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Estrelas, uvas e faturamento: o Michelin quer engarrafar o terroir

20 de Julho de 2026

Em busca de receitas e relevância cultural, o guia francês transforma vinhedos históricos em selos corporativos, mas esbarra na resistência dos velhos artesãos da ter


Depois de dar notas para restaurantes e hotéis, o Guia Michelin chegou ao mundo dos vinhos. Em vez de estrelas, concede uvas para vinícolas (uma, duas ou três), com a mesma lógica que aplica às mesas e hospedagens. Uma estrela vale a parada; duas, um desvio; três, “uma viagem especial”.

O lançamento foi feito no Palácio dos Duques da Borgonha, em Dijon, na terça-feira 7 de julho, com o anúncio de cerca de 100 produtores da terra do pinot noir. Bordeaux, anunciada junto com a Borgonha em dezembro passado como a segunda região a receber o tratamento, ainda espera sua vez.

Não deixou de ser emblemática a escolha da primeira classificação enológica. Primeiro, desde o filme Sideways e da série Drops of God, a região tem ganho mesas do mundo todo, o que tem feito os preços subirem a cada safra. Segundo: a geração Z tem bebido menos, mas quando abre uma garrafa busca algo especial. Terceiro: hoje buscam-se cada vez mais vinhos menos alcóolicos e potentes.

O lançamento foi cercado de polêmicas, como de praxe em qualquer lista. Um produtor que recebeu uma estrela da publicação anunciou pelas redes sociais que estava encaminhando uma carta para a publicação pedindo sua retirada da classificação e ainda questionou os critérios, já que desde a safra 2020 não mais abre suas portas para receber a imprensa. Muitos produtores estão preocupados que a distinção aumente a demanda, em uma região que tem dificuldade para atender os pedidos atuais. Ou seja, o guia aumentaria os preços ainda mais.

O guia Michelin é uma fatia minúscula do faturamento de € 28 bilhões da Michelin, mas seu peso cultural é desproporcional. Ele empresta à fabricante de pneus a aura de excelência e confiabilidade. No fim dos anos 2000, a Michelin ingressou na área de vinhos adquirindo participação no Robert Parker Wine Advocate, a publicação do mais famoso crítico do mundo, responsável por popularizar a escala de 100 pontos que dita os preços globais.

No fim do ano passado, questionado sobre qual a política que o guia adotará, já que detém a publicação de Robert Parker, Lorent Menegaux, CEO do Grupo Michelin, foi pragmático ao declarar à La Revue du vin de France que “a marca Michelin é muito mais forte que a marca Wine Advocate”. Segundo ele, a intenção não era substituir a crítica técnica de Parker, mas criar um selo de aprovação corporativo, mais amplo e comercialmente poderoso.

Ao lançar seu próprio selo para as propriedades, o grupo consolida-se não apenas como árbitro do gosto, mas busca mais. Estudo do grupo JFC estima que restaurantes estrelados rendam 438 milhões de euros em gastos indiretos anuais só na Itália. Ganhar uma estrela pode aumentar a receita de um restaurante entre 20% e 100%. O vinho é uma parte importante da receita desses restaurantes.

Mas o que uma estrela Michelin mede, de fato, num restaurante? Um artigo de Dohyung Bang, Kyuwan Choi e Alex Jiyoung Kim, publicado em 2022 no International Journal of Contemporary Hospitality Management, comparou 160 mil avaliações do OpenTable em 218 restaurantes — 109 recém-premiados com estrela, 109 sem estrela — antes e depois da láurea. O resultado: a estrela eleva a percepção hedônica, o valor social e a nota de serviço. Não eleva, de forma estatisticamente significativa, o valor econômico percebido, a nota de comida ou a nota de ambiente. Os autores concluem que a estrela funciona como ferramenta de marketing emocional, não como certificado de qualidade funcional.

