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Vinhos Antigos: Privilégio para poucos

21 de Maio de 2019

Vinho, quanto mais velho, melhor!. Uma das maiores mentiras no mundo de Bacco. Nem cinco por cento dos vinhos elaborados no mundo são aptos a longo envelhecimento em garrafa. Entretanto, uma pequena parcela de alguns chateaux, domaines, sobretudo franceses, tem esse privilégio. Privilégio maior ainda são aqueles poucos mortais que conseguem com certa regularidade provar destas preciosidades. Estas pessoas, além de desembolsarem milhares de dólares ou euros em leilões, adegas particulares oferecidas, e outras fontes não reveladas, correm grande riscos nas falsificações e no próprio estado de cada garrafa. Lembrando que, em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas.

Vencidos os problemas de grana, e muita grana diga-se de passagem, falsificações, e sorte com as garrafas, degustar esses vinhos é como visitar o céu de vez em quando. A maioria das pessoas só ouvem falar de alguns mitos como Petrus, Romanée-Conti, Latour, Margaux, e muitos outros figurões. Alguns mortais, em situações de rara felicidade conseguem provar uma dessas garrafas através de amigos, degustações especiais, ou presentes inesperados. Nessas situações, fica gravado na memória aquela garrafa, aqueles aromas, aqueles sabores, tudo inesquecível. E aí vem a pergunta: será que esta avaliação foi precisa numa análise fria do vinho, sem isenção, ou a emoção de estar cara a cara com o mito fala mais alto?

Seguindo este raciocínio, em degustação recente publicada neste blog, Bordeaux 82, o Paraíso existe!, tivemos quatro garrafas de Lafite 82 em quatro flights distintos. Uma garrafa diferente da outra. Uma espetacular, uma bouchonnée, uma com aromas estranhos, e uma ainda fechada, de evolução lenta. Se cada pessoa pudesse provar uma destas garrafas, talvez não distinguissem essas diferenças por estarem maravilhadas com o rótulo. Mesmo a garrafa bouchonnée, não é todo mundo que reconhece.

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se acertar a garrafa, beba de joelhos!

A safra 85 foi maravilhosa na Borgonha em particular. Lembro-me de um Romanée-Conti desta safra numa garrafa perfeita. Aromas terciários incríveis e inesquecíveis. Na foto acima, um Mazis-Chambertin do Négociant Leroy do Hospices de Beaune 85. Em três oportunidades tivemos: uma garrafa maravilhosa, e as outras duas muito boas, mas não esplendorosa como a primeira.

Dentro deste universo de vinhos de guarda, há alguns já acessíveis em tenra idade, embora possam envelhecer com propriedade. É o caso dos chateaux Haut Brion e Cheval Blanc que são adoráveis em qualquer momento. Basta uma boa decantação. Isso para ficar nestes dois exemplos. 

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este trio tem muita história

Os chamados La-La-Las, foto acima, dispensam comentários num dos vinhos mais espetaculares em termos de longevidade. A idade parece não chegar para essas crianças com aromas terciários incríveis e um equilíbrio de boca singular. Cada qual pode ter sua preferência, mas não vou fazer distinção entre eles, pois já provei vários de todos eles e sempre espetaculares. Para ficar em apenas três safras: 85, 88 e 90. A elegância e sutileza de aromas destes tintos, elevam a casta Syrah numa outra dimensão.

Por outro lado, os mitos Petrus e Romanée-Conti são vinhos difíceis na juventude, um tanto duros, sem muita conversa. Portanto, diante deles, só mesmo o tempo para lapidar essas joias e revelar todo seu esplendor. Muitas vezes, mais de vinte anos são necessários para todo esse processo. Some-se a isso, características especificas de safra que podem atenuar ou intensificar este período de maturação em garrafa. Lembrando do Mouton 1986, este é um caso clássico de difícil  amadurecimento por ser de uma safra de taninos extremamente potentes e de lenta evolução. 

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talvez o único que possa encarar o Petrus de frente!

Poderia escolhe inúmeros Bordeaux já degustados, mas preferi mostrar o Pomerol acima, o grande Lafleur. Vinho introspectivo como o rei Petrus e de lenta evolução. A destacada participação da Cabernet Franc confere elegância, mas a estrutura da Merlot com taninos poderosos lembra o rival maior. 90 é uma grande safra que está ainda em evolução. Precisa de pelo menos duas horas de decantação. Outras grandes safras brilham para este chateau como a mítica 82, 100 pontos inconteste.

Dentro da família DRC, o caso mais evidente e didático quanto à maturação e acessibilidade dos vinhos são os Grands Crus Echezeaux e Grands-Echezeaux. O primeiro, um tinto acessível, sensual, em qualquer idade que abri-lo, salvo características específicas de safra. Já o Grands-Echezeaux é um vinho duro, viril, completamente oposto à feminilidade de seu parceiro de vinhedo. Aqui, as questões de terroir falam mais alto, já que o produtor e a técnica de vinificação são os mesmos. Domaine de la Romanée-Conti possui as melhores localizações destes dois Grands Crus, onde os vinhedos estão muito próximos. Grands-Echezeaux fica na parte de cima do Grand Cru Clos Vougeot, fazendo divisa. As parcelas DRC de Echezeaux ficam imediatamente a norte de Grands-Echezeaux, praticamente coladas em sua divisa. No entanto, sutilezas de solos, relevo e inclinação do terreno, resultam em relevantes diferenças entre os vinhos. Só a Borgonha propicia este mistério. 

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Madeira: um vinho indestrutível!

De todos os fortificados portugueses, o Madeira impressiona pela extrema longevidade, quase imortalidade. O exemplo são os Madeiras do século XIX, foto acima, parecendo não ligar para o tempo. Aromas e sabores fantásticos e um equilíbrio perfeito em boca. Sobretudo o Terrantez, um dos Madeiras mais raros, é da categoria Frasqueira ou o equivalente a um Vintage. O vinho é de uma só colheita e passa pelo menos vinte anos em canteiros (estrutura de ripas que sustentam as pipas para não encostarem no chão), antes do engarrafamento. Este período extremo de oxidação, fazem destes vinhos algo quase imortal.

Na evolução em garrafa de grandes vinhos, o tempo, o silêncio e a escuridão da adega, fazem a transformação de algo incompleto, com arestas, e certa introspecção. Lentamente, os ácidos e álcoois do vinho em meio aquoso se transformam em ésteres, formando o chamado bouquet. Esta é uma transformação lenta e gradual, onde esses mesmos ésteres se decompõem em ácidos e álcoois, recomeçando o ciclo novamente. A não perturbação da garrafa neste longo período é fundamental para o bom andamento das etapas.

