

Aqui uma disputa acirrada, pois Les Forts de Latour é o melhor segundo vinho de todo o Médoc, opinião quase unânime da crítica. De fato, é uma maravilha. Bem mais acessível que o todo poderoso Latour, seus aromas de cassis, couro e notas minerais permeiam a taça. Pode ainda evoluir por bons anos em adega. Voltando à maxima onde a comparação é cruel, o Latour 2000 é uma muralha de taninos em multicamadas de extrema finesse. Seus aromas de pelica, frutas escuras, e grafite, são marcas registradas do senhor do Médoc. Seu platô de evolução está estimado para 2060. Um monumento!

risoto e cordeiro para os Bordeaux

Acima, alguns dos pratos que valorizaram o desfile de belos Bordeaux. O risoto de funghi porcini casou muito bem com a textura delicada e os aromas terciários do Margaux 90, por exemplo. Já o carré de cordeiro tinha a fibrosidade e suculência exatas para um La Mission 2000 ou o Latour de mesmo ano com seus taninos presentes.

gero margaux e pavillon 90

padrão elevado de segundo vinho

Neste embate, mais um vinho perfeito, Margaux 1990 com 100 pontos consistentes. Aí é difícil peitar. Mesmo para este Pavillon Rouge 90, vindo diretamente do Chateau de uma coleção privada, faltou fôlego para chegar ao Grand Vin. O Margaux 90 é deslumbrante com seus aromas de couro e sous-bois, fruta delicada, e rico em toques balsâmicos. Em elegância se equipara ao Cheval Blanc 2000 acima descrito. O Pavillon Rouge até que tentou, mas se deparou com um dos grandes Margaux da história. Novamente, tomado sozinho, sem comparações, é um belíssimo vinho cheio de elegância e muito prazeroso aromaticamente.

gero la mission 2000

disputa muito acirrada

Neste último flight, mais um vinho de 100 pontos, o fabuloso La Mission Haut-Brion 2000. Em termos de estilo, potência, bem semelhante ao Latour 2000, mostrando toda a sua força. Um verdadeiro infanticídio, já que seu platô está estimado para 2050. Um vinho musculoso, cheio de frutas negras, toques minerais terrosos e defumados. Uma montanha de taninos a ser domada pelo tempo. Amplo em boca com um equilíbrio notável. Seu par La Chapelle 2000, segue o mesmo estilo, um pouco menos imponente. Foi a disputa mais acirrada entre as duplas, na distância entre o Grand Vin e seu respectivo segundo vinho.

Enfim, belos vinhos de grandes safras e de Chateaux irrepreensíveis. Fica a lição que os chamados Grand Vin são realmente espetaculares, mas que tem no preço e na paciência em espera-los na adega, seus maiores empecilhos. Por outro lado, os segundos vinhos são bem prazerosos para abate-los mais jovens, apesar de seu bom potencial de guarda.

96 pontos com louvor!

Passando a régua, um Chateau d´Yquem 1976, uma das grandes safras desta maravilha. Com seus 42 anos de idade, entra numa fase de bouquet sublime com notas de café, marron-glacê, e toques de cítricos confitados. Um equilíbrio e uma expansão notáveis, acompanhando de forma impecável um creme de mascarpone e chocolate. Lembrando que 1976 é grande ano na Alemanha para vinhos botrytisados.

gero tokaji szamorodni

estilo meio seco

O vinho acima vale a pena um comentário. Trata-se de um Tokaji Szamorodni que não faz parte da família Aszú, onde o índice de uvas botrytisadas é relativamente alta em vários níveis (3, 4, 5, 6 Puttonyos). Neste caso, Szamorodni significa uvas colhidas naturalmente com algum índice de botrytisação, ou seja, menor porcentagem de uvas botrytisadas vai para um estilo mais seco, dry, ou Száraz em húngaro. Portanto, tem um sabor meio seco semelhante a um Jerez Amontillado. Muito bom para patês de caça, aperitivos e queijos de personalidade. Um vinho que apesar da idade, mais de 20 anos, tem estrutura e vigor para bons anos em adega.

gero behike 52

 o melhor Robusto da atualidade

Finalizando a tarde, alguns Behike 52 para esfumaçar as conversas em meio a Cognacs e Grappas. Behike é a linha super luxo da Cohiba elaborada em três bitolas. Esse 52, ring do charuto, é considerado o melhor Robusto atualmente, já tendo ganhado como melhor Puro do ano em 2010 pela Cigar Aficionado.