Para entender por que o Michelin decidiu, em 2026, dizer ao mundo quais são os melhores vinhedos da Borgonha, talvez seja preciso voltar a 2011. Naquele ano, segundo reportagem do Financial Times, o Guide Michelin perdia dinheiro anualmente. A consultoria Accenture, contratada para avaliar alternativas, recomendou mudança rápida sob risco de o Guide virar peça de museu. A resposta foi comercial: a partir de 2017, órgãos de turismo passaram a pagar para trazer inspetores do guia a seus territórios — a Tailândia pagou US$ 4 milhões por cinco anos, a Califórnia US$ 600 mil. A edição 2026 do guia de restaurantes na Argentina não teve festa. O governo de Javier Milei decidiu interromper o financiamento da publicação, estimado em cerca de US$ 400 mil.

O pano de fundo mostra uma indústria em xeque. As projeções indicam que o mercado global terá recuado cerca de 2% em 2025, o que configuraria a quarta queda anual consecutiva e levaria o consumo ao menor nível desde 1961. A consultoria Moore Global, estima o mercado global em US$ 347,1 bilhões em receita para 2025, com 23,3 bilhões de litros vendidos a um preço médio de US$ 14,89 o litro, e aponta deslocamento para vinhos premium e super-premium em meio à queda de volume. A consultoria KPMG atribui parte da queda à geração mais jovem, que troca tinto encorpado por vinhos mais leves.

Na cerimônia de premiação, o porta voz do guia disse que a seleção de vinícolas provava que “a excelência não se define apenas pelo prestígio de um nome”. A frase soa a elogio às propriedades menos conhecidas que entraram e cujos preços já sofreram alta.

Uma das figuras mais famosas da Borgonha foi Pierre Ramonet, um dos produtores mais reputados de brancos. Na distinção do Michelin, o guia concedeu apenas menção à propriedade. Suas histórias saborosas recheariam livros. Uma das melhores, contada em detalhes por Clive Coates em um de seus livros sobre a Borgonha, se passou em 1978, quando Ramonet, com seu pulover, calça baggy e boina, entrou no escritório de um advogado em Beaune.

Estava no escritório do advogado porque as famílias Milan e Mathey-Blanchet tinham decidido vender suas parcelas em Le Montrachet, o mais cobiçado terroir de chardonnay do mundo, com uvas do lado de Puligny-Montrachet suficientes para quatro barris e meio de vinho. Mal se sentou à cadeira. Começou a tirar notas dos bolsos e deixou o dinheiro em cima da mesa. “Acho que está tudo aí.”

Era um homem da terra. Não gostava de formalidades, de falar ao telefone, nem de escrever cartas. Nunca enviava amostras de seus vinhos aos críticos. A razão era simples: nunca viu os irmãos Troisgros, Paul Bocuse ou qualquer chef estrelado do Michelin mandar quentinhas para os críticos dos guias. Se alguém quisesse beber seus vinhos, que fosse a Chassagne. Era ali que a terra e as mãos produziam o vinho.

Se o mercado global de vinhos encolhe e a Geração Z busca menos volume e mais verdade, talvez o futuro não dependa de inspetores, mas de produtores que não precisam de holofotes.

Do campo aos vinhedos: a trajetória de Jussiê Vieira

11 de Maio de 2026

Em 13 de junho, quatro equipes se enfrentarão num campo de futebol em Chassagne-Montrachet, uma cidade da Borgonha com menos de 500 habitantes. Ao redor do campo, vinhas de Chardonnay que produzem alguns dos brancos mais caros e raros do mundo. A prefeita é casada com Vincent Dancer, produtor com vinhedos na cidade e cujos vinhos são importados no Brasil pela Clarets.

Numa das equipes estará David Silva, jogador brasileiro que fez história no Manchester City. O ex-jogador do São Paulo Raí, que também vestiu a camisa do Paris Saint Germain, foi convidado. Na beira do campo, grupo de samba, dançarinas de carnaval e DJ brasileiro. Nos intervalos, litros de água, energéticos, caipirinha e vinho branco e tinto. No almoço, feijoada preparada por Vanessa Vieira.

O organizador do torneio é seu marido, Jussiê Vieira, que até poucos anos atrás era atacante profissional, com passagens pelo Cruzeiro, no Brasil, e pelo Bordeaux, na França. Hoje é embaixador da importadora Clarets no Brasil, responsável por trazer ao país sobrenomes famosos no mundo do vinho como Ramonet, Dujac, Lafarge, Roulot. O campeonato é anual. Os adversários são ex-jogadores de futebol, produtores de vinho e suas famílias.

