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Onde estão as referências no mundo dos vinhos?

20 de Junho de 2013

Ultimamente, temos tido várias notícias, artigos, tentando derrubar o norte da bússola, ou seja, as poucas referências que nos fazem crer na magia  do vinho, no ritual do serviço do vinho, e até mesmo, nas combinações clássicas da enogastronomia. Nada contra a contestação, nada contra em prospectar novos rumos na elucidação de questões, rituais, e métodos, na compreensão cada vez melhor num mundo recheado de subjetividades. Contudo, é preciso assimilar com certo ceticismo as chamadas “novas descobertas” tentando apenas provar que tudo que tem sido pesquisado e passado para os entusiastas do vinho através de cursos, palestras e degustações didáticas, são teorias ultrapassadas, deixando as pessoas extremamente confusas, sem saber em que acreditar, já que essas mesmas “teorias” também não são exatas e estão longe de um rigor científico.

Detalhes de algumas taças Riedel

Fiz esta introdução, para poder inicialmente falar das taças Riedel. Estão tentando desmistificar a eficiência das mesmas em degustações às cegas, deixando nas entrelinhas a inutilidade em tê-las como objeto de desejo e compra. Dá a impressão que todo o trabalho da família Riedel em confeccionar taças muito bem elaboradas, tanto do ponto de vista estético, como principalmente do ponto de vista técnico, acaba sendo inútil ou no mínimo, muito pouco eficiente. É quase um trabalho de engenharia, buscando o formato ideal para determinados tipos de vinhos, sobretudo das clássicas regiões europeias. E eles fazem questão em demonstrar estes detalhes, degustando um mesmo vinho em taças diferentes com resultados bem evidentes. Pelo menos in loco, as pessoas ficam maravilhadas com a demonstração. Além disso, a Riedel prima por comungar a confecção de uma nova taça com produtores da região em questão, propondo vários tipos das mesmas em degustação, e consequentemente buscando aliar a parte prática e técnica em sua elaboração. Não tenho nenhum vínculo comercial com esta marca, e portanto sinto-me bastante à vontade em defende-la não apenas pela marca, mas pela repercussão em incentivar outras cristalerias mundo afora, na elaboração de taças com estas prerrogativas. Alguns exemplos como, Spiegelau, Schott Zwiesel e a nossa brasileira Strauss, são ótimas alternativas. Sem o pioneirismo da Riedel, estaríamos tomando vinhos até hoje no chamado conjuntinho de taças da vovó (geralmente cinco taças muito bem lapidadas, escalonadas em alturas, onde a maior normalmente não passar de 80 ml (mililitros). 

Quem sabe um dia, em uma degustação às cegas,  escolham esses copos 

Passando agora para a questão da mineralidade, altamente lincada ao conceito de terroir, tema este exaustivamente comentado neste blog, essas “novas teorias” tem como objetivo desmistificar qualquer correlação do solo com o vinho na questão acima citada. É evidente, que ainda não temos provas científicas destes fatos. Porém, é incontestável que vinhos como Pouilly-Fumé, Chablis, Riesling alemão ou alsaciano, possuem aromas diferenciados, e ainda não devidamente explicados cientificamente. Se os terroiristas não conseguem provar suas teorias, pelo menos nos dão a possibilidade de tentar compreender esses aromas através de seus vinhedos únicos e mágicos.

Este esquema de diversidade de solos pode não ser tão importante para a magia  dos grandes borgonhas

Se os chamados formadores de opinião, sommeliers, enólogos, palestrantes, professores de cursos desta nobre bebida, levarem ao pé da letra todas estas contestações, não falaremos mais de taças específicas, não falaremos mais de zonas de sabores na língua, não falaremos mais de particularidades de solos das grandes regiões clássicas, porque de nada valem essas explicações. Portanto, vai imperar a subjetividade, a dúvida e principalmente, a falta de referência. Além disso, ficará muito chato, perdendo a magia do vinho.

Para terminar, a enogastronomia também anda por este caminho, perdendo suas referências. O cordeiro não combina mais com Bordeaux, agora é Pinot Noir. Churrasco (carne vermelha) com vinho branco ou espumante. Vinho tinto com peixe, queijos azuis com vinhos tânicos, e vai por aí afora. Ficamos reféns das seguintes frases: “vinho é aquele que você mais gosta”, e a pedra filosofal dos vendedores de vinho: “não existe vinho ruim, existe vinho mal vendido”, e a mais batida de todas “gosto não se discute”, magnificamente complementada pelo saudoso Doutor Sérgio de Paula Santos, “mas educa-se”.