Agradecimentos aos amigos e confrades em mais uma experiência fantástica com caldos bordaleses. Vida longa aos companheiros de copo e mesa num ano que promete fortes emoções. Aos ausentes o alerta, o campeonato é de pontos corridos. No final do ano vai fazer falta. Abraço a todos!

Margaux: Ideia de Felicidade

7 de Outubro de 2017

Friedrich Engels, filósofo alemão e um dos pilares do Marxismo, disse quando questionado o que seria um momento de felicidade, Chateau Margaux 1848. Esses momentos se prolongaram num excelente almoço no restaurante Parigi, provando dois dos mais exemplares Chateaux da clássica comuna de Margaux no Médoc. O grande Margaux que dá nome à comuna, e no seu encalço, Chateau Palmer, injustamente classificado como Troisième Grand Cru Classe.

a entrada e a saída

Tartar de atum, um pouco de proteína para enfrentar a batalha. Mil-folhas clássico, uma das especialidades da casa. Belo serviço de vinhos executado pelo sommelier Alexandre.

Os tintos de Margaux são conhecidos por sua elegância dentre os grandes da Margem Esquerda. Se comparado com a Borgonha, seria uma espécie de Chambolle-Musigny. Neste sentido, Chateau Palmer enquadra-se bem com significativa participação da Merlot em seu corte, tendo leve predominância da Cabernet Sauvignon. Já o grande Margaux, comporta-se como Le Musigny, um tinto mais estruturado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon, por volta de 75% no corte. Como dizia o mestre Paul Pontallier, falecido recentemente: “sua força se esconde atrás de uma rara elegância”. Vale salientar que Chateau Margaux envelhece muito bem, sobretudo nas grandes safras. Um dos mais espetaculares vinhos que já provei, senão o melhor, foi uma garrafa perfeita de Margaux 1900 com muito de vocês presentes já há alguns anos, meus caros confrades.

Vale ressaltar que além dos belos tintos do Chateau, Margaux também elabora tradicionalmente um branco impecável exclusivamente com Sauvignon Blanc há quase cem anos, Pavillon Blanc du Chateau Margaux. Suas características únicas de terroir permitem esta ousadia num território fundamentalmente de tintos. O cascalho muito fino e profundo, além da presença notável de calcário são algumas de suas particularidades, marcando com muita elegância seus vinhos.   

parigi margaux 83

duas joias de 1983

Feita as devidas preliminares, vamos aos vinhos em quatro flights de muito prazer e aprendizado. Já de cara no primeiro, talvez o melhor deles, dois dos grandes tintos de Bordeaux da safra 83 lado a lado, Margaux e Palmer. Quase duzentos pontos em jogo. O Margaux 83 só confirmou mais uma vez ser um dos grandes Bordeaux já produzidos. Espetacular em todos os sentidos. Este seu momento com mais de trinta anos, tem um esplendor maravilhoso. Todos aqueles aromas que se exige de um grande tinto bordalês estão presentes. Fruta madura e elegante, os toques de tabaco, especiarias, café, florais e balsâmicos, permeiam a taça em grande harmonia. Não sei se ainda vai evoluir, mas como está, já é uma maravilha.

O Palmer 83 com dois pontos acima do Margaux descrito é um monstro engarrafado. Sua cor é menos evoluída e mais profunda. Seus aromas chegaram na taça ainda tímidos, soltando-se pouco a pouco. Uma montanha de taninos ainda a resolver. Muita concentração de fruta e os florais desabrochando a cada instante. Sua boca é densa, longa, e muito bem equilibrada. Atualmente, não dá o prazer de seu ilustre oponente, mas certamente romperá décadas para aqueles mais pacientes. Sua estrutura é tal que podemos compara-la à mítica safra de 1961. Um vinho impressionante ainda longe de seu apogeu.

