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Montagne de Corton e suas três faces

5 de Setembro de 2019

O terroir na Borgonha nunca foi fácil de entender, mas tem algumas regiões onde tudo fica mais complicado. É o caso da Montagne de Corton onde temos várias inclinações, altitudes e exposições, permitindo a elaboração de dois Grands Crus, um tinto e um branco, fato único no cenário bourguignon.

montagne de corton

as três comunas que rodeiam a montanha

De acordo com o mapa acima, nas três comunas que rodeiam a montanha, temos a apelação Grand Cru, tanto de tinto, como de branco. Aloxe-Corton em destaque no mapa, é a comuna principal. Veremos abaixo em detalhe, cada uma delas.  

aloxe corton e pernand vergelessesapelações em lados opostos da Montanha

Aloxe-Corton

Os brancos aqui são raros pelas características do solo, em sua maioria mais argiloso e com alguma pedregosidade. Na parte alta da montanha temos a presença de calcário  e sílex (pedregoso), favorecendo a produção de brancos. Em resumo, perto do cume, predominância de brancos da apelação Corton-Charlemagne. Pode haver nesta área tintos mais leves com a apelação Corton Grand Cru. Já no meio da colina para baixo temos exclusivamente o tinto Grand Cru sob a apelação Grand Cru. Vinhedos como Le Clos de Roi, Les Renardes, e Les Bressardes, são famosos pelos melhores Cortons tintos.

Leroy: a perfeição em Corton-Charlemagne

Os vinhos abaixo e acima são de grande distinção e exclusividade. Este branco Corton-Charlemagne de Madame Leroy é suntuoso, de uma presença em boca magnifica, aliando com precisão potência e elegância. As vinhas não chegam a meio hectare de área, produzindo pouco mais de 1800 garrafas. Uma raridade!

Quebrando a tradição de Vosne-Romanée, Domaine de la Romanée-Conti numa aquisição minúscula no terroir de Corton começou elaborar a partir 2009 o Grand Cru tinto Corton em três dos principais Climats com apenas 2,27 hectares de vinhas (Clos du Roi, Bressandes, e Renardes). Sem dúvida, uma cuvée especialíssima com a marca DRC (foto abaixo).

CORTON DRC

a nova joia DRC fora de Vosne-Romanée

Pernand-Vergelesses

Esta porção por detrás da montanha faz a vez do que conhecemos como Hautes Côtes de Beaune com vinhedos de orientação quase oposta a Aloxe-Corton, na confluência de três vales formados por Savigny-Les-Beaune, Pernand-Vergelesses e a própria Montagne de Corton.

Como vemos no mapa acima, até recentemente, havia a apelação Charlemagne para brancos Grands Crus, absorvida agora por Corton-Charlemagne. Portanto, a famosa lista dos 33 Grands Crus da Borgonha, baixou para 32 Climats. Devido à exposição dos vinhedos, aliados a solos com forte presença do calcário e sílex, os brancos predominam amplamente com a apelação Grand Cru Corton-Charlemagne, embora haja algum tinto sob a apelação Corton Grand Cru. Evidentemente, um Corton de mais acidez e taninos um tanto ríspidos.

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uma raridade em tinto

Ladoix Serrignya comuna menos prestigiada

Ladoix-Serrigny

Obedecendo o mesmo raciocínio de Aloxe-Corton, Ladoix-Serrigny produz brancos Grand Cru Corton-Charlemagne nas partes mais altas da colina com solos ricos em pedra calcária e sílex. Nas partes imediatamente mais baixos, a argila favorece a produção de tintos Grand Cru Corton. Há em pontos isolados a produção de branco Grand Cru Corton. Em comparação com a comuna vizinha, os vinhos não são tão impactantes.

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exemplar raro de Corton branco

Montagne de Corton-expositionsas várias exposições da montanha

Do esquema acima, percebemos que as orientações leste e sudeste são mais favoráveis ao perfeito amadurecimento da Pinot Noir nas comunas de Aloxe-Corton e Ladoix-Serrigny com vários vinhedos da apelação Corton Grand Cru.