Tannat com gorgonzola: A vitória do amargor

Em resumo, bebam o que quiser, sem se preocupar com taças, regiões clássicas, e combinem com a comida mediante seu próprio gosto. Mas não se esqueçam: ninguém compra vinhos às cegas, e nem taças. Quanto à enogastronomia, infelizmente na prática é quase uma utopia. A escolha é de cada um. Abraços,

Romanée-Conti: Terroir em evolução

20 de Maio de 2013

Atravessar um milênio não é tarefa fácil para qualquer vinho, mesmo para os grandes vinhos. A trajetória deste mito através do tempo, desde a época do príncipe Conti, embora o vinhedo já existisse há séculos, sofreu transformações importantes, acompanhando a evolução inexorável dos vários períodos da história da Borgonha. Digo isso, porque parece que os grandes terroirs franceses são imutáveis, dando a impressão que nada  evolui através do tempo, e que tudo é passado de geração à geração, sempre da mesma forma.

Última safra com parreiras pré-filoxera

A última grande transformação ocorreu na safra de 1945 (o ano da vitória – segunda guerra mundial). Foi a última safra elaborada com parreiras não reconstituídas, ou seja, vinhas originais francesas, pré-filoxera. É um dos grandes Romanées da história, contando apenas com seiscentas e oito garrafas produzidas sob rendimento ínfimo de 2,5 hectolitros por hectare. As vinhas estavam praticamente destruídas, com produção à míngua. Com o replantio das vinhas, não houve Romanée-Conti nas safras 1946, 47, 48, 49, 50, e 1951. Cuidado com as falsificações!

 Época

 Uva Branca  Maceração

 Madeira

 Prince de Conti

 20%  12 a 36 horas

 3 anos

 Julien Jules

Ouvrard

 6%  4 a 5 dias

 4 a 5 anos

 Tempos atuais

 0%  2 a 3 semanas

 18 a 24 meses

Um vinho de acordo com seu tempo

Conforme quadro acima, o Romanée-Conti elaborado na época do príncipe continha vinte porcento de uva branca (Pinot Blanc e não Chardonnay). A maceração das cascas durava apenas horas, praticamente um rosé. Posteriormente, o vinho passava cerca de três anos em antigos tonéis antes de ser consumido. À época, um vinho de cor clara, de certa diluição e com notas oxidativas, era altamente valorizado e apreciado. Bem diferente dos tempos atuais, onde o vinho possui cor, concentração e estrutura para envelhecimento.

Numa escala milenar de tempo, esta transição levou séculos. Só em 1845, metade do século dezenove, houve a redução de vinte para seis porcento na utilização de uvas brancas, mas o tempo em madeira permaneceu demasiado. Contudo, antes do início do século vinte, as castas brancas foram abolidas, o tempo de maceração aumentou e o amadurecimento em barricas novas de carvalho ganhou força. 

Aubert de Villaine, o atual guardião deste terroir, começou a trabalhar no Domaine em 1953, assumindo a gerência com a morte de seu pai. Adotou a partir de 1986 uma rigorosa cultura orgânica em suas vinhas. O judicioso plantio em substituição de antigas vinhas é executado com alta densidade no vinhedo com números chegando a quinze mil pés por hectares (acirrada competição entre as parreiras em busca da melhor qualidade de seus frutos). 

A última investida do Domaine foi a aquisição de vinhedos Grands Crus em Aloxe-Corton. São pouco mais de dois hectares de vinhas repartidas em três climats (termo específico para designar o terroir borgonhês): Clos du Roi, Bressandes e Renardes. É bom lembrar que estes tintos  estão localizados na montanha de Corton (vide artigo sobre o tema neste mesmo blog), pertencente à Côte de Beaune, e referem-se ao único Grand Cru tinto desta sub-região afamada pelos melhores brancos da Borgonha, quiçá do mundo. A primeira colheita foi realizada com a bela safra de 2009. Com esses requisitos, mais uma comuna da Côte d´Or pode ganhar status diferenciado com a presença do mítico Domaine. Vosne-Romanée que o diga ao longo dos séculos: “Em Vosne, não existem vinhos comuns”.

Terroir: Bourgogne x Bordeaux

15 de Maio de 2013

A eterna disputa entre Borgonha e Bordeaux pela excelência em vinhos é apaixonante, misteriosa e muitas vezes acaba em discussões calorosas sem um final conclusivo. São dúvidas ou comparações sem sentido, do tipo: loira ou morena, praia ou montanha, clássico ou moderno, e assim por diante.

