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Moquecas, Caldeiradas, Arrozes

1 de Agosto de 2019

Para quem gosta de peixes e frutos do mar, mesmo no inverno há receitas reconfortantes, de sabores intensos, que chegam borbulhando nas mesas. É o caso das moquecas, tão populares no Brasil, sobretudo as capixaba e baiana. Além delas, as famosas caldeiradas, além de risotos e outros arrozes com frutos do mar. Neste artigo, vamos passar por essas iguarias, propondo as melhores harmonizações.


Moquecas

Se você não gosta de leite de coco e dendê, vá de moqueca capixaba. Muito aromática e saborosa, costuma ter menos corpo e textura mais delicada que a baiana. O caminho é ir por brancos aromáticos, de boa acidez, e que tenham sabores de ligação com o prato. Um belo Sauvignon Blanc do Novo Mundo vai muito bem, e os chilenos estão bem do lado. Procure pelos vales frios do Chile como Casablanca, San Antônio ou Limari. O Sauvignon Blanc Terrunyo da gigante Concha Y Toro é uma bela pedida. Um Alvarinho  de boa textura como Soalheiro ou Palácio da Brejoeira são opções muito interessantes também. Vinhos das importadoras Mistral e Vinci, respectivamente.

9822057f-b2fe-4dad-869b-b592014af723moqueca capixaba e a famosa panela de barro

Partindo agora para a moqueca baiana, mais encorpada, mais intensa, mais apimentada, o branco precisa ter mais força e textura para aguentar o prato. Evidentemente, os bons Chardonnays com alguma passagem por madeira são a primeira escolha. Alguns Chenin Blanc do Loire com certo envelhecimento também dão bom casamento. Os traços de marmelo e notas amendoadas destes vinhos casam bem com os sabores do dendê. Vinhos elaborados com Sémillon fermentado em barricas também têm sucesso com o prato. Como dica, Bodega Ritticelli faz um ótimo Sémillon na Patagônia argentina importado pela Winebrands que vale a pena.


Caldeiradas, Ensopados

A receita original da caldeirada leva uma série de ingredientes em camada incluindo cebola, pimentão, temperos, batatas em rodelas não muito finas, peixes e frutos do mar crus, além de água. Tudo é cozido junto. No final, torna-se quase uma sopa de frutos do mar. Neste caso, o vinho deve ter uma textura mais delgada, boa acidez, e mineralidade presente. Os vinhos verdes mais leves são boas pedidas, além de bons exemplares dos brancos do Dão. Brancos de Rueda e alguns albariños espanhóis mais leves podem acompanhar bem.

img_6413bordaleses de elite como Pape Clément

(os brancos bordaleses são baseados na Sémillon que dão textura e estrutura ao vinho, enquanto a Sauvignon Blanc fornece acidez e aromas ao conjunto)

Outros ensopados inspirados na caldeirada podem ter sabores mais pronunciados e textura do caldo mais espessa. O vinho deve acompanhar esta crescente, ganhando corpo e estrutura. Um bom branco bordalês da região de Pessac-Leognan (antigamente Graves) é uma pedida original e surpreendente.

caldeirada cantina do marinheiroCaldeirada: Cantina do Marinheiro

Uma das mais tradicionais Caldeiradas na Cantina do Marinheiro, bairro do Brás, fundada em 1942. Pratos bem servidos, à moda antiga.


Risotos, Arrozes

Neste caso onde o arroz está presente, tudo é uma questão de textura e intensidade de sabores dos caldos. Os chamados arrozes caldosos, onde o aspecto fica entre um risoto e uma sopa, geralmente são mais delicados. Os vinhos devem acompanhar estas características, sendo relativamente leves, minerais e elegantes. Rieslings alemães do Mosel, e até alguns austríacos podem surpreender.

arroz-de-marisco-arroz de mariscos

(uma das sete maravilhas de Portugal da região de Leiria. Um arroz caldoso muito saboroso. Juntamente com o leitão da Bairrada e outras iguarias, são patrimônios gastronômicos de Portugal)

À medida em que vamos dando mais untuosidade e sabores ao arroz, chegamos aos belos risotos com arroz arborio ou carnaroli que dão aquela textura aveludada no prato. Brancos à base de Chardonnay, Sémillon, e Viognier, têm textura e intensidade de sabor para o prato.

img_5649Chateauneuf-du-Pape Blanc de elite

(Uma obra-prima do Chateau de Beaucastel elaborado com 100% Roussanne, uva de difícil cultivo e baixos rendimentos. Sabores exóticos e marcantes)

Uma harmonização original seria com os brancos do Rhône. Os do Rhône-Norte como Hermitage e Condrieu, são mais elegantes e com mais acidez. Os Hermitages precisam de tempo para envelhecer. Já os Condrieu (elaborado com Viognier) são mais aromáticos e florais. Quanto aos do Rhône-Sul, emblematizados sob a apelação Chateauneuf-du-Pape, são mais gordos, aromáticos, e macios. Alguns carecem de acidez e muitas vezes não envelhecem adequadamente. Portanto, prefira os mais jovens.

