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Wine Spectator: Top Ten

21 de Novembro de 2013

Dando prosseguimento à lista dos cem melhores vinhos de 2013, segundo a revista americana Wine Spectator, farei um Top Ten pessoal. A ordem dos vinhos apresentada abaixo não obedece nenhum critério, apenas visa sugerir alguns vinhos interessantes para serem provados e evidentemente, encontrados nas grandes importadoras do Brasil.

Analisando a lista, percebemos que um terço dos vinhos são norte-americanos, naturalmente enaltecendo exemplares de seu país. A despeito de ser justa ou não a inclusão dos mesmos, é inegável que os Estados Unidos ainda lidera com folga uma grande diversidade e qualidade dentre os países do chamado Novo Mundo. Pena que chegam poucos exemplares ao Brasil a preços praticamente proibitivos. Sem mais delongas, vamos à lista sugerida: 

  1. Croft Vintage Port 2011 – WS 97 pontos
  2. Hamilton Russell Chardonnay 2012 – WS 93 pontos
  3. Rioja Alta Viña Ardanza Reserva 2004 – WS 94 pontos
  4. Château Doisy Daëne Barsac 2010 – WS 94 pontos
  5. Achaval Ferrer Finca Mirador Malbec 2011 – WS 96 pontos
  6. Quinta do Crasto Reserva Old Vines 2010 – WS 93 pontos
  7. Wynns Cabernet Sauvignon Coonawarra Black Label 2010 – WS 91 pontos
  8. Champagne Louis Roederer Brut Vintage 2006 – WS 94 pontos
  9. Mastroberardino Taurasi Radici DOCG 2006 – WS 94 pontos
  10. Seghesio Zinfandel Dry Creek Valley Cortina 2010 – WS 94 pontos

Croft Vintage Port 2011

Além da Croft, as duas casas de vinho do Porto na foto acima, dispensam apresentações. A safra 2011 promete vida longa como uma das melhores deste novo século. Evidentemente, degustá-lo agora trata-se de um infanticídio completo. Quem tiver paciência, estará com um tesouro em mãos. Importadora World Wine (www.worldwine.com.br). 

Pioneiro na África do Sul

Hamilton Russell, apaixonado pelos vinhos da Borgonha, sonhou em ter um pedacinho dela na fria região de Walker Bay, África do Sul. Em parte conseguiu, com vinhos bem elaborados, cheios de personalidade, sendo sempre lembrados nas principais publicações. Vale a pena prová-lo. Importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

Rioja Alta: Ícone da região

Sou suspeito em falar desta bodega, já comentada em artigos especiais neste mesmo blog. Seus vinhos são considerados os “borgonhas” da região. Elegantes, profundos e perfumados. Bela relação qualidade/preço em seu seleto portfólio. Importadora Zahil (www.zahilvinhos.com.br).

Doisy Daëne ao lado de grandes Sauternes

Para quem gosta de Sauternes delicados e elegantes, Barsac é a comuna a ser procurada. O rei é o Château Climens, com preços de realeza. Château Doisy Daëne, do grande enólogo Denis Dubourdieu, nos mostra toda a essência deste grande terroir. Importadora Casa Flora (www.casaflora.com.br). 

Achaval Ferrer: Artesanato em vinho

Outra bodega irrepreensível. Atuando em Valle de Uco na região de Mendoza (Argentina), procura sempre em seus vinhos, concentração, profundidade e definição de terroir. Finca Mirador forma a trilogia de seus grandes ícones (os outros são Altamira e Bella Vista). São necessários frutos de três parreiras para a elaboração de uma garrafa (rendimento de Romanée-Conti). Importadora Inovini (www.inovini.com.br). 

Um dos melhores exemplares do Douro

Partindo de vinhas com mais de setenta anos, plantadas conjuntamente entre 25 e 30 variedades, o vinho surge com uma complexidade e concentração singulares. Tinto de longa guarda que exige decantação para melhor expressar-se. Importadora Qualimpor (www.qualimpor.com.br).

Coonawarra: região diferenciada

Esta região australiana (Coonawarra) e em especial esta vinícola (Wynns) já foram devidamente comentadas em artigo específico neste mesmo blog. Região relativamente fria para os padrões australianos, Coonawarra costuma gerar tintos concentrados e com uma acidez vibrante. Os aromas de frutas em compota e um toque refrescante de menta são atrativos mais que suficientes para provar este tinto surpreendente. Importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

Louis Roederer: Magia e Excelência

Sua cuvée de luxo Cristal faz o sonho desde os tempos dos Czares. Entretanto, toda sua linha é elaborada nos mínimos detalhes. Num degrau acima do Brut Premier, estão os millésimes de alta qualidade. Neste caso, o blend é composto de 70% Pinot Noir e 30% Chardonnay. O vinho-base é parcialmente elaborado em madeira e após a espumatização, o vinho passa quatro anos sur lies (em contato com as leveduras). Importadora Franco-Suissa (www.francosuissa.com.br). 

