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La,la,la (e la), a partitura dos Guigal

25 de Agosto de 2024

No mundo musical, La La La pode ser cantada no chuveiro acompanhando de Beatles a Simon Garfunkel, no universo de Baco está relacionada a um terroir, a um produtor e a três vinhedos míticos. Em 1961, aos 17 anos, Marcel Guigal assumiu por conta da cegueira repentina e inesperada de seu pai, Etienne, o comando da propriedade familiar, nascida em 1946.

A primeira aquisição especial foi uma parcela de um hectare de vinhedos monopole, ou seja, exclusividade da família: La Mouline, um histórico terroir do Rhône, cuja história remonta mais de dois milênios. Etienne vinificou pela primeira vez seu primeiro La em 1966, vinhedo único da Côte Blonde, cujas vinhas datam de 1893, uma das primeiras plantações pós-filoxera na Côte-Rôtie. Recebe a maior percentagem de Viognier, 11%, sendo o restante de syrah, tratamento de 42 meses de madeira.

Quando soube que seria pai, Marcel resolveu plantar vinhedos em La Landonne, em homenagem ao herdeiro: Philippe nasceu em janeiro de 1975, mesmo mês em que as primeiras videiras do segundo La foram plantadas em uma terra que havia três décadas não produzia uvas. É o único não monopólio da casa, o único vinhedo classificado oficialmente e o único que recebe 100% Syrah, com tratamento de 42 meses de madeira. A primeira safra fermentada pelos Guigal foi a de 1978.

Em 1985, completou-se a trilogia: com a aquisição de La Turque dos Vidal-Fleury. Também da Côte Brune, como o La Landonne, esse vinhedo recebe 7% de viognier e também tratamento de 42 meses de madeira.

Em pouco tempo, os vinhos atraíram a atenção de Robert Parker, que ganhou status na safra 1982 em Bordeaux, mas cujo coração bate mais forte pelo Rhône. Depois de beber algumas safras da trilogia, sentenciou em sua Wine Advocate: não há nenhum enólogo na Terra que tenha produzido tantos vinhos atraentes, independentemente das condições da colheita, como Marcel Guigal.

Os três vinhos se destacam em uma harmonização como steak au poivre, que destaca as especiarias. Cabe destacar que as condições de produção têm suas particularidades: Neste terroir, as inclinações de terreno pode chegar a 60° graus em sub-solo granítico e solos metamórficos de micaxistos. A chamada Côte Brune possui óxido de ferro em sua composição, tornando os vinhos mais escuros e viris. Já a chamada Côte Blonde, apresenta um perfil mais calcário, dando elegância aos vinhos.

La Mouline é o mais elegante e delicado, La Landonne, o mais possante e estruturado, La Turque, a conjunção da elegância e a potência. São vinhos grandiosos. Um privilégio poder participar de uma degustação com os 3 sobre a mesa: La Turque 2005 tem tudo que um vinho pode querer; o La Mouline 2010, a delicadeza e a elegância e que ganhará muito em cinco anos; La Landonne 2011 mostra toda a pujança e a exuberância da syrah tratada com esmero. O vencedor? Os participantes.

Assim como Hollywood tem ampliado suas trilogias, os Guigal também seguem o caminho: em 2021, anunciaram a aquisição de um vinhedo a que chamaram de La Reynarde, como o riacho que corre entre Côte Brune e Côte Blonde. (O lugar foi tornado feminino e batizado ‘La Reynarde’ para permanecer dentro da família de vinhedos únicos Côte-Rôties comumente conhecidos como ‘os LaLas). As uvas virão de um terreno em Fongeant, entre vinhedos de Jean-Paul Jamet e Jean-Luc Jamet. A primeira safra, de 2022, chegará ao mercado em 2026. La Reynarde é uma homenagem aos filhos gêmeos de Philippe Guigal, Charles et Etienne. Eles nasceram em 2010, mesmo ano em que o terreno foi liberado para plantio.