Enfim, uma ampla seleção de pratos de inverno com peixes e frutos do mar, fazendo uma refeição saborosa e saudável. Não caia nas indicações de vinhos tintos que alguns “professores pardais” indicam por aí. Nós já consumimos tão pouco os vinhos brancos que não vale a pena correr riscos. Afinal, belas e variadas opções não faltam no mercado, conforme explanação acima. Bom Apetite!

Margaux e seu super Deuxième

30 de Julho de 2019

Quando falamos de segundos vinhos de Bordeaux, sabemos que normalmente a diferença para o Grand Vin é notável, pois em última análise, o segundo vinho é a rejeição do vinho principal. Contudo, há exceções como o Les Forts de Latour, segundo vinho do Chateau Latour, sempre muito bem pontuado e com alta consistência. Nesta linha de raciocínio, devemos incluir o Pavillon Rouge de Margaux, pois sua qualidade lado a lado com o Grand Vin é marcante e incontestável. Foi o que aconteceu num belo almoço no Ristorantino, coordenado pela excelente sommelière Juliana Carani, mulher do mestre Manoel Beato.

bela harmonização

Como sempre de início, um branquinho para fazer a boca. Seguindo o script, um belo Bordeaux blanc do Chateau Pape Clément safra 2010. Seu blend é composto de 50% Sauvignon Blanc, 40% Sémillon, e 10% Sauvignon Gris. O vinho é fermentado e amadurecido em barricas francesas com o devido bâtonnage (revolvimento das borras). Seu nariz é rico em frutas amarelas como pêssegos e ameixas, notas de pâtisserie, manteiga, baunilha e mel. Boca de certa untuosidade dada pela presença da Sémillon e o trabalho de barrica. Final longo e com aromas de certa evolução. Não convém guarda-lo por muito tempo, pois já é delicioso no momento. Foi muito bem com um Cacio e Pepe (foto acima) bem delicado do menu proposto.

img_6416flight surpreendente

Neste primeiro flight, o mais surpreendente do almoço, a maioria da mesa confundiu o Pavillon com o Grand Vin de 100 pontos. Diante do fato, dá pra ver o nível deste segundo vinho. É bem verdade que esta garrafa de Pavillon Rouge, além da safra excepcional, veio diretamente do Chateau, um diferencial importante. Tanto a longevidade como a complexidade deste segundo vinho são notáveis e surpreendentes. Prova disso, que a nota deste Pavillon Rouge 90 pelo Parker é de 86 pontos, sendo considerado um vinho velho em seu patamar final de evolução. Avaliação totalmente contrária desta garrafa degustada. 

Um pouco de história …

A história do segundo vinho do Chateau Margaux, Pavillon Rouge, começa no final do século XIX e a primeira menção deste nome data de 1908. Entre as décadas de 30 e final de 70, o vinho não foi elaborado, tendo seu ressurgimento em 1978. Segundo o próprio Chateau, a produção do Grand Vin corresponde a 40% do total das vinhas, enquanto o Pavillon Rouge fica com 50% do total. Atualmente, existe um terceiro vinho que fica com os 10% restantes. Donde se conclui que boa parte das vinhas é dedicada ao segundo vinho, fugindo daquele critério básico de elabora-lo a partir somente da rejeição de lotes do Grand Vin. Portanto, é um segundo vinho diferenciado com bom poder de longevidade.

flight extremamente didático

Na comparação entre as safras 95 e 96 segundo o mestre Beato, os 95 geralmente são vinhos um tanto duros e inrustidos. Já os 96 são vinhos femininos, acessíveis, e muito prazerosos de serem provados. Isso ficou absolutamente claro nas taças, sendo o 96 um vinho de 100 pontos, o vinho do almoço como unanimidade.

