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A Chave de Hermitage

24 de Novembro de 2019

A maioria das pessoas não tem a dimensão exata do que é um grande Hermitage, um dos maiores tintos da França. A razão é simples. Poucos têm paciência em esperar pelo menos vinte anos de safra para abri-lo e além disso, desembolsar um valor considerável por uma garrafa dos produtores como Jean-Louis Chave e Paul Jaboulet com seu mítico La Chapelle.

Em almoço inesquecível no Parigi Bistrot do Shopping Cidade Jardim, tivemos a oportunidade de provar lado a lado uma trilogia de primeira grandeza desta apelação na excepcional safra 1990. Para entender melhor esta degustação, é bom esclarecer os detalhes e a concepção dos grandes Hermitages.

hermitage lieux ditsa montanha de Hermitage fatiada

Hermitage é uma das mais prestigiadas apelação do chamado Rhône-Norte, juntamente com a apelação Côte-Rôtie. Embora Hermitage se baseie na uva Syrah, é um vinho de assemblage, não de uvas, mas de pequenos vinhedos conhecidos como Lieu-Dit. Ao contrário da Borgonha, onde os vinhedos são individualizados, em Hermitage a complexidade do vinho dá-se pela junção de vários Lieux-Dits. É justamente esta diversidade e quantidade maior de Lieux-Dits que fazem de Chave e Jaboulet seus maiores expoentes nesta apelação. Neste contexto, fica fácil entender porque a periférica apelação Crozes-Hermitage é apenas uma pequena sombra do Gran Vin.

Olhando o mapa acima, temos uma montanha de subsolo granítico e solos variados entre areia, pedras, argila, e depósitos aluviais. Sua área é de apenas 136 hectares de vinhas, aproximadamente a área de um grande Bordeaux de margem esquerda como o Chateau Lafite. Na parte mais ocidental da montanha, temos os melhores lieux-dits para o chamado Hermitage tinto. Já a parte oriental fica predominantemente para os longevos Hermitages brancos com as uvas Marsanne e Roussanne. Analisando individualmente os lieux-dits, temos as seguintes informações:

L´Hermite

Fica bem no topo da montanha onde vemos a famosa capela com visão privilegiada do rio. A maioria das vinhas pertence a Jean-Louis Chave com solo granítico e de idade avançada, ao redor de 80 anos.

Les Grandes Vignes

Também de solo granítico, os produtores Jaboulet e Delas possuem as principais vinhas.

Les Bessardes

De solo granítico e pedregoso, talvez seja o lieu-dit mais famoso, pois suas vinhas têm grande participação na Cuvée Cathelin do produtor Chave e do lendário La Chapelle de Paul Jaboulet.

Les Beaumes

Boa participação de Chave nesta vinhas com solo misturado de areia, argila e depósitos aluviais.

Le Méal

Solos com depósitos aluviais e muito cascalho. Planta-se Syrah e Marsanne com boa participação do produtor Marc Sorrel.

Les Greffieux

Solos aluviais com muito cascalho e argila. Exclusivamente Syrah.

Péléat

Terroir quase todo de Chave com solos sedimentares pedregosos, argila, e sílex. Tanto uva Syrah, como Marsanne para o Hermitage branco.

Les Doignières

Além das uvas Marsanne e Roussanne, há um pouco de Syrah. Vários produtores se abastecem de suas uvas, inclusive Chave.

Les Vercandières

Vinhedo na parte baixa da colina, onde Chave cultiva Syrah e Marsanne.

Les Recoules

Outro reduto para as uvas brancas Marsanne e Roussanne em solos de argila, calcário e pedras glaciais. Muito importante para os Hermitages brancos de Chave.

Falando agora dos dois melhores produtores de Hermitage, embora nomes como Chapoutier, Delas, Marc Sorrel, devam ser lembrados, Jean-Louis Chave e Paul Jaboulet estão num degrau acima.

Jean-Louis Chave

Chave elabora dois Hermitages tintos e um Hermitage branco. Possui 14 hectares de vinhas, sendo 10 hectares de Syrah. O restante fica entre Marsanne (80%) e Roussanne (20%). As vinhas são muito antigas com média de idade de 50 anos.