Por outro lado, os taninos conjuntamente iniciam um processo de polimerização, formando longas cadeias moleculares. Num determinado momento, por peso próprio esses taninos começam a precipitar-se formando os famosos depósitos, também chamado de borra. Daí, a necessidade de decantação de vinhos antigos, a fim de separar as partes sólidas do líquido límpido. 

Ficamos na França para elucidar o assunto deste artigo, mas a Europa de um modo geral, permite o mesmo raciocínio para outros vinhos e vinhedos, embora o arsenal francês em quantidade e qualidade dos grandes vinhos de guarda seja incomparável aos demais países.

 

 

Hermitages e os LaLaLas

29 de Setembro de 2018

Um dos tintos mais históricos da França, Hermitage ou Ermitage esculpido no granito em tinto e branco é um dos maiores vinhos de guarda na acepção da palavra. Já bem conhecido dos Romanos, era também apreciados pelos Tsars russos, na corte de Louis XIV, por Alexandre Dumas, e tantos outros.

Por sua incrível potência, fortificava os vinhos bordaleses do século dezoito com a expressão “hermitager”. Aliás, as duas grafias estão corretas. Ermitage, grafia original, foi modificada no século dezenove devida à intensa comercialização do vinho pelos ingleses, os quais apresentavam enorme dificuldade fonética em pronuncia-lo. Acrescentado o H, tudo ficou mais fácil para falar.

montagne hermitagecolina de Hermitage

O terroir de Hermitage tem muita similaridade com o Douro, região portuguesa do Vinho do Porto. Relevo extremamente montanhoso e íngreme em sub-solo granítico. Os rendimentos são muito baixos, gerando vinhos de enorme concentração onde a Syrah assume um caráter potente para os tintos.

Os brancos de Hermitage são elaborados com as uvas Marsanne e Roussanne, e são tão longevos quanto os tintos. A propósito, eles são até meio sem graça, se tomados jovens. Além de brancos e tintos, há um raro Vin de Paille, branco doce elaborado com uvas secadas em esteira, concentrando açúcares e sabores. Jean-Louis Chave em safras excepcionais, faz um raro Vin de Paille com menos de mil garrafas por safra, devido a ínfimos rendimentos pelo processo de elaboração.

Feitas as devidas considerações, vamos aos belos vinhos de um almoço, comemorando o aniversário de um querido confrade.

img_5136o ápice em Champagne

Felizmente, a confraria adotou o Dom Perignon P3 para abrir os trabalhos. Este 1970 já foi descrito recentemente, mas vale a pena comenta-lo de novo. Um champagne de longo trabalho em adega, ficando 25 anos sur lies (sob ação das leveduras). Isso lhe garante uma maciez e cremosidade incríveis, além de alta complexidade aromática. Aromas de pâtisserie, parecendo que estamos entrando numa confeitaria. Espetacular!

Chateau-Grillet: a sublimação da Viognier

O primeiro prato e a harmonização ficaram muito bons. Um spaghetti com molho de Botarga  (ovas de peixe), muito bem executado pelo Chef romano Marco Renzetti da Osteria del Pettirosso. O branco acima é um dos maiores clássicos franceses elaborado no Rhône-Norte. São vinhas de Viognier plantadas em solo extremamente escarpado de micaxisto. Um vinhedo histórico desde a época romana de apenas 3,5 hectares. Foi classificado como um dos cinco melhores vinhedos da França em termos de branco por Curnonsky, Princípe do Gastrônomos, no século passado.

Este 2001 degustado, não tinha sinais da idade. Um vinho fresco, brilhante, e de cor pouco evoluída. Os aromas são exóticos com toques minerais, de erva-doce, mel, e frutas delicadas. Em boca, macio, belo equilíbrio, e sabores tropicais como banana e jaca. O vinho estagia por 18 meses em barricas, as quais se integram perfeitamente ao conjunto. Um branco de exceção e exótico!

img_5144difícil bater esta dupla de Hermitages

Finalmente chegamos a eles, Hermitages nas duas grafias. Não foi exatamente nesta ordem, mas vamos comentar primeiro os Hermitages por uma questão didática. O La Chapelle 1990 impressionou pela potência e ótima conservação da garrafa. O vinho ficou cerca de cinco horas decantado, revelando-se a cada momento na taça. Uma força impressionante de aromas e taninos em profusão. Os toques defumados e de azeitonas foram se abrindo em meio a frutas escuras. Longa persistência e muita vida pela frente. Pelo menos, mais vinte anos com certeza. Previsão de auge para 2040, segundo Parker. Evidentemente, 100 pontos.

Agora o vinho da direita, foi um sério candidato a vinho do almoço, e o preferido de nosso aniversariante com toda a razão. Cuvée Cathelin é a cereja do bolo de mestre Jean-Louis Chave, referência absoluta na apelação Hermitage. Só é elaborado nas melhores safras dando preferência aos vinhedos de Les Bessards, um terroir dos mais respeitados dentro da apelação. Nesta cuvée, Chave utiliza uma porcentagem maior de barricas novas. Este 1990 é a primeira safra de Cathelin e já com 100 pontos. O vinho é de um requinte extremo com notas florais, de alcaçuz, geleia de frutas escuras, e uma harmonia em boca sem fim. Numa sintonia fina, é o Borgonha dos Hermitages, tal a delicadeza e sedosidade em boca. Uma maravilha para ser tomado no momento, embora sua longevidade vá até 2050. Um presente para todos!

bela harmonização

Encerrando os Hermitages, mais um 100 pontos, Chapoutier Le Pavillon 1990, talvez o melhor da história deste tinto. Um vinhedo de apenas quatro hectares de vinhas centenárias com baixíssimos rendimentos. Um tinto extremamente macio, a despeito de uma bela estrutura tânica  de textura extremamente sedosa. Os aromas de frutas e especiarias explodem na taça. Um perfil totalmente contrário ao La Chapelle de mesma safra, bem mais pronto e sedutor. A combinação com a Lingua (foto acima) do Chef Marco Renzetti foi espetacular em termos de textura e sabores.

Agora chega de MiMiMi, e vamos de LaLaLa, a Santíssima Trindade do mestre Guigal. Mudamos agora de apelação. Estamos em Côte-Rôtie, outra margem do rio Rhône mais ao norte. A uva continua Syrah, mas pode haver uma pitada de Viognier, a mesma branca do Chateau-Grillet. Guigal nesses vinhos consegue a magia de integrar 48 meses de barricas novas em vinhos extremamente complexos e de rara elegância.

img_5143200 pontos na mesa!

