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Caminhos de um nota 100

21 de Setembro de 2019

Toda vez que nos deparamos com um vinho nota 100, algumas indagações vêm à mente. Será que é mesmo um nota 100, já foi um nota 100, ou será um nota 100?. Tudo isso porque o vinho evolui, tem seu auge, e seu inexorável declínio. Neste encontro entre amigos, tudo isso foi questionado e didaticamente esclarecido no agitado restaurante Nino Cucina.

img_6671a perfeição em Blanc de Blancs

Para iniciarmos os trabalhos em alto nível, nada como um bom Krug, especialmente um Clos du Mesnil 2004, última safra lançada pela lendária Maison. São apenas 1,8 hectare de vinhas Chardonnnay no melhor terroir da Côte des Blancs, Mesnil sur Oger.

Krug não tem pressa para elaborar seus vinhos. Este exemplar passou doze anos em suas caves antes de seu lançamento, boa parte deste tempo sur lies (em contato com as leveduras). Isso traz enorme complexidade ao champagne, além de mantê-lo frescor todos esses anos. Agora sim, vai começar seu envelhecimento em adega. De fato, ainda está uma criança. Um frescor inigualável, mineralidade, toques cítricos de grande pureza, e um equilíbrio em boca fantástico. Sua persistência aromática é longa, deixando um final vibrante e de muita mineralidade, salinidade. Deve envelhecer por no mínimo, mais dez anos em adega. Como dizia Henri Krug: é fácil me agradar, basta servir o melhor!

deliciosos arancini

Continuando nos brancos, mais um Borgonha de fina estirpe, Meursault-Charmes 2015 do Domaine Lafon. Outro minúsculo vinhedo de 1,71 hectare com vinhas plantadas em 1946, 1963, e 1996. O vinho tem um longo trabalho em barricas com sucessivos bâtonnages (revolvimento das borras conferindo textura e complexidade), especialidade e savoir-faire do Domaine Lafon. Um vinho delicioso com toques amáveis de pâtisserie, macio, textura sedosa dos grandes Meursaults, e muito longo em boca. Acompanhou muito bem os deliciosos arancini recheados com queijo.

img_6673um dos Montrose mais perfeitos

Neste primeiro nota 100, Parker sugere que algumas garrafas podem ter sido afetadas por Brettanomyces (Brett), pois seu lado terciário, animal, acaba sendo muito prevalente, sufocando um pouco a fruta. Neste exemplar, o vinho estava perfeito e muito próximo do auge. Tinha couro, estrebaria, caixa de charutos, mais ainda com fruta deliciosa e ervas. Seus taninos poderosos muito bem polimerizados e um frescor dos grandes Saint-Estèphe. É muito longo em boca e não parou de evoluir nas taças, justificando sua nota. Precisa ser decantado por pelo menos uma hora. Encontra-se delicioso no momento.

Assemblage: 64% Cabernet Sauvignon, 32% Merlot, 4% Cabernet Franc

Amadurecimento: cerca de 18 meses em barricas (60% novas, em média).

img_6675o carneiro saltitante nesta grande safra

Felizmente provei esse vinho várias vezes em diferentes momentos de evolução, e cada vez mais, percebo que se encontra no auge. Certamente, não terá a mesma longevidade que seu arquirrival Latour 82. Há dez anos por exemplo, era mais agradável, mais exuberante que o próprio Latour de mesma safra. Hoje em comparação com outros nota 100 degustados, percebemos claramente que não tem mais como evoluir. Seus taninos estão todos resolvidos e os aromas terciários plenamente evoluídos. Prazer total em provar um grande Bordeaux em seu esplendor. Certamente, um dos melhores em toda a história do Mouton.

Assemblage: 85% Cabernet Sauvignon, 8% Cabernet Franc, 7% Merlot

Amadurecimento: 19 a 22 meses em barricas novas

img_6674a perfeição existe!

