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Mudança de Adega: Entre um gole e outro

3 de Maio de 2015

Um dos trabalhos do sommelier é também montar adegas novas ou transferi-las para um novo local. Este foi o caso de um grande amigo que mudou recentemente de endereço. Possuidor de um arsenal de mais de três mil garrafas cuidadosamente selecionadas ao longo dos anos. E que arsenal! Pode não ser das maiores do Brasil em quantidade, mas a qualidade e o garimpo de seus vinhos são irrepreensíveis. Apaixonado pelos bordaleses, os melhores chateaux e as melhores safras de ambas as margens estão lá. Outro fascínio, são os DRCs de Vosne-Romanée. Uma coleção completa destes borgonheses fantásticos com algumas safras memoráveis. A prateleira de recepção da adega é repleta de Imperiais (seis litros) destes mitos citados acima. Sem contar com a bela coleção de Vegas (espanhóis), Yquem, e Domaine Leflaive.

Painel Romanée-Conti

O painel acima está no centro, em destaque, da prateleira de DRCs. Mas antes desta montagem, muito trabalho. Com a chegada dos vinhos na nova residência foi preciso um trabalho árduo, de muita paciência, para separar e classificar os vários Chateaux, Domaines, separando por safra, vinhedos ou cuvées especiais, se for o caso, para poder planilha-los de forma cartesiana e lança-los no computador, ou seja, a adega virtual. A foto abaixo, nos dá uma ideia do tamanho do problema.

A bagunça sendo organizada

Evidentemente, nem tudo é trabalho. Em determinados momentos a generosidade do proprietário brindava-nos com alguns mimos, conforme a sequência abaixo:

Referência na apelação Volnay

Quando pensamos em alto nível na comuna de Volnay (Borgonha), imediatamente nos vêm Domaine Lafarge e Domaine Maquis d´Angerville. O primeiro já foi descrito em artigo neste mesmo blog. Este acima da safra 97 ainda é uma criança. Podemos dizer que foge até um pouco da tipicidade da apelação, pois Volnay elabora tintos elegantes, sedosos, acessíveis, mesmo na juventude. Este porém, tem caráter masculino, estrutura tânica portentosa. A cor mostra-se jovem, aromas um tanto fechados, sugerindo cerejas negras, alcaçuz, especiarias e uma nota tostada. A boca impressiona por sua estrutura. Taninos bem delineados, mas em quantidade suficientes para mais uma década, pelo menos. E olha que estamos falando de uma safra acessiivel (97). Realmente, é vinho de longa guarda.

Um Pomerol de livro

Já tive o privilégio de participar de uma extensa vertical de Le Pin, e este 85 é encantador. Com seus trintas anos, continua sedutor, macio, equilibrado e sem sinais de decadência. As ameixas em calda, as flores, o toque terroso e de especiarias, confirmam os descritores clássicos desta pequena apelação. Aliás, a safra 85 é encantadora para a maioria dos grandes bordaleses.

Um Lafleur parrudo

Este exemplar da safra de 1990 mostra um Lafleur quase indestrutível. Cor muito pouco evoluída, aromas não completamente desabrochados e uma estrutura tânica impressionante para um margem direita. Talvez a alta proporção de Cabernet Franc e a potência da safra expliquem esta estrutura. Os aromas de frutas escuras, tabaco, minerais e especiarias, foram se mostrando lentamente com algum tempo nas taças. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos duas horas. É páreo para um bom Confit de Pato.

Yquem 75 : para ficar na memória

Já tomei alguns Yquems de peso como as safras de 83, 86 e 2001, mas este 75 em formato Magnum, mesmo com o problema acima, foi memorável. Algo absolutamente  inédito nesta garrafa com a rolha soltando-se dentro do liquido e apenas a capsula, segurando todo o conteúdo, sem nenhum vazamento. O vinho com uma cor âmbar brilhante estava adequada para a idade (40 anos). Os aromas de caramelo escuro, notas de coco, marron-glacê, doces mineiros cristalizados, curry, entre outros, eram deslumbrantes. E a boca? Esplendorosa! Uma harmonia entre os componentes de álcool, acidez e açúcar, em perfeito equilíbrio. Tudo isso era transportado por uma viscosidade única, devido a altas taxas de glicerol que neste caso, é perfeitamente perceptível. Uma persistência interminável, expansiva, como se houvesse compassadamente lufadas deste liquido indescritível. O melhor Yquem tomado até hoje. Nunca se sabe o dia de amanhã…

Continuando a bagunça

Mais alguns dias de trabalho e algumas paradas sedentas. Numa delas dois exemplares dos injustiçados Bordeaux brancos. Dois Châteaux de peso na comuna de Pessac-Léognan, zona norte de Graves, bem próximo à cidade de Bordeaux. Vamos a eles!

Bela estrutura

Os tintos do chateau acima são encantadores. Este branco da safra 2009 é altamente pontuado pela crítica especializada. Uma bela cor, aromas ainda tímidos lembrando minerais e cogumelos. Em boca, um belo corpo, muito macio e com uma certa untuosidade. Consequência da boa proporção de Sémillon no corte e um longo período sur lies (contato com as leveduras) e bâtonnages frequentes. Deve evoluir com o tempo, tornando-se um branco bastante gastronômico.

Haut-Brion: O Ícone da região

Num estilo totalmente diferente do branco anterior, este exemplar prima por seu frescor, vivacidade e elegância. Sem dúvida, disputa a primazia dos brancos bordaleses com seu grande rival, Château Laville Haut-Brion, o grande branco do Château La Mission Haut-Brion. Curiosamente, a partir da safra 2009 passou a ser chamado Château La Mission Haut-Brion Blanc. Voltando ao Haut-Brion,  seus aromas cítricos, alimonados e até lembrando a carambola destacam-se com as notas de madeira elegante. Alta proporção de Sémillon também, mas a fermentação dá-se em barricas de carvalho parcialmente novas. Embora haja bâtonnages, a maciez é mais discreta, prevalecendo a vivacidade. Um clássico a ser provado entre os amantes de Bordeaux.

Felicidades ao amigo, e que seu novo lar proporcione momentos de paz, felicidade, alegria e muitos brindes, aliados a seu bom gosto e enorme generosidade. Santé pour tous!

Vinhos do Jura: Parte III

15 de Abril de 2015

Neste último artigo, vamos nos fixar nas seis apelações da região, conforme mapa abaixo. Fora as quatro mencionadas no mapa, Crémant du Jura e Macvin são apelações  inseridas nas apelações Côtes du Jura, L´Etoile e Arbois.

