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Soldera, só em taça de Borgonha

23 de Fevereiro de 2019

Brunello di Montalcino, nos dizeres de Hugh Johnson, um vinho para heróis, para momentos épicos. Desde sua criação com Biondi-Santi, seus inúmeros seguidores propunham um vinho austero, imponente, para longo envelhecimento. Em seguida, num tempo bem mais recente, os chamados modernistas propuseram um Brunello mais macio, mais frutado, mais acessível na juventude. A casta é chamada de Sangiovese Grosso, um clone somente utilizado na região de Montalcino, pois sua maturação não ocorre perfeitamente na região do Chianti Classico, onde ali é cultivada a Sangiovese Piccolo.

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momento de descontração

Pois bem, Gianfranco Soldera, propos um Brunello diferente, delicado, sutil, um verdadeiro Borgonha dentro da Toscana, sem perder a autenticidade do terroir. Seus vinhos super valorizados, são disputados em leilões, sobretudo em safras mais antigas. Com seu recente falecimento, esses vinhos se tornarão históricos, e seus preços …

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a taça sempre Borgonha e os tonéis eslavônios 

Sempre a taça borgonhesa e os tonéis de carvalho eslavônio ao fundo num dia frio em Montalcino. Seus taninos delicados e seus sutis aromas se adequam perfeitamente à taça, sobretudo com o envelhecimento.

História

Case Basse é uma vinícola de 23 hectares, localizada na parte central da denominação de origem Brunello di Montalcino, a 320 metros de altitude num solo de origem vulcânica. 

Podemos dizer que é uma vinícola de história recente, já que as primeiras safras foram de 1972 e 1973. O cultivo e a vinificação é totalmente natural, e o amadurecimento dos vinhos se dá em grandes tonéis da Eslavônia, madeira tradicional utilizada na região, por pelo menos quatro anos.

A produção anual é em média 15 mil garrafas  que podem chegar ao preço unitário de 500 euros. Das trinta safras já produzidas, todas de altissimo nível, Gianfranco cita a safra 1979 como safra de emoção.

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Grandes safras: 79 e 90

O Símbolo no rótulo em forma de S vem da mitologia grega. Há um chafariz na propriedade com esta escultura. Para se ter uma ideia da pureza e naturalidade deste vinho, a Universidade de Enologia de Firenze participa da análise dos vinhos, relatando toda a microbiologia do processo. No início da fermentação participam vários tipos de leveduras naturais sem a presença ainda da Saccharomyces Cerevisiae, a qual só atua efetivamente no mosto a partir do terceiro dia de fermentação. O processo é lento e totalmente espontâneo, durando cerca de 60 dias. Toda a fermentação e amadurecimento é feito em madeira. A levedura natural dominante que atua após o processo fermentativo nos tonéis é a Oenoccocus Oeni. O amadurecimento em grandes Botti eslavônios pode chegar a cinco anos. O vinho é engarrafado sem filtração. 

Além do grande Soldera, sobretudo o Riserva, Case Basse elabora outros vinhos no portfolio, tais como: Soldera Pegasos, Soldera Intistieti e Rosso di Montalcino, este último um vinho mais simples, para consumo imediato. Quanto aos dois primeiros, são vinhos que passaram menos tempo em madeira, devido a características de safras específicas.

A novidade a partir de 2006, é que o grande Soldera abriu mão da denominação Brunello di Montalcino para uma denominação mais genérica chamada Toscana IGT com a menção 100% Sangiovese. O design do rótulo é idêntico ao Brunello tradicional da Casa. Só mesmo o prestígio do nome Soldera para dispensar uma denominação como Brunello, uma das mais prestigiadas da Itália. É quando a marca adquire terroir e diferenciais únicos. Angelo Gaja também fez isso com seus Barbarescos. Privilégio de poucos …

b6a89309-0eac-42e3-8fcb-5320fe8ef4b0vertical de Soldera

Com a devida introdução, vamos a uma bela vertical de Soldera realizada no restaurante Gero, Jardins. Foram sete safras, sendo a mais antiga 94, e a mais recente 2006. Todos os vinhos com mais dez anos, tempo suficiente para uma boa evolução em garrafa.

img_5699Leflaive brindando Soldera!