Falar de grandes Bordeaux, especialmente do chateau Haut Brion, é algo até redundante. Safra após safra, este chateau é um dos mais consistentes entre todos os grandes. Contudo, de tempos em tempos, surge um Haut Brion fora da curva, acima da média que já é bastante alta. Um deles é este maravilhoso 89, seguramente um dos cinco melhores Bordeaux entre todos de 89 pra cá. É o menos pronto entre os nota 100 provado, mas já é absolutamente delicioso e irresistível. O vinho tem um força extraordinária, harmônico, macio, taninos em profusão, mas extremamente finos. Os aromas de fazenda, de estrebaria, de ervas finas, de caixa de charutos, notas de café, e tantos outros indescritíveis. A boca é generosa, perfeita, sem arestas, e o vinho fica, fica, e fica na boca. Deve ainda evoluir por longos anos, pois sua juventude se faz presente com muito vigor. Realmente, um privilégio provar este 89 mais uma vez. Vinho da ilha deserta …

Assemblage: 50% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot, 9% Cabernet Franc

Amadurecimento: até 24 meses em barricas novas

a doçura sublime!

Dos vários Yquem que tenho provado, este 2001 vai fazer história. Do século passado, o mais recente capaz de equipara-lo é o Yquem 1975, sempre divino. Este 2001 ainda está na infância, dando seus primeiros passos, mas é um mamute engarrafado. Uma força extraordinária onde o açúcar, álcool e acidez, estão em perfeita harmonia. Os toques botrytisados, o mel intenso, a fruta exuberante, tudo em perfeito equilíbrio. Com apogeu previsto para 2100, ainda terá muitas roupagens rumo ao esplendor. No momento tem a força necessária para um cremoso roquefort. 

Balanço perfeito: 13,6% álcool, 150 g/l açúcar, e 4,5 g/l acidez (e um extrato fabuloso).

9629421d-48d2-4933-842c-9cffebf96395Dream Team

Com essa turma acima, não há mais o que falar. Só agradecimentos ao Presidente pela imensa generosidade e extremo bom gosto. Abraços fraternos a David e Ettore pelo sacrifício. Vinhos para não procurar defeitos, apenas contempla-los. Difícil superar esta seleção. Que Bacco continue nos guiando pelos melhores caminhos!

Bordeaux 82, o Paraíso existe!

12 de Maio de 2019

O ano de 1982 só não foi perfeito porque nossa seleção do saudoso Telê Santana lamentavelmente não levou o título mundial. Em compensação, Bordeaux teve sua safra gloriosa, generosa, em ambas as margens com uma das colheitas mais fartas de todo o século XX. Podemos pensar em safras como 53, 55, 59 (minha safra), 90, 95, 96, e as minúsculas mas espetaculares safras 45 e 61. Entretanto, os prazeres de provar um 82 são notáveis com vinhos no auge de seu apogeu, sendo que alguns ainda chegando em seu momento perfeito.

As perspectivas desta safra na época não eram muito animadoras pela crítica especializada, dizendo ser uma safra de acidez discreta, não apta a longo envelhecimento. Eis que surge a opinião de um jovem advogado americano contrariando os papas da época, afirmando ser uma safra de fruta esplendorosa, taninos abundantes, de textura sedosa, e com um extrato fabuloso para décadas de envelhecimento. Surge a partir daí, o mito Robert Parker, um americano ditando regras em meio à soberba francesa. Sua influência chegou a tal ponto, que a precificação de cada safra em Bordeaux dependia diretamente de sua avaliação e comentários.

Após este prefácio, tudo isso foi confirmado num memorável jantar no restaurante Fasano com um menu coordenado para quatro grandes flights.

as preliminares do jantar

À espera dos convivas, mesa posta e alguns drinks estimulando os sentidos como o clássico Dry Martini. Na recepção, ainda fora da mesa, uma trilogia de champagnes dando o tom do evento, foto abaixo. Salon 97 ainda uma criança. Cheio de tensão e mineralidade, suas borbulhas exibiam a delicadeza de um dos mais longevos champagnes. Como contraste, mas igualmente brilhante, um Cristal 82 maduro de uma bela safra. Champagne gastronômico, frutas maduras, cheio de brioche e pâtisserie. Borbulhas um tanto discretas, mas com uma textura inigualável. No meio do caminho, um Dom Perignon 2000, sempre elegante, delicado e estimulante. Nada melhor para esquentar os motores!