Vale dizer que o 95 cresceu muito na taça com tempo, provando que ele precisa de tempo de adega para sua perfeita evolução, além de longa decantação para prova-lo no momento. O Margaux 96 já é delicioso, mas deve evoluir por décadas ganhando seus lindos toques terciários. O risoto de pato (foto acima) acompanhou muito bem este par de vinhos.

um intruso no ninho

Seria um flight clássico a disputa dos Margaux 82 e 83 se não fosse a presença do Pavillon Rouge 2009 novamente. É claro que ficou fácil de aponta-lo no páreo já que era extremamente jovem. Contudo, no mesmo nível de qualidade dos demais vinhos com grande concentração de sabor. Bela harmonização com costeletas de cordeiro à milanesa e lentilhas du Puy (foto acima).

Para minha surpresa, confundi as safras 82 e 83 com percepções totalmente contrárias as que sempre me recordaram em outros momentos. A safra 83 costuma ser elegante, delicada, e até um pouco misteriosa, sendo este ano muito bem avaliado para a apelação Margaux. Já o Margaux 82 sempre me pareceu um vinho duro, muito masculino para os padrões do Chateau. Diante do fato, o único que realmente apontou com convicção as taças corretas foi nosso Presidente, sempre nos surpreendendo em degustações às cegas. Aliás, agradecimentos especiais  a ele pelo vinhos selecionados, especialmente estes Pavillons maravilhosos ex-chateau, divinamente bem conservados. Uma verdadeira aula!

Licoroso e seleção de queijos

Para finalizar o almoço, mais um nota 100 na parada. Bem ao estilo PX (Pedro Ximenez), este licoroso de Jerez à base de Moscatel. Um vinho untuoso, de extrema presença em boca, e de longa persistência aromática. Trata-se de uma Cuvée especial denominada Toneles. Falando um pouco sobre o processo de elaboração, essas uvas são colhidas maduras e postas para solear em esteiras durante algumas semanas, tornando-se quase passas. O mosto rico em açucares e ácidos é posto para fermentar de maneira muito lenta. A fortificação acontece no início da fermentação, deixando no produto final cerca de 420 g/l de açúcar residual. O vinho apesar de doce, tem um equilíbrio muito bom devido a uma acidez de 10 g/l, a qual lhe confere um belo frescor, não o deixando enjoativo. 

Além da potência do vinho em si, sua alta complexidade aromática dá-se pelo sistema Solera de partidas muito antigas, podendo chegar a cem anos, ou seja, à medida que vão sendo sacados alguns lotes de vinho para o engarrafamento, vinhos novos são repostos na Solera para serem “educados” pelos mais antigos. É uma maneira contínua de renovar o sistema, mantendo a lenta evolução dos vinhos. Nestas soleras antigas, as sacas são muito criteriosas em partidas diminutas, pois os vinhos que serão repostos precisam ter alta qualidade equivalente ao nível da solera.

Enfim, um vinho que impactou a todos por sua potência e equilíbrio. Bom parceiro para charutos, como disse um dos confrades, além de queijos curados (foto acima) e geleias. Pode ser surpreendente por contraste com sorvetes de ameixa, banana, ou outras frutas passas. 

Agradecimentos a todos os confrades pela companhia, generosidade e boa conversa. Margaux é sempre um tema apaixonante, provando mais uma vez sua elegância e personalidade única. Que Bacco nos guie por caminhos sempre surpreendentes!

Bordeaux 1961: Allegro Moderato

18 de Agosto de 2015

Feitas as apresentações e o início do encontro com o espetacular Dom Pérignon P3 (Plenitude 3) 1973, vamos ao embate dois a dois dos grandes Bordeaux 1961, devidamente abertos e decantados. A ordem que se segue não foi exatamente esta, mas resolvi comentá-los de acordo com o nível de cada confronto num crescente cada vez mais dramático.

Margaux versus Graves

Dois grandes châteaux, representantes autênticos de suas respectivas comunas de margem esquerda. O primeiro, líder inconteste da comuna de Margaux que neste ano deixou a desejar. Por se tratar de um Premier Grand Cru Classé, algo desandou nesta safra. A elegância, a finesse, estavam presentes, mas faltava estrutura para vencer as décadas que se espera de um vinho deste naipe. Este exemplo se enquadra bem nas características da safra 61, ou seja, é preciso pesquisar chateau por chateau para não haver surpresas.

O segundo vinho, Chateau Pape Clement, da apelação Graves (é bom lembrar que a partir de 1987 os chateaux mais bem situados da região assumiram a apelação mais restritiva denominada Pessac-Léognan), foi marcado pela elegância e pelos toques de evolução, pontos em comum para a comparação neste primeiro confronto. Macio em boca, com os típicos aromas de trufas, cogumelos, mineral (terroso) e ervas finas. Bem acabado, equilibrado, muito prazeroso neste momento.