Que a família Guigal continue crescendo e vinificando com esmero! Baco só pode agradecer.

PS: Mr. Gilman, o bastião do classicismo da crítica internacional, tem tido que os vinhos pós 2000 dos Guigal têm ficado muito mais acessíveis que os dos anos 1980. Quem sabe eu não tenha a sorte de poder discordar ou concordar de John Gilman, que acha os vinhos de Jean Louis Chave mais pesados que os do pai, Gerard. O La Turque 1988, bebido na casa do Nelson, é o melhor vinho que eu tive o prazer e o privilégio de beber.

Hermitage Branco

27 de Fevereiro de 2020

Muito se fala do hermitage tinto, deixando desapercebido o grande branco do Rhône. A grafia Ermitage ou Hermitage tem muito mais haver com a dificuldade inglesa em pronunciar o nome. No entanto, Ermitage sem h parece ser a original. A apelação Hermitage trata-se de uma colina granítica muito bem posicionada de 136 hectares de vinhas, sendo os tintos Hermitages 70% da produção e 30% para os Hermitages brancos.

Esse é um branco diferente, pois as uvas são diferentes, uma dupla Marsanne e Roussanne, sendo a primeira geralmente majoritária. O Hermitage branco tem a fama de não possuir muita acidez, assim como seu parceiro do Rhône Norte, Condrieu, feito com a uva Viognier de baixa acidez. De fato, a discussão é longa, alguns achando que o vinho deva envelhecer, outros não, aproveitando o frescor da juventude. O Chateau Grillet, um monopólio da apelação Condrieu com a uva Viognier, de 3,5 hectares tem apelação própria para deixar a discussão mais acirrada.

Voltando ao Hermitage branco, este sim,  é um vinho que deve envelhecer e sobretudo decantando por horas antes do serviço, pois seus aromas são muito redutivos. Geralmente, tem uma fase pouco expressiva na juventude e só vai desenvolver bem a partir dos dez anos em garrafa. Funciona um pouco como o Sémillon australiano de Hunter Valley, mais especificamente de Mount Pleasant. Um branco exótico que desenvolve seus aromas e sabores aos poucos.

Marsanne

Uva do Rhône gostando de vinhedos de encosta, solo pedregoso, e dias ensolarados no amadurecimento. Sua acidez é média e seus aromas são discretos, sobretudo em seu lento desenvolvimento. Seus aromas são de ervas, toques florais, mel, e amêndoas com o passar do tempo em garrafa.

Roussanne

Tem características semelhante à Marsanne, mais é menos vigorosa e mais delicada. Partilha do mesmo terroir. Seus aromas delicados e florais são mais evidentes. Participa geralmente com baixa porcentagem no corte.

Solos e Climats

hermitage lieux ditsos vários terroirs da montanha

De uma maneira geral no mapa acima, percebemos que os setores esquerdos da montanha são famosos pelo grandes tintos Hermitage como Les Bessardes, Le Méal, Les Greuffieux. 

Os setores no meio da colina começam mesclar uvas tintas e brancas. Vale lembrar que um bom Hermitage tinto pode conter até 15% de uvas brancas (Marsanne e Roussanne). O lieu-dit Maison Blanche é muito reputado pelo plantio de uvas brancas. O subsolo é sempre granítico, mas os solos da superfície variam entre a argila, quartzo, e solos aluviais.

Os setores leste e de borda como Les Murets, por exemplo, é famoso por suas uvas brancas. O Ex-Voto, Ermitage Blanc do Guigal, tem a maioiria de vinhas em Les Murets, de solo aluvial e pedregoso.