Sua superioridade começa com a diversidade de vinhedos. Possui 14 parcelas espalhadas por nove Lieux-Dits mencionados acima. O Lieu-Dit Bessard onde Chave possui dois hectares tem vinhas que chegam a 80 anos. É considerado pelos especialistas, o coração e a alma dos vinhos de Chave.

As vinhas destinadas ao Hermitage branco são de solos variados e muito antigas. Isso faz destes brancos algo único na apelação com níveis de qualidade e complexidade bem longe da concorrência.

Os Hermitages tintos de Chave passam cerca de 18 meses em barricas de carvalho, sendo de 10 a 20% novas, dependendo da safra. Muitos dos barris usados vêm da Borgonha.

Sua cuvée de luxo, Cuvée Cathelin, parte de um blend especial onde o Lieu-Dit Les Bessards tem grande importância. O vinho tem mais concentração, mais finesse, e a porcentagem de barricas novas em seu amadurecimento é maior. São apenas 200 caixas por safra, onde somente em anos excepcionais ocorre sua elaboração. As garrafas são numeradas e sua primeira safra foi em 1990.

Paul Jaboulet

Este produtor possui 22 hectares de vinhas muito bem localizadas nos principais Lieux-Dits, entre eles, Le Méal com 6,8 hectares, Les Bessards com 2,6 hectares, além de Greffieux, Recoules, e mais alguns outros. Sua mais famosa cuvée La Chapelle parte do assemblage destes vinhedos mencionados. A porcentagem de barricas novas depende muito da qualidade da safra em questão. Geralmente o vinho é encorpado, bela estrutura tânica, e apto a longo envelhecimento. Nas grandes safras, seu apogeu costuma acontecer a partir de 30 ou 40 anos. São por volta de 2000 caixas de La Chapelle por safra.

Decantação

É imprescindível uma longa decantação com os vinhos de Hermitage, tantos brancos, como tintos. A uva Syrah é bastante redutiva e nesta apelação ela se torna mais robusta e fechada. Portanto, precisamos de duas a três horas de decantação antes de servi-los. No caso do La Chapelle, talvez um pouco mais pela robustez do vinho.

img_7001a fina flor de um grande Hermitage

Um embate sem perdedores. A ótima safra de 1990 só ratifica a excelência destes vinhos. O mestre Chave mostra um Hermitage mais delicado, cheio de nuances, e uma acidez, um frescor, impressionantes. O vinho mesmo depois de decantado, demorou a se abrir na taça. Muita mineralidade, algo terroso, toques defumados bem sutis, frutas vermelhas com muito frescor, notas de especiarias, e um toque de azeitonas. Um Hermitage de certa sutileza onde sua acidez comanda o equilíbrio do vinho, além de sua incrível longevidade.

No lado de Jaboulet, a cuvée La Chapelle mostra toda a virilidade de um grande Hermitage. O mais fechado e o mais denso entre os dois. Essa safra de 90 é tão espetacular como foram as lendárias 1961 e 1978. Com quase 30 anos, ainda é um vinho jovem, longe de seu apogeu. Deve seguir os mesmos passos do 1978, agora atingindo a plenitude. Um vinho espetacular com taninos finos e abundantes. Os aromas são arredios, difíceis de se mostrarem, mas o toque defumado, de frutas escuras, pimenta, e um lado animal, lembrando sela de cavalo ( um misto de suor e couro), são sensacionais. Um Hermitage de livro. Ao mesmo tempo que é blockbuster, seu equilíbrio é perfeito com todos os seus componentes (álcool, acidez e taninos) nivelados por cima. Um dos tintos mais poderosos da França. 

img_6999a maestria de Jean-Louis Chave

Aqui não se trata do melhor ou pior, trata-se de estilos de vinho. Nesta Cuvée Cathelin, imprime uma lado mais musculoso, mais exuberante, fugindo um pouco de seu classicismo de sutileza e discrição. A espinha dorsal dos vinhos é a mesma. Há um DNA em comum, na Cuvée Cathelin existe um poder de ousadia, sem perder jamais o refinamento. O vinho é mais musculoso, mais envolvente, mais direto, mas continua elegante e sedutor. É uma questão de gosto, mas o perfume do Cuvée Cathelin é arrebatador. Tem um mix de especiarias e incenso que lhe dá um toque oriental maravilhoso. E em boca, é pura seda. Em termos de longevidade não se enganem. Ele é maravilhoso agora e o será por anos a fio. 

img_6998um guisado de pato maravilhoso

Para acompanhar estas preciosidades, nada melhor que um belo guisado de pato, especialidade da Chef Vanessa, discípula do mestre Jacquin. De fato, o pato é a única ave não indicada para Borgonhas, normalmente muito delicados. Esta carne é sempre mais escura, mais sanguínea, de trama mais fechada. Isso pede vinhos mais densos e tânicos, haja vista as indicações de Cahors e Madiran no sul da França. 

