Archive for the ‘Vinho em Destaque’ Category

Entre Tintos e Brancos

22 de Agosto de 2016

Nas últimas provas realizadas entre amigos, brancos e tintos destacaram-se numa diversidade de propostas, uvas, regiões e estilos.

meursault perrieres

safra prazerosa e acessível

O vinhedo Perrières expressa de forma magnifica toda a essência de um Meursault, sobretudo nas mãos de Michel Bouzereau. Com vinhas plantadas em 1960, 78 e 97, seus vinhos têm estrutura e equilíbrio notáveis. A fermentação e amadurecimento são feitos em barricas, sendo 25% novas. Medida certa para não marcar o vinho. Notas de mel, frutas brancas maduras, e um elegante tostado em meio a um toque mineral, somam-se a uma textura macia, prolongando o final de boca. Já muito agradável, vai bem com vitela, peixes, e frutos do mar em molhos brancos, além de ostras gratinadas. Importadora Cellar.

malvasia eslovenia

branco exótico

Os vinhos eslovenos de Marko Fon são sensação no momento pelo seu exotismo. Ele trabalha com as brancas Vitovska e Malvazija Istarska, ambas uvas locais. Na foto acima, trata-se da Malvazija, também conhecida como Malvasia Istriana, própria do nordeste italiano (Friuli). Suas vinhas de quatro hectares são de idade avançada, algumas centenárias, num solo calcário no Carso (Kras), sub-região eslovena bem próxima do mar adriático, sofrendo sua influência salina.

O mosto é fermentado com algum contato com as cascas em toneis de madeira inerte com leveduras naturais. Esse tipo de Malvasia confere grande acidez ao vinho e pureza em fruta. Um branco vibrante, bastante austero e fechado logo que aberto, necessitando de decantação por pelo menos uma hora. Aromas exóticos lembrando pêssegos, damascos e carambola, além de um fundo mineral e ervas. Ele lembra de maneira sutil um vinho Laranja. Pode acompanhar bem bacalhau, pratos com aspargos, e numa combinação ousada, ostras frescas com geleia de estragão. Importadora Decanter.

aldo conterno colonnello

o inimitável Aldo Conterno

Todos aqueles que já tomaram bons Barolos precisam ter a experiência com um Aldo Conterno. O homem consegue fazer um Borgonha dentro do Piemonte, tal a delicadeza de seus Nebbiolos. Este do vinhedo Colonnello com vinhas entre 40 e 45 anos prima pela elegância numa escola tradicionalista. Seus 28 meses em carvalho da Eslavônia promovem a micro-oxigenação certa para seus aromas etéreos com notas de alcaçuz, cerejas negras, alcatrão e especiarias. Seus taninos são um capitula à parte. E olha que taninos de Nebbiolo não são fáceis. Muito equilibrado e um final extremamente harmônico. Importadora Cellar.

matetic 2007

foge do estilo Novo Mundo

O que encanta de cara neste vinho é o frescor, apesar de seus quase dez anos (safra 2007). A cor é escura, muito intensa. Melhorou muito com o tempo em taça, ratificando que os vinhos com a uva Syrah são muito redutivos, merecendo longa decantação. Frutas negras em geleia, toques defumados, de chocolate escuro, e especiarias, além de toques mentolados e minerais. Corpo de médio a bom, taninos de rara textura, e um final fresco e longo. As vinhas situam-se em Rosario, setor nobre da vinícola com grande influência do Pacifico no Valle San Antonio. Muito agradável no momento, embora vislumbre ainda bons anos de guarda. Uma verdadeira referência de Syrah no Chile. Importadora Grand Cru.

rioja alta ardanza 2001

safras espetaculares: 1964, 1973 e 2001

Viña Ardanza Reserva Especial 2001

A bodega Rioja Alta dispensa comentários com seus ótimos vinhos cheios de personalidade. Viña Ardanza é o terceiro na hierarquia, atrás dos estupendos Gran Reserva 904 e 890. Costuma mostrar o caminho do estilo da casa com seus toques balsâmicos, de especiarias, caramelo, cevada, além de um equilíbrio gustativo notável. Contudo, neste ano 2001 superou em todos os sentidos, merecendo a menção Reserva Especial. Já na cor, percebemos a alta concentração do vinho, nem de longe denotando seus 15 anos de vida. Mais encorpado que o normal, taninos ultra finos e uma expansão de boca marcante. Definitivamente, um grande ano para esta bodega. Importadora Zahil.

madeira verdelho

o equilíbrio dos Madeiras

Cossart Gordon Madeira Verdelho 5 Years Old

Os Madeiras costumam relacionar suas uvas mais nobres com o grau de doçura do vinho. Portanto; Sercial para o seco, Verdelho para o meio seco, Boal para o meio doce, e finalmente, Malmesy para o doce. Este Medium Dry degustado, surpreendeu pela doçura e complexidade apresentadas. Acompanhou muito bem um Partagas E2, finalizando um belo almoço. Suporta bem sobremesas levemente adocicadas como bolos e tortas de frutas secas. Belo equilíbrio em boca, sustentado por uma acidez marcante e agradável. Expansivo, álcool na medida certa, e final de grande frescor. Bela opção no mercado. Importadora Decanter.

Malbec Terroir: O caminho das pedras

19 de Agosto de 2016

Na exploração do terroir mendocino, o Valle de Uco começa a ser desvendado com três sub-regiões distintas: Gualtallary mais ao norte, Vista Flores mais abaixo, e Altamira mais ao sul. Cada qual com suas características, ligadas à pedregosidade do solo, e também à presença mais ou menos intensa de carbonato de cálcio, uma espécie de calcário em atividade. Embora as altitudes sejam muito elevadas no vale, as pequenas diferenças entre elas exercem uma influência menor na expressão do terroir do que as diferenças de solo entre as sub-regiões, como veremos a seguir nos vinhos e mapa abaixo.

altos las hormigas

terroirs distintos do Valle de Uco

valle-de-uco-mendoza

sub-regiões do Valle de Uco

Gualtallary

Esta é a zona mais alta do Valle de Uco com 1300 metros de altitude, próxima a Tupungato. O solo apresenta uma pedregosidade distinta com alto conteúdo de carbonato de cálcio. Mais próximo ao solo, encontramos pedras calcárias com arestas bem duras chamadas de caliche, algo semelhante ao calcrete encontrado na região australiana de Coonawarra. Mais abaixo, encontramos cascalho e seixos de tamanho médio e baixa proporção de argila.

