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Enogastronomia entre amigos

4 de Janeiro de 2016

Não importa a data; Réveillon, Natal, ou simplesmente uma boa refeição entre amigos, é sempre um momento de muita alegria e boas energias. Em mais um encontro, testamos alguns vinhos à mesa, confirmando algumas combinações e nos surpreendendo com outras. O que vale é o exercício da enogastronomia.

Abrindo os trabalhos, um rosé de Navarra, Gran Feudo Rosado, sempre uma boa aposta. Baseado na uva Garnacha, surpreende pelo frescor e equilíbrio. Acompanhou bem uma salada de folhas e tomate-cereja, preparando adequadamente o paladar para a sequencia de pratos.

tender de natal

tradição nas festas

O prato seguinte, um tender bem típico desta época, foi escoltado por um belo Riesling  Dr. Bürklin-Wolf, o maior nome da clássica região alemã de Pfalz. Esta denominação produz Rieslings de bom corpo, macio, sustentado por ótima acidez. Fica mais ao sul de outras regiões vinícolas da Alemanha,  ao norte de bela região francesa da Alsácia. As carnes suínas defumadas fazem um par perfeito com a mineralidade dos Rieslings numa harmonização imbatível. Tanto é verdade, que tentamos continuar com o rosé, porém o vinho não tinha força para os sabores do prato. Dependendo do preço, o tender tem muita semelhança de sabor com o tradicional Kassler, outra especialidade alemã. O problema maior na harmonização foram as frutas que pedem vinhos de certa doçura. Apenas como esclarecimento do rótulo abaixo, Ruppertsberger Hoheburg é um vinhedo de 4,68 hectares plantado em 1975.

dr. burklin wolf

grande nome de Pfalz

Chegamos finalmente ao prato de resistência, uma típica bacalhoada de forno. Aqui a proposta foi acompanha-la por dois vinhos, um tinto e um branco. O branco se bem escolhido, é uma pedida clássica. Neste caso, precisa ter bom corpo, boa textura, sabores marcantes e acidez adequada. O branco escolhido foi Clos Floridene, um vinho bordalês de Graves, bem ao sul, perto de Sauternes. No corte de uvas típico da região, a Sémillon fornece estrutura e força ao vinho, enquanto a Sauvignon Blanc mantem um bom frescor ao conjunto. A passagem por barrica e um bom trabalho de bâtonnage cria textura adequada ao prato, bem como o tostado elegante da barrica com os sabores do bacalhau. Combinação sem problemas, sem sustos.

bacalhau de forno

bacalhau de forno

clos floridene

destaque da apelação Graves

A surpresa para muitos foi a combinação com vinho tinto. Neste caso, os vinhos ibéricos saem na frente. Sua estrutura  e uma certa rusticidade casam muito bem com o prato. O cuidado é termos taninos bem domados. Um bom trabalho em barrica e alguns anos de envelhecimento em adega são fatores fundamentais nesta harmonização. O tinto escolhido foi o Chivite Seleccion 125 da ótima safra de 2004. Majoritariamente moldado pela Tempranillo, este vinho de Navarra estava num ótimo momento, a despeito de não denunciar sua idade e com boas perspectivas de evolução. Seus aromas marcantes com toques balsâmicos, defumados e de especiarias, casaram bem com os sabores do prato, sobretudo com as azeitonas pretas e os pimentões vermelhos. Seus taninos finíssimos e bem moldados fizeram um par perfeito com a textura e suculência do bacalhau. Para a maioria, foi a melhor combinação com o prato. Para os mais céticos, é uma combinação a ser testada.

chivite reserva

O grande tinto de Navarra

Continuando a brincadeira antes da sobremesa, finalizamos a refeição com um Comté de média maturação, queijo francês da região do Jura. Se o tinto surpreendeu com o bacalhau, o branco voltou a brilhar com o queijo. Não que o tinto tenha sido um desastre, mas faltou sintonia de sabores e principalmente, a incompatibilidade dos taninos com a gordura do queijo. Já o branco além dos sabores bem sintonizados, cortou com maestria a gordura do queijo, proporcionando uma combinação bem agradável.

talisker

proibido para principiantes

Após cafés, chás, partimos para a varanda acompanhados de Puros. Foram servidos Porto, Rum e Malt Whisky, respectivamente. Hoyo de Monterrey e Bolivar Belicosos foram bem com o Taylor´s LBV 2007 e também com o rum Zacapa Reserva, estupenda bebida, muita rica em sabor e agradavelmente macia. Contudo, quando entrou em cena o Malt Whisky acima, o poderoso Talisker, só mesmo um Partagás P2 em seu último terço para segurar sua fúria. Atentem para o alerta acima. É preciso estar preparado para este encontro. Jim Murray, especialista britânico em Whiskies, disse: Se tiver que escolher apenas um Maltado, não hesite em adquirir o explosivo Talisker 10 anos. Depois desta, só me resta desejar Feliz 2016 a todos!

