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Feijoada, Rabada, Galinhada, …

18 de Julho de 2019

Além do sufixo em comum, as comidas acima são cheias de sabor, reconfortantes, e apropriadas para os dias mais frios. Bem ao gosto do brasileiro, cada qual tem suas peculiaridades e direcionamentos para os vinhos. Vamos falar um pouco das três, discutindo algumas opções de vinhos possíveis.

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dois dias da semana dedicados a ela

Feijoada

Assunto já discutido neste blog e talvez a mais polêmica das harmonizações com vinho, a nossa feijoada. Embora tente indicar algumas sugestões, nenhuma realmente se encaixa perfeitamente. Uma coisa é você comer feijoada no inverno ou nos poucos dias que realmente faz frio durante o ano. Outra coisa, é desfruta-la em pleno verão com mais de trinta graus. E é assim mesmo que acontece, feijoada é o ano inteiro como o nosso futebol.

O prato realmente é forte e consistente. Se a gente parte para a teoria de encara-la com o vinho de igual para igual, vamos chegar a tintos potentes como Tannat, tintos da Bairrada, Nebbiolos do Piemonte, e outros exemplos de vinhos ricos em taninos e acidez. Mesmo se fizermos isso no inverno, estação mais apropriada, sempre fica aquela sensação de algo pesado no final. E a razão é muito simples, feijoada é um prato que se repete. Sempre falta um pouco de couve com a carne, um pouco mais de arroz, mais um caldinho de feijão, um pouco mais de farofa, e assim por diante.

Pessoalmente, se quisermos insistir com o vinho, sobretudo no verão, é partir para vinhos mais refrescantes, abrindo mão um pouco de igualar a intensidade do prato. Vamos deixa-la ganhar no sabor. Afinal, ela é soberana. De todo modo, também não podemos partir para vinhos muitos delicados, fugindo do combate. Acho que espumantes rosés de bom corpo e certa rusticidade podem refrescar o prato, sem perder sua personalidade. Neste sentido, os espumantes da Bairrada podem ir muito bem. Quando as opções forem para os tintos, é melhor investir na acidez cortando as gorduras e abrir mão de tantos taninos. Um tinto que pode encaixar muito bem é o piemontês Barbera d´Alba não barricato, bem fresco, e jovem. Normalmente, esses vinhos têm alguns traços defumados que caem bem com os sabores do prato, sem ficar um conjunto pesado. Tempranillos jovens e até mesmo um Rioja Crianza com alguns toques de barrica, podem ser interessantes. A ideia é do vinho ter frescor e alguma personalidade para encarar o prato. Outro vinho que pode se dar bem neste desafio são os chamados vinhos laranjas. São vinhos ricos em sabor, com bom frescor, e estrutura suficiente para o prato. 

rabada-com-polentaRabada com Polenta

Um prato de origem italiana, sobretudo na Itália Central, a famosa Coda alla Vaccinara, perfeitamente adaptada ao Brasil e tradicionalmente servida com polenta, um acompanhamento mais do norte italiano. Enfim, outro prato rico em sabor. Evidentemente, as primeiras indicações são para tintos italianos. O vinho precisa ter sabores ricos, ter estrutura, e certa evolução com taninos mais polimerizados, já que a carne passa por longo cozimento. Os Brunellos e Chianti Riserva são ótimas pedidas. Um Taurasi já com algum envelhecimento da Campania é outra pedida certa. Acho que um Barbera Barricato com certa textura também encara este desafio. 

De outros países, um Chateauneuf-du-Pape e outras opções do sul do Rhône podem funcionar. Da Espanha, um Ribera del Duero ou um bom Garnacha de parreiras antigas bem estruturado vão bem, além dos tintos do Priorato. De Portugal, um bom tinto alentejano, rico em sabores, dá conta do recado. Em suma, tanto o prato, como os vinhos sugeridos, são reconfortantes e muito apropriados ao inverno.

galinhadareceita típica de Minas Gerais e Goiás

Galinhada

Outro prato brasileiro rico em sabores, típico de Minas Gerais e Goiás. A receita tem algumas variantes como o pequi e a guariroba (palmito amargo), utilizados pelos goianos. Na essência, além da galinha, o prato é rico em temperos como cebola, alho, bacon, açafrão da terra, tomates, ervas, pimentão, milho, e arroz. 