Mastroberardino: Referência na denominação Taurasi

Este belo tinto da Campania, sul da Itália, envelhece maravilhosamente bem. Elaborado com a estruturada uva Aglianico, o vinho passa por longa maceração e afinamento em barricas de carvalho. Potente, intenso e de grande personalidade. Importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

Dry Creek Valley: grandes Zinfandéis

Este típico tinto californiano é elaborado com a uva Zinfandel proveniente do vinhedo Cortina em Dry Creek Valley, plantado em 1942.  Passa cerca de quatorze meses em barricas de carvalho, predominantemente francesas. Vinho de muito fruta, concentração e longa persistência. Uva de grande identidade americana. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

Evidentemente, o tinto do ano, CVNE Imperial Gran Reserva 2004, merece ser provado e foi objeto de artigo exclusivo na postagem anterior. Fica assim, algumas dicas para as festas de final de ano.

Bordeaux: Château Pape Clément

31 de Outubro de 2013

pape clement2003: Safra atípica

O mais antigo vinhedo de Bordeaux, com mais de setecentas colheitas, uma história que começou em 1305. Seu mais ilustre proprietário, Pape Clément, dá o nome ao château. Atualmente, seu dono é Bernard Magrez, apaixonado por vinhos e proprietário de vários châteaux espalhados pelo mundo.

Este artigo foi inspirado num almoço com meu grande amigo, doutor César Pigati, bordalês de carteirinha, onde dividimos o vinho abaixo (foto) na polêmica safra de 2003. Este château tem evoluído muito desde a ótima safra de 1998, colecionando com facilidade notas acima de 90 pontos. Nesta safra degustada, Parker julgá-o com notas entre 93 e 94 pontos. Concordo com esses números e não daria menos que 92 pontos.

pape clement livro

Almoço seguido de Porto e o incenso dos “Puros”

O vinho realmente é macio, dado sua baixa acidez com relação à média de outros anos em Bordeaux. Taninos densos, bem delineados, muita fruta, o característico toque terroso (mineral), cogumelos, especiarias e ervas finas. Realmente, apesar de estar na margem esquerda, Pessac-Léognan apresenta um terroir diferenciado, tendo algo de Saint-Émilion, margem direita. Daí a necessidade de uma classificação específica, a famosa classificação de Graves em 1959, separada dos Grans Crus Classés do Médoc.

pape clementVizinhança de grandes châteaux

Pessoalmente, considero Pape Clément como terceiro vinho na hierarquia de Graves, atrás somente das feras Haut-Brion e La Mission Haut-Brion. O grande enólogo do século XX em Bordeaux, professor Émile Peynaud, tinha especial carinho por este chãteau e foi seu consultor após a segunda grande guerra mundial. O vídeo abaixo conta um pouco da hístória do chateau.

http://youtu.be/_JY3wGU0tfw

O vinhedo possui área de 53 hectares, sendo 51% Cabernet Sauvignon, 46% Merlot, 2% Petit Verdot e 1% Cabernet Franc. As vinhas têm idade média de 27 anos e a densidade do vinhedo é de 7300 pés por hectare. O solo mescla as famosas graves (pedras), argila e areia. A filosofia de trabalho é orgânica com tração animal (cavalos) nos vinhedos. A vinficação tem longa maceração (30 a 40 dias) com redimentos de 37 hectolitros por hectare. O amadurecimento dá-se em barricas de carvalho novas por dezoito meses.

Safras como 1998, 2005 e 2010, estão entre as mais destacadas. Curiosamente, um 2002 acima da média com 92 de Parker. Talvez, o melhor de Graves neste ano.

Château Pape Clément possui um segundo e terceiro vinhos, Le Clémentin du Château Pape Clément e Le Prélat du Château Pape clément, respectivamente. Da mesma forma acontece com os brancos, sendo o Grand Vin de qualidade destacada. Um assemblage de Sauvignon Blanc e Sémillon em parte iguais com fermentação em barricas e posterior bâtonnage (movimentação das borras períodicas na massa vínica). 

Enfim, um vinho abençoado pelo Papa e uma das pedidas certas quando falamos em grandes châteaux em Bordeaux.