Voltando aos Hermitages, eles foram muito bem com o prato num caldo muito saboroso, incluindo um mix de cogumelos. Os taninos se amoldaram muito bem com a fibrosidade da carne, enquanto a acidez cortou magnificamente a gordura do prato. Uma combinação espetacular.

a exclusividade de Madame Leflaive

Antes dos Hermitages, tivemos a companhia do ótimo Batard-Montrachet Domaine Leflaive safra 1996. Um vinhedo de menos de dois hectares com vinhas de idade entre 1962 e 1974. O mosto é fermentado em barricas de carvalho dos bosques de Allier e Vosges, e posteriormente amadurece mais doze meses em barricas com bâtonnage. 

Este exemplar teve uma evolução magnifica com seus mais de 20 anos. Notas de frutas secas e frutas confitadas, notas empireumáticas de caramelo e tostado, especiarias e muita mineralidade. Acompanhou muito bem vieiras grelhadas ao ponto com creme de couve-flor. Tanto a sutileza de sabores, como a textura de ambos, prato e vinho, se harmonizaram perfeitamente.

img_6995execução perfeita

Enfim, vinhos e pratos excepcionais, além da companhia dos amigos. Agradecimentos especiais ao Presidente que escolheu a dedo todas estas preciosidades com a generosidade de sempre. Os pratos só abrilhantaram ainda mais as taças degustadas. Que Bacco nos guie sempre nos melhores caminhos!

A melhor adega em Alphaville

2 de Novembro de 2019

Alguns tesouros ficam muito bem guardados em lugares que menos se esperam. É o caso de um dos meus confrades que estoca em caixas de madeira originais na maioria de sua coleção, mais de dez mil garrafas de vinhos de primeiro escalão. Sua paixão pelo vinho é antiga e desde então, vem abocanhando em vários leilões as melhores ampolas do planeta. Abaixo, um pequena amostra de seu arsenal.

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DRC em caixas originais

Num belo almoço em sua propriedade, desfrutamos um pouco da França entre Bordeaux, Bourgogne e Champagne. Para começar um velho conhecido, Dom Perignon Oenotheque 1996 com 12 anos sur lies antes do dégorgement.

a antiga nomenclatura das plenitudes

Equivalente nos dias de hoje à P2, este é um champagne de safra excepcional. Muito frescor, mousse aveludada, mostrando muita juventude. O contato sur lies preserva o champagne da oxidação, fornecendo textura macia e aromas incríveis. Nada melhor para dar inicio a um belo almoço.

bela combinação

O único branco do almoço brilhou com seus 14 anos de idade. Um Batard-Montrachet 2005 de Madame Leflaive. Mesmo em Batard, sua textura continua elegante, mostrando o estilo do domaine. Muito bem conservada, esta garrafa mostrava muita juventude. Aromas envolvendo cítricos, frutas secas, e um tostado muito fino. O equilíbrio em boca é notável com uma acidez refrescante e textura aveludada sem ser pesada. Fez um belo par com o risoto zafferano e trufas brancas.

img_6869um Mouton histórico!

Só deu tempo de decanta-lo por três horas. Um monstrinho engarrafado com um montanha de taninos. Talvez seja o sucessor do grande Latour 61, um vinho que esta se abrindo aos poucos numa lenta evolução. Dos nota 100 de Parker, este Mouton 86 está no topo da lista com previsão de apogeu para 2050 embora já o tenha feito para 2090. Já decantaram este vinho em Magnum por 48 horas. Esta garrafa provada estava perfeita com seus aromas terciários começando a aparecer. Notas de café, couro, caixa de charutos e um núcleo frutado muito intenso. Seus taninos são abundantes e muito finos, de textura muito agradável. Parece que começa a se desenhar uma fase de franco amadurecimento. Um tinto para quem tem paciência em adega.