O terroir borgonhês é de concepção mais simples de ser entendido, mais clássico, embora fazer o simples tenha seus mistérios. Temos geralmente, terrenos pequenos, poucos hectares (menos de uma dezena), em uma colina bem posicionada (Côte de Nuits), bem drenada e bem balanceada na sua composição de solo. Em suma, é o esquema clássico de um grande terroir, trabalhando com uma só uva (Pinot Noir).

Já em Bordeaux, tudo muda. Temos mais de uma uva, os terrenos são bem maiores, divididos em parcelas, conforme esquema abaixo, referente ao Château Lagrange (Troisième Grand Cru Classé do Médoc, Saint-Julien). Todos os grandes chãteaux tem esquema semelhante de parcelas em seus vinhedos (plan parcellaire).

Médoc: Predominância da Cabernet Sauvignon

Só para nos posicionarmos melhor, estamos falando de Borgonha tinto e vinhos da margem esquerda de Bordeaux (Médoc). Voltando ao esquema acima, cada parcela de vinha de um château bordalês seria um vinhedo específico no terroir borgonhês. Portanto, há uma filosofia de concepção completamente diferente entre estes dois grandes terroirs. Em Bordeaux, temos uma vinificação separada, parcela por parcela, semelhante ao que acontece com os vinhos-bases em Champagne. Então, depois de tudo vinificado separadamente, teremos vários lotes de Cabernet Sauvignon, vários lotes de Merlot, vários lotes de Cabernet Franc e/ou Petit Verdot em menor número. Continuando o raciocínio, o bordalês tem a convicção que a Cabernet Sauvignon sozinha é incompleta, tem arestas a serem aparadas, aromas e texturas a serem adicionados. Devemos lembrar que a Cabernet Sauvignon é majoritária no corte bordalês de margem esquerda. Daí, a necessidade de mesclar uvas como a Merlot, principalmente. De fato, esta uva fornece fundamentalmente maior maciez ao conjunto, agregando também certa complexidade aromática. O grande problema é saber qual a melhor proporção entre as uvas e quais os melhores lotes de cada uma delas que devem entrar nesta mistura (o famoso assemblage). E este é o pulo do gato para os grandes Bordeaux. Diante de vinhos recém-nascidos, os provadores devem ter extrema sensibilidade em avaliar a potência de cada safra e vislumbrar seu desenvolvimento depois das uvas mescladas e consequentemente, o vinho amadurecido em barricas de carvalho. É um trabalho de grande responsabilidade e que requer vivência de várias safras num mesmo château. Tudo que sobrou deste assemblage rigoroso para o chamado “Grand Vin” será novamente avaliado para os chamados segundos vinhos de cada château.

 

Clos de Vougeot: Fragmentado em mais de oitenta produtores

Voltando à comparação filosófica com a Borgonha, o terreno especificamente que seria cada parcela de um vinhedo bordalês não assume tanta importância como uma parcela na Borgonha. O fator humano no terroir bordalês compromete-se com mais esta missão em harmonizar as várias parcelas da melhor forma possível. Filosofando mais uma vez, o maior Grand Cru da Borgonha, Clos de Vougeot com cinquenta hectares de vinhas, seria razoavelmente compatível para padrões bordaleses. E nesta filosofia bordalesa, eles reuniriam todas as parcelas dos cerca de oitenta produtores deste Grand Cru, fariam um grande assemblage, e designariam um Grand Vin e um segundo vinho. Na média, provavelmente seria um vinho bem melhor que muitos dos Clos de Vougeot de produtores duvidosos. Entretanto, provavelmente seria derrotado por um Clos de Vougeot como Méo-Camuzet. Voltamos à eterna questão: Loira ou Morena?

O carvalho francês

18 de Março de 2013

Para muitos, a perfeição da França no universo dos vinhos é complementada pelo melhor carvalho do mundo, plantado sobretudo nas regiões centrais do país, onde mais uma vez o terroir é perfeito. Das inúmeras florestas francesas, o mapa abaixo destaca o que há de melhor desta madeira praticamente insubstituível para amadurecer os melhores vinhos.

De fato, a interação da barrica de carvalho com o vinho permite uma perfeita micro-oxigenação, clarificação, estabilização e enriquecimento de aromas com a devida elegância. É claro que esta harmonia só terá sucesso se todos os elementos estiverem bem balanceados tais como, estrutura do vinho, tamanho da barrica, idade da barrica, tempo de permanência do vinho na barrica, entre outros.