Para aguçar as papilas, uma dupla de brancos de respeito com a assinatura Domaine Leflaive. Começando com o raro Bienvenues Batard-Montrachet safra 2002. Um vinhedo que parece mais um jardim com 1,15 hectare de vinhas datadas de 1958 e 1959. Toda a elegância de Madame Leflaive num branco harmônico, em sua plenitude, com frescor e complexidade. O vinho é profundo sem ser pesado. Notas de flores, mel, pêssegos, e um fino tostado, permeiam a taça. Já seu oponente, o maravilhoso Chevalier-Montrachet, especialidade da Casa, estava um pouco cansado. Mesmo assim, era notável sua estrutura e sua riqueza aromática. Em sua melhor forma atinge 97 pontos como uma das melhores safras já elaboradas. 

img_5700um trio de respeito

Quase o mais antigo com o mais novo, as safras 1994 e 2003 se confrontaram. Mas quem se saiu muito bem foi o vinho da esquerda, o envolvente Soldera Riserva 2000. Um Brunello na sua plenitude, ótimo momento evolutivo, e com a marca Soldera de pura elegância. Tem 93 pontos Parker e bem o merece. Tinto macio, taninos finos, belo meio de boca, aromas de cerejas escuras, alcaçuz, e finas especiarias. Pessoalmente, o mais prazeroso da degustação.

Já o Soldera Riserva 1994 impressionou por sua estrutura e longevidade com taninos firmes e presentes. Um lado mais viril dentro da delicadeza Soldera. É bom lembrar que neste ano tivemos as duas versões, Riserva e não Riserva. O que difere esses vinhos é um ano a mais nos tonéis para o Riserva, antes da comercialização. Neste exemplar, podemos notar frutas em licor, especiarias como cardamomo, e algumas notas de chá, ou seja, aromas terciários em profusão. Por fim, o Riserva 2003 não emocionou tanto como os demais, embora ainda muito jovem. De qualquer modo, parece não ter o mesmo extrato que seus parceiros.

0016b4bd-417a-45a6-beeb-afc384aad9c2grandes safras em momentos distintos

Neste flight, temos vinhos semelhantes em estrutura, mas momentos distintos de evolução. As safras 2005 e 97 têm 92 e 93 pontos, respectivamente. Neste exemplar 2005, ainda muito vigor, vinho em evolução, mas com muita fruta, especiarias, notas defumadas, e um belo equilíbrio. Já o 97, um vinho maduro, com notas terciárias de tabaco, algo cítrico que lembra laranjas sanguíneas, de polpa vermelha, e um mineral terroso. Neste ponto do almoço, alguns pratos que acompanharam bem os vinhos, conforme foto abaixo.

pratos do Piemonte

Embora os Brunellos remetam a pratos de carne mais estruturados como a Bistecca alla  Fiorentina, por exemplo, os vinhos de Gianfranco Soldera são mais delicados e femininos, buscando uma cozinha mais requintada como a do norte da Itália. O risoto de funghi porcini fresco com os vinhos mais evoluídos ficou perfeito, enquanto o rico Bollito Misto teve mais presença com os vinhos jovens, mais vigorosos. Tudo bem executado pelo restaurante Gero, sob o comando impecável do maître Ismael.

