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Uvas Francesas pelo Mundo

22 de Fevereiro de 2016

O que seria do Novo Mundo sem as uvas francesas, ditas internacionais? A França sempre foi referência no mundo do vinho, sobretudo para os países emergentes. Qualquer que seja a região vinícola das Américas, Oceania, África, sempre teremos exemplares de Cabernet Sauvignon para tintos, e Chardonnay para brancos. Além disso, temos Merlot, Syrah, Grenache, Sauvignon Blanc, entre outras, com seus estilos próprios. E dentro da França, qual a importância de cada uma destas uvas no panorama geral? É isso que vamos ver a seguir.

A França vem diminuindo suas áreas de vinhas nos últimos tempos, conforme quadro abaixo. Com pouco mais de oitocentos mil hectares de plantio, este país tem destaque no cenário mundial juntamente com Espanha e Itália, seus eternos rivais.

Em outros tempos, o sul da França era inundado de vinhas com supremacia absoluta no plantio da rústica Carignan, a mesma Cariñena na Espanha. Só de 2006 para cá, o plantio desta uva decresceu 40%, tornando-se atualmente, a sétima uva mais plantada em território francês. O predomínio hoje é da Merlot, não só em termos gerais, mas principalmente em Bordeaux. De fato, com maturação mais precoce que a Cabernet e gerando vinhos mais macios quando jovens, a escolha pela Merlot faz sentido.

Bem longe da Merlot, em segundo lugar, seguida de perto pela Ugni Blanc, temos a Grenache, muito plantada no Rhône-Sul, além da Provence e Languedoc-Roussillon. Sempre majoritária no famoso blend GSM (Grenache, Syrah e Mourvèdre), tem grande penetração nos inúmeros tintos da apelação Côtes-du-Rhône, por exemplo.

Como vinho, a branca Ugni Blanc tem desempenho irrisório, tanto na quantidade, como na qualidade. Contudo, estamos falando da região de Charentes-Cognac, onde se elabora o destilado mais famoso da França, Cognac. São mais de oitenta mil hectares de vinhas onde a Ugni Blanc tem presença quase absoluta, conhecida localmente como Saint-Emilion.

uvas frança

Resumo de 85% do plantio francês

Em quarto lugar, temos a Syrah, a mesma Shiraz tão famosa em terras australianas. Apesar de sua fama ser oriunda dos grandes vinhos do Rhône-Norte designados nas apelações Hermitage, Côte-Rôtie, Cornas, St-Joseph, entre outras, as grandes áreas de cultivo estão no sul da França, principalmente no Languedoc-Roussillon.

Em quinto e sexto lugar, temos as famosas Cabernet Sauvignon e Chardonnay, cabeça a cabeça nesta disputa. A primeira reina em Bordeaux, sobretudo na chamada margem esquerda, enquanto a segunda é soberana na Borgonha, gerando os grandes brancos franceses.

Neste quadro temos 85%  dos vinhedos franceses com uvas acima de 1% (área plantada) no cômputo geral. Os 15% restantes formam um conjunto numeroso de uvas pouco conhecidas que individualmente apresentam produções insignificantes.

surface france

queda progressiva ao longo dos anos

Em termos de regiões, o Languedoc-Roussillon sempre esteve em primeiro lugar. Outrora, muito mais. Em segundo lugar, temos a Aquitania com a enorme região de Bordeaux, além de áreas periféricas. O Vale do Rhône é outra região numerosa em vinhas, incluindo no quadro a Provence. Não podemos esquecer de Charentes-Cognac onde suas vinhas tem produção expressiva. O restante vai se diluindo a partir da Borgonha e Loire em áreas cada vez mais diminutas.

regiões francesas vinhas

sul da França: um mar de vinhas

Em termos mundiais, a ordem dos fatores muda. A Cabernet Sauvignon fica com o primeiro lugar, seguida de perto pela Merlot. Para quem não conhece, temos a branca Airen da Espanha em terceiro lugar. Muito cultivada em La Mancha, região vinícola de área extensa, gera vinhos sem grandes atrativos. Porém, muito desses vinhos são destinados para a elaboração dos bons brandies espanhóis. As demais uvas não causam surpresas, exceto a  branca Trebbiano. De grande cultivo na Itália, gera vinhos um tanto neutros. Na França, é conhecida como Ugni Blanc, da qual já falamos. Uva base para a elaboração do Cognac e de grande presença na respectiva região.

