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Biondi Santi: a garrafa que ninguém bebeu

17 de Junho de 2026

Há uma garrafa que Giampiero Bertolini nunca bebeu e não sabe onde foi parar. Ficava na adega do pai, em posição de destaque, separada das demais como um ícone. O pai a tratava como algo especial. Era um Brunello di Montalcino Riserva 1964 da vinícola Biondi Santi, cuja história se mescla à da Itália e de uma das mais famosas áreas de produção de vinho do mundo. Bertolini bebeu essa safra algumas vezes, na vida e no ofício. Mas aquela garrafa, a do pai, sumiu sem que ninguém a abrisse e ele soubesse o destino. O ícone doméstico virou ícone nacional. Em 2011, a Associação Italiana de Sommeliers elegeu a Riserva 1964 o melhor vinho da história da Itália e a transformou em símbolo dos 150 anos da unificação do país. A garrafa que o pai de Bertolini guardava sem beber passou a representar a Itália inteira e a ser o lugar de trabalho dele. “A vida é estranha”, diz ele em entrevista ao rememorar a história, antes de um jantar promovido pela importadora Mistral.

Desde novembro de 2018, Bertolini comanda a Biondi Santi, em Montalcino, na Toscana, a vinícola que inventou o Brunello e fez dele o vinho italiano mais conhecido fora da Itália. Foi contratado pelo grupo francês EPI, de Christopher Descours, que comprou a propriedade, em 2017, sob a desconfiança da cidade e do país. A pergunta que ressoava era: os franceses irão mudar um ícone? Era também uma questão para Bertolini.

Ele estava havia dezesseis anos vendendo os vinhos da Frescobaldi, outra vinícola da Toscana,. satisfeito, sem pensar em mudar, quando um headhunter o procurou. Antes de aceitar, fez o que poucos fariam diante de um convite desses: marcou sete reuniões com os donos franceses para entender, nos mínimos detalhes, o que esperavam dele. Uma delas foi até com um psicólogo. A Biondi Santi era um patrimônio, e ele não queria assumir sem saber o que nele se podia tocar. Brinca que os franceses devem tê-lo achado louco. Saiu daquelas conversas com a lição do Gattopardo, de Lampedusa: mudar o que for preciso para que o essencial permaneça. Preservar a história italiana virou tarefa de capital de franceses, com mãos italianas.

O patrimônio é de garrafas e de vinhedos. Em 1944, com o front da guerra chegando a Montalcino, a família emparedou as garrafas antigas para escondê-las dos alemães. Por isso a cantina histórica ainda guarda safras anteriores ao conflito. A histórica adega se soma ao reconhecimento. Até o fim dos anos 1960, Brunello (o nome vem da cor da uva, mais morena que outras) era coisa de um punhado de produtores — cerca de dez. A família Biondi Santi abastecia clientes importantes. Em 1969, o presidente Giuseppe Saragat serviu seis garrafas da Riserva 1955 à jovem rainha Elizabeth II, na embaixada italiana em Londres. A rainha gostou, saíram artigos na Itália e na Inglaterra, a procura disparou. Em 1994, Franco Biondi Santi reuniu dezesseis dos críticos mais influentes do mundo para uma degustação vertical das Riservas de 1888 a 1988. A ideia era mostrar que a elegância do Brunello da família tinha lugar no mundo em que Robert Parker dava pontuações altas a vinhos extraídos e mais alcoólicos. Presente ao evento, o britânico Nicolas Belfrage deu 100 pontos à 1891, um vinho de 103 anos.

Brunello tem hoje mais de 200 produtores, 218 associados ao consórcio, e um hectare de vinha vale cerca de 1 milhão de euros, perto do que se paga em parcelas da Champagne. O plantio está congelado desde 1997: para plantar, é preciso arrancar. A Biondi Santi, origem de tudo, é ao mesmo tempo o monumento e a âncora da denominação. Produz cerca de 100 mil garrafas por ano, conforme a safra.

