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O Julgamento de Paris

25 de Maio de 2026

Em 24 de maio de 1976, o mundo do vinho sofreu um abalo sísmico que não veio das falhas geológicas da Califórnia, mas de uma sala abafada no Hotel InterContinental, em Paris. Prestes a completar 60 anos, o evento, conhecido como “O Julgamento de Paris”, até hoje repercute. Mas, como toda lenda, foi polida, romanceada e ganhou as telas e telinhas (filme disponível no Prime Video).

Antes de nos deixar em 2021, Steven Spurrier, então dono de uma pequena loja de vinhos em Paris, concedeu uma entrevista definitiva ao podcast I’ll Drink to That, do sommelier Levi Dalton. Despido de qualquer mitologia, ele revelou o quão acidental foi a revolução que ele causou, sem perceber que ela teria tal alcance.

Na conversa com Dalton, Spurrier desmonta a imagem de estrategista maquiavélico, que ficou para alguns depois de assistir ao filme. O motivo da degustação? Puro oportunismo de calendário: celebrar o bicentenário da independência americana.

Um ano antes, em 1975, uma sócia de Spurrier, a americana Patricia Gallagher, tinha visitado vinícolas nos Estados Unidos e ficado surpresa com a qualidade delas. Sugeriu que Spurrier cruzasse o Atlântico e degustasse in loco. Ele acatou a sugestão.

Gostou do que bebeu e teve a ideia de fazer a degustação na França, colocando rótulos da Califórnia.  Mas fazer o vinho chegar a Paris foi uma odisseia. Esqueça importadoras e contêineres. A logística foi digna de um filme de espionagem atrapalhado.

A salvação inicial veio de sua sócia, que guiava um grupo de turistas em um tour de passeio intitulado “Tênis e Vinho”. A solução foi transformar os turistas em “mulas”. Spurrier distribuiu 24 garrafas entre as malas dos participantes, embrulhadas em roupas sujas. Mas a alfândega francesa, farejando algo estranho, quase colocou tudo a perder.

Spurrier teve de ser rápido. Diante da barreira alfandegária que ameaçava confiscar a carga, ele apelou para a criatividade. Para liberar os vinhos, ele “vendeu” a história de que aquilo não era um evento comercial, mas um ato oficial ligado às comemorações do governo americano para o Bicentenário. Com ares de evento diplomático, ele conseguiu o carimbo. O Cavalo de Troia entrou em Paris com a bênção da burocracia local.

O “pulo do gato” seguinte foi a decisão de última hora de tornar a degustação às cegas, ou seja, as garrafas seriam degustadas sem se saber se eram provenientes da França ou dos Estados Unidos. Spurrier acreditava piamente que os franceses ganhariam, e que a Califórnia sairia honrada apenas por participar. Os produtores franceses também não tinham dúvida. Havia os melhores rótulos da Borgonha e de Bordeaux, séculos de tradição por trás de cada um. Por isso aceitaram sem pestanejar.

O que se seguiu foi uma comédia de erros para o orgulho gaulês. Spurrier narra como os juízes — a nata do mundo do vinho francês, incluindo Aubert de Villaine (proprietário do Romanée-Conti) e Odette Kahn (da Revue du Vin de France) — começaram a confundir quando bebiam. Elogiavam a “elegância francesa” de um Cabernet do Napa Valley e criticavam a “robustez desajeitada” de um Bordeaux.

Quando as notas revelaram a vitória americana (Chateau Montelena no branco, Stag’s Leap no tinto), a reação foi visceral. Spurrier relata o momento em que Odette Kahn, percebendo o “erro”, exigiu suas cédulas de votação de volta. Spurrier, com fleuma britânica, recusou. Ela o acusou de fraude. A imprensa francesa ignorou o fato, mas a notícia cruzou o Atlântico. Havia um jornalista americano no evento.

George M. Taber, da revista Time, recebeu uma lista com os nomes dos vinhos na ordem que estavam sendo servidos, ou seja, sabia exatamente o que os juízes estavam degustando. Ele logo percebeu que havia notícia, quando um dos jurados provou um vinho branco e decretou: “Isso é definitivamente Califórnia. Não tem nariz”, quando, na verdade, estava provando o Bâtard-Montrachet, um Chardonnay da Borgonha frequentemente classificado como um dos melhores vinhos brancos do mundo.

Quando os resultados vieram à tona, ele escreveu uma matéria para a sua revista, com o título de “Julgamento de Paris”, escrevendo que o “inimaginável tinha ocorrido”. Os vinhos do Novo Mundo passaram então a ganhar status e lugar à mesa comparável aos franceses.

Essa narrativa colide com o filme lançado em 2008. A interpretação de Spurrier como um esnobe falido fez o verdadeiro Steven ameaçar os produtores com um processo. Ele disse a Levi: “Não havia jeito de eu aceitar aquilo”. A ameaça só cessou quando concordaram em colocar um aviso de que a obra era amplamente ficcional.