Panceta crocante e brioche com ovos e trufas

Alguns dos pratos do almoço que foram muito bem com o champagne e o branco Batard-Montrachet. A gordura e os sabores da panceta foram escoltados pelo belo frescor do champagne e seus aromas de panificação e tostados. Já o brioche com ovos e trufas brancas foram de encontro ao sabores do Batard, além da  harmonia de texturas.

uma bela fromagerie

Além do almoço em si, vale a pena mostrarmos a sala de queijos do anfitrião onde são afinados peças de parmegiano reggiano por longos anos. São prateleiras com queijos de data de maturação diferentes com controle de temperatura e umidade. Pouco a pouco eles vão apurando e concentrando sabores. É o chamado affinage para os franceses. Existem alguns com nove anos de amadurecimento ricos em tirosina. São cristais de aminoácidos (proteínas) que provocam uma agradável salivação, enriquecendo a percepção dos sabores.

a vez dos velhinhos

Em safras antigas o que vale são boas garrafas e não grandes safras. Neste páreo entre os velhinhos, destaque para o Lafite 1967, totalmente evoluído em uma safra inexpressiva. A garrafa muito bem conservada mostrou um Lafite etéreo com seus terciários de notas terrosas, minerais, de chá e ervas finas. Percebe-se na boca a idade que pesa e não sem tempo, mas seu pedigree fala mais alto, mostrando que é um verdadeiro Premier Grand Cru Classé. Com as trufas fica maravilhoso.

Já o La Mission 1955 é um dos notas 100 deste chateau e o melhor entre todos os 1955. Lembro-me de uma garrafa tomada na França que estava maravilhosa. Um Bordeaux tão delicado que lembrava a textura dos grandes borgonhas. Este provado na foto acima, já estava bem evoluído, sobretudo na boca com a acidez desequilibrada. Os aromas ainda tinham notas de torrefação e um leve couro. Com certeza, já teve dias melhores.

Vale dizer que este vinho não é uma garrafa do chateau. Nesta época ainda era possível comprar barricas dos grandes chateaux de Bordeaux e engarrafa-las com o selo do négociant. No caso, um famoso comerciante belga, Vandermeulen,  que engarrafava vários chateaux famosos, dentre eles o La Mission. São vinhos de grande reputação com valores condizentes aos grandes chateaux no mercado. É que realmente esta garrafa não era daquelas especiais, onde vinho está perfeito.

img_6881bela surpresa do almoço por sua exuberância

Um Pomerol clássico com o corte de 80% Merlot e 20% Cabernet Franc. O vinho estagia entre 16 e 18 meses em barricas novas. Nesta bela safra 2000, o vinho encontra-se na juventude com muita fruta escura em geleia e lindos toques florais. A madeira é fina com taninos bem polidos. Deve ser decantado por duas horas, devendo envelhecer bem por pelo menos mais dez anos. São 5,9 hectares de vinhas produzindo em torno de 2400 caixans por ano. Tem uma vizinhança nobre ao lado de Trotanoy e Chateau Clinet.

img_6883Yquem nos seus melhores anos

O grande fecho de refeição se faz com Yquem, sobretudo este de safra 1990, uma das melhores do século passado. Embora já entrando nos seus 30 anos, está muma fase transitória entre a juventude e maturidade. Sua cor começa a ficar um pouco mais escura, lembrando caramelo. E é exatamente este sabor que ele transmite na taça. Muito bem equilibrado, seu teor alcoólico não passa dos 13 graus. Boa untuosidade com acidez compatível ao teor de açúcar. Foi muito bem com as frutas flambadas e o sorvete de creme.

Agradecimentos aos presentes e sobretudo ao anfitrião que nos recebeu com muito carinho. Com Champagne, Bordeaux e Bourgogne, fica tudo ainda mais especial. Teremos que voltar mais vezes, pois seu arsenal é poderoso. Que Bacco seja o guardião desta bela adega!

