A Sina dos Crus Bourgeois


Desde que foi criada em 1932 a famosa classificação dos Crus Bourgeois tudo parecia tranquilo, até que em 2003 resolveram mexer no vespeiro. A classificação que era hierarquicamente inferior, ficou completamente desmoralizada após vários chateaux famosos entrarem na justiça, exigindo seu direito de menção na classificação.

Após longas discussões e processos, resolveram fazer a atual classificação de 2020, onde 249 chateaux têm direito à sua respectiva classificação. Segundo os critérios, foram computados os valores médios de notas durante os últimos dez anos. A classificação admite 14 Chateaux com a menção “Crus bourgeois Exceptionnel”, 56 Chateaux com a menção “Cru Bourgeois Supérieur”, e 179 Chateaux com a menção “Cru Bourgeois”. Se vai pegar, não sei, mas é o que temos para o momento.

cru bourgeois 2020

mapa do Médoc

A parte superior do mapa chamada de Médoc é a mais carente em classificação, e portanto, a que mais necessita de números absolutos. São 115 chateaux onde devemos separar o joio do trigo.

Já na região abaixo, onde circunda as principais comunas, temos o Haut-Médoc, sub-região de terroir supostamente melhorado pela presença do cascalho. Aqui temos 88 chateaux para escolher, onde os critérios são mais restritos.

Por fim, nas comunas mais restritas a esquerda como Listrac, Moulin, e à direita como St Estèphe, Pauiilac e Margaux, temos poucos exemplares a escolher. Normalmente, o vinho é mais caro devido à força de seu terroir.

O médoc trabalha com cerca de 28 milhões de garrafas para esta categoria de vinho, representando 31% da produção de todo o Médoc. Números significativos para uma produção que trabalha com a elite de vinhos finos tintos da região.

Não nos esqueçamos que fora desta classificação fica chateaux confiáveis como Gloria, Sociando-Mallet e Chasse Spleen, Tour de By, Maucaillou, Potensac, e alguns ótimos de St Emilion,  sempre altamente reputados.

A categoria Cru Bourgeois sempre teve sua importância histórica em termos de qualidade, imediatamente abaixo dos Grands Crus Classés da região, vinhos de alta reputação e preços nas alturas. Após essas categorias temos os Crus Artisans, Caves Coopératives, e outros Crus, totalizando 16 mil hectares de vinhas e 100 mil garrafas de vinhos em todo o Médoc.

Three_Cru_Bourgeois

cru bourgeois confiáveis

Os Crus Bourgeois sempre foram motivo de curiosidade e bons preços frente aos figurões “Grand Cru Classé”. Nomes consagrados como Chasse-Spleen (Moulis), Poujeaux (Moulis), Haut-Marbuzet (St. Estèphe), Le Ormes-de-Pez (St. Estéphe).

Alguns dos chateaux listados atualmente merecem certo destaque. Evidentemente, não vou falar de todos, apenas o que julgo ser importante, naturalmente com devidas falhas e esquecimentos. Chateau Castéra, Noiallac, Clément Pichon, Larose Trintaudon, Plantey, d´Agassac, Belle-Vue, d´Arsac, le Boscq.

Chateau Castéra

É um Cru Bourgeois Supérieur do Médoc,  região norte a Saint-Estéphe, segundo classificação atual de 2020. É um forte concorrente ao Chateau Potensac, também do Médoc. É composto basicamente de Merlot, complementado por Cabernet Sauvignon e umas pitadas de Cabernet Franc e Petit Verdot. Já estava classficado em 1932 e suas vinhas concorriam com os Cru Clássés da região em 1855.

Chateau Noiallac

É também um Cru Bourgeois Supérieur do Médoc, próximo a Castéra, segundo classificação atual de 2020. É um corte mais puxado para o Cabernet Sauvignon, embora a Merlot ainda seja majoritária. Tem 5% Petit Verdot. Não é um chateau com a tradição de Castéra, mas tem um vinificação moderna e consistente.

Chateau Clement-Pichon

É um Cru Bougeois Supérieur do Haut-Médoc, segundo a atual classificação de 2020. Fica na parte bem ao sul de Margaux, abaixo do Chateau La Lagune. Tem muita tradição pois estão ligados aos Pichons (Baron e Lalande, duas estrelas de Pauillac). Seu blend é baseado na Merlot (dois terços) e um terço de Cabernets, sobretudo o Cabernet Sauvignon. Um vinho consistente.

chateau larose-trintaudon cru bourgeoispodemos dizer: um clássico de St-Julien

Chateau Larose Trintaudon

É um chateau clássico muito bem localizado, próximo as vinhedos de Latour e próximo também à comuna de St-Julien. Atualmente, é um Cru Bourgeois Supérieur do Haut-Médoc, segundo a classificação de 2020. Seu blend privilegia a Cabernet Sauvignon, sem esquecer a maciez da Merlot. Chateau consistente que envelhece muito bem.

chateau plantey pauillac

um rótulo clássico em Pauillac (raridade)

Chateau Plantey

O único chateau Cru Bourgeois da classificação atual de 2020 com o nome de Pauillac no rótulo. Seus vinhedos são antigos e ficam muito próximos ao do Chateau Pontet-Canet, uma das sensações de Pauillac. Vem marcado pelo excelente Cabernet Sauvignon de Pauillac, sem esquecer a suavidade da Merlot. Um rótulo clássico com a distinção de Pauillac.

Chateau d´Agassac

Este é o primeiro Cru Bourgeois Exceptionnel do Haut-Médoc, segundo a classificação atual de 2020. Bem ao sul de Margaux, na comuna de Ludon-Médoc, situa-se o chateau d´Agassac com terroir pedregoso e arenoso. Calcado no Cabernet Sauvignon nas boas safras, sem esquecer o charme da Merlot. Vamos falar em seguida do chateau d´arsac, de nome parecido e muito próximo  a este excelente chateau.

Chateau d´Arsac

É um Cru Bourgeois Excptionnel pertencente à comuna de Margaux, pois Arsac é um dos cinco vilarejos que fazem uma das comunas mais famosas do Médoc. Mesmo corte do chateau acima, mas num terroir ligeiramente diferente. Os dois chateaux têm história e tradição.

Belle Vue

É considerado um Cru Bourgeois Exceptionnel, segundo a classificação atual de 2020. Fica na comuna de Labarde (Margaux), mas é considerado um Haut-Médoc. É um vinho com mais Cabernet Sauvignon e Petit Verdot (pode chegar a 20%, dependendo da safra), deixando a Merlot como coadjuvante. É um vinho austero que envelhece bem.

chateau le boscq st estephe

um autêntico St-Estèphe

Chateau Le Boscq

Por fim, o Chateau Le Boscq, atualmente um Cru Bourgeois Exceptionnel de Saint-Estèphe. Ele é um dos Tops da lista e bem o merece. Faz parte do grupo Durthe Bordeaux. Não confundir com Le Petit Boscq, um Cru Borgeois Supérieur atualmente, e também um belo vinho, de Petit não tem nada. Voltando ao Le Boscq, ele está classificado desde 1932, tem muita tradição e é um autêntico St-Estèphe. Mescla muito bem as Cabernets com o Merlot num balanço muito equilibrado. Fica bem ao norte de St-Estéphe, perto do rio onde há um solo de cascalho.

 Procurei dar uma ideia atual da situação dos Cru Bourgeois, sempre muito difícil ao longo da história. Espero sinceramente que esta classificação atual ponha um ponto final na conturbada trajetória desta importante apelação.

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