Saint-Juilen x Saint-Estèphe

Acompanhando o andamento Allegro Moderato, adentramos às comunas de Saint-Julien e Saint-Estèphe. Chateau Beychevelle trilhou o mesmo caminho do Margaux acima. Contudo, está mais condizente com sua história. É sempre um vinho que prima muito mais pela elegância do que pela potência e neste caso, cumpriu seu papel. Bem resolvido tanto em boca, como nos aromas de evolução. Final agradável, devendo ser consumido nesta fase. Não há porque esperar mais.

No segundo vinho damos um salto. Estamos diante de um grande Montrose. E este vinho não se curva ao longo do tempo. É viril, é marcante, é insolente. Estrutura tânica fantástica. Precisa ser decantado por pelo menos duas horas. Bom corpo, acidez marcante, aromas minerais, de ervas, especiarias, e um belo equilíbrio. Ainda tem caminho a percorrer. Só mesmo a safra de 1990 para poder supera-lo. O tempo dirá.

Os dois Moutons (pobre e rico)

Aqui começamos a entrar no tabernáculo dos grandes 61. Chateau Lynch-Bages à esquerda, maldosamente chamado de Mouton dos pobres, e o grande Mouton-Rothschild à direita. Ambos, refletindo a força e a nobreza da comuna de Pauillac. Lynch-Bages, cor densa, aromas profundos e de grande intensidade. Aqui o cassis permeia em notas minerais, empireumáticas (notadamente o café), resinosas e toques de couro. Encorpado, envolvente, taninos de rara textura com final de alta costura. Ainda tem muita conversa em adega.

Já o segundo vinho, Mouton-Rothschild, se não é perfeito, está muito próximo. Tem tudo que seu primo pobre tem, mas a vida é feita de detalhes. São esses detalhes que lhe dão as credenciais para um legitimo Premier Grand Cru Classé. Um tanino ainda mais polido, uma elegância difícil de mensurar e situar, entre outros mistérios. De todo modo, um embate de gigantes.

Um detalhe; neste época, Mouton-Rothschild ainda não era um Premier de direito, mas de fato. Essa honraria só seria concedida em 1973 pelo então presidente Valéry Giscard d´Estaing. As legendas do castelo mudaram, mas permanece sua personalidade e sua firme opinião: “Sou primeiro, já fui segundo, Mouton não muda”.

Timo: Textura delicada

Entre um gole e outro, ninguém é de ferro. Então, sempre aparecia um prato como da foto acima. Neste caso, um prato com Timo, pequena glândula localizada na cavidade torácica. Carne delicada, tanto no sabor, como na textura. Pedi vinhos de estirpe e de aromas elegantes. Perfeito para os vinhos aqui comentados. Evidentemente, Montrose e Mouton suplantaram um pouco a harmonização.

Agora os motores estão aquecidos. Que venha o próximo artigo!

Mudança de Adega: Entre um gole e outro

3 de Maio de 2015

Um dos trabalhos do sommelier é também montar adegas novas ou transferi-las para um novo local. Este foi o caso de um grande amigo que mudou recentemente de endereço. Possuidor de um arsenal de mais de três mil garrafas cuidadosamente selecionadas ao longo dos anos. E que arsenal! Pode não ser das maiores do Brasil em quantidade, mas a qualidade e o garimpo de seus vinhos são irrepreensíveis. Apaixonado pelos bordaleses, os melhores chateaux e as melhores safras de ambas as margens estão lá. Outro fascínio, são os DRCs de Vosne-Romanée. Uma coleção completa destes borgonheses fantásticos com algumas safras memoráveis. A prateleira de recepção da adega é repleta de Imperiais (seis litros) destes mitos citados acima. Sem contar com a bela coleção de Vegas (espanhóis), Yquem, e Domaine Leflaive.

Painel Romanée-Conti

O painel acima está no centro, em destaque, da prateleira de DRCs. Mas antes desta montagem, muito trabalho. Com a chegada dos vinhos na nova residência foi preciso um trabalho árduo, de muita paciência, para separar e classificar os vários Chateaux, Domaines, separando por safra, vinhedos ou cuvées especiais, se for o caso, para poder planilha-los de forma cartesiana e lança-los no computador, ou seja, a adega virtual. A foto abaixo, nos dá uma ideia do tamanho do problema.