Last Dinner on the Titanic

26 de Setembro de 2013

Normalmente, jantares memoráveis terminam com um final feliz, reconfortante e prazeroso. Não foi o caso do último jantar do fatídico Titanic no ano de 1912, em sua viagem inaugural e infelizmente, única. Evidentemente, as refeições eram preparadas de acordo com a classe social. O jantar mais requintado desta noite foi “The First-Class Menu Private” com a sequência de dez pratos, conforme foto abaixo:

Jantar para terminar no céu

Os pratos, muito bem escolhidos eram da clássica cozinha francesa, fortemente repaginados pelo grande Chef françês da época, Auguste Escoffier, o qual se tornaria uma lenda entre os melhores de todos os tempos. Um dos pratos do menu é o Consommé Olga, mostrado na foto abaixo:

Titanic Consommé OlgaPrato requintado à base de caldo de vitela acompanhado de vieiras

Seguindo o menu a risca, vamos à sequência de pratos:

  • Primeiro prato: Ors d´Hoeuvrers Oysters (foto acima)

Se for Ostras à Rússia, complica um pouco a harmonização, pois entra vodka na composição do molho que é incorporado às ostras frescas. Neste caso, é melhor um Champagne Brut Nature Blanc de Noirs para enfrentar este potente sabor do destilado.

  • Segundo prato: Consommé Olga

Este prato tem um sabor enfático, porém delicado do caldo de vitela. As vieiras dão requinte ao prato com sabor marinho, pois são colocadas cruas com o caldo quente em cima. O Jerez ou Sherry seria um acompanhamento clássico. Contudo, um Madeiro Sercial, o mais seco em estilo e com certa salinidade pode ser uma bela escolha.

  • Terceiro prato: Poached Salmon with Musseline Sauce

Este salmão é escalfado num molho com água, vinho branco, louro, cebola e pimenta. Após este cozimento no líquido, o salmão é disposto no prato e coberto com molho Musseline à base de gemas, manteiga, suco de limão, endro (aneto) e creme de leite. Um belo Riesling alemão Kabinnet do Mosel com seu caráter elegante garante uma harmonização à altura do prato, combatendo a gordura do molho com sua habitual acidez.

  • Quarto prato: Saute of Chicken Lyonnaise

Neste prato de frango, o mesmo é preparado à milanese, com farinha  aromatizada ao tomilho. Ele é rapidamente selado e levado ao forno para cozimento. Na própria frigideira que selou o frango, é adicionado cebola , alho, tomilho e vinho branco para o déglaçage. Após esta operação, acrescente massa de tomate e açúcar. Neste caso, um borgonha tinto da Côte de Beaune fará boa parceria com o prato. Pode ser um Volnay ou Savigny-Lès-Beaune.

  • Quinto prato: Lamb Mint Sauce (foto acima)

Cordeiro com Bordeaux é uma escolha óbvia e tradicional. No entanto, temos um molho à base de menta com um certo caráter agridoce. Neste molho, além da hortelã, temos aceto balsâmico, açúcar, um pouco de vinagre e mostarda no tempero de cordeiro. Com isso, o molho fica mais vibrante, exigindo um vinho vigoroso, mais jovem e de bom frescor. Um Cabernet Sauvignon de Coonawarra (região australiana comentada em artigo especial neste mesmo blog) com um toque de menta no aroma seria bastante apropriado.

  • Sexto prato: Punch Romaine (foto acima)

Aqui temos um descanso para o paladar. Punch Romaine é um cocktail que funciona como sorbet. É feito à base de champagne ou espumante, vinho branco, gelo, suco de laranja, suco de limão, rum branco e cascas de laranja finamente descascada. Um bom intervalo para continuar a sequência de pratos.

  • Sétimo prato: Roast Squab & Cress

Novamente uma ave. Desta vez, pombo assado em cama de agrião refogado. O molho do assado envolve vinho Madeira e bacon. Aqui podemos pensar de novo num Borgonha tinto, não da Côte de Beaune, e sim da Côte de Nuits. Um Chambertin pode ter a textura e a força necessária para o prato. Preferencialmente, envelhecido por pelo menos dez anos.

  • Oitavo prato: Cold Asparagus Vinaigrette

Este prato consiste em cozinhar os aspargos na água ou vapor e em seguida dispô-lo numa travessa e cobrir com um molho à base de alho, cebola, vinagre de vinho tinto, mostarda, azeite, suco ded limão e pimenta. Por cima, ovos cozidos fatiados. Neste caso, ovos e aspargos são ingredientes difíceis com vinho. Um bom Sauvignon Blanc do Novo Mundo, jovem e fresco, pode dar conta do recado. A sugestão é um sul-africano da região de Constantia, distrito pertencente à cidade do Cabo.