Aqui, apesar dos sabores ricos, o vinho pende mais para um branco, mas um branco de personalidade. De cara, um bom chardonnay com alguma passagem por barrica, onde o vinho ganha mais textura. Semillon australiano ou sul-africano caem bem. Um bom branco do Rhône é uma opção interessante. Condrieu ou um Hermitage branco com certa evolução. Chenin Blanc do Loire também mais evoluído tem textura e força para o prato. Novamente, alguns vinhos laranjas não tão potentes podem dar certo.

Os tintos têm força para  o prato, mas os sabores da galinha e os outros ingredientes têm mais afinidades com os brancos. De todo modo, um Cru de Beaujolais mais estruturado pode ser uma boa opção para quem não abre mão de tintos. Do lado italiano, um Valpolicella de bom produtor é uma saída.

Além desses pratos, outros cozidos de inverno pedem vinhos de bom corpo e estrutura. Como geralmente as carnes passam por longo cozimento, não há necessidade de tantos taninos no vinho, sobretudo se for jovem. Basta ele ter  textura macia, intensidade e acidez adequada a um bom equilíbrio. No mais, é continuar curtindo o frio …

O Mezzogiorno repaginado

11 de Maio de 2017

Na chegada do inverno, procuramos sempre por tintos mais robustos, mais intensos, mais quentes, bem de acordo com a culinária de sabores e molhos marcantes. Neste contexto, os vinhos do sul da Itália devem ser lembrandos, fugindo um pouco dos encorpados Cabernets. Tannats e Malbecs do Mercosul. Além de originais, autênticos, como todo os italianos, são muito gastronômicos.

Há décadas passadas, esses tintos foram sempre desprezados, e extremamente discriminados pelos próprios italianos, sobretudo a turma do norte, onde Barolos e Barbarescos sempre foram os vinhos mais nobres e elegantes. Contudo, os tempos mudaram. O sul da Itália abriu mão da quantidade, reavaliando suas vinhas, seus altos rendimentos, e sua vinificação arcaica. Atualmente, a turma do norte tem mais volume no cômputo geral dos vinhos, algo impensável em outras épocas. O mar de Proseccos, Lambruscos e Soaves atualmente, depõem negativamente à tão promulgada superioridade qualitativas desta região setentrional mais abastada.

Campania

Antes de falar dos tintos, vamos enfatizar os brancos desta região. Sem dúvida, tanto Greco di Tufo, como Fiano di Avellino, são brancos que dignificam o sul da Itália. Sempre muito frescos, originais, e gastronômicos, muitos deles são agraciados com tre bicchieri, pontuação máxima do mais tradicional guia de vinhos italiano. As uvas são Greco e Fiano, respectivamente.

Os tintos baseados na potente uva Aglianico, podem envelhecer com dignidade. A nobre denominação Taurasi é seu terroir mais clássico. Entretanto, outras denominações menos restritivas moldam tintos modernos, indo de encontro ao gosto internacional dos consumidores. Enfim, escolhendo bem os produtores, tem tintos muito bons para o inverno, de todos os gostos e bolsos.

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equilíbrio e tipicidade

O tinto acima vem de uma denominação mais genérica em torno da DOCG Taurasi chamada Irpinia. Apresenta boa fruta, álcool relativamente discreto para os padrões da região e pouco invasivo no sentido gastronômico. Safra 2010 já com seus seta anos, pronto para consumo.

Puglia

Já foi um máquina de fazer vinhos, embora tenha ainda uma produção considerável. Faz cerca de 15% de todo vinho italiano. De relevo praticamente plano, lembrando uma mesa, a proximidade do Adriático e do mar Jônico, refresca um pouco o sol implacável no tempo de maturação das uvas. Seus tintos baseados nas uvas Primitivo e Negroamaro principalmente, moldam vinhos densos, cheios de fruta, chegando até a uma sensação de doçura. Os preços geralmente apontam para os vinhos mais profundos e concentrados. A denominação Primitivo di Manduria é a mais badalada no momento.

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as famosas vinhas velhas

Para aqueles amantes de tintos densos, encorpados, cheios de fruta, chegando até parecerem doces, este é o tinto a ser procurado. Um vinho musculoso, macio, lembrando a densidade de um Porto. A concentração se explica pelo emprego de parreiras com mais de 50 anos, rendendo apenas um quilo por planta. Carnes ensopadas com molhos vigorosos e sabores agridoces são grandes parceiras, sobretudo nesses dias de inverno mais intensos.