img_5705embate de gigantes

Enfim, o gran finale, dois Solderas Riservas altamente pontuados das belas safras 2004 e 2006 com 97+ e 95+ pontos, respectivamente. Foi muito difícil julga-los, tal a semelhança de estrutura de ambos. Devem ser decantados com pelo menos duas horas de antecedência, pois ainda estão em evolução para pelo menos mais uma década. Todo o vigor das grandes safras, mas sempre com a elegância de um autêntico Soldera. Bom corpo de ambos, muita fruta madura e fresca, rico em especiarias, alcaçuz, e um fundo defumado. Taninos muito presentes e extremamente finos. No fotochart, o 2004 justifica seus dois pontos a mais com uma expansão de boca um pouco mais ampla. Contudo, dois belos Solderas fechando o almoço com promessas certeiras para as próximas décadas. 

clássicos italianos

As sobremesas com os clássicos do norte e sul da Itália, Tiramisu e Cannoli de Pistache, respectivamente, muito bem executadas, gentilezas de Rogerio Fasano.

De todo modo, uma bela homenagem a um dos grandes mestres da enologia italiana, Gianfranco Soldera, colocando seu talento acima do terroir de Brunello di Montalcino. Nos dizeres do próprio mestre, suas safras eram como filhos, sem distinção: “Non ce n´è annata meglio o peggio, sono diverse”. Descanse em paz Mestre, o céu tem muito a comemorar!

A família Montrachet e um pouco mais

17 de Fevereiro de 2019

Quando falamos do melhor vinho branco do mundo, estamos na Côte de Beaune, sul da Côte d´Or. O vinhedo Montrachet é cercado por outros quatro Grands Crus de primeira grandeza, dividindo terras entre as comunas de Chassagne-Montrachet e Puligny-Montrachet, conforme mapa abaixo:

montrachet vinhedos

berço espiritual da Chardonnay

Deixando de lado os Grands Crus Les Criots e Bienvenues Batard Montrachet, de produções diminutas, sobretudo Criots, o vinhedo Montrachet é cercado por Chevalier-Montrachet ao norte, e Batard-Montrachet ao sul.

Diferenças de altitude mas principalmente de solo, refletem características distintas aos três Grands Crus. Batard-Montrachet, de altitudes mais baixas e solos com maior proporção de argila em relação ao calcário do que os demais Grands Crus, gera vinhos de maior densidade, maior textura, sem serem pesados.

Ao contrário, Chevalier-Montrachet, com solos de maior altitude, mais pedregosos, e boa proporção de calcário, gera vinhos elegantes, com maior tensão, e de textura mais delgada em relação aos outros Grands Crus.

Finalmente, Montrachet, o vinhedo de altitude e solos intermediários, parece unir as virtudes dos dois Grands Crus que o cercam, mesclando com maestria, força, delicadeza, profundidade, e sutileza. Um espécie de Romanée-Conti dos brancos, sendo o centro gravitacional de todos aqueles que o cercam.

Neste contexto, testamos algumas garrafas destes Grands Crus com um dos domaines referência neste distinto terroir, Domaine Leflaive. Especialista na comuna de Puligny-Montrachet, seus vinhos são de pureza absoluta e de uma elegância ímpar.

Domaine Leflaive possui 4,7677 hectares de vinhas Grands Crus divididas entre os Grands Crus Montrachet, Batard-Montrachet, Chevalier-Montrachet, e Bienvenues-Batard-Montrachet. O número acima pode ser lido como: 4 hectares, 76 ares, e 77 centiares. Número bastante preciso em termos de agrimensura. 

img_5676batalha de gigantes

Teoricamente no confronto acima, Chevalier-Montrachet deveria sagrar-se vencedor, uma especialidade do Domaine. Contudo, o vinho estava prejudicado com ligeira oxidação. Para complicar mais a disputa, a garrafa do Batard-Montrachet estava perfeita. Conclusão, o Chevalier meio cansado e de evolução adiantada, pareceu mais pesado que seu oponente. Reforçando o fato, Madame Leflaive consegue se impor no terroir de Batard, gerando vinhos com uma delicadeza e elegância surpreendentes. Degustados às cegas, pelas razões acima expostas, nos enganamos nos palpites, fazendo-nos quase jurar que o Batard era sem dúvida o Chevalier-Montrachet. Uma grata surpresa!

