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Um foco em Clos Apalta

12 de Outubro de 2026

Charles de Bournet Marnier Lapostolle tirou o celular do bolso no meio da conversa para mostrar uma foto. Na tela, um punhado de manchas coloridas dos 180 hectares de vinhedos que a família detém desde o início dos anos 1990, no vale de Colchagua, uma das principais regiões de vinhos do Chile. Cada mancha leva uma cor: verde seria a apelação regional, a mais baixa da Borgonha; village ganha a tonalidade amarela; premier cru, a laranja; grand cru, o melhor terreno para um vinho, a vermelha. Em plena encosta chilena, uma propriedade fundada por franceses foi dividida segundo o vocabulário da Borgonha, estruturado séculos atrás por monges e baseada em fatores como sol, terra, ventos, chuva, combinação que leva o nome de terroir, intraduzível.

“Desde a primeira safra, em 1997, fomos ganhando conhecimento das 200 parcelas que temos e cada uma delas vai resultando em um vinho do portfólio”, disse Charles, em entrevista nessa semana em São Paulo. O mapa decide de que parcela sai cada vinho da casa – o rótulo mais barato sai por cerca de 250 reais, o mais caro, mais de dois mil. As novas safras de Clos Apalta chegam pela @setwinesbr. A cada cinco anos, a equipe o revisa, porque o potencial de um pedaço de terra pode mudar.

Os pais de Charles, Alexandra Marnier Lapostolle e Cyril de Bournet, não conheciam o Chile quando viajaram para lá nos anos 1990. Alexandra descende da família que criou o conhaque Grand Marnier em 1880 e que, desde 1919, era dona do Château de Sancerre, no Loire. Segundo Charles, o casal se encantou com o campo chileno antes de pensar em vinho. Em 1994, compraram terras em Apalta com vinhas antigas. Uma delas, de Cabernet Sauvignon, mais tarde foi datada de 1907.

Para a primeira safra, a de 1997, contrataram Michel Rolland. Era chamado de “Mr. Merlot”. Rolland cresceu no Château Le Bon Pasteur, em Pomerol, entre vinhedos dominados pela uva. A ficha técnica de 1997, ainda publicada pela vinícola, registra 50% de Merlot, 45% de Carmenère e 5% de Cabernet. A nota de prova, assinada por Rolland em fevereiro de 1999. Mas os tempos e o clima eram outros.

Na safra 2013, a Merlot tinha caído para 7% do corte, e a Carmenère subido a 70%. A ficha da safra 2022, em fichas de importadoras dos Estados Unidos, haveria 10% de Merlot. Charles atribui a mudança ao aquecimento global: muitas plantas de Merlot, queimam com as temperaturas altas. “Os extremos são maiores hoje”, diz., descreveu Em entrevista ao site do crítico americano James Suckling, em 2024, Andrea León, diretora técnica da casa, disse que a chuva média anual em Apalta rondava 800 milímetros quando ela chegou à vinícola, em 2004. Hoje fica perto de 600 mm. Rolland morreu em 20 de março deste ano, aos 78 anos, de infarto. A própria Andrea León começou sob a orientação dele.

Charles chegou ao vinho por um desvio. Estudou microengenharia, mudou-se para o Chile para trabalhar numa consultoria de informática e criou uma marca de pisco antes de assumir a empresa da família, em 2013. Boa parte da produção da casa segue para os Estados Unidos, contou Charles. É lá que fica o dado mais incômodo para qualquer produtor de vinho caro.

Em agosto de 2025, o Gallup registrou que apenas 54% dos americanos dizem beber, o menor índice desde 1939, quando a pesquisa começou. Entre os adultos de 18 a 34 anos, metade bebe, e 66% consideram nocivo até o consumo moderado. Algumas vinícolas estão pensando em vender vinho sem álcool, na esteira do que fizeram algumas cervejarias. “Isso pode ser um nicho, mas vejo muitos artigos e estudos contraditórios que dizem o contrário. A indústria teve o impacto da pandemia, o que elevou o consumo, e depois outros desafios, como a política comercial dos Estados Unidos. O vinho faz parte da cultura milenar das pessoas.”