Esta conformação de terreno proporciona vinhos com alta acidez, muito nervo, e taninos bem presentes. O carbonato de cálcio expressa bem esta mineralidade, deixando o vinho notavelmente sápido. De certo modo, lembra os bons vinhos italianos do norte com a típica acidez ressaltada. É de fato um vinho muito gastronômico, fazendo boa parceria com carnes gordurosas. Por esse nervo e acidez, vislumbra uma boa longevidade em garrafa. A madeira bem comedida e integrada ao conjunto ajuda a evidenciar esta mineralidade.

Assim que aberto, os aromas custam um pouco a se mostrarem, necessitando de decantação. Portanto, é prudente decanta-lo por pelo menos uma hora.

Vista Flores

Aqui estamos falando em 1150 metros de altitude, zona próxima a Tunuyán. O calcário é muito presente no solo, além da argila. As pedras de tamanho médio começam entre 20 e 40 cm abaixo do solo. Este perfil de solo muda totalmente as características do vinho.

No exemplar degustado, percebemos a elegância e a maciez da Malbec, sem nunca perder o frescor. Os aromas de frutas escuras concentradas e os toques florais são muito presentes. Em boca, mostra-se mais volumoso com taninos dóceis e muito agradáveis, embora marcantes. Seu equilíbrio é notável. É um vinho que agrada de cara, muito acessível.

Altamira

Este é um vinho intermediário, tanto em características, como em altitude. Estamos falando em torno de 1200 de altura, zona de La Consulta, próxima a São Carlos. Aqui, abaixo de 20 a 40 centímetros do solo há presença de pedras relativamente grandes em meio limo-arenoso.

No exemplar degustado, mostra-se um pouco menos encorpado. Aromas mais delicados e não tão evidentes. Em boca, a acidez sempre presente, taninos de boa textura, formando um belo conjunto equilibrado. Dos três exemplares, é o vinho de entrada, menos impactante. Em nenhum dos vinhos nota-se a presença excessiva do álcool. Eles são agradavelmente quentes, quando muito.

SP(ov) x NW = TW

A equação acima expressa bem a filosofia da bodega Altos Las Hormigas. As siglas em inglês significam que o potencial do solo (SP) é potencializado por uma viticultura orgânica (ov em função exponencial). Este fator multiplicado por uma vinificação natural (NW), consciente, sem intervenções artificiais, geram como produto um vinho de terroir (TW). Ou seja, o potencial do solo só tem sentido sem bem trabalhado numa viticultura consciente, preservando a vida microbiana. Por outro lado, uma intervenção consciente do homem traduz-se numa vinificação onde o nascimento do vinho ocorra de maneira natural, sem aditivos e correções que tentam mascarar um desequilíbrio. Perceber o potencial do mosto e extrair o que há de melhor sem exageros, é expressar corretamente o terroir e todo trabalho envolvido.

Todo o projeto da bodega tem por trás pessoas de alto gabarito nas questões de solo e terroir como o especialista em agricultura de precisão Pedro Parra, o enólogo e consultor Alberto Antonini, e também Leonardo Erazo com especialidade em solos pela universidade de Stellenbosch, palestrante desta apresentação.

altos las hormigas (2)

malbecs distintos para o dia a dia

Numa linha mais comercial (foto acima), no bom sentido da palavra, e também mais acessível ao consumidor de vinhos do dia a dia, temos o Malbec Clássico, o Malbec Terroir e por fim, o Malbec Reserva. O primeiro deles é o único vinho fora do Valle de Uco. São vinhedos em torno da vinícola, em Lujan de Cuyo. Um Malbec relativamente simples, mas muito bem equilibrado, sem extrações exageradas. O segundo é um grande custo/benefício, mostrando todo o frescor do Valle de Uco sem grandes rodeios. O último, com vinhos mais selecionados, é um Malbec estruturado, necessitando de um apurado amadurecimento em madeira, sem exageros.

Todos os vinhos do portfólio apresentado da bodega Altos Las Hormigas são trazidos ao Brasil pela importadora World Wine. Agradecimentos à bodega Altos Las Hormigas, à importadora World Wine, e à Enocultura, por promoverem este proveitoso encontro.

Don Melchor 2012

12 de Agosto de 2016

Quando falamos em terroir para Cabernet Sauvignon logo pensamos na margem esquerda de Bordeaux, terra sagrada para os grandes tintos da região. Contudo, há outros locais famosos para esta uva de maturação tardia que necessita de solos pobres, pedregosos, e de excelente drenagem.

Lugares como Napa Valley, Bolgheri (Toscana), Coonawarra (Austrália) e Alto Maipo em Chile, costumam expressar grandes Cabernets, cada qual com suas características específicas, marcando de fato um terroir único.

No caso chileno, muito próximo de Santiago, ao pé da cordilheira dos Andes, cabernets famosos como Casa Real, Almaviva, Domus Aurea, e um dos pioneiros nos anos 80, Cousiño Macul Antiguas Reservas, entre outros, marcaram o Alto Maipo como um dos grandes terroirs do mundo. Em particular, falaremos neste artigo do ícone maior do grupo Concha Y Toro, o famoso Don Melchor. Com a primeira safra lançada em 1987, este tinto vem evoluindo ano após ano, aprimorando sua expressão neste terroir e ao mesmo tempo, se atualizando ao homem contemporâneo, num trabalho brilhante e de muita dedicação do competente enólogo Enrique Tirado.

Para termos uma noção exata do vinhedo, fazendo um paralelo com as sub-regiões de Bordeaux, Puente Alto (local do vinhedo Don Melchor) seria uma espécie de Pauillac dentro do Alto Maipo, e este  por sua vez, uma espécie de Haut-Médoc. As características do solo local são mostradas no vídeo abaixo.

Don_Melchor_Puente_Alto_Vineyard_Parcel_Map

Don_Melchor_Puente_Alto_Vineyard_Parcel_Map

parcelas 4, 5 e 6 em destaque

Na busca pela excelência, o quadro acima mostra sete parcelas distintas do vinhedo Don Melchor com pouco mais de cem hectares. Cada um delas, relacionadas sobretudo a pequenas diferenças de solo e temperatura, fornece uvas distintas quanto ao estilo. Algumas com frutas mais intensas, outras com mais taninos, outras com mais corpo, e assim por diante. Seguindo o modelo clássico bordalês, as parcelas são colhidas e vinificadas separadamente. Após à estabilização dos vinhos, chega o momento de conceber o famoso blend, nascendo assim um novo Don Melchor.

http://www.youtube.com/watch?v=bevhOD4TXh0

Cabernet Sauvignon: solo pedregoso e excelente drenagem

Safra 2012

Este foi um ano com temperaturas mais altas, acima da média, proporcionando uma colheita mais precoce. Graças ao efeito da amplitude térmica devido à grande proximidade da cordilheira dos Andes, a acidez e o frescor foram preservados. Portanto, espera-se um vinho com taninos perfeitamente maduros, bem equilibrado e sedutor, mesmo em tenra idade.