Mudança de Adega: Entre um gole e outro

3 de Maio de 2015

Um dos trabalhos do sommelier é também montar adegas novas ou transferi-las para um novo local. Este foi o caso de um grande amigo que mudou recentemente de endereço. Possuidor de um arsenal de mais de três mil garrafas cuidadosamente selecionadas ao longo dos anos. E que arsenal! Pode não ser das maiores do Brasil em quantidade, mas a qualidade e o garimpo de seus vinhos são irrepreensíveis. Apaixonado pelos bordaleses, os melhores chateaux e as melhores safras de ambas as margens estão lá. Outro fascínio, são os DRCs de Vosne-Romanée. Uma coleção completa destes borgonheses fantásticos com algumas safras memoráveis. A prateleira de recepção da adega é repleta de Imperiais (seis litros) destes mitos citados acima. Sem contar com a bela coleção de Vegas (espanhóis), Yquem, e Domaine Leflaive.

Painel Romanée-Conti

O painel acima está no centro, em destaque, da prateleira de DRCs. Mas antes desta montagem, muito trabalho. Com a chegada dos vinhos na nova residência foi preciso um trabalho árduo, de muita paciência, para separar e classificar os vários Chateaux, Domaines, separando por safra, vinhedos ou cuvées especiais, se for o caso, para poder planilha-los de forma cartesiana e lança-los no computador, ou seja, a adega virtual. A foto abaixo, nos dá uma ideia do tamanho do problema.

A bagunça sendo organizada

Evidentemente, nem tudo é trabalho. Em determinados momentos a generosidade do proprietário brindava-nos com alguns mimos, conforme a sequência abaixo:

Referência na apelação Volnay

Quando pensamos em alto nível na comuna de Volnay (Borgonha), imediatamente nos vêm Domaine Lafarge e Domaine Maquis d´Angerville. O primeiro já foi descrito em artigo neste mesmo blog. Este acima da safra 97 ainda é uma criança. Podemos dizer que foge até um pouco da tipicidade da apelação, pois Volnay elabora tintos elegantes, sedosos, acessíveis, mesmo na juventude. Este porém, tem caráter masculino, estrutura tânica portentosa. A cor mostra-se jovem, aromas um tanto fechados, sugerindo cerejas negras, alcaçuz, especiarias e uma nota tostada. A boca impressiona por sua estrutura. Taninos bem delineados, mas em quantidade suficientes para mais uma década, pelo menos. E olha que estamos falando de uma safra acessiivel (97). Realmente, é vinho de longa guarda.

Um Pomerol de livro

Já tive o privilégio de participar de uma extensa vertical de Le Pin, e este 85 é encantador. Com seus trintas anos, continua sedutor, macio, equilibrado e sem sinais de decadência. As ameixas em calda, as flores, o toque terroso e de especiarias, confirmam os descritores clássicos desta pequena apelação. Aliás, a safra 85 é encantadora para a maioria dos grandes bordaleses.

Um Lafleur parrudo

Este exemplar da safra de 1990 mostra um Lafleur quase indestrutível. Cor muito pouco evoluída, aromas não completamente desabrochados e uma estrutura tânica impressionante para um margem direita. Talvez a alta proporção de Cabernet Franc e a potência da safra expliquem esta estrutura. Os aromas de frutas escuras, tabaco, minerais e especiarias, foram se mostrando lentamente com algum tempo nas taças. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos duas horas. É páreo para um bom Confit de Pato.

Yquem 75 : para ficar na memória

Já tomei alguns Yquems de peso como as safras de 83, 86 e 2001, mas este 75 em formato Magnum, mesmo com o problema acima, foi memorável. Algo absolutamente  inédito nesta garrafa com a rolha soltando-se dentro do liquido e apenas a capsula, segurando todo o conteúdo, sem nenhum vazamento. O vinho com uma cor âmbar brilhante estava adequada para a idade (40 anos). Os aromas de caramelo escuro, notas de coco, marron-glacê, doces mineiros cristalizados, curry, entre outros, eram deslumbrantes. E a boca? Esplendorosa! Uma harmonia entre os componentes de álcool, acidez e açúcar, em perfeito equilíbrio. Tudo isso era transportado por uma viscosidade única, devido a altas taxas de glicerol que neste caso, é perfeitamente perceptível. Uma persistência interminável, expansiva, como se houvesse compassadamente lufadas deste liquido indescritível. O melhor Yquem tomado até hoje. Nunca se sabe o dia de amanhã…

Continuando a bagunça

Mais alguns dias de trabalho e algumas paradas sedentas. Numa delas dois exemplares dos injustiçados Bordeaux brancos. Dois Châteaux de peso na comuna de Pessac-Léognan, zona norte de Graves, bem próximo à cidade de Bordeaux. Vamos a eles!