Atualidades: Consumo de vinho

11 de Setembro de 2014

Não é de hoje que Luxemburgo, pequeno país encravado no centro da Europa, lidera o ranking do consumo de vinho per capita mundial. É bem verdade que este consumo vem caindo ano a ano, uma tendência global. Entretanto, há países tradicionais como Itália e Espanha, onde esta queda é bem acentuada, sobretudo na Espanha, fora da lista abaixo dos quinze primeiros.

O leste europeu tem relevância

A queda é mais acentuada ao longo dos anos na França, Itália, e menos em Luxemburgo. Já países como Áustria, Suíça, e Bélgica, o consumo é relativamente estável. Por fim, no leste europeu, Croácia e Eslovênia, entre outros estão aumentando gradativamente seu consumo de forma consistente, efeito indireto nas mudanças políticas nesta região.

O consumo na Espanha despencou

O trio de ferro acima em termos de produção mundial vem mostrando sinais constantes de declínio no consumo interno há alguns anos. Apesar da forte tradição vinícola nestes países, a ênfase na exportação, a diminuição de vinhos baratos e de baixa qualidade em detrimento de vinhos mais bem elaborados e consequentemente mais caros, são alguns dos fatores nesta queda de consumo. Além disso, a própria situação econômica da Europa e a diversidade de bebidas alcoólicas e não alcoólicas, formam novos hábitos hoje em dia e agregam esses valores nas gerações futuras. Mesmo a oferta de vinhos dos países do chamado Novo Mundo não provoca o efeito desejado. Muitas vezes esses vinhos são consumidos apenas como curiosidade. A Espanha talvez por ser um país mais quente  na média, comparado aos outros dois (França e Itália), é mais um motivo para esta queda acentuada. Embora, não haja efetivamente, uma relação lógica entre temperatura e consumo de vinhos, o fator psicológico fala mais alto.

Os maiores importadores estão animados

Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, incrementam seu consumo desde de 1997 de forma estável. Um pouco mais enfático no Reino Unido e relativamente discretos nos demais. Vale ressaltar o aumento nos Estados Unidos. Aparentemente, um aumento discreto, porém a enorme população do país gera números absolutos bem relevantes. Exceto o Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos além de produzirem vinhos, são grandes importadores da bebida.

Só para encerrar, nosso Brasil continua emperrado nos dois litros anuais per capita, atrás de Peru, Paraguai, Bósnia, Letônia, entre outros países surpreendentes. Isso tudo com um agravante. Concentração no sudeste. Bem de acordo com todas as desigualdades e contrastes do país.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Produção Mundial de Rosés

25 de Julho de 2013

Os números mais recentes sobre a produção e consumo mundial de vinhos rosés (dados de 2011) apontam a França como maior produtor, maior consumidor e maior importador deste tipo de vinho, conforme dados abaixo:

França e Itália na liderança

A produção mundial de Rosés representa menos de dez porcento do total de vinhos produzidos. Embora França e Itália liderem esta produção, seus objetivos são diferentes. Enquanto a Itália visa um mercado de exportação, a França consome praticamente todo seu rosé e ainda importa boa parte, sendo a exportação bem mais tímida que a de seu concorrente direto. Os dados abaixo dão um panorama geral deste consumo mundial.

Estados Unidos e França na liderança

Estados Unidos e França apresentam padrão semelhante de produção e consumo dos rosés, guardadas as devidas proporções.

Nossos vizinhos, Argentina e Uruguai, consomem praticamente tudo que produzem, não dando muito espaço para exportação.

Países do Rosé

Rússia é um mercado em crescimento, consumindo quase o dobro de sua produção. Potencialmente, é o alvo número um dos países exportadores.

Quanto aos dois grandes países exportadores do chamado Novo Mundo, Austrália e Chile, suas produções são modestas face ao total de rosés, não chegando a meio milhão de hectolitros anuais a soma destes países. Quem sabe um mercado ainda a ser explorado.

Consumo Mundial de Vinhos

22 de Abril de 2013

Segundo dados recentes, parece que o consumo mundial de vinhos tende a estabilizar em torno dos duzentos e cinquenta milhões de hectolitros anuais, conforme tabela abaixo.

França e Estados Unidos: disputa acirrada

A França continua puxando a fila, mas os Estados Unidos parece que tomou conta do segundo lugar, embora seja um país de dimensões continentais. Itália e Espanha continuam descendo a ladeira, enquanto os demais apresentam certa estabilização. A China ainda consome pouco em termos absolutos, mas qualquer centésima porcentagem de sua população que resolver tomar vinho é sempre um potencial altamente considerável.

França e Portugal: mantendo as tradições

O consumo per capita conforme tabela acima, mostra França e Portugal com bastante força, mesmo que em algumas décadas atrás, estes números giravam em torno de cem litros anuais por habitante. Itália e Argentina ainda mantêm bons números de consumo, os quais já foram bem melhores num passado não muito distante. A China é um gigante por enquanto adormecido. Entretanto, se seus atuais 1,3 litros/habitante passarem a somente 3,0 litros/habitante, este país será com folga o maior consumidor mundial de vinhos. Nosso Brasil, não é de hoje, luta para ultrapassar a marca de dois litros anuais por habitante. E dá-lhe cerveja pessoal!