É difícil precisar uma data ideal para consumo desta safra. De fato, atualmente nesta fase de juventude, encontra-se extremamente prazeroso para o consumo. Entretanto, deve evoluir bem nos próximos dez anos, adquirindo os toques terciários de couro, tabaco, acentuando a mineralidade. É sobretudo uma questão de gosto pessoal.

don melchor 2012

decanta-lo por meia hora: aromas abertos

A colheita deu-se entre 10 de abril e 9 de maio com rendimentos muito baixos de 2,9 toneladas/hectare. O blend foi composto por 93% Cabernet Sauvignon e 7% Cabernet Franc. O vinho amadureceu por 15 meses em barricas francesas, sendo 71% novas.

Em anos onde a porcentagem de Cabernet Franc é mais destacada como em 2012, o vinho ganha em elegância e suavidade, quebrando um pouco a habitual austeridade da majoritária Cabernet Sauvignon. Neste ano de colheita mais precoce, a maturação da Cabernet Franc acaba sendo perfeita, pois seu ciclo é mais curto em relação à Cabernet Sauvignon.

A renovação do vinhedo vem sendo feita com o plantio de pequenas parcelas de Merlot e Petit Verdot, além das tradicionais Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. As vinhas mais antigas plantadas entre 1979 e 1992 foram adensadas com 4000 pés/hectare. Para o vinhedo novo, entre 2004 e 2013, o adensamento dobra chegando a 8000 pés/hectare. Esta mudança acirra a competição entre as vinhas, aprofundando raízes.

O vinho tem importação exclusiva pela própria Concha Y Toro, sendo distribuído nas lojas Ville du Vin, tanto em Alphaville, como no Itaim Bibi em São Paulo. Maiores informações: http://www.villeduvin.com.br

Carmenère: tudo a seu tempo

4 de Agosto de 2016

Embora não seja a uva mais plantada no Chile, a intempestiva Carmenère foi adotada como casta emblemática deste país. Cultivada por muito tempo  em terras chilenas e confundida com a Merlot, seu ressurgimento na escala de tempo vinícola é recente. Sua origem francesa e sua história nos tintos de Bordeaux teve fim com a devastação dos vinhedos no final do século dezenove devido a chegada da filoxera na Europa. Como seu cultivo já era complicado, não houve grandes esforços para sua retomada.

Voltando ao Chile, demorou um tempo para que suas características fossem melhor observadas e portanto, adequá-las a um terroir apropriado. Neste sentido, a zona de Cachapoal, abaixo do vale do Maipo, mais especificamente em Peumo, parece ser seu lar ideal. De fato, o clima ameno “Entre Cordilleras”, segundo a nova denominação para o terroir chileno, promove um longo período de maturação desta uva, sempre colhida no mês de maio. Portanto, mais tarde até do que a própria Cabernet Sauvignon, uma cepa sabidamente tardia. E este é um dos segredos de um grande Carmenère, a paciência em esperar o tempo certo da colheita, pois seus taninos tornam-se agressivos e desagradáveis, senão perfeitamente maduros.

peumo terroir

terroir Peumo: cuartel 32

Além disso, o solo da região de caráter argilo-limoso, retém uma certa umidade, bem de acordo para o bom desenvolvimento da planta. Na foto acima, percebemos a reserva hídrica no solo. Os rendimentos baixos por parreira reforçam a concentração dos frutos. Baseados nestes dois pilares, solo e clima adequados, o sucesso desta uva fica bem encaminhado. O vídeo abaixo, ilustra este cenário.

o correto manejo da carmenere

O grupo Concha Y Toro apresenta várias linhas com varietais de Carmenère, de acordo com a concentração e complexidade dos vinhos. Numa escala crescente, temos as linhas Gran Reserva, Marques de Casa Concha, Terrunyo e o ícone Carmin de Peumo. Particularmente, a linha Terrunyo, já comentada em artigo específico neste blog, é de grande valia, pois agrega grande complexidade a um preço relativamente justo. Além disso, em determinados anos, há partidas limitadas da linha Terrunyo para a uva Carmenère denominadas Lote 1. É o que veremos a seguir.

terrunyo lote 1

safra 2014: 95 pontos

Na safra 2014 tivemos um Terrunyo Carmenère Lote 1 com somente 2400 garrafas. As uvas proveem do cuartel 27, um dos setores que abastecem o famoso Carmin de Peumo, ícone da vinícola. É um vinho de maior concentração ainda que a linha padrão da Terrunyo, alcançando 95 pontos na safra 2013 pelo guia Descorchados e por conseguinte, eleito o melhor Carmenère do Chile. Vinhas plantadas em 1990.

A novidade nesta série especial é que o vinho amadurece por um tempo bem menor em barrica, no caso seis meses, preservando e mostrando todo seu poder de fruta e frescor. Já a linha normal, passa cerca de doze meses em barricas francesas.

A cor deste exemplar é extremamente escura, praticamente roxa e intensa, tingindo as paredes da taça. Os aromas transbordam toda a sorte de frutas escuras em geleia como framboesas, blueberries, cerejas escuras. Os toques de pimenta, café, chocolate escuro, também estão bem presentes. Belo ataque em boca com uma acidez refrescante. Os taninos são bem moldados num bom equilíbrio com o álcool. Persistente, expansivo e um final de muito frescor. Carnes com molhos densos e agradavelmente picantes são bons parceiros para este tipo de vinho. Steak au poivre, por exemplo, seria um clássico.

Outro atrativo desta série exclusiva é seu preço relativo, ou seja, em comparação com a linha habitual Terrunyo, há um acréscimo modesto entre 15 e 20%. Normalmente, em outras situações parecidas com determinados vinhos, a diferença de preços muitas vezes são abusivas.

Em resumo, para certas uvas um tanto rústicas, sem o atrativo das clássicas cepas francesas de primeiro time, o terroir específico, o correto manejo do vinhedo, e todos os cuidados na colheita, são fundamentais para vinhos diferenciados e surpreendentes. O terroir de Peumo parece ser o doce lar da inquieta Carmenère.