Ao assumir, Bertolini tomou algumas decisões. Em 2019 contratou o chileno Pedro Parra, especialista em solo, que abriu mais de trinta buracos nos vinhedos para mapear as particularidades de cada pedaço de terra. Do estudo geológico identificaram-se doze parcelas. Questionado se não pretende engarrafá-las em separado, diz que não, isso seria sacrificar a qualidade dos vinhos que fizeram a história da vinícola. O mapeamento dá um trunfo: conhecimento mais preciso para navegar cada safra, que a cada ano pode contar com mais ou menos quantidade de uvas de uma parcela.

O aquecimento global tem trazido também reflexões sobre a própria videira. Por décadas a casa dependeu de um único clone, o histórico BBS11, registrado em 1978, primeiro clone a levar o nome do produtor. Numa vinha plantada por volta de 1936, a equipe achou cerca de cinquenta biótipos distintos da uva, um acervo genético da casta. Faz agora uma seleção massal, replantando essas variantes num pequeno viveiro da propriedade. Quase todos os vinhos ainda saem de um só clone; a aposta para o futuro é ter vários, uma receita própria contra o calor. No vinhedo, um novo sistema de condução em V abre a copa como um guarda-chuva sobre os cachos, fazendo que a circulação de vento seja mais fácil e haja proteção contra o sol.

O mundo atual tem seus desafios além do clima. Os jovens bebem menos, e bebem diferente. Bertolini conta que a vinícola lançou um podcast, La Voce, para falar de vinho com jovens e sommeliers da nova geração sem o tom intimidador do ritual. Ele admite que as pessoas estão com cada vez menos paciência de esperarem quinze, vinte anos para abrirem uma garrafa. “Não se tem mais paciência, acho que se pode notar que as safras mais recentes podem ser bebidas na juventude. Fizemos algumas pequenas alterações, como mais tempo de garrafa, o que permite que os taninos fiquem mais suaves e isso permite que sejam bebidos antes. É um investimento, porque poderíamos colocar a mercado antes”, afirma.

Em um momento em que muitas vinícolas se expandem, caso dos Gajas, que nasceram no Piemonte e agora possuem vinhas na Sicília, a propriedade pode trabalhar em outros lugares, como o Piemonte? Bertolini diz que o momento atual é complexo, em que a guerra no Oriente Médio traz turbulências, mas é algo que, se ocorresse, teria de fazer sentido na história da propriedade, o que não seria fácil de encontrar.

(Lembrando que vinhosemsegredo tem revista, em pdf, que pode ser solicitada por:

https://vinhosemsegredo.com/revista-digital-vinho-sem-segredo/

Seção memória (bebido em dezembro de 2016, com quase 30 anos, as notas abaixo da foto:

A longevidade desses Brunellos, especialmente Biondi Santi, pode ser comprovada em almoço recente com a safra de 1988 Annata, ou seja, não Riserva. Com quase trinta anos, eu esperava encontrar um tinto cansado, com sinais de oxidação, meio que respirando por aparelhos. Ledo engano, o vinho estava vigoroso, em seu auge, com tudo que podia entregar em seus longos anos de evolução em garrafa. O aroma de fato, era todo terciário, mas com muita harmonia. A fruta ainda presente, meio passificada, com toques de torrefação, caramelo, cacau, bala de cevada, belos defumados, entre outros. Bom corpo, acidez presente e deliciosa, e um final longo e bem acabado. Em certos momentos, lembrava grandes Riojas envelhecidos. Enfim, um grata surpresa!