Este La Turque 1988 estava um negócio!. Um vinho pronto com todos os aromas terciários de um Côte-Rôtie. Trufas, caça, toques balsâmicos, especiarias, tudo muito harmonioso. Em boca, uma sedosidade e equilíbrio sem fim. Não tem como tirar ponto deste vinho. Notas 100 para ele em várias safras é o que não falta. Espetacular!. A combinação deste La Turque com risoto de funghi porcini fresco foi uma covardia (foto abaixo).

a cor de um Guigal de 30 anos!

Para varia, outro nota 100. Desta feita, La Landonne 1988 com esta cor linda da foto acima. Este é 100% Syrah, enquanto La Turque tem uma pitada de 7% de Viognier. Esta cor escura mesmo com 30 anos, deve-se à presença de óxido de ferro no terroir desta vinha na Côte Brune. Bem menos evoluído que o La Turque de mesma idade, além de taninos mais possantes. Previsão de auge para 2030.

mais 200 pontos na mesa!

O pessoal estava animado, e dá-lhe mais LaLaLa com dois vinhos teoricamente perfeitos, sobretudo o La Turque 1985. Na hierarquia dos 100 pontos, Parker coloca o La Turque 85 acima do 88. Degustando lado a lado os dois, percebemos que o 85 apesar de mais velho, está menos evoluído que o 88, com previsão de auge para 2030. Ele tem mais fruta e menos aromas terciários desenvolvidos, mas com certeza, será brilhante com mais alguns anos. O melhor La Turque de toda a história!

Agora o vinho da esquerda, La Mouline 2003 (não dá para ver a safra) foi o infanticídio do almoço. Muitos da mesa ficaram um pouco decepcionados com ele, mas o vinho ainda é muito novo. La Mouline é a cuvée com maior porcentagem de Viognier (11%), além das vinhas atingirem 75 anos de idade. É mais um nota 100 como todos os outros. Seus aromas são ricos em frutas e especiarias. Os aromas terciários ainda são pouco desenvolvidos e seus taninos precisam ser domados pelo tempo. Para quem tem paciência, será mais um grande La Mouline com toda a delicadeza que lhe é peculiar. O mais feminino da trilogia. Previsão de auge para 2030.

img_5142verdadeiros clássicos de Pessac-Léognan

Como a confraria é fiel aos bordaleses, não poderia faltar uma dupla como da foto acima dos eternos rivais e vizinhos de parede. Este La Mission 1982 estava um espetáculo sem nenhum sinal de decadência. Pelo contrário, taninos finos e abundantes, garantindo ainda uma bela guarda. Os aromas terrosos, de chocolate, couro, ervas, são maravilhosos e bem típicos de Graves. Pela potência e vigor, eu até o confundi com o brilhante Haut Brion 89, um nota 100 incontestável. Contudo, esta garrafa não era das melhores. Achei-o meio sem vigor, um pouco cansado, sem o esplendor do outras garrafas. Mesmo assim, um belo vinho, com aromas elegantes e boca harmoniosa. Fim de degustação para os tintos …

o lado doce de Bordeaux

Finalizando o almoço, uma dupla de Yquems separados por 34 anos. Como o almoço era nota 100, não podia faltar o Yquem 2001, uma das safras mais badaladas do novo milênio. Ainda muito jovem, mesmo na cor, mas com uma estrutura fabulosa. Untuoso, harmonioso, e um belo frescor dos grandes Yquems. Já seu parceiro de foto, um Yquem 1967 com rótulo prejudicado, mas um vinho inteiraço. Evidentemente, com todas as notas de um Yquem evoluído com 51 anos. Aromas de caramelo escuro, mel resinoso, e notas de pâtisserie. O Yquem 2001 parecia dizer ao companheiro: eu serei você amanhã!

cremosidade elegante

Acomapanhando os Yquems, duas ótimas sobremesas do Pettirosso, Panna Cotta com mel e o clássico Tiramisu. A cremosidade de ambas garante a harmonização com os vinhos por textura. Evidentemente, o Tiramisu com notas empireumáticas (café) conversa melhor com o Yquem 67. Já a Panna Cotta com este mel delicado, faz a ponte para os vibrantes e puros aromas do Yquem 2001. Belo fecho de refeição!.

Fico até sem palavras para os agradecimentos diante de tantos vinhos esplendorosos. Encontro memorável, bem à altura do aniversariante. Missão quase impossível para os próximos aniversários. Que Bacco nos proteja! Saúde a todos!

A linha Norte-Sul do Rhône

29 de Abril de 2018

Ao longo do rio Rhône em direção à Provence, as vinhas preenchem a paisagem moldada por uma topografia absolutamente distinta entre Norte e Sul. Enquanto a norte, as vinhas de Syrah se agarram em encostas extremamente acidentadas, os arbustos baixos de Grenache sobrevivem sob um sol impiedoso no Rhône-Sul, numa paisagem plana e cheio de pedras. O mapa abaixo mostra em seus contornos, este contraste topográfico. E esta separação é bem nítida. Entre Valence e Montélimar, praticamente não há vinhas, marcando definitivamente a diferença de paisagens.

rhone valley

44 km separam o norte do sul

Devidamente apresentadas as regiões, um grupo de amigos sedentos se deliciou com quinze garrafas da mais fina flor destas duas regiões. Tudo que uma Syrah  e uma Grenache podem pleitear em termos de complexidade, nós descreveremos abaixo numa viagem de Norte a Sul, ou melhor, de Sul a Norte.

IMG_4564.jpgnorte e sul, lado a lado

Pela foto acima, dá para perceber a cor esquisita do Ermitage branco do Guigal. Infelizmente, estava oxidado e foi a única baixa do painel. Uma pena, porque são vinhas Marsanne e Roussanne entre 50 e 90 anos de idade num terreno escarpado que não chega a dois hectares nas encostas do Rhône-Norte.

Em compensação, seu rival Beaucastel do Rhône-Sul, estava deslumbrante e muito bem conservado. Manteve ao longo do almoço aromas persistentes, alternando toques florais, amendoados, de marmelo, de figo, e marron-glacê. Um vinho exótico, fugindo um pouco dos onipresentes Chardonnays. O blend é baseado na uva Roussanne (80%), e o vinho amadurece parte com cubas, parte em madeira usada, para não encobrir a fruta. Bela prova de que os brancos do Rhône bem vinificados podem envelhecer e chegar a sua maioridade (dezoito aninhos). 

a cor engana …

E agora José? quem é o 89? quem é o 90?. Só um dos confrades, nosso Maestro, é que matou de cara a charada. Diga-se de passagem, ele estava insuportável nos palpites, como diria o tio Ronnie. Acertou tudo na degustação. Voltando aos vinhos, por incrível que pareça, a cor mais clara é do Rayas 1990. Falar de Chateau Rayas, é falar dos Borgonhas de Chateauneuf-du-Pape. Um chateau absolutamente diferenciado que trabalha exclusivamente com vinhas muito antigas de Grenache num terroir único, em meio a um bosque. Sua vinificação tradicional e pouco intervencionista, expressa toda a pureza  e identidade desta apelação com vinhos muito bem moldados, equilibrados, e de grande complexidade aromática. Este exemplar de 90 tem nota perfeita, 99/100 pontos consistentes. O vinho está pronto, delicioso, com toques terciários de tabaco, ervas finas, e notas de sous-bois. Já o Rayas 89, está surpreendentemente vivo, vibrante, e com taninos a resolver. A diferença de apenas um ano, não justifica o contraste de cores. Embora tenha só 97 pontos, altamente discutíveis, é um monstro de vinho com capacidade de envelhecer por mais alguns anos em adega. Seus taninos são finíssimos, mas poderosos, além de um poder de fruta extraordinário. Enfim, um começo de prova arrasador!