De Chassagne-Montrachet a Nova Venécia (ES), onde Jussiê cresceu, são dez horas de voo. Nascido em 1983, comia carne quando dava, geralmente no fim de semana. O padrasto não tinha paciência com ele. O bairro também era violento. O irmão foi para a lavoura. “Eu concentrei no futebol como se não tivesse outra opção na vida, como se tudo dependesse disso”, recorda-se em almoço em São Paulo em um restaurante na região da Paulista.

Um tio jogava num time amador, e o pai, falecido, tinha sido ponta direita. Jussiê passava horas com a bola no pé. O talento foi visto por um olheiro. Aos 14 anos, mudou-se sozinho para Belo Horizonte para jogar no Cruzeiro. Em 2003, pelo time mineiro, conquistou a Tríplice Coroa (Copa do Brasil, Brasileirão e Campeonato Mineiro), feito então inédito no futebol brasileiro. Em janeiro de 2005, foi negociado com o Lens, na França.

Chegou sem falar francês. O clube pagava um curso para expatriados, com aulas três vezes por semana. Foi por duas semanas e desistiu. Fez um acordo informal: se em seis meses não falasse francês, poderia ser dispensado. Trocou as aulas por filmes de Harry Potter, acompanhou Vanessa a todas as consultas pré-natais da filha Lavínia, forçou-se a conversar com a médica, leu tudo que podia sobre gravidez e cuidados com recém-nascidos.

Em dezembro de 2006, numa volta ao Brasil para as férias, sentou-se no avião ao lado do volante Wendell, que também tinha passado pela base do Cruzeiro. O volante perguntou se Jussiê não queria trocar o Lens pelo Bordeaux. O treinador era Ricardo Gomes, o zagueiro que tinha sido capitão da seleção brasileira na Copa de 1990 e que quatro anos depois seria convocado novamente como capitão para o Mundial de 1994, mas foi cortado dias antes da estreia, após sofrer uma lesão muscular. Ricardo Gomes dirigia o Bordeaux desde 2005. Disse a Jussiê que precisava de um atacante. No fim de janeiro de 2007, o contrato foi assinado. Jussiê ficaria no clube por quase uma década, ganharia a Ligue 1 na temporada 2008-2009 e seria apelidado de “mágico” pela imprensa francesa.

Em 2017, Jussiê pendurou as chuteiras. “Não queria continuar no futebol e ouvia relatos de jogadores que caíam em depressão ou ruína financeira. Precisava de outro caminho.” Nos almoços do Bordeaux, vinho era oferecido aos jogadores mesmo antes de treinos. Após vitórias, os dirigentes abriam garrafas. Num jogo contra o Paris Saint-Germain, o Bordeaux arrancou um empate de um a um, em Paris. O presidente havia prometido como bicho uma garrafa de Cheval Blanc – um dos mais famosos e caros vinhos da França.

“Os jogadores brincaram que era uma caixa para cada um, mas foi uma garrafa para cada um”, lembra Jussiê. A depender da safra, uma garrafa pode custar mais de mil euros. Na cidade pequena, os produtores logo perceberam que o jogador brasileiro gostava de vinho. Os convites para visitar propriedades e compartilhar garrafas vieram sem esforço. Jussiê fez o nível 3 do WSET, a principal certificação internacional de vinhos, e começou a passar férias na Borgonha visitando e conversando.

a história de jussiê vieira, dos campos de futebol à importação de produtores franceses

A Borgonha o capturou pela dificuldade. Para explicar esse caminho, gosta de contar que, anos atrás, um ministro do governo Sarkozy ligou para o Domaine de la Romanée-Conti pedindo uma caixa de uma safra. A resposta foi curta: não era possível. “Há um ditado aqui na França: em Bordeaux, você não degusta nada, mas pode comprar tudo; na Borgonha, você pode degustar tudo, mas não se compra nada.”