img_5678a comparação é cruel

Até então, o Batard 95 estava quase perfeito num vinho de grande equilíbrio e complexidade. Neste segundo flight, surge o estupendo Batard 96 para desbanca-lo, colocando-o nas cordas, mas sem nocaute. Trata-se de um dos melhores de todas as safras deste Grand Cru, rememorando aos míticos anos 1985 e 1992. O vinho era tão espetacular, que parecia pelo menos dez anos mais jovem que seu desafiante, o ótimo Batard 95. Enquanto temos frutas secas, mel, e especiarias no Batard 95, encontramos um frescor extraordinário no Batard 96 com notas de flores, fino tostado, e um intrigante cítrico com toques de limão. Bastante tenso em boca. Só mesmo Leflaive para dar esta leveza no terroir de Batard-Montrachet, embora não nos esqueçamos de Ramonet, um gênio deste Grand Cru. Notas para o Batard 95 e 96, respectivamente. 93 e 97 pontos, distância justa que os separam.

Domaine Leflaive Batard-Montrachet Grand Cru – Ficha Técnica

Quatro parcelas de vinhedos, sendo duas localizadas na comuna de Chassagne-Montrachet, e duas na comuna de Puligny-Montrachet. A idade das vinhas varia entre 1962 e 1989, perfazendo um total de 1,91 ha, ou seja, menos de dois hectares.

A vinificação segue o padrão clássico com fermentação do vinho em barricas de carvalho. As barricas são de idades variadas com 25% de carvalho novo. A procedência da madeira de acordo com a exata granulometria exigida, tem no mínimo metade provinda da floresta de Allier, e no máximo, metade provinda da floresta dos Vosges.

O vinho estagia doze meses em barricas após a fermentação, e em seguida, mais seis meses em cubas inertes, antes do engarrafamento para perfeita estabilização.

algumas iguarias de acompanhamento

Entre um gole e outro, alguns mimos do restaurante Nino Cucina para conter a salivação: Burrata Caprese, Presunto de Parma, e Polvo grelhado na frigideira. Em especial, este polvo com algumas gotinhas de limão deu as mãos ao incrível Batard 96.

na sequência …

Antes do prato principal, almôndegas afogadas num delicioso e concentrado molho pomodoro e um gnocchi muito bem executado com molho de tomate e queijo taleggio. Pratos reconfortantes.

o indestrutível Syrah!

Agora o grande tinto do almoço em magnum, Chapoutier Ermitage Le Pavillon 1990, um tinto indestrutível. Com quase 30 anos, sua cor ainda é um rubi carregado e intenso. Após três horas de decantação, lembrando que Syrah é um dos vinhos mais redutivos, os aromas se mostram austeros, arredios, sugerindo frutas negras, azeitonas, um toque de alcaçuz, cacau,  e um fundo defumado. Em boca, seus taninos são firmes, mas bem polimerizados, finalizando com belo equilíbrio. 

A pergunta é: quanto vale este vinho?. Para Parker, um apaixonado pelo Rhône, 100 pontos inconteste. Já para seu assistente, Neal Martin, 89 pontos. Pessoalmente, acho que esse é um caso clássico onde Parker se emociona demais e acaba não sendo tão rigoroso e imparcial como nos Bordeaux. Eu ficaria numa faixa entre 92 e 95 pontos. Não mais que isso, o que não é pouco.