Este e todos os vinhos da linha Terrunyo Concha Y Toro são distribuídos pelas lojas Ville du vin, tanto no Itaim em São Paulo, como na loja de Alphaville. Maiores informações: http://www.villeduvin.com.br

Viña Cobos: Excelência em Terroir

13 de Julho de 2016

No mar de Malbecs em que estamos mergulhados é preciso separar o joio do trigo. Viña Cobos é um bom exemplo disso com vinhos bem trabalhados em terroirs de grande prestígio. Neste belo evento da importadora Grand Cru, tendo sempre à frente  a simpatia e competência de Camila Dezutti Perossi, pudemos avaliar vinhos de alta gama desta bodega referência em vinhos mendocinos. Por trás deste projeto, está o premiado enólogo americano Paul Hobbs, com passagens importantes pelas vinícolas Catena e Opus One (Napa Valley), além de consultorias na região de Tokaj, Hungria.

paul hobbs e camila dezutti

Paul Hobbs e Camila Dezutti

Para entendermos os vinhos a seguir, é preciso nos conscientizar dos melhores terroirs de Mendoza. Aqui, solos e altitudes bem escolhidos fazem a diferença. Neste sentido, a zona alta do rio Mendoza nas sub-regiões de Maipú e Lujan de Cuyo são as mais importantes e prestigiadas. As altitudes em torno de mil metros, além de solos adequados e bem drenados, conferem condições ideais para o cultivo da Malbec e também, belos Cabernets. Some-se a isso, um patrimônio importante de vinhas antigas, fechando a equação.

Outro terroir importante, relativamente recente e de grande desafio, é o chamado Valle de Uco, com altitudes ainda maiores. Aqui, a amplitude térmica e um clima mais fresco, produzem uvas equilibradas com ótimos níveis de acidez. É bem verdade que as intempéries  e o correto ponto de amadurecimento do fruto são fatores de risco. Contudo, são Malbecs vibrantes, aromas frescos e de grande pureza.

Os vinhos deste painel são calcados nestes dois grandes terroirs, partindo de vinhedos muito bem selecionados e portanto, expressando tintos de grande categoria. A idade dos vinhedos traduz bem as diferenças nas taças, mas as promessas devem ser construídas aos poucos, ao longo do tempo. O importante é perceber o grande potencial das vinhas novas envolvidas no projeto. Esses tintos são topo de gama da vinícola intitulados linha Bramare Vineyard.

bramare zingaretti

Cobos Bramare Vineyard Zingaretti Malbec 2012

Um dos destaques do painel, esse tinto esbanja classe, delicadeza e todo o frescor deste terroir de altitude. O vinhedo Zingaretti trabalha com vinhas de idade superior a 80 anos em altitudes de 1150 metros, localizadas em Villa Bastías, Valle de Uco. Nesta safra, as uvas foram colhidas no meio de abril. A textura do solo é argilo-arenosa com certa pedregosidade no terreno. O baixo rendimento de 5,5 toneladas por hectare reflete-se no vinho. Seu amadurecimento dá-se em barricas de carvalho por 17 meses, sendo 60% francesas novas, 5% americanas novas, e 35% segundo uso.

O que chama a atenção neste vinho é sua elegância. Seus toques de violeta e alcaçuz são finos e delicados. Boa presença de fruta fresca, bela acidez, e taninos muito finos. Equilibrado, bom volume em boca, mas sem nunca perder a delicadeza. As vinhas antigas fazem esta magia.

bramare rebon

Cobos Bramare Rebon Vineyard Malbec 2012

Aqui a diferença para o vinho anterior é bastante clara. Apesar de ambos estarem no Valle de Uco, em altitudes próximas, os vinhedos diferem substancialmente em idade. Neste caso do Rebon, as vinhas com apenas nove anos, localizam-se entre Altamira e La Consulta a 1015 metros de altitude. Os rendimentos são superiores, em torno de 8,5 toneladas por hectare, devido ao vigor das jovens plantas. Esses fatores refletem-se no vinho, proporcionando sensações diferentes.

O aroma neste caso é um pouco mais potente, lembrando notas de café, tostado e um fundo de tabaco. Em boca, os taninos estão muito mais presentes, embora haja um belo equilíbrio de álcool e acidez. A madeira fica mais evidente também, mesmo tendo o aporte idêntico do vinho anterior. Este precisa de mais tempo em garrafa para uma maior integração e deve ser decantado por pelo menos uma hora antes do consumo. O importante é que o vinhedo mostra-se promissor e só o tempo é capaz de adapta-lo perfeitamente ao terroir.

bramare marchiori

Cobos Bramare Marchiori Vineyard Malbec 2010

 O vinhedo Marchiori localiza-se em Perdriel, Lujan de Cuyo, a 995 metros de altitude, com vinhas acima de 50 anos. O rendimento é de seis toneladas por hectare. O solo franco-argiloso é de excelente drenagem. O vinho passa 18 meses em barricas de carvalho francês e americano (70% novas).

Neste tinto, percebemos o terroir de Lujan de Cuyo, com vinhos mais potentes e intensos. Encorpado, rico em taninos de alta qualidade. A fruta mescla-se muito bem à madeira que por sua vez, promove deliciosos traços de baunilha, café e caramelo. Macio e longo em boca. Embora já extremamente prazeroso, pode evoluir bem em adega.

bramare cabernet sauvignon

Cobos Bramare Marchiori Vineyard Cabernet Sauvignon 2012

Proveniente do mesmo vinhedo anterior, mas setores ligeiramente diferentes. Neste caso, as vinhas são relativamente jovens com apenas 17 anos. O sub-solo é relativamente mais pedregoso. Os rendimentos são destacadamente baixos com 5,5 toneladas por hectare. Aqui temos 17 meses de barricas francesas, sendo 65% novas.

A personalidade da Cabernet se expressa bem, com aromas mais fechados e taninos mais evidentes. No nariz, as frutas escuras, ervas e um toque mentolado são mais percebidos. Em boca, além da tanicidade maior da cepa, as vinhas jovens promovem taninos mais marcantes, necessitando de uma maior integração ao conjunto. A madeira não é invasiva e o equilíbrio entre seus componentes é destacado. Vinho de boa guarda.

cobos malbec

Cobos Malbec 2013

Trata-se da joia da Coroa. Um Malbec do vinhedo Marchiori com suas vinhas mais antigas e de rendimentos bem baixos (4,5 toneladas por hectare). O vinho amadurece por 17 meses em barricas francesas novas da tonelaria Taransaud, o Rolls-Royce das barricas.