“Um amigo então me perguntou: por que não trabalhar com vinho?” Jussiê criou a Juss Millésimes em 2018, importadora focada em produtores franceses para o mercado brasileiro. Contou com a ajuda de Raphael Malago, que tinha ajudado anos antes a importar vinhos sul africanos e ajudou a desbravar esse mercado no Brasil. Na estreia, trouxe ao Brasil, entre outros, Eric Rousseau e Jean-Claude Ramonet, sendo que Ramonet não entrava em um avião desde 1996. Os dois desembarcaram no Rio de Janeiro para uma série de eventos no Hotel Emiliano.

Em 2019, Jussiê migrou o portfólio para a Clarets e se tornou embaixador da importadora na Europa. Para fechar a parceria, mandou mensagem num domingo para Guilherme Lemes, dono da Clarets. A resposta inicial foi educada, mas fria. Uma semana depois, Lemes disse que tinha interesse em alguns produtores da Borgonha e propôs reunião presencial. Jussiê respondeu que estava no Brasil. Não estava. Guilherme ia viajar, mas marcaram para dali a duas semanas, tempo suficiente para Jussiê comprar passagem e cruzar o Atlântico.

O mundo do vinho é predominantemente branco, em quem compra garrafas, em quem dirige cozinhas e em quem serve. Foi o prestígio construído em uma década nos gramados franceses que, nas palavras dele, “faz com que a cor da minha pele não atrapalhe nos negócios do vinho”. Quando montava a importadora, ouviu o conselho de que não teria problema com a cor da pele, mas que outros negros teriam. “Um grande amigo me disse, textualmente: você é o Jussiê e por isso não sofre preconceito.”

No fim deste ano, seis produtores da Borgonha — Duroché, Fourrier, Matrot, Jobard, Ballot Millot e Bachelet Monnot — embarcarão para o Brasil para uma série de eventos. Antes disso, em 13 de junho, o campo de Chassagne-Montrachet receberá o torneio de futebol. De um lado do gramado, uma bola. Do outro, fileiras de Chardonnay sobre calcário. Entre os dois, a feijoada de Vanessa.

Amadeus regendo Montrachet

11 de Novembro de 2018

Foi de fato uma verdadeira sinfonia, a degustação de Montrachets ocorrida num belo almoço no clássico restaurante Amadeus. Comtes Lafon nos metais, Ramonet nos violinos, e DRC ao piano, deram o tom do espetáculo.

Segundo o escritor inglês Hugh Johnson: “Montrachet  not as giant among pygmies, but as a colossus among giants”. Agrega a elegância dos Chevaliers com a densidade dos Bâtards.

montrachet vignoble

http://lefrancbuveur.com/chronique-livre/chronique-livre-mes-incontournables-5-de-5/attachment/dscn2439/

Das propriedades acima, percebemos que Marquis de Laguiche (Joseph Drouhin) e Baron Thénard são verdadeiros latifúndios se comparados aos demais produtores. Ramonet e Lafon com propriedades minúsculas, sem falar em Domaine Leflaive com quase nada em termos de área.

Montrachet Map

http://www.tenzingws.com/blog/2016/1/12/interactive-map-of-le-montrachet-vineyard

Nos dois mapas acima, é bom clicar nos seus respectivos links para uma melhor visualização dos mesmos. A apelação Montrachet tem somente oito hectares de vinhas e está localizada no centro gravitacional dos melhores brancos da Borgonha. Cercada pelos Grands Crus Chevalier-Montrachet, Bâtard-Montrachet, Bienvenues-Bâtard-Montrachet e Criots-Bâtard-Montrachet, suas vinhas são as mais valorizadas, chegando a absurdos 23 milhões de euros o hectare. Este valor pago pelo bilionário François Pinault, proprietário entre outros vinhedos do Chateau Latour em Bordeaux, refere-se à compra de uma parcela em Montrachet de 0,042 ha por um milhão de euros. É só fazer as contas.

Nos mapas acima, percebemos uma linha clara de divisão no meio do vinhedo, dividindo em partes iguais uma parcela para a comuna de Chassagne-Montrachet, chamada também de Le Montrachet, e outra para a comuna de Puligny-Montrachet, chamada simplesmente Montrachet.