Já os vinhedos de orientação sul e sudoeste são mais frios, favorecendo o plantio da Chardonnay. Portanto, temos vinhedos Grand Cru Corton-Charlemagne e diminutas parcelas de Corton branco. A apelação Le Charlemagne Grand Cru foi absorvida pela apelação Corton-Charlemagne. 

Corton Blanc Grand Cru

Apenas um pequena parcela da apelação Corton é destinada aos brancos. Temos 91,53 hectares para os tintos e apenas 4,08 hectares para brancos. Esses brancos concentram-se nas comunas de Vergennes e Languettes. 

Enfim, um terroir bastante complexo em torno desta montanha que nos mostra muito bem os critérios para se plantar Chardonnay e Pinot Noir,  as duas uvas principais da Borgonha, num terreno que alterna calcário e argila, aliados a diferentes altitudes e exposições, formando um mosaico intrincado de Climats, a essência dos mistérios fascinantes da Montagne de Corton.

Comida Brasileira com Requinte

5 de Abril de 2019

Por uma questão cultural, muitos pratos brasileiros ficam à margem do vinho, preferindo outras bebidas como cerveja ou cachaça. Entretanto, Chefs como Rodrigo Oliveira do Mocotó e Mara Salles do Tordesilhas, elevam o patamar de certos pratos tradicionais com muita técnica e conhecimento profundo da gastronomia regional brasileira. Foi o caso de um belo jantar privado, onde Mara Salles desfilou alguns de seus pratos como a tradicional moqueca e o típico barreado de Morretes, estado do Paraná.

delicadas borbulhas e exóticos decanters

Iniciando os trabalhos com alguns pasteizinhos, dadinhos de tapioca e casquinha de siri, o Dom Pérignon 2000 em sua maioridade fez bela parceria, mantendo aguçado o paladar dos convivas. Muito fresco, bela acidez, e a elegância de sempre, sem jamais parecer pesado. 

sutilezas nos sabores de ambos

Na combinação acima, é preciso aliar texturas para o alto grau de refinamento tanto do prato, como do vinho. O vinho embora já com seus 20 anos, apresenta um frescor incrível, mesclando algumas notas terciárias de frutas secas. A delicadeza do vinho permite ressaltar as notas aromáticas do prato como especiarias (pimenta) e ervas (coentro). No rótulo acima, a menção Corton-Vergennes refere-se  a um Grand Cru branco de Corton do lieu-dit chamado Les Vergennes, pertencente à comuna de Ladoix-Serrigny. Em linhas gerais, trata-se de um Corton com um pouco mais de corpo que o clássico Corton-Charlemagne, devido a uma proporção um pouco maior de argila sobre o calcário. Para entender melhor estes detalhes de terroir e legislação, o mapa abaixo tenta elucidar o fato.

Corton Grand Cru vignobleso intrincado mosaico bourguignon

A apelação Corton é um tanto complicada. Primeiramente, existe a apelação Corton-Charlemagne somente para brancos. Já a apelação Corton, predominantemente para tintos está dividida entre três comunas: Aloxe-Corton, Ladoix-Serrigny, e Pernand-Vergelesses. Uma pequena porcentagem de brancos pode ser feita sob a apelação Corton. No caso da garrafa acima, Les Vergennes é um lieu-dit da comuna de Ladoix-Serrigny, bem à direita em vermelho no mapa acima.

o tradicional Barreado de Morretes 

Para o prato principal, o clássico Barreado de Morretes, Paraná, onde carnes de boi mais duras são submetidas a longo cozimento em panelas com vedação de barro  por várias horas até o ponto em que as carnes começam a desmanchar. O prato é rico em temperos, acompanhado de banana-da-terra e arroz.