Apenas para ressaltar a exclusividade deste tinto, Le Pavillon é o que Chapoutier chama de Sélection Parcellaire. São apenas quatro hectares de vinhas centenárias, entre 90 e 100 anos. Seus rendimentos são baixíssimos, ao redor de 15 hl/ha. A vinificação dá-se em cubas de cimento com longa maceração das cascas. O vinho amadurece em barricas de carvalho entre 18 e 20 meses, sendo apenas 30% novas. Chapoutier diz ser um vinho para durar 60 anos, podendo chegar em safras espetaculares como 1990 a 75 anos, se bem adegado.

batatas assadas como molho cremoso

Pelas fotos acima, costeletas de cordeiro grelhadas, empanada em farinha com ervas. Como acompanhamento, batatas assadas com molho cremoso de queijo. Todos esses sabores e texturas foram tirados de letra pelo Ermitage com sua incrível estrutura.

um Yquem histórico!

Se existe um Yquem mítico no século XXI, por enquanto é o Yquem 2001. Uma força e estrutura extraordinária. Ele é denso, grandioso, harmônico, longo, longo, muito longo. Seu apogeu está previsto para 2100. Talvez já esteja reencarnado para prova-lo novamente.

Como sobremesas, a panna cotta com frutas vermelhas não comprometeu e nem emocionou na harmonização, mas o arroz doce com doce de leite fez um casamento interessante com o vinho. As texturas se complementaram e o nível de açúcar de ambos se respeitaram. Um belo fecho de refeição …

A sublimação da Grenache

10 de Fevereiro de 2019

O tema foi uma bela incursão pelo Rhône-Sul em busca de maravilhosos Chateauneuf-du-Pape, apelação emblemática e de grande heterogeneidade. Portanto, neste almoço no restaurante Gero, somente a fina flor de chateaux exclusivos onde a Grenache se manifesta magistralmente. Evidentemente, a maioria são blends na qual esta cepa predomina e imprime seu estilo franco e cheio de frutas em compotas. 

Oenothèque: antiga nomenclatura

Nada como abrir os trabalhos com Dom Pérignon, especialmente este Oenothèque com dégorgement feito em 2008 da bela safra 1996. Portanto, 12 anos sur lies, o que equivale a um P2 da nomenclatura atual. Champagne perfeito, perlage notável, mousse agradável e sedosa, os aromas delicados de pralina e toques amendoados, final rico e persistente. Não é a toa que trata-se das melhores cuvées produzidas  deste champagne de luxo nas últimas décadas com 97 pontos e muita vida pela frente.

bela harmonização

Em seguida, este branco exótico de vinhas antigas 100% Roussanne, o melhor branco do Chateau de Beaucastel. Vinho denso, concentrado, com toques de caramelo, flores, e algo balsâmico. Em boca, um pouco cansado devido à baixa acidez. Estes vinhos do sul do Rhône, normalmente pecam na longevidade por falta de frescor. Mesmo assim, ainda num ponto bom de ser apreciado, sobretudo acompanhando um belo Vitello Tonnato, brilhantemente executado. Harmonização surpreendente.

img_5651safra 2003: generosa

Já neste primeiro flight, o trio acima mostrou a que veio. Todos de alta gama com uma estrutura impressionante. O Beaucastel à esquerda, trata-se da cuvée Hommage a Jacques Perrin, só produzida em safras excepcionais como 2003. O fato curioso é que nesta cuvée há alta porcentagem de Mourvèdre, uva musculosa e tânica. Neste blend temos, 40% Mourvèdre, 40% Grenache, 10% Syrah, e 10% Counoise. Um vinho denso, taninos presentes, e o menos pronto do painel. Vai mais dez anos em adega, sossegado. 95 pontos Parker.

Chateau Pegau Cuvée da Capo, segundo vinho do flight, é outro vinho excepcional na concepção clássica de um Chateauneuf. Estão presentes as treze uvas da apelação, todas de vinhas centenárias nesta cuvée topo de gama. As uvas vêm de três terroirs consagrados, inclusive La Crau, um dos mais reputados da região. O vinho tem uma vinificação clássica, amadurecido em grandes tonéis. Muita fruta em compota, especiarias, garrigue (aroma de ervas provençais), e um equilíbrio notável em boca. Extremamente prazeroso no momento. 100 pontos Parker.