  • Nono prato: Patê de Foie Gras Celery

Este patê de foie gras é guarnecido com aipo (também conhecido como salsão, bastante perfumado). É evidente que um Sauternes ou algum dos clássicos vinhos botrytisados (franceses ou alemães) são companhia perfeita para o prato. Contudo, como teremos um Tokaji na sequência, conforme descrição abaixo, uma bela alternativa é um Porto Tawny, preferencialmente com declaração de idade de vinte anos.

waldorf-pudding

  • Décimo prato: Waldorf Pudding (foto acima)

Esta clássica sobremesa da época é composta por maças levemente caramelizadas com açúcar e manteiga, forrando posteriormente uma forma untada. O creme que será introduzido na forma é feito com leite, gemas de ovos, noz moscada, baunilha e uma mistura de uvas passas, gengibre e suco de limão. A forma é levada ao forno médio em banho-maria. Depois de desenformado, a torta é servida gelada com um molho leve à base de baunilha. Um Sauternes ou um Tokaji 5 Puttonyos (vinho húngaro de sobremesa, rival à altura dos vinhos doces bordaleses) será perfeito.

Vale a pena lembrar que o quarto, quinto e décimo (sobremesa) pratos  tinham duas ou mais opções de escolha. Não comentaremos neste artigo as mesmas para não ficar muito longa a dissertação.

Depois de todo esse pecado da gula, restaram aos “felizardos” rezar um Pai Nosso antes do fim trágico. O comandante do navio que o diga, “a pressa é inimiga da perfeição”.

Tintos de Portugal

29 de Julho de 2013

Nesta quarta-feira (24/07/13) com muito frio, tivemos uma interessante degustação didática na ABS-SP sobre as principais regiões vinícolas de Portugal. Os vinhos, todos tintos, representaram bem as características locais, conforme mapa abaixo:

Mapa atualizado das regiões

Só para esclarecer, a região Lisboa refere-se à antiga Estremadura, Ribatejo agora é simplesmente Tejo, e Península de Setúbal substitui a antiga Terras do Sado. Vamos aos vinhos:

Campolargo é um produtor excêntrico da Bairrada, misturando modernidade com tradição. Neste rótulo de nome bem apropriado, o vinho nasce de videiras antigas plantadas todas misturadas com diferentes cepas (Baga, Castelão, Trincadeira, Sousão, Bastardo, Alfrocheiro e Tinta Pinheira). A vinificação também é conjunta com posterior amadurecimento por doze meses em barricas usadas. A acidez da Bairrada está bem presente, embora seus 15,5° de álcool incomodem um pouco. Outra característica é a agressividade de seus taninos que precisam de longo tempo em garrafa. Enfim, boa tipicidade, crescendo muito à mesa na companhia de carnes estufadas, ou melhor dizendo, carnes ensopadas.

Conceito é uma vinícola recente do Douro Superior mesclando também modernidade com tradição. Neste exemplar com as duas Tourigas (Nacional e Franca), a novidade é o amadurecimento em aço inox por dezoito meses após a vinificação. É bem verdade que as características locais ficam mais evidentes com notas florais, frutas escuras vibrantes e um toque mineral (terroso). Contudo, nada como a barrica de carvalho para domar a boa tanicidade deste tinto. Vinho interessante, muito bem equilibrado, e de longo envelhecimento. O preço é outro atrativo, pouco mais de cinquenta reais.

Este é um moderno exemplar do Dão com a típica uva local Touriga Nacional. Fermentado em aço inox e amadurecido em barricas novas francesas por dezoito meses. Vinho ainda um pouco fechado, bela estrutura tânica, com bons anos de envelhecimento em adega. O frescor dos tintos do Dão geram sempre vinhos muito bem equilibrados. A grande dúvida deste exemplar é até que ponto  esta carga de madeira não compromete o vinho. Aposto com alguma dúvida que haverá uma integração harmônica com o mesmo no seu envelhecimento em garrafa. Os típicos aromas florais da Touriga ainda estão tímidos frente aos aromas amadeirados (baunilha, especiarias e chocolate amargo). Gostaria de revê-lo daqui há dez anos.

Este alentejano é diferenciado por dois motivos: Terroir de Portalegre (Serra de São Mamede) e elaboração do competente Paulo Laureano (intimamente ligado ao espetacular Mouchão). Apesar de ser um dos mais simples do portfólio, este Colheita prima por sua elegância e equilíbrio. As uvas são Trincadeira, Argonês e Alicante Bouschet. O terroir de Portalegre diferencia-se das demais sub-regiões alentejanas por ser um vinhedo de altitude, preservando altos níveis de acidez, fator este, sempre em carência nos macios e quentes vinhos da região. Este exemplar encontra-se num ótimo momento para consumo com aromas terciários de couro, toques balsâmicos e um leve mentol. Beber com prazer.