parigi margaux 89

aqui Palmer deu a aula

Bom, gastei o verbo neste primeiro flight porque realmente foi impecável. Se neste segundo, conseguíssemos subir mais ainda, estaríamos no céu. De todo modo, estamos falando de dois dos maiores de toda a comuna de Margaux de maneira incontestável. Neste segundo flight da safra 89 o nível desceu um pouquinho mas principalmente, houve maior disparidade entre os vinhos. Começando pelo Palmer, o nariz lembrava muito o Margaux 83 no sentido de evolução aromática. É um vinho muito complexo, fino, bem trabalhado, mas no fotochart perde por uma cabeça para o Margaux 83. De qualquer modo, aqui uma primeira amostra de como o Palmer em algumas safras pode encarar de frente o grande Premier Cru Margaux.

Agora falando do Margaux 89, um vinho difícil de ser avaliado, pois parece ainda não estar pronto. Fechado nos aromas de início, foi se mostrando muito timidamente ao longo da degustação. Sua estrutura tânica impressiona, mas parece um tanto super extraído,  faltando meio de boca. Tenho sérias dúvidas quanto à evolução para melhor deste tinto. Não senti a mesma firmeza que o grande Palmer 83 me passou.

parigi margaux 90

difícil escolha

Seguindo em frente, vamos ao terceiro flight. Sem dúvida, o mais surpreendente de todo o painel. Teoricamente parecia ser fácil, pois tratava-se da safra de 90 onde Chateau Margaux e seu segundo vinho, Pavillon Rouge, estavam lado a lado. Para ratificar mais ainda este favoritismo, o Margaux 90 tem 100 pontos. Começando pelo Pavillon Rouge, esta garrafa veio diretamente do Chateau. Portanto, seu histórico é ilibado. De fato, estava maravilhoso, pronto, sem arestas, e extremamente prazeroso. Um nível de segundo vinho invejável. 

O Margaux 90 evidentemente ainda não estava pronto, mas não o achei em grande forma. Talvez seja um problema de garrafa. É logico que minha lembrança desta safra é das melhores, pois provei uma Imperial há poucos anos atrás. De todo modo, é um vinho muito complexo e no momento ainda cheio de mistérios, mas que o Pavillon fez bonito, isso fez …

parigi margaux 86

o presente e o futuro juntos

Por fim, neste quarto flight, uma verdadeira lição de quando um vinho está pronto e o outro ainda no início da jornada.Vamos falar agora de Pavillon Rouge 1982. Um segundo vinho com 35 anos de idade. Outra garrafa impecável diretamente do Chateau. Um vinho totalmente resolvido, no seu auge, com todos os aromas terciários em harmonia. Falta evidentemente, aquela expansão de boca que só um Premier Cru é capaz de alcançar. De todo modo, um vinho delicioso.    

Falando agora do Margaux 86, terminamos este último flight. Trata-se de uma safra de vinhos de grande estrutura, muito tânicos, muito austeros na juventude, e este não fugiu à regra. Em  termos de longevidade é uma boa questão se este 86 irá evoluir no mesmo nível do Palmer 83 comentado no primeiro flight. São vinhos musculosos, aptos a vencer grandes jornadas, atravessar décadas. O tempo dirá …

parigi pavillon rouge

 exemplos de dois super segundos

A foto acima resume o alto nível desses vinhos a despeito das gloriosas safras 82 e 90. Sabemos que o segundo vinho do Chateau são os vinhos rejeitados para o assemblage do Grand Vin. No caso do Chateau Margaux, Pavillon Rouge coloca-se em altissimo nível. Talvez seja depois do Les Forts de Latour, o melhor segundo vinho do Médoc. Para rever conceitos com a vantagem de ficarem prontos mais cedo.

Enfim, mais uma lição de como as principais comunas do Médoc possuem Chateaux de grande calibre, capazes de fazer frente aos vinhos mais badalados e sabidamente grandes no melhor sentido da palavra. Uma certeza fica, Palmer sempre será um porto seguro na elegante comuna de Margaux.   

Agradecimentos aos confrades presentes e vários puxões de orelha em outros tantos ausentes. Afinal de contas, sexta-feira é sagrada. Abraços e brindes a todos!

