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Harmonização: Champagnes – Parte II

9 de Janeiro de 2011

Champagne combina com tudo! Sirva champagne durante toda a refeição! Café da manhã com champagne!

Frases deste tipo carregam um certo exagero, mas não estão muito longe da verdade. Exceto carnes vermelhas, onde o tanino é insubstituível e pratos com texturas untuosas, os champagnes geralmente podem harmonizar muito bem, desde que se escolha o tipo adequado para cada caso. Evidentemente, comidas potentes e um tanto rústicas não combinam com vinhos elegantes.

Os champagnes são muito gastronômicos por apresentar grande acidez, frescor, álcool comedido e textura delicada. Corpo, estrutura e doçura, podem ser calibrados dentre os vários tipos e estilos de champagne.

Do exposto acima, vamos passar por alguns tipos de champagne, ressaltando suas principais características:

Blanc de Blancs

São os mais delicados, elaborados somente com Chardonnay. São leves, muito frescos e minerais. Podem envelhecer com propriedade, adquirindo aromas de trufas e frutas secas.

Acompanham muito bem peixes e frutos do mar in natura: ostras frescas, sashimis, salmão defumado. Início de refeição com petiscos, canapés e entradas leves, também são boas pedidas. Quando envelhecido, podem acompanhar massas e carnes brancas com molhos delicados à base de cogumelos e trufas.

Blanc de Noirs

Elaborado somente com Pinot Noir na maioria das vezes (a outra tinta é a Pinot Meunier). Sua cor é mais intensa, com toques dourados. Mostra-se estruturado e encorpado. Vai bem com aves de sabor mais acentuado como galinha d´angola, marreco ou pato assado. Os vários tipos de cogumelos, além de pâtes de sabor mais marcante (pâte campagne), podem harmonizar muito bem. O rótulo abaixo é 100% Pinot Noir do belo produtor artesanal Barnaut, importado pela Decanter (www.decanter.com.br).

Blanc de Noirs com uvas de Bouzy

Brut non millésimé

Este é tipo mais produzido e consumido. É o carro-chefe de cada maison e imprime o estilo da mesma. Portanto, é muito difícil generalizar. O estilo e o requinte são muito variáveis. Como exemplo, um Moët & Chandon é menos encorpado e menos requintado que um Krug Grande Cuvée, o champagne básico da casa. Chega ser até uma heresia chamar um Krug de básico, mas didaticamente, cabe bem este exemplo para notarmos o abismo que existe nesta categoria de champagne.

Em linhas gerais, devem ser tomados jovens, aproveitando todo seu frescor. Direcione os de maior porcentagem em Chardonnay para entradas e pratos leves. Já os com mais presença de Pinot Noir, para a gastronomia. Eles ficam um tanto cansativos para serem bebericados sozinhos.

Estilo leve: Moët & Chandon, Taittinger e Billecart-Salmon

Estilo encorpado: Drappier, Krug, Bollinger e Egly-Ouriet

Champagne Drappier Grande Sendrée

17 de Dezembro de 2010

Fica difícil não falar em champagne no final de ano, embora devéssemos lembrar deste tipo de vinho sempre. Para aqueles que querem se aventurar em cuvées de luxo sem gastar uma fortuna, o rótulo abaixo é uma escolha original e segura.

Drappier Grande Sendrée 2002

Elaborado com 55% de Pinot Noir e 45% de Chardonnay provenientes de vinhas com mais de 70 anos, esta cuvée passa cerca de seis anos sur lies (sobre as leveduras), antes do dégorgement. Champagne elegante onde destacam-se notas cítricas, de flores e especiarias, além do clássico brioche. Esta cuvée é sem dúvida, a mais elegante da casa, fugindo um pouco do estilo Drappier, mais potente.

Uma das curiosidades desta maison são os vinhedos baseados em Pinot Noir na região de Aube, mais ao sul do clássico trio: Vallée de La Marne, Côte des Blancs e Montagne de Reims. Seus champagnes costumam ser encorpados pela destacada presença de Pinot Noir, sendo que uma das grandes cuvées é a homenagem a um ilustre admirador, um dos maiores estadistas da França, Charles De Gaulle.