Para acompanhar um prato tão substancioso e ao mesmo tempo, agregando o talento e técnica de Mara Salles, foi escolhido um Vega-Sicilia Reserva Especial, normalmente um blend de três safras antigas do maior tinto espanhol. Neste caso, trata-se de uma partida de pouco mais de treze mil garrafas das safras 1965, 1967 e 1972, formando 45 barricas. Esses Vegas Reserva Especial são realmente espetaculares, pois todos aqueles aromas terciários do vinho estão presentes com lindos toques balsâmicos e de especiarias. Um tinto com força e elegância para acompanhar o prato.

um dos grandes Yquems da história

Encerrando o jantar, um Yquem histórico da grande safra 2001. Untuoso, cheio de Botrytis, e um equilíbrio perfeito. Ainda em tenra idade, mostra toda sua suntuosidade numa evolução lenta e progressiva. Seu apogeu está previsto para 2100. Acompanhou muito bem um sorvete de tapioca com cocada e calda de tamarindo. A untuosidade do vinho caiu como uma calda com o sorvete. Além disso, a doçura da cocada e a acidez do tamarindo foram bem confrontados pelo açúcar e frescor deste Yquem. Um fecho de ouro.

Porto Vintage e toda a turma reunida

Foram quatro garrafas de Vega regando o jantar com o prato principal. No finalzinho do encontro, eis que surge um Vintage Port da tradicional Casa Grahams numa das mais belas safras de Porto, 1977. Um Vintage com quase 50 anos entra naquela fase balsâmica, onde a textura e o tipo de fruta tornam-se um licor. Equilíbrio perfeito e um persistência final dos grandes vinhos. Não há forma melhor de encerrar um grande encontro.

Corton-Charlemagne: A montanha mágica

30 de Dezembro de 2015

Em minhas aulas sobre Terroir, a montanha de Corton é um exemplo inconteste que este conceito existe e é palpável. A composição de solo neste caso, determina criteriosamente o plantio de Chardonnay e de Pinot Noir em porções bem definidas. Hugh Johnson em seu livro diz que há uma espécie de Alice no País das Maravilhas permeando esta montanha, capaz de mudar repentinamente o cenário e nossas percepções.

A parte mais alta da montanha, rodeando seu cume, é rica em fragmentos de calcário, fazendo um terroir perfeito para a Chardonnay. Abaixo desta zona, no meio da montanha, a argila ganha força na composição do marga (mistura judiciosa de argila e calcário), tornando o solo mais frio e propicio ao cultivo da Pinot Noir. Deste raciocínio saem dois vinhos mágicos, ambos Grand Cru, o branco Corton-Charlemagne e o tinto simplesmente Corton, o único Grand Cru em Pinot Noir da Côte de Beaune. Especialmente neste artigo, falaremos do branco Corton-Charlemagne de um produtor de destaque, referência para a apelação.

Bosque de Corton ao fundo

A primeira vez que provei um Bonneau du Martray, o vinho estava num período de latência, sem grande expressão, mas ao mesmo tempo, dava para perceber o grande potencial de guarda do mesmo. A safra era de 1985, grande ano na Borgonha, como de modo geral em toda a Europa. Este branco Corton-Charlemagne, é um dos Grands Crus da Côte Beaune com características totalmente distintas.

Se Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet e Meursault, são vinhos que falam entre si, o branco de Corton tem personalidade diferente, mais próxima aos Grands Crus de Chablis. Seus aromas lembram a mineralidade do Chablis, mas a textura tem um Q de Beaune, sem perder a semelhança com um Les Clos, o mais vigoroso entre os Grands Crus de Yonne.

bonneau du martray

veja a luminosidade desta cor no decanter

No exemplar acima com onze anos de idade, a cor se destaca pela jovialidade e o brilho dos grandes vinhos. Os aromas têm sempre algum mistério, mas notas sutilmente cítricas, florais e um fino boisé, são claramente percebidos. Em boca, impressiona como um autêntico Grand Cru. Percebe-se de início aquela tensão e mineralidade do Chablis, mas ao mesmo tempo uma maciez, uma densidade, com aquele Q de Beaune. O frescor, a vibração, a persistência e o equilíbrio, são notáveis. Pelo seu vigor, podemos vislumbrar pelo menos mais dez anos de guarda.