trilogia em Champagne

Sem mais delongas, vamos ao desfile bordalês com muitas surpresas e algumas decepções, fatos inerentes, sobretudo em degustações às cegas. As garrafas foram abertas e checadas pelo competente sommelier Fábio Lima, sob a batuta do mestre Beato. O maître Almir, patrimônio da Casa, coordenou a sequência de pratos à mesa.

img_6068-1vizinhos num desempenho brilhante

Neste primeiro flight, a primeira baixa. Montrose estava prejudicado com um “elegante ” bouchonné. Já os dois vizinhos brilharam, pois estão lado a lado na divisa de comunas entre St Estèphe e Pauillac. Lafite 82 talvez em sua melhor garrafa na noite, pois tivemos quatro delas, manteve a hierarquia num vinho elegante e aristocrático. Cos d´Estournel ratificou sua nobreza numa das melhores safras de toda sua história. Vinho de uma riqueza impressionante, bem estruturado, e longe de qualquer sinal de decadência. A primeira grande surpresa do jantar.

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o carneiro saltitante brilhou!

Neste segundo flight, mais uma baixa. O La Mission, um dos notas 100 de 82 estava um tanto estranho. Na verdade, seus aromas estavam muito redutivo, necessitando intensa oxigenação. Depois de um bom tempo na taça, mostrou sua elegância. Já o Mouton 82 quando a garrafa é perfeita, é um vinho quase imbatível. Exuberante, rico em aromas e uma textura extremamente sedosa. Outro grande que brilhou foi o Gruaud Larose que só não levou o flight, porque o Mouton estava perfeito. No entanto, este St Julien nesta safra especificamente, é um dos grandes destaques com uma consistência impressionante.

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aqui a hierarquia não foi respeitada

Embora os dois Premiers, Lafite e Mouton, sejam magníficos, estas duas garrafas não estavam em sua melhor forma, provando que em vinhos antigos, a garrafa é que manda e não a safra. Neste contexto, o Pichon nadou de braçadas numa garrafa magnífica. Realmente Pichon Lalande 82 é seguramente um dos cinco melhores  chateaux desta safra com uma elegância, equilíbrio e distinção, notáveis. É de fato, um super Deuxième. 

dois pratos de um menu em quatro atos

Num menu para vinhos desta estirpe, a delicadeza, sutileza e sintonia de sabores, devem andar em sincronismo. Para o primeiro prato, foi pensado algo que aguçasse os sabores terciários dos vinhos com uma Textura de Cogumelo. No segundo flight, para estimular e reavivar as papilas, um tartar de atum entrou em cena com vinhos mais frutados e de taninos mais dóceis. O terceiro prato, foto acima, era um risoto de pato com foie gras, valorizando os bordeaux de textura mais rica. Por fim, cordeiro em crosta de ervas e pistache, foto acima, dando suculência aos vinhos de taninos mais firmes e estruturados.

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St Estèphe brilhou novamente

Novamente uma baixa da degustação. Lafite 82 em sua terceira garrafa, com toques de oxidação e evolução estranha de aromas, algo resinoso. Leoville Las Cases 82, sempre um dos vinhos mais austero da safra, mas de muita sofisticação e sobriedade. Por fim, a segunda garrafa do Cos d´Estournel, magnífica. Levou o flight e se revelou de longe, a maior pechincha da noite. Um vinho que se encontra no seu esplendor com amplo platô de estabilização. Deve ainda dar muitas alegrias. 