A cuvée básica da casa, Carte d´Or, é elaborada com pelo menos 80% de Pinot Noir, tornando este champagne um dos mais estruturados e encorpados da categoria. É claramente gastronômico, acompanhando muito bem salmão e aves de uma maneira geral.

Esses vinhos são importados pela Zahil (www.zahil.com.br).  
 
 

Harmonização: Festas Natalinas

2 de Dezembro de 2010

O ano passa voando, e o Natal está aí! Com ele, o inevitável encontro com os presentes e a família, aliás, toda a família. E não é fácil agradar cunhados, cunhadas, primos, sogros, tios e vai por aí afora.

Se a festa reunir muita gente, muita comida e muita bebida além dos vinhos, esqueça os mais sofisticados e aqueles cuidados excessivos com harmonização. Nesta hora, precisamos ser práticos e objetivos, evitando preocupações surrealistas e gastando apenas o necessário.

Os espumantes são obrigatórios nesta época, podendo agradar inúmeros paladares. Escolha um espumante brut para aqueles que já passaram por um curso básico de vinhos e um espumante doce para os mais lúdicos. O Brasil dispõe de um bom arsenal nos dois estilos. Se você optar por um Prosecco (agora a uva é Glera), a Salton tem a vantagem de sempre lançá-lo com safra, garantindo ainda mais seu frescor. No caso, procure pela safra de 2010. Para o espumante doce, um bom moscatel nacional é perfeito. Pode ser o Terranova da Miolo. Para os fiéis consumidores da Chandon, seus espumantes em todas as versões são muito confiáveis.

De todo modo, estes dois estilos cumprirão o papel de boas vindas, os canapés, entradas leves e os vários brindes que acontecerão. Para o panetone, as frutas frescas e secas,além de sobremesas não muito doces, o espumante moscatel agradará a maioria.

O inevitável Peru de Natal

Entre os pratos que serão servidos à mesa, o Peru, Chester ou qualquer outra ave com apito, estarão presentes. Estas aves costumam apresentar textura um tanto seca, sem contar com a farofa que reforça ainda mais esta característica. Para completar, sempre aparece um molho com intrigante agridoce. Portanto, esqueça componentes como acidez e taninos. Eles reforçarão essas sensações, piorando o conjunto. Parta para vinhos novos e macios, tanto brancos, como tintos. A juventude tem a fruta suficiente para combater alguma doçura, desde que não haja exageros. A maciez quebra a secura dos pratos, lubrificando o palato. Portanto, para os tintos, é hora de pensar em Merlots e Malbecs do Novo Mundo, nas versões menos amadeiradas. Para o Velho Mundo, alentejanos, tempranillos jovens ou no máximo crianza. Vinhos do sul do Rhône e do sul da Itália, são boas opções.

Quanto aos brancos, a vasta gama de Chardonnays no mercado satisfará todos os gostos e bolsos. Procure versões não muito amadeiradas do Novo Mundo. Os franceses (borgonhas) costumam ser muito caros e sofisticados para a ocasião e principalmente, não escolha Chablis, que são vinhos minerais e de grande acidez. Os chilenos de Casablanca e Vale San Antonio me parecem mais adequados e com várias opções. Um grande chileno do Vale de Limari é o De Martino Chardonnay Quebrada Seca, importado pela Decanter (www.decanter.com.br). Equilibrado, elegante e mineral.

Se o cunhado merecer, vá de Catena Alta Chardonnay, imbatível na sua faixa de preço (menos de cem reais) e importado pela Mistral (www.mistral.com.br). É a grande opção argentina do mercado.

Champagne: A arte do Assemblage

20 de Novembro de 2010

Com o final do ano se aproximando, a procura e o interesse pelos espumantes aumentam, especialmente o champagne. O mais sofisticado entre os espumantes vem de uma região demarcada a nordeste de Paris, com clima e solo únicos, além de um preciso método de elaboração. Um dos mais importantes itens em todo este processo é sem dúvida nenhuma o assemblage (mistura dos vários vinhos-bases), para criar uma cuvée que será espumatizada.