Grandes Vinhos, Grandes Formatos

2 de Junho de 2019

Os grandes Chateaux trabalham com garrafas maiores, a partir da Magnum.  Estes grandes formatos são raros, reservados para ocasiões especiais, onde o número de convivas deve ser razoável para a ocasião. A grande vantagem destas garrafas é a conservação e o poder de longevidade que podem atingir. O nível de oxigênio dentro da garrafa é muito mais baixo proporcionalmente ao volume de vinho.

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ullage: nível de vinho na garrafa

Na foto acima, os níveis 7 e 8 têm grande risco de oxidação. Os demais níveis dependem da idade do vinho. De todo modo, nos grandes formatos, o nível do vinho se altera muito pouco em relação ao formato standard (750 ml), comprovando a longevidade e conservação nestas garrafas.

e5d9452f-122b-4f22-a8ba-30f272dd4d2bGrande Magnum Domaine Leflaive!

Foi o que aconteceu num belo almoço com esses grandes formatos, começando com um Domaine Leflaive Chevalier-Montrachet 1996 em Magnum. Já com aromas desenvolvidos, mas muito equilibrado. Longa persistência aromática e evolução perfeita.

montrachet terroir

o sonho de qualquer Chardonnay!

Para completar a trilogia, Domaine Leflaive Batard-Montrachet e Bienvenues Batard-Montrachet, ambos 2014, foto abaixo. No mapa acima, o que há de melhor em branco na Borgonha, quiçá no mundo!

img_6146sutilezas do mosaico bourguignon …

Neste embate, ganhou a delicadeza do Bienvenues-Batard-Montrachet. Embora o Batard seja um branco de grande corpo e estrutura, a sutileza, os toques florais e o equilíbrio harmônico do Bienvenues, falaram mais alto, além do vinho em si parecer mais fresco que seu oponente. Dava impressão de uma evolução mais rápida do Batard, apesar de ser do mesmo ano.

Embora Bienvenues esteja na porção de Puligny-Montrachet, seu solo com predominância de argila fornece mais corpo e estrutura que o outro Grand Cru Criots-Batard-Montrachet, do lado oposto em Chassagne-Montrachet. O solo de Criots é mais pedregoso, tendo certa semelhança com Chevalier-Montrachet.

89d7f340-2c36-48b9-a15e-306b2099364co todo poderoso Latour!

Uma maravilhosa double Magnum de Latour 90 regou grande parte do almoço. Um tinto com 95+ pontos merecidíssimos, pois é espetacular. Que força, que musculatura, tentando sair da adolescência e ganhar a fase adulta. Taninos abundantes, mas extremamente polidos, além de um equilíbrio fantástico. Seus toques de couro, pelica, inconfundíveis, amalgamados em puro cassis. Um Pauillac de estirpe com longa vida pela frente. Pelo menos mais duas décadas. Decantado e degustado calmamente, evoluiu por horas, sempre melhorando. Bem mais inteiro do que normalmente vemos nas garrafas standards.

Nesta safra temos 75% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 4% Petit Verdot, e 1% Cabernet Franc. As uvas proveem do vinhedo L´Enclos, a porção de 47 hectares em torno do castelo mais prestigiada com vinhas de idade avançada. É considerado pelos especialistas, o melhor terroir de margem esquerda, pela força e longevidade de seus vinhos.

pratos condizentes com os vinhos

Polenta com funghi e Tortelli de vitela com molho de cogumelos foram alguns dos pratos do restaurante Nino Cucina. Pratos delicados em sabores e texturas, valorizando sobremaneira os aromas terciários destes grandes Bordeaux. Atenção sempre especial do maître e sommelier Ivan, veterano na Casa.

img_6150Outra double Magnum de prestígio

Haut Brion 1982 tem a mesma nota do Latour 90, porém numa outra fase evolutiva. Além de ser oito anos mais velho, o terroir de Haut Brion permite uma evolução mais rápida que o Latour. De fato, na região de Graves, apesar de pedregoso, a composição de solo mais arenoso em relação à argila, gera vinhos mais abertos e precoces. Além disso, seu blend é bem menos austero com grande porporção de Merlot: 45% Cabernet Sauvignon, 37% Merlot, e 18% Cabernet Franc. A Merlot contribui com a maciez do conjunto, enquanto a Cabernet Franc fornece extrema elegância ao blend.