Chateau-Chalon: AOC famosa

Côtes du Jura

É a apelação mais genérica, englobando as cinco cepas autorizadas, toda a área de vinhedos, e vários tipos de vinho: brancos, tintos, rosés, Vin Jaune (similar ao Chateau-Chalon), Crémant du Jura e Vin de Paille. Com toda essa generalização, climas e solos são muito variados, a importância do produtor é fundamental como balizamento e separação entre o joio e o trigo. São 640 hectares de vinhas em 105 comunas. O destaque vai para a produção de brancos e os espumantes Crémant du Jura.

Bom resumo dos vinhos

Arbois

Trata-se da apelação mais setentrional, portanto de relevos mais acidentados. É uma apelação de 843 hectares com predominância de vinhos tintos (70%) e (30%) de brancos. São elaborados também vinhos rosés, Vin Jaune e Vin de Paille.

L´Etoile

O nome L´Etoile está relacionado com a posição geográfica da apelação, ou seja, o village fica num vale rodeado por cinco colinas, lembrando as pontas de uma estrela. É um terroir fundamentalmente de brancos com predominância da Chardonnay, e em menor escala, a Savagnin. São vinhos delicados e elegantes. A uva tinta Poulsard é utilizada eventualmente para elaboração do Vin de Paille. Também é elaborado o Vin Jaune exclusivamente com a a uva Savagnin.

O véu de leveduras protege a oxidação

Château-Chalon

Aqui está a grande diferença do Vin Jaune, elaborado genericamente nas demais apelações e o Vin Jaune da apelação Chateau-Chalon. Por seu terroir diferenciado, Chateau-Chalon elabora exclusivamente Vin Jaune com a uva local Savagnin. Há um artigo exclusivo neste mesmo blog sobre a elaboração deste vinho. Em linhas gerais, após a vinificação, o vinho é colocado em tonéis de carvalho não totalmente preenchido, para que uma levedura semelhante aos vinhos de Jerez atue na superfície vínica, protegendo-a da oxidação. O vinho deve permanecer seis anos antes do engarrafamento com um mínimo de cinco anos nos tonéis. Neste tempo todo, a evaporação reduz o volume inicial numa proporção de um litro para 620 ml. Daí, o simbolismo da garrafa Clavelin de 62 cl ou 620 ml.

Macvin: graduação alcoólica de um fortificado

Macvin du Jura

Macvin não é propriamente um vinho, mas sim uma Mistela, ou seja, uma mistura de mosto de uvas não fermentado com uma aguardente, gerando uma bebida entre 16 e 22° de álcool. Na França é chamada de Vin de Liqueur ou Ratafia. As Ratafias de Champagne e da Borgonha são as mais reputadas. Pineau des Charentes em Cognac também tem sua fama. Voltando ao Macvin, é elaborado em várias apelações do Jura. É constituído de mosto de uvas não fermentado com o Marc da região respectiva, lembrando que Marc é uma aguardente obtida do bagaço das uvas. Seu amadurecimento dá-se por no mínimo doze meses em tonéis de carvalho. As cinco cepas oficiais podem fazer parte da sua elaboração, não necessariamente todas juntas. Por isso, podemos ter Macvin branco, tinto ou rosé. Os rosés e tintos com uvas tintas, e os brancos naturalmente com uvas brancas. Sua produção é diminuta, chegando somente a três por cento do total de vinhos jurassianos. O Marc utilizado em sua elaboração deve conter pelo menos 52° de álcool e deve amadurecer em tonéis de carvalho por no mínimo catorze meses.

Crémant du Jura

A apelação Crémant du Jura perfaz um total de 210 hectares do vinhedo jurassiano. É elaborado em praticamente todo o território de vinhas, sendo o Crémant Blanc amplamente dominante, cerca de 90% da produção. Para este tipo de vinho, a participação da Chardonnay é de no mínimo 50%, sendo o restante Savagnin. No caso do Crémant Rosé, a participação da Pinot Noir e Poulsard não deve ser menor que 50%, sendo o restante eventualmente de Trousseau. Curiosamente entre as uvas tintas, pode haver participação da Pinot Gris. Em sua elaboração, o contato sur lies (sobre as leveduras) não pode ser inferior a nove meses.

Comté: o grande queijo do Jura

Gastronomia

Os brancos de uma maneira geral dividem-se em Floral e Tradition, já comentados em artigo anterior. O estilo Floral, mais fresco e delicado, vai bem com peixes, carnes brancas e aperitivos. Já o Tradition, pode ir bem com peixes e carnes brancas com molho de cogumelos, pratos levemente defumados e queijos com certo tempo de afinamento.

Para os tintos, os elaborados com Pinot Noir ou Poulsard pedem pratos mais leves como quiches, aves, charcuterie (embutidos) e atum. Aqueles elaborados com a uva Trousseau podem escoltar carnes, queijos mais curados, e grelhados.

Os Crémants restringem-se aos aperitivos, por ser espumantes relativamente leves. Chateau-Chalon ou Vin Jaune mais genericamente, vão bem com o típico queijo Comtè, preferencialmente curado, frutas secas, e aves com molho de cogumelos e curry. Bacalhau em natas pode ser divino.

Macvin e Vin de Paille são os vinhos doces da região. Ambos com queijos curados e sobremesas são parceiros naturais. Os Vin de Paille, preferencialmente com sobremesas de frutas secas e também com as sobremesas de textura mais cremosa. Os Macvins tintos podem ir bem com chocolates e sobremesas com frutas vermelhas.

Finalizando os vinhos do Jura, atualmente encontramos boas ofertas em algumas importadoras, tais como: Delacroix, Decanter, Enoteca Saint-Vin-Saint e Franco Suissa.

http://www.delacroixvinhos.com.br

http://www.decanter.com.br

http://www.francosuissa.com.br

http://www.saintvinsaint.com.br

Produtores Notáveis

Domaine Baud Père et Fils, Domaine Rolet, Jacques Tissot, Domaine Berthet-Bondet e Jean Macle.

Assim finalizamos os vinhos do Jura, um dos tesouros franceses ainda por serem descobertos.