Ele fala que nos últimos dois anos tem havido aumento dos preços em restaurantes e as viagens voltaram aos orçamentos domésticos, depois da pandemia. Ou seja, o vinho tem outros rivais na hora dos gastos. Charles diz que as inovações não param. No ano passado, vinificou uma pequena parcela de sémillon de vinhas com quase cem anos, cerca de 600 garrafas. Ficaram todas com a família. A operação se repetiu na colheita deste ano, com uma produção maior. As vinhas foram adquiridas há quatro anos. Charles acha os resultados bons, mas não promete lançar ao mercado.

Ele diz que em 30 anos a família conseguiu posicionar seus vinhos entre os mais disputados do mundo. A história do futuro passará por mudanças, como as induzidas pelo aquecimento global, mas a empresa está buscando ampliar seu portfólio, por exemplo com vinhos à base das uvas Syrah e viognier, que fazem sucesso na região do Rhône, na França. “Um dos vinhos só foi lançado depois que as videiras tiveram 15 anos e deram bons resultados.”

Degustação World Wine: Destaques

4 de Maio de 2017

Em mais um evento sobre vinhos e produtos gourmet, a importadora World Wine mostrou parte de seu extenso portfolio com alguns vinhos interessantes, inclusive levando-se em consideração preços relativamente modestos, o que em época de crise, ganham destaque. Então, vamos a eles.

preços camaradas

Os vinhos acima prestam-se bem ao consumo do dia a dia, sem grandes cerimônias, para beber nas refeições frugais. Temos um branco do Dão (Morgado Silgueiros), região portuguesa tradicional que molda vinhos equilibrados, com muito frescor, e bastante gastronômicos. O Primo Primitivo Puglia IGT é um belo vinho para este inverno. Macio, agradavelmente quente, esperando aquela massa com molhos densos e condimentados. Por fim, outro tinto macio, desta vez do Alentejo. Um corte nobre para esta categoria de vinho com a participação da Alicante Bouschet e Touriga Nacional. Bom corpo, taninos bem moldados e relativamente persistente. Todos eles, a preços em torno de R$ 40 reais. Além de tudo, originais.

para dar o início …

O trio acima, com preços em torne de 80 reais, é composto de brancos distintos para dar início a jantares, recepções, ou mesmo para aperitivar. O Prosecco Extra Dry, melhor dizendo off-dry, tem leve açúcar residual equilibrado por agradável acidez. No mar de proseccos insípidos é algo acima da média. Já o Sauvignon Blanc Reserva da Conosur, mostra-se fresco e mineral, bem de acordo com o terroir de Casablanca. Finalizando, um Torrontés original das grandes altitudes de Salta, região norte do vinhedo argentino. Este curiosamente passa por algum contato com a madeira. No entanto, nada atrapalha sua fruta e frescor. Pelo contrário, ganha certa complexidade. Bom para comidas asiáticas bem temperadas, sobretudo pratos tailandeses.

vizinhos em destaque

Uruguai, Chile e Argentina, são os destaques do trio acima. Por preços em torno de 100 reais, temos tintos interessantes para este inverno. O argentino Chakana vem do Valle de Uco, mesclando Malbec com pequenas parcelas de Cabernet Sauvignon deste terroir que ultrapassa os 1200 metros de altitude. Belo frescor, muita fruta, vibrante, e taninos de boa textura. No caso uruguaio, um Tannat autêntico, louco por um bife de chorizo. Baseado em baixos redimentos de vinhas mais antigas, tem a força e estrutura da casta Tannat, acompanhado de certa elegância, no lugar da habitual rusticidade. Admite até uma certa guarda. Do lado chileno, o belo terroir de Colchagua, moldando a difícil casta Carmenère. Madeira na medida certa, a pequena porcentagem de Cabernet Sauvignon fornece estrutura necessária ao conjunto.

cada qual em seu estilo

Aqui entramos numa gama de vinhos mais diferenciados. Coyam, um clássico chileno dos vinhedos Emiliana. Bodega localizada no elegante terroir de Colchagua, elabora este tinto num corte inusitado envolvendo várias uvas. Principalmente, Syrah, Carmenère e Merlot. Os vinhedos mais antigos datam de 1992. Com baixos rendimentos, o vinho estagia cerca de 12 meses em barricas predominantemente francesas. Tinto macio, envolvente, de final persistente e sedoso.