Nariz de perfumista buscando a perfeição

O assemblage na região de Champagne talvez seja o mais complexo no mundo dos vinhos. Os vinhedos são muito fragmentados (mais de 240.000 parcelas para 19.000 proprietários, entre alguns grandes e muitos pequenos).

Cada parcela em champagne é vinificada separadamente, dando origem a vários vinhos-bases de diferentes uvas, idade de vinhas, terroirs diversos (313 villages), a cada safra. Portanto, uma determinada Maison terá a seguinte tarefa pela frente a cada ano:

  • vinhos-bases varietais com Chardonnay, Pinot Noir e Pinot Meunier de acordo com o número de parcelas da Maison (vinhedos próprios e vinhedos terceirizados).
  • vinhos de reserva que foram guardados de outros anos, obedecendo o mesmo critério acima  a cada safra. Em Champagne é necessário guardar vinhos nas grandes safras para compensar os anos não tão bons. A média dos grandes anos é de dois ou três a cada década.

 Em média, uma Maison trabalha com 40 a 60 amostras de vinhos-bases a cada ano para montar a cuvée brut da casa, que deve obedecer o  gosto e o estilo da mesma. Começamos então a entender, a complexidade e o tamanho do problema.

Os profissionais desta nobre arte podem não saber degustar outros vinhos, mas com certeza champagne eles degustam como ninguém, procurando defeitos e pequenos detalhes que só um perfumista detectaria.

Várias simulações são propostas, sendo todas cuidadosamente anotadas, medidas proporcionalmente em provetas e devidamente, analisadas e degustadas.

Baseados no estoque de vins de réserve da cada Maison, na quantidade e qualidade da safra do ano em questão, eles precisam proporcionar os vários vinhos-bases separados por uvas, vinhedos e safras, que são normalmente muito desagradáveis. Lembrem-se que para um bom espumante é preciso de um vinho-base muito ácido e pouco alcoólico.

O pulo do gato é a sensibilidade da equipe de degustadores em encontrar a  mistura adequada deste vinhos brutos que depois de espumatizados, depois de passarem um tempo relativamente longo sur lies (a autólise das leveduras proporciona novos aromas ao champagne), ao serem abertos e degustados pelos consumidores, eles possam dizer: este é um Krug, este é um Bollinger, este é um Pol Roger, e assim por diante.

Portanto, na hora de comprar seu champagne, pense nisso. Apesar do preço, e no Brasil é realmente abusivo, existem terroir, sofisticação e arte nesta garrafa, como em nenhum outro tipo de vinho. Champagne é indiscutivelmente, o rei dos espumantes!

Terroir Chileno

12 de Setembro de 2010

Já foi o tempo em que o Chile resumia-se em vinhos do Vale Central, entre tintos e brancos. Principalmente nas últimas duas décadas, o terroir chileno está sendo devidamente estudado, com exploração de vários outros vales, como mostra o mapa abaixo. Casablanca, por exemplo, promoveu grande impacto nos vinhos brancos com as castas Chardonnay e Sauvignon Blanc, descoberto na década de oitenta por Pablo Morandé. Atualmente, Limarí, Elqui, Bio Bio e Malleco, são a bola da vez, com vinhos curiosos e surpreendentes.

corrente de Humboldt → ventos marítimos gelados

Observando o mapa acima, podemos perceber algumas variáveis importantes para definir o terroir chileno. O Chile é um país comprido, tendo grandes variações de latitude. Portanto, quanto mais ao norte, mais quente, culminando no deserto de Atacama. Quanto mais ao sul, mais frio, chegando à Patagônia chilena.