Alguns dados sobre Bonneau du Martray Corton-Charlemagne: vinhas de 45 anos divididas em 16 parcelas. Fermentação com leveduras naturais. Utilização de carvalho na fermentação e amadurecimento por 12 meses, sendo somente 30% novo. Trabalho judicioso de bâtonnage (contato sur lies revolvendo as borras).

Os grandes brancos da Borgonha

  • Bâtard-Montrachet – textura semelhante a Meursault com mais complexidade
  • Chevalier-Montrachet – elegância de um Puligny-Montrachet beirando a perfeição
  • Montrachet – (Bâtard + Chevalier)²
  • Corton-Charlemagne – Chablis Les Clos com textura de Beaune
  • Chablis Grand Cru – mineralidade e intensidade

Bourgogne: Confronto de Terroirs

1 de Dezembro de 2014

Discutir sobre a Borgonha é sempre prazeroso, instigante e sobretudo, sem conclusões definitivas, lembrando um pouco as infindáveis discussões sobre futebol, ou seja, não se chega a lugar algum. Dentro desta perspectiva, o tema de hoje pode ser interessante, principalmente para aqueles que estão iniciando no assunto. Um dos fatores que mais intrigam os degustadores é desvendar as peculiaridades de cada “climat”, termo muito típico para designar terroirs específicos nesta região. Só para ficar nas comunas mais famosas como Chambolle-Musigny, Vosne-Romanée, Pommard, Volnay, Chambertin, entre outras, os escritores, críticos e apaixonados por este vinhos, tentam marcar as principais características específicas de cada uma delas. Seguindo este raciocínio, podemos propor alguns paineis em dupla, comparando vinhos aparentemente diversos, distintos. Seguem abaixo alguns exemplos:

Côte d´Or: O coração da Borgonha

Volnay x Chambolle-Musigny

Num primeiro momento, temos uma comuna da Côte de Beaune (Volnay) e uma comuna da Côte de Nuits (Chambolle). Terroirs bem separados, já que na Borgonha, mesmo em vinhedos lado a lado, as diferenças podem ser marcantes.  O ponto principal a ser comparado é a delicadeza, a elegância e a sutileza destes respectivos vinhos. A priori, os vinhos de Chambolle parecem vencer o páreo. Teoricamente, teriam mais profundidade, poderiam ser mais marcantes. Só que treino é treino e jogo é jogo. Na prática, às cegas, dependendo do produtor, os respectivos terrenos e a filosofia do produtor, tudo pode mudar. Entretanto, vale a bincadeira. Dois belos Premiers Crus, lado a lado, um de cada comuna, às cegas. Como sugestão, um Chambolle do craque Mugnier e um Volnay do diferenciado Lafarge.

Pommard x Nuits-Saint-Georges

Força, personalidade e até uma certa rusticidade, marcam esses tintos robustos para padrões borgonheses. Pommard é também chamado o “Barolo” da Borgonha. Já o terroir de Nuits-Saint-Georges é mais complexo. A porção que me refiro é mais ao sul, mais afastado de Vosne-Romanée. Aqui sim, são vinhos robustos, mais duros na juventude, porém podem envelhecer maravilhosamente. Nas duas comunas não existem Grands Crus. Como disse, para padrões borgonheses, falta-lhes algo mais refinado numa sintonia mais ajustada. Proponho para Pommard, os produtores Domaine Courcel ou Comte Armand, e para Nuits-Saint-Georges, Henri Gouges ou Faiveley.

Henri Gouges: Meu preferido de Nuits-St-Georges

Corton x Gevrey-Chambertin

Vinhos firmes, uma certa austeridade, um cunho másculo e novamente o antagonismo: Côte de Beaune x Côte de Nuits. Corton é a exceção. Único Grand Cru tinto da Côte de Beaune e Chambertin da Côte de Nuits, com o maior número de Grands Crus por comuna (são nove no total). Ambos geologicamente apresentam influência direta de um subsolo calcário, fornecendo finesse e elegância. Corton do produtor Chandon de Briailles e Chambertin do inacessível Rousseau. Na impossibilidade deste último, Domaine Trapet.