Uvas mais plantadas no Mundo

1 – Cabernet sauvignon sur 290 091 ha (+31 % par rapport à l’an 2000), soit 6 % du vignoble mondial.
2 – Merlot noir sur 267 169 ha (+26 %), soit 6 % du vignoble mondial.
3 – Airen blanc* sur 252 364 ha (-35 %), soit 5 % du vignoble mondial.
4 – Tempranillo noir sur 232 561 ha (+150 %), soit 5 % du vignoble mondial.
5 – Chardonnay blanc sur 198 793 ha (+37 %), soit 4 % du vignoble mondial.
6 – Syrah noire sur 185 568 ha (+83 %), soit 4 % du vignoble mondial.
7 – Grenache noir sur 184 735 ha (-14 %), soit 4 % du vignoble mondial.
8 – Sauvignon blanc sur 110 138 ha (+70 %), soit 2 % du vignoble mondial.
9 – Trebbiano toscano blanc sur 109 772 ha (-20 %), soit 2 % du vignoble mondial.
10 – Pinot noir sur 86 662 ha (+45 %), soit 2 % du vignoble mondial.

Enfim, esses são os panoramas das uvas francesas dentro e fora da França. Pelo quadro acima, fica claro a supremacia das mesmas no cenário mundial, ou seja, das dez primeiras, sete são francesas. Nada mal …

Corton-Charlemagne: A montanha mágica

30 de Dezembro de 2015

Em minhas aulas sobre Terroir, a montanha de Corton é um exemplo inconteste que este conceito existe e é palpável. A composição de solo neste caso, determina criteriosamente o plantio de Chardonnay e de Pinot Noir em porções bem definidas. Hugh Johnson em seu livro diz que há uma espécie de Alice no País das Maravilhas permeando esta montanha, capaz de mudar repentinamente o cenário e nossas percepções.

A parte mais alta da montanha, rodeando seu cume, é rica em fragmentos de calcário, fazendo um terroir perfeito para a Chardonnay. Abaixo desta zona, no meio da montanha, a argila ganha força na composição do marga (mistura judiciosa de argila e calcário), tornando o solo mais frio e propicio ao cultivo da Pinot Noir. Deste raciocínio saem dois vinhos mágicos, ambos Grand Cru, o branco Corton-Charlemagne e o tinto simplesmente Corton, o único Grand Cru em Pinot Noir da Côte de Beaune. Especialmente neste artigo, falaremos do branco Corton-Charlemagne de um produtor de destaque, referência para a apelação.

Bosque de Corton ao fundo

A primeira vez que provei um Bonneau du Martray, o vinho estava num período de latência, sem grande expressão, mas ao mesmo tempo, dava para perceber o grande potencial de guarda do mesmo. A safra era de 1985, grande ano na Borgonha, como de modo geral em toda a Europa. Este branco Corton-Charlemagne, é um dos Grands Crus da Côte Beaune com características totalmente distintas.

Se Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet e Meursault, são vinhos que falam entre si, o branco de Corton tem personalidade diferente, mais próxima aos Grands Crus de Chablis. Seus aromas lembram a mineralidade do Chablis, mas a textura tem um Q de Beaune, sem perder a semelhança com um Les Clos, o mais vigoroso entre os Grands Crus de Yonne.

bonneau du martray

veja a luminosidade desta cor no decanter

No exemplar acima com onze anos de idade, a cor se destaca pela jovialidade e o brilho dos grandes vinhos. Os aromas têm sempre algum mistério, mas notas sutilmente cítricas, florais e um fino boisé, são claramente percebidos. Em boca, impressiona como um autêntico Grand Cru. Percebe-se de início aquela tensão e mineralidade do Chablis, mas ao mesmo tempo uma maciez, uma densidade, com aquele Q de Beaune. O frescor, a vibração, a persistência e o equilíbrio, são notáveis. Pelo seu vigor, podemos vislumbrar pelo menos mais dez anos de guarda.

