Archive for the ‘França’ Category

DRC e Les Richebourgs

24 de Junho de 2018

É sempre muito bom falar sobre os grandes tintos de Vosne-Romanée, comuna dos melhores Grands Crus da Côte de Nuits. Desta feita, sobre o Grand Cru Richebourg, que desde o fim da Idade Média, encanta com vinhos estruturados e de grande longevidade. A grande modificação no vinhedo que proporcionou sua ampliação foi nos anos 20 do século passado, com a inclusão da parcela Les Verroilles na direção norte do vinhedo com altitudes mais elevadas. Concluindo, a parcela original Les Richebourg (5,05 ha) foi ampliada com Les Verroilles (2,98 ha), totalizando 8,03 hectares de vinhas repartida entre onze proprietários.

richebourg vinhedoterroir ampliado

Não há dúvida que Domaine de La Romanée-Conti possui quase metade das vinhas com parcelas variadas ao longo do vinhedo e de características distintas. Conforme mapa abaixo, o setor Les Verroilles na parte superior tem um clima e solo mais frios, guardando na maioria das safras, uma acidez e elegância mais evidentes. Leroy, Méo-Camuzet e a família Gros, encaixam-se neste perfil.

Por outro lado, Domaines como Grivot e DRC no setor original Les Richebourg, apresentam Richebourgs mais encorpados, mais macios e principalmente tânicos, mostrando a força deste Grand Cru que tem como vizinhança os vinhedos Romanée-Conti, La Romanée e Romanée-St-Vivant.

richebourg parcelasRichebourg – parcelas

Feito esse preâmbulo, vamos a uma vertical desses vinhos com diferentes idades e momentos de evolução. Com exceção de um Méo-Camuzet 1990, todos os outros Richebourgs são DRC de várias safras.

img_4814safras altamente pontuadas

Começando já em alto nível, duas safras primorosas e com muita vida pela frente, sobretudo o potente Richebourg 99. Talvez o mais prazeroso dos DRCs provados foi este de safra 1996 com 96 pontos. Aromas ricos de Vosne, misturando juventude com certa evolução. Cerejas escuras, os toques florais, o sous-bois, uma pontinha de café, e as especiarias delicadas. Boca macia, taninos bem moldados, e um final super equilibrado. Momento ótimo para ser provado. Já o 99, um vinho mais musculoso, muito mais taninos, e ainda um pouco tímido nos aromas. Deve ser obrigatoriamente decantado, pois evolui bem na taça. Os aromas de frutas escuras, notas de torrefação e chocolate são evidentes. Um vinho com pelo menos mais uma década de evolução com 97 pontos. Como observação, seus taninos não são tão finos como o monstruoso La Tâche 99 com 100 pontos, provado recentemente.

img_4815um intruso no ninho

Neste segundo flight, o Chambertin no centro da foto destoou dos demais. Deu muito azar de estar junto com dois dos melhores tintos do almoço. Reparem que trata-se de um vinho de negociante de Beaune numa safra fraca de 1976. Seus aromas de caramelo e amadeirados dava impressão de um bom Rioja envelhecido ou de alguns Vegas, bem observado por Manoel Beato. Os aromas eram mais interessante que a boca com nítidos sinais de decadência. Acidez agressiva e secura no final de prova.

Em compensação, os outros dois estavam divinos, sobretudo o Méo-Camuzet. A história do Richebourg Méo-Camuzet se confunde com Henri Jayer, uma lenda na Borgonha. No pós-guerra os vinhedos Richebourg foram replantados e entregues a Henri Jayer para a elaboração de seus vinhos. A amizade de Henri com a família Camuzet sempre foi de muita confiança. A última safra de Richebourg rotulada como Henri Jayer foi a de 1987. Nos anos seguintes, Henri Jayer atuou como consultor dos Richebourgs Méo-Camuzet até quando sua saúde aguentou. Portanto, este Richebourg 1990 tem a mão do mestre e de fato é magnífico. Fiel ao terroir Les Verroilles e a seu estilo elegante de vinificar, o vinho emana um bouquet de rosas impressionante. Seus taninos são delicados e ao mesmo tempo firmes para garantir estrutura e longevidade. Encontra-se num momento sublime, sem sinais de decadência. Pelo contrário, tem um amplo platô de estabilização.

Quanto ao Mazis-Chambertin 85 de Madame Leroy não estava no mesmo esplendor de uma outra garrafa degustada recentemente. Parecia mais evoluída e um pouco cansada. Contudo, percebe-se um vinho fino e com toda a estrutura digna dos grandes Chambertins. Taninos muito finos e um raro equilíbrio em boca. Essas brigas no bom sentido entre Jayer e Madame Leroy são sensacionais, mostrando todo o talento destas lendas da Borgonha.

img_4816os bons velhinhos

Neste flight, uma homenagem aos velhos Borgonhas que conseguem atravessar décadas em sua jornada. Não são grandes safras, mas mostram o talento e a longevidade dos vinhos DRC. Os dois com aqueles toques de Vosne evoluídos onde o sous-bois, cogumelos, toques terrosos, e algumas notas de chá são bem presentes. Levando-se em conta a idade, o 1965 estava bem prazeroso e com extrato superior ao 1981. Este último, bem delicado, sendo melhor apreciado como vinho de meditação, sem interferência de comida. Enfim, uma aula de aromas terciários.

img_48181as promessas

Neste flight, todo o vigor e potência dos Richebourgs DRC. No caso de 2008, os taninos surpreendem pela textura macia e afável com boa evolução de aromas e extremamente prazeroso. Perde um pouco em potência frente ao 96, mas segue o mesmo estilo. Já o 2009, segue a potência da safra 99. Rico em aromas e taninos, sua estrutura é monumental, podendo atravessar décadas de evolução. Seus aromas de alcaçuz, chocolate e cerejas escuras são notáveis. Deve ser obrigatoriamente decantado.

De todo modo, são vinhos para repouso em adega, vislumbrando grande evolução no caminho dos belos vinhos de Vosne-Romanée. Notas 96 e 97 para as safras 2008 e 2009, respectivamente.

bela harmonização

Para selar o almoço, um velho Richebourg 1947 Old School. O prato acima do restaurante Parigi, escoltou bem vinhos como este num belo ravioli de vitela com molho de cogumelos. A mítica safra de 1947 moldou belos vinhos e esse não foge à regra. Poderia estar um pouco cansado, mas mesmo assim, mostra a elegância e delicadeza dos grandes vinhos de Vosne. Seria repetitivo citar novamente seus divinos aromas terciários e toda a maciez em boca de taninos totalmente polimerizados. São vinhos para serem bebidos sozinhos, sem comparações, sem notas. Apenas pelo simples prazer que a pátina do tempo nos proporciona.

img_4811alta costura em Champagne

Além do desfile de Richebourgs, tivemos algumas borbulhas interessantes neste almoço. Como destaque incomparável, o raro Dom Pérignon 1983 P3, não encontrado no mercado nacional. Nosso confrade Camarguinho, homem de finas borbulhas, nos presenteou com o exemplar acima. P3 para quem não sabe, é a chamada terceira plenitude, período relativamente longo onde o champagne descansa sobre as lias (borras) antes do dégorgement. No caso de um P3, estamos falando em mais de vinte anos sur lies. Precisamente neste exemplar, 25 anos com as leveduras.

Este procedimento, mantém um frescor incrível no champagne, além de texturas e sabores únicos. A fineza do perlage é indescritível, tal a delicadeza das borbulhas. Sua textura em boca, o que chamamos de mousse, é super delicada. Some-se a isso tudo, sabores sutis de maçã, cogumelos e fino tostado, e você estará diante da perfeição. Difícil pensar em algo melhor.

Blanc de Noirs artesanal

Na foto acima, um champagne artesanal com apenas 900 garrafas por safra. Neste millésime Blanc de Noirs, temos as uvas Pinot Noir e Pinot Meunier com três anos sur lies. Um champagne mineral, extremamente seco, gastronômico, e de certa adstringência. Muito fresco, equilibrado, ótimo perlage, e mousse vigorosa.

os vinhos tranquilos de Champagne

Os chamados Coteaux Champenois são os vinhos tranquilos na região de Champagne, ou seja, sem borbulhas. Neste caso, temos outra produção artesanal com apenas 500 garrafas por safra. Trata-se de um 100% Pinot Meunier (uva tinta) vinficado em branco e amadurecido 34 meses em toneis. O vinho conserva uma boa acidez sem exageros e notável adstringência. Bastante seco e notável mineralidade. Branco gastronômico para pratos de personalidade como bacalhau, por exemplo. Valeu pela raridade e pela experiência em provar vinhos diferentes numa região de finas borbulhas.