Embate de Gigantes

Vosne-Romanée x Morey-Saint-Denis

Aqui a proposta é mais ousada e até certo ponto, leviana. Comparar Vosne-Romanée com outros tintos da Borgonha pode ser para alguns um verdadeiro insulto. Contudo, como experiência vale. Um grande Bonnes-Mares, um Clos de Tart ou o grande Musigny, este último de Chambolle, podem ás cegas, surpreenderem degustadores até mesmo com os DRCs à mesa. Entenda-se DRC como os fabulosos Grands Crus da Domaine de La Romanée-Conti. Sem a presença de rótulos, os soberbos tintos de Vosne tornam o embate mais democrático.

Quase sempre uma surpresa às cegas

Enfim, esse é um dos caminhos divertidos para tentar compreender a Borgonha. É como as mulheres. É divertido, prazeroso, enriquecedor e necessário este contato, mas entende-las é uma outra história. Quanto mais estudamos, quanto mais formulamos teses, menos compreendemos. Eis é o fascínio.

Romanée-Conti: Terroir em evolução

20 de Maio de 2013

Atravessar um milênio não é tarefa fácil para qualquer vinho, mesmo para os grandes vinhos. A trajetória deste mito através do tempo, desde a época do príncipe Conti, embora o vinhedo já existisse há séculos, sofreu transformações importantes, acompanhando a evolução inexorável dos vários períodos da história da Borgonha. Digo isso, porque parece que os grandes terroirs franceses são imutáveis, dando a impressão que nada  evolui através do tempo, e que tudo é passado de geração à geração, sempre da mesma forma.

Última safra com parreiras pré-filoxera

A última grande transformação ocorreu na safra de 1945 (o ano da vitória – segunda guerra mundial). Foi a última safra elaborada com parreiras não reconstituídas, ou seja, vinhas originais francesas, pré-filoxera. É um dos grandes Romanées da história, contando apenas com seiscentas e oito garrafas produzidas sob rendimento ínfimo de 2,5 hectolitros por hectare. As vinhas estavam praticamente destruídas, com produção à míngua. Com o replantio das vinhas, não houve Romanée-Conti nas safras 1946, 47, 48, 49, 50, e 1951. Cuidado com as falsificações!

 Época

 Uva Branca  Maceração

 Madeira

 Prince de Conti

 20%  12 a 36 horas

 3 anos

 Julien Jules

Ouvrard

 6%  4 a 5 dias

 4 a 5 anos

 Tempos atuais

 0%  2 a 3 semanas

 18 a 24 meses

Um vinho de acordo com seu tempo

Conforme quadro acima, o Romanée-Conti elaborado na época do príncipe continha vinte porcento de uva branca (Pinot Blanc e não Chardonnay). A maceração das cascas durava apenas horas, praticamente um rosé. Posteriormente, o vinho passava cerca de três anos em antigos tonéis antes de ser consumido. À época, um vinho de cor clara, de certa diluição e com notas oxidativas, era altamente valorizado e apreciado. Bem diferente dos tempos atuais, onde o vinho possui cor, concentração e estrutura para envelhecimento.

Numa escala milenar de tempo, esta transição levou séculos. Só em 1845, metade do século dezenove, houve a redução de vinte para seis porcento na utilização de uvas brancas, mas o tempo em madeira permaneceu demasiado. Contudo, antes do início do século vinte, as castas brancas foram abolidas, o tempo de maceração aumentou e o amadurecimento em barricas novas de carvalho ganhou força. 

Aubert de Villaine, o atual guardião deste terroir, começou a trabalhar no Domaine em 1953, assumindo a gerência com a morte de seu pai. Adotou a partir de 1986 uma rigorosa cultura orgânica em suas vinhas. O judicioso plantio em substituição de antigas vinhas é executado com alta densidade no vinhedo com números chegando a quinze mil pés por hectares (acirrada competição entre as parreiras em busca da melhor qualidade de seus frutos). 