Outra variável importante é o relevo chileno. Olhando para o mapa, do lado direito temos o paredão da Cordilheira dos Andes. Do lado esquerdo, em determinadas faixas de latitude, principalmente no vale central, temos a chamada cordilheira da Costa, que barra o ar gelado vindo do pacífico, gerado pela corrente marítima de Humboldt, a qual é a terceira grande variável. Portanto, é uma questão de calibrarmos a latitude com o nível de influência da corrente de Humboldt. Mesmo em vales bem ao norte como Limarí, a ausência da cordilheira da costa, permite notável amplitude térmica (diferença de temperatura entre o dia e a noite), gerando belos vinhos brancos, como o Chardonnay De Martino Single Vineyard Quebrada Seca, importado pela Decanter (www.decanter.com.br).

Para quem gosta de Cabernet Sauvignon chileno, o Alto Maipo, com vinhedos próximos à capital chilena Santiago, é um dos melhores terroirs do mundo para esta uva. No mesmo nível de Bolgheri (Toscana), Napa Valley (Califórnia) e Coonawarra (Austrália). Evidentemente, o Médoc na região bordalesa, é a inspiração de todos eles.

No Alto Maipo, temos dias ensolarados sem a influência do pacífico, protegido pela cordilheira costeira. As noites são frias pelo ar gelado que desce da cordilheira dos Andes. O solo é pedregoso e de excelente drenagem. Todos esses fatores fazem a Cabernet Sauvignon amadurecer lentamente, com riqueza de aromas e taninos bem desenvolvidos. Vinhos como Don Melchor, Almaviva, Casa Real e Chadwick, confirmam esta teoria, com altas pontuações em inúmeras safras.

Uvas como Carmenère e Merlot parecem ter encontrado seus respectivos terroirs nos Vales Cachapoal e Conchagua. Apesar de muito próximos e de fato vizinhos, esses vales apresentam características distintas na maturação das uvas acima citadas, que por sinal, foram confundidas durante muito tempo, até a devida separação das vinhas de cepa Merlot, das de cepa Carmenère.

O Vale Cachapoal fica praticamente atrás do Vale Conchagua, que de certa forma o protege da influência marítima. Esta particularidade torna Cachapoal suficientemente quente para amadurecer de forma adequada a tardia Carmenère, a qual deve ser colhida muitas vezes, no mês de maio. Já o Vale Conchagua, recebendo maior influência oceânica, torna-se uma vale mais frio, devidamente ajustado à maturação precoce da uva Merlot. É evidente que outras questões como solo, relevo e microclima, têm seu peso no balanço final.

O assunto é vasto e mereceria vários posts para um detalhamento maior. O fato é que hoje no Chile, as vinícolas comprometidas com a qualidade e a expressão correta de cada varietal, investem em pesquisas detalhadas para buscarem terroirs cada vez mais adequados, elaborando vinhos de personalidade e distinção. Os inúmeros vales de norte a sul levarão ainda um bom tempo para serem devidamente estudados.

Harmonização: Brancos secos

4 de Agosto de 2010

Como sommelier, vejo com muita preocupação a irrisória participação de vinhos brancos nas mesas de restaurantes. Não porque estamos num país tropical,  mas pela falta de sensibilidade dos consumidores, em abrir mão deste tipo de vinho em harmonizações que podem ser extremamente agradáveis.

Principalmente com entradas, pratos leves, que exigem acidez, os brancos podem e devem anteceder tintos, conforme os pedidos que se seguirão. Além disso, eles vão muito bem com courverts e são extremamente adequados para um brinde inicial.

Acidez e mineralidade notáveis

O trio acima resolve vários problemas, sobretudo molhos de maior acidez, maresia (destaque para a culinária japonesa) e pratos defumados. Portanto, o que outros tipos de vinho, principalmente tintos, teriam dificuldade, um Sauvignon Blanc incisivo (Pouilly-Fumé), um Riesling ou um Chenin Blanc (Savennières), tiram de letra.

O grande problema é quando aparece alguma doçura nos chamados molhos agridoces. Esses vinhos por serem extremamente secos e pungentes, dão uma sensação de acidez mais aguda. Neste caso, um riesling alemão com leve doçura, resolve a questão. Pode ser um Kabinett, um Spätlese ou um Auslese, conforme o produtor e a característica da safra.