Fazendo par na foto acima, temos a linha 20 Barrels de alta qualidade da bodega Cono Sur. Elaborado a partir de Cabernet Sauvignon de Pirque, porção de prestigio do chamado Alto Maipo ( o melhor terroir chileno para esta casta), tem uma pitada de Syrah (5%). Passa 17 meses em barricas francesas. Tinto de concentração, taninos presentes e de ótima textura. Boa presença em boca, podendo ser adegado por alguns anos ainda. Pede carnes robustas e suculentas.

para momentos especiais

Separamos para o final dois tintos para momentos especiais, fugindo da mesmice do dia a dia. Que tal tomar um Malbec de Salta!; com vinhas plantadas em 1975 a 1750 metros de altitude. Solos diferenciados e condução de vinhedo especial (parral ou latada) fornecem condições para uvas perfeitamente maduras e equilibradas. O vinho depois de longa maceração, passa cerca de 12 meses em barricas francesas e americanas. Tinto de presença, bela concentração, suavidade e persistência. Taninos bem fundidos com a fruta e madeira. Um Malbec fugindo do habitual.

Eis agora um vinho para o inverno (foto acima à direita), Dal 1947 Primitivo di Manduria Vigne Vecchie, proveniente de parreiras com mais de 70 anos (uva Primitivo). Denso, quase doce em boca, macio, envolvente, e persistente. Com certeza, vai bem com chocolate 99% Lindt. Evidentemente, um tinto moldado para pratos substanciosos, guisados e assados envoltos em molhos densos e cheios de sabor. Um vinho que separa os homens dos meninos …

Agradecimentos a World Wine. Maiores informações sobre preços e safras, consultar o site da importadora. http://www.worldwine.com.br

Comidinhas e Vinhos

27 de Abril de 2017

Nos últimos goles e garfadas, alguns momentos interessantes na enogastronomia. Em Uberlândia, destacada cidade de Minas Gerais, o restaurante Akkar com ênfase em pratos de acento árabe, propõe esfirras originais tendendo para uma espécie de pizza. A foto abaixo, elucida melhor o fato.

a chamada esfirra / pizza

estilos e texturas diferentes

O branco da esquerda, Roero Arneis, é uma das mais tradicionais denominações do Piemonte. Arneis a uva, Roero o terroir, região a norte de Alba, do outro lado do rio Tanaro que corta as principais denominações. O detalhe deste vinho é seu produtor Bruno Giacosa, um dos pilares da viticultura piemontesa. Vinho de muito frescor, elegância, fruta exóticas e toques florais bastante harmônicos. Embora sem passagem por madeira, mostra certa textura e maciez. Bela pedida com a esfirra margherita, foto acima à esquerda. O manjericão, os tomates, dão leveza ao prato, bem de acordo com o caráter do vinho.

Já o segundo branco, é uma proposta diferente da bodega chilena Undurraga no Vale Limari, bem ao norte de Santiago, aproximadamente 400 quilômetros. A linha T.H. (Terroir Hunter) propõe vinhedos e solos específicos ligados a determinadas uvas no mais puro conceito de terroir. Neste caso, o vinhedo com destacado calcário no solo, se beneficia das brisas frias advindas do Pacifico, devido à sua proximidade. O vinho passa parcialmente por barricas, num eficiente trabalho de bâtonnage (revolvimento das borras). A fruta é bem balanceada com a madeira, apresentando textura interessante, com certa untuosidade, sem perder o frescor. Vai bem com a esfirra da direita (foto acima), onde o frango e palmito cremosos pedem mais textura no vinho. O frescor do palmito fica na medida para a acidez do vinho.

costela de chão

fogo de chão

Mudando a conversa, agora numa festança (casamente de minha filha), costela de boi assada lentamente em fogo de chão. Prato de muito sabor, textura, e gordura condizente com a carne. Os tintos mais robustos, um tanto rústicos conversam bem aqui.

Carignan em ação

O tinto da esquerdo é o segundo vinho da bodega Cims de Porrera, uma das lendas da denominação de origem Priorato, região montanhosa ao sul da Catalunha. Neste blend, temos 70% Cariñena e 30% Garnacha. Apesar de seus quase dez anos de idade, o vinho mostra-se com muito vigor, potente, taninos muito bem delineados, e grande persistência aromática. Agradavelmente quente, é um tinto típico de inverno. Seus aromas concentram fruta, toques minerais e defumados. Muito elegante para castas naturalmente rústicas. Passa cerca de 14 meses em barricas francesas de segundo uso, as quais integram-se perfeitamente na essência do vinho.