No caso do Hermitage Blanc de Jean-Louis Chave, os vinhedos de borda são Les Recoules, Maison Blanc, Peléat e L´Ermite, entre outros. Um vinho elegante que se desenvolve muito bem ao longo do tempo. A mescla de vários terroirs da montanha é um dos segredos dos grandes vinhos de Chave.

dois grandes brancos de Chave

Os exemplos acima falam por si deste excelente produtor. O da esquerda é um grande Hermitage branco de guarda que custa caro perto da concorrência, mas o da direita é o Blanche com uvas de segunda linha para um vinho mais informal, continua muito estruturado e longevo, mostrando a seriedade deste produtor. Um custa dez vezes o preço do outro, mas vale a pena.

exemplo de seleção parcelar de Chapoutier

Os exemplos acima são da formidável seleção parcelar de Chapoutier, um dos maiores nomes do Rhône. No da direita, um exemplo de Ermitage branco de grande corpo e estrutura do terroir L´Ermite. Seleção de velhas parcelas de Marsanne num dos terroirs mais antigos da colina, L´Ermite.

O da esquerda é do terroir L´Orée, pertencente à parcela Les Murets de vinhas Marsanne antigas. É um solo antigo, aluvial, mas de não tanta profundidade como L´Ermite. Um vinho com um pouco mais de frescor e um pouco mais leveza.

dois belos brancos do Rhône

Falando um pouco do Chateauneuf-du-Pape Blanc, tem um produção pouco expressiva no Rhône-Sul. Em seu assemblage participa ativamente as uvas Clairette e Bourbolenc. A Grenache Blanc tem pouco participação, assim como Marsanne e Roussanne, já comentadas. Mesmo para bons produtores, é um vinho que não deve envelhecer devido à sua oxidação prematura, exceto em cuvées especiais. É o caso do Clos de Papes branco, bem longe das pretensões de seu ótimo tinto.

Já o exemplo da esquerda é uma exceção. Um branco excepcional do Chateau de Beaucastel, elaborado exclusivamente com Roussanne, uva de difícil cultivo. São apenas três hectares de vinhas plantadas em 1901. Portanto, sua vinificação é especial e moldada para longa guarda. Um vinho diferenciado e elegante para padrões da apelação.

Enfim, é um assunto vasto e específico para vinhos brancos pouco convencionais. Assim como o Hemitage tinto que demanda paciência, os Hermitages brancos são de uvas diferentes que exigem tempo em garrafa. Vale decanta-los com antecedência e são muito gastronômicos como comidas exóticas, sobretudo as asiáticas e alguns pratos da nossa cozinha brasileira do nordeste como baião de dois e outros pratos consistentes. Substituem perfeitamente os tintos em termos de corpo e estrutura. Vale para pratos de inverno.

Os polêmicos Top 100 WS

19 de Novembro de 2019

Finalmente, a lista dos 100 melhores vinhos da revista americana Wine Spectator. Sempre muito polêmica, suas notas mexem com os preços dos mais bem pontuados. Como sempre, a premiação se concentra nos americanos, franceses, e italianos. Espanha e Portugal em números modestos, e o restante, na maioria Novo Mundo, completam a lista. Todos os vinhos: http://www.winespectator.com 

Além dos Top Ten já anunciados e comentados em artigo anterior, segue minha lista Top Ten baseada na lista dos 100 melhores anunciada. Escolhi dez vinhos dentre os noventa abaixo do Top Ten.

wine spectator moccagatta barbaresco

Moccagatta Barbaresco Bric Balin 2015 

97 pontos (11° colocado)

Barbaresco de estilo mais moderno. O vinhedo Bric Balin tem vinhas desde 1957 até 1985 com 3,4 hectares. O vinho passa cerca de 18 meses em barricas francesas. Sempre muito bem pontuado, tem corpo e ótimo poder de fruta. Importadora Vinci.

wine spectator huet le mont demi sec

Domaine Huet Vouvray Demi-Sec Le Mont 2018

95 pontos (15° colocado)

Huet é referência absoluta na apelação Vouvray com a uva Chenin Blanc no Loire. O vinhedo Le Mont parte de um terroir pedregoso (sílex) em meio a argila. O vinho tem 17 g/l de açúcar residual em perfeita harmonia. Excelente para pratos delicados e agridoces. É a versão alemã dos brancos franceses. Importadora Premium.