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flight arrebatador 

Neste último flight, no apagar das luzes, eis que surge o único 86 da brincadeira. O grande Le Pin numa garrafa esplêndida. Só de peitar o grande Pichon, novamente numa garrafa perfeita, percebe-se a distinção deste grande Pomerol. O único margem direita e o único não 82, levou o prêmio da noite como melhor vinho, na opinião de muitos presentes. O Lafite também foi bem, embora de uma garrafa ainda meio tímida, frente ao desempenho perfeito de seus concorrentes de páreo. Pichon despediu-se glorioso nesta segunda garrafa, já deixando saudades de uma noite de sonhos.

A conversa continuou um pouco mais à mesa em meio a cafés, petits-fours, champagne, e grappas. Agradecimentos a todos os confrades, em especial ao Camarguinho, que com muita classe e fidalguia, proporcionou um encontro descontraído e bastante animado. Que o entusiasmo, generosidade, e cumplicidade, continuem reinando nesta confraria!

Bordeaux e seus anos Dourados

16 de Julho de 2018

Os anos 80 foram ótimos para Bordeaux, especialmente com a mítica safra de 82, uma das melhores do século XX. Tirando 84 e 87, safras de poucas emoções, o restante tem muita coisa boa. Neste almoço, demos atenção à dobradinha 89/90, anos de vinhos gloriosos com bom potencial de guarda. Difícil afirmar taxativamente a superioridade de um desses dois anos, embora a safra 90 desperte maior glamour. Entretanto, 89 pode surpreender e ganhar esta disputa. Tire suas próprias conclusões com os vinhos abaixo.

img_4864la vie en rose …

Como de costume, algumas borbulhas para atiçar as papilas são bem-vindas, ainda mais com um Dom Pérignon Rosé 2003. Neste exemplar, temos 60% de Pinot Noir e 40% de Chardonnay. Nesta porcentagem de Pinot, temos uma parte de vinho tinto, dando a nuance e intensidade do rosé. É o chamado Rosé de Assemblage (5 a 20% de vinho tinto). Estilo elegante, muito frescor, mousse presente e cremosa. Tem um lado gastronômico, capaz de acompanhar muitos pratos à base de peixes, aves, e frutos do mar.

img_4869o terroir explica as diferenças

Voltando aos caldos bordaleses, vamos ao primeiro flight, o mais desigual em evolução e estrutura dos vinhos. Afinal de contas, tínhamos o rei Petrus na parada, um tinto sempre de estrutura e longevidade monumentais. Aqui percebemos de fato a força do terroir. Como é possível obter um Merlot com tamanha estrutura tânica, força, e austeridade. Nesta safra 90, temos um Petrus de 100 pontos com previsão de apogeu para 2054. Um tinto com uma força extraordinária  de frutas escuras, notas de cacau, chocolate, especiarias, e um toque terroso. Taninos massivos e extremamente finos. É imperativo decanta-lo por pelo menos duas horas. O infanticídio do almoço, sem dúvida. 

Vieux Chateau Certan 90 fez um par gracioso ao lado de sua Majestade, mostrando bela evolução ao longo de seus 28 anos. Um tinto pleno de aromas com um toque de margem esquerda, já que seu blend comtempla além da Merlot, Cabernet Franc, e Cabernet Sauvignon, pouco usual nestas paragens, nas seguintes proporções respectivamente: 65 a 70% Merlot, 25% Cabernet Franc, 5 a 10% Cabernet Sauvignon. Encontra-se no auge de sua evolução com toques de tabaco, couro, ervas finas e notas balsâmicas. Muito prazeroso neste momento. Os mesmos proprietários do badaladíssimo Le Pin, outro Pomerol de destaque.

img_4871embate de gigantes!

Este segundo flight só foi decidido no fotochart. Dois dos grandes Montroses lado a lado, safras 89 e 90. Duzentos pontos sobre a mesa e um punhado de dúvidas quanto à identificação. É intrigante como Parker pontua o Montrose 90 com 100 pontos e uma (?) interrogação entre parênteses. De fato, é um vinho bem evoluído no nariz e bem resolvido em boca, mas aquele toque de curral, animal, é mais acentuado que o 89, dando margem à possível presença de Brettanomyces (contaminação desta levedura no vinho, perdendo o poder de fruta, e acentuando toques terciários nos aromas). A sensação é que este exemplar de 90 está pronto, sendo temeroso guarda-lo por muito tempo. Já o 89 mostrou-se superior, pelo menos pessoalmente. A fruta está mais presente, sem perder seus toques terciários. Ele parece um pouco mais encorpado e com maior estrutura tânica. Seu apogeu pode atingir o ano 2060, segundo Parker. Pessoalmente, acho um pouco exagerado. O tempo dirá, mas que é um baita vinho, não tenho dúvidas. 

