Posts Tagged ‘tudo e nada’

Produção Mundial de Rosés

25 de Julho de 2013

Os números mais recentes sobre a produção e consumo mundial de vinhos rosés (dados de 2011) apontam a França como maior produtor, maior consumidor e maior importador deste tipo de vinho, conforme dados abaixo:

França e Itália na liderança

A produção mundial de Rosés representa menos de dez porcento do total de vinhos produzidos. Embora França e Itália liderem esta produção, seus objetivos são diferentes. Enquanto a Itália visa um mercado de exportação, a França consome praticamente todo seu rosé e ainda importa boa parte, sendo a exportação bem mais tímida que a de seu concorrente direto. Os dados abaixo dão um panorama geral deste consumo mundial.

Estados Unidos e França na liderança

Estados Unidos e França apresentam padrão semelhante de produção e consumo dos rosés, guardadas as devidas proporções.

Nossos vizinhos, Argentina e Uruguai, consomem praticamente tudo que produzem, não dando muito espaço para exportação.

Países do Rosé

Rússia é um mercado em crescimento, consumindo quase o dobro de sua produção. Potencialmente, é o alvo número um dos países exportadores.

Quanto aos dois grandes países exportadores do chamado Novo Mundo, Austrália e Chile, suas produções são modestas face ao total de rosés, não chegando a meio milhão de hectolitros anuais a soma destes países. Quem sabe um mercado ainda a ser explorado.

Domaine Leflaive: Montrachet em todos os prefixos

22 de Julho de 2013

Quando pensamos em Montrachet, imediatamente nos transportamos para a essência de um grande Borgonha. E quando falamos de Le Montrachet, falamos do Romanée-Conti de todos os grandes brancos da Côte de Beaune. Contudo, seria mais prudente compararmos este esplêndido vinhedo de pouco mais de oito hectares à comuna de Vosne-Romanée, pois temos vários produtores. Dentre os grandes, numa verdadeira batalha de titãs, Domaine Leflaive, pessoalmente, é a grande referência. A razão é simples, é especialista neste pequeno pedaço de terra com todos os prefixos Montrachet, sendo cinco hectares na apelação Grand Cru, e pouco mais de onze hectares na apelação Premier Cru, todos de altíssimo nível. Veja o vídeo abaixo, com madame Anne-Claude Leflaive e sua filosofia biodinâmica.

http://youtu.be/Q6Ebqm5Eud4

O quadro abaixo nos mostra os principais vinhedos do domaine com Premiers Crus notáveis. O trabalho na vinha dispensa comentários; é preciso, e com todo o rigor biodinâmico.

Lotes muito bem selecionados

Quanto à vinificação, de acordo com a matéria-prima, o processo desenvolve-se naturalmente, respeitando os respectivos terroirs. Para o Grand Vin, Le Montrachet, a fermentação dá-se em barricas de carvalho novas de Allier (carvalho ultra refinado), seguindo-se doze meses de amadurecimento sur lies com bâtonnage, e mais seis meses em carvalho de um ano de uso, antes do engarrafamento com filtragem extremamente ligeira, se necessário.

Montrachet: Berço espiritual da Chardonnay

Para os demais Grands Crus (Chevalier, Bâtard e Bienvenues), o processo é semelhante com algumas variações: apenas 25% de madeira nova. O carvalho, além de Allier, participa o da floresta de Vosges. E o amadurecimento de doze meses em barricas, é complementado por mais seis meses em cubas.

Para os Premiers Crus, todo o ritual é praticamente igual a dos vinhos acima citados, com pequenas variações na porcentagem de madeira nova. Os vinhos são de grande categoria, sendo os vinhedos Les Pucelles e Le Clavoillon, os maiores em área (em torno de quatro hectares cada um). 

Para aqueles que querem se aventurar na magia destes Grands Crus, podemos dizer que Chevalier-Montrachet é o mais delicado, com uma elegância ímpar. Seu solo é o mais pedregoso e de ótima drenagem. Já Bâtard-Montrachet é o mais denso, encorpado, por conta de seu solo mais argiloso em relação ao calcário. Por fim, Le Montrachet, a perfeição, unindo a elegância de Chevalier e a robustez de Bâtard, com muito equilíbrio, profundidade e expansão. Todos eles de grande guarda. Tenha paciência para pelo menos dez anos de espera, antes de abri-los. 