Vinhos do Jura: Parte II

13 de Abril de 2015

Dando prosseguimento ao vinhos do Jura, vamos falar um pouco de seu terroir, cepas e apelações de origem. As áreas cultivadas atualmente no Jura estão demonstradas no esquema abaixo, perfazendo um total de pouco mais de dois mil hectares. Esta área no final do século dezenove era dez vezes maior. Com a filoxera e duas guerras mundiais a queda foi inevitável. Como a Chardonnay é muito versátil em termos de clima e solos, seu plantio destacado é uma consequência deste fato.

cepage jura

Ampla vantagem da Chardonnay

Os solos e declividades no Jura são muito variados. Os esquemas abaixo tentam elucidar este emaranhado de calcário, vários tipos de argila e xisto. Em linhas gerais, podemos dividir o relevo da região em duas partes distintas: o platô jurássico (jurassien) de maior alitude (entre 350 e 450 metros), e a planície de Bresse (entre 250 e 350 metros) de menor declive.

Jura perfil geologicoOs esquemas acima (solos e cepas)

A versatilidade da Chardonnay é notável no esquema acima, indo bem em solos calcários, em diversos tipos de marga (mistura de argila e calcário) com presença de xisto e pedras calcárias. A Savagnin tem claramente preferência pelos solos de marga cinzas. No campo das tintas, o que vale para a Trousseau, vale para a Pinot Noir. Solos calcários e solos de marga com predominância de calcário são os preferidos. Por fim, a Poulsard, acompanhando as preferências de solo da Savagnin.

 

Esquema do relevo enfatizando a declividade

Falando sobre as apelações na região, Côtes du Jura é uma apelação genérica englobando praticamente toda a área cultivada. Já Arbois é a apelação mais setentrional, em áreas bem acidentadas. Chateau-Chalon fica mais a sul, quase no meio do caminho no relevo acima. L´Etoile situa-se a sudoeste de Chateau-Chalon, em distância relativamente curta (aproximadamente cinco quilômetros).

Macvin du Jura e Crémant du Jura cobrem toda a área cultivada. São caracterizadas mais pelo estilo de vinho do que por delimitações específicas de área. Macvin é definido mais por uma mistela e não propriamente um vinho fortificado. Já o Crémant por definição, trata-se de um espumante com tomada de espuma na própria garrafa (método tradicional ou método clássico). Falaremos de todas estas apelações no próximo artigo.

Vin de Paille

Trata-se do grande vinho doce do Jura, a partir de uvas desidratadas, processo conhecido na Itália como Appassimento. Este tipo de vinho pode ser elaborado dentro das apelações Côtes du Jura, Arbois e L´Etoile. As demais apelações são específicas para seus respectivos vinhos, não cabendo o tipo de vinho em questão. Os rendimentos para o Vin de Paille não ultrapassam 20 hectolitros por hectare. Daí, sua baixa produção em relação aos demais vinhos. Para se ter uma ideia desta raridade, são necessários 100 kg de uva para obter de 15 a 18 litros de mosto a fermentar. Trata-se de uma fermentação lenta devido ao alto grau sacário, podendo chegar entre 14,5 e 17° graus de álcool, sobrando naturalmente uma considerável taxa de açúcar residual. As uvas utilizadas naturalmente são as brancas Chardonnay e Savagnin, mas as tintas Trousseau e Poulsard são também permitidas. Os aromas e sabores remetem a frutas confitadas como marmelo, damasco, ameixas, figos, laranjas, além de caramelo e mel.

Vin de Paille: Uvas secadas literalmente em palha

Na gastronomia, acompanha muito bem uma torta de nozes ou outras com frutas secas como damasco, por exemplo, além de queijos azuis e o típico queijo regional Comté. Entretanto, precisa ser um Comté Vieux, ou seja, mais afinado e com aromas potentes.

Para finalizar, existem outros Vin de Paille franceses, tanto no Rhône, como na Córsega. As denominações são respectivamente: Vin de Paille Tain L´Hermitage (norte do Rhône), Vin Paillet Beaumont-du-Ventoux (sul do Rhône) e Vin Paillé du Cap Corse.

Vinhos do Jura: Parte I

8 de Abril de 2015

Voltando aos temas regionais sobre vinhos, vamos abordar a partir deste artigo os vinhos franceses do Jura. Terra de Louis Pasteur, do famoso Vin Jaune (vinho amarelo), onde o Château Chalon conquistou fama e glamour como um dos melhores vinhos franceses de toda a história. Aliás, Château Chalon já comentado neste blog, é o único tema mencionado sobre a região. Contudo, por sugestão de um amigo e percebendo uma maior oferta destes vinhos em nosso mercado, vale a pena uma análise mais profunda sobre o assunto.

Jura: Leste francês próximo à Suíça

Só para nos situarmos, Jura é uma região montanhosa localizada a leste da Borgonha, vizinha à região de Savóia e à Suíça. De clima continental, seu inverno é rigoroso e seus verões secos. As informações e comentários estão baseados no site oficial da região: http://www.jura-vins.com

Principais Uvas

Para começar, vamos às principais uvas da região. Começando pelas tintas, temos as seguintes uvas: Le Poulsard, Le Trousseau e a nossa conhecida Pinot Noir. A Poulsard gera vinhos de pouca pigmentação, tendendo ao rosé. Porém, apresenta taninos destacados, aromas de frutas vermelhas e escuras e uma tendência ao sous-bois, sobretudo no envelhecimento. Já a Trousseau, tem uma intensidade de cor destacada, aromas de frutas e especiarias. Em boca, costuma ser mais macia que sua concorrente acima. Por último, um Pinot Noir de clima frio. Em comparação com a Borgonha, costuma ter menos corpo, menor estrutura, lembrando de certo modo um bom Hautes Côtes de Nuits.

No campo das brancas, temos a familiar Chardonnay e a grande uva local Savagnin,  a qual dá origem ao típico Vin Jaune. A primeira adapta-se bem ao clima frio, a vários tipos de solo e sua maturação é precoce. Pode dar origem a vinhos varietais ou mesclados com a Savagnin, os quais são denominados “Tradition”, inclusive no rótulo das garrafas. Quanto à Savagnin, trata-se de uma cepa mais exigente, sobretudo aos solos, preferencialmente o marga (mistura de argila e calcário) cinzento. Outro complicador é sua maturação tardia, sujeita às condições de cada safra.

Aspectos Gerais

Apesar de pouco conhecida e pouco glamorosa, Jura é uma região antiquíssima e conhecida pelos seus vinhos desde o início da era cristã. Sua estrutura vinícola está formatada entre pequenos produtores (37% da produção), negociantes (39%) e cooperativas (24%). São dois mil hectares de qualidade superior divididos em seis apelações: Arbois, Côte du Jura, L´Étoile, Crémant du Jura, Macvin e o famoso Château-Chalon. Essas apelações veremos em detalhes nos artigos seguintes.