Bela estrutura

Os tintos do chateau acima são encantadores. Este branco da safra 2009 é altamente pontuado pela crítica especializada. Uma bela cor, aromas ainda tímidos lembrando minerais e cogumelos. Em boca, um belo corpo, muito macio e com uma certa untuosidade. Consequência da boa proporção de Sémillon no corte e um longo período sur lies (contato com as leveduras) e bâtonnages frequentes. Deve evoluir com o tempo, tornando-se um branco bastante gastronômico.

Haut-Brion: O Ícone da região

Num estilo totalmente diferente do branco anterior, este exemplar prima por seu frescor, vivacidade e elegância. Sem dúvida, disputa a primazia dos brancos bordaleses com seu grande rival, Château Laville Haut-Brion, o grande branco do Château La Mission Haut-Brion. Curiosamente, a partir da safra 2009 passou a ser chamado Château La Mission Haut-Brion Blanc. Voltando ao Haut-Brion,  seus aromas cítricos, alimonados e até lembrando a carambola destacam-se com as notas de madeira elegante. Alta proporção de Sémillon também, mas a fermentação dá-se em barricas de carvalho parcialmente novas. Embora haja bâtonnages, a maciez é mais discreta, prevalecendo a vivacidade. Um clássico a ser provado entre os amantes de Bordeaux.

Felicidades ao amigo, e que seu novo lar proporcione momentos de paz, felicidade, alegria e muitos brindes, aliados a seu bom gosto e enorme generosidade. Santé pour tous!

Pratos de Verão: Lulas Recheadas

3 de Fevereiro de 2014

Dando prosseguimento aos pratos de verão, vamos harmonizar a receita da foto abaixo, Lulas Recheadas com Shimeji. Um prato simples de executar, muito apropriado para dias e noites quentes do verão brasileiro. Para começar, refogue o shimeji numa frigideira com manteiga sem sal. Após o mesmo perder quase toda a água, junte cebolinha picada, saquê e shoyu, e rofogue por mais dez minutos. Em seguida, você pode processar este recheio num mix, formando uma pasta. Se preferir, deixe o refogado do jeito que está.

Prato rico em proteínas

Em seguida, recheie as lulas com esta mistura, feche-as com palitos e refogue-as na frigideira com manteiga sem sal. Adicione o saquê, o shoyu e um pouco de Ajinomoto, reduzindo este molho para uma consistência agradável. Corte as lulas em rodelas e sirva-as com um acompanhamento neutro de sua preferência (arroz, purê de batata, etc …). A receita completa passo a passo está no endereço abaixo:

http://epoca.globo.com/regional/sp/comida-e-bebida/noticia/2013/11/aprenda-fazer-blula-recheada-com-shimejib.html

Para a harmonização, precisaremos de um vinho branco ou rosé, pois o shoyu, muito presente na receita, provocará o clássico choque tanino x sal, provocando adstringência e amargor desagradáveis no caso da escolha por um tinto. Tanto é verdade, que a manteiga utilizada na receita deve ser sem sal para um melhor equilíbrio. A textura do prato predominante é macia com leve rigidez da lula. Se a receita for executada com o recheio sem o processador, a maciez do conjunto diminui. Portanto, precisamos de um vinho de certa maciez sem abrir mão de uma ótima acidez. Esta acidez é fundamental para combater o sal da receita (shoyu) e casar com o toque de maresia da lula, principalmente se houver mineralidade no vinho.

Uma ótima opção para esta época do ano seria um belo espumante elaborado pelo método tradicional. Pode ser um nacional, um bom Cava, um bom Crémant ou evidentemente um Champagne. Digo método tradicional, pois os aromas advindos deste tipo de elaboração (contato relativamente prolongado com as borras, ou seja, sur lies) casam perfeitamente com os aromas e sabores do cogumelo. Contudo, é importante dosarmos bem este envelhecimento, pois espumantes com longa permanência sur lies ganham muita maciez e fortes aromas redutores. Penso que um contato de dois a três anos é  mais que suficiente. Que tal um bom Cava Reserva? ele alia as condições acima citadas com muito frescor e boa mineralidade. 