Paul Pontallier: Elegância e Nobreza em Margaux

28 de Março de 2016

Neste sexcentésimo artigo (600 artigos) gostaria de falar algo importante e de modo algum triste. Entretanto, apesar da tristeza, é acima de tudo uma merecida homenagem a um dos grandes homens do vinho, Paul Pontallier, Diretor Técnico do Château Margaux. Respeitado pela aristocracia bordalesa e por todos que cercam o mundo do vinho, Pontallier soube como poucos destacar, respeitar e promover o grande terroir do único Premier Grand Cru Classe de Margaux. Já em seu primeiro ano, em 1983, marca o chateau com uma safra histórica e uma das minhas preferidas deste grande tinto. Daí para frente, um caminho de sucessivos sucessos, mostrando mais uma vez a importância do fator humano num terroir de grande expressão.

Desde sua presença no chateau, fica claro e notório os detalhes e extremo cuidado na elaboração do “Grand Vin” a cada safra. Parker, um dos maiores especialistas em Bordeaux, fornece notas altíssimas e consistentes na grande maioria das safras lideradas por Pontallier. Infelizmente, neste março de 2016, ele nos deixou, vítima de câncer. Contudo, sua presença será perpetuada nas inúmeras safras com sua decisiva participação que com certeza, envelhecerão maravilhosamente nas mais famosas adegas do planeta por longos anos.

margaux 83

O grande tinto do Médoc na safra 83

Anos atrás, tive o privilégio de comandar e organizar uma vertical histórica do chateau desde 1900. Aliás, o vinho desta safra foi o melhor provado por mim até hoje, sem comparação com qualquer outro vinho, seja de que região for. Um tinto centenário com uma cor escura de grande preenchimento. Os aromas ainda joviais, com muita fruta, eram impressionantes. O sabor, o equilíbrio, o corpo, e a presença de taninos de cadeia longa totalmente polimerizados, promoviam uma textura em boca impar, com total integração com o álcool. Um vinho impressionante, imortal e quase indescritível.

Nesta degustação, comentada neste mesmo blog em artigos anteriores, as safras foram divididas em quatro grupos.

Os imortais: 1900, 1904, 1918, 1924, 1928, 1945 e 1961. destaque para 1900 e 1928.

Os maduros: 1947, 1953, 1959 e 1979, sendo 59 minha safra de nascimento.

Os vigorosos: 1982, 1983, 1985 e 1990. A safra do coração, 1983.

As promessas: 1986, 1995, 1996 e 2000. a safra 2000 foi um verdadeira infanticídio.

Recentemente, tive o privilégio de decantar uma Imperial (seis litros) da safra 1990. E realmente, o vigor desta safra é notável. Um vinho que está se revelando aos poucos, mas com muita qualidade, beirando a perfeição.

margaux 90

Imperial 1990 no cavalete

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Margaux Collection

A família Château Margaux inclui também os vinhos Pavillon Rouge, o segundo tinto do chateau, muito comum na hierarquia bordalesa, e o Pavillon Blanc, seguramente o melhor branco de todo o Médoc. Um Sauvignon Blanc fermentado e amadurecido em barricas novas de grande complexidade e poder de envelhecimento.

Os vinhos da comuna de Margaux costuma ser definidos como femininos. De fato, o solo de Margaux tem uma presença importante de calcário que normalmente gera vinhos elegantes. Mas quando se trata de um Château Margaux, pense numa mulher forte, de fibra, sem perder a feminilidade. Neste chateau, a proporção de Cabernet Sauvignon é alta. Daí, seu poder de longevidade.

Fazendo um paralelo como os vinhos da Borgonha, temos a comuna de Chambolle-Musigny com a marca de feminilidade. Contudo, quem já provou um Les Amoureuses e um Musigny, lado a lado, percebe esta feminilidade muito mais facilmente em Les Amoureuses. Já o Musigny, esconde esta feminilidade atrás de estrutura monumental, fazendo dele um dos maiores de toda a Borgonha. Numa expressão famosa em sua referência diz-se que um Musigny na boca é como uma calda de pavão. O vinho se abre em sabores multifacetados. Voltando ao Margaux, Pontallier compara-o a um bailarino, que por trás de toda a leveza e elegância de sua expressão, dispõe de uma força descomunal para o equilíbrio da bailarina. Um pouco mais de Pontallier no vídeo abaixo:

https://youtu.be/-FVhJZ-3m0w

Assim era Pontallier; culto, afável, técnico, esclarecedor, e fiel a seu terroir. Château Margaux com certeza encontrou sua alma gêmea, unindo de maneira brilhante fatores naturais e humanos que são a essência de um grande terroir. Um brinde a Pontallier, do outro lado da taça!