Malbec Terroir: O caminho das pedras

19 de Agosto de 2016

Na exploração do terroir mendocino, o Valle de Uco começa a ser desvendado com três sub-regiões distintas: Gualtallary mais ao norte, Vista Flores mais abaixo, e Altamira mais ao sul. Cada qual com suas características, ligadas à pedregosidade do solo, e também à presença mais ou menos intensa de carbonato de cálcio, uma espécie de calcário em atividade. Embora as altitudes sejam muito elevadas no vale, as pequenas diferenças entre elas exercem uma influência menor na expressão do terroir do que as diferenças de solo entre as sub-regiões, como veremos a seguir nos vinhos e mapa abaixo.

altos las hormigas

terroirs distintos do Valle de Uco

valle-de-uco-mendoza

sub-regiões do Valle de Uco

Gualtallary

Esta é a zona mais alta do Valle de Uco com 1300 metros de altitude, próxima a Tupungato. O solo apresenta uma pedregosidade distinta com alto conteúdo de carbonato de cálcio. Mais próximo ao solo, encontramos pedras calcárias com arestas bem duras chamadas de caliche, algo semelhante ao calcrete encontrado na região australiana de Coonawarra. Mais abaixo, encontramos cascalho e seixos de tamanho médio e baixa proporção de argila.

Esta conformação de terreno proporciona vinhos com alta acidez, muito nervo, e taninos bem presentes. O carbonato de cálcio expressa bem esta mineralidade, deixando o vinho notavelmente sápido. De certo modo, lembra os bons vinhos italianos do norte com a típica acidez ressaltada. É de fato um vinho muito gastronômico, fazendo boa parceria com carnes gordurosas. Por esse nervo e acidez, vislumbra uma boa longevidade em garrafa. A madeira bem comedida e integrada ao conjunto ajuda a evidenciar esta mineralidade.

Assim que aberto, os aromas custam um pouco a se mostrarem, necessitando de decantação. Portanto, é prudente decanta-lo por pelo menos uma hora.

Vista Flores

Aqui estamos falando em 1150 metros de altitude, zona próxima a Tunuyán. O calcário é muito presente no solo, além da argila. As pedras de tamanho médio começam entre 20 e 40 cm abaixo do solo. Este perfil de solo muda totalmente as características do vinho.

No exemplar degustado, percebemos a elegância e a maciez da Malbec, sem nunca perder o frescor. Os aromas de frutas escuras concentradas e os toques florais são muito presentes. Em boca, mostra-se mais volumoso com taninos dóceis e muito agradáveis, embora marcantes. Seu equilíbrio é notável. É um vinho que agrada de cara, muito acessível.

Altamira

Este é um vinho intermediário, tanto em características, como em altitude. Estamos falando em torno de 1200 de altura, zona de La Consulta, próxima a São Carlos. Aqui, abaixo de 20 a 40 centímetros do solo há presença de pedras relativamente grandes em meio limo-arenoso.

No exemplar degustado, mostra-se um pouco menos encorpado. Aromas mais delicados e não tão evidentes. Em boca, a acidez sempre presente, taninos de boa textura, formando um belo conjunto equilibrado. Dos três exemplares, é o vinho de entrada, menos impactante. Em nenhum dos vinhos nota-se a presença excessiva do álcool. Eles são agradavelmente quentes, quando muito.

SP(ov) x NW = TW

A equação acima expressa bem a filosofia da bodega Altos Las Hormigas. As siglas em inglês significam que o potencial do solo (SP) é potencializado por uma viticultura orgânica (ov em função exponencial). Este fator multiplicado por uma vinificação natural (NW), consciente, sem intervenções artificiais, geram como produto um vinho de terroir (TW). Ou seja, o potencial do solo só tem sentido sem bem trabalhado numa viticultura consciente, preservando a vida microbiana. Por outro lado, uma intervenção consciente do homem traduz-se numa vinificação onde o nascimento do vinho ocorra de maneira natural, sem aditivos e correções que tentam mascarar um desequilíbrio. Perceber o potencial do mosto e extrair o que há de melhor sem exageros, é expressar corretamente o terroir e todo trabalho envolvido.