Talvez o vinho mais polêmico da noite quanto à sua estrutura e poder de evolução. Este é um vinho moderno da região do Tejo com as uvas Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. Passa cerca de doze meses em barricas francesas. Pessoalmente, achei um vinho um pouco carente de estrutura e com taninos não muito agradáveis, um pouco ásperos. A Cabernet tem presença tímida no corte. Tenho sérias dúvidas quanto ao seu futuro. É uma aposta arriscada.

Particularidades: Saint-Estèphe e Margaux

15 de Julho de 2013

Nesta última degustação na ABS-SP (10/07/13) com vinhos de Bordeaux, dois tintos foram destaques: Château Sociando-Mallet 2005, apelação Haut-Médoc e Château Prieuré-Lichine 2009, Troisième Grand Cru Classé de Margaux. Duas safras de prestígio, não tendo portanto as desculpas de fatores climáticos.

Bela safra a ser guardada

Ficou bem claro, as diferenças de estilo entre os dois vinhos. Prieuré-Lichine, mostrou as principais características de Margaux, com toques florais e de sous-bois (folhas secas e úmidas em decomposição), a textura macia em boca, taninos sedosos, e a expansão de um Grand Cru Classé. Um leve pecado, foi uma ponta de álcool a mais, deixando-o um pouco quente. É um dos melhores em toda a história do Château, merecendo de Parker a nota 93. Pessoalmente, fiquei em 91 pontos. Importado pela Casa Flora ou Porto a Porto (www.casaflora.com.br). 

Um Haut-Médoc de respeito

Passando agora ao Sociando-Mallet, ele tem a marca de um grande Saint-Estèphe. Embora pertença à apelação Haut-Médoc, ele fica muito próximo da comuna mencionada. Saint-Estèphe apresenta limites a sul pela vala de drenagem denominada Jalle du Breuil ou Chenal du Lazaret, e a norte, o canal denominado Estey d´Un. Pois bem, o Château Sociando-Mallet fica na comuna de Saint-Seurin-de-Cadourne, vizinha a norte de Saint-Estèphe. Propriedade de Jean Gautreau, este ex-Cru Bourgeois (retirou-se desta classificação após inúmeras confusões para uma nova reclassificação) é pessoalmente o melhor Château de margem esquerda, excetuando os Grands Crus Classés, embora às cegas, já tenha pregado muitas peças. A safra de 2005 mostra uma estrutura tânica vigorosa e bem delineada com taninos de grande qualidade. A acidez de Saint-Estèphe é bem marcada neste vinho, dando mais um componente de estrutura em busca da longevidade. É bom lembrar que o solo aqui é mais argiloso, proporcionando vinhos mais firmes e austeros. Os aromas são o clássico Cassis (frutas escuras), tabaco, couro, chocolate e ervas finas. Bons anos pela frente, se bem adegado. Parker cravou 91+ pontos. Pessoalmente, acho que ele merecia um pontinho a mais. Importado pela Mistral (www.mistral.com.br). 

Harmonização: Cordeiro

13 de Junho de 2013

Tenho ouvido falar em harmonizar carne de cordeiro com Pinot Noir. Nada contra com experiências, novas tentativas, e até acho que não há litígio neste encontro. Contudo, estamos fugindo das harmonizações clássicas, e cordeiro com vinhos de Bordeaux é uma delas. Quem vai contestar uma bela perna de cordeiro com um clássico Pauillac ou Saint-Julien, tintos à base de Cabernet Sauvignon da margem esquerda, conforme foto abaixo?

Cordeiro e o inseparável alecrim

Além da trama da carne de cordeiro ser mais fechada, as ervas são temperos praticamente insubstituíveis em sua preparação, sobretudo o alecrim. E tudo isso tem haver com a família dos Cabernets, rico em pirazinas, substâncias que reverberam os temperos do prato. A textura e suculência de um cordeiro bem preparado vai de encontro com a boa estrutura tânica de um tinto bordalês. Estas características estão longe demais com vinhos calcados na delicada Pinot Noir.

Já costeletas de cordeiro (foto abaixo), que são cortes grelhados e não assados, possuem mais gordura e devem ser consumidos mal passados ou no máximo, ao ponto, preservando toda a suculência da carne.