Características de corpo e maciez

A Chardonnay personifica o branco gastronômico, capaz de acompanhar vários pratos à mesa por sua estrutura e maciez. A exceção clássica fica por conta do Chablis, devido a características específicas de terroir. Normalmente, os chardonnays passam pela fermentação malolática, além de contato mais ou menos prolongado com barricas. Daí, sua maciez, corpo e estrutura. Pratos de peixes e frutos do mar com molhos cremosos são clássicos parceiros destes vinhos.

Se você gosta de maciez, um toque floral, sem o incômodo da madeira, a Viognier é uma boa opção. Originária do Rhône Norte, é a base da apelação Condrieu. Vai muito bem com peixes e carnes cozidos no vapor, dando vivacidade ao conjunto com sua delicadeza. Argentina e Uruguai têm boas opções no mercado a preços convidativos.

Aromaticidade e exotismo

As uvas acima, Torrontés e Gewürztraminer podem não agradar todos os paladares, principalmente, se forem mal trabalhadas, beirando a vulgaridade. Entretanto, na mão de produtores sérios, podem gerar vinhos  bem equilibrados e agradavelmente aromáticos.

A Torrontés, bem cultivada na Argentina, encontrou em Salta seu verdadeiro terroir. São vinhos frescos, leves e delicados, capazes de acompanhar entradas e pratos com um toque agridoce e que de alguma maneira evoquem aromas cítricos e herbáceos. Só não funcionam, se o prato exigir muita acidez.

Já a Gewürztraminer com sua inconfundível nota aromática de lichias, normalmente apresenta textura e corpo mais ricos. Pratos da cozinha indiana à base de curry e especiarias encontram eco neste tipo de vinho. O cuidado é ser comedido na pimenta, pois esses vinhos não costumam apresentar grande acidez. Uma bela harmonização é um legítimo Gewürz da Alsácia  e Pato com Molho de Laranja.

Concluindo, este é um pequeno arsenal no inexplorado mundo dos Brancos. Outras uvas ou denominações específicas podem ser testadas de acordo com a curiosidade de cada um. Afinal, as opções à mesa podem e devem ser bem mais abrangentes.

Harmonização: Culinária Árabe

28 de Julho de 2010

Líbano: culinária árabe mais delicada

Falar de culinária árabe num sentido mais amplo, englobaria vários países do Oriente Médio, com inúmeras peculiaridades e variações. Nosso foco está mais para o que conhecemos de cozinha árabe no Brasil, como esfihas, quibes, kafta, homus, tabule, entre outros pratos, com ênfase na culinária sírio-libanesa.

A cozinha de um modo geral é delicada, inclusive as especiarias, notadamente a pimenta síria. Ingredientes como iogurte, cebola e limão devem ser considerados, principalmente quando temos a autonomia de dosá-los em nossos pratos.

De um modo geral, brancos de boa acidez e relativamente frutados, sem passagem por madeira, são os ideais, principalmente com as saladas como o tabule, por exemplo. Evite vinhos extremamente frutados e encorpados. Eles podem ser um tanto dominadores. Chardonnays sem madeira, Sauvignons frescos e jovens do Chile e África do Sul, são mais aconselháveis.

Os pratos leves de carne, como quibes, esfihas e kaftas vão bem com tintos frescos e de boa fruta. É importante calibrar adequadamente o corpo do vinho para não sobrepujar os pratos. Tintos do Loire à base de Cabernet Franc são os mais indicados, sob as apelações Bourgueil e Chinon, já abordadas em posts passados. Pinot Noir também do Loire ou Beaujolais (uva Gamay) de boa procedência são as opções imediatas. Receio que vinhos do Novo Mundo, mesmo jovens e sem passagem por madeira, possam ser um pouco dominadores, tirando o brilho da harmonização.