Os aromas são muito elegantes com fruta em geleia, toques florais, alcaçuz, e madeira fina lembrando cedro. Bom volume em boca, mas sem exageros. Muito equilibrado, taninos de rara textura, e madeira muito bem casada. A potencia dá lugar à elegância. Belo fecho de degustação.

Enfim, uma degustação de alto nível onde pormenores foram percebidos nas taças. Uma aula de terroir e a demonstração de todo potencial mendocino na elaboração de grandes vinhos. Agradecimentos a todo  pessoal da Grand Cru, desde a recepção até todo o desenrolar do evento, caprichando nos detalhes.

Tintos da Borgonha: Top Ten

23 de Junho de 2016

Tempos atrás fiz um ranking pessoal dos melhores tintos de Bordeaux provados ao longo de mais de 20 anos. Agora, chegou a vez dos tintos da Borgonha. É sempre uma escolha difícil, até porque a memória nos trai. Em todo caso, segue abaixo alguns vinhos com a ressalva ao longo do tempo de serem modificados. De qualquer modo, são vinhos especiais, e que dificilmente irão decepcionar aqueles que experimentarem. É bom frisar também, que não sou um especialista na matéria, mas alguém já disse: o gosto é soberano!

la tache 1990

Hug Johnson: Um dos melhores vinhedos sobre a Terra

A ordem da lista não significa prioridades ou escala de pontuação. Evidentemente, são vinhos sob meu critério, acima de 95 pontos, ou seja, obras de arte.

  • DRC Romanée-Conti 1985

vinho difícil que precisa de tempo. acho que com seus mais de trinta aninhos mostra suas verdadeiras virtudes.

  • DRC La Tâche 1990

normalmente, agrada mais que o mito acima na maioria das vezes.

  • DRC Romanée-St-Vivant 1978

um vinho de sonhos. É o meu preferido do Domaine e nesta safra, extrapola as expectativas.

  • Henri Jayer Cros Parantoux 1988

aqui é um homenagem ao monstro sagrado da Borgonha, Henri Jayer. Poderia ser outra safra ou qualquer um de seus tintos. A delicadeza e longevidade desses vinhos não tem descrição a meu ver.

  • Clos de Tart

Novamente, independe da safra. particularmente, as safras 88 e 96 são magnificas. Um dos poucos da Borgonha capazes de encarar o mito (Romanée-Conti).

  • Domaine Jacques-Frédéric Mugnier Chambolle-Musigny Premier Cru Les Amoureuses

Independente da safra, mas com este produtor. você não completará a Borgonha sem ter provado esta obra-prima. A linha tênue que separa o encantamento da mediocridade, só Mugnier chegou mais perto.

  • Domaine Ponsot

Independente de safra, seus Grands Crus Clos St Denis e Clos de La Roche, todos vinhas velhas, são de uma profundidade impar. O silencio depois da prova é inevitável.

  • Domaine Rousseau

Seus Chambertins são espetaculares. Difícil escolher um. Até seu Premier Clos St-Jacques é inesquecível.

  • Domaine Méo-Camuzet

Seus Grands Crus Richebourg e Clos de Vougeot são raros, caros e divinos. A essência de Vosne-Romanée.

  • Domaines Michel Lafarge e/ou Marquis D´Angerville

Uma homenagem aos tintos da Côte de Beaune com dois domaines espetaculares. Não são Grands Crus, mas seus Volnay topo de gama são de uma delicadeza impar. Lafarge, mais feminino. D´Angerville, mais viril. Premiers Crus como Clos des Chênes, Chateau des Ducs e Clos des Ducs, são sensacionais e podem envelhecer dignamente.

clos te tart 2007

Terroir de séculos

Reparem que com exceção do último vinho, todos os demais são da Côte de Nuits, berço espiritual da Côte d´Or e por conseguinte, de toda a Borgonha. Todos são Grands Crus distribuídos pelas famosas comunas de Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny, Morey-St-Denis e Chambertin.

richebourg meo camuzet

exclusividade: menos de meio hectare

Além dos Premiers Crus da Côte de Beaune como última indicação, Les Amoureuses também inclui-se nesta classificação. Contudo, este tinto por si só, já é uma exceção.

henri jayer cros parantoux

o mito engarrafado

Há uma lacuna nesta classificação que precisa ser explicada. Os vinhos do Domaine Leroy. Infelizmente, os vinhos tintos do Domaine e não da Maison Leroy ainda não os provei. O branco Corton-Charlemagne é divino. Penso que os tintos devem seguir o mesmo caminho. Como disse, uma lista como essa jamais pode ser definitiva. A fila anda …

mugnier les amoureuses

a epítome da delicadeza

Todos esses vinhos são tintos de guarda que precisam pelo menos dez anos para se expressarem plenamente, alguns bem mais, especialmente Romanée-Conti, Clos de Tart e Domaine Ponsot.

Jermann: Quando o produtor faz a diferença!

6 de Abril de 2016

Hoje em dia estranhamente os vinhos biodinâmicos e naturais estão supervalorizados pela mídia, induzindo muitos consumidores ao êxtase sensorial, como condição sine qua non na produção de grandes vinhos. Não vou entrar no mérito dos vinhos biodinâmicos que se cercam das chamadas “forças cósmicas”, mas quanto aos naturais com ausência de dióxido de enxofre (SO2), os riscos de potabilidade são enormes, sobretudo quanto à conservação não ideais em adegas e o próprio transporte do vinho até seu destino final. Agora quanto aos vinhos orgânicos ou biológicos, parece-me uma condição obrigatória e quase natural, sobretudo para as vinícolas de destaque e de produção relativamente baixa. A não utilização de pesticidas, herbicidas e de outros produtos químicos sintetizados, não combina com a preservação do planeta, recuperação de ecossistemas, e de um mundo menos poluído.

Azienda Jermann

Contudo, antes de adotar qualquer filosofia de trabalho, é preciso saber fazer vinhos. Não adianta você disponibilizar a cozinha do Fasano, por exemplo, com todos os equipamentos de última geração, produtos de alta qualidade, para alguém que não sabe cozinhar. Não há milagres. Portanto, precisamos em primeiro lugar nos certificar da competência de quem faz os vinhos, sua sensibilidade diante da matéria-prima chegada na cantina, percebendo o potencial da respectiva safra, e saber extrair com maestria sua melhor expressão na taça. Nicolas Joly, por exemplo, pai da biodinâmica, faz um branco  extraordinário do Loire calcado em Chenin Blanc (Coulée de Serrant) não só porque é biodinâmico, mas antes de mais nada, porque é um enólogo de mão cheia.

gambero rosso

Evento Gambero Rosso

Tudo isso para falar da vinícola Jermann (pronuncia-se iermã), referência na região de Friuli-Venezia Giulia, extremo nordeste da Itália. Fiel a suas raízes, Jermann trabalha com maestria com uvas regionais como Pinot Grigio, Friulano, Ribolla Gialla, Picolit, entre outras. Embora elabore tintos, sua especialidade são os brancos de pureza impressionante, numa região notabilizada por este tipo de vinho.