IMG_4565.jpgo vinho dos Papas!

Depois deste par esplêndido de Rayas, só mesmo o mago Henri Bonneau para manter o nível. E como na foto acima, para ombreá-los, só mesmo a cuvée especial de Beaucastel, Hommage a Jacques Perrin, produzida somente em anos especiais como 1990.

Falar de Henri Bonneau é falar sobretudo de um mito, mais ainda depois de sua morte recente em 2016. Seus vinhedos, seus métodos de vinificação, sempre em segredos e obscuros, assim como sua adega num velho porão, onde fungos habitam em perfeita harmonia entre as antigas barricas, fazem deste personagem uma verdadeira lenda. O mestre da Grenache!

Este Reserve des Celestins 1990 bem a esquerda da foto, é uma verdadeira poesia liquida. Seus aromas terciários são quase indescritíveis. Boca harmoniosa, taninos de seda, e um devaneio na expansão de boca. Definitivamente, não há como pontua-lo. Atingiu a plenitude!

Em sua Cuvée Spéciale 1990, vinho do meio na foto, é uma garrafa raríssima. Esta cuvée só foi produzida em 1990 e 1998, onde as uvas Grenache atingiram um grau de maturação impar, em anos especiais. Sua graduação alcoólica é de 16,5°, um tipo Amarone ou Port Like. Esta cuvée chega a ser mais exclusiva que sua Cuvée Marie Beurrier, homenagem à sua tia querida. Percebe-se que o vinho ainda não está pronto com uma cor densa e firme. Já muito prazeroso de ser tomado, tem taninos e estrutura para bons anos em adega. Seus aromas de alcaçuz são de livro. Um privilégio provar esta raridade!

Só mesmo um vinho de 100 pontos consistentes para ladear esta dupla de Henri Bonneau, o lendário Beaucastel Hommage a Jacques Perrin 1990. Um tinto com a marca do Chateau, e seus característicos toques de Brett dos mais finos bastidores do Jockey Club. Esta cuvée baseia-se na casta Mourvèdre (60%), Grenache (20%) e o restante de Syrah e Counoise. Isso permite enorme longevidade para o vinho, diante da destacada estrutura tânica proporcionada pela Mourvèdre. Seu estágio em toneis de carvalho não compromete a fruta, por se tratar de madeira usada. Na degustação, assumiu uma posição intermediária em termos de evolução. Embora já prazeroso, tem estrutura para pelo menos mais dez anos em adega. Uma verdadeira referência dos mais nobres vinhos desta apelação. 

IMG_4560.jpgjavali com ervilhas e cebolas glaceadas 

Para acompanhar essas maravilhas, alguns dos pratos do Bistrot Chef Rouge, como esta costeleta de javali, foto acima. Uma brandade de bacalhau acompanhou os brancos acima descritos.

IMG_4556.jpgCuvée da Capo

Fechando o Rhône-Sul, mais um 100 pontos do Domaine Pegau com sua magistral Cuvée da Capo 2003. Podemos dizer que foi o infanticídio do almoço, mas um tinto de grande futuro. Suas vinhas são baseadas no melhor setor de Chateauneuf, o terroir de la Crau e toda sua pedregosidade. Com um blend de 70% de Grenache, e o restante entre Cinsault, Syrah, e outras, o vinho amadurece em grandes toneis de carvalho usados durante dois anos, numa vinificação bem tradicional. Um tinto musculoso, cheio de taninos finos, e aromas provençais (ervas finas, especiarias, alcaçuz). A previsão de sua maturidade está para 2040. Deve ser obrigatoriamente decantado para ser bebido nesta fase.

Bom pessoal, metade dos quinze vinhos já foi. Tomando um fôlego, no próximo artigo a segunda parte com tintos do Rhône-Norte, tão espetaculares como estes acima comentados. Hermitages e os sonoros La, La, Las …

 

 

 

 

 

Brancos Franceses Geniais

16 de Novembro de 2017

No artigo anterior sobre tintos bordaleses, tivemos uma série de brancos notáveis que iniciaram o almoço, merecendo um artigo à parte não só pela diversidade, como também pela raridade dos mesmos. São produções diminutas, apelações muito específicas, fugindo do lugar comum.

Peço licença a meus confrades de mesa e copo para discorrer sobre o tema, pois são brancos muito especiais, a despeito do foco do almoço serem Bordeaux envelhecidos. Foi um preâmbulo magnifico! 

mani corton charlemagne leroy

alta costura em vinhos

Logo de cara, Domaine Leroy Corton-Charlemagne 2009, um vinho que temos acompanhado sua evolução em várias oportunidades. Sempre com muita fruta, muito frescor, encorpado, envolvente e de notável persistência aromática. Nesta garrafa especificamente, notei toques de evolução um tanto acentuados em relação a outras provas. Mantem sua riqueza aromática e equilíbrio, mas temo por um envelhecimento mais prolongado. Pode ser um problema de garrafa, embora as características da safra 2009 não sejam de longa guarda para os brancos. É uma safra precoce e exuberante em aromas. Só para se ter uma ideia da exclusividade, a produção nesta safra perfaz cerca de 1800 garrafas.    

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um dos tesouros de Guigal  

Junto com este Corton-Charlemagne foi servido um dos brancos de elite de Etienne Guigal, o Ermitage Ex-Voto 2010 com 100 pontos Parker. Este da mesma forma, já foi provado em outras oportunidades e continua exuberante. É um vinho de sabores e aromas exóticos que vai se abrindo pouco a pouco na taça. Os Hermitages costumam envelhecer bem, ganhando complexidade aromática com anos em garrafa. Belo corpo, muito bem equilibrado, e um final de muita harmonia. Mostra-se um belo vinho de guarda.