No vinho da direita, outra bela expressão de Carignan, no caso italiano, Carignano. Um vinho diferenciado da melhor vinícola da Sardenha em termos de tinto, Santadi, haja vista seu topo de gama, o aclamado Terre Brune, Carignano de parreiras muito antigas. Neste caso, as videiras não são tão antigas, mas o vinho mostra muita personalidade com a típica rusticidade italiana, envolvida num vinho de presença e muito bem balanceado. Sob a denominação Carignano del Sulcis, este tinto passa entre 10 e 12 meses em barricas francesas de segundo uso. Novamente, muito bem balanceado entre fruta e madeira, seus toques defumados, balsâmicos e de ervas secas, resultam num vinho extremamente gastronômico, moldado para pratos substanciosos como rabada, carnes de longo cozimento com molhos bem temperados.

corrientes carmenere e rioja

tintos para churrasco

Para finalizar, dois belos tintos para acompanhar carnes bem grelhadas, evento na casa de carnes Corrientes 348. O Carmenère Winemaker´s Lot é um dos belos Carmenères elaborados pela gigante chilena Concha Y Toro. Seu frescor e taninos potentes são muito bem rechaçados pela suculência de um bife de chorizo devidamente grelhado ao ponto. A fibrosidade deste tipo de carne é um dos melhores contrapontos aos taninos mais presentes. Em contrapartida, o elegante Rioja da direita, Luis Cañas, baseado na casta Tempranillo, apresenta a acidez e frescor necessários para driblar a gordura entremeada de um belo ojo de bife (parte nobre do bife ancho). A delicadeza da carne casa muito bem com os Riojas da sub-região Alavesa, destacada pela elegância de seus Tempranillos. A madeira no caso dos dois vinhos acima é bem proporcionada com a estrutura de seus respectivos vinhos.

Vegetarianos ou ainda mais complicado, veganos, fica para uma próxima. Abraços,

Descorchados: Impressões Finais

16 de Abril de 2017

Prosseguindo com o evento Descorchados, não foi possível degustar todos os vinhos. Na verdade, faltaram muitos. De qualquer modo, dando uma última pincelada, vamos aos comentários finais.

Espumantes brasileiros

Além obviamente da Cave Geisse, vinícola comentada em artigo anterior, temos de destacar os espumantes da vinícola Décima, Pizzato e Casa Valduga, com vinhos bem equilibrados e uma linha ampla de escolhas. Pizzato e Décima, nem sempre são vinhos fáceis de encontrar. Já a Casa Valduga, tem normalmente uma distribuição mais pulverizada.

Argentina

Como falar da Argentina sem falar em Catena. Esta vinícola pioneiramente colocou o país no mapa dos grandes vinhos do mundo. Além disso, ao longo do tempo não se acomodou, continuou e continua trazendo belas novidades como os dois brancos abaixo.

descorchados catena brancos

a expressão do terroir

A foto acima mostra dois brancos do vinhedo Adrianna, uma espécie de Grand Cru argentino no Valle de Uco, mais especificamente em Gualtallary a 1450 metros de altitude. São duas parcelas de pouco mais de dois hectares cada uma, lado a lado com solos morfologicamente formado por pedras diversas. O vinho da esquerda, White Bones, apresenta na composição de solo, fósseis marinhos junto ao calcário, transmitindo uma particular mineralidade. Já o da direita, é rico em pedras calcárias ovaladas, também aportando mineralidade. Embora os dois passem por barricas francesas e tenham o mesmo trabalho de bâtonnage, White Bones é mais gracioso, flutua mais em boca, pendendo para um estilo mais feminino. Do outro lado, White Stones mostra mais densidade, embora com equilíbrio fantástico. Questão muito mais de gosto pessoal do que preconizar superioridade de um, ou de outro. Esses brancos foram pontuados acima de 95 pontos, safra 2013 para ambos.

descorchados nicolas catena

Um dos grandes Cabernets argentinos

Muita gente toma este vinho pensando tratar-se de um Malbec. Ledo engano, aqui temos 80% Cabernet Sauvignon e 20% Malbec de quatro vinhedos distintos e mais de 200 micro vinificações. O Cabernet em sua maioria vem de Agrelo dando força e estrutura. Já o Malbec e parte do Cabernet vem de Valle de Uco dos distritos de Gualtallary, Villa Bastias e La Consulta com altitudes entre 1000 e 1400 metros. Estas parcelas transmitem um frescor incrível ao vinho. A fermentação em barricas de carvalho francesas, além do amadurecimento nas mesmas por 24 meses amaciam e integram os taninos de uma maneira muito harmoniosa com a fruta. Persistente, estruturado e com grande poder de guarda. Um clássico.