Hermitage e Porto Vintage

18 de Julho de 2013

Há tempos estou para escrever este artigo, sempre prospectando os fatores de terroir. Apesar de serem duas regiões clássicas europeias distantes entre si, vale a pena compará-las e discutir o fator humano que as fizeram elaborar vinhos aparentemente tão diferentes. A montanha de Hemitage em certa fotos assemelha-se bastante com a região do Douro, sobretudo por seu relevo íngreme. Vamos então, citar alguns pontos em comum destes dois grandes terroirs:

  • Relevo íngreme e subsolo granítico
  • Regiões de clima continental
  • Vinhos potentes e de longo envelhecimento
  • Elaboração do vinho a partir de vários vinhedos
  • Tanicidade destacada a ser domada pelo tempo

Colina de Hermitage: semelhança com o Douro

A região do Douro foi escolhida pelos ingleses no século dezessete para suprir o fornecimento de vinhos franceses, devido a várias guerras entre os dois países. Como o transporte deste vinho rústico duriense era extremamente demorado não só pela distância, mas principalmente pela dificuldade do relevo e inexistência de estradas, optou-se pela fortificação, dando mais resistência ao produto. Maiores detalhes, favor verificar neste mesmo blog artigos sobre Vinho do Porto em várias partes.

O importante nesta história é a perspicácia do homem como fator humano do chamado terroir, interferindo num estilo de vinho e marcando-o profundamente através da tradição. Recentemente, os vinhos de mesa do Douro ganharam notoriedade por conta novamente de uma mudança de mentalidade, ou seja, o fator humano mudando os rumos de uma região e trazendo novas opções de consumo.

Cores intensas: Porto (acima) e Hermitage (abaixo)

Já a região de Hermitage (apelação francesa no chamado Rhône do Norte), sempre optou por vinhos de mesa robustos, encorpados e em certa época, misturado aos vinhos de Bordeaux de safras problemáticas para darem mais corpo e estrutura aos tintos bordaleses. Se fosse o caso, este vinho poderia ser perfeitamente fortificado, tornando-se quem sabe, numa das mais autênticas cópias do grande fortificado português. 

Paisagem duriense

Enfim, a semelhança que deve ser observada entre estes dois grandes tintos é a potência e o poder de longevidade dos mesmos. A peculiaridade pouco comum desses dois vinhos partirem de um grupo de vinhedos é também notável. Os melhores Hermitages como Chave e La Chapelle (do produtor Paul Jaboulet) provêm de um maior número de vinhedos ou como os franceses preferem, climats (Méal, Bessards, Greffieux, Baumes, entre outros). Do lado do Porto, os melhores Vintages, os chamados clássicos, provêm também de várias parcelas (quintas) das melhores casas de Porto. Nos dois casos, cada parcela apresenta características distintas onde a mistura ou assemblage das mesmas geram vinhos mais equilibrados e complexos, melhorando o conjunto. Só para citar um exemplo, o belíssimo Porto Taylor´s Vintage provém das quintas de Vargellas, Terra Feita e Junco. Cada qual com características distintas, formando um todo harmonioso.

Outra coincidência relevante é a crescente individualização dos vinhedos. Atualmente, está em voga os chamados Hermitages de vinhedo e também, os chamados Portos de Quinta. A idéia é mostrar certas pecualiridades de terroir que compõem as melhores quintas de cada Casa. A Taylor´s por exemplo, engarrafa o espetacular Quinta de Vargellas, famosa por proporcionar aos vintages o caracteristico aroma de violetas. Mas a grande quinta em toda a região é o mítico Quinta do Noval Nacional, elaborado em certos anos sob rendimentos mínimos com parreiras pré-filoxera. A qualidade é magistral, contudo os preços são proibitivos. Quanto aos Hermitages de vinhedo, a Maison Chapoutier tem um ótimo grupo de vinhos, com destaque especial para o L´Ermite.