Em termos de solo, há uma diversidade imensa com presença de calcário e vários tipos de marga, conforme a origem e o período geológico de formação das argilas multicoloridas. Há terrenos de grande declividade e outros menos íngremes.

Abaixo, uma pequena ideia de produção dos vinhos do Jura, tanto em termos de tipo, como em termos de apelação. Os brancos e tintos de secos dominam a produção, seguidos  pelo Crémant (espumante elaborado pelo método tradicional, ou seja, espumatização em garrafa). O grande vinho do Jura, Château Chalon, não chega a três por cento da produção. Acompanhando o raciocínio, as apelações Arbois e Côtes du Jura dominam a cena na elaboração de brancos e tintos secos.vins jura

 A área cultivada não chega a dois mil hectares

No quesito exportação, dos oito mil hectolitros exportados, mais da metade refere-se ao Crémant. Os brancos e tintos secos sob as apelações Arbois e Côte du Jura chegam próximos ao Crémant, enquanto os Vin de Paille, Macvin, Château Chalon têm exportações ínfimas, devido sobretudo à baixa produção. As repartições quanto ao tipo de vinho acompanham o mesmo raciocínio.

Exportação JuraCrémant du Jura é o grande vinho de exportação

Como última curiosidade, os brancos secos do Jura podem ter a menção no rótulo com as expressões “Blanc Floral” e “Blanc Tradition”. O primeiro refere-se a vinhos jovens, delicados e com boa vivacidade. O segundo termo refere-se a brancos com certo grau de oxidação, de envelhecimento, apresentando um dourado intenso, ou mesmo um âmbar em sua cor. São mais macios, mais estruturados e mais gastronômicos.

Barolo x Pommard

6 de Março de 2015

 Continuando nossa série de degustações inusitadas, o título acima propõe um desafio ousado, confrontar lado a lado, Piemonte e Borgonha. Embora esta analogia já tenha sido citada, não é fácil encontrar os estilos e pontos mais parecidos. As duas regiões partem de vinhos varietais, climas frios, e solos envolvendo argila e calcário. As taças utilizadas são as mesmas, naquele estilo mais bojudo. Contudo, as características da uvas são bem diferentes.

A Nebbiolo, uva do Barolo, tem maturação tardia, pois é rica em taninos, mas pobre em antocianos. Daí, sua cor assemelhar-se ao borgonhas, não muito intensa e perdendo rapidamente a tonalidade rubi com o tempo. Além dos taninos, a Nebbiolo mostra-se com alta acidez. Esses dois componentes já são suficientes para comprovar a incrível longevidade destes vinhos.

Pio Cesare: Belo produtor de Serralunga d´Alba

A Pinot Noir, uva dos borgonhas tintos, tem estrutura tânica mais discreta e baixa pigmentação na cor. A acidez é seu principal componente em termos de estrutura como regra geral. Em resumo, podemos dizer que os tintos da Côte de Beaune são mais delicados e os tintos da Côte de Nuits são mais estruturados e longevos, numa visão bastante genérica. E exceções não faltam na Borgonha.

Na apelação Pommard, contígua à apelação Volnay, os vinhos apresentam perfis completamente opostos. Volnay é a pura expressam dos tintos da Côte de Beaune, delicados, sutis e femininos. Essa diferença no estilo dos vinhos em comunas tão próximas deve-se ao perfil geológico de ambos. A presença de calcário em Volnay é muito mais destacada, gerando vinhos delicados e elegantes. Já em Pommard, os vinhos são musculosos, um tanto rústicos, e bastante austeros quando jovens. Apesar do solo de marga (mistura de argila e calcário), temos um perfil pedregoso, rico em óxido de ferro. Essa é uma das razões para os tintos de Pommard serem bastante ricos em cor. Em seu envelhecimento, os toques defumados, terrosos e de couro, lembram muito os grandes Barolos quando envelhecem.

Courcel:Referência nesta apelação

Do lado piemontês, os solos na região de Barolo são ricos em peculiaridades. No entanto, temos dois perfis distintos e clássicos na região, o solo Tortoniano e o solo Helvético. O primeiro, apresenta um solo de marga azulado, rico em manganês e magnésio, gerando os Barolos mais frutados e abordáveis na juventude. Já o segundo solo,  é um arenito rico em ferro, gerando os Barolos mais austeros na juventude, mas com grande poder de longevidade.

Uma outra comuna que pode gerar vinhos  para esta comparação é Nuits St-Georges, esta na Côte de Nuits. São vinhos potentes, ricos em taninos e bastante longevos, sobretudo aqueles situados na parte sul da comuna, ou seja, abaixo da cidade homônima. Produtores como Henri Gouges exemplificam bem este estilo.

Os produtores citados são respectivamente das importadoras Decanter (www.decanter.com.br), Cellar (www.cellar-af.com.br) e Zahil (www.zahil.com.br).

Bourgogne: Os detalhes fazem a diferença

19 de Janeiro de 2015

Falar da Borgonha é sempre um tema complicado, polêmico e ao mesmo tempo, fascinante. Seus tintos e brancos são listados por vários críticos, escritores e experts no assunto como os melhores dentre os mais destacados vinhos no mundo. Contudo, há muita decepção nessas afirmações, pois só uma ínfima parcela de produção é capaz de tirar o fôlego dos mais experientes degustadores. Embora haja diversas tentativas de reproduzir esses mágicos caldos, apenas algumas regiões de planeta obtêm relativo êxito. Pessoalmente, alguns Pinots de Russian River (Califórnia) e o grandíssimo Chardonnay de Angela Gaja (Gaia & Rey) podem ser comparados.