Alguns dados sobre Bonneau du Martray Corton-Charlemagne: vinhas de 45 anos divididas em 16 parcelas. Fermentação com leveduras naturais. Utilização de carvalho na fermentação e amadurecimento por 12 meses, sendo somente 30% novo. Trabalho judicioso de bâtonnage (contato sur lies revolvendo as borras).

Os grandes brancos da Borgonha

  • Bâtard-Montrachet – textura semelhante a Meursault com mais complexidade
  • Chevalier-Montrachet – elegância de um Puligny-Montrachet beirando a perfeição
  • Montrachet – (Bâtard + Chevalier)²
  • Corton-Charlemagne – Chablis Les Clos com textura de Beaune
  • Chablis Grand Cru – mineralidade e intensidade

Harmonizações: Borgonha à mesa

21 de Dezembro de 2015

Pessoalmente, uma das maiores diversões é testar, confirmar, uma boa ou má harmonização nas inúmeras situações que nos envolvemos. Às vezes, premeditadamente, outras, verdadeiras surpresas que o dia a dia nos pregam. Desta feita, um almoço entre amigos, nos deparamos com dois embates abaixo descritos.

camarões molho de baunilhaCamarões ao molho de baunilha

Pela foto acima, percebemos um prato delicado. Trata-se de um leito de carpaccio  pupunha regado ao azeite de oliva com camarões grelhados ao molho de baunilha e creme de leite. São texturas delicadas que pedem um vinho com a mesma similaridade, mantendo a harmonia. Os sabores delicados do camarão e do creme de leite aromatizado com baunilha não podem ser ofuscados por um vinho potente. Evidentemente, estamos falando de vinho branco. E branco da Borgonha. Nas famosas comunas da Côte de Beaune, Puligny-Montrachet tem esta linguagem. Textura e aromas delicados, além dos toques de barricas extremamente sutis em sintonia com os aromas de baunilha do prato.

puligny boillotLes Combettes: divisa com Meursault

No vinho acima, o Premier Cru Les Combettes faz divisa com a apelação Meursault. Isso se reflete no terroir onde os aromas do vinho têm a delicadeza de Puligny, mas a textura em boca lembra um Meursault. Os brancos de Jean-Marc Boillot são elaborados classicamente com fermentação em barricas, passam pelo processo de bâtonnage e amadurecem cerca de dez meses em carvalho, sendo somente 30% novo. Este exemplar com seus nove anos, esbanja vivacidade com toques florais, cítricos delicados como limão siciliano, e finas especiarias. Textura macia e equilíbrio dos grandes vinhos.

escaolpe e ratatouilleEscalopes de entrecôte e ratatouille

Normalmente, quando falamos em borgonhas, pensamos em aves como elemento de harmonização. Neste caso, trata-se de escalopes de entrecôte. A carne em si, contrafilé, tem uma trama um tanto fibrosa, porém o corte em bifes fininhos ajuda a quebrar um pouco esta rigidez. O molho com cogumelos, um demi-glacê elaborado pela Chef Roberta Sudbrack, tem a delicadeza e o refinamento que o vinho exige. No caso, um Richebourg, Grand Cru vizinho ao mítico Romnaée-Conti. Por fim, a ratatouille com seus legumes finamente grelhados enriquece o acompanhamento. Os cogumelos são elementos que vão muito bem com vinhos envelhecidos e toques minerais, especialmente aquelas notas terrosas.

richebourg af grosA tradição da família Gros

Anne Françoise Gros é um dos ramos desta tradicional família, sobretudo na comuna de Vosne-Romanée. Sua parcela na nobre apelação Richebourg é de apenas 60 ares (0,6 ha), cerca de seis mil metros quadrados, um terço da área do Romanée-Conti, ou seja, uma produção anual baixíssima de 2400 a 3000 garrafas. No caso dos Grands Crus como este, o vinho amadurece 100% em barricas novas. Neste exemplar de 2003, as notas de especiarias, ervas, temperos exóticos, são marcantes, remetendo ao gengibre, noz moscada, alcaçuz, entre outros. A madeira não se percebe. Está totalmente integrada ao conjunto.