Após longa jornada, ficam os agradecimentos aos confrades e as lembranças de mais um almoço inesquecível onde o bom papo e a imensa generosidade do grupo permearam mais esse encontro. Saúde a todos!

Curnonsky e seus brancos

19 de Junho de 2018

Falando um pouco de menus clássicos e históricos, não podemos deixar de mencionar Maurice Edmond Sailland, prince des gastronomes, escritor célebre do final do século XIX e metade do século XX (1872 a 1956), conhecido mais como Curnonsky, precursor do guia Michelin. Autor de 65 livros com inúmeros exemplares sobre gastronomia.

No que diz respeito a vinhos, decretou os cinco maiores brancos da França, mencionando Chateau d´Yquem, Montrachet, Chateau-Chalon, Chateau-Grillet, e Coulée de Serrant. Nada mau!

Baseado nesses memoráveis vinhos, o restaurante Taillevent elaborou um menu impecável acompanhando essas maravilhas a 1200 euros por pessoa, intitulado “Les cinq de Curnonsky”. Para esta seleção, começou com Lagosta gratinada com trufas para um Chateau-Grillet 2005, seguido por Saint-Pierre com molho de vinho branco e algas, acompanhado por Coulée de Serrant 2004. Continuando, uma Poularde de Bresse desossada com trufas acompanhando Montrachet Marquis de Laguiche 2002. Para finalizar, um Vieux Comté com Chateau-Chalon 2005, e uma Omelete de frutas exóticas flambada com Chateau d´Yquem 2003.

Falando um pouco dos vinhos, seguem fotos abaixo com detalhes de cada um e suas peculiaridades. A despeito dos critérios seleção, são vinhos absolutamente distintos, fiéis a seus respectivos terroirs, e verdadeiros patrimônios franceses.

fb7be498-2c0e-4395-ac48-cd35d0e55adb1um clássico acompanhamento para as trufas

Uma das menores apelações francesas com apenas 3,5 hectares de vinhas antigas, Chateau-Grillet é uma apelação própria dentro do território de Condrieu com uvas 100% Viogner. O vinho amadurece cerca de 18 meses em barricas francesas, sendo 20% novas conforme a safra.

O vinho costuma envelhecer muito bem desabrochando notas florais, de pêssegos, damascos, e um fundo amendoado. Textura macio em boca, acompanhando muito bem pratos com trufas, sobretudo quando devidamente envelhecido.

img_4513o epítome da Chardonnay

Montrachet dispensa comentários, sendo a perfeição nos territórios de Chassagne e Puligny-Montrachet. Vinificação clássica com fermentação em barricas novas com sucessivas bâtonnages. O vinho se funde com perfeição em contato com a madeira, envelhecendo maravilhosamente.

52064f24-4c80-4976-9255-f9e1312a3d37a perfeição do Vin Jaune

Na terra de Louis Pasteur, a uva Savagnin amadurece  com perfeição. O chamado Vin Jaune é considerado o Jerez francês, embora não haja fortificação. O vinho amadurece em barricas de carvalho por cerca de seis anos, desenvolvendo uma levedura na superfície semelhante aos melhores Jerezes. Após esse período é engarrafado, adquirindo notas oxidativas, lembrando nozes e especiarias exóticas. Além do queijo Comté, seu acompanhamente clássico, aves com molho à base de curry são harmonizações sublimes.

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a sublimação da Botrytis

Assim como o Montrachet, Chateau d´Yquem é unanimidade na nobre região de Sauternes. A ação da Botrytis Cinerea é perfeita no vinhedo, além de uma colheita seletiva e paciente, procurando somente as uvas perfeitamente infectadas. A vinificação é precisa, extraindo todos os componentes fundamentais para um vinho equilibrado e profundamente estruturado. A passagem longa em barricas novas francesas só enriquece o conjunto, permitindo um envelhecimento em garrafas por décadas. Lembrando sempre que as uvas são Sémillon majoritariamente, e Sauvignon Blanc.

Serrant decantacaoChenin Blanc em pureza

Atualmente com vinhos biodinâmicos tão em voga, o exemplar acima sintetiza a perfeição nesta filosofia viticultural. Nicolas Joly, proprietário e mentor do estupendo Coulée de Serrant, eleva a casta Chenin Blanc ás alturas, tendo apelação própria dentro da apelação Savennières, o mais célebre terroir para Chenin Blanc no estilo absolutamente seco.

Sua vinificação extremamente natural, trabalha com leveduras nativas. O uso das barricas de dimensões de acordo com a filosofia biodinâmica, visa imprimir uma micro-oxigenação precisa, expressando de forma autêntica aromas e sabores únicos. O vinho tem uma extraordinária capacidade de envelhecimento, sendo obrigatória um ampla decantação de horas, antes do consumo.

Além da harmonização citada no menu acima, truta ao forno com molho de vinho branco, ervas e amêndoas tostadas é pedida certa para um casamento perfeito.


Menu alternativo

Tartar de atum com gergelim 

Coulée de Serrant decantado por horas

Omelete de queijo gruyère e ervas com trufas laminadas

Chateau-Grillet com uma dezena de anos

Camarões grelhados ao molho de ervas e limão com risoto de açafrão

Montrachet Ramonet 2014

Queijo do Serro curado com nozes e damascos

Chateau-Chalon ou Vin Jaune

Malabi com calda de damascos

Chateau d´Yquem jovem (menos de 10 anos)


img_4781Serro bem curado

Neste menu alternativo, eu começaria pelo Coulée de Serrant aproveitando toda sua acidez e frescor com tartar de atum. Um prato de personalidade com o gergelim dando um toque a mais de integração com o vinho. É importante decantar este branco com horas de antecedência.

Em seguida, os sabores e textura da omelete deixam o Chateau-Grillet reinar elegante. O toque de trufa para um branco como este envelhecido é fundamental.

A vibração de um Ramonet jovem é sensacional com seus toques cítricos precisos. Toda a força de um Montrachet entremeando a sutileza de um risoto de açafrão. Uma harmonização para levantar sabores.

Antes da sobremesa, uma taça de Chateau-Chalon ou um bom Vin Jaune. O Club Tastevin traz um bom exemplar (www.tastevin.com.br). Homenageando os queijos brasileiros, um velho queijo do serro com aromas mais potentes, complementado por nozes e damascos, finalizam a refeição sem pressa.

A força de um Yquem jovem, menos de dez anos, complementam bem o delicado manjar árabe onde o damasco e a flor de laranjeira fazem eco ao vinho. A textura untuosa do vinho cai como um manto após uma colherada da sobremesa.

Enfim, mais um exercício de enogastronomia com uma pequena amostra do arsenal francês. Para quem não resiste a um belo champagne, não seria nada mau começar ou terminar o menu com ele. Os brancos da Alsace são outra bela lembrança.

 

Vosne-Romanée brilha em Saint-Vivant

10 de Junho de 2018

Como em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns, nada mau uma vertical de Romanée-Saint-Vivant (RSV) com vinhos dos prestigiadíssimos Domaine Leroy e Domaine de La Romanée-Conti. De quebra, um La Tâche 1990, um Petrus 1955 e um Vintage Port Graham 1966, para emoldurar ainda mais um brilhante almoço no restaurante Gero em São Paulo.

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vosne-romanee grand cruRomanée-St-Vivant: nobre vizinhança

Para começar os trabalhos, dois brancos de Beaune de safras e apelações diferentes, conforme foto abaixo. O da esquerda, um Meursault Perrières 2011 de Maison Leroy, não Domaine. Embora Meursault tenha vinhos de rica textura, nesta safra mostra-se um branco mais delgado, elegante, e mineral. Não é um vinho de grande persistência, mas muito bem construído, e com incrível frescor.

O da direita, estamos no terroir de Chassagne-Montrachet num Premier Cru de vinhedo único, La Romanée. Percebe-se os toques de madeira elegante e uma rica textura em boca.  A safra 2015 é poderosa, rica em aromas, e expansiva em boca. Nesta comuna, já temos os indícios dos grandes brancos Montrachet.

img_4740terroirs de texturas cremosas

Para começar a brincadeira, um trio do final dos anos 80 em safras de respeito: 88, 89 e 90, conforme foto abaixo. Nas duas pontas, Domaine Leroy e seu RSV com menos de três mil garrafas por safra. Ao centro, um RSV do DRC safra 89. O mais prazeroso, o mais pronto, com belos toques florais e de especiarias. Boca sedosa, um final longo e muito bem equilibrado. Já o 88 Leroy, ainda um tinto arredio, taninos presentes, e aromas um pouco fechado, embora com notas de manteiga de cacau deliciosas. É realmente um safra dura com muitas dúvidas se ela abrirá totalmente algum dia. Um vinho para ser decantado e altamente gastronômico.