Gordura em volta da carne

Aqui, um bom Chinon, Bourgueil ou Saumur-Champigny, com concentração e boa estrutura tânica vai muito bem. Produtores como Domaine Breton e Thierry Germain, comentados em artigos anteriores, são exemplos clássicos. Esses Cabernets Franc do Loire, além de possuírem corpo adequado ao prato, apresentam um frescor e acidez na medida certa para combater a deliciosa gordura deste corte. É lógico que as ervas como tempero, novamente vão de mãos dadas com o vinho. Se houver um molho para as costeletas mais frutado, muitos vezes incluindo um redução de vinho do Porto, os Bordeaux de margem direita, calcados na casta Merlot, são companheiros ideais, pois sempre têm uma parcela de Cabernet Franc imbutida no corte. Portanto, Pomerol ou Saint-Emilion são pedidas certas. Saindo da França, um corte bordalês de Bolgheri com a habitual acidez italiana, pode surpreender.

Por último, a chanfana de carneiro, famosa na região da Bairrada em Portugal, conforme foto abaixo. É um prato típico, feito em panela de barro, cozido lentamente no vinho tinto e muito temperos. Os tintos bairradinos, calcados na uva baga, ricos em acidez e taninos potentes, são os parceiros ideais.

Prato rico em sabores

Outras alternativas fora do contexto local seriam vinhos potentes de certa rusticidade como o provençal Bandol, baseado na casta Mourvèdre, Brunello di Montalcino de estilo clássico, ou um Tempranillo de Toro, denominação vizinha a Ribera del Duero.

Quanto à Pinot Noir, aves de um modo geral, vão muito bem, sobretudo os borgonhas em receitas mais refinadas. Se quiserem insistir com cordeiro, as comunas de Pommard e Nuits-Saint-Georges apresentam exemplares mais tânicos e potentes.

Terroir: Bourgogne x Bordeaux

15 de Maio de 2013

A eterna disputa entre Borgonha e Bordeaux pela excelência em vinhos é apaixonante, misteriosa e muitas vezes acaba em discussões calorosas sem um final conclusivo. São dúvidas ou comparações sem sentido, do tipo: loira ou morena, praia ou montanha, clássico ou moderno, e assim por diante.

O terroir borgonhês é de concepção mais simples de ser entendido, mais clássico, embora fazer o simples tenha seus mistérios. Temos geralmente, terrenos pequenos, poucos hectares (menos de uma dezena), em uma colina bem posicionada (Côte de Nuits), bem drenada e bem balanceada na sua composição de solo. Em suma, é o esquema clássico de um grande terroir, trabalhando com uma só uva (Pinot Noir).

Já em Bordeaux, tudo muda. Temos mais de uma uva, os terrenos são bem maiores, divididos em parcelas, conforme esquema abaixo, referente ao Château Lagrange (Troisième Grand Cru Classé do Médoc, Saint-Julien). Todos os grandes chãteaux tem esquema semelhante de parcelas em seus vinhedos (plan parcellaire).

Médoc: Predominância da Cabernet Sauvignon

Só para nos posicionarmos melhor, estamos falando de Borgonha tinto e vinhos da margem esquerda de Bordeaux (Médoc). Voltando ao esquema acima, cada parcela de vinha de um château bordalês seria um vinhedo específico no terroir borgonhês. Portanto, há uma filosofia de concepção completamente diferente entre estes dois grandes terroirs. Em Bordeaux, temos uma vinificação separada, parcela por parcela, semelhante ao que acontece com os vinhos-bases em Champagne. Então, depois de tudo vinificado separadamente, teremos vários lotes de Cabernet Sauvignon, vários lotes de Merlot, vários lotes de Cabernet Franc e/ou Petit Verdot em menor número. Continuando o raciocínio, o bordalês tem a convicção que a Cabernet Sauvignon sozinha é incompleta, tem arestas a serem aparadas, aromas e texturas a serem adicionados. Devemos lembrar que a Cabernet Sauvignon é majoritária no corte bordalês de margem esquerda. Daí, a necessidade de mesclar uvas como a Merlot, principalmente. De fato, esta uva fornece fundamentalmente maior maciez ao conjunto, agregando também certa complexidade aromática. O grande problema é saber qual a melhor proporção entre as uvas e quais os melhores lotes de cada uma delas que devem entrar nesta mistura (o famoso assemblage). E este é o pulo do gato para os grandes Bordeaux. Diante de vinhos recém-nascidos, os provadores devem ter extrema sensibilidade em avaliar a potência de cada safra e vislumbrar seu desenvolvimento depois das uvas mescladas e consequentemente, o vinho amadurecido em barricas de carvalho. É um trabalho de grande responsabilidade e que requer vivência de várias safras num mesmo château. Tudo que sobrou deste assemblage rigoroso para o chamado “Grand Vin” será novamente avaliado para os chamados segundos vinhos de cada château.