Roger Sabon é outro domaine de ponta com esta cuvée especial denominada “Le Secrets des Sabon” de vinhas centenárias com 95% de Grenache. Seria um fecho maravilhoso se o vinho não estivesse parcialmente oxidado, sobretudo em boca. Seus aromas tinham incríveis toques de cacau, além de taninos super polidos. Uma pena esta garrafa não estar em forma. 96 pontos Parker.

img_5654300 pontos na mesa

Segundo flight perfeito com vinhos magníficos em sua concepção na mítica safra 1990. Les Cailloux Cuvée Centenaire parte de vinhas antigas com 125 anos, sendo 85% Grenache e 15% Mourvèdre com rendimentos ínfimos de 15 hl/ha. O vinho tem uma riqueza de frutas extraordinária com toques de especiarias, alcaçuz e minerais. Boca macia, bem equilibrado, taninos absolutamente fundidos ao conjunto, e longa persistência final.

Nesta Cuvée des Célestins do gênio Henri Bonneau, ele seleciona as melhores barricas de safras excepcionais como 1990. É um blend de 90% Grenache complementada por um mix de Mourvèdre, Syrah, Counoise e Vaccarese. As uvas não são desengaçadas tal a maturidade do cacho na hora da colheita. Sempre com taninos presentes e de fina textura, seu equilíbrio é perfeito com notas de frutas em compota, especiarias, leves notas de estrebaria e um fundo de sous-bois. Uma pequena obra de arte.

O terceiro vinho completa a trilogia, Domaine de Marcoux Vieilles Vignes 1990. Com vinhas centenárias 100% Grenache, localizadas em três grandes terroirs da apelação, incluindo o imponente La Crau, o vinho tem uma vinificação clássica passando 18 meses em um mix de tanques de cimento e velhos toneis de carvalho. Um tinto super elegante, sensual, mostrando frutas em licor, alcaçuz, e finas notas de ervas e especiarias. Boca perfeita e final longo. Difícil definir o melhor, mas no momento só Henri Bonneau tem taninos mais presentes, capazes de boa evolução em adega.

img_5655flight surpreendente!

Pode não ter sido tecnicamente perfeito, mais foi o flight mais surpreendente pela presença de quase um intruso no páreo que foi colocado totalmente às cegas. Começando pelo Henri Bonneau com a mesma cuvée des Célestins dez anos mais nova, safra 2000. Está mais vigoroso que o 1990 por ser mais jovem, mas a concentração e qualidade de safra, um pouco abaixo, como era de se esperar. Mesmo assim, 94 pontos Parker.

Agora vamos falar de Rayas e suas surpresas. Chateau Rayas é algo fora da curva em Chateauneuf-du-Pape. Sua delicadeza e elegância fazem dele o Borgonha da região. Elaborado com uvas 100% Grenache de parreiras antigas num terroir único na região. O vinhedo de solo predominantemente arenoso fica em meio a um bosque, onde os dias são quentes e as noites frias, provocando a bem-vinda amplitude térmica, preservando a acidez das uvas sem prejuízo para sua plena maturação. Com 97 pontos Parker, este Rayas 2005 estava uma loucura. Aromas sedutores com notas balsâmicas, de frutas em compota, especiarias finas e um toque terroso notável. Taninos sedosos, totalmente fundidos ao conjunto, e um final de rara harmonia. Sempre um prazer provar um Rayas!