As florestas francesas cultivam dois tipos fundamentais de carvalho: Quercus Pedunculata ou Robur, e Quercus Sessilis ou Petraea. Comparados com o carvalho americano (Quercus Alba), os mesmos são bem mais elegantes e sutis. São menos aromáticos em intensidade porém, aportam maior estrutura tânica para os vinhos. Cada uma dessa espécies exigem terroir diferente quanto ao tipo de solo, índice pluviométrico e insolação. O Quercus Pedunculata costuma ter elevada quantidade de taninos, mas pobre em substâncias aromáticas. Já o Quercus Sessilis, exatamente o contrário, sendo portanto ideal para o amadurecimento de vinhos. 

Das florestas mais famosas acima citadas, Limousin diferencia-se por fornecer o carvalho mais poroso, menos aromático e com maior quantidade de taninos. Essas características são ideais para o amadurecimento de aguardentes. Evidentemente, a nobre aguardente francesa, o Cognac, beneficia-se destas condições. Já a floresta de Tronçais, parte de Allier, fornece carvalho de alta qualidade para vinhos finos. Sua granulosidade extremamente fina aliada a aromas sutis, são fatores que colocam este carvalho entre os melhores da França, e são extremamente disputados.

Tronçais: Área escalonada por idade das árvores

A floresta de Tronçais com pouco mais de dez mil hectares, dentro de Allier, é uma floresta histórica, formada e protegida na época da nobreza. Faz parte hoje em dia, de uma floresta Domaniale, de administração pública, dentro da classificação francesa. Aliás, seguem alguns dados atuais das florestas francesas.

A França possui a terceira maior área florestal da Europa, atrás de Finlândia e Suécia. São 15,3 milhões de hectares, sendo 10,6 milhões de florestas privadas e 4,7 milhões de florestas públicas. Do volume anual extraído de madeira destas florestas (mais de 2,4 bilhões de metros cúbicos), 28% são dos dois principais tipos de carvalho acima citados. Só para se ter uma ideia de rendimento, cinco metros cúbicos de carvalho bruto geram apenas um metro cúbico de madeira utilizada na fabricação de barricas. Este metro cúbico por sua vez, gera a fabricação de dez barricas.

Quanto à fabricação de barricas de carvalho, a França é líder mundial com produção de quinhentas mil barricas anuais em valores aproximados de 300 milhões de euros. Deste total, um terço é destinado ao mercado doméstico, e dois terços ao mercado de exportação. Os Estados Unidos é o maior cliente com mais de 40% do volume exportado, seguido de Itália, Espanha, Austrália, Chile e África do Sul. É interessante notar que esses números referem-se somente a dois porcento da produção mundial de vinhos, ou seja, muito pouco vinho é amadurecido em barricas de carvalho francês novas.

Tintos para o Verão: Parte I

14 de Janeiro de 2013

Quando pensamos em tintos para o verão, pensamos em vinhos relativamente leves, que podem ser refrescados e com aromas que lembram frescor e delicadeza. Neste contexto, os vinhos elaborados com a uva Pinot Noir são emblemáticos e com boa disponibilidade no mercado. Porém, alguns cuidados devem ser tomados para não comprarmos gato por lebre. A primeira grande divisão é separamos tintos da Borgonha do restante não só da França, como principalmente dos países do chamado Novo Mundo. Mesmo dentro da Borgonha, esta leveza, este descomprometimento em acompanhar pratos leves do verão, inclusive lanches frios, nos leva a vinhos mais simples e consequentemente com preços menos assustadores. Os vinhos de apelações mais genéricas encaixam-se bem neste perfil. O ideal é optarmos pelos comunais ou Villages onde o nome da comuna mais restritiva, garante de certo modo, a preservação da tipicidade ligada ao terroir, conceito este tão respeitado e procurado pelos amantes da região. Procurem deixar as categorias Premier Cru e Grand Cru para ocasiões especiais, para pratos mais sofisticados e sérios, muitas vezes mais apropriados para uma estação mais amena, inclusive inverno. Não que estas categorias apresentem vinhos pesados ou encorpados, pelo contrário, mas são vinhos de maior profundidade, com carga tânica muitos vezes dissonantes com o propósito deste artigo. Resumindo, não tem sentido acompanhar um lanche frio de verão com um Chambertin (um dos belos Grands Crus da Côte de Nuits).