Vale a pena citarmos alguns dados deste grande vinho, pois muitas vezes ele pode passar desapercebido nas mesas por ser tão exótico e sutil. Senão vejamos, temos 1,8 hectares de vinhas, ou seja, o tamanho do vinhedo Romanée-Conti. Os vinhedos são penhascos escarpados e pedregosos com as uvas Marsanne e Roussanne com idades entre 50 e 90 anos. Consequentemente, rendimentos baixíssimos. O vinho além de ser fermentados em barricas novas, é posteriormente amadurecido nas mesmas por 30 meses. Essa é uma das magias nos vinhos de Guigal. Cadê a barrica no aroma e no sabor? Sensacional!    

mani montrachet bouchard 2009

produção de destaque na apelação

Em seguida, foi servida às cegas uma garrafa Magnum de Montrachet 2009 da família Bouchard Père & Fils. Proporcionalmente, não se trata de uma produção pequena, cerca de 0,89 hectares de vinhas. Embora seja uma apelação de elite, não está entre os mais reputados em termos de prestígio. Nomes como DRC, Ramonet, Lafon e Leflaive, estão no time de cima. Primeiramente, foi questionado se ele seria francês. Em seguida, sabendo que se tratava de um Borgonha, foi cogitada a apelação Chablis. Enfim, para um típico Montrachet faltou um pouco de personalidade. Além disso, seu corpo e persistência aromática estavam abaixo das expectativas para tanto. De todo modo, era um vinho muito equilibrado, delicado, e com um acentuado toque cítrico. O ponto positivo é que a garrafa estava muito bem conservada, mostrando cor pouco evoluída e muito frescor nos sabores. Os indícios permitem apostar em mais alguns anos de guarda.

o paradoxo em champagne    

Ainda teve espaço para um champagne. Nada mais, nada menos, que Jacques Selosse Substance, o mais polêmico de seus champagnes. Baseado no método Solera de Jerez, o vinho-base para sua elaboração parte de uma mistura de safras onde o que é sacado para uma determinada partida, é reposto nas barricas com vinho novo. No fundo, não tem tanta novidade assim, já que as melhores cuvées das casas de champagne têm grande proporção de vinhos de reserva, que nada mais são do que safras antigas de grandes anos.

mani crocante de palmito e pequi

crocante de lâminas de palmito assado com creme de pequi

As particularidades em sua concepção consiste em misturar cerca de 22% do vinho da safra ao vinho da Solera (mistura de safras). Como a Solera sofre uma micro-oxigenação nas barricas, o vinho adquire um certo sabor oxidado, semelhante ao Jerez Amontillado. Para ser mais preciso, puxa mais para o gosto de uma Manzanilla Pasada, o mais delicado dos Jerezes Finos com sutis toques oxidativos. A elegância deste champagne provem de dois terroirs em Avize, uma das comunas da Côte des Blancs. Portanto, estamos falando de um autêntico Blanc de Blancs, exclusivamente Chardonnay. Após a espumatização, o vinho permanece por volta de seis anos sur lies. É feito então o dégorgement e engarrafado com baixa dosagem de açúcar.

Para um champagne tão exótico, somente uma harmonização ousada como da foto acima do excelente restaurante Mani. Pequi não é algo fácil de se harmonizar, tem um gosto meio acre. Este gostinho com o sabor do champagne, casou perfeitamente. Além disso, a textura crocante do prato se juntou de forma muito agradável à delicadeza e borbulhas da taça. Uma harmonização de sutileza e sabores marcantes. Neste Substance percebemos ainda um champagne cheio vida, frescor, embora seus toques refinadamente oxidativos lhe confiram extrema personalidade. Sua secura final ressalta ainda mais sua altivez. Inesquecível harmonização!

mani ardbeg port charlotte

Islay em alto nível

A foto acima, já fora da mesa, é um momento de relaxamento com Puros e Malts de Islay. Um de nossos confrades, profundo conhecedor desse Malt cheio de personalidade, proporcionou um embate muito interessante e prazeroso envolvendo o clássico Ardbeg Ten Years Old e o delicioso Port Charlotte Heavily Peated. A escolha é difícil e muito pessoal. De todo modo, digamos que Port Charlotte tem um lado mais feminino, mais gracioso, onde os aromas de caramelo, baunilha e chocolate, se misturam magnificamente à turfa, proporcionando uma maciez notável. Este Malt é envelhecido por oito anos em barricas velhas de Cognac, o mais refinado destilado francês.

Ardbeg é mais vertical, mais austero, mantendo a força e personalidade de Islay com notas defumadas, toques cítricos e de frutas secas. Os barris ex-bourbon mantêm esse tom de rusticidade elegante.

mani ardbeg corryvreckan

puro prazer

Esta caixa de Cohiba Robusto é da loja Gérard Père et Fils na Suíça com uma seleção e conservação impecáveis. O Malt ao lado, é um dos mais diferenciados da magnifica destilaria Ardbeg, conseguindo ainda ser mais complexo, elegante, sem perder a firmeza de caráter de um dos melhores Malts de toda a Escócia.  O envelhecimento em barricas francesas é um dos segredos deste belo Malt, dando-lhe um toque de sofisticação.  

Agora sim, o encontro está totalmente documentado. Agradecendo uma vez mais a companhia e generosidade de todos os confrades. Saúde a todos!

Franceses na Berlinda

25 de Março de 2017

Vez por outra é bom confrontarmos grandes vinhos lado a lado, sobretudo se os mesmos têm armas à altura para uma boa briga. Foi o que ocorreu em recente almoço no restaurante DOM num desfile de belos franceses. A disputa ocorreu com várias duplas, iniciando com borgonhas brancos de tirar o fôlego.

dom leflaive e leroy

as grandes damas da Borgonha

A principio, um embate sem perdedores. Trata-se de domaines irrepreensíveis, utilizando em seus respectivos vinhedos a filosofia biodinâmica. Contudo, Madame Leroy levou fácil esta primeira disputa. Infelizmente, a garrafa do Chevalier-Montrachet estava prejudicada, mostrando uma evolução muito exagerada para sua idade. Não chegava a ser um vinho oxidado, mas os aromas de butterscotch eram bem evidentes. Na fermentação malolática, comum em Chardonnays da Borgonha fermentados em barrica, pode ocorrer esta oxidação precoce pela produção de diacetil advinda de bactérias lácteas. Voltando ao vinho, seus aromas estavam prejudicados e sua persistência aromática, bem abaixo do que se espera para um vinho deste quilate.