wine spectator castellare chianti classico

Castellare di Castellina Chianti Classico 2017

94 pontos (17° colocado)

Belo produtor de Castellina in Chianti, região clássica desta denominação. O vinho é baseado em Sangiovese com uma pitada de Canaiolo. Seu amadurecimento dá-se em tonéis de madeira francesa por sete meses. Sempre muito consistente e de muita tipicidade. Importadora Vinci. 

wine spectator guigal blonde e brune

Guigal Côte-Rôtie Brune et Blonde 2015

96 pontos (21° colocado)

Talvez o maior especialista na apelação Côte-Rôtie, Guigal elabora este vinho baseados nos vinhedos Côte Blonde (solo xistoso rico em sílica e calcário) e Côte Brune (solo rico em óxido de ferro). Os rendimentos são baixos e o blend é calcado na uva tinto Syrah com uma pitada da branca Viognier. Passa 36 meses em toneis de madeira, sendo 50% novos. Excelente pedida por preços honestos. Quem tem acesso à famosa trilogia (La Turque, La Mouline, e La Landonne) está no céu. Importadora Interfood.

wine spectator marques de murrieta reserva

Marques de Murrieta Rioja Finca Ygay Reserva 2015

92 pontos  (40° colocado)

Um clássico da Rioja com vinhos sempre consistentes. Nesta safra temos 80% Tempranillo, 12% Graciano, 6% Mazuelo, 2% Garnacha. Passa 18 meses em barricas de carvalho americano. Um vinho sedutor e marcante. Dignifica o estilo clássico dos grandes Riojas. Importadora World Wine.

wine spectator noval vintage 2017

Quinta do Noval Vintage Port 2017

98 pontos (53° colocado)

Uma das cinco melhores Casas do Porto, os Vintages da Noval são complexos e longevos. Nesta estupenda safra 2017 temos um Porto para esquecer na adega. Muito concentrado e estruturado para longo envelhecimento. Para quem não tem paciência, decanta-lo por ao menos quatro horas. Importadora Adega Alentejana.

wine spectator poliziano vino nobile

Poliziano Vino Nobile di Montepulciano 2016

92 pontos (54° colocado)

Poliziano é a grande referência quando se fala na denominação Vino Nobile di Montepulciano, a sul do Chianti Classico. Elaborado com 85% Prugnolo Gentile (Sangiovese) e 15% das uvas Canaiolo, Merlot, e Colorino. Passa entre 14 e 16 meses em madeira inerte de várias dimensões. Um toscano clássico. Importadora Mistral.

wine spectator maquis d´angerville

Marquis d´Angerville Volnay Champans 2016

95 pontos (67° colocado)

D´Angerville é juntamente com Domaine Lafarge as maiores referências na apelação Volnay. No caso de D´Angerville temos um lado mais viril de Volnay com vinhos aptos a longo envelhecimento. Geralmente passam de 15 a 18 meses em barricas francesas, sendo no máximo 20% novas. Champans trata-se de um de seus Premier Cru. Importadora Premium.

wine spectator pichon lalande

Chateau Pichon Lalande Pauillac 2016

97 pontos (97° colocado)

Um clássico de Pauillac, sempre pregando surpresas às cegas para os Premiers desta comuna. Um tinto muito sedutor, taninos sempre bem moldados, e embora possa ser acessível em tenra idade, envelhece com muita nobreza. Mais um dos grandes Bordeaux da ótima safra 2016. Várias importadoras podem tê-lo. 

wine spectator dominique piron morgon

Dominique Piron Morgon Côte du Py 2017

92 pontos (99° colocado)

Morgon é um dos Crus de Beaujolais do ótimo produtor Dominique Piron. Côte du Py é uma colina de solo granítico dentro da apelação Morgon com vinhas acima de 50 anos. Amadurecimento parcial em madeiras inertes de várias dimensões. Um Beaujolais diferenciado e muito gastronômico. Importadora Decanter.