Pratos quentes à base de frango e principalmente o carneiro, podem prescindir de tintos mais estruturados, sem estes jamais perderem a elegância e sutileza. Syrah do Rhône do Norte sob as apelações Crozes-Hermitage e Saint-Joseph parecem ter frescor, estrutura e elegância na medida certa. As opções do sul do Rhône, embora tenham ressonância aromática, muitas vezes carecem de frescor. O mesmo ocorre com os tintos da Provence, exceto os rosés, que podem surpreender favoravelmente, desde o início da refeição.

Do lado italiano, Dolcettos, Barberas e Chiantis, todos simples e frescos são benvindos. Tempranillos espanhóis no estilo joven (quase ou totalmente sem passagem por madeira) são opções a considerar.

Os tintos libaneses disponíveis no Brasil como Chateau Musar e Chateau Kefraya podem apresentar a crônica falta de frescor. Para pratos mais estruturados como o carneiro podem surpreender, sobretudo se calibrarmos bem a temperatura de serviço. 

Homus: uma entrada aparentemente inocente

O gosto apesar de não muito intenso, apresenta uma textura pastosa, com um final levemente adstringente e pouco habitual em outras pastas. Além disso, existem o limão e o gergelim presentes na receita. O famoso branco grego Retsina (que muitos torcem o nariz) e o Tokay na versão seca (Szamorodni quase sempre se enquadra nesta versão) são combinações perfeitas. Eles têm acidez, personalidade e afinidade de sabores para o prato. Um Sémillon australiano do Hunter Valley é uma saída original do Novo Mundo. Este mesmo Sémillon, com uns bons anos em garrafa, adquire um toque defumado que ficará perfeito com outra especialidade sírio-libanesa, o babaganuche (pasta de beringela assada).

Harmonização: Filet de Boeuf Béarnaise

6 de Junho de 2010

Molho Béarnaise: Preparação e combinação desafiadoras

Um filé alto de carne bovina ao ponto naturalmente pede um tinto robusto, mas aquele “inofensivo” molho intrínseco ao prato pode mudar tudo.

O molho béarnaise exige uma execução atenta, pois envolve ingredientes que precisam incorparar-se entre si de maneira precisa. São eles: vinagre, gemas de ovos, manteiga clarificada, pimenta, estragão, cebola e sal, basicamente. Esta incorporação deve ser lenta, preferencialmente em banho maria.

O segundo desafio é a escolha do vinho. A carne pede um tinto, mas o molho inclina-se para um branco. Temos realmente vários problemas, principalmente os ovos e o vinagre. O molho é gorduroso, com tendência ácida, tendo tudo a ver com brancos.

Se a opção for por um tinto, precisa ter muita fruta, boa acidez, boa concentração, tanicidade baixa e bem resolvida. Dentro destas características, pode faltar um pouco de corpo ao vinho em relação ao  prato. Contudo, não há solução perfeita. A meu ver, um bom Cru du Beaujolais é a melhor alternativa. As opções italianas são um Dolcetto de vinhedo próprio ou um Valpolicella no estilo ripasso. Todos esses vinhos precisam ser jovens, com bastante frescor.

No caso de brancos, eles precisam ter corpo e estrutura, sobretudo pela carne vermelha. Chardonnays jovens corretamente fermentados em barrica podem surpreender. Pode até ser um borgonha, mas jamais um Grand Cru. Sauvignon Blanc do Novo Mundo tem seu espaço também, mas é fundamental que tenha corpo e estrutura, como alguns da Nova Zelândia e África do Sul.

Uma boa dica na opção de brancos, é preparar a carne em escalopes. O sabor tostado da grelha é mais evidente frente ao pequeno volume da carne, além de sua textura ser mais delicada. Esses dois fatores ajustam-se melhor ao conjunto. O tostado vai de encontro aos toques empireumáticos do Chardonnay e a calibragem entre corpo do prato e corpo do vinho é  melhor sintonizada.

A receita clássica pode ser incrementada como na foto acima, acrescentando-se tomates que vão de encontro à fruta do vinho, além de aspargos e cogumelos que foram banhados pelo molho béarnaise.