 

Clos de Vougeot: Fragmentado em mais de oitenta produtores

Voltando à comparação filosófica com a Borgonha, o terreno especificamente que seria cada parcela de um vinhedo bordalês não assume tanta importância como uma parcela na Borgonha. O fator humano no terroir bordalês compromete-se com mais esta missão em harmonizar as várias parcelas da melhor forma possível. Filosofando mais uma vez, o maior Grand Cru da Borgonha, Clos de Vougeot com cinquenta hectares de vinhas, seria razoavelmente compatível para padrões bordaleses. E nesta filosofia bordalesa, eles reuniriam todas as parcelas dos cerca de oitenta produtores deste Grand Cru, fariam um grande assemblage, e designariam um Grand Vin e um segundo vinho. Na média, provavelmente seria um vinho bem melhor que muitos dos Clos de Vougeot de produtores duvidosos. Entretanto, provavelmente seria derrotado por um Clos de Vougeot como Méo-Camuzet. Voltamos à eterna questão: Loira ou Morena?

Taças Riedel: Malbec

13 de Maio de 2013

Dentre os inúmeros acessórios no chamado serviço do vinho, as taças assumem enorme importância. Costumamos dizer: um vinho servido em taça e temperatura de serviço inadequadas, pode vir a ser uma caricatura de si mesmo. E falando em taças, a cristaleria austríaca Riedel é sinônimo de referência e pioneirismo. Evidentemente, podemos hoje em dia falar de marcas como Spiegelau, a nacional Strauss e a politicamente correta Schott Zwiesel, a qual utiliza na sua fabricação Titânio e não Chumbo. Outra vantagem, é sua notável resistência às manipulações do dia a dia, sobretudo em restaurantes e grandes eventos.

Riedel: o conteúdo determina o continente

A concepção de uma taça Riedel vai muito além da beleza e da estética. Praticamente, é uma obra de engenharia. A altura, o volume, o formato e principalmente o ângulo referente à borda da taça, são de suma importância para o sucesso da degustação. Observem na foto acima, as três taças alinhadas. A da esquerda, é uma taça para vinhos elaborados com a uva Pinot Noir. Seu ângulo de inclinação de borda é acentuado além de ser uma taça mais aberta (diâmetro da circunferência de borda), visando enfatizar a percepção da acidez, já que o vinho em contato com a boca escorre preferencialmente pelas laterais da língua. 

A taça central é a que apresenta o menor ângulo de borda com as laterais praticamente paralelas. Esta taça além de ser utilizada para os tintos de Bordeaux, é adequada para Cabernet Sauvignon e mesmo para tintos com a uva Tannat, todas com taninos bem presentes. Pois bem, este formato faz o vinho correr mais pelo centro da língua, enfatizando o sabor doce e a percepção mais adequada dos taninos em termos de textura.

Os cativantes Malbecs mereceram a atenção da Riedel

Por fim, a taça da direita enfatizada na foto acima, é a mais recente concepção da Riedel. De fato, se repararmos atentamente, seu ângulo de inclinação fica entre as outras duas taças comentadas a pouco. Como os vinhos elaborados com Malbec na Argentina são francos e com taninos dóceis, podemos aumentar um pouco a percepção da acidez sem esquecer sua modesta estrutura tânica, ou seja, seus vinhos não são tão austeros como os Cabernets, e nem tão delicados como os elaborados com a Pinot Noir.

Para aqueles que não têm a nova taça de Malbec, a taça Riedel para a uva Syrah pode substituí-la a contento. Aqui vale um lembrete importante. O Malbec original, francês, embasado na apelação Cahors, normalmente é mais tânico e austero  que seus irmãos argentinos. Portanto, dependendo do vinho e da filosofia do produtor, a taça para Bordeaux (a do meio na primeira foto) pode ser mais adequada.

Em resumo, dependendo da estrutura  e características de cada tipo de vinho, podemos escolher perfeitamente a taça mais adequada. É o princípio Riedel: “O conteúdo determina o continente”. 

Chile: Novas Zonas Vitiviniculturais

9 de Maio de 2013

Já falamos em artigos passados sobre particularidades do terroir chileno (vide artigo intitulado: Terroir Chileno). Recentemente, na metade de 2011, houve uma reformulação da nomenclatura dos atuais vales chilenos baseada no conceito de terroir. Pouco a pouco, o Novo Mundo vai detalhando seus territórios vitícolas e colocando os devidos pingos nos is. É um processo lento, natural e inexorável.

