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Cognac e Armagnac: Diferenças

19 de Agosto de 2013

Neste blog há artigos específicos sobre Cognac em duas partes, o mais famoso destilado francês. Entretanto, ele não reina sozinho na França. Um outro terroir, ainda mais antigo, localizado no sudoeste francês, lida com o destilado de uvas. É o artesanal e respeitado Armagnac, conforme foto abaixo.

Bas-Armagnac: apelação a ser procurada

Só pela apresentação dos rótulos (vide foto acima e abaixo), dá para sentir um toque artesanal em Armagnac e um toque de sofisticação em Cognac. De fato, Cognac assim como Champagne, lida com grandes marcas, grupos poderosos, capazes de promover números expressivos nas exportações francesas de bebidas finas. Evidentemente, há sempre um pequeno grupo de produtores artesanais que praticamente são comercializados dentro do território francês. Já em Armagnac, o artesanato impera com uma série de pequenos produtores, elaborando quantidades limitadas, algumas com longo envelhecimento e datadas. Contudo, o terroir de Armagnac não favorece a princípio, uma bebida tão refinada como seu ilustre concorrente. Veremos melhore este fato, a seguir.

Grande Champagne: o ápice do terroir em Cognac

Clima e solo

O clima em Charente (região de Cognac, acima de Bordeaux) é predominantemente marítimo e úmido. Seu solo de greda, esponjoso, de calcário poroso, semelhante à região de Champagne, aliado ao clima, fornece uvas que darão origem a um vinho-base mais delicado, se comparado ao vinho-base de Armagnac. Nesta região da Gasconha (terra do Armagnac), o clima é mais continental, mais seco e mais quente. As uvas não são somente calcadas na Ugni Blanc (localmente chamada de St Emilion ou também, a mesma Trebbiano italiana) como em Cognac. Entram também no corte, Folle-Blanche e Colombard.

Armagnac: Proteção da floresta de Landes

O mapa acima, nos mostra o posicionamento destes dois grandes terroirs. A influência marítima é notória na região de Cognac, enquanto para Armagnac, temos a proteção natural a oeste da floresta de Landes, a qual também protege os vinhedos de Bordeaux. Num mapa mais específico, mostraremos abaixo as principais sub-regiões de Armagnac.

Bas-Armagnac: eau-de-vie mais fina

Na sub-região de Bas-Armagnac o solo é de natureza arenosa, com presença de argila, silício e ferro, dando um aspecto colorido. Esses fatores geram aguardentes mais finas e delicadas. Já em na sub-região de Ténarèze, o solo é mais calcário e argiloso, promovendo aguardentes mais pesadas, mais potentes. Por último, Le Haut-Armagnac com maior proporção de argila, gera aguardentes um tanto rústicas que necessitam ser misturadas com a das outras sub-regiões.

Portanto, além do clima, o solo parece favorecer Cognac na elaboração de uma aguardente mais fina e elegante, sobretudo com poucos anos de envelhecimento.

Destilação

Novamente, mais diferenças. Os alambiques de Cognac promovem a dupla destilação, desprezando partes indesejáveis em todo o processo. Enquanto isso, na região de Armagnac a destilação em uma só etapa prevalece. Quando saída do alambique, a aguardente bruta de Armagnac é mais aromática e menos alcoólica que a de Cognac, porém carece de finesse. De fato, a destilação única elabora uma aguardente em torno de 55° de álcool, enquanto em Cognac estamos falando em 70° de álcool.

Envelhecimento

Sabemos que em Cognac, a aguardente saída do alambique vai para tonéis de carvalho da floresta de Limousin principalmente, e de Tronçais. A primeira fornece um carvalho poroso, rico em taninos. Já a segunda, com grãos finos, dão aroma e finesse à bebida.

Em Armagnac, a bebida é envelhecida em tonéis de Limousin, mas principalmente em carvalho negro (chêne noir), próprio das florestas da Gasconha. Este tipo de carvalho oferece poderosos taninos que precisarão de um longo tempo para serem domados.

Menção nas etiquetas

As menções em Armagnac seguem praticamente as mesmas regras de Cognac, com pequenas variações. Menções de três estrelas ou VS, correspondem a um envelhecimento mínimo de dois anos (idade da aguardente mais jovem da mistura). Já um VSOP, envelhecimento mínimo de cinco anos. A menção “Hors d´Age” significa que a aguardente mais nova da mistura deve ter pelo menos dez anos de envelhecimento, assim como qualquer millésime (safra) mencionado no rótulo.