Sicilia

Se tem uma região no Mezzogiorno onde a renovação chegou pra valer, esta região é a Sicília, a maior ilha do Mediterrâneo. Outrora baseada no vinho fortificado Marsala, a Sicília hoje é premiada por seus tintos robustos, modernos e cheios de personalidade, baseados sobretudo nas uvas Nero d´Avola e Nerello Mascalese. Enquanto a primeira é um pouco mais eclética, indo desde de vinhos frutados e de consumo imediato, até alguns tintos de guarda como por exemplo, Don Antônio, importado pela Ravin (www.ravin.com.br), a Nerello Mascalese tem estrutura para vinhos mais complexos e de guarda, transmitindo toda a mineralidade dos solos vulcânicos nas cercanias do Etna.

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duas grandes uvas sicilianas

No tinto acima, uma fusão interessante de concentração, potência, e estrutura para bons anos de guarda. Enquanto a Nero d´Avola entra com muita fruta e maciez, a Nerello Mascalese, passificada no pé (ainda na vinha), mostra toda sua força, sobretudo nos taninos presentes e bem moldados. Um tinto que dignifica as raízes da ilha sem abrir mão da modernidade dos vinhos atuais.

Basilicata e Calabria

Nessas duas regiões acima, a modernidade não foi tão impactante como nas acima já citadas. O tradicionalismo  e as raízes destes locais estão ainda muito presentes. A Calabria é comandada em termos de qualidade pelo respeitado produtor Librandi. O potencial da região é certamente muito mais vasto do que seu tradicional e tosco tinto Cirò baseado na uva Gaglioppo.

Já a Basilicata, prende-se à denominação Agliancio del Vulture, a mesma uva da vizinha Campania. A altitude gera a devida amplitude térmica para equilibrar uvas perfeitamente maduras. Aqui, a mão do produtor pode trilhar por caminhos mais tradicionais ou alternativas mais modernas.

Sardegna

A famosa ilha de veraneio de alguns bilionários teve na história uma importante influência espanhola, trazendo para essas terras uvas como Garnacha (localmente chamada de Cannonau) e Cariñena (Carignano para os italianos). Essas duas tintas parrudas encontraram na ilha sol suficiente para uma perfeita maturação. Seus vinhos são densos, encorpados, e com uma agradável rusticidade, bem de acordo com pratos de sabores rústicos e selvagens. Não podemos esquecer de um grande branco da ilha agradabilíssimo, o DOCG Vermentino di Gallura. Fresco, vibrante, e intenso, acompanha bem pratos de peixes e crustáceos, grelhados ou in natura. Outro branco curioso é a Vernaccia di Oristano, uma espécie de Jerez da ilha que combina muito bem com massas aromatizadas com botarga (ovas secas de tainha).

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tradição com competência

O vinho acima, retrata fielmente um clássico Cannonau di Sardegna. Aquela fruta exuberante típica da Garnacha, seus toques balsâmicos e cheios de especiarias. Um tinto agradavelmente quente, moldado em tonéis de madeira apenas para a devida micro-oxigenação. Um cabrito assado com ervas e batatas ao forno é um grande parceiro para este representante sardo.

Nos últimos tempos o tinto Carignano ganhou status, deixando para trás o tradicional Cannonau di Sardegna, elaborado em toda a ilha. A denominação Carignano del Sulcis atingiu seu ápice no grande tinto Terre Brune da vinícola Santadi. Investimentos do poderoso grupo envolvendo Tenuta San Guido (Sassicaia) e Cantina Santadi também faz sucesso com seu tinto Barrua, sofisticando o padrão da ilha.

Enfim, mais uma opção para tintos de inverno e principalmente, para estarem à mesa acompanhando os pratos mais calorosos. Aí, é só acender a lareira …

Bacalhau e seus Vinhos

25 de Fevereiro de 2016

Com a chegada da Páscoa, as receitas de bacalhau são sempre lembradas e muito tradicionais em nossos costumes. Já falamos neste blog sobre o assunto e as harmonizações possíveis com vinho. Em todo caso, nunca é demais voltarmos ao assunto.