Chateau Margaux em grandes safras: Parte II

14 de Outubro de 2015

Continuando a saga, vamos dar início ao jantar propriamente dito. Os dois vinhos brancos foram servidos simultaneamente para acompanhar alguns pratos de entrada, Pavillon Blanc du Chateau Margaux nas safras 2001 e 2011.

pavillon blanc 2011

Vibrante e fresco

Safra que promete bom envelhecimento, encontra-se em tenra idade. Bela acidez, frescor, aromas de frutas e flores delicadas dominam o cenário olfativo. Os brancos do Chateau Margaux são fermentados e amadurecidos em barricas. Isso fornece uma proteção na cor, promovem aromas mais complexos no envelhecimento e permitem uma textura mais macia em boca. Com o devido tempo, ele vai chegar lá.

pavillon blanc 2001

Maciez e Maturidade

É difícil um 100% Sauvignon Blanc chegar bem nesta idade (mais de uma década). Contudo, os baixos rendimentos e as técnicas de vinificação descritas acima contribuem para este estilo de vinho. Os toques herbáceos nos brancos do Chateau Margaux são muito mais sutis do que vemos em vários vinhos de Sauvignon. Com o envelhecimento, os aromas cítricos misturam-se com frutas mais delicadas como pêssego por exemplo, dando suavidade ao conjunto. Sua maciez, seus elegantes toques de madeira e algo de cogumelos, completam admiravelmente sua evolução. Belo vinho para acompanhar frutos do mar com molhos brancos delicados.

pavillon rouge 2009Muita fruta e flor em sua juventude

Agora entrando no terreno dos tintos, dois Pavillon Rouge du Chateau Margaux são servidos em duas belas safras. O da foto acima esbanja juventude e frescor. Seus aromas de frutas escuras e flores são notáveis. Taninos macios, de fácil aceitação. Muito harmônico em boca com seus componentes bem dosados: álcool, acidez e taninos. Apesar de poder evoluir bem em garrafa, está delicioso para beber neste estágio.

pavillon rouge 2000

Profundo e cerimonioso

Outra grande safra, mas de perfil completamente diferente. Com seus quinze anos, ainda continua com certos mistérios. Cor profunda, rico em taninos, e começando abrir seus aromas terciários. Frutas escuras  em geleia, toques sutis de sous-bois, couro e caixa de charuto. Boca um tanto austera, necessitando decantação. Com taninos a resolver, merece mais alguns anos em adega, permitindo assim, maior complexidade aromática. Um vinho marcante.

chateau margaux 2004

Um dos destaques do Médoc nesta safra

A safra 2004 não teve o mesmo esplendor como 2000, 2005 e 2009. Portanto, apesar de tratar-se de um Chateau Margaux, numa sintonia fina, seus taninos não são tão polidos. É uma questão de safra onde não teve condições de haver uma maturação fenólica plena. Portanto, mesmo com os anos de adega e o desabrochar de seus aromas, haverá sempre uma cicatriz na resolução dos taninos. Mesmo assim, para a safra em questão é uma das melhores pedidas no Médoc. Deve ser decantado com antecedência por duas horas pelo menos.

chateau margaux 1996

1996: uma linda safra

Aqui é quando unimos um grande vinho a uma grande safra. Apesar de jovem, este Margaux está delicioso para beber. Seus aromas primários de frutas e flores explodem em harmonia. Boca sedosa, bem equilibrado com final muito expansivo. É evidente que pode evoluir em adega por décadas, mas seus taninos ultra polidos permitem sua apreciação mesmo jovem. Um dos grandes Margaux desta década de 90.