Outras possibilidades podem ser testadas. Um bom Savennières do vale do Loire (França), branco de excepcional acidez e mineralidade com a uva Chenin Blanc, pode funcionar bem, sobretudo se houver um certo envelhecimento, proporcionando toques amendoados que também casam a contento com os cogumelos. Um Vouvray espumante, outro branco de grande categoria do Loire elaborado com a mesma cepa (Chenin Blanc), é uma boa opção. Por que não um branco bordalês? desde que haja um certo equilíbrio entre as uvas Sauvignon Blanc (acidez com grande frescor) e Sémillon (estrutura e maciez), a harmonização pode ser perfeita. Neste contexto, o bordalês do mestre Denis Dubourdieu, importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br), é uma bela alternativa, principalmente pelo preço convidativo. Ainda na linha francesa, o Champagne Pol Roger Blanc de Blancs é um tiro certeiro para uma harmonização mais sofisticada. Sua cremosidade, acidez e mineralidade, com um leve toque amanteigado, são requisitos mais que suficientes para este casamento.

Enfim, opções não faltam. A praticidade da receita e as várias possibilidades enogastronômicas podem ser  ingredientes extremamente motivadores para nos aventurarmos na cozinha.

Que Marravilha: Polvo de Verão

24 de Janeiro de 2014

Dando prosseguimento a nossas receitas de verão, segue mais uma do programa Que Marravilha! do chef Claude Troisgros, conforme link abaixo (vídeo e receita):

http://gnt.globo.com/quemarravilha/receitas/

RECEITA

Polvo e Maionese

Frutos do mar pedindo vinho branco e maionese que pode ser servida gelada são ingredientes perfeitos para dias e noites quentes, de preferência com a brisa do mar. Para esta receita, um elemento interessante é a combinação de textura do polvo, um pouco mais rija, com a maionese, bastante macia, sem falar na alternância de temperatura entre o polvo grelhado (quente) e a maionese, fria. 

Do lado do polvo, temos alho, ervas, tomate, cebola e aipo (também conhecido como salsão). São ingredientes provençais que remetem a um vinho ou espumante rosé. Do lado da maionese, temos mostarda dijon, gema de ovo, azeite, pimenta, e suco de limão. Aqui, um vinho branco de boa acidez com nuances cítricas cria ótima sintonia. Entretanto, polvo e maionese unem-se na mesma receita com sabores entrelaçados. Vamos então às opções de vinho.

O vinho precisa ter boa acidez, um toque de maresia é bem-vindo, notas cítricas e de ervas, e um pouco de maciez para equilibrar texturas. Um Alvarinho (português da região do Minho) ou um Albariño (versão espanhola) com alguma passagem por madeira, melhor ainda, com certo contato sur lies (sobre as borras), apresenta as características acima e textura perfeita para o prato.

Brancos de Bordeaux com as cepas Sauvignon Blanc e Sémillon, esta última confere certa maciez ao vinho, podem ser belas alternativas. Um Rioja branco calcado na casta Viura com discreto amadurecimento em barrica, preservando muito frescor, pode ser pensado para o caso. De preferência, a denominação Crianza, pois os Reservas e Gran Reservas assumem outros aromas e sabores, fugindo das especificações do prato em questão.

Do lado italiano, um ótimo Soave da região do Vêneto com a uva Garganega é uma boa lembrança. Preferencialmente, dos produtores Pieropan (importadora Decanter – http://www.decanter.com.br) ou Anselmi (importadora World Wine – http://www.worldwine.com.br). 

De qualquer modo, os rosés de boa textura continuam na briga, tranquilos ou espumantes. O provençal Domaine Sorin da importadora Decanter ou o ótimo Cava Juve & Camps da importadora Península (www.peninsulavinhos.com.br), formam um belo para para esta harmonização. De resto, é só continuar curtindo o verão até o carnaval.

Botrytis Cinerea: A nobre doçura

25 de Fevereiro de 2013

Neste blog fizemos menção em várias oportunidades sobre os vinhos botrytisados. Regiões como Sauternes, Tokaj (Hungria), algumas regiões do Vale do Loire, Alsácia e também da Alemanha, são clássicas nesta categoria de vinho. Neste artigo, vamos explorar tecnicamente um pouco mais este fenômeno raro e que sem dúvida nenhuma, é responsável pelos melhores vinhos doces do mundo.