Belo produtor numa grande safra (2009)

Anne-Françoise Gros é importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br). Uma apelação genérica, mas altamente abalizada pela qualidade do produtor, culminando numa safra perfeita. Ótima pedida para o propósito do artigo.

Continuando na França, a grande região a ser explorada para estes tipos de tintos é o Vale do Loire. Aqui, uvas como Gamay, Pinot Noir e Cabernet Franc, são fontes de tintos originais e com todas as características que procuramos. A apelação Sancerre para tintos molda vinhos à base de Pinot Noir perfeitos para acompanhar pratos de verão. São leves e podem ser servidos agradavelmente refrescados. As apelações Bourgueil e Chinon por exemplo, desde que não sejam topos de gama de suas respectivas vinícolas, são vinhos baseados em Cabernet Franc de clima frio. Também são muitos aromáticos e refrescantes. A uva Gamay dificilmente aparece sozinha nas apelações. Em Anjou e Saumur por exemplo, ela normalmente é mesclada com a Cabernet Franc, gerando vinhos leves e delicados. Aliás, Gamay é a uva do Beaujolais, vinho também emblemático para o verão. Exceto alguns Crus como Morgon e Moulin à Vent, toda a gama de Beaujolais é bem-vinda para o verão. Portanto, use e abuse desta apelação. Só para esclarecer, Beaujolais não faz parte do Loire, e sim da Borgonha, embora alguns autores a excluam desta região.

Pinot Noir Reserve Expresión 2009

Produtor francês radicado no Chile

O rótulo acima é uma boa pedida do Novo Mundo que falaremos a seguir. Importado pela Decanter (www.decanter.com.br), este produtor procura preservar a delicadeza da cepa em seu rótulo mais simples.

Saindo da França, voltamos à Pinot Noir agora focando o Novo Mundo. Praticamente, todos os países deste bloco cultivam em maior ou menor escala esta temperamental cepa. O problema crônico do Novo Mundo é que estes vinhos costumam ser mais encorpados que deveriam, mais extraídos e mais amadeirados. Portanto, um tanto pesados para as características da uva. No Chile, regiões frias como Casablanca e Leyda, moldam alguns exemplares adequados ao nosso tema. Os mais simples, menos amadeirados, e portanto mais em conta, são os mais indicados para nosso propósito. Nova Zelândia, é outro país a ser explorado. Regiões como Martinborough e Central Otago são as mais promissoras para esta irriquieta casta. Talvez seja mesmo o país com maior potencial para Pinot Noir de caráter diferenciado, mas ainda é uma promessa. Falando agora de Argentina, a fria região da Patagônia é a mais entusiasmante. Um produtor em particular, destaca-se sobre os demais, Bodega Chacra. Falamos com mais profundidade deste produtor biodinâmico em artigo específico neste blog (verificar – Chacra e Noemía: Bodegas de Terroir). Demais países como África do Sul, Austrália, Brasil, Uruguai e Estados Unidos, as escolhas são pontuais e pessoais. A dica é procurar as regiões mais frias nos respectivos países. Um parênteses deve ser feito aos Estados Unidos. Existem vinhos de altíssimo nível, sobretudo na região de Russian River, que muitas vezes rivalizam com grandes exemplares da Borgonha. Contudo, são vinhos mais complexos e diferenciados, caindo na mesma consideração dos Premiers e Grands Crus da Borgonha exposta no início do artigo.

Tesouros da Côte de Nuits

11 de Janeiro de 2013

Domaine de La Romanée-Conti, Clos de Tart, Méo-Camuzet e Armand Rousseau, por exemplo, são nomes conhecidos, reverenciados e dignos de todos os elogios, beirando a perfeição. Ocorre que a magia deste santo pedaço de terra esconde tesouros não tão óbvios como os acima citados. O primeiro comentado neste blog foi uma série sobre Henri Jayer numa degustação comparativa com o todo poderoso Romanée-Conti. Desta feita, por sugestão do amigo João Camargo, falaremos de algumas preciosidades do Domaine Prieuré Roch (www.domaine-prieure-roch.com). Abaixo, a marca registrada de seus rótulos.

Vinhas, Energia e Frutos

Henry-Frédéric Roch, neto do lendário Henry Leroy que fez história no Domaine de la Romanée-Conti, possui onze hectares muito bem posicionados em várias comunas da Côte de Nuits, impecavelmente cultivados de maneira orgânica, em completa harmonia com a natureza. A perfeita maturação da uvas, a vinificação com cachos inteiros, a utilização de leveduras naturais, a longa maceração para extração de cor e taninos e o amadurecimento em barricas novas de carvalho por dezoito meses, sobretudo nos vinhedos Grands Crus, são procedimentos coerentes com os grandes vinhos da Côte de Nuits.