Enfim, uma lista europeia, sem a presença dos americanos, pois estes últimos são inacessíveis em nosso mercado. Todos os vinhos listados tem importação no Brasil, embora não da safra específica mencionada. Como consequência, fica como sugestão para os vinhos deste final de ano.

De um modo geral, os Top 100 deste ano deram ênfase para os Cabernets e Pinot Noir americanos, os tintos da Toscana, especialmente Chianti Classico, e os Bordeaux da safra 2016.

Vinhos Antigos: Privilégio para poucos

21 de Maio de 2019

Vinho, quanto mais velho, melhor!. Uma das maiores mentiras no mundo de Bacco. Nem cinco por cento dos vinhos elaborados no mundo são aptos a longo envelhecimento em garrafa. Entretanto, uma pequena parcela de alguns chateaux, domaines, sobretudo franceses, tem esse privilégio. Privilégio maior ainda são aqueles poucos mortais que conseguem com certa regularidade provar destas preciosidades. Estas pessoas, além de desembolsarem milhares de dólares ou euros em leilões, adegas particulares oferecidas, e outras fontes não reveladas, correm grande riscos nas falsificações e no próprio estado de cada garrafa. Lembrando que, em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas.

Vencidos os problemas de grana, e muita grana diga-se de passagem, falsificações, e sorte com as garrafas, degustar esses vinhos é como visitar o céu de vez em quando. A maioria das pessoas só ouvem falar de alguns mitos como Petrus, Romanée-Conti, Latour, Margaux, e muitos outros figurões. Alguns mortais, em situações de rara felicidade conseguem provar uma dessas garrafas através de amigos, degustações especiais, ou presentes inesperados. Nessas situações, fica gravado na memória aquela garrafa, aqueles aromas, aqueles sabores, tudo inesquecível. E aí vem a pergunta: será que esta avaliação foi precisa numa análise fria do vinho, sem isenção, ou a emoção de estar cara a cara com o mito fala mais alto?

Seguindo este raciocínio, em degustação recente publicada neste blog, Bordeaux 82, o Paraíso existe!, tivemos quatro garrafas de Lafite 82 em quatro flights distintos. Uma garrafa diferente da outra. Uma espetacular, uma bouchonnée, uma com aromas estranhos, e uma ainda fechada, de evolução lenta. Se cada pessoa pudesse provar uma destas garrafas, talvez não distinguissem essas diferenças por estarem maravilhadas com o rótulo. Mesmo a garrafa bouchonnée, não é todo mundo que reconhece.

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se acertar a garrafa, beba de joelhos!

A safra 85 foi maravilhosa na Borgonha em particular. Lembro-me de um Romanée-Conti desta safra numa garrafa perfeita. Aromas terciários incríveis e inesquecíveis. Na foto acima, um Mazis-Chambertin do Négociant Leroy do Hospices de Beaune 85. Em três oportunidades tivemos: uma garrafa maravilhosa, e as outras duas muito boas, mas não esplendorosa como a primeira.

Dentro deste universo de vinhos de guarda, há alguns já acessíveis em tenra idade, embora possam envelhecer com propriedade. É o caso dos chateaux Haut Brion e Cheval Blanc que são adoráveis em qualquer momento. Basta uma boa decantação. Isso para ficar nestes dois exemplos. 

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este trio tem muita história

Os chamados La-La-Las, foto acima, dispensam comentários num dos vinhos mais espetaculares em termos de longevidade. A idade parece não chegar para essas crianças com aromas terciários incríveis e um equilíbrio de boca singular. Cada qual pode ter sua preferência, mas não vou fazer distinção entre eles, pois já provei vários de todos eles e sempre espetaculares. Para ficar em apenas três safras: 85, 88 e 90. A elegância e sutileza de aromas destes tintos, elevam a casta Syrah numa outra dimensão.