O fungo Botrytis Cinerea na agricultura, ou seja, não só na viticultura, apresenta-se de forma não tão rara como se imagina e mais, da forma mais nefasta possível. Botrytis em grego quer dizer cacho de uvas, forma habitual da colônia de fungos na infestação dos grãos de uvas. Cinerea vem de cinzas, relacionada ao aspecto visual da mesma infestação. Aliás, “podridão cinza” é o nome dado à atuação nefasta deste fungo na maioria das vezes nos vinhedos e portanto, torna-se uma praga. Em condições climáticas específicas, ou seja, manhãs brumosas e dias ensolarados, está atuação torna-se uma benção, chamada então de “podridão nobre”, ou noble rot, ou pourriture noble, ou muffa nobile, ou edelfäule (alemão). Estas condições ocorrem com alguma frequência nas regiões clássicas acima citadas.

Tomando como exemplo a região bordalesa de Sauternes, imortalizada pelo magistral Château d´Yquem, o fungo ataca os grãos de uvas perfeitamente maduros naquelas condições climáticas específicas. Com a pele relativamente frágil, o fungo consegue perfurar o grão de uva provocando uma reação natural da planta. Em outras palavras, a planta entende que houve uma invasão, uma agressão, e isto precisa ter uma resposta. A partir deste fato, haverá uma luta entre a planta e o fungo invasor, e uma série de substâncias serão sintetizadas beneficiando nós consumidores, com aromas, texturas e sabores únicos.

A primeira constatação da infestação é a desidratação do grão pela evaporação da água, aumentando a concentração de açúcar, a despeito de parte do mesmo ser metabolizado pelo fungo. Parte dos ácidos também são metabolizados, preferencialmente o ácido tartárico. Mesmo assim, há uma expressiva preservação da acidez, sobretudo do ácido málico, mais forte e mais eficiente para equilibrar a alta concentração de açúcares. Nesta luta, há produção de ácido glucônico, sem impacto sensorial, mas uma prova laboratorial irrefutável da incidência de Botrytis no vinho. A infecção secundária inevitável nos grãos de uvas por bactérias acéticas acaba gerando pequenas doses de ácido acético e acetato de etila, responsáveis pelos aromas de acetona e esmalte de unha. Uma das reações da planta é a formação de diversos polialcoóis, em particular, aumento substancial do glicerol, gerando sensação de doçura e principalmente, untuosidade. Outras reações importantes são a síntese de sotolon e de álcoois, gerando aromas  de curry, mel, especiarias, açúcar queimado, nozes e cogumelos.

Observem no vídeo abaixo (Château d´Yquem) o grau de botrytisação nos cachos de uvas que é sempre irregular. Daí, a necessidade de várias passagens para colheita no vinhedo. Outro ponto importante, é a viscosidade do mosto e do vinho na taça.

http://youtu.be/TeBPGwiPxu8

Quanto à variedade da uva, as cepas relativamente neutras como a Sémillon na região de Sauternes levam vantagens. Alterações como hidrólise dos terpenos e as esterases provocadas pela infecção do fungo, acabam de certo modo neutralizando os aromas primários e frutados das uvas, ou seja, todas as reações acima citadas acabam prevalecendo aromaticamente sobre a tipicidade da uva em questão. Só para esclarecer, terpenos são substâncias responsáveis pelos aromas típicos de cada variedade de uva, enquanto os ésteres de fruta respondem pelos aromas frutados dos vinhos. Conforme exposto acima, estes dois fenômenos são neutralizados.

Em resumo, a perspicácia do homem soube tirar proveito de situações normalmente desastrosas, mas que em condições especiais, tornam-se especialmente interessantes, fornecendo uvas e consequentemente mostos de características únicas e assim, nos proporcionando vinhos extremamente singulares e exóticos, os vinhos botrytisados.

Austrália: Parte VII

21 de Fevereiro de 2013

Apesar da Austrália Ocidental ser um grande estado, a produção vinícola fica próxima de cinco porcento do total de vinhos australianos concentrada numa pequena região mais ao sul e próxima ao litoral da cidade de Perth. Não há dúvida que Margaret River é a região mais famosa, chamada também de “bordeaux australiana” com as devidas considerações. Estudos nos anos 60 revelaram semelhanças de clima e solo com os padrões bordaleses. Portanto, o cultivo de cepas como Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Sauvignon Blanc e Sémillon foi natural e bastanta convincente. Vinícolas como Vasse Félix e Cape Mentelle (pertencente ao grupo  francês LVMH) estão entre as mais destacadas. Vale destacar o cultivo da Sémillon na elaboração de varietais ou o tradicional corte bordalês com a Sauvignon Blanc. Como varietal, tem um sabor mais tropical e arredondado que o Hunter Valley. Já nas misturas, temos vinhos elegantes e equilibrados. Outras regiões, veja o mapa abaixo:

Margaret River: o modelo bordalês

Outras regiões como Swan a norte de Perth, é berço da viticultura deste estado, produzindo vinhos fortificados desde o final do século dezenove. No atual momento, em regiões mais altas e frias são cultivadas cepas como Verdelho e Chenin Blanc. Outra área encostada à Margaret River é Geographe. De solo mais arenoso, não tem o mesmo terroir de Margaret River. Há bons vinhos baseados em Chardonnay, Shiraz e Merlot. Vinhos relativamente encorpados.