VCC à esquerda, Petrus à direita

Alguns pratos do restaurante Gero escoltaram essa tropa de tintos. O Capeletti in Brodo fez uma parceria exótica com o Pomerol VCC 90. Seus aromas evoluídos e sua textura mais delicada caiu bem com o brodo.

img_4873as duas margens em confronto

No útimo flight, um embate da safra 89 com dois vinhos de comunas diferentes, Saint-Emilion e Pessac-Léognan. O primeiro vinho, Chateau Tertre Roteboeuf, é um Grand Cru de Saint-Emilion, mas não está no grupo de elite. Localizado próximo aos Chateaux Pavie e Troplong-Mondot, sua primeira safra deu-se em 1978, relativamente recente. Embora seus vinhos partam de um corte clássico para esta apelação (80% Merlot e 20% Cabernet Franc), seu estilo é mais austero, aproximando-se do famoso Ausone. A safra 89 degustada, é uma das melhores de sua história com 95 pontos. Percebe-se em boca um vinho estruturado com riqueza da taninos de textura muito fina. Seus aromas já com boa evolução denota fruta madura, notas de especiarias e chocolate, além de um toque mineral. Bem mais acessivel que seu parceiro no flight, o delicioso La Mission Haut Brion com 100 pontos consistentes.

Com boa proporção de Merlot no Corte, sendo a Cabernet Sauvignon a uva majoritária, é um Pessac-Léognan com toques de estrebaria, ervas finas, chocolate, tabaco, e tantos outros aromas. Embora evoluído e bastante prazeroso, tem muita elegância e vida pela frente. Particularmente, achei esta garrafa um pouco mais evoluída que a média. A despeito de seus 100 pontos, ainda acho seu eterno rival e vizinho Haut Brion, insuperável nesta memorável safra 89.

risoto e a famosa coteletta

Mais alguns pratos entremeando os vinhos. O risoto de parmesão com molho de rabada por cima foi muito bem com a dupla de Montrose. Os toques terciários dos vinhos além da força de sabores, complementaram bem a intensidade e personalidade do prato. Já a Coteletta Milanese foi muito bem com a elegância do La Mission Haut Brion 89.

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Neste embate doce, o grande Yquem brilhou nos dois anos, 89 e 90. Difícil comparar a complexidade e longevidade destes dois exemplares. O da safra 90 parece ser mais equilibrado em acidez e menos opulento. Vai na ala dos Yquems mais elegantes. Sua acidez certamente o levará muito longe em adega. Já o 89 é mais opulento, mais glicerinado, parece ter mais Botrytis. É uma questão de gosto, mas o 89 pessoalmente, é mais persistente em boca.

a competência no salão do mestre Ismael e o jovem sommelier Felipe

O creme de mascarpone com chocolate, foto acima, foi um bom complemento para os dois Sauternes, respeitando a compatibilidade de textura na harmonização. Um final de prova delicioso com mais esta especialidade bordalesa, os divinos brancos de Sauternes e Barsac.

Enfim, mais uma bela oportunidade de provar e confrontar os belos tintos de Bordeaux, onde Chateaux e safras permitem um cem números de experiências e combinações formidáveis. Agradecimento aos confrades por mais este momento, numa prova sempre recorrente de amizade e generosidade. Que Bacco nos proteja sempre!

Festa bordalesa com certeza!