Logos das novas zonas nos rótulos das garrafas

Com a descoberta do vale de Casablanca por Pablo Morandé no início dos anos 80, novos vales surgiram ao longo do tempo, ampliando muito os horizontes, além do clássico vale Central.

No mapa acima, as áreas em azul representam os vales frios do Chile, onde as brisas geladas do Pacífico beneficiam uvas de maturação precoce como a Chardonnay, Sauvignon Blanc e Pinot Noir. Casablanca e San Antonio são exemplos clássicos.

As áreas em verde representam basicamente as planícies entre cordilheiras (da Costa e dos Andes), vide esquema abaixo. Essas áreas normalmente têm proteção parcial da influência marítima, com temperaturas médias um pouco mais altas. Mais de sessenta porcento da produção chilena vem destas demarcações. É bom ressaltar que estas áreas podem ser um tanto heterogêneas, pois a proteção da cordilheira da Costa é bastante variável em termos de topografia e altitude, além de composição de solos diversos. A emblemática uva chilena Carmenère encontrou em Cachapoal, um dos vales nestas áreas, seu terroir ideal, mais especificamente em Peumo. A sintonia entre a influência climática parcial da costa e solos com umidade adequada são fatores primordiais para seu pleno e difícil amadurecimento.

 Esquema do terroir chileno

Já as áreas em laranja representam os vinhedos em encostas nos sopés dos Andes. Aqui basicamente temos a produção dos grandes tintos chilenos baseados em Cabernet Sauvignon de classe internacional. Para a perfeita maturação desta casta tardia, além do solo pedregoso de origem aluvial, os dias são ensolarados e as noites frias, proporcionando grande amplitude térmica. De fato, ao anoitecer, correntes geladas descem das montanhas (Andes), inundando os vinhedos. Basicamente, este terroir concentra-se no chamado vale Central, tendo o Alto Maipo como destaque.

Portanto, em safras chilenas mais recentes poderemos encontrar essas informações adicionais das novas zonas, inclusive com seus respectivos logos, conforme a primeira ilustração acima. Quanto a novos vales que eventualmente poderão surgir, os mesmos serão devidamente enquadrados nas novas denominações.

Nova Zelândia: Parte II

2 de Maio de 2013

Dentre as principais regiões da ilha Norte, Hawkes Bay é importante e respeitada por consistentes tintos calcados no corte bordalês. Seu famoso solo de cascalho denominado Gimblett Road contribui para este sucesso. Além das castas Cabernet Sauvignon e Merlot principalmente, há também cultivo da Chardonnay com certo êxito. Outra casta tinta com bons exemplares é a Shiraz. O mapa abaixo ilustra as regiões.

Ilha Norte: berço da viticultura neozelandesa

Auckland assim como Hawkes Bay foram o berço da viticultura da Nova Zelândia. No lado oposto à Hawkes Bay, Auckland é banhada pela mar da Tasmânia e portanto, menos protegida de ventos úmidos e frios, embora este efeito seja muito menos preocupante no que acontece na ilha Sul. Os vinhos seguem a mesma linha de tintos e brancos de Hawkes Bay, porém sem o mesmo brilho, exceto alguns casos pontuais.

Gisborne, a região mais oriental da ilha Norte, é quente e ensolarada, produzindo vinhos mais em quantidade que em qualidade. Os brancos são o destaque com as castas Chardonnay, Gewürztraminer e Muller-Thurgau. São no geral, vinhos redondos e agradáveis. A propósito, vale a pena lembrar de uma das perguntas na prova escrita do concurso mundial de sommeliers em Atenas quando Enrico Bernardo sagrou-se campeão: Qual a região vinícola do mundo que recebe os primeiros raios de sol? Resposta: Gisborne.

A região de Waikato na baía de Plenty já foi um importante centro vinícola. Atualmente, sua produção é inexpressiva cultivando Cabernet Sauvignon, Sauvignon Blanc e principalmente Chardonnay, seu vinho mais emblemático.

Finalmente, a região de Wellington e Wairarapa, conhecida também como Martinborough. Esta região é a mais fria da ilha Norte onde a Pinot Noir parece ter se dado bem. Tanto o clima como o solo relativamente frios, ajudam o pleno amadurecimento da casta. A referência neste sentido é a vinícola Martinborough Vineyards, mencionada em artigo anterior. Para as castas brancas, existem belos exemplares de Chardonnay e Sauvignon Blanc.

Próximo post, regiões da ilha Sul.