Pessoalmente, proponho três possibilidades de sucesso. A primeira, evidentemente com vinho branco, é o clássico Chardonnay  passado em barrica. Mesmo que a barrica seja um pouco invasiva, dá certo com pratos de bacalhau, sobretudo aqueles onde há molho branco, creme de leite, queijos, e outros derivados do leite.

bela sintra

restaurante bela sintra

A segunda opção, vai para vinhos tintos estruturados com aromas terciários e portanto, de certa evolução. Os tintos ibéricos saem na frente. Contudo, vinhos do Novo Mundo, bem evoluídos e com taninos domados, podem ter sucesso. Os aromas evoluídos destes tintos, acrescidos de toques amadeirados, agregam bem os sabores do bacalhau.

Como terceira opção, para aqueles que gostam de vinhos jovens e potentes, pois o prato exige sabores intensos do vinho, os mesmos precisam ser bem frutados e com taninos dóceis. Aqui, tanto tintos europeus como os do Novo Mundo, têm espaço para o casamento.

bacalhau com legumes

bacalhau com legumes

Dito isso, vamos às sugestões para cada uma das três propostas:

  • Brancos portugueses com as uvas Encruzado (Dão) e Antão Vaz (Alentejo). Esses vinhos  costumam fermentar em barricas, gerando sabores marcantes e corpo adequado ao prato. Nada de vinho verde como alguns costumam insistir. Esses vinhos não têm corpo para o prato. Melhor deixa-los para os bolinhos de bacalhau ou uma brandade. Do lado espanhol, os Riojas brancos fermentados em barrica com a clássica uva Viura são pedidas certas também. Para o Novo Mundo, como já dissemos, os Chardonnay passados em barrica são escolhas confiáveis. Uma escolha inusitada seria o clássico Sémillon australiano do Hunter Valley com bons anos de evolução. Pode ser um casamento espetacular.
  • Tintos evoluídos. Riojas Reservas e Gran Reservas são belas opções. Do lado português, vinhos do Douro, Dão e Bairrada, bem evoluídos são clássicos com bacalhau. Contudo, tomem muito cuidado com o Bairrada, especialmente. Ele precisa ser super evoluído, pois seus taninos costumam ser ferozes. Outra opção espetacular são os tintos de Colares com muitos anos de garrafa. De todo modo, qualquer boa Garrafeira de Portugal costuma dar certo. Do lado italiano, Brunellos evoluídos, assim como Chianti Classico Riserva, são minhas primeiras escolhas. Da Campania, um Taurasi bem envelhecido pode ser outra saída.
  • Tintos jovens e potentes. Os portugueses do Alentejo saem na frente. Italianos da Puglia com a uva Primitivo e também os Zinfandeis californianos são belas opções, além de tratar-se da mesma uva. Garnachas de vinhas antigas e de boa concentração são opções espanholas. Todos esses vinhos costumam ter corpo e sabores suficientes para o prato. E o mais importante, seus taninos são dóceis. Do Novo Mundo, Merlots e Malbecs observando as características acima, são boas soluções.

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aqui o bacalhau precisa ser de primeira

Enfim, esse é um dos pratos mais polêmicos quanto à harmonização, começando pela discussão se o vinho é tinto ou branco. Afinal, como dizem sabiamente os portugueses: “bacalhau não é peixe, bacalhau não é carne, bacalhau é bacalhau”.

Arroz de Pato e Harmonização

17 de Fevereiro de 2016

Dentre os artigos mais pesquisados neste blog, arroz de pato ganha disparado. Já fizemos um artigo sobre o assunto, mas talvez devêssemos fazer uma nova abordagem. Não fica claro se a pesquisa é sobre a receita, ou sobre a harmonização. Em todo caso, vamos tentar esclarecer os dois itens. Esta receita tem origem ao Norte de Portugal, na cidade de Braga, região dos vinhos verdes. Atualmente, há muitas versões e repaginações da mesma. Para não correr grandes erros, vamos ficar com a receita do restaurante Bela Sintra, referência em comida portuguesa em São Paulo.

RECEITA

1 Tempere o pato com o vinho branco, 2 cebolas, o louro, a pimenta-do-reino, o salsão e as cenouras picadas.
2 Deixe marinar por 12 horas, coloque o pato em uma panela de pressão com os legumes, cubra com água, tempere com sal e cozinhe por 15 a 20 minutos.
3 Desfie a carne e reserve.
4 Refogue no azeite a cebola restante com o alho e o bacon, acrescente o arroz e junte 1 litro do caldo do cozimento do pato.
5 Quando o caldo estiver fervendo, acerte o sal e deixe o arroz cozinhar.
6 Depois de cozido, misture o pato desfiado com o arroz em uma travessa.
7 Finalize com as rodelas de cenoura e chouriço sobre o arroz e leve ao forno por aproximadamente 20 minutos.