28 de Novembro de 2017

Dando prosseguimento ao inesquecível verão de 42, vamos agora entrar no time bordalês, liderado pelo rei Petrus. Para aquecer os motores, uma pequena prova às cegas: Montrose 89, Vieux Chateau Certan 90, e Mouton 90. É evidente que o Mouton deste ano ficou na rabeira. É misterioso como este vinho  consegue ser desapontador. O ano de 90 é maravilhoso, todos os outros Premiers têm pontuações altíssimas. Margaux é nota 100 e Latour outra maravilha, mas no caso do Mouton erraram a mão feio numa safra gloriosa. Tomado sozinho, é um vinho agradável, bem equilibrado, porém sem o punch de um grande Mouton. Isso fica muito claro quando comparado lado a lado com outros chateaux de mesmo ano. Falta meio de boca.   

gero margem esquerda

neste caso, a hierarquia se inverte   

Em compensação, O Montrose 89 é espetacular. Com notas sucessivamente aumentadas por Parker ao longo dos anos, Montrose tem a maciez e aquela explosão de frutas bem de acordo com a safra 89. Ele até chega a fugir um pouco de seu estilo mais austero e fechado. Tem grande presença em boca, taninos abundantes e ultra polidos, acidez na medida certa, e uma expansão final extremamente harmoniosa. O melhor de tudo, é que no ano seguinte repetiram a fórmula. Montrose 90 também é estupendo.

gero pomerol 89 e 90

o rei Petrus intimida os companheiros

O terceiro vinho, Vieux Chateau Certan 90 têm duas enormes vantagens. Esta muito prazeroso de ser tomado e tem um preço bem camarada para um Bordeaux 90 com aromas terciários. Ainda com um bom núcleo frutado, os aromas de tabaco e de couro são sedutores. Muito bem equilibrado, este Pomerol tem um certo jeitão de margem esquerda. Muito provavelmente, pela alta proporção de Cabernets, tanto Cabernet Franc, como Cabernet Sauvignon. Enfrentou bem o Montrose 89 (nota 100) por um preço bem abaixo. No máximo, metade do valor.    

gero bordaleses 89 e 90

a turma toda na foto

Após longa decantação, a magnum de Petrus 1989 foi servida. Na extensa fila de notas 100 do rei de Pomerol, Parker coloca o 89 no topo, junto com o 90 e 2000. Ao contrário do Montrose de mesmo ano, ainda não quer muita conversa. Troca algumas palavras e basta. Êta cara difícil!. O vinho tem uma força extraordinária. Parece que ele está preso numa camisa de força, pronto a explodir a qualquer momento. É por isso que Petrus é Pomerol, e não Merlot. Aquela montanha de taninos, aquela estrutura portentosa, não tem muita a ver com os Merlots comuns que esbanjam suavidade e maciez. Quem tiver paciência, estará diante de um dos maiores tintos já elaborados. Auge previsto para 2040. Proporcionalmente, bem mais acessível que o 90, um ano mais novo, com previsão para 2065. É meus amigos, o jeito é esquece-lo na adega.

gero linguine e ragu de coelho

linguine e ragu de coelho

Mais um belo prato do restaurante Gero, bela massa com molho substancioso. Sem modismos, sem frescura, comida com gosto de comida. Coisas de quem entendo do riscado.    

Por fim, ainda deu tempo de dar uma passadinha em 1978 com o fabuloso La Mission, outro colecionador de notas 100 de Parker. Este em questão tem 96 pontos com enorme vantagem de estar pronto e absolutamente delicioso. É sério candidato ao vinho da safra 78. Longe de qualquer indício de decadência, este La Mission tem aromas e sabores multifacetados com o típico tabaco, defumados, estrebaria, e outras cositas próprias de sua apelação Pessac-Léognan. O eterno rival e vizinho de parede do altivo Haut Brion. Parede é força de expressão, basta atravessar a rua.

Em resumo, uma aula de Bordeaux  com suas contradições e exceções. Senão vejamos, Montrose é um clássico Saint-Estèphe austero, mas a safra 89 quebra um pouco essa austeridade, dando suavidade ao vinho. Os dois de Pomerol fogem um pouco da costumeira maciez e feminilidade da apelação. Petrus, por características únicas de terroir e VCC, pela proporção de Cabernets.   