O esquema abaixo, criado a partir de 2010, simplifica a nomenclatura. Favor clicar no atalho.

http://www.armagnac.fr/habillage/classic/armagnac/majArmagnacEtiquettes_big.jpg

As idades interseccionam-se nas categorias

Em resumo, Cognac será sempre Cognac, a aguardente de vinho mais famosa do mundo. Por isso, para aguardentes de envelhecimento relativamente jovem, VS ou VSOP por exemplo, o Cognac leva vantagem sobre o Armagnac em termos de finesse e delicadeza. Contudo, para aguardentes relativamente bem envelhecidas, acima de dez anos por exemplo, as diferenças diminuem sensivelmente. Principalmente, os Millésimes encontrados com relativa facilidade em Armagnac, proporcionam aguardentes de grande classe e personalizadas. Os preços dentro desta exclusiva categoria acabam compensando.

O carvalho francês

18 de Março de 2013

Para muitos, a perfeição da França no universo dos vinhos é complementada pelo melhor carvalho do mundo, plantado sobretudo nas regiões centrais do país, onde mais uma vez o terroir é perfeito. Das inúmeras florestas francesas, o mapa abaixo destaca o que há de melhor desta madeira praticamente insubstituível para amadurecer os melhores vinhos.

De fato, a interação da barrica de carvalho com o vinho permite uma perfeita micro-oxigenação, clarificação, estabilização e enriquecimento de aromas com a devida elegância. É claro que esta harmonia só terá sucesso se todos os elementos estiverem bem balanceados tais como, estrutura do vinho, tamanho da barrica, idade da barrica, tempo de permanência do vinho na barrica, entre outros.

As florestas francesas cultivam dois tipos fundamentais de carvalho: Quercus Pedunculata ou Robur, e Quercus Sessilis ou Petraea. Comparados com o carvalho americano (Quercus Alba), os mesmos são bem mais elegantes e sutis. São menos aromáticos em intensidade porém, aportam maior estrutura tânica para os vinhos. Cada uma dessa espécies exigem terroir diferente quanto ao tipo de solo, índice pluviométrico e insolação. O Quercus Pedunculata costuma ter elevada quantidade de taninos, mas pobre em substâncias aromáticas. Já o Quercus Sessilis, exatamente o contrário, sendo portanto ideal para o amadurecimento de vinhos. 

Das florestas mais famosas acima citadas, Limousin diferencia-se por fornecer o carvalho mais poroso, menos aromático e com maior quantidade de taninos. Essas características são ideais para o amadurecimento de aguardentes. Evidentemente, a nobre aguardente francesa, o Cognac, beneficia-se destas condições. Já a floresta de Tronçais, parte de Allier, fornece carvalho de alta qualidade para vinhos finos. Sua granulosidade extremamente fina aliada a aromas sutis, são fatores que colocam este carvalho entre os melhores da França, e são extremamente disputados.

Tronçais: Área escalonada por idade das árvores

A floresta de Tronçais com pouco mais de dez mil hectares, dentro de Allier, é uma floresta histórica, formada e protegida na época da nobreza. Faz parte hoje em dia, de uma floresta Domaniale, de administração pública, dentro da classificação francesa. Aliás, seguem alguns dados atuais das florestas francesas.

A França possui a terceira maior área florestal da Europa, atrás de Finlândia e Suécia. São 15,3 milhões de hectares, sendo 10,6 milhões de florestas privadas e 4,7 milhões de florestas públicas. Do volume anual extraído de madeira destas florestas (mais de 2,4 bilhões de metros cúbicos), 28% são dos dois principais tipos de carvalho acima citados. Só para se ter uma ideia de rendimento, cinco metros cúbicos de carvalho bruto geram apenas um metro cúbico de madeira utilizada na fabricação de barricas. Este metro cúbico por sua vez, gera a fabricação de dez barricas.

Quanto à fabricação de barricas de carvalho, a França é líder mundial com produção de quinhentas mil barricas anuais em valores aproximados de 300 milhões de euros. Deste total, um terço é destinado ao mercado doméstico, e dois terços ao mercado de exportação. Os Estados Unidos é o maior cliente com mais de 40% do volume exportado, seguido de Itália, Espanha, Austrália, Chile e África do Sul. É interessante notar que esses números referem-se somente a dois porcento da produção mundial de vinhos, ou seja, muito pouco vinho é amadurecido em barricas de carvalho francês novas.


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