Se você gosta da receita, vai ter muitos motivos para repetí-la até encontrar o vinho de sua preferência. Bon appétit!

Harmonização: Bacalhau e Vinho

3 de Março de 2010

 

Com a aproximação da semana santa o tema bacalhau é quase uma unanimidade. Embora possamos pensar em outras possibilidades de pescados, não há muito espaço além do sagrado bacalhau. Felizmente hoje em dia, a iguaria é muito apreciada em inúmeros momentos do ano, sendo parte integrante do cardápio de vários restaurantes.

Em termos de enogastronomia, o assunto parece ser polêmico já com a cor do vinho: tinto ou branco?

Em homenagem ao meu amigo Roberto Rockmann, vou discorrer sobre o tema. Partamos da famosa cena de um restaurante português, onde o sommelier questionado sobre a indicação de um tinto para acompanhar o bacalhau, resume em poucas palavras a sábia justificativa: Bacalhau não é peixe, bacalhau não é carne, bacalhau é bacalhau!

A princípio, embora pareça ser uma resposta evaziva, está implícita a definição exata do bacalhau. Na verdade, bacalhau não é um peixe. Não encontramos o bacalhau pronto na natureza. Sua origem está numa espécie de peixe do mar do Norte denominada Cod Fish ou Gadus Morhua. É desta matéria prima  que começa um processo de transformação, cujo produto final chama-se bacalhau. E é este processo que nos interessa para montarmos as bases de nossa harmonização.

Depois de devidamente limpo e precisamente cortado, o peixe é submetido a um processo de salga onde ocorrerão importantes transformações. O sal vai desidratar a carne concentrando aromas e sabores e modificar sua textura, tornando-a mais compacta. Mesmo depois de pronto, o bacalhau sofre uma oxidação parcial devido principalmente  à sua exposição nos pontos de venda.

Quando preparamos o bacalhau, fazemos o processo inverso, evidentemente com sequelas. Hidratamos o bacalhau com várias demolhas, retirando de forma adequada o excesso de sal. Aliás, esta é uma premissa importante na harmonização. Eu discordo totalmente que o sal seja um fator relevante na harmonização. Bacalhau bem feito tem sal na medida certa como qualquer outro prato salgado.

Do exposto acima, vamos agora à procura dos vinhos. Em primeiro lugar, o vinho deve ser estruturado, com sabores marcantes, pois o prato tem personalidade. É lógico que há inúmeras receitas e maneiras de preparar bacalhau. Iremos nos ater sobretudo, em postas de bacalhau como prato principal.

Aqueles que preferem branco, o chardonnay acarvalhado resume bem o vinho ideal. É um vinho potente, aromático, com frutas tropicais, baunilha, especiarias e um toque defumado que casa muito bem com os aromas do prato. Sua acidez embora discreta, é suficiente para contrabalançar a gordura e a oleosidade. O ideal  são chardonnays relativamente simples, com um estilo mais potente do Novo Mundo e até razoavelmente  evoluídos. Os aromas terciários enriquecem o conjunto. Não tem sentido persarmos em Montrachet ou sua nobre vizinhança. Apesar  de estruturalmente serem adequados, as sutilezas serão perdidas, ou seja, o prato é um tanto rústico para a sofisticação do vinho. Já para os vinhos ibéricos, seus parceiros naturais, os brancos portugueses da casta Encruzado (Dão) e Antão Vaz (Alentejo) passados em barricas parecem ideais. Os brancos riojanos reservas com a famosa casta Viura ficam ótimos também. Encerrando o capítulo de brancos, as receitas que envolvem creme de leite, molho branco e afins reforçam as opções acima.

Entrando agora no terreno dos tintos, a polêmica é maior. Novamente, por uma questão de afinidade, os ibéricos sobressaem. De qualquer forma, os tintos precisam ser estruturados, mas sem sutilezas exageradas. Aqueles que apostam na Pinot Noir, pode não haver conflitos, mas dificilmente o vinho apresenta força suficiente para o prato. Já os grandes borgonhas, me parecem muito sofisticados.