De fato, este Haut Brion estava muito mais pronto em relação ao Latour. Seus aromas sempre sedutores de tabaco, algo terroso, de estrabaria, além de ervas finas, são marcas registradas deste incrível Chateau. A maciez em boca impressiona e os taninos são de seda. 

Notem na garrafa a apelação Graves e não Pessac-Léognan. Esta última mais restrita, só foi autorizada em 1987.

Como estamos falando de uma double Magnum, estranhamos um pouco essa prontidão exagerada, mais condizente com uma garrafa standard (750 ml). Tirando este detalhe, o vinho estava ótimo e pronto para ser tomado. Cada garrafa é sempre uma história única …

Enfim, uma aula de elegância, longevidade, e de taninos de rara textura. Agradecimentos a nosso Presidente pela imensa generosidade e por manter os amigos sempre por perto.

A família Montrachet e um pouco mais

17 de Fevereiro de 2019

Quando falamos do melhor vinho branco do mundo, estamos na Côte de Beaune, sul da Côte d´Or. O vinhedo Montrachet é cercado por outros quatro Grands Crus de primeira grandeza, dividindo terras entre as comunas de Chassagne-Montrachet e Puligny-Montrachet, conforme mapa abaixo:

montrachet vinhedos

berço espiritual da Chardonnay

Deixando de lado os Grands Crus Les Criots e Bienvenues Batard Montrachet, de produções diminutas, sobretudo Criots, o vinhedo Montrachet é cercado por Chevalier-Montrachet ao norte, e Batard-Montrachet ao sul.

Diferenças de altitude mas principalmente de solo, refletem características distintas aos três Grands Crus. Batard-Montrachet, de altitudes mais baixas e solos com maior proporção de argila em relação ao calcário do que os demais Grands Crus, gera vinhos de maior densidade, maior textura, sem serem pesados.

Ao contrário, Chevalier-Montrachet, com solos de maior altitude, mais pedregosos, e boa proporção de calcário, gera vinhos elegantes, com maior tensão, e de textura mais delgada em relação aos outros Grands Crus.

Finalmente, Montrachet, o vinhedo de altitude e solos intermediários, parece unir as virtudes dos dois Grands Crus que o cercam, mesclando com maestria, força, delicadeza, profundidade, e sutileza. Um espécie de Romanée-Conti dos brancos, sendo o centro gravitacional de todos aqueles que o cercam.

Neste contexto, testamos algumas garrafas destes Grands Crus com um dos domaines referência neste distinto terroir, Domaine Leflaive. Especialista na comuna de Puligny-Montrachet, seus vinhos são de pureza absoluta e de uma elegância ímpar.

Domaine Leflaive possui 4,7677 hectares de vinhas Grands Crus divididas entre os Grands Crus Montrachet, Batard-Montrachet, Chevalier-Montrachet, e Bienvenues-Batard-Montrachet. O número acima pode ser lido como: 4 hectares, 76 ares, e 77 centiares. Número bastante preciso em termos de agrimensura. 

img_5676batalha de gigantes

Teoricamente no confronto acima, Chevalier-Montrachet deveria sagrar-se vencedor, uma especialidade do Domaine. Contudo, o vinho estava prejudicado com ligeira oxidação. Para complicar mais a disputa, a garrafa do Batard-Montrachet estava perfeita. Conclusão, o Chevalier meio cansado e de evolução adiantada, pareceu mais pesado que seu oponente. Reforçando o fato, Madame Leflaive consegue se impor no terroir de Batard, gerando vinhos com uma delicadeza e elegância surpreendentes. Degustados às cegas, pelas razões acima expostas, nos enganamos nos palpites, fazendo-nos quase jurar que o Batard era sem dúvida o Chevalier-Montrachet. Uma grata surpresa!

img_5678a comparação é cruel

Até então, o Batard 95 estava quase perfeito num vinho de grande equilíbrio e complexidade. Neste segundo flight, surge o estupendo Batard 96 para desbanca-lo, colocando-o nas cordas, mas sem nocaute. Trata-se de um dos melhores de todas as safras deste Grand Cru, rememorando aos míticos anos 1985 e 1992. O vinho era tão espetacular, que parecia pelo menos dez anos mais jovem que seu desafiante, o ótimo Batard 95. Enquanto temos frutas secas, mel, e especiarias no Batard 95, encontramos um frescor extraordinário no Batard 96 com notas de flores, fino tostado, e um intrigante cítrico com toques de limão. Bastante tenso em boca. Só mesmo Leflaive para dar esta leveza no terroir de Batard-Montrachet, embora não nos esqueçamos de Ramonet, um gênio deste Grand Cru. Notas para o Batard 95 e 96, respectivamente. 93 e 97 pontos, distância justa que os separam.