Elite de vinhos privilegiada

Olhando a produção de vinhos acima fica fácil entender porque os grandes borgonhas são caros e raros. Pouco mais de um por cento da produção refere-se aos Grands Crus. Entre tintos e brancos são apenas trinta e três apelações. Logo abaixo, também com baixíssima produção, temos dez por cento dos chamados Premier Cru. O restante são apelações comunais e genéricas onde as decepções são muitas. Só quem sabe garimpar muito bem essas inúmeras opções pode garantir prazer a preços relativamente honestos. Porém, não se enganem! mesmos os Grands Crus e Premiers Crus não são garantia de sucesso. É preciso escolher muito bem o produtor, a safra e a apelação específica  a cada um dos poucos excepcionais artistas deste complicado pedaço de terra. Neste terreno minado não há espaço para clínico geral. Aqui, os especialistas de cada comuna fazem a diferença e conhecem em detalhes cada palmo de chão e cada videira de seus poucos hectares de vinhas. Esta elite de vinhos está concentrada num pedacinho da Borgonha chamada Côte d´Or ou Encosta do Oriente e não Dourada, como muitos pensam, ou seja, é a encosta banhada pelo sol da manhã, desde de seus primeiros raios, conforme esquema abaixo:

Duas Encostas: Beaune e Nuits

Na chamada Côte de Beaune, parte sul da Côte d´Or, concentram-se os melhores brancos da Borgonha à base de Chardonnay, quiçá os melhores do mundo, sob as famosas apelações Chassagne-Montrachet e Puligny-Montrachet. Vinhos como Bâtard-Montrachet, Chevalier-Montrachet e o mítico Le Montrachet, são Grands Crus de estrutura e longevidade excepcionais. Só para citar um exemplo, o irrepreensível Domaine Leflaive, não confundir com Olivier Leflaive, é um especialista na apelação Puligny-Montrachet. Um de seus belos vinhos, segue abaixo:

Este Premier Cru não deve ser aberto antes de seu décimo ano

Bonneau du Martray: Um dos brancos mais enigmáticos

O rótulo acima fala de um dos Grands Crus brancos mais respeitados da Côte d´Or, enobrecido enormemente pelo estupendo produtor Bonneau du Martray. Não ouse abrir uma garrafa deste branco antes de seu décimo ano. Você cometerá um dos maiores infanticídios. Este vinho evolui maravilhosamente por décadas.

Já a chamada Côte de Nuits, porção norte da Côte d´Or, podemos dizer que trata-se do berço espiritual da Pinot Noir. Não há lugar no mundo capaz de reproduzir esses tintos sedutores quando elaborados pelos especialistas da região. Aqui o imponderável dos diversos fatores de terroir chega a seu limite, permanecendo os mistérios de seus vinhos. Comunas como Chambolle-Musigny, Gevrey-Chambertin e Vosne-Romanée, sublimam os melhores caldos. Delicadeza, virilidade e complexidade, são alguns dos adjetivos para essas comunas citadas, respectivamente. É fascinante como a madeira comunga com os demais componentes desses tintos em perfeita harmonia. Raramente, temos mais de quarenta por cento de madeira nova, mesmo nos Grands Crus, com raras exceções. Uma delas, com cem por cento de barricas novas, pois a estrutura de seus vinhos permite esta ousadia, é o Domaine de La Romanée-Conti com seu astro maior na foto abaixo:

Safra 1985: Belo momento de sua evolução

Infelizmente, a Borgonha não vive só de sonhos. A realidade tem seu lado cruel. É fato comum, a figura do Négociant que nada mais é do que empresas da região que negociam uvas ou vinhos de vinhateiros que muitas vezes não possuem sua própria marca para ser colocada no mercado. Portanto, esses negociantes podem vinificar essas uvas ou amadurecer, educar vinhos já elaborados por vinhateiros em suas próprias caves. E aí, dependendo do negociante, pode ir-se do céu ao inferno. Evidentemente, há negociantes sérios como Louis Jadot, Drouhin, Louis Latour, Bouchard Père & Fils, entre outros, que colocam no mercado produtos honestos por preços relativamente competitivos. Como exceção, nos vinhos de elite, Bouchard Père & Fils elabora um Chevalier-Montrachet La Cabotte, de primeiríssima linha, entre os melhores da apelação.

Para completar a Borgonha, não poderíamos deixar de mencionar Chablis, a norte da Côted´Or, a meio caminho de Champagne. Um terroir único, bem diferente da Côte d´Or, incluindo clima e solos. Aqui a Chardonnay assume contornos diferentes, moldando brancos incisivos, de bela acidez e destacada mineralidade. Aliás, as taças corretas para Chablis devem ser de bojo esguio, bem diferentes das bojudas, utilizadas nos demais borgonhas brancos.

O clima na região é mais frio, lembrando Champagne. Seu solo também é formado por argila e calcário, misturados a fósseis marinhos, dando origem ao termo Kimmeridgian, os melhores solos de Chablis. Seus vinhos não costumam passar por barricas, especialmente os mais clássicos e fieis ao terroir. A madeira eventualmente utilizada é normalmente usada, proporcionando apenas uma leve micro-oxigenação dos vinhos, embora haja uma linha de vinicultores mais modernos que imprimem em seus vinhos o aporte da barrica nova.

Nesta apelação, existem sete Grands Crus, todos juntos numa porção específica da encosta: Les Clos, Bougros, Vaudésir, Valmur, Grenouilles, Les Blanchots, e Les Preuses. Aqui a mineralidade e o terroir afloram com a competência de produtores artesanais.

Grand Cru Les Clos: grande poder de longevidade

Produtores como Dauvissat e Raveneau são “hors concours” e não chegam ao Brasil, por enquanto. De produção diminuta, esses brancos exprimem o terroir com rara competência, mostrando uma incrível mineralidade e tremenda longevidade para esta apelação. Outros produtores encontrados no Brasil como Williams Fèvre (importadora Grand Cru), Geoffroy (importadora Decanter) e Billaud Simon (importadora World Wine), trazem belos exemplares.

Em resumo, a Borgonha continua sendo um mistério. Degustações, discussões, estudos específicos, artigos de experts, fornecem dados e histórias enriquecedores. Contudo, no esclarecimentos de alguns fatores, surgem outros tantos sem resposta. Se a inquietação, se as surpresas e decepções te fascinam, este é o caminho. Degustar, degustar, e muito provavelmente idolatrar a dúvida.

Nota: Este artigo foi publicado há alguns meses na revista Enoestilo (www.enoestilo.com.br)

Cognac e Champagne: Sutilezas de Terroir

12 de Janeiro de 2015

A França possui um conceito de terroir mais profundo, mais apurado, que qualquer outro país, embora este mesmo conceito não seja um privilégio restrito a essas terras abençoadas. Sabemos que solo, clima e as uvas fazem parte desta concepção, mas o fator humano é essencial. Alguém já disse: sem homens não existe terroir. Esta introdução se faz pertinente para abordarmos dois tesouros franceses,  Cognac e Champagne. A força destes nomes no conceito mundial de bebidas não tem precedentes. Em qualquer lugar do mundo, o simples fato de pronunciarmos estas palavras, desperta paixões e desejos. Pois bem, mas o que uma tem a ver com a outra? É o que veremos a seguir.