Por fim, o Leroy RSV 1990. Um tinto majestoso, embora ainda não totalmente pronto. Portentosa estrutura tânica, mas de textura primorosa. Precisa de tempo na taça para se expressar, mas seus toques de especiarias, flores e de café, são notáveis. Mais alguns anos, e tudo estará em perfeita harmonia. O mais completo do trio. 

img_47431uma trinca de 30 anos

Seguindo a vertical, mais um trio, agora do meio dos anos 2000, todos DRC. O didatismo deste trio é de livro. A safra 2004 é uma safra de clima frio com alta acidez. Percebe-se claramente estes fatores neste tinto, embora com uma elegância e delicadeza ímpares. Já o 2007, uma safra mais quente, a maciez, a generosidade dos aromas, os taninos macios e resolvidos, o tornam um vinho envolvente. Muito prazeroso no momento. Por fim, o monumental RSV 2005 com uma riqueza e estrutura invejáveis. Um tinto ainda saindo da juventude, mas com um futuro brilhante. Seus ricos aromas de cerejas, florais, e de especiarias, o credenciam a uma complexidade terciária de grande distinção. Precisa de pelo menos mais dez anos para se tornar um dos grandes RSV da família DRC.

img_4748juventude de elegância

entre um gole e outro …

Entre as sequências de flights, alguns pratos fizeram sucesso com os vinhos. A massa da esquerda (paccheri, uma espécie de rigatoni mais largo), foto acima, com molho de vitela, e a galinha d´angola com molho de seu próprio assado, acompanharam bem os tintos envelhecidos de Vosne-Romanée.

Não exatamente na sequência, mas uma dupla a mais de Saint-Vivants DRC, foto abaixo. A pronta e acessível safra 2000 com seus toques de especiarias, chocolate e sous-bois. Talvez o mais pronto entre todos provados, já com seus 18 anos. Em compensação, RSV 1996 vai no estilo do 2005, robusto e cheio de vida. Embora com quase dez anos, dá para perceber claramente como é lenta a evolução em garrafa de um DRC. O 96 está um pouco mais aberto em relação ao 2005, mas ainda tem muito a evoluir. Seus toques terrosos, de tabaco, e finas especiarias, são muito harmoniosos.

Concluindo, os RSV Domaine Leroy 1990 e este DRC 1996 foram os melhores do almoço. Logicamente, o RSV 2005 é uma grande promessa!

img_4753potenciais diferentes de safras

A foto abaixo lembra bem duas grandes seleções de futebol como Brasil e Alemanha. Grandes títulos, passados gloriosos, e tradição de longa data. Contudo, em alguns embates na história, acontece um 7×1 da forma mais surpreendente possível. Foi o que aconteceu com este Petrus 1955 que estava perfeito. Não que o La Tâche 1990 não seja um grande vinho e com certeza, tomado isoladamente, arranque suspiros dos mais exigentes amantes do vinho. Mas o fato é que o Petrus fez 5×0 em vinte minutos. Não dava mais para alcançar, acabou o jogo. Que vinho fantástico! com seus aromas de adega úmida, cogumelos, trufas, chocolate, café, e vai por aí  afora. Mais um vinho de curriculum. 

img_4751aqui foi mais ou menos os 7×1, lembram?

O vinho de encerramento depois deste Petrus não poderia ser apenas ótimo. Tinha que ser algo impactante. Eis que chega à mesa um Vintage Port 1966 da tradicionalíssima Casa de Porto Graham, outra maravilha. Como é bom provar um Vintage em sua plenitude com todas as vicissitudes do tempo!

Sabe aquele Porto onde o álcool está totalmente integrado à massa vínica em perfeito equilíbrio!. Pois bem, este vinho tinha tudo isso com taninos totalmente polimerizados e em harmonia com seus outros componentes. Um licor de frutas negras sensacional, especiarias, toques de torrefação lembrando café, chocolate e notas balsâmicas. Acompanhou muito bem o bolo de aniversário com chocolate amargo de um querido confrade de humor peculiar. Vida longa a você meu amigo!

img_4739o auge de um Vintage Port!

Para esticar um pouco mais o papo, Panna Cotta de saída, cafés, e alguns Cohibas de estirpe, o belo Talismán Edición Limitada 2017 Ring 54. Um charuto super elegante do começo ao fim, mantendo como poucos, potência e elegância no mais alto nível.

Alguns Negronis para refrescar porque ninguém é de ferro!

O barquinho vai, a noitinha cai …

E assim mais um encontro memorável com amigos de generosidade extrema, alto astral, desfrutando os prazeres da mesa e vinhos que nos fazem pensar. Agradecimentos a nosso grande Maestro que sempre turbina nossos encontros. Saúde a todos e que Bacco nos proteja!

A DOCG Aldo Conterno

1 de Junho de 2018

No reputado terroir de Barolo, um clássico DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) do Piemonte, existe um Barolo à parte de nome Aldo Conterno, especialmente sua cuvée especial, Granbussia. Com vinhas localizadas em Monforte d´Alba, Granbussia nasce da mescla das vinhas Romirasco (70%), Cicala (15%) e Colonnello (15%), somente nas grandes safras.

e9959437-0890-4434-8296-db257fb448aca cúpula reunida em Magnum 

As vinhas Romirasco, espinha dorsal do blend, são plantadas em solo argilo-calcário rico em ferro, um dos terroirs mais austeros para Barolos de grande longevidade. A idade das vinhas gira entre 50 e 55 anos.

As vinhas Cicala e Colonnello complementam o blend, onde Cicala confere mais músculo, mais potência ao vinho, enquando Colonnello fornece certa delicadeza, finesse ao conjunto.

Normalmente, um Granbussia passa cerca de três anos em botti (toneis grandes) e mais seis anos em garrafa, antes de ser liberado ao mercado. A herança de Aldo Conterno é de manter a tradição dos grandes Barolos sem perder de vista a dosada modernidade que o tempo exige. Percebe-se em seus vinhos, a austeridade e estrutura de seus grandes Barolos, mas ao mesmo tempo, uma fruta bem presente, taninos bem trabalhados, e um equilíbrio somente encontrado nos grandes vinhos.

onze anos sur lies

Num belo almoço realizado na Fazenda Sertão, o champagne acima, um Dom Pérignon Oenothéque 1995, abriu os trabalhos. Ele equivale atualmente à nomenclatura P2, conhecida também como segunda plenitude. Trata-se de um envelhecimento prolongado sobre as borras (sur lies) antes do dégorgement. Um champagne complexo, muito fresco, mesclando aromas de brioche, frutas tropicais, e fino tostado. O contato sur lies conserva as borbulhas e uma intensa mousse de maneira admirável, além de conferir uma textura macia ao conjunto. Acompanhou bem ovos levemente cozidos com gema mole e caviar.

harmonização de delicadeza

Para manter o alto nível das borbulhas, em seguida foi servido um champagne Cristal safra 2005. Já com toques envelhecidos, mas com incrível frescor, a maciez e as notas adocicadas do Cristal deram as mãos para um prato de vieiras levemente chapeadas com manteiga e ervas. Aí sim, já estávamos prontos para os Barolos …

img_4703Angelo Gaja não podia faltar

Já estava esquecendo de Angelo Gaja, imperdoável. Um dos melhores brancos italianos, se não for o melhor. De estilo francês e extrema elegância, esse Chardonnay prima pelo equilíbrio e acabamento fantásticos. Embora já com mais de dez anos, seu frescor é incrível. As vinhas de Gaia & Rey localizam-se em Treiso, região do Barbaresco, em solo calcário com 3,6 hectares de área, plantadas em 1979. A fermentação ocorre com leveduras naturais e o vinho amadurece num mix de barricas francesas por seis a oito meses. O resultado é um branco de fruta delicada com perfeita conjunção com a madeira. Esta no nível dos bons Puligny-Montrachet da Borgonha. 

img_4711diferentes momentos de evolução

O trio acima deu o pontapé inicial. O mais antigo, safra 1985, já estava no seu limite de evolução. Não foi das grandes safras deste ícone, mas manteve a classe de sempre. Seus aromas alcatroados e de chocolate escuro (cacau) imperavam num conjunto harmonioso. Não tinha grande persistência, mas seu equilíbrio e final de boca bem acabado eram notáveis.