Por outro lado, os mitos Petrus e Romanée-Conti são vinhos difíceis na juventude, um tanto duros, sem muita conversa. Portanto, diante deles, só mesmo o tempo para lapidar essas joias e revelar todo seu esplendor. Muitas vezes, mais de vinte anos são necessários para todo esse processo. Some-se a isso, características especificas de safra que podem atenuar ou intensificar este período de maturação em garrafa. Lembrando do Mouton 1986, este é um caso clássico de difícil  amadurecimento por ser de uma safra de taninos extremamente potentes e de lenta evolução. 

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talvez o único que possa encarar o Petrus de frente!

Poderia escolhe inúmeros Bordeaux já degustados, mas preferi mostrar o Pomerol acima, o grande Lafleur. Vinho introspectivo como o rei Petrus e de lenta evolução. A destacada participação da Cabernet Franc confere elegância, mas a estrutura da Merlot com taninos poderosos lembra o rival maior. 90 é uma grande safra que está ainda em evolução. Precisa de pelo menos duas horas de decantação. Outras grandes safras brilham para este chateau como a mítica 82, 100 pontos inconteste.

Dentro da família DRC, o caso mais evidente e didático quanto à maturação e acessibilidade dos vinhos são os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux. O primeiro, um tinto acessível, sensual, em qualquer idade que abri-lo, salvo características específicas de safra. Já o Grands-Echezeaux é um vinho duro, viril, completamente oposto à feminilidade de seu parceiro de vinhedo. Aqui, as questões de terroir falam mais alto, já que o produtor e a técnica de vinificação são os mesmos. Domaine de la Romanée-Conti possui as melhores localizações destes dois Grands Crus, onde os vinhedos estão muito próximos. Grands-Echezeaux fica na parte de cima do Grand Cru Clos Vougeot, fazendo divisa. As parcelas DRC de Echezeaux ficam imediatamente a norte de Grands-Echezeaux, praticamente coladas em sua divisa. No entanto, sutilezas de solos, relevo e inclinação do terreno, resultam em relevantes diferenças entre os vinhos. Só a Borgonha propicia este mistério. 

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Madeira: um vinho indestrutível!

De todos os fortificados portugueses, o Madeira impressiona pela extrema longevidade, quase imortalidade. O exemplo são os Madeiras do século XIX, foto acima, parecendo não ligar para o tempo. Aromas e sabores fantásticos e um equilíbrio perfeito em boca. Sobretudo o Terrantez, um dos Madeiras mais raros, é da categoria Frasqueira ou o equivalente a um Vintage. O vinho é de uma só colheita e passa pelo menos vinte anos em canteiros (estrutura de ripas que sustentam as pipas para não encostarem no chão), antes do engarrafamento. Este período extremo de oxidação, fazem destes vinhos algo quase imortal.

Na evolução em garrafa de grandes vinhos, o tempo, o silêncio e a escuridão da adega, fazem a transformação de algo incompleto, com arestas, e certa introspecção. Lentamente, os ácidos e álcoois do vinho em meio aquoso se transformam em ésteres, formando o chamado bouquet. Esta é uma transformação lenta e gradual, onde esses mesmos ésteres se decompõem em ácidos e álcoois, recomeçando o ciclo novamente. A não perturbação da garrafa neste longo período é fundamental para o bom andamento das etapas.

Por outro lado, os taninos conjuntamente iniciam um processo de polimerização, formando longas cadeias moleculares. Num determinado momento, por peso próprio esses taninos começam a precipitar-se formando os famosos depósitos, também chamado de borra. Daí, a necessidade de decantação de vinhos antigos, a fim de separar as partes sólidas do líquido límpido. 

Ficamos na França para elucidar o assunto deste artigo, mas a Europa de um modo geral, permite o mesmo raciocínio para outros vinhos e vinhedos, embora o arsenal francês em quantidade e qualidade dos grandes vinhos de guarda seja incomparável aos demais países.