Ainda falando de Pomerol, este VCC 1990 seria mais austero com a maciça maioria de outros vinhos da comuna, sobretudo da precoce safra 89. Como ele bateu de frente com o Petrus 89, os papeis se inverteram. Ele virou a mocinha do casal. A situação faz o ladrão!

Senhores, caros confrades, mais uma vez meus agradecimentos. Essas aulas que vocês proporcionam valem muito mais que todos os livros e tratados sobre vinhos. Saúde a todos!

Chateau Calon-Ségur

15 de Maio de 2014

Em mais um almoço com o amigo Cesar Pigati, grande companheiro da boa mesa, dividimos uma garrafa de um Grand Cru Classé de Bordeaux. Trata-se do tradicional Troisième Château Calon-Segur safra 1996, uma das melhores das últimas décadas para o tinto em questão. De fato, o vinho estava num bom momento para consumo, embora tenha longa vida pela frente, pelo menos mais dez anos. Seus discretos 12,5 graus alcoólicos foram perfeitamente equilibrados com a habitual acidez de um Saint-Estèphe, de solo mais argiloso, além de uma estrutura tânica invejável. Taninos polidos, ainda não totalmente polimerizados, mas perfeitamente casados com a suculência e gordura de um belo carré de cordeiro.

chateau calon segurImponente como a foto

A história do Château remonta o século XVIII quando o marquês Nicolas-Alexandre de Ségur era proprietário dos Châteaux Lafite, Mouton e Latour, chamado por Luis XV de “Príncipe das vinhas”. Seu casamento unindo-se à família Gasqueton permitiu a posse de mais uma propriedade, denominando-a de Calon-Ségur. Calon era o nome dado a embarcações na idade média para a travessia do Gironde de uma margem à outra. O afeto pelo château era de tal maneira que proferiu a seguinte frase: “Faço os vinhos de Lafite e Latour, mas meu coração está em Calon”. Esta declaração é perpetuada em seu rótulo na forma de um coração envolvendo seu nome. Não confundi-lo com o Château Phelan-Ségur, este um Cru Bourgeois também de prestígio.

calon segur 1996A cor surpreendente de um Bordeaux na maioridade 

A foto acima traduz bem a lenta evolução dos grandes tintos de Bordeaux. Este com seus dezoito anos mal apresenta um leve indício atijolado nas bordas, sugerindo ainda bons anos de guarda. Um grande Saint-Estèphe pede longa guarda, pois na juventude é um tinto de taninos firmes e acidez insolente. Só o tempo é capaz de domar e integrar devidamente estes componentes. Sua composição segue a linha clássica do corte medoquino: 65% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot e 15% Cabernet Franc. As vinhas têm em média quarenta anos de idade e o vinho amdurece em barricas de carvalho por vinte e quatro meses, sendo de 30 a 50% novas.

Na elite desta apelação (comuna de Saint-Estèphe) temos os Châteaux Montrose e Cos d´Estounel. O primeiro de estilo mais tradicional, enquanto o segundo tem seu exotismo, inclusive em sua arquitetura. Mas como disse o Marquês, temos sempre um lugar no coração para um belo Calon-Ségur. Santé!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Croupes Graveleuses: O caminho das pedras

24 de Junho de 2013

Médoc: Margem esquerda de Bordeaux

Mais uma vez voltamos a Bordeaux, mais especificamente em Médoc, a chamada margem esquerda. De todos os inúmeros fatores que fazem desta região um terroir de grande prestígio, o fator drenagem do terreno é em última análise o que determina a qualidade de um verdadeiro “Grand Cru Classé”. 