Particularidades: Saint-Estèphe e Margaux

15 de Julho de 2013

Nesta última degustação na ABS-SP (10/07/13) com vinhos de Bordeaux, dois tintos foram destaques: Château Sociando-Mallet 2005, apelação Haut-Médoc e Château Prieuré-Lichine 2009, Troisième Grand Cru Classé de Margaux. Duas safras de prestígio, não tendo portanto as desculpas de fatores climáticos.

Bela safra a ser guardada

Ficou bem claro, as diferenças de estilo entre os dois vinhos. Prieuré-Lichine, mostrou as principais características de Margaux, com toques florais e de sous-bois (folhas secas e úmidas em decomposição), a textura macia em boca, taninos sedosos, e a expansão de um Grand Cru Classé. Um leve pecado, foi uma ponta de álcool a mais, deixando-o um pouco quente. É um dos melhores em toda a história do Château, merecendo de Parker a nota 93. Pessoalmente, fiquei em 91 pontos. Importado pela Casa Flora ou Porto a Porto (www.casaflora.com.br). 

Um Haut-Médoc de respeito

Passando agora ao Sociando-Mallet, ele tem a marca de um grande Saint-Estèphe. Embora pertença à apelação Haut-Médoc, ele fica muito próximo da comuna mencionada. Saint-Estèphe apresenta limites a sul pela vala de drenagem denominada Jalle du Breuil ou Chenal du Lazaret, e a norte, o canal denominado Estey d´Un. Pois bem, o Château Sociando-Mallet fica na comuna de Saint-Seurin-de-Cadourne, vizinha a norte de Saint-Estèphe. Propriedade de Jean Gautreau, este ex-Cru Bourgeois (retirou-se desta classificação após inúmeras confusões para uma nova reclassificação) é pessoalmente o melhor Château de margem esquerda, excetuando os Grands Crus Classés, embora às cegas, já tenha pregado muitas peças. A safra de 2005 mostra uma estrutura tânica vigorosa e bem delineada com taninos de grande qualidade. A acidez de Saint-Estèphe é bem marcada neste vinho, dando mais um componente de estrutura em busca da longevidade. É bom lembrar que o solo aqui é mais argiloso, proporcionando vinhos mais firmes e austeros. Os aromas são o clássico Cassis (frutas escuras), tabaco, couro, chocolate e ervas finas. Bons anos pela frente, se bem adegado. Parker cravou 91+ pontos. Pessoalmente, acho que ele merecia um pontinho a mais. Importado pela Mistral (www.mistral.com.br). 

Caminhos da Enogastronomia

11 de Julho de 2013

Em artigo recente, falei de algumas combinações clássicas que estão sendo esquecidas em certas publicações, mas também comentei que a prospecção de novas harmonizações não devem ser descartadas, sempre dentro de um raciocínio lógico que inclui em última análise o chamado bom senso. Para dar alguns exemplos, vamos ao primeiro deles:

Foie Gras Grillé aux Pommes

A peça de foie gras crua cortada em pedaços e posteriormente levemente grelhada é um prato de grande refinamento, acompanhado pelo clássico vinho doce de Sauternes. Entretanto, podemos eventualmente mudar este cenário para um Porto Tawny com declaração de idade ou melhor ainda, um grande Colheita (há vários artigos neste blog sobre vinho do Porto). A combinação com vinho de Sauternes também já foi comentada em artigos deste blog. A mudança fundamental para o vinho do Porto é basicamente trocar álcool por açúcar (componentes do vinho). Para aqueles que incomodam-se com a evidente doçura e untuosidade (alto nível de glicerol) de um autêntico Sauternes, podem optar pelo Porto, menos doce e untuosidade mais comedida. Ele continua ter a mesma presença e força aromática do Sauternes, mas o açúcar residual sensivejmente menor é compensado pelo álcool, já que trata-se de um vinho fortificado. E por que a escolha Tawny e não Ruby? 