Para a harmonização, temos que pensar num vinho tinto, pois o prato é rico em temperos e a carne da ave tem sabor acentuado. Esse é um dos casos de exceção, onde o vinho local não é o mais indicado. O vinho verde, mesmo o tinto, vai ser atropelado pelo prato. Precisamos de algo com mais presença. Contudo, na região contigua aos Vinhos Verdes, temos o Douro e seus tintos de grande estrutura. Com as mesmas uvas utilizados no Vinho do Porto, os tintos do Douro apresentam bom corpo, boa acidez e riqueza em taninos. Esses atributos dão enorme longevidade aos mesmos.

O mais importante na harmonização é que o vinho tenha um certo grau de envelhecimento. Não é aconselhável um vinho muito jovem. Neste caso, os sabores da carne cozida e posteriormente assada, juntamente com os embutidos não necessitam de taninos tão presentes. A acidez talvez seja mais importante para combater a gordura do prato. Os taninos já pelo menos parcialmente polimerizados nos vinhos de certa evolução são suficientes para a suculência do prato. Além disso, os aromas terciários do vinho vão muito melhor com os sabores assados e defumados do prato. Um Reserva Ferreirinha com dez anos de idade por exemplo, seria maravilhoso.

Outras alternativas portuguesas poderiam ser vinhos do Dão, de preferência os mais modernos com um pouco mais de potência, ou um belo Buçaco, naturalmente envelhecido, onde os sabores do Dão e Bairrada se fundem.

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bela apresentação na umidade certa

Saindo de Portugal, podemos ir para os italianos. Um belo Brunello di Montalcino seria minha primeira escolha. Um Taurasi envelhecido com a uva Aglianico é outra bela pedida. Do lado espanhol, um Ribera del Duero, um Rioja Reserva ou Gran Reserva mais moderno, mais encorpado, também podem dar certo.

Quanto aos franceses, penso que o Rhône é a melhor opção. Um Cornas ou um bom Crozes-Hermitage com alguns anos de garrafa tem o perfil deste prato com as características da Syrah. Com um pouco mais de sofisticação, podemos tentar um Côte-Rôtie ou o grande Hermitage. No caso deste último, deve ser bem envelhecido para amansar sua potência.

Barca Velha e seu segundo vinho

neste caso, a receita tem que ser caprichada

Para os vinhos do Novo Mundo, somente os grandes tintos que possuem capacidade para envelhecimento. Um Malbec da Bodega Achaval Ferrer, um Cabernet chileno de estirpe como o Casa Real Santa Rita, ou um Shiraz com toques de evolução como o sul-africano  da vinícola Neil Ellis.

Como a receita sugere um pato inteiro, uma travessa de arroz de pato serve de seis a oito pessoas, dependendo do apetite de cada um. Apesar de não ser mencionada na receita, o foto mostra azeitonas verdes, o que é muito usual neste prato. De todo modo, não influencia na escolha do tinto.

Caso na época da Páscoa o tempo contribua, é uma bela ideia para o almoço de domingo, depois de um tradicional bacalhau na sexta-feira. Bom apetite!

Arroz de Pato: Que Marravilha!

11 de Agosto de 2014

Voltando aos pratos do grande Chef Claude Troisgros no programa Que Marravilha!, vamos abordar a complexa receita do Arroz de Pato. Dá trabalho, mas vale a pena quando temos uma boa turma disposta a pratos saborosos. A foto abaixo e o link para o vídeo, ajudam na elaboração.

http://gnt.globo.com/programas/que-marravilha/videos/3315758.htm

O primeiro passo é fazer a marinada, temperar o pato e deixa-lo um bom tempo na geladeira para incorporar o tempero. Em seguida, assar o pato, desfiar a carne e separar os ossos para fazer o caldo. Tudo isso deve ser feito com antecedência. Continuado, preparar os cogumelos e reservar o respectivo caldo para ser acrescentado no caldo de pato. Neste último, teremos os miúdos do pato, o pescoço, vinho tinto e nosso caldo de cogumelos, além dos temperos. Próximo passo, fazer o arroz, puxado na gordura do pato com paio ou chouriço. Cozinhe o arroz no caldo que acabamos de mencionar. Por último, vamos preparar as frutas secas (macadâmia ou amêndoas, por exemplo), azeitonas, ervilhas, os cogumelos, adicionando o pato desfiado e o arroz já cozido. Na montagem  do prato, acrescente as castanhas portuguesas cozidas que podem fazer parte do prato, ou mera decoração.