Cognac e Champagne: Distância longa e latitudes diferentes

Embora sejam regiões distantes uma da outra, em latitudes e climas diferentes, as semelhanças são bem maiores do que aparentam. São 500 quilômetros de distância e diferença de quatro graus de latitude entre Reims (Champagne) e a cidade de Cognac. Começando pelas diferenças, uma delas são as uvas. As vinhas em Cognac são calcadas na casta Ugni Blanc, também localmente conhecida como Saint Emilion. Já em Champagne, o famoso trio; Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier fazem a glória de melhor espumante do planeta.

Raridade: Cognac safrado e data de engarrafamento

O clima também difere. Em Cognac, apesar do frio não ser tão rigoroso, a umidade e a salinidade do Atlântico faz retardar o amadurecimento das uvas. Em Champagne, este retardamento é proporcionado pela latitude extrema para o cultivo das vinhas.  O que realmente importa é que as uvas carecem de plena maturação, proporcionando mostos de extrema acidez e baixo teor alcoólico. Portanto, por razões diferentes, os vinhos-bases das respectivas regiões são muito semelhantes. Contudo, seguiram caminhos diferentes de acordo com as circunstâncias da época que foram concebidos por razões aparentemente aleatórias. O fato é que esses vinhos em épocas remotas, eram difíceis de serem digeridos e por consequência, sem nenhum prestígio.

No caso de Cognac, no século dezessete, os impostos sobre os vinhos tornaram-se abusivos e insuportáveis. A solução foi queimar o vinho, ou seja, destila-lo, fugindo do conceito de vinho. Com o envelhecimento em madeira, descobriu-se um destilado com características extraordinárias, vindo a ser com o tempo, o melhor brandy do mundo a partir de uvas. Já em Champagne, com o advento da garrafa de vidro, os vinhos eram engarrafados com a chegada do inverno, período no qual as leveduras adormeciam pela baixa temperatura. A partir da primavera seguinte, havia uma nova fermentação na garrafa, proporcionando as famosas borbulhas. Até o entendimento total do fenômeno, o pessoal ficava profundamente intrigado com o quebra-quebra de garrafas nas adegas (coisas do demônio!). E assim, nasce o melhor espumante do mundo, após estudos mais focados do monge beneditino Dom Pérignon.

Partidas excepcionais do sofisticado Krug

Em resumo, a partir de um vinho magro, ácido e pouco alcoólico, nascem soluções diferentes dentro de seus respectivos contextos históricos, ou seja, fazer do limão uma limonada. E esses fatores humanos partem para soluções originais, mostrando como lapidar ao longo do tempo uma pedra bruta num diamante.

As Semelhanças

  • Nascimento das duas bebidas em épocas semelhantes (século dezessete).
  • Importância semelhante na pauta de exportações francesas.
  • Solos de base calcária: sub-regiões como Grande Champagne (Cognac) e Côte des Blancs (Champagne).
  • Envelhecimento prolongado em adega: contato com as leveduras (método champenoise em Champagne) e barricas de carvalho de Limousin em Cognac (alta porosidade e rico em taninos condensados).
  • A arte do Assemblage nas duas regiões. Trabalho de perfumista na mistura de inúmeras amostras de difícil avaliação em seu estado bruto.
  • Pequenas propriedades no cultivo das vinhas com participação ativa das famílias.
  • Grandes Maisons, grandes grupos, fazendo a marca das respectivas regiões, sobretudo no setor de exportações. Como exemplos: Hennesy (Cognac) e Moët & Chandon (Champagne).
  • Vários estilos, mostrando versatilidade nos produtos. Para o Cognac: VS, VSOP, XO, entre outros. No caso de Champagne: Non-Millésime, Blanc de Blancs, Millésime, são alguns exemplos.
  • Estoques reduzidos e muito bem preservados de suas melhores colheitas para a elaboração e lançamento de lotes reduzidos ao mercado em suas cuvées de luxo. Exemplos: Cognac Paradis (Hennessy) e Champagne Dom Pérignon (Moët & Chandon).

Enfim, entre diferenças e semelhanças, essas preciosas bebidas não conflitam entre si, pelo contrário, completam-se. Não conheço melhor começo, melhor abertura de jantares e eventos, além de belos champagnes, e nem melhor desfecho, melhor encerramento, que uma calorosa dose do excepcional Cognac.

Dom Pérignon e Plenitudes: Parte II

26 de Dezembro de 2014

Em recente visita à sede da Chandon em São Paulo na companhia de amigos, fomos recebidos com muito profissionalismo pelo enólogo Romain Jousselin, propondo-nos uma interessante degustação didática orquestrada em três atos, traduzindo o espírito, o conceito, do champagne Dom Pérignon. E de fato, o evento foi executado com maestria.

Primeiro Ato: A Promessa

Três safras de características distintas (2004, 2003 e 2002), mas com um elo em comum, a elegância, a delicadeza. 2004 é a safra do momento. Uma safra bastante clássica, muito agradável de já ser apreciada, embora possa ser adegada com segurança. Frescor, frutas brancas, o característico brioche (panificação), notas amendoadas e especiarias sutis. Persistente na taça e em boca.

Safra 2004: à disposição no mercado

A safra seguinte foi atípica (2003), com presença levemente predominante de Pinot Noir. Percebemos um corpo, uma estrutura, mais imponente que o habitual. Seus aromas são mais intensos calcados num lado mais frutado, mais presença de mel e algo de empireumático (tostado). A maciez é notável, sem um frescor tão marcante. Um champagne muito mais gastronômico que contemplativo. Geoffroy acredita com otimismo numa boa evolução com as leveduras nas sucessivas plenitudes.

Finalizando o ato, a espetacular safra de 2002. Das melhores dos últimos tempos em Champagne. Digamos que foi cometido um pequeno infanticídio. Mostrou-se fechada de início, com toques minerais e florais. A boca impressiona pela incrível acidez que evidencia mais ainda a mineralidade. Persistente, longo, mas ainda uma criança. Uns bons anos de adega lhe fará muito bem.

Taças Spiegelau de vinho branco

Alguns fatores na degustação devem ser ressaltados. Primeiramente, a correta temperatura de serviço, a qual para cuvées especiais deve estar entre 10 e 12ºC (poucas pessoas entendem isso na prática). As taças ideais são as de vinho branco num estilo bordalês. Podem ser também no estilo tulipa da Riedel. As preferidas de Geoffroy para seu champagne é um tipo especifico da cristaleira Spigelau linha Authentis. E como último detalhe, a conservação dos champagnes que nunca saíram dos cuidados da Maison. Estavam todos perfeitos, mostrando cores sem sinais de evolução excessiva e por conseguinte, sem riscos de má conservação.