Primeiramente, os Tawnies tem um componente de acidez mais relevante que os Rubies e taninos mais polimerizados e menos evidentes. Os aromas terciários do Tawny com toques empireumáticos (caramelo), além de frutas secas e frutas em calda (laranja, cidra, damascos) têm muito mais a ver com os aromas do prato. É uma bela experiência com Tawnies preferencialmente de 20 anos de idade declarada ou um Colheita equivalente. Temperatura de serviço em torno de catorze graus. 

Culinária Japonesa

O segundo exemplo é a consagrada harmonização entre espumantes, champagnes, com a comida japonesa. De fato, a leveza, o frescor, a textura, são fatores importantes neste casamento. Ocorre que originalmente, a bebida indicada e continua sendo, para acompanhar estes pratos é o saquê (bebida elaborada com a fermentação de arroz, atingindo teor alcoólico em torno de dezesseis graus). A velha máxima vale aqui também: pratos locais com bebidas locais.

No mundo do vinho, o que mais se aproxima do saquê é tradicional vinho de Jerez, especialmente os da categoria Fino. Dentro desta especialidade, a Manzanilla é ainda mais indicada, sobretudo com sashimis. Ele apresenta o mesmo frescor dos espumantes, com uma personalidade bastante própria. Seu teor alcoólico é semelhante ao saquê, e os preços podem ser convidativos. Servi-los gelados, em torno de oito graus, mesma temperatura recomendada aos espumantes.

Risoto de Abóbora com Carne Seca

Este terceiro exemplo também já foi comentado neste blog como uma das mais surpreendentes harmonizações. Trata-se de um prato regional elaborado com técnica italiana (efeitos da globalização). Portanto, aqui não existe ainda uma harmonização clássica. Contudo, um Tokaji três Puttonyos elaborado de maneira tradicional (característica oxidação) é algo que vale a pena experimentar. O vinho tem personalidade para a carne seca e seu toque oxidado casa-se muito bem com o sabor da carne. A acidez combate bem a eventual gordura e a doçura do vinho é perfeita com o toque adocicado da abóbora.

A bela opção para quem não abre mão de um tinto são os vinhos de Rioja elaborados pela escola tradicional, sobretudo Reserva e Gran Reserva. Os taninos costumam ser bem domados e acidez é o ponto alto de seu equilíbrio. Os aromas levemente oxidados, as frutas em compota e seus toques empireumáticos e de baunilha equilibram a sutil doçura do prato. O eventual excesso de sal, se houver (a carne deve ser devidamente dessalgada), não incomoda a leve tanicidade do vinho. O corpo do vinho também é bem adequado à textura do risoto.

Enfim, é isso. Podemos sempre procurar novas alternativas, descobertas, calcadas nos verdadeiros princípios da enogastronomia baseada em atitudes de bom senso. Sempre é bom lembrar que estas experiências devem ser testadas previamente para que seus convidados e amigos não sirvam de cobaias. 

OIV: Tendências e Atualizações Mundiais

8 de Julho de 2013

Já é de praxe neste blog, informarmos as tendências e atualizações mais recentes no mundo do vinho através da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho). Este último congresso ocorreu em Bucareste no mês de junho deste ano. Algumas das últimas previsões se confirmam com destaque para a China, a estabilização do Velho Mundo, e certo crescimento no chamado Novo Mundo, particularmente nas Américas e Ásia.

A primeira constatação é que a área mundial de vinhedos vem caindo ano a ano de maneira discreta, chegando aos sete milhões quinhentos e vinte e oito mil hectares em 2012. Neste número há uma clara tendência de decréscimo nos vinhedos europeus, e acréscimo nos vinhedos asiáticos e americanos (principalmente América do Sul).

Quanto à produção total de uvas para diversas finalidades, não só a produção de vinhos, há uma certa estabilização, sendo que em 2012 este número deve ficar em seiscentos e noventa milhões de quintais (um quintal aproximadamente cem quilos). A China lidera com folga este ranking, seguida pela Itália e Estados Unidos.