chateau margaux 1983

Apesar de pouco badalado, 83 é soberbo

Eu sou suspeito para falar deste vinho, mas 83 é uma grande safra deste Chateau. Não só o Chateau Margaux, mas a comuna de um modo geral elaborou vinhos melhores do que a badalada safra de 1982. Voltando ao astro, seus trinta e dois anos idade estão em grande forma. Aromas dominado pelo lado terciário como couro, cogumelos, especiarias, minerais, balsâmico, e outros indescritíveis. Contudo, a fruta ainda está presente, grande frescor, e taninos bem resolvidos. Deve permanecer neste platô por mais algumas décadas. Um dos grandes Margaux da história, coincidindo com a chegada em 1983 do atual diretor do Chateau, o competente Paul Pontallier.

yquem 1990

Yquem numa bela safra

Novamente a junção de um grande vinho e uma grande safra. Vinho para evoluir por décadas. Está saindo de sua fase primária para desabrochar seus aromas terciários. Muita fruta, mel, damascos, os toques da Botrytis que lembram esmalte de unha, caramelo, entre tantos outros. Muito equilibrado em boca com um belo suporte de acidez. Sua persistência aromática é muita longa e notável. Em safras como esta é que entendemos porque ele é fora de série em sua apelação (Sauternes).

Enfim, com o desfile deste grandes vinhos tendo como fecho de refeição o “intruso” Yquem, a noite foi maravilhosa. Mais uma vez um Premier Grand Cru Classe torna esses momentos memoráveis. Agradecimentos aos amigos e ao anfitrião, aguardando novos encontros deste nível.

Chateau Margaux em grandes safras: Parte I

11 de Outubro de 2015

Chateau Margaux dispensa apresentações. É um dos poucos casos onde o Chateau dá nome à comuna e também à apelação, sendo o único Premier Grand Cru Classe da região. Entender, interpretar seu terroir é sempre um desafio e por vezes incompleto. Seu atual Diretor desde 1983, Paul Pontallier, costuma dizer que este é um dos poucos vinhos que reúne elegância e potência ao mesmo tempo. A elegância, a delicadeza, a maciez, são encantadores. Contudo, de modo sutil, a potência, a estrutura tânica e o fresco, praticamente escondidos pela elegância é que permite que este grande tinto possa desenvolver-se e amadurecer por 20, 30, 40, 50 anos, ou mais. Em resumo, é como o bailarino segurando com mão de ferro sua companheira e ao mesmo tempo, ainda consegue transmitir leveza e graça à cena.

Além do Grand Vin, Chateau Margaux elabora seu segundo vinho com muito critério chamado Pavillon Rouge du Margaux. Evidentemente menos estruturado, pode envelhecer por pelo menos dez anos nas boas safras. É elaborado desde 1908.

Outra curiosidade é seu branco denominado Pavillon Blanc du Margaux. 100% Sauvignon Blanc, este vinho já tem tradição no Médoc, embora seja terra quase absoluta de grandes tintos. Ele apareceu ao mercado em 1920, sendo doze hectares de vinhas plantadas num setor do Chateau onde a incidência de geadas é grande. Um risco maior para as uvas tintas de longa maturação.

Como última informação, os cuidados com a madeira de carvalho para a confecção de barricas novas é item importante no Chateau. Um terço das mesmas é produzido na propriedade através de uma tanoaria própria. O restante  provem de várias tanoarias famosas das melhores florestas do centro da França. Como critério, é importante esta diversidade de origem da madeira afim de transmitir ao vinho aromas mais complexos e sutis.

Feita as apresentações, vamos ao jantar onde desfilaram essas maravilhas. Para a recepção dos convidados um trio de peso da região de champagne deram o tom do jantar. Dois champagnes Krug (Grande Cuvée e Millesime 2000) e um Dom Pérignon 2004. Em resumo, Dom Pérignon primou pela elegância e leveza, Krug Grande Cuvée pelo exotismo e personalidade, e finalmente Krug 2000 pela estrutura e complexidade aromática.

dom perignon 2004

Elegante e sutil

krug grande cuvee

Sempre uma grande pedida

krug 2000

A cada safra uma surpresa

turma margaux

Margaux: A turma toda

No próximo artigo descreveremos a turma toda acima culminando no espetacular Yquem 1990. Os brancos 2011 e 2001 foram muito didáticos para mostrar a evolução em garrafa de um 100% Sauvignon Blanc. Nos tintos Pavillon, a mesma coisa. Duas grandes safras, 2009 e 2000, brilharam à mesa. Finalmente no Gran Vin, as safras 1983 e 1996 são espetaculares. Na safra 2004, particularmente boa para este Chateau, não há o esplendor das demais. Por fim, o grande Yquem 90 fechou em grande estilo o jantar numa safra praticamente perfeita.