Segundo Ato: A Expansão

O mistério, a confirmação, do contato prolongado com as leveduras (sur lies). A safra não poderia ser melhor. Dois belos exemplares de 1996. O primeiro, lançado no mercado normalmente após a primeira Plenitude (em média oito anos sur lies). O segundo, já na segunda Plenitude (dégorgement em 2008. Portanto, doze anos sur lies). A diferença é de um didatismo impressionante. O primeiro, apesar da perfeita conservação em adega, mostra-se muito mais evoluído relativamente ao segundo. Destacada mineralidade, acidez presente, aromas de evolução lembrando cogumelos e bastante persistente e expansivo em boca. Foi sem dúvida, o mais evoluído do painel com alguns toques de butterscotch. Já o segundo, muito mais protegido pelas leveduras. Não há adega no mundo que faça a proteção tão perfeita como o contato sur lies prolongado. A cor é mais vivaz, o frescor é incrível, as notas cítricas, minerais e alguns indícios de trufas e frutas secas. Sua persistência e vivacidade são notáveis. É de fato, uma outra Plenitude.

Romain Jousselin: O Maestro

Terceiro Ato: A Autenticidade

Novamente, a encantadora safra de 2002, agora na versão rosé. Apesar da primeira Plenitude, o rosé é deixado um pouco mais em contato com as leveduras, cerca de dois anos a mais em relação à versão branca. Além de uma proporção de Pinot Noir maior, a cor é obtida através de adição de 20% de vinho tinto no assemblage. Isso fornece mais estrutura e alguma força tânica ao vinho. Em termos de corpo e explosão de aromas, lembra um pouco a já mencionada e atípica safra de 2003 em branco, guardada as devidas proporções. A cor salmonada bem clara remete aos rosés da Provence. Os aromas essencialmente frutados foram pouco a pouco deixando transparecer uma lado mineral de toque terroso. Persistente e de grande equilíbrio gustativo.

Rosé dos mais elegantes

Na verdade, o terceiro ato seria “A Revelação”. É assim que Geoffroy prefere falar em Plenitudes. A Promessa, A Expansão e A Revelação, nesta ordem. Ocorre que a terceira Plenitude não foi possível de ser degustada. Romain explica que são champagnes muito raros e de baixíssima liberação no mercado. Os mais recentes P3 (Terceira Plenitude) são das safras de 1982 e 83. O contato sur lies fica acima de vinte anos.

Enfim, uma degustação mais que propícia para esta época. Um brinde de plenitudes com uma das melhores borbulhas da Champagne, Dom Pérignon comme il faut! Santé pour tous!

Dom Pérignon e Plenitudes: Parte I

22 de Dezembro de 2014

Em muitos artigos neste blog, abordamos por diversas vezes o assunto “champagne” em detalhes. Um dos temas discutidos foi o chamado contato prolongado do vinho com as leveduras que os franceses chamam de sur lies. Pois bem, em Champagne este contato dá-se por pelo menos dois ou três anos em maisons de respeito para suas cuvées básicas. Já nas cuvées de luxo, este contato prolonga-se por quatro, cinco, seis anos, ou mais. Normalmente, não passa de dez anos. Neste processo, o vinho adquire uma série de sabores e aromas que enriquecerão a complexidade e finesse do mesmo. Para isso, o vinho-base precisa ser estruturado, o que ocorre neste terroir tão específico. Contudo, somente os melhores vinhos de reserva ou de safras excepcionais que são exatamente os destinados aos tipos mais exclusivos apresentam características para suportarem um longo tempo em ambiente redutivo. Para vinhos-bases relativamente simples este contato prolongado muito provavelmente geraria aromas desagradáveis, praticamente destruindo o produto final.

Dentro do contexto acima, encaixa-se um dos melhores e mais famosos champagnes, o cobiçado “Dom Pérignon”, cuvée de luxo da Maison Moët & Chandon, pertencente ao suntuoso grupo LVMH. Nesta cuvée há uma leve predominância da Chardonnay (até 60% em média) no corte com sua inseparável companheira Pinot Noir. Esta proporção ajuda a manter o estilo da casa pendendo mais para a elegância. O contato sur lies é normalmente em torno de oito anos. Com isso, o corpo técnico da Maison liderado por Richard Geoffroy, denomina esta primeira partida que normalmente é a maior de uma determinada safra (Dom Pérignon é sempre safrado), de primeira “Plenitude”. É o que chamam de estágio mais jovem para um longo contato sur lies previsto. Neste estágio, a juventude, a vivacidade, o frescor, a intensidade, fazem-se mais presentes. É evidente, que este champagne pode ser guardado em adega, adquirindo com o tempo belos aromas terciários. Entretanto, se o mesmo fosse mantido por mais tempo sur lies, teria uma proteção maior e atingiria um segundo estágio já bastante raro e ao mesmo tempo único, a chamada segunda “Plenitude”, por vezes mencionada no pescoço da garrafa com a sigla “P2”. Neste momento, o nível de qualidade atingido permite mencionar no rótulo a expressão “OEnotheque”. Traduzindo, uma espécie de biblioteca ou acervo de vinhos especiais que são lançados no mercado em pequenos lotes de acordo com sua evolução. Vinhos realmente de colecionadores. Esse estágio permite períodos em contato sur lies entre 12 e 15 anos.

Terceira Plenitude

O rótulo acima refere-se ao estágio final de evolução no conceito de Plenitudes. Aqui temos um contato sur lies acima de vinte anos. A proteção da leveduras chega a seu limite, gerando aromas, sabores e texturas de grande complexidade. A data do dégorgement geralmente é mencionada no contra-rótulo.

Richard Geoffroy: desde 1990 no comando

Um pouco de história …

A cuvée “Dom Pérignon” foi criada em 1921. Sua última safra lançada no mercado é do ano de 2004 e com isso lá se vão 39 safras comercializadas até hoje. A versão rosé foi lançada pela primeira vez com a safra de 1959. São 23 safras até hoje com a última trazendo no rótulo o ano de 2003. A produção em cada safra não é precisa. No entanto, são lançadas no mercado entre dois  e oito milhões de garrafas, dependendo das condições de cada millésime em sua primeira plenitude. Seu atual mentor, Richard Geoffroy, é chefe de cave da Maison desde 1990. Em 2000, ele criou o conceito de “Oenothèque”, sendo a safra de 1959 a primeira a ser escolhida. Infelizmente, o termo Oenothèque será substituído pelos códigos P2 e P3 em lançamentos mais recentes em termos de rotulagem.