Agora o 99 e 2005 eram vinhos de grande estrutura em momentos diferentes de evolução. O 99 tinha taninos extremamente finos e lindos toques de alcaçuz. Um Barolo de alta costura. Já o 2005, um tanto arredio, inquieto, próprio de sua juventude. Melhorou muito na taça, necessitando de decantação. Será certamente, um dos grandes Granbussia nas próximas décadas.

img_4712o ponto alto da degustação

Aqui, o ponto alto da degustação. O Granbussia 1989 é considerado pelo Gambero Rosso, o melhor Granbussia de toda a história. De fato, quando fizeram este vinho, jogaram a fórmula fora. Sua juventude se equipara ao 99 degustado acima. Um fresco, uma riqueza de fruta, taninos de rara textura para um Barolo. Enfim, uma maravilha. 

Já o 1990, outro grande vinho, ficou um pouco prejudicado com a comparação, além de uma garrafa de evolução um pouco avançada. De todo modo, outro Barolo de destaque. Taninos finos, aromas terciários bem delineados, e um final marcante e etéreo. Estávamos neste momento, no auge dos pratos e dos vinhos.

img_4713irmãos de estilos diferentes

Briga de titãs e dois gênios do Piemonte, os dois irmãos Aldo e Giacomo Conterno. O Granbussia 1988 é um monstro de vinho ainda não totalmente pronto. Muita estrutura, camadas de taninos, mas uma finesse que só Angelo Gaja consegue nessas terras. Monfortino é a personificação da mais austera tradição piemontese, cheio de virilidade, tensão, uma acidez incrível, e uma montanha de taninos. Seu processo de construção passa por longa maceração na vinificação e longo envelhecimento em botti (grandes toneis). O resultado é um Barolo indestrutível. Embate sem vencedores, a despeito do gosto pessoal que deve ser sempre respeitado.

pratos de resistência

Para enfrentas essas feras, um menu reforçado se fez necessário. Entre vários pratos como Rabada, cabrito, polenta, lasanha, a foto acima, ilustra uma polenta com molho de calabresa e um cabrito com batatas. Aqui se separam os homens dos meninos …

img_4714Alsace em alto nível

Para celar este magnifico almoço, somente um vinho exótico, de presença marcante, como o Vendange Tardive do excepcional produtor alsaciano Zind-Humbrecht. No caso, um Pinot Gris do vinhedo Heimbourg safra 1994. Este é um dos melhores vinhedos de Zind-Humbrecht com ótima exposição solar e grande declividade. Na parte alta do vinhedo de solo pedregoso e de natureza argilo-calcária são somente 1,6 hectare de vinhas da cepa Pinot Gris com baixíssimos rendimentos (menos de 20 hl/ha). O amadurecimento das uvas é lento e de grande concentração. Um vinho de ótima textura em boca e um equilíbrio fantástico entre açúcar e acidez. As notas delicadas de frutas brancas maduras, de flores e de mel, são notáveis. Um final de tarde delicioso!

Mais uma vez, os agradecimentos a todos os confrades, em especial ao nosso Maestro, que proporcionaram esse encontro com vinhos tão distintos e de safras maiúsculas. Depois deste banquete nababesco, é hora de temperança, já pensando nas próximas orgias. Saúde a todos!

Pauillac e o caminho das pedras

29 de Maio de 2018

De todos os fatores de terroir para explicar a excelência dos tintos de Bordeaux, o fator drenagem do terreno parece ser o mais determinante a ponto de persistir o ditado na chamada margem esquerda: “o solo do Médoc muda a cada passo”. Nesse sentido, as profundas camadas de cascalho fazem da comuna de Pauillac, o terroir perfeito para o cultivo da Cabernet Sauvignon, cepa protagonista no tradicional corte bordalês. Não nos esqueçamos que nesta comuna saem três dos cinco Premier Grand Cru Classé de 1855.

pauillac terroirhavia uma pedra no caminho …

Com esse intuito, nos reunimos no simpático Ristorantino, sempre no comando do dinâmico Ricardo Trevisani. Sete garrafas devidamente escolhidas se defrontaram em interessantes flights com grandes surpresas. Antes porém, algumas borbulhas para animar a festa. Afinal, ninguém é de ferro …

baixíssimas produções

O produtora acima, Marie-Courtin elabora apenas algumas milhares de garrafas na Côtes des Bar, região sul de Champagne, a meio caminho de Chablis. Trata-se de um Blanc de Noirs (100% Pinot Noir)  de um vinhedo de apenas 2,5 hectares com vinhas entre 35 e 40 anos. É um solo de caráter argiloso, muito propício ao cultivo da Pinot Noir. Um champagne fresco, gastronômico, e de boa complexidade, já que foram três anos de contato sur lies antes do dégorgement. Esta cuvée 2013 chama-se Concordance. Belo início!

bela harmonização

Todas as atenções estavam voltadas para este champagne curioso e surpreendente até a chegada de um Krug. Só que não era simplesmente um Krug, o que já é motivo de êxtase, mas um vintage, ainda por cima da safra de 1990 com 95 pontos. Aí para tudo! Que Champagne maravilhoso!

Equilíbrio perfeito, bom corpo sem ser pesado. Ao contrário, sua incrível acidez lhe dá uma leveza ímpar. Os aromas cítricos, de especiarias, de gengibre, dão um toque oriental inconfundível. O final de boca e a longa persistência é digna dos grandes champagnes sem denotar qualquer sinal de idade. Perlage e mousse perfeitos. E olha que estamos falando de mais de 25 anos …

A harmonização da foto acima, um tartar de atum com limão-caviar ficou divina. Este limão-caviar, mais uma das descobertas do inquieto Ricardo, é uma planta de origem australiana parecida com um quiabo. Cortado nas extremidades, após certa pressão no mesmo, começa a sair as bolinhas verdes em cima do tartar com um sabor marcante e delicado de limão. A acidez e os toques cítricos do champagne ecoaram no sabor do prato.

img_4688a enigmática safra 2000

Foi então dada a largada com o trio acima às cegas da safra de 2000. As notas, muito parelhas: Mouton 96+ pontos, Pichon Lalande 96 pontos, e Pichon Baron 97 pontos. Pelas notas, pode-se imaginar a dificuldade da degustação. Aí começaram as surpresas. 

O mais pronto, o mais sedutor, de aromas terciários mais presentes, foi o Mouton Rothschild, o único Premier Grand Cru Classe deste flight. Os dois Pichons, bem mais fechados, vislumbrando grande guarda em adega. Evidentemente, Pichon Lalande é bem mais abordável, agrada muito mais. Não é à toa, que em degustações às cegas com a presença dos Premiers, ele costuma aprontar. Taninos macios, aromas doces, é difícil resistir a seus encantos. Tem um ótima estrutura para evoluir em adega. Por fim, Pichon Baron 2000, um vinho sempre um tanto duro, de personalidade distinta de seu eterno concorrente. Apresenta uma acidez que me incomodou um pouco e taninos de textura um pouco rústica para o nível do painel. Contudo, as opiniões foram bem variadas. Afinal, a unanimidade é burra …

img_4691as aparências enganam …

Trata-se de uma safra precoce, onde os 89 costumam abrir com facilidade. No caso do Lynch Bages, é uma das grandes safras de sua história, comparável ao mítico ano de 1961. É bem verdade que Parker exagerou em sua última nota para este 89 com 99+ pontos. Sua média sempre girou em 95 pontos, já um ótimo nível. De fato, é um vinho tecnicamente superior ao Lafite nesta safra, embora de estilo totalmente diferente. É um Pauillac de livro com toques de cassis, fino tostado, e notas terciárias típicas. Ainda pode evoluir em adega. Já o Lafite, mesmo não sendo de suas melhores safras, é de uma elegância ímpar, um verdadeiro Borgonha dentro de Pauillac. Os aromas etéreos, de cedro, de incenso, são elegantes e marcantes. Boca equilibrada, embora não muito longa. Um vinho de enorme prazer para ser tomado neste momento.

pratos de sabor e elegância

Entre tapas e beijos, além dos vinhos, as comidinhas brilharam com sabores e aromas sutis. O risoto de linguiça com vinho tinto e radicchio foi muito bem com a dupla de 89, enquanto o cordeiro em seu próprio molho de redução com polenta, brilhou ao acompanhar a dupla de ouro abaixo da emblemática safra de 1982.

img_4695a grandeza de Pauillac

A foto acima vale mais que mil palavras. 200 pontos é muito pouco para a grandeza desses vinhos. Felizmente, tenho provado esta dupla lado a lado de vez em quando. E cada vez mais, o Latour mostra sua grandiosidade. Eu não sei exatamente onde esse vinho ainda pode chegar, mas trata-se de um monstro engarrafado. Uma estrutura de taninos monumental e uma persistência aromática sem fim. Do outro lado, Mouton sempre sedutor, macio, com seus toques terciários bem desenvolvidos, e cada vez mais, em seu apogeu. Dá pra tirar foto juntos, mas o Latour está o constrangendo cada vez mais.