VEJA A RECEITA: ARROZ DE PATO

Como fazer a marinada:
Ingredientes:
Tomilho, louro e alecrim picados (a gosto)
Pimenta-do-reino branca e preta (a gosto)
2 colheres (sopa) de alho picado
½ pimenta dedo-de-moça picada
Flor de sal (para decorar)
200ml de azeite extravirgem
1 colher (sopa) de urucum

Modo de preparo:
Misture tudo e reserve.

Como preparar o pato:
Ingredientes:
1 pato de 3kg
Alecrim, tomilho e louro (a gosto)
Sal e pimenta-do-reino branca moída na hora (a gosto)

Modo de preparo:
Abra o pato em dois, pelo peito. Descole a pele dos peitos e das coxas. Insira a marinada com a mão entre a pele e a carne. Acrescente alecrim, tomilho e louro no centro do pato e feche. Coloque o pato dentro de um saco de assar, feche e deixe marinar na geladeira durante 6 horas. Asse dentro do saco de assar durante 3 a 4 horas, a 110ºC, com o peito para baixo. Retire o saco de assar e desfie a carne sem pele. Guarde os ossos para o caldo e reserve também a gordura.

Como fazer os cogumelos:
Ingredientes:
150g de funghi porcini seco
8 cogumelos de Paris grandes
4 cogumelos shitake

Modo de preparo:
Ferva água e coloque os cogumelos de Paris e os shitakes para cozinhar durante 5 minutos. Retire e coloque os funghi porcini, deixando cozinhar durante 10 minutos. Retire e reserve.

Como fazer o caldo:
Ingredientes:
1 cenoura
1 cebola
2 talos de aipo
Ossos, pescoço, fígado, asas e moela do pato
Zimbro picado
500ml de vinho tinto português
½ pimenta dedo-de-moça fatiada
Tomilho, louro e alecrim (a gosto)
Flor de sal (a gosto)

Modo de preparo:
Esquente bem uma panela com azeite. Coloque os ossos, o pescoço, o fígado, as asas e a moela de pato com os legumes e as ervas para tostar nessa panela. Deglacear com vinho tinto e cobrir com o caldo de cogumelos, temperando com um pouco de flor de sal. Junte com a pimenta dedo-de-moça e o zimbro. Deixe cozinhar 20 a 30 minutos e depois, peneire.

Como fazer o arroz:
Ingredientes:
1 colher (sopa) de gordura do pato guardada
300g de chouriço espanhol em rodelas.
½ cebola picada fina
1 cebola em cubos
3 xícaras de arroz parboilizado
Sal, pimenta-do-reino (a gosto)

Modo de preparo:
Numa panela de barro, refogue o chouriço na gordura de pato. Junte as cebolas e deixe suar mais. Coloque o arroz e deixe tostar um pouco. Cubra com o caldo de cogumelos, ferva e cozinhe até ficar al dente, durante 15 minutos.

Como preparar os legumes:
150g de noz de macadâmia
Cogumelos fatiados (porcini, Paris e shitake)
2 dentes de alho picados
Salsa picada
15 azeitonas pretas portuguesas (sem caroço)
300g de ervilha fresca
Cebolinha picada (a gosto)
Sal e pimenta-do-reino (a gosto)

Modo de preparo:
Toste as macadâmias no azeite e reserve. Puxe no azeite quente os cogumelos cozidos e tempere. Coloque o alho, a salsa e a cebolinha e deixe suar mais. Junte o pato desfiado, as ervilhas e as azeitonas.

Toque final:
Ingredientes:
20 castanhas portuguesas já cozidas
Folhas de salsa
Azeite extravirgem

Modo de preparo:
Misture os legumes e a macadâmia tostada com o arroz. Verifique os temperos e enforme. Desenforme no prato e regue com azeite. Decore com as folhas de salsa e castanhas portuguesas.