Caminhando mais ao sul, saindo do oceano índico e entrando no oceano do sul, temos as áreas de Pemberton, Manjimup e Great Southern. Mamjimup, mais quente do que Pemberton, demonstra potencial para as uvas Chardonnay, Pinot Noir e Shiraz. Já Pemberton, pende mais para vinhos à base de Chardonnay e Pinot Noir, embora sem muita consistência ainda.

Na maior região da Austrália Ocidental, Great Southern é dividida em cinco regiões, cada qual com suas cepas características. Região ainda incipiente cultivando Riesling, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Shiraz. Os tintos são cheios e o Chardonnay generosos.

Terminando nosso ciclo sobre Austrália, vão aí alguns números expressivos deste país. Em 2011, foram pouco mais de 10,7 milhões de hectolitros produzidos com leve predominância de tintos (53%). As exportações neste mesmo ano são expressivas com sete milhões de hectolitros exportados. A Austrália é o quarto maior exportador mundial e o primeiro dentre os países do chamado Novo Mundo.

Australia: Parte V

13 de Fevereiro de 2013

New South Wales ou Nova Gales do Sul é o berço da viticultura australiana. Localizada no extremo sudeste do território australiano, compete em produção com o estado de South Australia. Das diversas regiões vinícolas em Nova Gales do Sul, Hunter Valley é a mais famosa e de maior prestígio. Seu Shiraz de estilo inconfundível, seu Sémillon singular e seus belos Chardonnays mostram vinhos de personalidade atrelados a um  terroir diferenciado.

Hunter Valley a norte de Sydney

Hunter Valley não tem nenhum problema em amadurecer seus frutos. O grande inconveniente é o perigo das chuvas na colheita. Seu Shiraz bem diferente do habitual padrão australiano, apresenta-se menos encorpado, mais equilibrado e com um traço mineral terroso característico, muito provavelmente, de seu solo de basalto (origem vulcânica). O Sémillon colhido precocemente, apresenta baixa alcoolicidade e alta acidez. Quando novo, mostra-se pouco atrativo. Contudo, após alguns anos em garrafa, revela-se com aromas encantadores, lembrando algo tostado, apesar de ser vinificado longe da madeira. É um estilo praticamente único no mundo. Os Chardonnays, estes sim, geralmente amadurecidos em barricas, são aromáticos, cheios e podem envelhecer muito bem. As grandes referências dos estilos acima mencionados são McWilliam´s Sémillon Elisabeth e Tyrrel´s Chardonnay Vat 47, respectivamente. O rótulo abaixo é importado pela KMM, especialista em vinhos australianos no Brasil (www.kmmvinhos.com.br).

Semillon do Hunter: Estilo único

Um desmembramento do Hunter ocorrido na década de setenta é o chamado Alto Hunter ou Upper Hunter. Na verdade, foi um acréscimo da região, buscando terras mais ao norte, livre das chuvas, mas com necessidade de irrigação. A vinícola Rosemount, uma das pioneiras, elabora um dos mais emblemáticos Chardonnays denominado Show Reserve, além do topo de gama chamado Roxburgh. Ambos trazidos pela importadora Vinci (www.vinci.com.br).

Outras regiões de Nova Gales do Sul a oeste e a sul de Hunter Valley como Mudgee, Orange, Cowra, Hilltops, Canberra District, Shoalhaven Coast, Southern Highlands, Gundagai e Tumbarumba, ainda não ganharam vida própria. Muitas delas, quer pela altitude, quer pela proximidade do úmido litoral do mar da Tasmânia, são regiões relativamente frias com cultivo da Chardonnay, Pinot Noir e Sémillon, principalmente.

Por outro lado, regiões como Riverina, parte de Murray Darling e Swan Hill, fornecem vinhos em grande volume, fomentadas por uma irrigação eficiente do rio Murray, a exemplo de Riverland em South Australia, comentada em artigos anteriores. São vinhos relativamente simples, francos, frutados, macios, bem ao gosto do mercado internacional. Em particular, a região de Riverina irrigada pelo rio Murrumbidgee, fornece vinhos densos com as uvas Durif (a mesma Petite Syrah da Califórnia) e Sémillon. Aliás, o grande Sémillon de Riverina não é de estilo seco, e sim um intenso vinho dourado à base de Botrytis, muito comum em áreas específicas da região todos os anos. A vinícola Elderton tem um belo exemplar.