Vale lembrar que recentemente, comentamos um Batard-Montrachet 2005 Domaine Leflaive que estava divino, ratificando os grandes brancos desta Madame nota 10.

dom leroy corton charlemagne

isto é exclusividade

Em compensação, o Corton-Charlemagne de Madame Leroy era algo de sensacional. A concentração, a finesse, o equilíbrio, e seu final bem acabado, é qualquer coisa dos Deuses. Sua persistência em boca supera fácil os dez segundos. Além disso, um privilégio beber a garrafa nº 285 das 1845 produzidas nesta bela safra de 2009.

dom mouton e haut brion

safra acima de qualquer suspeita

Mais um embate díspar, embora tratando-se de dois Premier Grand Cru Classé. Lamentavelmente, Mouton nesta incrível safra não se deu bem. É um dos vinhos mais polêmicos, inclusive na pontuação de Mr. Parker. De fato, o vinho não tem uma concentração esperada para o Chateau e para a safra. Contudo, a garrafa estava perfeita, mostrando a incrível força dos Bordeaux em superar décadas, mesmo para safras problemáticas e pontuais para este Chateau em questão.

Do lado do Haut Brion, uma maravilha. Talvez seja o Chateau mais consistente depois do todo poderoso Latour. Tipicidade à toda prova, seus toques animais, de estrebaria, ervas finas e cedar box emblemático dos grandes Bordeaux. Para muitos, foi o vinho do almoço. De certa forma, não tem como discordar.

dom la landonne 2005dom cuvee cathelin 90

briga de gigantes

Neste embate, as coisas ficaram pau a pau. É claro que o cuvée Cathelin 1990 estava muito mais prazeroso pelo momento de evolução. O Landonne 2005 do mestre Guigal é ainda um feto. Porém, estamos diante de duas obras-primas do Rhône. Este cuvée Cathelin 1990 marca o ínicio de um dos maioires Hermitages já produzidos. Jean Louis Chave por si só, já é um grande Hermitage. O grande diferencial de seus vinhos reside na conjunção de vários terroirs famosos desta mítica colina granítica. O pulo do gato desta cuvée vem do fato da maioria do vinho proceder do lieu-dit Les Bessards, um dos mais famosos terroirs de Hermitage. A média de idade das vinhas atinge 50 anos. Chave procura não passar de 20% de madeira nova no amadurecimento de seus tintos para não mascarar sua mineralidade e tipicidade. Um vinho fantástico, com taninos ultra finos, mineralidade, e um toque canforado. Seu equilíbrio e persistência são superlativos. Outro ponto notável, é como ele consegue domar esta montanha de taninos com tanta graciosidade.

Do outro lado, La Landonne não deixou por menos. Um monstro engarrafado. Com uvas 100% Syrah, seu solo argilo-calcário de subsolo granítico é rico em óxido de ferro, fornecendo uma pronunciada cor escura e compacta em seus vinhos, sobretudo quando novos. Seu amadurecimento de 40 meses em carvalho novo nem de longe é percebido nos aromas e sabores. Um vinho denso, absurdamente estruturado, e de um equilíbrio monumental. Precisa de pelo menos três horas de decantação. Não sei se vale 100 pontos, mas é difícil ver defeitos neste grande tinto.

dom cuvee cathelin duas garrafas

momentos diferentes de evolução

Para terminar a brincadeira, tínhamos outra garrafa do mesmo cuvée Cathelin 1990, conforme numeração da foto acima. Mais uma vez confirmando o ditado: “em safras antigas o que vale são as grandes garrafas”. Aqui, o negócio pegou fogo. Uma discussão interminável pela preferência dos convivas. Opiniões à parte, me permito opinar por um parecer técnico. Uma das garrafas estava mais prazerosa. Sua evolução estava mais adiantada, desabrochando mais aromas  e um equilíbrio em boca mais harmônico. A outra, um pouco mais fechada, e com uma acidez mais evidente. Estas constatações foram confirmadas pelo exame visual dos vinhos. Na garrafa mais evoluída, o halo aquoso envolvendo a borda na taça inclinada (unha do vinho) era mais evidente, confirmando sua evolução mais adiantada. Por outro lado, podemos supor que a garrafa menos evoluída foi melhor conservada e portanto, tendo um potencial maior de evolução. Dilemas que o vinho nos prega, só podendo ser confirmados com o tempo.

dom mousse de cogumelos caramelo de cebola arroz crocantedom arroz de galinha barriga de porco e taiobadom paleta de cordeiro farofa e batatas

comidinhas do almoço

Dentre os vários pratos do almoço, podemos destacar a mousse de cogumelos e mini arroz crocante combinando bem com o evoluído Mouton 90, inclusive na textura, foto à esquerda. Em seguida, o arroz de galinha com barriga de porco e taioba foi muito bem com o Haut Brion e seus aromas evoluídos. Por fim, a paleta de cordeiro com farofa e batatas foi muito bem com o La Landonne 2005. A fibrosidade e suculência da carne domaram bem a rica estrutura tânica do vinho. 

Mais uma vez, meus agradecimentos aos amigos pela companhia e por poder compartilhar essas experiências. Afinal, são esses momentos que fazem a vida valer a pena. Abraço a todos e aquele puxão de orelha habitual aos ausentes.

Bordeaux e outros grandes 85 – Parte I

22 de Dezembro de 2016

A ideia de reunir grandes tintos da safra 1985 surgiu em muitas comparações quando foram confrontados lado a lado alguns belos bordaleses safras 82 e 85 em degustações verticais memoráveis ao longo do ano. É claro que os míticos 1982 têm seu lugar cativo, pois trata-se de uma das maiores safras do século passado. Entretanto, embora os 85 não tendo a mesma potência dos gloriosos 82, guardam um equilíbrio fantástico, são sedutores, e continuam em grande forma.

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as joias da safra 1985

Nesta última degustação do ano, resolvemos perfila-los numa seleção do que há de melhor na elite dos Bordeaux. Mais que isso, foram pinçados outros grandes 85 de regiões diversas, pois esta safra brilhou em várias denominações de origem prestigiadas. Assim, participaram Bourgogne, Piemonte, Toscana e Douro.

