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Syrah: A joia lapidada no granito

1 de Maio de 2018

No chamado Rhône-Norte, a Syrah encontra seu verdadeiro terroir em sub-solo granítico. Nas encostas escarpadas da Côte-Rôtie, sua primeira expressão de um Syrah profundo e de extrema delicadeza. Mais abaixo, onde o Rhône faz uma curva abrupta, as vinhas se voltam a leste na Montagne de Hermitage. Dois terroirs distintos, mas absolutamente magníficos, conforme mapa abaixo.

o granito e a Syrah

montagne hermitage

a imponente Montagne de Hermitage

A Montanha acima se divide em vários lieux-dits (climats), como Bessards, Méal, Greffieux, Rocoules, entre outros, formando solos  e exposições diferenciadas, onde a conjunção desses vários climats dão a complexidade dos grandes Hermitages.

hermitage lieux dits

os vários climats de Hermitage

A cuvée La Chapelle de Paul Jaboulet possui quatro lieux-dits (Bessards, Méal, Greuffieux, e Rocoules) com vinhas entre 40 e 60 anos em média. Sua primeira safra foi no ano de 1919. Os rendimentos são de 10 a 15 hl/ha, rendimentos de Yquem, e o vinho passa em barricas de carvalho, sendo no máximo, 20 % novas. O climat Bessards fornece estrutura e longevidade ao vinho, por exemplo.

O Hermitage Chave possui nove lieux-dits, o que confere uma complexidade ainda maior, considerado pelos puristas, o melhor Hermitage de toda a apelação. São 10 hectares de vinhas com média de idade de 50 anos. O vinho amadurece por 18 meses em barricas de carvalho com no máximo, de 10 a 20% de madeira nova. Deve ser sempre decantado por no mínimo uma hora. Seus aromas são muito redutivos.

rhone norte mapa

Hermitage, Côte-Rôtie, e Cornas

O nome Hermitage ganha o H na grafia quando o vinho começa fazer sucesso com os ingleses no século dezenove por uma questão fonética. A pronúncia fica bem mais fácil. Alguns mais tradicionais, fazem questão de conservar o nome Ermitage sem H.

cornas vignobles

Cornas: Vignobles

O terroir acima encontra-se na margem oposto de Hermitage com maior exposição solar, e vinhos mais corpulentos, mais tânicos. Normalmente, não apresentam a finesse de um grande Hermitage, mas envelhecem muito bem. Auguste Clape é o mestre nesta apelação com vinhos complexos e de longa guarda. Suas vinhas têm idade média entre 30 e 60 anos em solo granítico. O vinho passa 22 meses em toneis grandes de carvalho usado, no intuito de não marca-lo com a madeira.

IMG_4567.jpgtrilogia perfeita!

O Hermitage La Chapelle 1982 é um deslumbre. Aromas de frutas compotadas, alcaçuz, e um fino defumado, lembrando carne grelhada. Está delicioso, embora sem qualquer sinal de decadência.

O Cornas Clape 2006 ainda é um bebê. Taninos potentes, muito finos, e uma estrutura portentosa. Deve ser imperativamente decantado. Seus aromas de azeitonas negras e destacado defumado, marcam um terroir potente e de grande tipicidade.

O Hermitage Chave 1990 é o tinto mais enigmático. Percebe-se claramente toda sua finesse, mas ele reluta em se mostrar totalmente. Um toque mineral intrigante, muita fruta madura, mas com frescor, quase uma framboesa. Equilíbrio fantástico, e persistência muito longa. É sem dúvida nenhuma no momento, o mais tímido do painel.

guigal la turqueGuigal: La Turque

Agora aqui tudo muda, estamos no terroir Côte-Rôtie, a finesse extrema da Syrah. E quando falamos da trilogia mágica de Guigal com seus três La, La, Las,  tudo fica amplificado. Difícil eleger o melhor, o mais complexo, o mais sedutor.

Neste terroir, as inclinações de terreno pode chegar a 60° graus em sub-solo granítico e solos metamórficos de micaxistos. A chamada Côte Brune possui óxido de ferro em sua composição, tornando os vinhos mais escuros e viris. Já a chamada Côte Blonde, apresenta um perfil mais calcário, dando elegância aos vinhos.

IMG_4566.jpga escolha de Sofia …

O primeiro à esquerda, La Mouline 1981, é teoricamente o mais fraco em termos de safra, mas para esta trilogia a equação é bem complexa. Por estar mais pronto e ser o mais delicado devido à alta porcentagem de Viognier (11% de uvas brancas), o vinho estava extremamente sedutor com toques terciários fantásticos. Não tinha uma persistência tão longa, mais seu final de boca e acabamento eram  arrebatadores. 