OIV 2013 PRODUÇÃO VINHOSProdução Mundial de Vinhos

Na produção mundial de vinhos (vide gráfico acima), os três gigantes europeus seguem na liderança, porém sempre em tendência de queda. Já os Estados Unidos solidifica cada vez mais a quarta posição. O mesmo não acontece com a Argentina que manteve por longo tempo a quinta posição. Agora, China, Austrália e Chile, disputam a mesma com vantagem para os chineses que apresentam números de forte crescimento, a despeito da qualidade. A produção mundial deve ficar em duzentos e cinquenta e dois milhões de hectolitros que em outros tempos já superou a marca de trezentos milhões de hectolitros.

OIV 2013 CONSUMO  VINHOSConsumo Mundial de Vinhos

Quanto ao consumo mundial de vinhos (vide gráfico acima), a França ainda lidera, ameaçada fortemente pelos Estados Unidos. Alemanha e Reino Unido mantêm-se relativamente estáveis, enquanto a China dá um salto expressivo. Rússia e Canadá também destacam-se neste crescimento. A Itália e Espanha, grandes produtores, amargam forte decréscimo no consumo entre seus habitantes.

OIV 2013 IMPORTAÇÃO VINHOSPrincipais países importadores

Quanto à importação mundial, o quadro acima é bastante elucidativo nos tipos de vinhos que são comercializados. Vejam que a França não tem nenhum problema em importar vinhos em embalagens maiores. É mais barato e muitas destas embalagens tem um sistema a vácuo que preservar o vinho até as últimas taças a serem consumidas. Evidentemente, trata-se de vinhos para o dia a dia, sem maiores rituais. A importação de espumantes expressiva no Japão vai de encontro com sua gastronomia bastante típica. China e Canadá por exemplo, concentram-se em importações de vinhos engarrafados. O trio de ferro da importação permanece no topo (Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha).

OIV 2013 PRODUCÃO COMPARATIVA

Comparativo entre 2000 e 2012

Voltando à produção mundial de vinhos, o comparativo acima mostra que o bolo gradativamente está sendo fatiado com menor predominância do chamado Velho Mundo, embora sua liderança ainda seja expressiva. Além do crescimento chinês, o Chile continua expandindo seus vinhedos de norte a sul. A multiplicação de seus vales, buscando ao mesmo tempo uma identidade de terroir é notável. O vinhedo australiano também tem se expandido. A exemplo do Chile, a Austrália motiva-se neste crescimento, pois esses dois países travam uma batalha de gigantes no competitivo mundo dos maiores exportadores de vinho do chamado Novo Mundo.

Ducru-Beaucaillou: Um Super Deuxième

4 de Julho de 2013

Châteaux do Médoc: Aristocracia e Imponência

Dentre os super segundos (super deuxièmes ou super seconds) da famosa classificação de 1855 dos vinhos do Médoc (a chamada margem esquerda de Bordeaux), talvez minha maior dúvida  fique entre os châteaux Ducru-Beaucaillou e Léoville Las Cases, embora no fotochart, Léoville ganhe por uma cabeça. Contudo, é uma preferência estritamente pessoal e consequentemente, o rival acaba valorizando muito esta disputa. Portanto, vamos enaltecer alguns detalhes deste grande tinto medoquino da comuna de Saint-Julien. Esta comuna conta com oitocentos hectares de vinhas, dimensão semelhante à comuna de Pomerol, famosa na margem direita. Veja o vídeo abaixo, com o competente Bruno Borie, atual proprietário do château.

http://vimeo.com/12196433

Château Ducru-Beaucaillou possui setenta e cinco hectares de vinhas com idade média de trinta e cinco anos, distribuídas com forte densidade em torno de dez mil pés por hectare, onde as raízes atingem profundidades de seis metros em seu rico subsolo. Aliás, o solo deste vinhedo é lembrado no próprio nome, rico em boas pedras (beau caillou). O relevo deste solo pedregoso, bem drenado, é típico das chamadas “croupes de graves”, pequenas elevações do terreno, lembrando de certo modo belos campos de golfe.