Para entendermos melhor esta história, voltemos ao século dezessete, onde engenheiros holandeses, especialistas em represamento de águas, drenaram toda a região do Médoc, até então encharcada de água, dificultando muito a agricultura local. Neste trabalho, foram executadas algumas valas de drenagem, muitas delas  servindo de divisa entre as comunas mais famosas como Saint-Estèphe, Pauillac, Saint-Julien e Margaux. Como resultado, em algumas áreas distintas, observou-se uma suave elevação de terreno (croupe), semelhante ao relevo de um campo de golfe. No entanto, em vez de grama, um solo pedregoso (graves), permitindo excelente drenagem e assim, acumulando água em camadas mais profundas. Para se ter uma ideia deste relevo em termos de altitude, o ponto mais alto do Médoc não passa de quarenta e três metros em relação ao nível do mar, sendo que os melhores vinhedos estão bem longe desta marca.

Graves: boa drenagem e calor para as vinhas

A origem destas pedras remonta milhões de anos, envolvendo cataclismos e eras glaciais, incluindo os Pirineus e o Maciço Central. Com o cíclico movimento das marés no rio Gironde, essas pedras acumularam-se exatamente nestas croupes, dando origem ao velho dita medoquino que diz: “as melhores vinhas são aquelas que olham o rio”. 

Pauillac - Vignes du Château Latour  en bordure de Gironde - Photo Michel CRIVELLARO

Château Latour: Vinhas olhando o rio

Esse fator, de certo modo, acaba influenciando na famosa classificação de 1855 dos crus bordaleses com a polêmica divisão em cinco níveis ou grupos, ou seja, do primeiro ao quinto caldo. Evidentemente, os cinco primeiros do Médoc (Haut-Brion, Lafite, Mouton, Latour e Margaux) não se discute. Seus vinhedos estão plantados nas melhores e mais espessas croupes da região. Entretanto, do segundo ao quinto caldo há muita dispersão entre as comunas.

Começando pelos Deuxièmes (segundos classificados), dos catorze châteaux escolhidos, cinco são da comuna de Saint-Julien e outros cinco da comuna de  Margaux. Embora Saint-Julien não tenha nenhum Premier Grand Cru Classé, as croupes estão bem espalhadas na comuna com châteaux de altíssimo nível. A comuna de Margaux impressiona mais ainda, por não ser tão compacta como Saint-Julien. É uma comuna mais extensa, mas mantém uma ótima distribuição das croupes. Isso é confirmado na classificação dos Troisièmes (terceiros caldos) com dez châteaux de Margaux entre os catorze classificados. Novamente, Saint-Julien e Margaux equilibram-se na classificação seguinte dos Quatrièmes (quartos classificados), onde temos dez châteaux no total. 

Já na última classificação, dos dezoito châteaux Cinquièmes (quintos classificados), doze são da comuna de Pauillac, ainda não mencionada nesta análise. Sabemos que dos cinco Premiers do Médoc, três são desta famosa comuna (Latour, Lafite e Mouton). Entretanto, a natureza não foi tão igualitária na distribuição das croupes, concentrando o que há de melhor para os três châteaux, com as camadas mais espessas de cascalho de todo o Médoc. Com isso, Pauillac é a comuna com maior disparidade entre os châteaux, confirmando outra máxima medoquina: “o solo do Médoc muda a cada passo”.

Saint-Estèphe - Château Cos d'Estournel -Deuxième Grand Cru Classé- Photo Marion CRIVELLARO

Cos d´Estournel: Château em grande forma

Saint-Estèphe, comuna ainda não mencionada, não foi tão abençoada pelas croupes, talvez até por sua posição geográfica em relação ao Gironde (é a comuna mais ao norte do Médoc). Contudo, as duas belas exceções são os châteaux Montrose e Cos d´Estournel. Aliás, na linguagem do Médoc, Cos significa Croupe.

Saint-Estèphe et PauillacJalle du Breuil: divisa de comunas

O mapa acima mostra na parte superior a divisa entre as comunas de Saint-Estèphe e Pauillac através da vala ou canal de Breuil, em francês Jalle du Breuil. Apenas quinhentos metros separam o Chãteau Cos d´Estournel do Château Lafite. Distância suficiente para diferenciar um Premier Cru de um Deuxième Cru. É a morfologia das croupes fazendo a diferença.


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