Fixando-se em dois de seus brancos de grande destaque, vamos falar sobre Vintage Tunina e o moderno Where Dreams. O primeiro é um clássico “tre bicchieri” de muita personalidade e de um exótico corte de uvas (Sauvignon Blanc, Chardonnay, Ribolla Gialla, Malvasia e Picolit). As uvas são colhidas num vinhedo de 16 hectares chamado Ronco del Fortino com maturação um pouco mais tardia. A vinificação, estabilização e afinamento em sua elaboração não tem nenhum contato com madeira. Aqui percebemos a sabedoria e mão do enólogo em mesclar com harmonia uvas autóctones (locais) e as chamadas internacionais (Sauvignon e Chardonnay). Seu aroma é tão exótico quanto o corte das uvas. Toques florais, minerais, herbáceos e vegetais, de grande classe. Em boca, tem um ataque marcante que se prolonga num equilíbrio perfeito entre álcool e acidez, sustentada por uma maciez extremamente agradável. Persistência tre bicchieri!. Proponho uma harmonização com risoto de camarão e aspargos, ou pratos que envolvam alcachofras.

jermann

vinhos degustados

O segundo vinho, Where Dreams, mostra toda a versatilidade do enólogo, saindo de sua zona de conforto. A proposta é fazer um Chardonnay aos moldes franceses de Beaune, lembrando um Puligny-Montrachet Premier Cru, por sua delicadeza. A propósito, esses vinhos foram degustados no evento Gambero Rosso, e uma pessoa chamou-me a atenção em mencionar um Meursault ao invés de um Puligny. Estranhei um pouco a observação, mas entendi posteriormente. De fato, por razões de logística, ele foi degustado erroneamente numa taça bordalesa. Com isso, seu frescor não ficou tão intenso e principalmente a textura, ficou mais gorda, mais espessa, lembrando realmente um Meursault. Dito isso, o vinho realmente é elegante, bem balanceado e mesclado com a barrica (onze meses em barricas francesas). Seus aromas de frutas tropicais, fino tostado, baunilha, manteiga e pâtisserie, são notáveis. Em boca, equilibrado, elegante e longo.

Em suma, vinícola referência é isso. Atuar com maestria em seu terroir, promovendo tradição e tipicidade. Jermann além disso, mostra versatilidade em moldar vinhos modernos e alguns como Where Dreams, fugindo de suas origens. Seus vinhos ainda podem ser encontrados na importadora Cellar (www.cellar.com.br) e a filosofia da azienda é de uma vitivinicultura biológica.

Paul Pontallier: Elegância e Nobreza em Margaux

28 de Março de 2016

Neste sexcentésimo artigo (600 artigos) gostaria de falar algo importante e de modo algum triste. Entretanto, apesar da tristeza, é acima de tudo uma merecida homenagem a um dos grandes homens do vinho, Paul Pontallier, Diretor Técnico do Château Margaux. Respeitado pela aristocracia bordalesa e por todos que cercam o mundo do vinho, Pontallier soube como poucos destacar, respeitar e promover o grande terroir do único Premier Grand Cru Classe de Margaux. Já em seu primeiro ano, em 1983, marca o chateau com uma safra histórica e uma das minhas preferidas deste grande tinto. Daí para frente, um caminho de sucessivos sucessos, mostrando mais uma vez a importância do fator humano num terroir de grande expressão.

Desde sua presença no chateau, fica claro e notório os detalhes e extremo cuidado na elaboração do “Grand Vin” a cada safra. Parker, um dos maiores especialistas em Bordeaux, fornece notas altíssimas e consistentes na grande maioria das safras lideradas por Pontallier. Infelizmente, neste março de 2016, ele nos deixou, vítima de câncer. Contudo, sua presença será perpetuada nas inúmeras safras com sua decisiva participação que com certeza, envelhecerão maravilhosamente nas mais famosas adegas do planeta por longos anos.

margaux 83

O grande tinto do Médoc na safra 83

Anos atrás, tive o privilégio de comandar e organizar uma vertical histórica do chateau desde 1900. Aliás, o vinho desta safra foi o melhor provado por mim até hoje, sem comparação com qualquer outro vinho, seja de que região for. Um tinto centenário com uma cor escura de grande preenchimento. Os aromas ainda joviais, com muita fruta, eram impressionantes. O sabor, o equilíbrio, o corpo, e a presença de taninos de cadeia longa totalmente polimerizados, promoviam uma textura em boca impar, com total integração com o álcool. Um vinho impressionante, imortal e quase indescritível.

Nesta degustação, comentada neste mesmo blog em artigos anteriores, as safras foram divididas em quatro grupos.

Os imortais: 1900, 1904, 1918, 1924, 1928, 1945 e 1961. destaque para 1900 e 1928.

Os maduros: 1947, 1953, 1959 e 1979, sendo 59 minha safra de nascimento.

Os vigorosos: 1982, 1983, 1985 e 1990. A safra do coração, 1983.

As promessas: 1986, 1995, 1996 e 2000. a safra 2000 foi um verdadeira infanticídio.

Recentemente, tive o privilégio de decantar uma Imperial (seis litros) da safra 1990. E realmente, o vigor desta safra é notável. Um vinho que está se revelando aos poucos, mas com muita qualidade, beirando a perfeição.

margaux 90

Imperial 1990 no cavalete

margaux collection

Margaux Collection

A família Château Margaux inclui também os vinhos Pavillon Rouge, o segundo tinto do chateau, muito comum na hierarquia bordalesa, e o Pavillon Blanc, seguramente o melhor branco de todo o Médoc. Um Sauvignon Blanc fermentado e amadurecido em barricas novas de grande complexidade e poder de envelhecimento.

Os vinhos da comuna de Margaux costuma ser definidos como femininos. De fato, o solo de Margaux tem uma presença importante de calcário que normalmente gera vinhos elegantes. Mas quando se trata de um Château Margaux, pense numa mulher forte, de fibra, sem perder a feminilidade. Neste chateau, a proporção de Cabernet Sauvignon é alta. Daí, seu poder de longevidade.