Divididos em grupos, vamos a seguir lembra-los, já começando com um trio arrasador. Num flight sem comparativos entre si, valeu a individualidade e a tipicidade confirmada por cada um. Afinal, trata-se de grandes produtores, referências em suas respectivas denominações de origem.

safra-85-trio-outros

italianos abraçando um português

Difícil começar por um, mas vamos lá. Sassicaia 85 é algo diferente já entre os demais Sassicaias. O rei dos supertoscanos nesta safra tornou-se imortal. Encorpado, equilíbrio fantástico, aromas que vão do chocolate, tabaco, até uma profusão de ervas como tomilho e sálvia, marcando a tipicidade italiana. Seu concorrente piemontês, Aldo Conterno Granbussia, numa elegância impar. Um Barolo de grande refinamento, mostrando que a Nebbiolo pode moldar vinhos tão elegantes quanto os mais finos borgonhas. Delicadeza e equilíbrio fantásticos. Barca Velha, a obra-prima de Fernando Nicolau de Almeida, colocando o Douro no mapa-múndi dos grandes vinhos. Cheio de vida, taninos presentes e muito finos. Os toques balsâmicos, ervas, e frutas em compota, permearam seus aromas. Ainda com bons anos pela frente.

safra-85-rhone-bordeaux

Guigal iniciando os bordaleses

Como tínhamos somente dois tintos do Rhône, resolvemos juntá-los a um par de bordaleses que respeitassem sua elegância. Os La-La-La, como são conhecidas as joias do produtor Guigal, trata-se de um triunvirato do mais alto nível da apelação Côte-Rôtie, norte do Rhône. La Landonne, mostra toda a elegância da Syrah neste solo granítico e escarpado. Muito sedoso, aromas balsâmicos com toques de incenso. Extremamente longo e harmonioso. La Turque, o macho da dupla, é cheio de virilidade, taninos mais presentes, uma certa austeridade, mas igualmente delicioso. Difícil pontua-los e compara-los em preferencia. Com toda essa delicadeza, entra em cena o Borgonha de Pauillac, o majestoso Lafite. Notas balsâmicas, especiarias delicadas, ervas finas, e o toque de tabaco característico da comuna. Bela evolução, mas com muita vida pela frente. Finalizando, o exclusivíssimo Le Pin, Pomerol de alto coturno. Mais denso que os demais, porém mantendo a suavidade do flight. Os toques de ameixa escura, chocolate, e um certo terroso, marcam seus aromas. Persistente e em plena forma.

Em meio aos flights, vários pratos preparados pelo assador Renzo Garibaldi, especialista em carnes dry aged, longamente maturadas, como da foto abaixo. 

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maturação de um ano

safra-85-borgonha

Clos de Tart ladeado por DRC

Chegando ao terceiro flight, temos um “intruso” no meio dos DRCs. Não é fácil colocar um vinho nesta situação, sem humilha-lo, pois a comparação é cruel. Contudo, Clos de Tart se portou altivo, respeitando sua vizinhança, mas impondo-se como um dos maiores entre os tintos da Côte de Nuits. De história tão antiga quanto o ilustre Romanée-Conti, Clos de Tart é o maior monopólio individual entre os Grands Crus da Borgonha. Extremamente longevo, nesta safra já se mostra acessível com seus lindos toques de cerejas escuras, violetas, especiarias e um mineral impressionante. O primeiro DRC, Romanée-St-Vivant, estava gracioso com seus toques florais, ervas, especiarias, muito macio e resolvido em boca. Safra prazerosa e num ótimo momento para ser apreciado. Por fim, a estrela do flight, o suntuoso La Tâche. Que imponência, que estrutura, que equilíbrio! O que é isso? Hugh Johnson já disse: “um dos maiores vinhedos sobre a Terra”.

Próximo artigo, os grandes Bordeaux, razão maior desta degustação, e outras preciosidades after dinner. Aguardem!

A busca pela caixa perfeita

30 de Julho de 2012

Todos nós ao longo dos anos, temos oportunidade de provar vinhos únicos, vinhos que se diferenciam dos demais por apresentarem equilíbrio notável, aromas e sabores raros, persistência aromática acima da média, e principalmente por serem provados na hora certa, no lugar certo e com as pessoas certas. São momentos mágicos e frequentemente nos pegam de surpresa. Geralmente, quando criamos espectativas superlativas, esses momentos não acontecem, ao contrário, é quando estamos desprevenidos que os grandes vinhos revelam-se.

Passados pouco mais de vinte e cinco anos em degustações, começo a pensar na caixa perfeita, aquelas doze garrafas que marcaram para sempre a memória gustativa, nomes muitas vezes relevantes que conquistaram respeito e prestígio não por acaso, mas fruto de um terroir diferenciado que é manifestado em vinhos singulares. Evidentemente, não são garrafas vitalícias, insubstituíveis, mas que pelo menos momentaneamente devem ser lembradas e descritas.

Caixa do Século: Wine Spectator

Este tema já foi explicitado recentemente com a famosa caixa do século XX da Wine Spectator. São vinhos e escolhas respeitáveis, mas muitos deles, não tive oportunidade de degustar, sobretudo as safras específicas. Dentro deste contexto, cada qual pode montar sua caixa, levando em conta experiência e gosto pessoais. Sendo assim, aqui vai a minha até o presente momento. Numa escala de pontuação pessoal, são todos vinhos entre 96 e 100 pontos, intervalo próximo à perfeição. Vide artigo neste blog: Critérios de Pontuação.

  1. Angelo Gaja dos seus três magníficos vinhedos (Costa Russi, Sori Tildin e Sori San Lorenzo). Qualquer um dos três em inúmeras safras são vinhos irrepreensíveis. Lembro-me da frase um grande degustador francófico: “Esses vinhos são tão bons, que nem parecem italianos”.
  2. Etienne Guigal Côte Rôtie de um de seus três vinhedos mágicos (La Landonne, La Moline e La Turque). São vinhos que conquistaram inúmeras vezes os cem pontos de Parker. Apesar de mais de quarenta meses em carvalho, o equilíbrio e finesse são notáveis.
  3. Chateau Mouton-Rothschild 1982. Já provei vários 82 de peso, mas este é para beber de joelhos. Como ainda não provei o 1945, fico com esta safra que alia potência e finesse no mais alto nível.
  4. Chateau Margaux 1983. Safra particularmente especial para a comuna, suplantando inclusive a própria safra de 82. Soberbo, misterioso e com muita vida pela frente.
  5. Porto Taylor´s Vintage 1994. Em todas as oportunidades, um completo infantícidio. Contudo, não estarei vivo para ver seu esplendor. Quem sabe, amparado por uma bengala.
  6. Domaine Trimbach Riesling Clos Sainte-Hune. A perfeição em Riesling no estilo seco, absolutamente mineral. Tenha paciência em guardá-lo e estará diante de uma obra-prima.
  7. Champagne Salon ou Krug Clos de Mesnil. Aqui existe um empate técnico. No fotochart, Salon por uma cabeça. Para quem gosta do estilo Blanc de Blancs, não há nada perto dessas maravillhas.
  8. Vega-Sicilia Unico safra 1970. Degustado com consistência em duas oportunidades e épocas bem distintas. Continua uma maravilha, fazendo deste mito o maior tinto da Espanha.
  9. Williams Selyem Russian River Pinot Noir. Enfim, um representante do Novo Mundo. Não é o melhor Pinot Noir do mundo, mas engana qualquer aficionado pela Borgonha no mais alto nível.
  10. Henri Jayer Cros Parantoux 1988. Degustado recentemente, conseguiu aliar delicadeza e personalidade sem que o tempo suplantesse seu frescor. Uma maravilha!
  11. Hermitage Paul Jaboulet Aîné La Chapelle 1990. Com todo respeito a Jean-Louis Chave, ainda não provei um Hermitage com a grandiosidade de La Chapelle. Um vinho monumental, com uma estrutura tânica invejável e extremamente longevo.
  12. Domaine Huet Vouvray Le Clos du Bourg Première Trie. Aqui está a delicadeza levada ao extremo. Chenin Blanc de rara pureza, aparentemente frágil, mas com uma estrutura e longevidade inacreditáveis. Além de Le Clos du Bourg, seus outros dois vinhedos são impecáveis: Le Haut-Lieu e Le Mont.