A surpresa ficou para o último vinho,  Pignan 2006, o segundo vinho do Chateau Rayas. O nome vem de três pinheiros que circundam o bosque ao redor do vinhedo. São uvas também 100% Grenache da parte norte do vinhedo com parreiras antigas e uma pequena parte, mais jovens. O vinho passa cerca de 16 meses em toneis de carvalho. Este exemplar estava divino pela prontidão do vinho. Em relação ao Rayas 2005, parecia um mais antigo de grande safra como 1990. Uma grata surpresa, provando ser este chateau, talvez o maior mito da apelação. Grande fecho de prova!

um intruso bordalês …

No apagar das luzes, eis que surge um bordalês para deleite de todos. Simplesmente um Petrus 1959, minha safra, engarrafado por Négociant, fato corriqueiro à época. Já comentei outras vezes, mais do que uma grande safra de Petrus, é ter a oportunidade de aprecia-lo já desenvolvido, já evoluído, entendendo assim a grandeza deste vinho. Os aromas eram deliciosos com muita trufa negra, toques terrosos, fruta em licor, e notas de cacau. Em boca, um pouco cansado, mas extremamente harmonioso, com tudo no lugar. Não está no time de cima dos grandes 1959, mas tem uma elegância e imponência ímpares. 

img_5660Rolhas intactas

Um dos pratos escolhidos pelos confrades foi o Bollito Misto (foto acima), sempre bem executado no restaurante Gero. Agradecimentos a toda equipe liderada pelo carismático Maître Ismael, além do trabalho primoroso de sommellerie de Felipe Ferragone na abertura e serviço de todos os vinhos.

60 anos transformam tudo

Nesses dois exemplares acima de Yquem, percebemos a grandeza de vinhos ícones que marcam a história de uma apelação. É impressionante como Yquem se impõe aos demais Sauternes. Neste exemplar de 1943, as décadas o transformam em outro vinho. O equilíbrio de açúcar e acidez é divino, numa harmonia notável. As notas de caramelo, melaço, toques de resina, são precisas e bem delineadas. Boca harmoniosa, expansiva, e quase imortal. Seu par à direita, ainda está na fase infantil, com notas de mel e crème brûlée. Intenso e com grande potencial de guarda.

bela combinação

Finalmente, para encerrarmos a aula sobre Botrytis, nada melhor que um belo Tokaji Aszu Eszencia 1993. Esta classificação não existe mais atualmente. Aszu Eszencia tem uma concentração de Botrytis entre 7 e 8 puttonyos (medida em peso de uvas botrytisadas). Este ainda feito à moda antiga, tem aquele charmoso toque oxidativo, lembrando frutas secas e damascos. Sua doçura é perfeitamente equilibrada pela incrível acidez da uva Furmint. Disznókó é uma das mais reputadas vinícolas com vinhedos históricos na região. A safra de 1993 é altamente pontuada como neste caso, 95 pontos. O nível de doçura e a textura do pudim de pistache foi de encontro às características do vinho.

Depois de quinze belas garrafas devidamente selecionadas, só resta-me agradecer aos confrades pela imensa generosidade e companhia. Um adendo deve ser feito a nosso Presidente, Mr. Parkus. O homem está insuportável em suas aferições às cegas, matando todos os flights degustados com segurança e argumentações precisas. Por enquanto, estou tranquilo, pois graças a Deus, ele ainda não escreve nada. Viva o Presidente! Saúde a todos!

Leroy e DRC: a perfeição tem preço

8 de Fevereiro de 2019

Quando falamos da Borgonha em vinhos de alto nível, estamos falando de produtores pontuais, especialistas em suas respectivas comunas, as chamadas referências. Neste sentido, há grandes nomes com pontuações altíssimas na crítica especializada e uma consistência notável em várias safras. Contudo, há duas joias que se destacam dos demais. Domaine de La Romanée-Conti com seis Grands Crus irrepreensíveis e Madame Leroy, sobretudo seus vinhos de Domaine e os assombrosos Auvenay, seu Domaine particular.