Austrália: Parte II

29 de Janeiro de 2013

Se há um estado que personifica o exuberante estilo shiraz australiano, este estado é South Australia. Regiões como Barossa Valley, Adelaide Hills, Mclaren Vale e Clare Valley, demonstram esta marca com algumas variações e características próprias de cada região. O mapa abaixo ilustra estas regiões.

South Australia: concentração de grandes vinícolas

Barossa Valley

Além de grandes vinhos e grandes vinícolas, Barossa Valley entrou definitivamente no mapa-mundi dos vinhos com o mítico Grange Hermitage, hoje denominado apenas Grange, e considerado por muitos o maior tinto do hemisfério sul. Sonho que começou nos anos 50 com Max Schubert da vinícola Penfolds, um visionário que ousou fazer um grande bordeaux na região. Fã desta região e voltando de um estágio em vinícolas bordalesas, confiava no clima propício de Barossa, com muito sol e pouquíssima chuva. Um de seus pilares para elaboração de seu mítico vinho era partir de uvas perfeitamente maduras e de grande concentração. Observando antigas vinhas de Shiraz em vinhedos escolhidos a dedo, encontrou a matéria-prima ideal. Na vinificação cuidadosa a lição das barricas bordalesas entrou em ação. O vinho então amadureceu em barricas novas de carvalho americano, apostando na riqueza exuberante dos grandes shiraz da região. Seu vinho da safra de 1955 entrou para história, fazendo parte de um seleto grupo dos melhores do mundo de todos os tempos.

Vinhedo histórico em Eden Valley

Outro vinho de Barossa, mais especificamente de Eden Valley, região mais alta pertencente à Barossa Valley, é o famos Hill of Grace da vinícola Henschke. Este é um Shiraz elaborado exclusivamente de um vinhedo pré-filoxera plantado em 1860. É bom esclarecer que este conceito de vinhedo único, bastante ortodoxo no Velho Mundo, é exceção na Austrália. O próprio Grange mencionado acima, parte de vinhedos não só em Barossa Valley, mas também Mclaren Vale e Adelaide Hills. Para finalizar os grandes tintos de Barossa Valley, não poderíamos deixar de mencionar o grande Command Shiraz da vinícola Elderton. Um blockbuster com toda a riqueza, autenticidade e exuberância de um belo shiraz australiano.

De um modo geral, Barossa Valley é uma região bastante quente e árida, necessitando de irrigação. Eden Valley, mencionado acima, é um pouco mais fresco, inclusive com cultivo de uva riesling em locais propícios. Seus vinhos são o ápice da exuberância, notadamente seu típico Shiraz. Misturas com Cabernet Sauvignon são comuns, algo bem particular de South Australia.

Do lado dos brancos, a Chardonnay reina absoluta, quer como varietal, quer em misturas com a Sémillon. A Sémillon como varietal não é comum. Este estilo é mais presente em Hunter Valley, que veremos mais adiante, sendo praticamente um clássico desta região. Um pouco de Sauvignon Blanc é cultivada e geralmente participando de cortes com a Sémillon. Os vinhos costumam ser bem aromáticos, cativantes, porém carecendo geralmente de certo frescor.

Austrália: Parte I

25 de Janeiro de 2013

Austrália, um dos maiores países exportadores de vinho, mais precisamente, o quarto no ranking mundial, com pouco mais de sete milhões de hectolitros exportados e aproximadamente cento e setenta mil hectares de vinhas cultivadas. Símbolo de vinho moderno, macio, aromas exuberantes, pronto para beber, direto e sem delongas.

A partir deste artigo, mostraremos as principais regiões vinícolas australianas, baseadas nos sites: www.wineaustralia.com e www.winecompanion.com.au. A uva Shiraz, grafia australiana, é a grande estrela entre as tintas com exemplares notáveis nas regiões de Barossa Valley, Mclaren Vale e Clare Valley, principalmente. Os brancos baseados na Chardonnay e também na pouco explorada Sémillon, sobretudo como varietal, são os grandes destaques.