Depois de todos esses procedimentos, ingredientes e temperos diversos, vamos aos vinhos. A primeira opção natural é sempre pelos vinhos regionais. Como a receita é do norte de Portugal, os vinhos do Douro são os mais lembrados. De fato, são vinhos de bom corpo, sabores acentuados, frescor no ponto para o lado gorduroso do prato, e taninos presentes para a suculência do mesmo. A passagem por madeira e uma certa evolução aromática (aromas terciários) com alguns anos de adega, encontra eco nos sabores defumados e tostados, além da presença dos cogumelos e das frutas secas. Os tintos do Dão podem ser a segunda opção. Embora tenham bom frescor, tendem a ser mais elegantes e sutis, talvez carecendo de alguma potência para os sabores do prato. Já os tintos alentejanos, costumam ter corpo para a harmonização, mas faltam-lhes o frescor, tornando o conjunto um pouco pesado.

Saindo de Portugal, o vizinho ibérico, Espanha, tem em Ribera del Duero seu maior aliado. São vinhos de corpo e com bom frescor. Já o lado de Rioja, acaba tendo as mesmas considerações da região portuguesa do Dão, exceto os Riojas mais modernos, de mais corpo e potência.

Italianos da região toscana podem ter sucesso na harmonização, sobretudo um autêntico Brunello di Montalcino em estilo mais clássico, com algum envelhecimento em garrafa. Dos tintos sulinos, um bom Taurasi (tinto com a uva Aglianico) da Campania é uma opção interessante. Embora a latitude não favoreça, a altitude dos vinhedos imprimem boa amplitude térmica, culminando em vinhos de boa acidez.

Do lado francês, as melhores opções são do sul do Rhône. Tintos da apelação Vacqueyras ou Gigondas costumam apresentar boa estrutura e uma certa rusticidade, no bom sentido da palavra, para o prato em questão. Os tintos do norte como Côte Rôtie e Hermitage podem ter algumas inconveniências. O primeiro é muito elegante para o prato, e o segundo, muito tânico e estruturado. Já os tintos provençais calcados na cepa Mourvèdre como a apelação Bandol, por exemplo, podem ser bem interessantes.

Para o Novo Mundo, as opções de tintos com corpo e estrutura são fartas, mas a falta de frescor  na maioria deles costuma ser o maior inconveniente. Malbecs ou cortes argentinos das zonas mais altas de Mendoza podem ser interessantes, por exemplo, Valle de Uco (Tupungato). Alguns Syrahs do Chile em zonas mais temperadas com boa amplitude térmica (Vales de Elqui e Leyda) são outras opções. Tintos de corte bordalês da Nova Zelândia, sobretudo da Ilha Norte (Hawke´s Bay), é mais uma bela alternativa. Do lado australiano, Shiraz ou Cabernet de Coonawarra, são vinhos de presença e bom frescor, fugindo dos padrões clássicos deste país.

Depois de tudo isso, resta testar as opções, ou seja, razões não faltarão para inúmeras repetições desta saborosa receita. Para aqueles que desejam evitar a complexidade da receita, os bons restaurantes portugueses facilitam o trabalho em busca da melhor harmonização. Bom apetite!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Wine Spectator: Top Ten

21 de Novembro de 2013

Dando prosseguimento à lista dos cem melhores vinhos de 2013, segundo a revista americana Wine Spectator, farei um Top Ten pessoal. A ordem dos vinhos apresentada abaixo não obedece nenhum critério, apenas visa sugerir alguns vinhos interessantes para serem provados e evidentemente, encontrados nas grandes importadoras do Brasil.

Analisando a lista, percebemos que um terço dos vinhos são norte-americanos, naturalmente enaltecendo exemplares de seu país. A despeito de ser justa ou não a inclusão dos mesmos, é inegável que os Estados Unidos ainda lidera com folga uma grande diversidade e qualidade dentre os países do chamado Novo Mundo. Pena que chegam poucos exemplares ao Brasil a preços praticamente proibitivos. Sem mais delongas, vamos à lista sugerida: 

  1. Croft Vintage Port 2011 – WS 97 pontos
  2. Hamilton Russell Chardonnay 2012 – WS 93 pontos
  3. Rioja Alta Viña Ardanza Reserva 2004 – WS 94 pontos
  4. Château Doisy Daëne Barsac 2010 – WS 94 pontos
  5. Achaval Ferrer Finca Mirador Malbec 2011 – WS 96 pontos
  6. Quinta do Crasto Reserva Old Vines 2010 – WS 93 pontos
  7. Wynns Cabernet Sauvignon Coonawarra Black Label 2010 – WS 91 pontos
  8. Champagne Louis Roederer Brut Vintage 2006 – WS 94 pontos
  9. Mastroberardino Taurasi Radici DOCG 2006 – WS 94 pontos
  10. Seghesio Zinfandel Dry Creek Valley Cortina 2010 – WS 94 pontos

Croft Vintage Port 2011

Além da Croft, as duas casas de vinho do Porto na foto acima, dispensam apresentações. A safra 2011 promete vida longa como uma das melhores deste novo século. Evidentemente, degustá-lo agora trata-se de um infanticídio completo. Quem tiver paciência, estará com um tesouro em mãos. Importadora World Wine (www.worldwine.com.br). 