Fazendo um paralelo como os vinhos da Borgonha, temos a comuna de Chambolle-Musigny com a marca de feminilidade. Contudo, quem já provou um Les Amoureuses e um Musigny, lado a lado, percebe esta feminilidade muito mais facilmente em Les Amoureuses. Já o Musigny, esconde esta feminilidade atrás de estrutura monumental, fazendo dele um dos maiores de toda a Borgonha. Numa expressão famosa em sua referência diz-se que um Musigny na boca é como uma calda de pavão. O vinho se abre em sabores multifacetados. Voltando ao Margaux, Pontallier compara-o a um bailarino, que por trás de toda a leveza e elegância de sua expressão, dispõe de uma força descomunal para o equilíbrio da bailarina. Um pouco mais de Pontallier no vídeo abaixo:

https://youtu.be/-FVhJZ-3m0w

Assim era Pontallier; culto, afável, técnico, esclarecedor, e fiel a seu terroir. Château Margaux com certeza encontrou sua alma gêmea, unindo de maneira brilhante fatores naturais e humanos que são a essência de um grande terroir. Um brinde a Pontallier, do outro lado da taça!

Cuidado com o nível do vinho!

29 de Fevereiro de 2016

Os vinhos comprados em nosso dia a dia passam desapercebidos quanto ao nível do liquido dentro da garrafa. Por serem via de regra muito jovens, este nível não apresenta problemas, geralmente próximo à rolha em sua extremidade interna. Embora sejam situações de exceção, pode ocorrer um nível baixo dentro da garrafa fechada dando indícios de vazamentos decorrentes por exemplo, de mau arrolhamento, qualidade da rolha, refermentações por ações de bactérias, geometria defeituosa do gargalo, entre outros fatores. Não é o caso deste artigo. Aqui vamos falar do assunto quando se refere a vinhos antigos, de colecionadores, de grandes adegas, e evidentemente vinhos de alta qualidade e reputação no mercado, sobretudo internacional.

ullage

bordeaux antigos: níveis variados nas garrafas

O termo técnico para este parâmetro chama-se ullage (inglês) ou ouillage (francês). É o espaço de ar entre a superfície líquida e os limites aonde o líquido está contido. No caso, líquido (vinho) e o limite de espaço (rolha). Esse termo também é muito utilizado no caso das barricas de carvalho. Voltando ao assunto, com o passar do tempo, esse espaço tende a aumentar no envelhecimento dos vinhos, mesmo que as condições de conservação sejam ideais. Os motivos aceitáveis são absorção do vinho na rolha e discreta evaporação do líquido através de trocas gasosas pela porosidade da mesma, ou seja, o vinho de certa modo respira pela rolha no que chamamos de micro-oxigenação. Contudo, há limites bem definidos para a evolução desta diminuição do líquido. No esquema abaixo, elaborado por Michael Broadbent, Master of Wine consagrado e durante muito tempo, homem forte da conceituada Casa de Leilões Christie´s, fica mais fácil entendermos o assunto.

ullage bordeaux

esquema para garrafa bordalesa

Até os dois primeiros níveis partindo da base da rolha (entre 3 e 5 milímetros), não há problemas com o vinho para qualquer idade do mesmo. No terceiro nível (top shoulder), até 1,5 centímetros, é aceitável para vinhos antigos até 15 anos de idade. Num quarto nível, até 2,5 centímetros, é aceitável para vinhos acima de 20 anos de idade. Entre 3 e 3,5 centímetros, no final do ombro da garrafa, já poder haver possibilidade de oxidação e portanto, o preço deve levar em conta um certo risco. Níveis entre 6 e 7 centímetros ou valores maiores, o risco é extremamente grande e a “potabilidade” do vinho é bastante questionável.

comparativo: bourgogne x Bordeaux

No caso das garrafas borgonhesas, podemos definir alguns parâmetros: até 2 centímetros, aceitável para qualquer idade. Entre dois e três centímetros, vinhos até dez anos. De três a quatro centímetros, vinhos entre 20 e 30 anos de idade. Até 5 centímetros, vinhos em torno de 30 anos. Entre 6 e 7 centímetros, vinhos entre 35 e 50 anos. Acima de 7 centímetros, o risco pode ser grande. De todo modo, são apenas referências. As exceções são verificadas caso a caso.

Outras considerações em vinhos antigos diz respeito ao estado dos rótulos, cápsulas, e a própria cor do líquido, conforme parâmetros abaixo:

Rótulo

Dados ilegíveis como safra, produtor, vinhedo, graduação alcoólica, e cortes no rótulo com mais de meia polegada, são problemas para comercialização e leilões. É aceitável uma ligeira descoloração para vinhos acima de 15 anos. Rótulos ligeiramente manchados. Rótulos com inscrições e dedicatórias, ou cópias coladas no lugar dos mesmos, também são objetos de rejeição.

rótulos e cápsulas

Rolha

Situações em que a rolha está abaixo do topo da garrafa (mais de um milímetro), pode denunciar exposição do vinho a extremos de temperatura (freezer ou aquecimento). Também pode ocorrer certa oxidação. Pode haver rolhas com sinais de penetração por algum tipo de objeto.

rolha afundada

Cápsulas

Corrosão excessiva ou perfuração da cápsula causa desproteção para a rolha. Ausência da cápsula ou parte da mesma recortada é outro sinal de preocupação. Cápsulas de cera podem estar parcialmente inteiras ou até mesmo, totalmente removidas. Neste último caso, devem ser rejeitadas para compra. Cápsulas não originais podem ser indício de falsificação.

ullage e cor compatíveis para a idade

Cor do líquido

A cor do vinho dentro da garrafa trata-se de uma avaliação com certa margem de erro. De todo modo, alguns parâmetros devem ser considerados. Para vinhos brancos, especialmente borgonhas, a cor dourada é aceitável de acordo com a idade do vinho. Cores ambares ou amarronzadas devem ser rejeitadas. Para vinhos doces, especialmente Sauternes, são aceitas cores douradas até 15 anos de idade. Para vinhos mais velhos, a cor âmbar é aceitável. Uma cor muito escura, os riscos são grandes. Para os vinhos tintos até 15 anos de idade, a cor amarronzada é totalmente rejeitada. Vinhos mais envelhecidos devem ser avaliados caso a caso, pois há um clareamento na cor provocada pela precipitação de polifenóis.

taylor´s 1970

sedimentos do vinho

Numa garrafa de Porto Vintage envelhecido como da foto acima, podemos encontrar sedimentos bastante presentes no líquido. Basicamente são polimerizações de polifenóis, sobretudo dos taninos, inclusive impregnando a rolha.