 

Beaucaillou: as boas pedras do vinhedo

Nestas condições, a maturação da Cabernet Sauvignon é excelente, contando geralmente com setenta por cento do vinhedo. Praticamente, o restante é complementado pela Merlot e ínfimas parcelas de Petit Verdot, Cabernet Franc e Malbec. O vinho costuma amadurecer por dezoito meses em barricas bordalesas, sendo o percentual de renovação entre 50 e 80%, dependendo da potência da safra.

Destas grandes safras, talvez o melhor 1970 do médoc

É de fato um tinto de guarda, com inúmeros infanticídios antes dos dez anos de safra, infelizmente. Costuma conjugar a força de Saint-Estèphe com a elegância de Pauillac. Os aromas de frutas escuras, toques balsâmicos e o característico cedro, são típicos deste grande vinho. Rico em aromas terciários (cedar box ou caixa de charutos) em seu lento envelhecimento, é parceiro ideal com pratos elegantes acompanhados de trufas. Pela elegância e mistério, é muitas vezes comparado ao enigmático Château Lafite-Rothschild.

Provei recentemente a safra de 1999 com Dr. Cesar Pigati, diretor da ABS-SP, grande amigo e parceiro da boa gastronomia, e estava em grande forma. Não é uma safra excepcional, mas mantém o alto padrão do château. Maduro, com aromas terciários, mas com longa vida pela frente, pelo menos mais uns dez anos. Estrutura tânica de um autêntico Saint-Julien e persistência aromática notável. Enfim, todas as características de um grande margem esquerda.

Sommellerie: Two-Prong Cork Puller

1 de Julho de 2013

Já falamos algumas vezes sobre acessórios no serviço do vinho, mencionando inclusive o misterioso abridor de lâminas paralelas, também chamado amigo do mordomo. Este acessório é usado em casos especiais onde temos pela frente garrafas antigas e portanto, rolhas também antigas e fragilizadas pelo tempo. Estamos falando em rolhas com mais de vinte anos a serem removidas. São casos muito específicos que fogem de nosso dia a dia.

 Butler´s Friend (amigo do mordomo)

A maioria dos vídeos e demonstrações sobre a utilização deste tipo de abridor normalmente não refletem a situação real. Geralmente, são abertas garrafas de vinhos jovens e que portanto, nem precisariam deste procedimento. A pessoa introduz primeiramente a lâmina mais comprida e em seguida, a lâmina mais curta. Seus movimentos são rápidos e envolvem uma pressão exagerada na fixação do instrumento. Ocorre que na sua real utilização, a rolha está muito fragilizada, podendo romper com facilidade e normalmente bastante úmida quase em toda sua extensão. Nesses casos, o atrito lateral entre a parede interna do gargalo e a rolha costuma ser bem sútil. Com isso, a introdução mesmo que de maneira delicada, há grandes chances da rolha cair dentro da garrafa e por conseguinte, impossibilitar sua extração. Veja o vídeo abaixo, como podemos eliminar este problema quase inevitável em garrafas muito antigas.

http://youtu.be/2Os08NMUetA

Veja no vídeo, que o primeiro procedimento é travar a possibilidade da rolha cair dentro da garrafa. Com todo o cuidado, é introduzido um saca-rolhas em T até o final. Posteriormente, começamos a utilizar cuidadosamente o abridor de lâminas paralelas com toda a segurança em abraçar a rolha como se deve. Se você não possuir este acessório dois em um, bem acoplado, um saca-rolhas em T de pouca espessura apresenta desempenho semelhante.

É importante nos casos de rolhas muito antigas, remover toda a cápsula para uma total visualização do estado da rolha em todos os ângulos. Em seguida, remover bem todo o mofo de topo de rolha e qualquer outro vestígio impregnado no gargalo. Após a retirada da rolha com todo o cuidado, novamente faz-se necessário mais uma limpeza, principalmente no interior do gargalo. Em casa, é melhor utilizar bons guardanapos de papel não só pela higiene, como também por ser descartável, evitando lavagens demoradas com muitos produtos de remoção no caso dos guardanapos de tecidos.

Maiores informações sobre o vídeo, acessar o site www.durand.com mostrando mais detalhes.