A bagunça sendo organizada

Evidentemente, nem tudo é trabalho. Em determinados momentos a generosidade do proprietário brindava-nos com alguns mimos, conforme a sequência abaixo:

Referência na apelação Volnay

Quando pensamos em alto nível na comuna de Volnay (Borgonha), imediatamente nos vêm Domaine Lafarge e Domaine Maquis d´Angerville. O primeiro já foi descrito em artigo neste mesmo blog. Este acima da safra 97 ainda é uma criança. Podemos dizer que foge até um pouco da tipicidade da apelação, pois Volnay elabora tintos elegantes, sedosos, acessíveis, mesmo na juventude. Este porém, tem caráter masculino, estrutura tânica portentosa. A cor mostra-se jovem, aromas um tanto fechados, sugerindo cerejas negras, alcaçuz, especiarias e uma nota tostada. A boca impressiona por sua estrutura. Taninos bem delineados, mas em quantidade suficientes para mais uma década, pelo menos. E olha que estamos falando de uma safra acessiivel (97). Realmente, é vinho de longa guarda.

Um Pomerol de livro

Já tive o privilégio de participar de uma extensa vertical de Le Pin, e este 85 é encantador. Com seus trintas anos, continua sedutor, macio, equilibrado e sem sinais de decadência. As ameixas em calda, as flores, o toque terroso e de especiarias, confirmam os descritores clássicos desta pequena apelação. Aliás, a safra 85 é encantadora para a maioria dos grandes bordaleses.

Um Lafleur parrudo

Este exemplar da safra de 1990 mostra um Lafleur quase indestrutível. Cor muito pouco evoluída, aromas não completamente desabrochados e uma estrutura tânica impressionante para um margem direita. Talvez a alta proporção de Cabernet Franc e a potência da safra expliquem esta estrutura. Os aromas de frutas escuras, tabaco, minerais e especiarias, foram se mostrando lentamente com algum tempo nas taças. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos duas horas. É páreo para um bom Confit de Pato.

Yquem 75 : para ficar na memória

Já tomei alguns Yquems de peso como as safras de 83, 86 e 2001, mas este 75 em formato Magnum, mesmo com o problema acima, foi memorável. Algo absolutamente  inédito nesta garrafa com a rolha soltando-se dentro do liquido e apenas a capsula, segurando todo o conteúdo, sem nenhum vazamento. O vinho com uma cor âmbar brilhante estava adequada para a idade (40 anos). Os aromas de caramelo escuro, notas de coco, marron-glacê, doces mineiros cristalizados, curry, entre outros, eram deslumbrantes. E a boca? Esplendorosa! Uma harmonia entre os componentes de álcool, acidez e açúcar, em perfeito equilíbrio. Tudo isso era transportado por uma viscosidade única, devido a altas taxas de glicerol que neste caso, é perfeitamente perceptível. Uma persistência interminável, expansiva, como se houvesse compassadamente lufadas deste liquido indescritível. O melhor Yquem tomado até hoje. Nunca se sabe o dia de amanhã…

Continuando a bagunça

Mais alguns dias de trabalho e algumas paradas sedentas. Numa delas dois exemplares dos injustiçados Bordeaux brancos. Dois Châteaux de peso na comuna de Pessac-Léognan, zona norte de Graves, bem próximo à cidade de Bordeaux. Vamos a eles!

Bela estrutura

Os tintos do chateau acima são encantadores. Este branco da safra 2009 é altamente pontuado pela crítica especializada. Uma bela cor, aromas ainda tímidos lembrando minerais e cogumelos. Em boca, um belo corpo, muito macio e com uma certa untuosidade. Consequência da boa proporção de Sémillon no corte e um longo período sur lies (contato com as leveduras) e bâtonnages frequentes. Deve evoluir com o tempo, tornando-se um branco bastante gastronômico.

Haut-Brion: O Ícone da região

Num estilo totalmente diferente do branco anterior, este exemplar prima por seu frescor, vivacidade e elegância. Sem dúvida, disputa a primazia dos brancos bordaleses com seu grande rival, Château Laville Haut-Brion, o grande branco do Château La Mission Haut-Brion. Curiosamente, a partir da safra 2009 passou a ser chamado Château La Mission Haut-Brion Blanc. Voltando ao Haut-Brion,  seus aromas cítricos, alimonados e até lembrando a carambola destacam-se com as notas de madeira elegante. Alta proporção de Sémillon também, mas a fermentação dá-se em barricas de carvalho parcialmente novas. Embora haja bâtonnages, a maciez é mais discreta, prevalecendo a vivacidade. Um clássico a ser provado entre os amantes de Bordeaux.

Felicidades ao amigo, e que seu novo lar proporcione momentos de paz, felicidade, alegria e muitos brindes, aliados a seu bom gosto e enorme generosidade. Santé pour tous!