Em termos de terroir, essa divisão vai além de uma distinção comunal. Sobretudo pela orientação das vinhas (vide curvas de nível no primeiro mapa) devido às diferentes inclinações do terreno nas respectivas comunas, as vinhas em Chassagne-Montrachet tendem a fornecer uvas mais maduras, proporcionando vinhos mais cheios como os DRCs (Domaine de La Romanée-Conti). Já as vinhas em Puligny-Montrachet, geram uvas com maior acidez, proporcionando vinhos mais elegantes e de maior tensão. É o caso clássico do Montrachet Ramonet.

Como terceira alternativa de terroir, as vinhas no extremo norte da comuna de Chassagne-Montrachet apresentam um terreno mais pedregoso, semelhante a Chevalier-Montrachet na comuna oposta. Isso proporciona vinhos de maior elegância, fugindo um pouco da característica de sua comuna. É o caso dos Montrachet dos produtores Marc Colin e Guy Amiot, de produções diminutas.

img_5280diversas cores em taças Zalto

img_5283esse foi o trio de largada

Sem mais delongas, vamos ao que interessa. Já de inicio, pisando fundo no acelerador. Três Montrachets da bela safra 96, todos altamente pontuados. Reparando direito, tem um intruso no ninho. Contudo, trata-se de Madame Leflaive onde tudo é perdoado. Bienvenues Bâtard Montrachet é um dos Grands Crus mais exclusivos, situado à direita do Grand Cru Bâtard-Montrachet. Este em particular da Madame, deu um banho de elegância nos outros dois. Delicadeza total e um aroma fino de mel de flor de laranjeira. Equilíbrio em boca, fantástico. Já o Montrachet Louis Latour tinha mais densidade em boca com lindos toques de caramelo. Etienne Sauzet, outro grande produtor com 96 pontos nesta safra, estava com a garrafa prejudicada. O pouco que ele apresentou foi nos primeiros instantes na taça, e logo a oxidação deu cabo final a ele. Uma pena!

img_5285vinhos de negociantes?

Neste segundo flight, um parêntese aos produtores acima. Sabemos que tanto Drouhin como Louis Latour são ótimos e tradicionais negociantes na Borgonha, ou seja, muito de suas marcas são vinhos cujas as uvas são compradas de parceiros de confiança ou vinhos que eles compram novos e educam (élevage) em suas adegas próprias. Nada de errado, são bons vinhos a preços competitivos. A origem dos Leroys também foi essa, vinhos de negociantes com o saudoso Henry Leroy, pai de Madame Leroy.

Além dos vinhos de negociante dessas Maisons, elas também possuem alguns vinhos de vinhedos próprios, onde eles têm total autonomia no plantio e vinificação. No caso de Laguiche, é admirável o nível de seu vinho, sobretudo pela quantidade elaborada. Afinal, é o maior vinhedo disparado na apelação Montrachet. O mesmo podemos dizer de Louis Latour com vinhos admiráveis. É bem verdade que não fazem parte do primeiro escalão, mas a qualidade de seus vinhos é incontestável.

Voltando ao flight, pegamos o Laguiche 2003 em plena forma, exuberante, esbanjando fruta e um equilíbrio em boca fantástico. Levando-se em conta o preço, relativamente em conta para a apelação em questão, ganhou de braçada a degustação. Já o Laguiche 89, outra bela safra, estava um pouquinho cansado, embora muito prazeroso ainda. Fica a dúvida, se foi um problema de garrafa, ou se o apogeu deste vinho ocorre ao redor de 15 anos, no caso 2003.

Por fim, o Montrachet Louis Latour 2005 confirma que em vinhos antigos e sobretudo brancos, não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. O 1996 citado a pouco, estava muito mais gracioso que este 2005. São duas grandes safras de padrões equivalentes, mas esta garrafa 2005 não estava em grande forma.

contribuição da confraria

Além dos pratos da Casa (restaurante Amadeus), dois dos confrades forneceram algumas iguarias para o almoço. Um lindo tartufo de Alba para os ovos caipiras de entrada, e preciosas sardinhas trazidas na mala para compor o tradicional cuscuz da casa. Abrilhantaram em muito nosso almoço.