Este artigo foi desenvolvido especialmente para um grande amigo que terá a cruel missão de abrir um Vintage Port 1977 (data de seu aniversário) em breve. Sugira você também um tema em sessão específica neste mesmo blog.

Clos Sainte Hune: O Montrachet da Alsácia

27 de Junho de 2013

Colina excepcionalmente bem posicionada

Alguns artigos atrás, falamos dos grandes vinhedos franceses, notadamente de brancos, mencionando as cinco preferências do príncipe dos gastrônomos, Maurice Edmond Sailland, mais conhecido como Curnonsky. Sem querer repará-lo ou corrigi-lo, longe disto, apenas acrescentaria mais um vinhedo iluminado, inclusive de uma região não mencionada pelo mestre, a Alsácia. O vinhedo não poderia ser outro, senão Clos Sainte Hune, a perfeição da Riesling no estilo absolutamente seco. O vídeo abaixo fala por si, abrilhantado pela participação do estupendo Serge Dubs, melhor sommelier do mundo em 1989.

http://youtu.be/IzKM3pbuseg

Neste estilo absolutamente mineral, para não cometer injustiças, eu o colocaria em pé de igualdade com o Montrachet da Alemanha, o excepcional riesling do produtor Egon Müller, do vinhedo Scharzhofberg na região do Saar, trazido atualmente pela importadora Ravin (www.ravin.com.br).

Voltando ao nosso Clos Sainte Hune, trata-se de um vinhedo de três acres (aproximadamente 1,67 hectares, um pouco menor que Romanée-Conti) denominado Rosacker com vinhas de mais de cinquenta anos, propriedade da maison Trimbach. Evidentemente, os rendimentos são baixos, totalizando em média oito mil garrafas por ano. O solo é de natureza argilo-calcária, comumente chamado de marga com prevalência do calcário. Após a fermentação propriamente dita, evita-se de todas as maneiras a fermentação malolática, potencializando ainda mais sua incrível acidez, bastante fiel ao estilo Trimbach. O vinho é envelhecido pelo menos cinco anos em garrafa nas adegas da propriedade, antes de ser comercializado. É de suma importância não abri-lo antes de seu décimo aniversário de safra. É um completo infanticídio. O vinho neste período é muito austero, fechado e com uma acidez absurda. No envelhecimento tudo modifica-se, a acidez crua transforma-se em frescor, os aromas terceirizam-se e sua incrível mineralidade se faz presente. Para os mais pacientes, é vinho para envelhecer por décadas.

 

1983: soberbo e de grande guarda

Uma das harmonizações mais recomendadas, segundo o sommelier Enrico Bernardo, é o carpaccio de lagostins com caviar. O frescor e o sabor idodado do prato, além da personalidade do caviar, reverberam magnificamente com a acidez e mineralidade do vinho. Naturalmente, harmonizações mais modestas como salmão defumado, ou pratos nesta linha com ovas de peixes, também dão ótimos resultados.

Outro grande riesling da Maison Trimbach que não poderia deixar de ser mencionado é a Cuvée Frédéric Émile, a união de dois excepcionais Grands Crus, Geisberg e Osterberg. O preço e a disponibilidade compensam a compra. Se não atinge toda a perfeição de Clos Sainte Hune, está muito próximo da mesma, ficando pronto em menos tempo. Contudo, seu poder de longevidade é notável.

Croupes Graveleuses: O caminho das pedras

24 de Junho de 2013

Médoc: Margem esquerda de Bordeaux

Mais uma vez voltamos a Bordeaux, mais especificamente em Médoc, a chamada margem esquerda. De todos os inúmeros fatores que fazem desta região um terroir de grande prestígio, o fator drenagem do terreno é em última análise o que determina a qualidade de um verdadeiro “Grand Cru Classé”. 