Aubert de Villaine (esquerda) e Henry-Frédéric Roch (direita)

Os homens acima assinam o rótulo abaixo

Dentre seus vinhedos, temos dois Grands Crus: em Chambertin, Clos de Bèze; em Vougeot, Clos de Vougeot. Outras preciosidades vêm de vinhedos exclusivos, aqui chamados “Monopole”. O primeiro da comuna de Nuits-Saint-Georges, denominado Clos des Corvées, é uma propriedade de 5,2 hectares de vinhas antigas com qualidade excepcional. O segundo, a razão de ser de nosso artigo, é o monopole “Le Clos Goillotte”, localizado a apenas cinquenta metros abaixo do mítico vinhedo La Tâche, outro monopólio do famoso Domaine de La Romanée-Conti. Demarcado desde os tempos do príncipe Conti, estas vinhas antigas escondidas no intrincado mosaico bourguignon, produz apenas duas mil garrafas por safra numa área de míseros 0,55 hectare. Suas exclusividade e sutileza são tão marcantes, que a localização do terreno não é precisa em qualquer mapa dos vinhedos de Vosne-Romanée. Muitas vezes, passa despercebido.

Segundo a Ficofi, entidade promotora de grandes eventos envolvendo os principais Grands Crus da França, Le Clos Goillotte é a grande sensação da atualidade. O rendimento desta vinhas de mais de quarenta anos não foge muito dos quinze hectolitros por hectare. Seu caráter é de estilo feminino com perfumes florais bem particulares, lembrando mais um Henri Jayer do que o introspectivo Romanée-Conti. O termo “baroque”, barroco em português, é o adjetivo mais preciso para definí-lo, ou seja, explendor exuberante. Seu consumo desde os tempos do príncipe Conti sempre foi privado para um público local. Após a aquisição pelo Domaine Prieuré Roch, sua comercialização tornou-o mais democrático, embora obviamente seletivo.

No Brasil, quem estiver disposto a experimentar algumas destas maravilhas, os vinhos do domaine são importados pela World Wine com preços evidentemente em quatro dígitos (www.worldwine.com.br).

Terroir: Montagne de Corton

1 de Novembro de 2012

Dentre os terroirs da Borgonha, a Montagne de Corton é extremamente didática para mostrar os critérios de plantio das duas castas principais entre tintos e brancos, ou seja, Pinot Noir e Chardonnay. Situada na parte norte da Côte de Beaune, delimita praticamente a divisa para a chamada Côte de Nuits, berço espiritual da Pinot Noir com tintos de contos de fada.

Dois Grands Crus na mesma montanha: Branco e Tinto

Numa foto área da montanha, percebemos nitidamente as delimitações das apelações Corton-Charlemagne (branco) e Corton (tinto) de acordo com a composição de seus respectivos solos.

Na mesma montanha, composição de solos distinta

Associando as duas fotos acima, percebemos que próximo ao cume onde há um belo bosque, até aproximadamente ao meio da colina, temos o típico solo de marga (mistura judiciosa de argila e calcário) com importantes afloramentos de calcário. Neste cenário, encontra-se o terroir ideal para a Chardonnay. Deste ponto adiante, acompanhando a descida da colina, a proporção de argila volta a dominar o marga, tornando o solo um pouco mais frio. Aliado ao clima da Borgonha, este solo torna-se ideal para o cultivo da Pinot Noir, alongando seu ciclo de maturação, permitindo assim maior riqueza de aromas e principalmente estrutura tânica, entre outros polifenóis. Aqui temos o único Grand Cru tinto de toda a Côte de Beaune, chamado simplesmente de Corton.

Perfil geológico: diversidade de solos

Conforme perfil acima, percebemos os alforamentos de calcário na zona de Corton-Charlemagne. Já em camadas mais profundas, na zona de Corton (tintos), os componentes de solo como oolite e pearly flagstone podem transmitir mineralidade ao vinho. São formações geológicas relacionadas a fósseis marinhos há milhões de anos. A presença de ferro nos chamados ferruginous oolite também podem acentuar uma intensidade de cor mais profunda nos belos tintos de Corton.