Todo o projeto da bodega tem por trás pessoas de alto gabarito nas questões de solo e terroir como o especialista em agricultura de precisão Pedro Parra, o enólogo e consultor Alberto Antonini, e também Leonardo Erazo com especialidade em solos pela universidade de Stellenbosch, palestrante desta apresentação.

altos las hormigas (2)

malbecs distintos para o dia a dia

Numa linha mais comercial (foto acima), no bom sentido da palavra, e também mais acessível ao consumidor de vinhos do dia a dia, temos o Malbec Clássico, o Malbec Terroir e por fim, o Malbec Reserva. O primeiro deles é o único vinho fora do Valle de Uco. São vinhedos em torno da vinícola, em Lujan de Cuyo. Um Malbec relativamente simples, mas muito bem equilibrado, sem extrações exageradas. O segundo é um grande custo/benefício, mostrando todo o frescor do Valle de Uco sem grandes rodeios. O último, com vinhos mais selecionados, é um Malbec estruturado, necessitando de um apurado amadurecimento em madeira, sem exageros.

Todos os vinhos do portfólio apresentado da bodega Altos Las Hormigas são trazidos ao Brasil pela importadora World Wine. Agradecimentos à bodega Altos Las Hormigas, à importadora World Wine, e à Enocultura, por promoverem este proveitoso encontro.

Mendoza: Zonas, Departamentos e Distritos

15 de Agosto de 2013

Há muita confusão quando se fala de Mendoza como uma das províncias argentinas, desmembrada em dezoito departamentos, conforme quadro abaixo. Cada um destes por sua vez, são divididos em vários distritos. Fazendo uma correlação com nosso país (Brasil), províncias equivaleriam a estados, departamentos a cidades, e distritos a bairros.

Mendoza: dezoito departamentos

No mesmo mapa acima, podemos marcas as cinco regiões ou zonas  vitícolas de Mendoza, conforme mapa abaixo. Vejam que elas interseccionam alguns departamentos, gerando uma certa confusão. Nosso estudo vai concentrar-se em três das cinco zonas, ou seja, Zona Alta del Rio Mendoza (também chamada Zona Centro), Zona Este (Leste), e Valle de Uco. As zonas Norte e Sul não apresentam condições de terroir favoráveis à elaboração de vinhos de alta qualidade. Não é à toa, que a bodega Catena Zapata concentra seus vinhedos nas duas melhores zonas: Centro e Valle de Uco.

Oasis Vitivinícola de Mendoza Mendoza Wine Tours & Travel

Mendoza: cinco zonas

Cada um destes departamentos tem seus distritos muito bem definidos, conforme mapa abaixo. Maipú é um departamento importante que faz parte da Zona Alta del Rio Mendoza. Seus distritos de Las Barrancas e Lunlunta são famosos e muitas vezes mencionados em fichas técnicas de vinho. Da mesma forma, o departamento de Luján de Cuyo possui distritos famosos como Perdriel, Agrelo, Vistalba e Las Compuertas.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1b/DIVISION_POLITICA_DE_MAIPU.jpg

Clique acima: detalhe de Maipú, com alguns dos 205 distritos de Mendoza.

Em Valle de Uco temos três departamentos: Tupungato, San Carlos e Tunuyán. Seguem alguns distritos famosos: La Consulta (San Carlos), Vista Flores (Tunuyán), Gualtallary e Villa Bastías (Tupungato).

Terroir pesquisado por Pedro Parra

Pedro Parra é considerado um dos maiores especialistas em terroir na América do Sul. O vinho acima é elaborado a partir de um vinhedo no distrito de Vista Flores no Valle de Uco a 1250 metros de altitude. Depois de exaustivos estudos, este vinhedo foi selecionado pela boa mescla de argila com muitas pedras e boa profundidade, fornecendo um raro caráter mineral. Este vinho é comercializado pela World Wine (www.worldwine.com.br). 

Achaval Ferrer: bela linha de vinhos

Já falamos deste excelente produtor em artigo especial neste mesmo blog. Um de seus melhores vinhos, Finca Altamira, é elaborado a partir de um vinhedo de seis hectares no distrito de La Consulta com parreiras de mais de oitenta anos em pé franco a 1050 metros de altitude. A concentração deste vinho é explicada com rendimentos baixíssimos em torno de 400 gramas de uva por parreira. Esta bodega é comercializada pela Inovini (www.inovini.com.br).