Sauternes exótico

Realmente uma tarde especial para um Sauternes especial, Chateau Gilette Crème de Tête 1975. Este Chateau pertence à sub-região de Preignac, pouco conhecida em Sauternes. O mais curioso é que este vinho não tem nenhum contato com madeira, ao contrário do grande Yquem. Nesta safra, o vinho ficou em tanques de cimento até 1991, quando foi engarrafado. Portanto, seus aromas terciários não têm interferência da barrica. O lado mineral, salino, e de castanhas portuguesas, são marcantes e muito bem fundidos. O combinação com o pudim de pistache deu um toque de exotismo, acompanhando o estilo do vinho. Sensacional!

Dry Martini: a excelência dos Drinks

O almoço se encerrou em alto estilo. Algumas baforadas com e essência de Vuelta Abajo, uma caixa exclusiva de Montecristo Vitola Especial 80 Aniversario. Trata-se de um Puro com 55 de ring e fortaleza média/alta, acima do habitual para a linha Montecristo. Entre Porto Graham´s 10 anos, Grappa Nonino, e cafés, um Dry Martini “comme il faut” deu uma ar de sofisticação à mesa.

Agradecimentos quase sem palavras aos confrades, numa tarde de grandes vinhos, conversa animada, e amizades cada vez mais consolidadas. Que Bacco sempre nos proteja com a bebida dos Deuses. Saúde a todos!

Importadora Clarets e Domaines Delon

27 de Maio de 2018

São pouquíssimas as importadoras que a pessoa pode comprar um vinho qualquer do portfólio sem conhecer muito sobre o mesmo. Uma delas é a Clarets com vinhos muito bem selecionados pelo sommelier Manoel Beato, o mais ativo e experiente no ramo da restauração, origem clássica da profissão. No comando da Clarets está à frente dos negócios o belo casal, Guilherme Lemes e Keren Marchioro. Maiores informações, http://www.clarets.com.br 

Em mais um convite da importadora, conhecemos as novidades trazidas pela família Delon, onde seu mais famoso ícone é o Chateau Léoville Las Cases, um super Deuxième da comuna de Saint-Julien. Antes porém, um belo início com três Cavas da família Juvé & Camps, numa ordem crescente de tempo em contato sur lies (sobre as leveduras). Intermediando a degustação, partimos para alguns tintos da Puglia da nobre Tenute Rubino. 

img_4681Familia Juvé & Camps

Situada em Sant Sadurní d´Anoia, a melhor região de Cavas, Juvé & Camps controla todo o processo de elaboração, desde vinhedos próprios, até todas as fases de vinificação.

Começamos a degustação com um Cava de entrada por R$ 132 reais, já um Reserva, chamado Cinta Púrpura em versão Brut. Elaborado com as castas brancas tradicionais em iguais proporções, temos a Xarel-lo, Macabeo (conhecida também como Viura em Rioja) e Parellada. Esta última, dando um toque gracioso ao conjunto, enquanto a Xarel-lo aporta estrutura. O vinho passa cerca de 24 meses em contato sur lies antes do dégorgement. 

Em seguida, passamos a um Cava mais estruturado, gastronômico, chamado Reserva de Familia Gran Reserva na versão Brut Nature safra 2014. A alta proporção de Xarel-lo fornece mais corpo e estrutura ao vinho. Além disso, uma certa austeridade pela secura elegante deste Cava completa o conjunto. O vinho passa cerca de 36 meses sur lies, aportando maior complexidade. Este exemplar, na faixa de R$ 183 reais.

Finalizando as borbulhas, mais um Gran Reserva, desta vez Brut, chamado Gran Juvé & Camps safra 2013. A novidade é que aqui temos 25% de Chardonnay no blend tradicional, além  das três uvas já citadas. Esse fator, confere mais elegância ao conjunto. Conferindo ainda mais complexidade, o vinho passa cerca de 42 meses sur lies, antes do dégorgement. Seu preço fica na faixa de R$ 332 reais.

img_4679Tenute Rubino

Partindo agora para Puglia, região sul da Italia, temos três exemplares da Tenute Rubino, todos tintos. Começando pelo Oltremé IGT Salente 2016, elaborado pela uva autóctone 100% Susumaniello de baixa produtividade, sem passagem por madeira. Um vinho de entrada por R$ 115 reais com notas de frutas maduras, especiarias, e um traço de mineralidade.

Em seguida, temos o Jaddico DOC Brindisi Riserva 2013 saindo por R$ 199 reais. Um vinho já mais estruturado com um blend de 80% Negroamaro e 20% Susumaniello. Vinificação com maceração mais longa e afinamento de 8 a 9 meses em barricas francesas de primeiro uso. Tinto bem equilibrado, madeira bem dosada, e muito gastronômico.

Finalizando o trio italiano, temos o Cru Torre Testa IGT Salento 2015 por 299 reais. Voltamos agora à uva 100% Susumaniello de baixíssimos rendimentos de videiras antigas. Vinho de longa maceração com amadurecimento em barricas francesas de primeiro uso por 12 meses. Um vinho potente de álcool, bela estrutura tânica, e notas marcantes de licor de frutas (cerejas, amoras). De certo modo, lembra um Amarone. Vinho bom para uma lareira.

Domaines Delon

O gran finale ficou para os vinhos do grupo Delon que entre outros, elabora o grande Léoville Las Cases, um dos mais reputados tintos bordaleses da comuna de Saint-Julien. Começando pelo Chateau Potensac, uma das referências em Cru Bourgeois de tradição, foi servido inicialmente seus segundo vinho, Chapelle de Potensac 2014. Um vinho de R$ 165 reais que já entrega muito prazer para quem aprecia os aromas e sabores de um Bordeaux. Taninos macios, toques terciários elegantes, e muito bem equilibrado. Uma bela compra para o dia a dia.

img_4677prazer sem ferir o bolso

Já o Potensac 2012, um tinto mais estruturado, mais fechado em aromas, mas com bom potencial de guarda. Deve ser obrigatoriamente decantado, onde as notas de cassis, ervas, e tostados, vão se abrindo pouco a pouco. Sai por R$ 325 reais na importadora.

img_4678elite do Haut-Médoc

A última dupla fica por conta do Chateau Léoville Las Cases, começando pelo seu segundo vinho, Le Petit Lion 2012, saindo por R$ 570 reais. Um vinho ainda em evolução, mas menos estruturado que o Grand Vin. Devidamente decantado, já pode ser apreciado, sobretudo acompanhando pratos de carnes vermelha, notadamente o cordeiro. Pode ser adegado por alguns anos ainda, sem problemas.

A apoteose ficou reservada mesmo para o grande Léoville Las Cases safra 2013, uma safra bem problemática. Mesmo assim, este exemplar tem 92 pontos de Parker com apogeu previsto para 2030. Um tinto super elegante com taninos finíssimos de rolimã. Muito equilibrado, percebe-se o cassis, a madeira nobre, e os traços de tabaco que ainda estão por vir. Um vinho que vai evoluir bem em adega mas que neste momento, pode ser prazeroso pelos aromas primários ainda muito presentes. Sai por R$ 1930 reais na importadora com a vantagem de ficar pronto mais cedo para o consumo.

Agradecimentos à importadora Clarets por mais esta oportunidade, pela bela recepção e apresentação dos vinhos. Sempre no aguardo de mais novidades. Abraço a todos!