Estes são apenas alguns dos detalhes do intrincado terroir borgonhês. Dentre os belos produtores destas apelações, a domaine Bonneau du Martray reina absoluta com brancos e tintos de grande longevidade. Os brancos inclusive, devem ser obrigatoriamente decantados por algumas horas. Esses vinhos são trazidos pela importadora Mistral (www.mistral.com.br) e fazem parte de um seleto grupo do que há de melhor entre os melhores de toda a Borgonha.

Recentemente, na ABS-SP (Associação Brasileira de Sommeliers) foram degustados estes dois Grands Crus do produtor e negociante Louis Jadot (também importado pela Mistral). O branco Corton-Charlemagne da safra 2004 e o tinto Corton Gréves da safra 2006 (Gréves é um dos vinhedos desta apelação). As safras não eram das melhores como 2005 por exemplo, mas a força do terroir se faz presente. São vinhos de personalidade, minerais, com boa expansão de boca, e ainda com muita vida pela frente. O tinto tem uma bela estrutura tânica, caráter masculino e ainda um tanto fechado. Precisa ser decantado para uma boa aeração. Enfim, são vinhos que ratificam na taça todo o esplendor de terroirs diferenciados como a abençoada montanha de Corton.

Os números da Borgonha

26 de Abril de 2012

Segundo dados de 2010 do site oficial dos vinhos da Borgonha (www.vins-bourgogne.fr), seguem abaixo algumas atualizações sobre produção e vinhedos.

Das pouco mais de 185 milhões de garrafas, temos 60% de vinhos brancos, 32% entre tintos e alguns rosés, e 8% de Crémants (espumante elaborado pelo método champenoise ou tradicional).

Esta produção em termos de apelações corresponde a 1,5% de Grands Crus, 47,5% de apelações comunais e Premiers Crus, e 51% de apelações regionais.

Estes números correspondem a 3,3% de toda a produção francesa. As vendas dos vinhos borgonheses geram cerca de um bilhão de euros, sendo 46% destinados à exportação para aproximadamente 160 países.

Das 100 apelações de origem na Borgonha, 33 são Grands Crus, 44 são comunais incluindo 645 climats com desginação Premier Cru, e 23 apelações regionais. Apesar de uma área relativamente pequena, praticamente 28.000 hectares, as sutilezas de todas essas apelações são segredos guardados pelos melhores produtores em cada comuna, passados de geração para geração. A rigor, Vinho Sem Segredo deveria postar um artigo para cada apelação. Contudo, ficaria um pouco cansativo. A idéia em dividir os artigos sobre a Borgonha em dez partes é mostrar as principais características de suas mais relevantes apelações e sub-regiões.

Considerando-se pouco mais de 10% entre Grands Crus e Premiers Crus, não é tão difícil entender as muitas decepções com borgonhas, principalmente os tintos, elaborados com a caprichosa Pinot Noir. O forte conceito de terroir, as peculiaridades de cada comuna e a diversidade das safras, diminuem ainda mais a chance de acerto. Talvez todos estas dificuldades, fazem da Borgonha uma das mais fascinantes regiões vinícolas do planeta.

Por enquanto, encerra-se o ciclo sobre vinhos da Borgonha. Evidentemente, voltaremos ao assunto para analisar pormenores de apelações e vinhos específicos.

Borgonha: Parte X

23 de Abril de 2012

Finalmente, chegamos ao sul da Borgonha, seguindo abaixo da Côte Chalonnaise. Aqui o sol brilha mais forte, as temperaturas são relativamente mais elevadas e os frutos amadurecem com mais facilidade. Há uma série de colinas voltadas para o sul e sudeste, favorecendo as benesses do clima. Nos tintos predomina a cepa Gamay, antevendo as proximidades dos vinhedos de Beaujolais mais ao sul. Nos brancos, predomínio absoluto da Chardonnay com vinhos maduros e afáveis a exemplo de um Pouilly-Fuissé.

Sete apelações nesta sub-região

No Mâconnais, apesar de vinhos agradáveis, não há nenhum Premier Cru. As apelações Mâcon, Mâcon-Villages, Pouilly-Fuissé, Pouilly-Loché, Pouilly-Vinzelles, Saint-Véran e Viré-Clessé serão detalhadas abaixo.

A apelação Mâcon é a mais extensa e generalizada de todo o Mâconnais. Há um claro predomínio dos tintos principalmente com a uva Gamay em relação à produção de vinhos brancos. São elaborados tintos e rosés frutados, relativamente leves, sem compromissos. O branco é mais relevante com a apelação Mâcon-Villages, esta sim, exclusiva para brancos com a uva Chardonnay. O nome de uma das 26 comunas homologadas pode ser anexada nesta apelação mais restrita. São brancos agradáveis, frutados e florais.