A última investida do Domaine foi a aquisição de vinhedos Grands Crus em Aloxe-Corton. São pouco mais de dois hectares de vinhas repartidas em três climats (termo específico para designar o terroir borgonhês): Clos du Roi, Bressandes e Renardes. É bom lembrar que estes tintos  estão localizados na montanha de Corton (vide artigo sobre o tema neste mesmo blog), pertencente à Côte de Beaune, e referem-se ao único Grand Cru tinto desta sub-região afamada pelos melhores brancos da Borgonha, quiçá do mundo. A primeira colheita foi realizada com a bela safra de 2009. Com esses requisitos, mais uma comuna da Côte d´Or pode ganhar status diferenciado com a presença do mítico Domaine. Vosne-Romanée que o diga ao longo dos séculos: “Em Vosne, não existem vinhos comuns”.

Terroir: Montagne de Corton

1 de Novembro de 2012

Dentre os terroirs da Borgonha, a Montagne de Corton é extremamente didática para mostrar os critérios de plantio das duas castas principais entre tintos e brancos, ou seja, Pinot Noir e Chardonnay. Situada na parte norte da Côte de Beaune, delimita praticamente a divisa para a chamada Côte de Nuits, berço espiritual da Pinot Noir com tintos de contos de fada.

Dois Grands Crus na mesma montanha: Branco e Tinto

Numa foto área da montanha, percebemos nitidamente as delimitações das apelações Corton-Charlemagne (branco) e Corton (tinto) de acordo com a composição de seus respectivos solos.

Na mesma montanha, composição de solos distinta

Associando as duas fotos acima, percebemos que próximo ao cume onde há um belo bosque, até aproximadamente ao meio da colina, temos o típico solo de marga (mistura judiciosa de argila e calcário) com importantes afloramentos de calcário. Neste cenário, encontra-se o terroir ideal para a Chardonnay. Deste ponto adiante, acompanhando a descida da colina, a proporção de argila volta a dominar o marga, tornando o solo um pouco mais frio. Aliado ao clima da Borgonha, este solo torna-se ideal para o cultivo da Pinot Noir, alongando seu ciclo de maturação, permitindo assim maior riqueza de aromas e principalmente estrutura tânica, entre outros polifenóis. Aqui temos o único Grand Cru tinto de toda a Côte de Beaune, chamado simplesmente de Corton.

Perfil geológico: diversidade de solos

Conforme perfil acima, percebemos os alforamentos de calcário na zona de Corton-Charlemagne. Já em camadas mais profundas, na zona de Corton (tintos), os componentes de solo como oolite e pearly flagstone podem transmitir mineralidade ao vinho. São formações geológicas relacionadas a fósseis marinhos há milhões de anos. A presença de ferro nos chamados ferruginous oolite também podem acentuar uma intensidade de cor mais profunda nos belos tintos de Corton.

Estes são apenas alguns dos detalhes do intrincado terroir borgonhês. Dentre os belos produtores destas apelações, a domaine Bonneau du Martray reina absoluta com brancos e tintos de grande longevidade. Os brancos inclusive, devem ser obrigatoriamente decantados por algumas horas. Esses vinhos são trazidos pela importadora Mistral (www.mistral.com.br) e fazem parte de um seleto grupo do que há de melhor entre os melhores de toda a Borgonha.

Recentemente, na ABS-SP (Associação Brasileira de Sommeliers) foram degustados estes dois Grands Crus do produtor e negociante Louis Jadot (também importado pela Mistral). O branco Corton-Charlemagne da safra 2004 e o tinto Corton Gréves da safra 2006 (Gréves é um dos vinhedos desta apelação). As safras não eram das melhores como 2005 por exemplo, mas a força do terroir se faz presente. São vinhos de personalidade, minerais, com boa expansão de boca, e ainda com muita vida pela frente. O tinto tem uma bela estrutura tânica, caráter masculino e ainda um tanto fechado. Precisa ser decantado para uma boa aeração. Enfim, são vinhos que ratificam na taça todo o esplendor de terroirs diferenciados como a abençoada montanha de Corton.


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