Léoville Las Cases em parcelas

17 de Maio de 2018

Vizinho ao grande Latour, Chateau Léoville Las Cases é o mais prestigiado e consistente entre os Léovilles (Barton e Poyferré). Na época da revolução francesa, a propriedade foi dividida formando os três Léovilles, sendo a maior parte, 3/5 da área, destinada ao Las Cases. O mapa abaixo, mostra o perfil geológico do vinhedo num terroir complexo, entre pedras (graves), areia, argila, e limo. Até 2007, Clos du Marquis era considerado seu segundo vinho, embora já fosse um vinhedo separado. Atualmente, seu segundo vinho é chamado de Petit Lion. Pela ótima consistência, ano após ano, Clos de Marquis merece um status independente, fazendo parte desta nobre propriedade.

leoville las cases mapa

colado ao Chateau Latour

No vídeo abaixo, num determinado momento, aparece a distribuição das vinhas do Chateau. A maioria das parcelas de Cabernet Sauvignon ficam na parte mais alta onde a camada de cascalho é mais espessa. Já as vinhas de Merlot ficam mais próximas ao rio num solo um pouco mais frio com boa presença de argila. No caso das pequenas porções de Cabernet Franc, o solo arenoso com pedras é o mais indicado.

A separação da propriedade com o Chateau Latour se dá através de uma das valas de drenagem do Médoc, Ruisseau de Juillac, onde há um modificação na espessura do cascalho. Léoville Las Cases juntamente com Ducru-Beucaillou são os dois mais reputados vinhos da comuna de Saint-Julien, embora de estilos diferentes.

distribuição das vinhas no terreno

Após esta introdução, vamos ao objetivo do artigo, baseado numa degustação sui generis da ótima safra de 1986. Numa caixa exclusiva do Chateau nesta safra, foram dispostas além do Grand Vin, garrafas separadas de todas as uvas que compõem o blend. São elas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, e uma pitada de Petit Verdot.

d99aa670-51dd-4118-ae07-92ea3a18827f.jpgKit completo com proveta graduada

Começando pelo Grand Vin, Léoville Las Cases 1986, é uma safra de 100 pontos Robert Parker com apogeu previsto entre 2030 e 2035. Pela potência de taninos desta safra tão dura, haja vista, o grande Mouton com 100 pontos que parece  não  abrir nunca, este Léoville está bem abordável. Tem um estrutura densa de taninos, mas de ótima textura. Os aromas começam a se abrir pouco a pouco, denotando as notas de tabaco, chocolate, e cassis. Muito equilibrado e uma expansão de boca notável.

varietais e duas garrafas do Grand Vin

Quanto aos varietais degustados separadamente, percebemos claramente que o Cabernet Sauvignon é a espinha dorsal do Grand Vin, fato previsto, já que se trata de vinhos de margem esquerda. A Merlot tem aquele lado macio, afável, que complementa muito bem as arestas masculinas do Cabernet Sauvignon. Já o Cabernet Franc, é um vinho muito mais de aroma que textura e peso em boca. Ele participa sobretudo no blend, dando um toque de elegância. Por fim, a Petit Verdot fornece o tempero do blend. É uma uva tão potente como a Cabernet Sauvignon, porém falta-lhe classe, denotando uma certa rusticidade. Ela funciona mais ou menos como a pimenta em termos de tempero. Na medida certa, levanta o sabor. Contudo, no exagero, pode estragar o prato.

Feitas essas considerações, o blend do Grand Vin fica assim: 66% Cabernet Sauvignon, 19% Merlot, 11% Cabernet Franc, e 4% Petit Verdot. Após a degustação em separado dos varietais, começou a brincadeira de composição de blends individuais em proporções variadas. Teve gente que excluiu uma ou outra uva do blend, outros optaram por proporções altas de Cabernet Sauvignon. Enfim, uma experiência divertida.

Dentre as experiências, a mais didática foi compor o blend do Grand Vin na proveta nas proporções indicadas acima, e comparar com o vinho original elaborado no Chateau. Embora a proporção de uvas seja a mesma, ficou claro que faltava uma integração melhor dos componentes do vinho quando mesclamos as uvas na proveta. A explicação é mais que óbvia. Na composição do Grand Vin, os blends são formados logo após a fermentação  que é realizada separadamente das uvas. Passado um período de descanso nos tanques, é realizado o blend e o vinho vai para as barricas. Neste período, há uma integração total do vinho, aparando arestas, enriquecendo texturas e aromas.

No caso de misturar os varietais na proveta que envelheceram separadamente nas barricas e na garrafa, esta integração não fica perfeita. Melhora-se o conjunto, mas a perfeição, a amalgamação total, não acontece.

Notas Robert Parker para os varietais

  • Cabernet Sauvignon – RP 93 pontos (o rei da margem esquerda)
  • Merlot – RP 87 pontos (útil no blend, fraco no individual)
  • Cabernet Franc – RP 90 pontos (a elegância do blend)
  • Petit Verdot – RP 91 pontos (a pitada de tempero para realçar o blend)

Enfim, uma experiência inesquecível, e extremamente didática. Agradecimentos especiais ao nosso Maestro por mais esta prova de generosidade entre amigos. Saúde a todos! 

Syrah: A joia lapidada no granito

1 de Maio de 2018

No chamado Rhône-Norte, a Syrah encontra seu verdadeiro terroir em sub-solo granítico. Nas encostas escarpadas da Côte-Rôtie, sua primeira expressão de um Syrah profundo e de extrema delicadeza. Mais abaixo, onde o Rhône faz uma curva abrupta, as vinhas se voltam a leste na Montagne de Hermitage. Dois terroirs distintos, mas absolutamente magníficos, conforme mapa abaixo.

o granito e a Syrah

montagne hermitage

a imponente Montagne de Hermitage

A Montanha acima se divide em vários lieux-dits (climats), como Bessards, Méal, Greffieux, Rocoules, entre outros, formando solos  e exposições diferenciadas, onde a conjunção desses vários climats dão a complexidade dos grandes Hermitages.

hermitage lieux dits

os vários climats de Hermitage

A cuvée La Chapelle de Paul Jaboulet possui quatro lieux-dits (Bessards, Méal, Greuffieux, e Rocoules) com vinhas entre 40 e 60 anos em média. Sua primeira safra foi no ano de 1919. Os rendimentos são de 10 a 15 hl/ha, rendimentos de Yquem, e o vinho passa em barricas de carvalho, sendo no máximo, 20 % novas. O climat Bessards fornece estrutura e longevidade ao vinho, por exemplo.

O Hermitage Chave possui nove lieux-dits, o que confere uma complexidade ainda maior, considerado pelos puristas, o melhor Hermitage de toda a apelação. São 10 hectares de vinhas com média de idade de 50 anos. O vinho amadurece por 18 meses em barricas de carvalho com no máximo, de 10 a 20% de madeira nova. Deve ser sempre decantado por no mínimo uma hora. Seus aromas são muito redutivos.

rhone norte mapa

Hermitage, Côte-Rôtie, e Cornas

O nome Hermitage ganha o H na grafia quando o vinho começa fazer sucesso com os ingleses no século dezenove por uma questão fonética. A pronúncia fica bem mais fácil. Alguns mais tradicionais, fazem questão de conservar o nome Ermitage sem H.

cornas vignobles

Cornas: Vignobles

O terroir acima encontra-se na margem oposto de Hermitage com maior exposição solar, e vinhos mais corpulentos, mais tânicos. Normalmente, não apresentam a finesse de um grande Hermitage, mas envelhecem muito bem. Auguste Clape é o mestre nesta apelação com vinhos complexos e de longa guarda. Suas vinhas têm idade média entre 30 e 60 anos em solo granítico. O vinho passa 22 meses em toneis grandes de carvalho usado, no intuito de não marca-lo com a madeira.

IMG_4567.jpgtrilogia perfeita!

O Hermitage La Chapelle 1982 é um deslumbre. Aromas de frutas compotadas, alcaçuz, e um fino defumado, lembrando carne grelhada. Está delicioso, embora sem qualquer sinal de decadência.

O Cornas Clape 2006 ainda é um bebê. Taninos potentes, muito finos, e uma estrutura portentosa. Deve ser imperativamente decantado. Seus aromas de azeitonas negras e destacado defumado, marcam um terroir potente e de grande tipicidade.

O Hermitage Chave 1990 é o tinto mais enigmático. Percebe-se claramente toda sua finesse, mas ele reluta em se mostrar totalmente. Um toque mineral intrigante, muita fruta madura, mas com frescor, quase uma framboesa. Equilíbrio fantástico, e persistência muito longa. É sem dúvida nenhuma no momento, o mais tímido do painel.

guigal la turqueGuigal: La Turque

Agora aqui tudo muda, estamos no terroir Côte-Rôtie, a finesse extrema da Syrah. E quando falamos da trilogia mágica de Guigal com seus três La, La, Las,  tudo fica amplificado. Difícil eleger o melhor, o mais complexo, o mais sedutor.