Enfim, são muitos os parâmetros para avaliação de vinhos antigos. O conhecimento exato do histórico do vinho em termos de conservação é fundamental para a credibilidade e segurança nos critérios de avaliação acima mencionados.

Temas de Degustação

29 de Janeiro de 2016

Ao longo do ano, inúmeras confrarias programam seus temas para serem realizados em datas previamente divulgadas entre os participantes. Existem as famosas Verticais (um determinado vinho em várias safras), Horizontais (uma denominação de vários produtores numa mesma safra), Varietais (uma determinada uva), Regionais (geralmente regiões clássicas da Europa), e assim por diante. No entanto, certos temas podem ser polêmicos e muitas vezes surpreendentes. Nesto contexto, vamos explorar abaixo alguns desses embates.

1 – Pouilly-Fumé x Chablis

Apesar de estarem em jogo uvas diferentes, Sauvignon Blanc e Chardonnay, a mineralidade e textura de ambas apelações francesas podem confundir. Preferencialmente com safras novas, ou seja, vinhos jovens, esta disputa pode ser bastante acirrada. É evidente que particularidades de determinados produtores devem ser avaliadas para proporcionar um equilíbrio justo e confundir os degustadores.

raveneau 2012

Chablis e Pouilly-Fumé: mesmo tipo de taça

2 – Pessac-Léognan x Saint-Émilion

Bordeaux de margens opostas, mas que guardam certas semelhanças. Os tintos de Pessac-Léognan são os mais abordáveis na juventude e os que amadurecem mais cedo em comparação com as demais comunas da margem esquerda. A proporção de Cabernet Sauvignon costuma ser menor no corte, dando mais destaque ao Cabernet Franc e Merlot. Do outro lado, Saint-Émilion têm vários tintos com boa presença de Cabernet Franc no corte, além da onipresente Merlot. Portanto, são vinhos com corpo, textura e poder de longevidade parecidos, proporcionando uma disputa bem bacana.

3 – Pommard x Barolo

Novamente, uvas, regiões, e países diferentes, defrontando Pinot Noir e Nebbiolo. Pommard costuma gerar borgonhas com certa rusticidade, apesar de muita força e poder de envelhecimento. Neste raciocínio é que os poderosos e viris Barolos podem proporcionar uma batalha equilibrada, gerando dúvidas e conclusões confusas.

4 – Riesling Alsacianos secos x Alemães Trocken

Aqui o segredo é calibrar o teor alcoólico e o açúcar residual dos vinhos alemães. Quando estamos na categoria Trocken (seco) aí sim, os vinhos podem ficar bem parecidos. A região francesa da Alsácia se não for a única, é certamente a que mais se aproxima do padrão alemão de vinhos. Disputa interessante.

vertical la tache

Vertical: La Tâche

5 – Supertoscanos 100% Sangiovese x Brunellos

O detalhe acima quanto à soberania da Sangiovese nos Supertoscanos é fundamental, já que a ideia de deste termo é muito genérica e pouco elucidativa. É bem verdade, que apesar de tratar-se da mesma uva, a Sangiovese na região do Chianti Clássico apresenta um clone diferente com relação ao terroir de Brunello di Montalcino, conhecida localmente como Sangiovese Grosso. Sobretudo quando os vinhos têm uma certa evolução em garrafa, a briga fica bem acirrada.

6 – Corte Bordalês Americano x Bordeaux Margem Esquerda

Aqui a inspiração é o inesquecível desafio de Paris em 1976. Talvez a degustação mais famosa do mundo pelas consequências inevitáveis na época. O corte bordalês, embora seja reproduzido em várias regiões e países, só mesmo os Estados Unidos são capaz de confrontar os grandes tintos bordaleses de margem esquerda. Estou me referindo aos tintos de Napa Valley com alto grau de sofisticação. É evidente que precisam ser escolhas que priorizem a elegância, o equilíbrio, e não a potência e explosão de aromas. Stags´ Leap  Winery provou e ratificou isso.

bordeaux 61

Horizontal: Bordeaux 1961

7 – Pauillac x Saint-Julien

As apelações acima na chamada margem esquerda de Bordeaux são contiguas. Daí, a extrema semelhança dos vinhos. Embora Saint-Julien não tenha nenhum Premier Grand Cru Classe, seus Deuxièmes são de tirar o fôlego. Só para dar dois exemplos, temos Léoville Las Cases e Ducru-Beaucaillou. O primeiro tendendo para um estilo Latour (Pauillac) e o segundo, para um estilo elegante (Lafite). Dá o que falar este embate.

8 – Vouvray x Rieslings Alemães

Novamente, disputa entre uvas: Chenin Blanc e Riesling. Vouvray é uma das mais famosas apelações do Loire, gerando vinhos delicados e com diferentes graduações de açúcar residual (sec, tendre e moelleux). Neste contexto, os Rieslings alemães das categorias Kabinett, Spätlese e Auslese, apresentam o mesmo perfil. A mineralidade, a textura em boca, também são semelhantes. Embora aparentemente “frágeis”, o poder de longevidade destes vinhos é notável. Enfim, uma aula de delicadeza e elegância.

grandes espanhois

grandes espanhóis

9 – Barbarescos x Barolos

Aqui temos regiões muito próximas trabalhando com a mesma uva, Nebbiolo. Sabemos a priori, que os Barbarescos são menos complexos e menos longevos que seu concorrente mais ilustre. Contudo, não podemos esquecer de produtores mais modernos que dão força a estes vinhos, assim como temos vários estilos dentro da denominação Barolo. Portanto, se bem escolhidos, a briga é boa.

10 – Sauternes x Barsac

Duas apelações muito próximas separadas pelo rio Ciron elaborando os grandes vinhos doces bordaleses. Em resumo, podemos dizer que os vinhos de Barsac por questões de terroir, são mais elegantes e menos untuosos que os Sauternes. Entretanto, há Sauternes com perfis mais delicados, sobretudo quando a porcentagem de Sauvignon Blanc aumenta no blend com a Sémiilon, sempre majoritária. Esses detalhes, põem mais lenha na fogueira.

Em resumo, são temas apaixonantes, mas de custo elevado. Normalmente, mais interessantes para grupos que já têm uma longa estrada no mundo do vinho e portanto, mais experiência para avaliar este tipo de degustação, pois os vinhos devem ser bem escolhidos para o objetivo final ser atingido. De todo modo, há principiantes que gostam de trilhar caminhos diferentes dos habituais. Afinal, são nos erros que aperfeiçoamos os acertos.