Existem duas linhas de raciocínio para os tintos. A primeira, é encontrarmos vinhos estruturados e evoluídos, onde os taninos estejam totalmente domados. O problema dos taninos marcantes, principalmente nos vinhos jovens é que pode haver uma pequena metalização no sabor, já que no bacalhau há sempre um resquício de peixe, sua origem, e não o excesso de sal. Neste sentido, Douros e Dãos reservas evoluídos podem combinar muito bem, pois apresentam estrutura suficiente, acidez desejada, taninos domados, madeira integrada  e aromas terciários importantes, formando um conjunto harmonioso com o bacalhau. Da parte espanhola, os riojas reservas e gran reservas podem ser surpreendentes, principalemente aqueles de estilo mais clássico. Os vinhos da bodega La Rioja Alta (importadora Zahil) exemplificam com maestria este raciocínio.

A segunda possibilidade seria com tintos potentes, frutados e pouco tânicos, sendo estes taninos bem trabalhados. É o caso por exemplo dos alentejanos, não os reservas que costumam ter estrutura tânica mais acentuada, e sim os mais simples, que não tem contato com madeira, mas precisam ser concentrados em aromas primários. No caso da tradicional bacalhoada, os tomates, as azeitonas, pimentões e cebolas encontram eco na juventude e vivacidade destes vinhos.

Quanto aos chamados Vinhos Verdes, essencialmente os brancos, faltam corpo e estrutura para o bacalhau, apesar de seu incrível frescor. No entanto, saladas e risotos que incorporem o bacalhau podem ter peso adequado ao vinho. As típicas brandades ou mesmo bolinhos de bacalhau caem muito bem com esses vinhos. Voltando às postas de bacalhau, somente o Alvarinho é capaz de fazer frente ao prato. Algumas versões mais modernas onde há passagem por madeira podem ser ideais. O produtor Anselmo Mendes (importadora Decanter) é um dos destaques da atualidade.

O assunto é vasto e intrigante, não havendo soluções perfeitas e definitivas. Na enogastronomia vale sempre experimentar novas alternativas baseadas na peculiaridade de cada receita.

Requinte da Côte des Blancs

3 de Dezembro de 2009

Produção artesanal. Somente vinhedos Grand Cru

De Sousa pode parecer estranho ao sotaque francês, mas a origem da família é portuguesa. Sua produção é da ordem de cem mil garrafas por ano, um número desprezivel para os milhões das grandes maisons. Todas as uvas são de vinhedo próprio, o que dá o direito de colocar no rótulo as minúsculas iniciais RM (Récoltant- Manipulant).

Nesta cuvée  “Caudalies” que significa uma medida de tempo para persistência aromática, as vinhas exclusivamente de Chardonnay são todas de vinhedos Grand Cru com mais de 50 anos. O vinhobase é fermentado em barricas de carvalho, sendo 15% novas. A malolática é encorajada com bâtonnages semanais. Apesar destes procedimentos, os aromas de baunilha e manteiga são muito sutis. A permanência sur lies em garrafa é de 36 meses, muito acima do exigido por lei (15 meses). Este tempo prolongado intensifica os processos de autólise das leveduras (degradação das mesmas), dando maior complexidade aromática ao conjunto, além de certa cremosidade e maciez.

O resultado é o caracteristico palha verdeal do Blanc de Blancs com perlage extremamente refinado (bolhas diminutas).  Os aromas são elegantes e delicados com cítricos confitados, o típico mineral, além de notas sutis de baunilha, manteiga e anis. Corpo relativamente leve com destaque para a mousse; delicada, intensa e envolvente. Certa cremosidade começa tomar corpo com a permanência em boca, terminando com grande frescor e toques resinosos. Importadora Decanter (www.decanter.com.br)

Harmonização: sugiro camarões flambados ao cognac com molho branco delicado aromatizado com favas de baunilha. Se não der certo, troque o fornecedor de camarão.