Revelados os personagens, inúmeras injustiças, faltas, esquecimentos e principalmente, dúvidas. Certamente, não é a caixa perfeita, mas são vinhos jamais indiferentes, que passam desapercebidos. São vinhos que tocam, mesmos os mais insensíveis.

Vale do Rhône: Parte IV

14 de Maio de 2012

Finalizando o chamado Rhône do Norte, vamos falar das demais apelações, além das já mencionadas Côte-Rôtie e Hermitage. Podemos começar por duas alternativas ao grande Hermitage: Crozes-Hermitage e Cornas.

Crozes-Hermitage

As uvas permitidas são as mesmas do Hermitage, tanto para tintos, como para brancos. Contudo, as diferenças de solo, altitude e exposição do terreno, podem ser quase abissais. É só comparar os 130 hectares de Hermitage contra 1500 hectares de Crozes-Hermitage que cercam os vinhedos de Hermitage. Mais uma vez, o produtor é fundamental. Alguns nomes certeiros: Alain Graillot da importadora Mistral em primeiro lugar. Chapoutier da mesma importadora, e Yann Chave da importadora Cellar (www.cellar-af.com.br) são escolhas confiáveis.

Cornas

No sul do Rhône Setentrional, logo abaixo da apelação Saint-Joseph, encontramos um terroir diferenciado, num amplo anfiteatro de excelente exposição solar e totalmente protegido dos ventos. Não é à toa que Cornas significa “terra queimada”. Elaborado exclusivamente con Syrah, esta apelação de 130 hectares  é considerada maldosamente como “Hermitage dos pobres”. Tem lá uma certa rusticidade, mas é um tinto musculoso, longevo e impactante, por um preço bem mais acessível que seu primo rico.

Produtores como Domaine Clape da importadora Mistral, é o primeiro nome da lista. Jaboulet também da Mistral e Colombo da importadora Decanter (www.decanter.com.br) são belas referências.

Rhône Setentrional

Saint-Joseph

No mapa acima, percebemos uma vasta área referente à apelação Saint-Joseph. Esta seria a resposta a um Côte-Rôtie mais acessível, também baseada na uva Syrah, embora seja permitida a adição em até 10% das brancas Marsanne ou Roussanne. O grande problema é que esta área foi aumentada em demasia, perdendo muitas vezes, o verdadeiro conceito de terroir, com vinhos diluídos e descaracterizados. Para se ter uma idéia, a área original em torno de Mauves e Tournon não passava de 100 hectares. Atualmente, temos pouco mais de 1200 hectares. Portanto, a escolha do produtor e consequentemente os melhores locais, é fundamental para o sucesso da compra. Aqui no Brasil, fique com os produtores Chapoutier e Jaboulet, ambos da Mistral (www.mistral.com.br). Os brancos desta apelação, embora mais raros, costumam ser gratas surpresas.

Condrieu

Uma apelação exclusivamente de branco elaborada com a perfumada e exótica uva Viognier. Nos anos 60 esta apelação beirou a extinção com apenas 12 hectares. Nas últimas décadas, houve um renascimento da casta, contando atualmente com algo perto de 170 hectares.

Reparem que no mapa acima, ao norte, a apelação confunde-se com Côte-Rôtie e ao sul, observamos trechos descontínuos na apelação Saint-Joseph. Os locais mais frescos e com forte presença de mica no solo xistoso é fator determinante para o bom cultivo da Viognier, casta que exige além de tudo, baixos rendimentos. Dentro da apelação, existe um terroir diferenciado chamado Château-Grillet. Propriedade de apenas 3,8 hectares com apelação de origem exclusiva, mostrando um Viognier diferenciado, além de amadurecido em carvalho. Para a apelação Condrieu, produtores como Guigal, Jaboulet, Delas e Vernay, são referências da apelação. Domaine Georges Vernay e Delas Frèresm são encontrados na importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br), enquanto Guigal é trazido pela Expand (www.expand.com.br) e Jaboulet pela Mistral (www.mistral.com.br).

Vale do Rhône: Parte II

7 de Maio de 2012

Nesta segunda parte, vamos começar detalhar o chamado Rhône do Norte com duas apelações fantásticas: Côte-Rôtie e Hermitage. Outras serão mencionadas e comentadas, mas nada se compara a estes dois grandes vinhos baseados na casta Syrah.

As dramáticas encostas da Côte-Rôtie

Quando o rio Rhône caminha em território francês na direção norte sul passando pela cidade de Vienne, temos a oeste uma série de encostas de origem granítica extremamente íngremes. Aqui começa a famosa apelação Côte-Rôtie. Literalmente, encosta tostada, devido à perfeita incidência solar em relação à inclinação da montanha.

Côte-Rôtie

Apelação de 230 hectares em solos de xisto com base granítica. O relevo acidentado apresenta altitudes entre 180 e 325 metros com declividades muitas vezes acima de 60%. A uva dominante é a Syrah com permissão de no máximo 20% da branca local Viognier. Na prática, ou é 100% Syrah, ou 5 a 10% da exótica branca.

Dois terroirs famosos são denominados Côte de Brune e Côte de Blonde. O primeiro, com um solo argiloso mais escuro devido à presença de óxido de ferro. O segundo, de solo mais claro com presença de calcário e sílica.

São vinhos elegantes, estruturados e longevos. Em comparação com o rival Hermitage, é considerado um vinho feminino pela sutileza de seus aromas e sedosidade em boca.

Eis a trilogia dos cem pontos

Produtores de destaque: Étienne Guigal, sobretudo pelas três pérolas acima: Côte-Rôtie La Turque, La Mouline e La Landonne. Estão seguramente entre os melhores de toda a França e consequentemente, do mundo. Outro grande produtor é  René Rostaing, importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br). Já o produtor Vidal-Fleury é trazido pela Vinea (www.vinea.com.br).


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