Pioneiro na África do Sul

Hamilton Russell, apaixonado pelos vinhos da Borgonha, sonhou em ter um pedacinho dela na fria região de Walker Bay, África do Sul. Em parte conseguiu, com vinhos bem elaborados, cheios de personalidade, sendo sempre lembrados nas principais publicações. Vale a pena prová-lo. Importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

Rioja Alta: Ícone da região

Sou suspeito em falar desta bodega, já comentada em artigos especiais neste mesmo blog. Seus vinhos são considerados os “borgonhas” da região. Elegantes, profundos e perfumados. Bela relação qualidade/preço em seu seleto portfólio. Importadora Zahil (www.zahilvinhos.com.br).

Doisy Daëne ao lado de grandes Sauternes

Para quem gosta de Sauternes delicados e elegantes, Barsac é a comuna a ser procurada. O rei é o Château Climens, com preços de realeza. Château Doisy Daëne, do grande enólogo Denis Dubourdieu, nos mostra toda a essência deste grande terroir. Importadora Casa Flora (www.casaflora.com.br). 

Achaval Ferrer: Artesanato em vinho

Outra bodega irrepreensível. Atuando em Valle de Uco na região de Mendoza (Argentina), procura sempre em seus vinhos, concentração, profundidade e definição de terroir. Finca Mirador forma a trilogia de seus grandes ícones (os outros são Altamira e Bella Vista). São necessários frutos de três parreiras para a elaboração de uma garrafa (rendimento de Romanée-Conti). Importadora Inovini (www.inovini.com.br). 

Um dos melhores exemplares do Douro

Partindo de vinhas com mais de setenta anos, plantadas conjuntamente entre 25 e 30 variedades, o vinho surge com uma complexidade e concentração singulares. Tinto de longa guarda que exige decantação para melhor expressar-se. Importadora Qualimpor (www.qualimpor.com.br).

Coonawarra: região diferenciada

Esta região australiana (Coonawarra) e em especial esta vinícola (Wynns) já foram devidamente comentadas em artigo específico neste mesmo blog. Região relativamente fria para os padrões australianos, Coonawarra costuma gerar tintos concentrados e com uma acidez vibrante. Os aromas de frutas em compota e um toque refrescante de menta são atrativos mais que suficientes para provar este tinto surpreendente. Importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

Louis Roederer: Magia e Excelência

Sua cuvée de luxo Cristal faz o sonho desde os tempos dos Czares. Entretanto, toda sua linha é elaborada nos mínimos detalhes. Num degrau acima do Brut Premier, estão os millésimes de alta qualidade. Neste caso, o blend é composto de 70% Pinot Noir e 30% Chardonnay. O vinho-base é parcialmente elaborado em madeira e após a espumatização, o vinho passa quatro anos sur lies (em contato com as leveduras). Importadora Franco-Suissa (www.francosuissa.com.br). 

Mastroberardino: Referência na denominação Taurasi

Este belo tinto da Campania, sul da Itália, envelhece maravilhosamente bem. Elaborado com a estruturada uva Aglianico, o vinho passa por longa maceração e afinamento em barricas de carvalho. Potente, intenso e de grande personalidade. Importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

Dry Creek Valley: grandes Zinfandéis

Este típico tinto californiano é elaborado com a uva Zinfandel proveniente do vinhedo Cortina em Dry Creek Valley, plantado em 1942.  Passa cerca de quatorze meses em barricas de carvalho, predominantemente francesas. Vinho de muito fruta, concentração e longa persistência. Uva de grande identidade americana. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

Evidentemente, o tinto do ano, CVNE Imperial Gran Reserva 2004, merece ser provado e foi objeto de artigo exclusivo na postagem anterior. Fica assim, algumas dicas para as festas de final de ano.


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