Terroir: Bourgogne x Bordeaux

26 de Março de 2015

Tentar comparar as clássicas regiões francesas de Bordeaux e Bourgogne pode parecer loucura. A ideia aqui é discorrer sobre a diferença intrínseca no conceito de terroir das mesmas. Sabemos que em Bordeaux as propriedades a grosso modo são pelo menos dez vezes maiores em superfície de vinhedos. Além disso, os vinhos bordaleses baseiam-se no famoso corte, talvez o corte mais emblemático no mundo do vinho. Basicamente, estamos falando de três cepas: Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. E é exatamente esse “assemblage” que torna os vinhos bordaleses únicos, com estilo próprio. No esquema abaixo, mostraremos um exemplo típico de um Grand Cru Classé de margem esquerda, na famosa região do Médoc.

Encepamento do Château Lagrange

O esquema acima refere-se ao Château Lagrange, um típico Grand Cru Classé da comuna de Saint-Julien. Este esquema pode ser generalizado para os principais châteaux do Médoc. As porções em verde mais esmaecido são várias parcelas de Cabernet Sauvignon. As porções em vermelho esmaecido são de Merlot, e as duas parcelas em tonalidade diferente são de Petit Verdot, uva pouco cultivada em Bordeaux. Pois bem, no raciocínio bordalês cada parcela de cada uma das uvas são vinificadas separadamente e tratadas a princípio como um vinho individual. Num certo momento, esses vinhos são analisados individualmente e julgados para fazer parte do chamado “Grand Vin”, ou seja, o vinho principal do château. Esse trabalho é extremamente importante e requer uma sensibilidade, uma projeção futura, uma análise do potencial da safra em questão, e finalmente, muita experiência. Uma frase marcante do grande mentor do Château Margaux, Paul Pontallier, enólogo da casa desde 1983, diz o seguinte: “eu só fui entender de fato o que é um Château Margaux, depois de minha décima safra”. Isso mostra a complexidade e a responsabilidade de uma equipe nesta fase de elaboração. Muitas cubas serão rejeitadas para o vinho principal e só depois desta fase, é que se chegará ao blend final com as devidas proporções de cada tipo de uva. É por isso que pessoalmente de uma forma até maldosa, digo que os segundos vinhos de Bordeaux, mais especificamente do Médoc, são o refugo do vinho principal. Exceções como Les Forts de Latour ou Clos du Marquis, segundos vinhos do Château Latour e Château Léoville-Las-Cases, respectivamente, são raros exemplos de regularidade.

No raciocínio borgonhês, neste mesmo château, cada parcela ou mesmo, um pequeno grupo de parcelas, seria um vinho individual até o final do processo. Por exemplo, poderíamos ter dois ou três Cabernets individualizados com etiquetas próprias. Da mesma forma, para as parcelas de Merlot. No caso da Petit Verdot, apenas com duas parcelas, teríamos um vinho varietal, engarrafado individualmente. É interessante notar a importância que o homem tem nos aspectos de terroir, dependendo do raciocínio e filosofia adotados. Ocorre que no pensamento bordalês, o conjunto de parcelas harmonicamente agrupadas produz um vinho mais completo, mais amplo e mais complexo. Tudo é um questão de ponto de vista. É claro que neste pensamento há uma compensação muito maior quanto às irregularidades de cada safra , e os problemas específicos que cada cepa enfrenta em todo o ciclo anual.