Domaine Leflaive Batard-Montrachet Grand Cru – Ficha Técnica

Quatro parcelas de vinhedos, sendo duas localizadas na comuna de Chassagne-Montrachet, e duas na comuna de Puligny-Montrachet. A idade das vinhas varia entre 1962 e 1989, perfazendo um total de 1,91 ha, ou seja, menos de dois hectares.

A vinificação segue o padrão clássico com fermentação do vinho em barricas de carvalho. As barricas são de idades variadas com 25% de carvalho novo. A procedência da madeira de acordo com a exata granulometria exigida, tem no mínimo metade provinda da floresta de Allier, e no máximo, metade provinda da floresta dos Vosges.

O vinho estagia doze meses em barricas após a fermentação, e em seguida, mais seis meses em cubas inertes, antes do engarrafamento para perfeita estabilização.

algumas iguarias de acompanhamento

Entre um gole e outro, alguns mimos do restaurante Nino Cucina para conter a salivação: Burrata Caprese, Presunto de Parma, e Polvo grelhado na frigideira. Em especial, este polvo com algumas gotinhas de limão deu as mãos ao incrível Batard 96.

na sequência …

Antes do prato principal, almôndegas afogadas num delicioso e concentrado molho pomodoro e um gnocchi muito bem executado com molho de tomate e queijo taleggio. Pratos reconfortantes.

o indestrutível Syrah!

Agora o grande tinto do almoço em magnum, Chapoutier Ermitage Le Pavillon 1990, um tinto indestrutível. Com quase 30 anos, sua cor ainda é um rubi carregado e intenso. Após três horas de decantação, lembrando que Syrah é um dos vinhos mais redutivos, os aromas se mostram austeros, arredios, sugerindo frutas negras, azeitonas, um toque de alcaçuz, cacau,  e um fundo defumado. Em boca, seus taninos são firmes, mas bem polimerizados, finalizando com belo equilíbrio. 

A pergunta é: quanto vale este vinho?. Para Parker, um apaixonado pelo Rhône, 100 pontos inconteste. Já para seu assistente, Neal Martin, 89 pontos. Pessoalmente, acho que esse é um caso clássico onde Parker se emociona demais e acaba não sendo tão rigoroso e imparcial como nos Bordeaux. Eu ficaria numa faixa entre 92 e 95 pontos. Não mais que isso, o que não é pouco.

Apenas para ressaltar a exclusividade deste tinto, Le Pavillon é o que Chapoutier chama de Sélection Parcellaire. São apenas quatro hectares de vinhas centenárias, entre 90 e 100 anos. Seus rendimentos são baixíssimos, ao redor de 15 hl/ha. A vinificação dá-se em cubas de cimento com longa maceração das cascas. O vinho amadurece em barricas de carvalho entre 18 e 20 meses, sendo apenas 30% novas. Chapoutier diz ser um vinho para durar 60 anos, podendo chegar em safras espetaculares como 1990 a 75 anos, se bem adegado.

batatas assadas como molho cremoso

Pelas fotos acima, costeletas de cordeiro grelhadas, empanada em farinha com ervas. Como acompanhamento, batatas assadas com molho cremoso de queijo. Todos esses sabores e texturas foram tirados de letra pelo Ermitage com sua incrível estrutura.

um Yquem histórico!

Se existe um Yquem mítico no século XXI, por enquanto é o Yquem 2001. Uma força e estrutura extraordinária. Ele é denso, grandioso, harmônico, longo, longo, muito longo. Seu apogeu está previsto para 2100. Talvez já esteja reencarnado para prova-lo novamente.

Como sobremesas, a panna cotta com frutas vermelhas não comprometeu e nem emocionou na harmonização, mas o arroz doce com doce de leite fez um casamento interessante com o vinho. As texturas se complementaram e o nível de açúcar de ambos se respeitaram. Um belo fecho de refeição …