Vinhas concentradas na porção sul do país

Conforme mapa acima, as três regiões meridionais, South Australia, Victoria e New South Wales, concentram a grande maioria das vinhas deste país de dimensões continentais. Western Australia, Queensland e a ilha da Tasmania, completam o cenário. O fator fundamental desta concentração é o clima extremamente seco e bastanta quente fora das regiões mencionadas. Aliás, boa parte do vinhedo australiano precisa obrigatoriamente de irrigação, sem a qual, as vinhas não sobrevivem satisfatoriamente. Outra característica singular, é a ausência da filoxera em boa parte das vinhas australianas. A região de Victoria que será abordada oportunamente, é a que mais sofre com a presença desta praga. Só para esclarecer, filoxera é um pulgão que infectou e devastou grande parte do vinhedo europeu no final do século XIX, propagando-se para outras partes do mundo. Como sua ação nociva era a destruição das raízes da videira, a solução foi plantar videiras americanas nos vinhedos infectados (contato com o solo), enxertando as videiras européias sobre as americanas, ou seja, sem o contato direto com o solo.

A implantação da cultura da vinha na Austrália dá-se coincidentemente pouco antes desta época com importante participação de imigrantes alemães. Deste fato, resulta a grande tradição da uva Riesling em Barossa Valley, notadamente Eden Valley, região contígua à Barossa, e principalmente em Clare Valley, região de altitude a norte de Barossa.

A vitivinicultura australiana contemporânea está calcada em poderosos grupos vinícolas capazes de vinificar com qualidade e eficiência grandes massas de mostos provenientes de várias regiões, muitas vezes, distantes entre si, modificando drasticamente o tradicional conceito de terroir. A tecnologia e conceitos de vinificação são avançados, respeitados e muitas vezes adotados mundo afora. Um dos trunfos da agradabilidade dos vinhos australianos, sobretudo os tintos, está no fato de vinificarem os mostos sem grandes macerações a temperaturas um pouco mais baixas que as habituais. Eles preferem os taninos mais dóceis das barricas de carvalho, de mais fácil polimerização, aos taninos propriamente das uvas que normalmente necessitam mais tempo para serem amaciados. Além disso, os aromas e temperos (baunilha, especiarias, toques empireumáticos, …) da madeira potencializam o apelo e apreciação dos vinhos, mesmo em tenra idade.

Outros detalhes, veremos a seguir no próximo post, focando cada uma das principais regiões mostrada no mapa acima.

Verão, Praia e Vinhos: Parte I

30 de Dezembro de 2012

Janeiro, férias e praia. Uma trilogia quase inevitável. É hora de descansar, relaxar, enfim, recompor-se para o ano que está começando. À mesa, refeições mais leves, mais frugais, sem hora para começar ou terminar. O vinho, muitos vezes substituído pela cerveja, pode ficar em segundo plano. Contudo, vez por outra, em condições mais adequadas, podemos desfrutar desta agradável companhia.

Maresia, leveza e frescor

Nesta série de verão na praia, vamos propor algumas harmonizações simples, agradáveis e bastante informais. Seja na casa de praia ou hospedado em hotéis, ou fazendo as refeições em restaurantes, os vinhos podem estar à disposição, mesmo que as opções sejam restritas. Principalmente em restaurantes, por uma questão de preço, é sempre bom olhar os espumantes nacionais tipo Brut (não esqueça deste detalhe). Normalmente, são versáteis, seguros e não tão caros. Podem abrir uma refeição com charme e descontração, começando pelos petiscos, couvert, casquinha de siri, anéis de lula, mariscos ou polvo ao vinagrete, iscas de peixe empanadas e tantas outras atrações do litoral. A acidez, a leveza, e a textura da mousse, deixa a harmonização agradável e estimulante. Como dica, a Chandon do Brasil é sempre um porto seguro. Entretanto, se aparecer na carta de vinhos Cave Geisse, não tenha medo. É um dos melhores nacionais na atualidade.

Numa segunda estapa, com os pratos principais escolhidos, pode haver necessidade de mudar o vinho. Se então for necessário, parta para um branco de maior densidade. Neste caso, o Chardonnay fermentado em barrica é o vinho emblemático. Procure escolher um levemente amadeirado. Ele vai combinar com peixes assados de carne mais firme e saborosa, molhos mais densos, ensopados mais vigorosos, e assim por diante. Na mesma linha do Chardonnay, alguns Sémillons (sobretudo África do Sul) e alguns Viognier (algumas opções uruguaias) costumam apresentar densidade e textura semelhantes.

Até agora não falamos de tintos porque de fato, neste cenário, eles são absolutamente desnecessários. Aproveitem o verão com a temperatura refrescante dos brancos e espumantes, a leveza, o frescor, os aromas estimulantes que só eles podem nos porporcionar. Não tenham preconceito de cor. Isso vale até para os vinhos.

Continuamos com mais brancos para o verão no próximo artigo. Até lá!