La Turque 1985, 100 pontos, com uma pontinha de Viognier no blend, outro vinho sedutor, mas ainda com alguns detalhes a resolver. Taninos finíssimos e de grande profundidade. Deve ainda melhorar, mas pode perfeitamente ser apreciado com grande prazer. Um toque de virilidade evidente.

La Landonne 1985, 100 pontos, 100% Syrah. Vinho musculoso dentro da apelação Côte-Rôtie. Taninos presentes e de textura ímpar. Ainda um pouco fechado, mas de uma complexidade fora do comum. Mais uns cinco anos talvez, e estará em sua plenitude.

IMG_4562.jpgmais um dos pratos do Chef Rouge

O prato acima, o clássico Steak au Poivre, incitou as especiarias do vinho, embora sua força possa ter encobrido as nuances de vinhos tão finos. De todo modo, os mais tânicos, sobretudo Chave e Cornas, deram as mãos com a suculência do prato.

IMG_4568.jpgo vinho que silenciou almoço

O rótulo acima deu o que falar. Um Hermitage 1964 de Paul Jaboulet de grande safra, sem a menção La Chapelle. Tentei pesquisar ao máximo, o porquê desta não menção, mas não tive uma resposta adequada. O fato é que o vinho estava magnífico, lembrando muito o perfil do La Chapelle 1982, mas com mais complexidade e expansão. 

O La Chapelle 1964 foi degustado por Parker em 2000, e foi pontuado com nota 94. Um vinho considerado maduro, e uma das melhores safras de La Chapelle. E realmente, estava deslumbrante, à altura do grande sommelier Manoel Beato, presente no evento, com a safra de seu nascimento. Um final de almoço memorável!

Como sempre, é difícil encerrar artigos como este. Vinhos deslumbrantes, companhia das mais agradáveis, além de pessoas altamente capacitadas neste tipo de evento. O redator, humildemente agradece mais uma vez a oportunidade, desejando vida longa aos confrades. Que Bacco nos proteja sempre!

Pratos e Vinhos: Parte I

5 de Janeiro de 2017

A comida sempre ligada ao vinho é uma busca constante dos enófilos que dão importância à enogastronomia, posto que comer é uma necessidade física, mas ter prazer à mesa é outra conversa. Fora isso, como dividir algumas garrafas com amigos sem ter nada no estômago?. Daí, a necessidade de por a cabeça para funcionar e tentar nos surpreender neste desafio difícil, de opiniões diversas, mas sempre prazeroso. Mesmo para aquelas harmonizações mais óbvias, o ponto certo da comida e o estágio de evolução de um determinado vinho a principio correto, pode não dar certo na prática.

Entradas

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frutos do mar e massa recheada

Nestes dois exemplos, um mesmo vinho branco irá escolta-los. Trata-se de um Meursault do produtor Michel Bouzereau. Apesar de comunal, trata-se de um Lieu-dit chamado Le Limozin, ou seja, um Meursault de vinhedo. São apenas quatro mil metros de vinhas plantadas nos anos 60 e 80. O vinho passa um ano em barricas, sendo 25% novas. A fruta é vibrante, bem casada com a madeira quase imperceptível. A textura não é tão densa como de outros Meursaults, o que ajuda na harmonização. Muito equilibrado, ótimo meio de boca, e final bem acabado. Importadora Cellar (www.cellar-af.com.br).

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Meursault para conhecedores

A combinação com a salada de frutos do mar ficou muito interessante, pois a textura mais delgada deste Meursault especificamente, promovia um respeito ao corpo do prato. Além disso, os frutos do mar e o molho levemente picante, aguçava no vinho sua mineralidade e seu lado mais delicado. Já com a massa, recheada de queijo e ricota, mostrava textura ainda compatível com o vinho. Tanto a gordura do queijo, como do azeite, eram contrapostas pela bela acidez do vinho. Uma certa neutralidade do prato em termos de sabor, mostrava todo o lado frutado do vinho, inclusive um sutil toque amanteigado. Em suma, vinho e pratos em harmonia.

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salmão defumado

Salmão defumado, um prato ótimo para o verão, mas com muita personalidade, ou seja, apesar de leve, seu sabor é marcante, capaz de dizimar muito mais vinhos do que se imagina. A dupla de vinhos abaixo, fez o duelo com o prato. O australiano de Adelaide Hills é famoso por seu Sauvignon Blanc num país dominado pelas Chardonnay e Sémillon. Com leve passagem por madeira, seu corpo estava um pouco acima do prato, embora sem comprometimento. O maior problema foi a falta de acidez que o prato exigia, e um excesso de fruta que não tinha sintonia com o salmão defumado. Já o Sauvignon Blanc do sudoeste francês, região de Gaillac, mostrou uma certa neutralidade de fruta com um cítrico mais austero. Além disso, sua bela acidez e mineralidade combateram bem o lado de maresia do prato.