img_5293dupla de elite

Não podemos falar em tropa de elite, pois Montrachet é muito exclusivo e não combina com quantidade, mas estes dois rótulos acima, sobretudo nesta safra perfeita de 2010, mostraram que o futuro pode ser brilhante. Em estilos completamente oposto, cada qual mostrou seu requinte com vinhos lindamente definidos. O Montrachet Lafon talvez seja o único representante da apelação a peitar o Montrachet DRC em termos de opulência. Um vinho denso com corpo de tinto em boca. Macio, equilibrado, e de longa persistência aromática. Já o Montrachet Ramonet, um primor de elegância com uma acidez tensa, vibrante, e de grande delicadeza em boca. Como estilo, se aproxima muito de Madame Leflaive, um dos Montrachets mais exclusivos, de produção diminuta.

img_5295um infanticídio delicioso

Neste último flight, vinhos extremamente jovens, mas de grande exuberância. Mostra toda a força deste grande vinhedo, onde temos a expressão máxima da Chardonnay na Borgonha. Não devemos nos esquecer que esses vinhos são fermentados e amadurecidos em barricas novas de carvalho. Entretanto, o casamento deles com a madeira é perfeito, onde os toques da barrica estão sobejamente integrados à fruta.

Começando pelos Louis Jadot e Drouhin, vinhos de grande potencial e muito bem equilibrados. Jadot com um pouco mais de densidade em boca, e Laguiche mantendo a elegância dos Drouhin. O gran finale ficou mesmo reservado ao todo poderoso DRC, o Montrachet mais caro da apelação. Suntuosidade é o que define este grande branco. Nosso Maestro, matou de cara todos deste último flight, apostando mais uma vez sua preciosa adega no Montrachet DRC. Trazido por ele mesmo, nos brindou mais uma vez com sua imensa generosidade.

Aproveitando o ensejo, meus agradecimentos a todos os confrades pela companhia, pelo papo sempre agradável, e pelo companheirismo de mesa e copo. Que Bacco sempre nos proteja! Saúde a todos!

Curnonsky e seus brancos

19 de Junho de 2018

Falando um pouco de menus clássicos e históricos, não podemos deixar de mencionar Maurice Edmond Sailland, prince des gastronomes, escritor célebre do final do século XIX e metade do século XX (1872 a 1956), conhecido mais como Curnonsky, precursor do guia Michelin. Autor de 65 livros com inúmeros exemplares sobre gastronomia.

No que diz respeito a vinhos, decretou os cinco maiores brancos da França, mencionando Chateau d´Yquem, Montrachet, Chateau-Chalon, Chateau-Grillet, e Coulée de Serrant. Nada mau!

Baseado nesses memoráveis vinhos, o restaurante Taillevent elaborou um menu impecável acompanhando essas maravilhas a 1200 euros por pessoa, intitulado “Les cinq de Curnonsky”. Para esta seleção, começou com Lagosta gratinada com trufas para um Chateau-Grillet 2005, seguido por Saint-Pierre com molho de vinho branco e algas, acompanhado por Coulée de Serrant 2004. Continuando, uma Poularde de Bresse desossada com trufas acompanhando Montrachet Marquis de Laguiche 2002. Para finalizar, um Vieux Comté com Chateau-Chalon 2005, e uma Omelete de frutas exóticas flambada com Chateau d´Yquem 2003.

Falando um pouco dos vinhos, seguem fotos abaixo com detalhes de cada um e suas peculiaridades. A despeito dos critérios seleção, são vinhos absolutamente distintos, fiéis a seus respectivos terroirs, e verdadeiros patrimônios franceses.

fb7be498-2c0e-4395-ac48-cd35d0e55adb1um clássico acompanhamento para as trufas

Uma das menores apelações francesas com apenas 3,5 hectares de vinhas antigas, Chateau-Grillet é uma apelação própria dentro do território de Condrieu com uvas 100% Viogner. O vinho amadurece cerca de 18 meses em barricas francesas, sendo 20% novas conforme a safra.

O vinho costuma envelhecer muito bem desabrochando notas florais, de pêssegos, damascos, e um fundo amendoado. Textura macio em boca, acompanhando muito bem pratos com trufas, sobretudo quando devidamente envelhecido.

img_4513o epítome da Chardonnay

Montrachet dispensa comentários, sendo a perfeição nos territórios de Chassagne e Puligny-Montrachet. Vinificação clássica com fermentação em barricas novas com sucessivas bâtonnages. O vinho se funde com perfeição em contato com a madeira, envelhecendo maravilhosamente.