Neste terroir, as inclinações de terreno pode chegar a 60° graus em sub-solo granítico e solos metamórficos de micaxistos. A chamada Côte Brune possui óxido de ferro em sua composição, tornando os vinhos mais escuros e viris. Já a chamada Côte Blonde, apresenta um perfil mais calcário, dando elegância aos vinhos.

IMG_4566.jpga escolha de Sofia …

O primeiro à esquerda, La Mouline 1981, é teoricamente o mais fraco em termos de safra, mas para esta trilogia a equação é bem complexa. Por estar mais pronto e ser o mais delicado devido à alta porcentagem de Viognier (11% de uvas brancas), o vinho estava extremamente sedutor com toques terciários fantásticos. Não tinha uma persistência tão longa, mais seu final de boca e acabamento eram  arrebatadores. 

La Turque 1985, 100 pontos, com uma pontinha de Viognier no blend, outro vinho sedutor, mas ainda com alguns detalhes a resolver. Taninos finíssimos e de grande profundidade. Deve ainda melhorar, mas pode perfeitamente ser apreciado com grande prazer. Um toque de virilidade evidente.

La Landonne 1985, 100 pontos, 100% Syrah. Vinho musculoso dentro da apelação Côte-Rôtie. Taninos presentes e de textura ímpar. Ainda um pouco fechado, mas de uma complexidade fora do comum. Mais uns cinco anos talvez, e estará em sua plenitude.

IMG_4562.jpgmais um dos pratos do Chef Rouge

O prato acima, o clássico Steak au Poivre, incitou as especiarias do vinho, embora sua força possa ter encobrido as nuances de vinhos tão finos. De todo modo, os mais tânicos, sobretudo Chave e Cornas, deram as mãos com a suculência do prato.

IMG_4568.jpgo vinho que silenciou almoço

O rótulo acima deu o que falar. Um Hermitage 1964 de Paul Jaboulet de grande safra, sem a menção La Chapelle. Tentei pesquisar ao máximo, o porquê desta não menção, mas não tive uma resposta adequada. O fato é que o vinho estava magnífico, lembrando muito o perfil do La Chapelle 1982, mas com mais complexidade e expansão. 

O La Chapelle 1964 foi degustado por Parker em 2000, e foi pontuado com nota 94. Um vinho considerado maduro, e uma das melhores safras de La Chapelle. E realmente, estava deslumbrante, à altura do grande sommelier Manoel Beato, presente no evento, com a safra de seu nascimento. Um final de almoço memorável!

Como sempre, é difícil encerrar artigos como este. Vinhos deslumbrantes, companhia das mais agradáveis, além de pessoas altamente capacitadas neste tipo de evento. O redator, humildemente agradece mais uma vez a oportunidade, desejando vida longa aos confrades. Que Bacco nos proteja sempre!

A linha Norte-Sul do Rhône

29 de Abril de 2018

Ao longo do rio Rhône em direção à Provence, as vinhas preenchem a paisagem moldada por uma topografia absolutamente distinta entre Norte e Sul. Enquanto a norte, as vinhas de Syrah se agarram em encostas extremamente acidentadas, os arbustos baixos de Grenache sobrevivem sob um sol impiedoso no Rhône-Sul, numa paisagem plana e cheio de pedras. O mapa abaixo mostra em seus contornos, este contraste topográfico. E esta separação é bem nítida. Entre Valence e Montélimar, praticamente não há vinhas, marcando definitivamente a diferença de paisagens.

rhone valley

44 km separam o norte do sul

Devidamente apresentadas as regiões, um grupo de amigos sedentos se deliciou com quinze garrafas da mais fina flor destas duas regiões. Tudo que uma Syrah  e uma Grenache podem pleitear em termos de complexidade, nós descreveremos abaixo numa viagem de Norte a Sul, ou melhor, de Sul a Norte.

IMG_4564.jpgnorte e sul, lado a lado

Pela foto acima, dá para perceber a cor esquisita do Ermitage branco do Guigal. Infelizmente, estava oxidado e foi a única baixa do painel. Uma pena, porque são vinhas Marsanne e Roussanne entre 50 e 90 anos de idade num terreno escarpado que não chega a dois hectares nas encostas do Rhône-Norte.

Em compensação, seu rival Beaucastel do Rhône-Sul, estava deslumbrante e muito bem conservado. Manteve ao longo do almoço aromas persistentes, alternando toques florais, amendoados, de marmelo, de figo, e marron-glacê. Um vinho exótico, fugindo um pouco dos onipresentes Chardonnays. O blend é baseado na uva Roussanne (80%), e o vinho amadurece parte com cubas, parte em madeira usada, para não encobrir a fruta. Bela prova de que os brancos do Rhône bem vinificados podem envelhecer e chegar a sua maioridade (dezoito aninhos). 

a cor engana …

E agora José? quem é o 89? quem é o 90?. Só um dos confrades, nosso Maestro, é que matou de cara a charada. Diga-se de passagem, ele estava insuportável nos palpites, como diria o tio Ronnie. Acertou tudo na degustação. Voltando aos vinhos, por incrível que pareça, a cor mais clara é do Rayas 1990. Falar de Chateau Rayas, é falar dos Borgonhas de Chateauneuf-du-Pape. Um chateau absolutamente diferenciado que trabalha exclusivamente com vinhas muito antigas de Grenache num terroir único, em meio a um bosque. Sua vinificação tradicional e pouco intervencionista, expressa toda a pureza  e identidade desta apelação com vinhos muito bem moldados, equilibrados, e de grande complexidade aromática. Este exemplar de 90 tem nota perfeita, 99/100 pontos consistentes. O vinho está pronto, delicioso, com toques terciários de tabaco, ervas finas, e notas de sous-bois. Já o Rayas 89, está surpreendentemente vivo, vibrante, e com taninos a resolver. A diferença de apenas um ano, não justifica o contraste de cores. Embora tenha só 97 pontos, altamente discutíveis, é um monstro de vinho com capacidade de envelhecer por mais alguns anos em adega. Seus taninos são finíssimos, mas poderosos, além de um poder de fruta extraordinário. Enfim, um começo de prova arrasador!

IMG_4565.jpgo vinho dos Papas!

Depois deste par esplêndido de Rayas, só mesmo o mago Henri Bonneau para manter o nível. E como na foto acima, para ombreá-los, só mesmo a cuvée especial de Beaucastel, Hommage a Jacques Perrin, produzida somente em anos especiais como 1990.

Falar de Henri Bonneau é falar sobretudo de um mito, mais ainda depois de sua morte recente em 2016. Seus vinhedos, seus métodos de vinificação, sempre em segredos e obscuros, assim como sua adega num velho porão, onde fungos habitam em perfeita harmonia entre as antigas barricas, fazem deste personagem uma verdadeira lenda. O mestre da Grenache!

Este Reserve des Celestins 1990 bem a esquerda da foto, é uma verdadeira poesia liquida. Seus aromas terciários são quase indescritíveis. Boca harmoniosa, taninos de seda, e um devaneio na expansão de boca. Definitivamente, não há como pontua-lo. Atingiu a plenitude!

Em sua Cuvée Spéciale 1990, vinho do meio na foto, é uma garrafa raríssima. Esta cuvée só foi produzida em 1990 e 1998, onde as uvas Grenache atingiram um grau de maturação impar, em anos especiais. Sua graduação alcoólica é de 16,5°, um tipo Amarone ou Port Like. Esta cuvée chega a ser mais exclusiva que sua Cuvée Marie Beurrier, homenagem à sua tia querida. Percebe-se que o vinho ainda não está pronto com uma cor densa e firme. Já muito prazeroso de ser tomado, tem taninos e estrutura para bons anos em adega. Seus aromas de alcaçuz são de livro. Um privilégio provar esta raridade!

Só mesmo um vinho de 100 pontos consistentes para ladear esta dupla de Henri Bonneau, o lendário Beaucastel Hommage a Jacques Perrin 1990. Um tinto com a marca do Chateau, e seus característicos toques de Brett dos mais finos bastidores do Jockey Club. Esta cuvée baseia-se na casta Mourvèdre (60%), Grenache (20%) e o restante de Syrah e Counoise. Isso permite enorme longevidade para o vinho, diante da destacada estrutura tânica proporcionada pela Mourvèdre. Seu estágio em toneis de carvalho não compromete a fruta, por se tratar de madeira usada. Na degustação, assumiu uma posição intermediária em termos de evolução. Embora já prazeroso, tem estrutura para pelo menos mais dez anos em adega. Uma verdadeira referência dos mais nobres vinhos desta apelação. 