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Austrália x Sudoeste Francês

Estilos diferentes de Sauvignon Blanc. O primeiro (australiano) com mais textura, mais macio em boca, e bem equilibrado. O segundo (francês), mais delgado, mais incisivo, mais cítrico e mineral nos aromas. Propostas diferentes e ambos interessantes.

Pratos de Resistência

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steak au poivre vert

Um clássico francês com várias versões e alternativas. Particularmente, gosto com pimenta verde e flambado no Cognac ou brandy. O filé mignon ao ponto e textura macia. A pimenta dá o sabor e intensidade ao prato, enquanto o creme de leite fresco fornece textura e um certo abrandamento ao ardor da pimenta. Aqui, precisamos de um vinho tinto com sabores intensos e sintonizados com a pimenta. Uma dose de acidez é fundamental para combater a ardência do prato. Os taninos podem ser relativamente dóceis, já que a textura da carne é macia. Um bom Syrah é uma das melhores opções. De clima frio, seria o ideal.

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Screaming Eagle está por trás

A vinícola Jonata ligada à sofisticada e consagrada Screaming Eagle, uma das boutiques mais famosas do Napa Valley, faz este Syrah no frio vale de Santa Ynez (Central Coast), região costeira e montanhosa ao sul da Califórnia. O clima guarda um frescor importante para uvas, proporcionando vinhos frescos e de acidez agradável. Este da safra 2006 tem uma pitada de 2% de Viognier no corte, lembrando o mesmo critério de alguns Côte-Rôtie. Passa em madeira francesa, sendo 50% nova.

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chocolate ao extremo

O vinho exibe uma cor intensa, jovem, apesar de seus dez anos de vida. Os aromas concentrados de frutas escuras em geleia são notáveis, além de especiarias, chocolate, e toques defumados. Belo corpo, equilíbrio perfeito e taninos ultra polidos. Persistente e intenso. Além de acompanhar bem o steak au poivre, foi muito bem com o chocolate acima, 99% cacau. Nesta porcentagem, a presença de cacau e a total falta de açúcar crescem em escala exponencial. O chocolate além de manter toda a fruta do vinho, ressalta em muito sua mineralidade. Combinação que vale a pena fazer.

Próximo artigo, mais pratos e vinhos …

Harmonização: Steak au Poivre

4 de Julho de 2010

Um clássico francês globalizado

O próprio nome já não é totalmente francês. Os americanos adoram e as variações da receita são inúmeras. Basicamente temos filet mignon, pimenta verde (passada na água corrente e levemente amassada), creme de leite fresco por favor, manteiga, cognac ou brandy para flambar, e mostarda dijon (opcional). A pimenta verde é uma escolha pessoal. Em termos de textura, parece ser mais agradável que as opções em grãos. Quanto aos acompanhamentos, batatas das mais variadas maneiras e/ou salada de folhas para os mais contidos.

A espessura do bife, o ponto da grelha e a picância do prato exercem infuência direta sobre o vinho. Evidentemente, estamos falando de tintos. O cuidado maior é a influência da pimenta, que por mais comedida que seja, é a alma do prato. Portanto, seu sabor e ardor devem ser sempre considerados.

Para um bife alto ao ponto, um tinto de boa estrutura é o ideal, porém com algumas ressalvas. A leve acidez do molho advinda da mostarda e principalmente a presença da pimenta, pedem vinhos de boa acidez. O frescor é fundamental quando lidamos com este tipo de ingrediente. Portanto, nada de vinhos envelhecidos, onde a força do prato provavelmente irá aniquilá-los. Vinhos estruturados, moderadamente tânicos e principalmente jovens e de bom frescor são os ideais. Uma opção interessante é o bom Carmenère chileno De Martino Single Vineyard Alto de Piedra da importadora Decanter (www.decanter.com.br). Bem estruturado, taninos na medida certa, acidez refrescante e o típico toque apimentado de um legítimo Carmenère.

As opções francesas ficam por conta da uva Syrah, como varietal ou com boa presença em cortes. Um Croze-Hermitage fica bastante interessante. Um Côtes du Rhône-Villages, um Gigondas, um Vacqueyras ou um Châteauneuf-du-Pape podem ser boas parcerias. Atenção especial ao Châteauneuf quanto ao frescor. A alta porcentagem de Grenache que geralmente predomina nestes tintos pode ser um problema pela falta de acidez. Contudo, todas estas opções, devem ser vinhos sempre jovens.

Procure evitar vinhos com as uvas Cabernet Sauvignon, Tannat e Nebbiolo, por serem extremamente tânicas a despeito da boa acidez. Neste caso, pode haver conflito com a acidez do prato, gerando um certo amargor. Se for o caso, elimine a mostarda da receita e fique só com o creme de leite fresco. 


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