Em locais mais ao sul, onde o calcário é mais presente, principalmente em torno dos maciços de Solutré e Vergisson, a apelação mais famosa de todo o Mâconnais, Pouilly-Fuissé, elabora brancos à base de Chardonnay, com certa classe, complexidade e graça. O produtor Saumaize-Michelin da importadora Cellar (www.cellar-af.com.br) é um bom exemplo neste sentido. Com o tempo, duas comunas adquiriram apelações próprias. São elas Pouilly-Loché e Pouilly-Vinzelles. Tentam diferenciar-se dos Pouilly-Fuissé mais comuns, mas não atingem os melhores da apelação principal.

A recente apelação Viré-Clessé refere-se a brancos elaborados com Chardonnay das duas mais destacadas comunas para os inexpressivos brancos da apelação Mâcon (Viré e Clessé, situadas mais ao norte de Pouilly-Fuissé).

Por fim, a apelação Saint-Véran, vizinha à Pouilly-Fuissé, elabora brancos com base na Chardonnay, com alguns vinhedos quase dentro da região de Beaujolais. Daí, muitos referirem-se a esta apelação como um Beaujolais Blanc. São vinhos leves, fáceis, feitos para o dia a dia.

Borgonha: Parte IX

19 de Abril de 2012

Terminada a intrincada sub-região da Côte d´Or, caminhamos mais ao sul em direção à Côte Challonaise, detalhada no mapa abaixo. Apesar de muita próxima da Côte de Beaune, nesta sub-região ocorrem mudanças drásticas em termos de terroir. Aqui não há mais a proteção segura a oeste das altas encostas da Côte d´Or. Portanto, os ventos frios afetam mais as vinhas, criando dificuldade no perfeito desenvolvimento e amadurecimento dos frutos. Além disso, torna-se uma região confusa topograrficamente e assim, os vinhedos melhores posicionados nos declives a sul e sudeste levam vantagens.

Os vales e encostas bem posicionadas são relevantes

O solo de natureza argilo-calcária ainda comanda as vinhas, mais propensas ao plantio da Chardonnay quando o calcário predomina, enquanto a Pinot Noir é mais indicada no predomínio da argila, embora os fatores inicialmente expostos sejam mais relevantes.

As principais comunas no sentido norte-sul são Bouzeron, Rully, Mercurey, Givry e Montagny. Algumas vinhas que destacam-se em seu posicionamento admitem algumas apelações Premier Cru. Contudo, não há um terroir tão privilegiado a ponto de termos qualquer sinal de vinhas Grand Cru.

Bouzeron é uma apelação própria dentro da Côte Chalonnaise específica para vinhos brancos com a casta Aligoté. Alíás, aqui se faz o melhor Aligoté da Borgonha e dentre eles destaca-se a domaine A. et P. de Villaine, propriedade do todo poderoso comandante da Domaine de La Romanée-Conti. Este vinho é trazido pela Expand (www.expand.com.br).  Como curiosidade, o famoso aperitivo Kir é elaborado com vinho Aligoté e o típico licor da região, Crème de Cassis.

Rully, a comuna seguinte, elabora brancos e tintos com Chardonnay e Pinot Noir, respectivamente. As apelações são comunais com 23 climats classificados como Premier Cru, entre brancos e tintos. São vinhos sem relevância, para consumo no dia a dia local. Um bom produtor trazido pela importadora Club Taste Vin (www.tastevin.com.br) é a Domaine de la Folie.

Em Mercurey, comuna abaixo, temos clara predominância dos tintos. São os mais encorpados e confiáveis de toda a Côte Chalonnaise. Existem 29 climats na apelação Premier Cru entre tintos e brancos. Os produtores Faiveley e Lorenzon são confiáveis  e representados no Brasil pelas importadoras Mistral (www.mistral.com.br) e Cellar (www.cellar-af.com.br), respectivamente.

Givry é a próxima comuna, com tintos predominando sobre os brancos. São 26 climats no total na apelação Premier Cru. Nemhum grande destaque a exemplo da comuna de Rully.

Finalmente, a comuna de Montagny, com vinhos exclusivamente elaborados com Chardonnay. É a melhor comuna para brancos de toda a Côte Chalonnaise com 49 climats da apelação Premier Cru. O solo tem predominância calcária com certas porções lembrando  o perfil Kimmeridgiano de Chablis. A importadora Cellar traz um bom exemplar do produtor Jean-Marc Boillot (www.cellar-af.com.br).