IMG_4560.jpgjavali com ervilhas e cebolas glaceadas 

Para acompanhar essas maravilhas, alguns dos pratos do Bistrot Chef Rouge, como esta costeleta de javali, foto acima. Uma brandade de bacalhau acompanhou os brancos acima descritos.

IMG_4556.jpgCuvée da Capo

Fechando o Rhône-Sul, mais um 100 pontos do Domaine Pegau com sua magistral Cuvée da Capo 2003. Podemos dizer que foi o infanticídio do almoço, mas um tinto de grande futuro. Suas vinhas são baseadas no melhor setor de Chateauneuf, o terroir de la Crau e toda sua pedregosidade. Com um blend de 70% de Grenache, e o restante entre Cinsault, Syrah, e outras, o vinho amadurece em grandes toneis de carvalho usados durante dois anos, numa vinificação bem tradicional. Um tinto musculoso, cheio de taninos finos, e aromas provençais (ervas finas, especiarias, alcaçuz). A previsão de sua maturidade está para 2040. Deve ser obrigatoriamente decantado para ser bebido nesta fase.

Bom pessoal, metade dos quinze vinhos já foi. Tomando um fôlego, no próximo artigo a segunda parte com tintos do Rhône-Norte, tão espetaculares como estes acima comentados. Hermitages e os sonoros La, La, Las …

 

 

 

 

 

Vosne-Montrachet entre Hashis

22 de Abril de 2018

Provar um Montrachet é sempre um momento de contemplação. Afinal, estamos falando de um dos melhores brancos do mundo, se não for o melhor para muitos entendidos. Agora, fazer uma vertical de Montrachet do Domaine Comte Lafon, uma das referências nesta diminuta apelação de aproximadamente oito hectares de vinhas, é um privilégio para poucos.

montrachet lafonbem ao lado das vinhas DRC

Alguns dados traduzem a exclusividade deste momento. Sabe quando o camarada compra aquele lote de 3200 m² para fazer sua casa de lazer. Pois bem, essa é a área das vinhas Montrachet do Comte Lafon. Essas vinhas foram plantadas em 1953 (80%) e 1972 (20%). Seus rendimentos ficam entre 20 e 35 hl/ha. O vinho é fermentado em barricas com bâtonnage (revolvimento das borras) e amadurece entre 18 e 22 meses em barricas também.

187ba657-7a40-4cdb-a249-2652291d2d30.jpgapelação Vosne-Montrachet

Feitas as considerações iniciais, vamos aos vinhos e suas combinações à mesa. Quanto aos três La Tache, serão devidamente comentados em seguida.

IMG_4511.jpgsafras de extremo didatismo

Começando pelo Montrachet 2009, estava num momento ótimo para ser abatido. Cheio de fruta, toques tostados, caramelo, especiarias, e aquela textura macia típica dos Lafons. Sem qualquer sinal de oxidação, este exemplar muito bem conservado, mostra a exuberância da safra 2009 com frutas em profusão. Temo em guarda-lo por mais tempo, pois sua acidez está no limite, sendo este fator de extrema importância para sua longevidade. Foi o preferido para vários dos confrades. Já 2010, outra safra de extremo didatismo. Ela segue o perfil de 2009 no sentido de se mostrar sem rodeios, mas seu equilíbrio é mais harmônico com uma acidez mais vibrante. Evoluiu muito bem na taça, e mostra que pode caminhar por mais tempo em adega. Notas 96 e 97, respectivamente.

um festival de sushis

A fota acima retrata bem os ótimos sushis do restaurante Ryo. Com os Montrachets acima, safras 2009 e 2010, combinaram bem, sobretudo em termos de texturas. O lado adocicado do prato foi de encontro com a riqueza de fruta dos vinhos.

IMG_4512.jpgsafras mais contidas

Num estilo oposto a 2009 e 2010, as safras 2011 e 2013 são mais contidas. Possuem bela acidez e uma mineralidade mais destacada. De início, mostraram-se muito redutivas no aroma onde em seguida, pouco a pouco os mesmos foram se revelando. O grande pecado é que apresentam persistência aromática não muito longa, faltando um pouco de meio de boca. No geral a safra 2013 é levemente superior com deliciosos aromas de pitanga. A longevidade de ambas é um ponto de interrogação, mas aparentemente apresentam acidez para tanto. Notas 93 e 95, respectivamente.

mais hashi em ação

As duas safras acima, 2011 e 2013, de textura mais delgada e acidez mais aguda, foram bem com os pratos de sashimi e sobretudo as vieiras frescas com gelatina de tomate, um dos melhores pratos do menu. Aqui a maresia e frescor dos pescados deram as mãos com a mineralidade e acidez dos vinhos.

IMG_4513.jpgbeirando a perfeição

Pessoalmente, o melhor Montrachet do painel, embora esteja longe de estar pronto. Para beber agora, o 2009 é encantador. Voltando ao 2012, um vinho cheio de mineralidade, bela acidez, toques cítricos no aroma e uma gostosa salinidade em boca. Sua persistência aromática é expansiva e notável. Deve evoluir bem em adega. Sua longevidade pode estender-se até 2040. Talvez um pouco exagerada. Sua nota é 98 pontos.

IMG_4506.jpga escolha de Sofia …

Como se não bastasse essa cascata de Montrachets, entramos em outro terroir sagrado, Vosne-Romanée com sua Majestade, La Tache. O quadro acima revela dois La Taches excepcionais, cada qual em seu estilo e momento de evolução. O de safra 1985 é uma poesia liquida com todos os aromas terciários nobres que um vinho deste naipe pode entregar. Logo ao ser aberto, emergiu um aroma curado de Pata Negra, quase um Joselito, o melhor ramon espanhol. Devidamente decantado, os aromas de trufas, sous-bois, licor de cereja, chá, e flores secas foram perfumando as taças. Boca harmoniosa, precisa em seus componentes bem equilibrados, culminando num final muito bem acabado. Está no momento exato para ser apreciado, embora sem sinais de qualquer indicio de decadência. Deixando a emoção de lado, numa análise técnica isenta, falta um pouco de corpo e persistência para entrar na galeria dos La Taches perfeitos, mas é essa nobreza de aromas que faz deste vinho, independente da safra, um dos melhores vinhedos sobre a terra (Hugh Johnson). Nota 91 Parker. Eu daria entre 93 e 95 …

O La Tache 1991, safra um tanto desdenhada, é um dos La Taches históricos. O próprio Aubert de Villaine o prefere ao mítico 1990. A diferença de idade de seis anos para o La Tache 85 é desproporcional em termos de evolução. Enquanto o 85 está plenamente formado, o 91 ainda é um adolescente. Tem um estrutura monumental de taninos. Os aromas já estão encantadores com notas de cerejas escuras, minerais, alcaçuz e um delicioso chocolate amargo (cacau). Outro aroma que pouca gente entende é o aroma de carne fresca, nítido neste vinho. Da próxima vez que entrar num açougue, sinta este tipo de aroma. Em boca, falta muito a ser lapidado, mas quando o tempo se encarregar desta lenta tarefa, estaremos diante de um vinho grandioso. Previsão para 2040. Nota 97 com louvor.

os pratos de carne

Os pratos de carne, carne de porco ultra macia num caldo de sabor delicado para os aromas terciários dos vinho, e a delicada textura de língua numa farofinha crocante, complementaram muito bem a nobreza destes dois grandes vinhos.

IMG_4532.jpgo infanticídio de dia

Não se deve abrir um La Tache e outros vinhos DRC antes de vinte anos. A prova está na foto acima, deste belo 96. Um vinho que já tem seus encantos, mas tem muito a entregar ainda. Não tem a estrutura e longevidade do excepcional 91, mas tem acidez e taninos finos para evoluir com propriedade. Os aromas de cerejas, alcaçuz e especiarias, se destacam neste momento. Deve ser imperativamente decantado por duas horas, permitindo assim, uma melhor harmonia em boca. Nota entre 94 e 97 pontos num dos estilos mais elegantes de La Tache, se contrapondo ao potente 91.

O que mais dizer depois de um almoço desses, onde brancos e tintos foram exponenciados ao limite. Apenas agradecer a companhia e generosidade dos confrades, desejando-lhes vida longa regada aos sabores de Bacco. Saúde a todos!