52064f24-4c80-4976-9255-f9e1312a3d37a perfeição do Vin Jaune

Na terra de Louis Pasteur, a uva Savagnin amadurece  com perfeição. O chamado Vin Jaune é considerado o Jerez francês, embora não haja fortificação. O vinho amadurece em barricas de carvalho por cerca de seis anos, desenvolvendo uma levedura na superfície semelhante aos melhores Jerezes. Após esse período é engarrafado, adquirindo notas oxidativas, lembrando nozes e especiarias exóticas. Além do queijo Comté, seu acompanhamente clássico, aves com molho à base de curry são harmonizações sublimes.

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a sublimação da Botrytis

Assim como o Montrachet, Chateau d´Yquem é unanimidade na nobre região de Sauternes. A ação da Botrytis Cinerea é perfeita no vinhedo, além de uma colheita seletiva e paciente, procurando somente as uvas perfeitamente infectadas. A vinificação é precisa, extraindo todos os componentes fundamentais para um vinho equilibrado e profundamente estruturado. A passagem longa em barricas novas francesas só enriquece o conjunto, permitindo um envelhecimento em garrafas por décadas. Lembrando sempre que as uvas são Sémillon majoritariamente, e Sauvignon Blanc.

Serrant decantacaoChenin Blanc em pureza

Atualmente com vinhos biodinâmicos tão em voga, o exemplar acima sintetiza a perfeição nesta filosofia viticultural. Nicolas Joly, proprietário e mentor do estupendo Coulée de Serrant, eleva a casta Chenin Blanc ás alturas, tendo apelação própria dentro da apelação Savennières, o mais célebre terroir para Chenin Blanc no estilo absolutamente seco.

Sua vinificação extremamente natural, trabalha com leveduras nativas. O uso das barricas de dimensões de acordo com a filosofia biodinâmica, visa imprimir uma micro-oxigenação precisa, expressando de forma autêntica aromas e sabores únicos. O vinho tem uma extraordinária capacidade de envelhecimento, sendo obrigatória um ampla decantação de horas, antes do consumo.

Além da harmonização citada no menu acima, truta ao forno com molho de vinho branco, ervas e amêndoas tostadas é pedida certa para um casamento perfeito.


Menu alternativo

Tartar de atum com gergelim 

Coulée de Serrant decantado por horas

Omelete de queijo gruyère e ervas com trufas laminadas

Chateau-Grillet com uma dezena de anos

Camarões grelhados ao molho de ervas e limão com risoto de açafrão

Montrachet Ramonet 2014

Queijo do Serro curado com nozes e damascos

Chateau-Chalon ou Vin Jaune

Malabi com calda de damascos

Chateau d´Yquem jovem (menos de 10 anos)


img_4781Serro bem curado

Neste menu alternativo, eu começaria pelo Coulée de Serrant aproveitando toda sua acidez e frescor com tartar de atum. Um prato de personalidade com o gergelim dando um toque a mais de integração com o vinho. É importante decantar este branco com horas de antecedência.

Em seguida, os sabores e textura da omelete deixam o Chateau-Grillet reinar elegante. O toque de trufa para um branco como este envelhecido é fundamental.

A vibração de um Ramonet jovem é sensacional com seus toques cítricos precisos. Toda a força de um Montrachet entremeando a sutileza de um risoto de açafrão. Uma harmonização para levantar sabores.

Antes da sobremesa, uma taça de Chateau-Chalon ou um bom Vin Jaune. O Club Tastevin traz um bom exemplar (www.tastevin.com.br). Homenageando os queijos brasileiros, um velho queijo do serro com aromas mais potentes, complementado por nozes e damascos, finalizam a refeição sem pressa.

A força de um Yquem jovem, menos de dez anos, complementam bem o delicado manjar árabe onde o damasco e a flor de laranjeira fazem eco ao vinho. A textura untuosa do vinho cai como um manto após uma colherada da sobremesa.

Enfim, mais um exercício de enogastronomia com uma pequena amostra do arsenal francês. Para quem não resiste a um belo champagne, não seria nada mau começar ou terminar o menu com ele. Os brancos da Alsace são outra bela lembrança.