destaques no Valle de Uco

O vinho da esquerda é um Malbec bem temperado com Cabernet Sauvignon (25%) e Cabernet Franc (5%) na zona de Altamira, pela bodega Chakana. Os Cabernets lhe dão a estrutura sem tirar a essência da Malbec e o incrível frescor deste terroir frio do Valle de Uco. Fruta com vibração. No vinho da direita, Ayni, topo de gama da vinícola, é um Malbec mastigável com muita estrutura e frescor. Seu solo em Altimira apresenta calcário ativo, refletido de maneira inequívoca no caráter do vinho. 95 pontos pelo guia Descorchados.

descorchados enemigo

referência em Cabernet Franc

Com 85% Cabernet Franc e 15% Malbec, este tinto honra a tradição de Agrelo, zonal alta do rio Mendoza. Com poucos meses em toneis grandes de madeira, apenas para micro-oxigenar  o vinho, este tinto apresenta toda a elegância da Cabernet Franc com a graciosa fruta da Malbec. O talento do enólogo Alejandro Vigil é refletido em todos seus vinhos por sua paixão, sobretudo pela Cabernet Franc.

Chile

Neste passeio pelo Chile, o vale do Maule teve um destaque especial, mostrando seu clima bem temperado e um patrimônio precioso de vinhas antigas. Um clássico destas terras é seu Sauvginon Blanc Laberinto, foto abaixo.

descorchados laberinto sauvignon blanc

aromas selvagens

Este Sauvignon Blanc sempre mostrou bela acidez e toques marcantes de ervas, evidenciando um lado mais selvagem no vinho. Não há interferência de madeira e seu contato sur lies confere mais complexidade ao conjunto. Seu par tinto, um Pinot Noir da mesma região, é outro destaque na foto abaixo.

boa expressão da casta

Apesar de latitudes diferentes, Maule e Colchagua são vales relativamente frescos elaborando esses equilibrados tintos com a difícil Pinot Noir. Laberinto faz um vinho mais nervoso com esse lado selvagem, mas bem dosado com a barrica. Já o Casa Silva mantem a elegância da vinícola com fruta bem expressiva, frescor interessante e madeira na medida certa. Não são vinhos de alta complexidade, mas cumprem bem o papel de fazer um Pinot equilibrado, o que já é um grande mérito.

Carmenère: varietal e corte

Finalizando, esses dois tintos de alta pontuação. Os dois trabalham com a uva Carmenère, mas de maneiras diferentes. Maquis Viola, o da esquerda, é elaborado no Valle de Conchagua, terroir muito propicio para esta casta, complementado por 15% de Cabernet Franc. Um Carmenère de destaque bem trabalhado em barricas francesas, respeitando a maturação ideal desta indomável casta.

A apoteose fica para o Almaviva 2014, o melhor e mais clássico tinto chileno, de alta categoria e de respeito internacional. Um vinho que ronda sempre a casa dos 95 pontos, independente da safra. Para não deixa-lo muito afrancesado, a ideia da vinícola é sempre mesclar este tremendo Cabernet Sauvignon com uma boa dose de Carmenère, além de pitadas de outras cepas. A Carmenère acaba dando a personalidade chilena desejada. O vinho é magistralmente educado em barricas francesas novas, nunca invasivas. Além de tudo, envelhece bem por uns bons dez anos pelo menos.

Como última observação, o destaque apenas para os espumantes brasileiros, pode dar ao público menos informado que o Brasil só faz este tipo de vinho. Embora os espumantes sejam realmente nossa grande bandeira, atualmente temos tintos que mereceriam destaque, sobretudo com a casta Merlot. Sem entrar em marcas específicas, temos pelo menos um vinho de categoria internacional chamado Sesmarias (vinícola Miolo). Um blend feito na região da Campanha de alta classe, equilibrado, podendo ser comparado a muitas feras do Chile e Argentina, evidentemente às cegas. No mais, a América do Sul segue firme seu caminho em melhorar seus vinhos, definir terroirs, e descobrir novos rumos. A liderança de Chile e Argentina é indiscutível e merecida.