Nestes dois exemplos, percebemos que o tema central é a delicadeza dos pratos e dos vinhos. Isso é fundamental, sobretudo quando se trata de vinhos da Borgonha. Esta região exige uma cozinha refinada, de temperos e molhos sutis. E quanto mais subimos na escala de classificação (comunal, premier cru e grand cru), maior a preocupação em não errar, não exagerar, sob pena de ofuscar sutilezas de certos tesouros que não podemos desfrutar com tanta frequência. 

Pinot Noir: Harmonização

7 de Dezembro de 2015

Vez em quando, é bom testar a temperamental Pinot Noir  à mesa. Seus vinhos, muitas vezes delicados, sobretudo na região da Borgonha, apresentam sutilezas e dificuldades no convívio com a comida. Normalmente as aves, saem-se bem neste casamento.

barnaut rose

Rosé pelo método saignée

Desta feita, o primeiro desafio foi harmonizar um champagne rosé à mesa. De fato, certos rosés não são champagnes para bebericar isoladamente. Possuem corpo, estrutura, e portanto, pedem algo para ser confrontado. No caso deste rosé, trata-se do Barnaut Rosé Authetique, um rosé saignée, ou seja, o vinho-base é vinificado em rosé, naturalmente Pinot Noir, e são adicionados 15% de Chardonnay. Aí sim, passa-se à segunda fermentação para tomada de espuma. Um rosé estruturado, mas ao mesmo tempo delicado, principalmente nos aromas. Combinou muito bem com a entrada abaixo:

vieiras e arroz negro

Vieiras, shitakes e arroz negro

O sabor da vieira e do shitake casaram bem com a mineralidade e os aromas de leveduras do champagne. Seu lado frutado valorizou o alho-poró, as ervas e demais temperos. Sua acidez combateu bem a gordura e o leve picante do prato (molho de pimenta dedo de moça bem delicado). Por fim, a textura tanto da vieira como do arroz negro foram muito bem com a cremosidade do champagne. Uma parceria bem agradável, limpando e preparando o paladar para o próximo prato.

domaine des perdrix

Nuits-St-Georges: um lado viril da Pinot Noir

O tinto acima, ficou para o prato principal. Seu vinhedo, Aux Perdrix, é um Premier Cru localizado mais ao sul da apelação Nuits-Saint-Georges. São 3,45 hectares com predominância de argila no solo. A vinificação com longa maceração, é feita em cubas de madeira, e posterior amadurecimento por cerca de quinze meses. Normalmente, há 60% de madeira nova. A safra 2008 é uma safra de guarda com taninos ainda a se resolver. Não se percebe a madeira com notas de frutas e toques minerais. Deve evoluir por pelo menos mais cinco anos.

mignon e cuscuz marroquino

Rosbife com cuscuz marroquino

O rosbife Wagyn, raça de gado japonês, estava no ponto, textura macia e carne rosada . Grelhado com pó de shitake e pimenta sichuan (origem chinesa), seus sabores foram muito bem com o sabor do vinho. A textura da carne foi o ponto alta na combinação. Os evidentes taninos deste tinto foram combatidos perfeitamente pela suculência e leve fibrosidade da carne.

Nesta experiência podemos concluir que certos champagnes vão muito bem à mesa, contrariando a ideia de muitas pessoas que encaram este vinho apenas como aperitivo. No lado borgonhês, apelações como Nuits-Saint-Georges e Pommard, são vistas como produtoras de vinhos um tanto rústicos para a delicada Pinot Noir. Contudo, à mesa, surpreendem por sua versatilidade e melhoram muito com a comida. Para aqueles que gostam de carnes e molhos mais consistentes, estas apelações são boas alternativas para quem não abre mão da Pinot Noir.

Os pratos são da Chef Vivi, restaurante minúsculo na Vila Madalena. O menu muda periodicamente com várias opções de entradas e pratos principais. Peixes, aves, carnes e opções vegetarianas estão sempre presentes. (www.chefvivi.com.br).