Parcelas na Idade Média

Agora partindo para a Borgonha, Clos de Vougeot, propriedade de cinquenta hectares na Côte ded Nuits, é um exemplo bem razoável para uma comparação bordalesa em termos de área plantada, pois as propriedades neste pedaço de terra são de pouquíssimos hectares, muitas com menos de cinco hectares. Além disso, Clos de Vougeot é uma propriedade das mais antigas, de origem monástica. Só após a Revolução Francesa, deu-se toda sua fragmentação, conforme mapa abaixo. Voltando à Idade Média, os monges engarrafavam Clos de Vougeot como vinho único, mesclando com parcimônia todas as parcelas acima delimitadas. Como trata-se de uma colina, as parcelas mais acima no mapa são de maior altitude, que por sua vez, vai diminuindo até às parcelas mais ao sul do mapa. Com isso, em anos mais áridos e secos, as parcelas de menor altitude compensavam os efeitos do déficit hídrico das parcelas mais altas. Por outro lado, em anos mais chuvosos, com excesso de água no solo, a compensação era inversa. Sem dúvida, tratava-se de um pensamento bordalês onde o conjunto das parcelas originando um vinho único, mantinham uma boa regularidade. Provavelmente, o Clos de Vougeot 1845 servido no inesquecível filme Festa de Babette, tenha sido elaborado nos moldes bordaleses, pois o processo pós-revolução ainda estava engatinhando.

Divisão atual com inúmeros produtores

Já no esquema atual, conforme mapa acima, regularidade é o que efetivamente não há numa garrafa de Clos de Vougeot. Com mais de oitenta proprietários nestas terras muradas, a importância do produtor e a localização do vinhedo são pontos cruciais para o sucesso do vinho. Em linhas gerais, os produtores localizados no centro do terreno para cima, ou seja, em altitudes mais acentuadas, levam vantagem em termos de localização. Isso tem a ver com uma melhor insolação, melhor drenagem do terreno e uma composição de solos mais harmônica. Méo-Camuzet, Gros, Hudelot-Noëllat, são produtores confiáveis.

Enfim, aquela velha discussão, vinho varietal ou vinho de corte? micro-terroir como no modelo borgonhês, onde as peculiaridades e sutilezas são levadas a limites extremos, ou macro-terroir como no modelo bordalês, onde o conjunto de parcelas em prol de um único vinho gera resultados mais harmônicos e complexos? Sempre uma questão de ponto de vista!

Chateau Margaux 1983: idéia de felicidade

22 de Janeiro de 2011

Embora a safra de 1982 em Bordeaux seja mítica, incluindo o grande Margaux, o ano seguinte 83 pessoalmente para este château, beirou a perfeição. Com 96 pontos do Parker, este vinho é soberbo e extremamente longevo. Para aqueles que buscam grandes garrafas no exterior, muitas vezes ficam hipnotizados com os belíssimos 82. No entanto, abram uma exceção para este vinho.

A composição básica do Grand Vin é de 75% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 3% Cabernet Franc e 2% Petit Verdot, dependendo da safra. O estágio em barricas novas de carvalho, confeccionadas em tanoaria própria,  é de 18 a 24 meses.

Paul Pontallier: o guardião deste terroir

Em minhas avaliações, numa escala de zero a cem, considero que vinhos acima de 95 pontos são obras de arte. A perfeição é uma questão de detalhe e muitas vezes, de gosto pessoal. Outra característica própria de vinhos deste nível é a inútil comparação com outros, mesmo que sejam também excepcionais. A razão é simples, obras de arte não se comparam, apenas são apreciadas.

É imperativo degustá-lo com pelo menos duas horas de decantação. A cor é densa, e os aromas vão se mostrando lentamente em camadas. As frutas escuras (cassis), notas florais (violeta), minerais (terra e grafite), sous-bois e couro, mostram-se em muita harmonia. A boca é sensacional. Encorpado, sem ser potente. Tânico, sem ser adstringente. Macio, sem ser alcoólico. Nas palavras de Paul Pontallier (grande enólogo do château desde esta safra 1983), um grande Margaux é forte, sem ser bruto. Equilíbrio entre os componentes perfeito e persistência aromática longa e expansiva. Difícil é tirar ponto deste vinho.

Segundo o filósofo alemão Friedrich Engels, um dos pilares do Manifesto Comunista juntamente com Karl Marx, a idéia de felicidade era um Château Margaux 1848. Hoje, um dos sonhos de consumo do Capitalismo.

 


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