Para entendermos melhor esta história, voltemos ao século dezessete, onde engenheiros holandeses, especialistas em represamento de águas, drenaram toda a região do Médoc, até então encharcada de água, dificultando muito a agricultura local. Neste trabalho, foram executadas algumas valas de drenagem, muitas delas  servindo de divisa entre as comunas mais famosas como Saint-Estèphe, Pauillac, Saint-Julien e Margaux. Como resultado, em algumas áreas distintas, observou-se uma suave elevação de terreno (croupe), semelhante ao relevo de um campo de golfe. No entanto, em vez de grama, um solo pedregoso (graves), permitindo excelente drenagem e assim, acumulando água em camadas mais profundas. Para se ter uma ideia deste relevo em termos de altitude, o ponto mais alto do Médoc não passa de quarenta e três metros em relação ao nível do mar, sendo que os melhores vinhedos estão bem longe desta marca.

Graves: boa drenagem e calor para as vinhas

A origem destas pedras remonta milhões de anos, envolvendo cataclismos e eras glaciais, incluindo os Pirineus e o Maciço Central. Com o cíclico movimento das marés no rio Gironde, essas pedras acumularam-se exatamente nestas croupes, dando origem ao velho dita medoquino que diz: “as melhores vinhas são aquelas que olham o rio”. 

Pauillac - Vignes du Château Latour  en bordure de Gironde - Photo Michel CRIVELLARO

Château Latour: Vinhas olhando o rio

Esse fator, de certo modo, acaba influenciando na famosa classificação de 1855 dos crus bordaleses com a polêmica divisão em cinco níveis ou grupos, ou seja, do primeiro ao quinto caldo. Evidentemente, os cinco primeiros do Médoc (Haut-Brion, Lafite, Mouton, Latour e Margaux) não se discute. Seus vinhedos estão plantados nas melhores e mais espessas croupes da região. Entretanto, do segundo ao quinto caldo há muita dispersão entre as comunas.

Começando pelos Deuxièmes (segundos classificados), dos catorze châteaux escolhidos, cinco são da comuna de Saint-Julien e outros cinco da comuna de  Margaux. Embora Saint-Julien não tenha nenhum Premier Grand Cru Classé, as croupes estão bem espalhadas na comuna com châteaux de altíssimo nível. A comuna de Margaux impressiona mais ainda, por não ser tão compacta como Saint-Julien. É uma comuna mais extensa, mas mantém uma ótima distribuição das croupes. Isso é confirmado na classificação dos Troisièmes (terceiros caldos) com dez châteaux de Margaux entre os catorze classificados. Novamente, Saint-Julien e Margaux equilibram-se na classificação seguinte dos Quatrièmes (quartos classificados), onde temos dez châteaux no total. 

Já na última classificação, dos dezoito châteaux Cinquièmes (quintos classificados), doze são da comuna de Pauillac, ainda não mencionada nesta análise. Sabemos que dos cinco Premiers do Médoc, três são desta famosa comuna (Latour, Lafite e Mouton). Entretanto, a natureza não foi tão igualitária na distribuição das croupes, concentrando o que há de melhor para os três châteaux, com as camadas mais espessas de cascalho de todo o Médoc. Com isso, Pauillac é a comuna com maior disparidade entre os châteaux, confirmando outra máxima medoquina: “o solo do Médoc muda a cada passo”.

Saint-Estèphe - Château Cos d'Estournel -Deuxième Grand Cru Classé- Photo Marion CRIVELLARO

Cos d´Estournel: Château em grande forma

Saint-Estèphe, comuna ainda não mencionada, não foi tão abençoada pelas croupes, talvez até por sua posição geográfica em relação ao Gironde (é a comuna mais ao norte do Médoc). Contudo, as duas belas exceções são os châteaux Montrose e Cos d´Estournel. Aliás, na linguagem do Médoc, Cos significa Croupe.

Saint-Estèphe et PauillacJalle du Breuil: divisa de comunas

O mapa acima mostra na parte superior a divisa entre as comunas de Saint-Estèphe e Pauillac através da vala ou canal de Breuil, em francês Jalle du Breuil. Apenas quinhentos metros separam o Chãteau Cos d´Estournel do Château Lafite. Distância suficiente para diferenciar um Premier Cru de um Deuxième Cru. É a morfologia das croupes fazendo a diferença.