Na elaboração deste champagne procura-se mesclar em partes iguais as duas uvas protagonistas, Chardonnay e Pinot Noir. Na maioria, são vinhedos de classificação Grand Cru e dependendo da safra e produção dos diversos Crus, a proporção de uvas pode pendem levemente para um delas. Apesar de estar na categoria Brut (até 12 g/l), Dom Pérignon trabalha com níveis de açúcar residual (dosage) menores que 7 g/l (gramas por litro) e muitas vezes menores que 5 g/l. Portanto, dentro da categoria Extra-Brut (até 6 g/l).

Próximo artigo, mais Dom Pérignon em várias safras.

Champagnes: Final de Ano 2014

4 de Dezembro de 2014

Como sempre, a ABS-SP encerra suas atividades do ano com a tão esperada degustação de champagnes. A mesma foi um sucesso com mais de cem pessoas na sala. Champagnes de vários estilos, destacando-se os famosos Blanc de Blancs com três exemplares distintos. Outras duas mais encorpadas, mesclaram as nobres Pinot Noir e Chardonnay.

Pessoalmente, discordo em parte do notável entusiasmo pelos vinhos servidos, embora toda a experiência sensorial seja extremamente enriquecedora. Contudo, tenho algumas ressalvas nos vários champagnes degustados, confome relato abaixo:

De Sousa: Estilo ousado

Esta Maison de origem portuguesa optou nesta “Cuvée des Caudalies” por amadurecer seu vinho-base em madeira, sendo 15% de barricas novas. Esta opção também é feita por casas de enorme categoria como Krug e Bollinger, só para citar dois exemplos. Neste exemplar degustado, percebi um champagne evoluído com nítidos toques de butterscotch. Como trata-se de um champagne não safrado, não temos referências seguras de sua idade. Apesar de uma boa acidez, penso que talvez seu vinho-base não tenha estrutura suficiente para esta micro-oxigenação em madeira, sobretudo com algum aporte de barrica nova. Não ousaria em guarda-lo na adega por mais tempo.

Aromas típicos de um autêntico champagne

Uma boa safra em Champagne (2004) com vinhos bem equilibrados. Os aromas de brioche, frutas secas e confitadas, além de toques empireumáticos, marcaram este exemplar com notável tipicidade. Em resumo, nariz de champagne. Boca extremamente fresca, denotando finesse no estilo e boa evolução em garrafa. Seu contato sur lies de quatro anos é bastante compatível com a estrutura do vinho, fornecendo aromas e texturas na medida certa. Bom momento para desfrutá-lo, mas com perspectiva para mais alguns anos de guarda. Equilibrado e de final extremamente agradável.

Didática na evolução de um champagne

O tipo Blanc de Blancs além de delicado, elegante, pode envelhecer com propriedade. E é isso que aconteceu neste exemplar de safra 1999. Seus quinze anos de idade chegaram ao limite. Com nítidos sinais de evolução, perlage e mousse já deficientes, chegou o momento de toma-lo. Não como aperitivo, falta-lhe o frescor necessário, mas sim à mesa, preferencialmente com pratos que envolvam cogumelos e se possível, as belas trufas. Para seu extrato e estrutura, a evolução está completa.

Grande pedida nas Cuvées de Luxo

Sabemos o quão difícil é escolher uma Cuvée de Luxo das casas mais famosas de Champagne. Evidentemente, refiro-me aos preços, já que a alta qualidade é fator inerente ao produto. Para quem não quer gastar uma fortuna, o champagne acima é uma ótima pedida. Foi o mais jovem da noite no sentido de prontidão, inclusive na cor, extremamente luminosa. Palha claro, brilhante e com ótimo perlage. As vinhas são antigas e o contato sur lies prolongado. Sete anos antes do dégorgement comprovado no rótulo datado. Aqui se faz presente a contribuição da Pinot Noir fornecendo a devida estrutura ao blend, complementado pela elegante Chardonnay. O nariz apesar de delicado, fresco, com notas de pera, flores, cítricos, além de um comedido traço de leveduras, mostra em boca, um vinho estruturado, gastronômico e marcante. Foi a melhor persistência aromática do painel com final extremamente fresco e bem acabado. Já pode ser apreciado com prazer, porém com muitos anos de vida em adega.

Tradição e Elegância numa bela safra

Maison Pol Roger, sempre no time de cima dos grandes champagnes. A safra 2002 é a melhor do painel e talvez a melhor depois de 1996. Portanto, confesso que esperava um pouco mais deste champagne, embora esteja delicioso e muito elegante. Este também é uma mescla de Pinot Noir e Chardonnay num contato sur lies de aproximadamente oito anos. Cor um pouco mais intensa que o champagne anterior. Os aromas tostados, de frutas secas, toques empireumáticos e amanteigados, predominam no conjunto. Em boca, mousse agradável, delicada, com final macio e persistente. É também um champagne gastronômico e até numa evolução mais acelerada. Esta é a ressalva quanto à sua longevidade levando-se em conta a potência da safra. De qualquer forma, um belo final. Seguem alguns dados dos champagnes degustados:

Pol Roger Brut Vintage 2002

60% Pinot Noir e 40% Chardonnay.  Açúcar residual: nove gramas por litro.

Champagne Pierre Moncuit Blanc de Blancs Cuvée Millésime Brut 1999

100% Chardonnay de vinhas antigas. O melhor terroir da Côte des Blancs: Le Mesnil-sur-Oger. 20 hectares de vinhas Grand Cru na sua maioria.

Drappier La Grande Sendrée 2006

55% Pinot Noir 45% Chardonnay. vinhas antigas. Açúcar residual: 5 gramas por litro.

De Sousa Cuvée des Caudalies Blanc de Blancs Brut Grand Cru

Blanc de blancs 100% em carvalho (15% novos). vinhas velhas + de 50 anos. 32% do vinho fermentado em carvalho. Dosage 5 g/l.

Pierre Gimonnet & Fils Champagne Fleuron 2004 Blanc de Blancs Premier Cru Brut

Vinhas antigas – as mais velhas de 1911 e 1913. 80% mais de 30 anos e 55% mais de 40 anos -28 ha – (11 cramant e chouilly – 1 Oger – Cuis 14 e Vertus 2 há). Cuis e Vertus (1º Cru) e os demais villages, Grand Cru.