Em grande jantar realizado no restaurante Fasano, uma série deles desfilaram para escoltar um menu com trufas negras. Para encorpar o time, alguns outros borgonhas fizeram companhia, além dos dois grandes Barolos da família Conterno: Monfortino e Aldo Conterno Granbussia.

img_5627quebra de hierarquia

Antes dos tintos, um trio de brancos aguçaram as papilas com alguns petiscos de entrada, ainda fora da mesa. A dupla acima mostra claramente que alguns produtores se destacam sobremaneira mesmo em terroirs hierarquicamente inferiores. Como comparar um Meursault com o todo poderoso Montrachet. Este 2010 de Louis Jadot tem 98 pontos e é um dos destaques da safra. Evidentemente um grande vinho, bem equilibrado, toques elegantes de barrica, mas não está no time de cima dos melhores Montrachets. Já o Meursault do Roulot é um vinho mágico. Este em particular é um Monopole chamado Clos des Bouchères 2012 com somente 1,37 hectare de vinhas. Um branco vibrante, um toque cítrico elegante, textura rica em boca sem ser pesado. Final persistente e harmonioso. Somente Coche-Dury para ombreá-lo. 

harmonização divina

Só mesmo o vinho acima para fazer esquecer Roulot. Este Domaine Leroy Corton-Charlemagne 2009 degustado várias vezes é um vinho a ser batido. Moldado pela Madame, tem uma textura rica e intensa. As pitangas, frutas secas, notas finamente tostadas sobressaem na taça. Desde sua entrada em boca com uma acidez refrescante, até sua persistência aromática intensa, é um branco sem defeitos. Tudo nele é rico e magnífico. Acompanhou divinamente o tartar de atum com foie gras (foto acima). 

img_5632longevidade para poucos

Começa a sequencia de tintos de forma arrasadora. Dois DRCs Romanée-St-Vivant antigos com dez anos separando as safras. O de safra 88 estava mais evoluído que seu par mais antigo, a começar pela cor. Este safra é classicamente um ano de taninos mais duros, difíceis de amadurecer plenamente. É um belo vinho, mas sem grandes emoções. Se estivesse sozinho, talvez tivesse brilhado mais. Deu azar pela comparação, pois o Romanée-St-Vivant 78 é um vinho mítico. Felizmente, degustado algumas vezes, é sempre grandioso. Seu aroma é um roseiral cheio de nuances e especiarias finas. A boca é um sonho com taninos de seda. Equilíbrio perfeito e um final de boca grandioso. Ainda encontra-se pleno em seu esplendor. Talvez seja um daqueles vinhos imortais. Segundo o próprio Henri Jayer, seu Richebourg 78  que vale uma pequena fortuna nos leilões, foi seu melhor vinho elaborado. Realmente, uma safra mítica!

img_5636Babette se renderia ao Richebourg

Neste embate de gigantes, surge o melhor Richebourg DRC que já provei, safra 90. Ele estava tão delicado que parecia feito pela Madame Leroy. Um vinho encantador com taninos delicados, aromas de carne, terroso, e especiarias doces. Consegue superar o La Tache 90, tarefa para poucos. Já o Clos Vougeot 90 da Madame, Babette não aprovaria. O vinho estava meio sem graça, sem o charme costumeiro deste Domaine. Pode até ser um problema de garrafa, mas estava meio blasé, embora sem defeitos.

Chambertin divino

A baixa da noite aconteceu neste flight acima. Domaine des Chezeaux elaborado pelo Domaine Ponsot estava turvo e com aromas bem estranhos, lembrando um daqueles Barolos rústicos. Pela densidade e concentração, parece ser um grande Chambertin, afinal tem 98 pontos. Contudo, certamente é um problema de garrafa. Fazendo um parêntese, Este Domaine des Chezeaux possui a maior área de vinhas do Grand Cru Griotte-Chambertin. Entretanto, ele delega a vinificação para o Domaine Ponsot com 0,89 hectare, e Domaine Rene Leclerc com 0,68 hectare. Um vinho a ser testado novamente.

Em compensação, Domaine Leroy Chambertin 1990 deu um banho de elegância. Dos Grands Crus do Domaine, só perder em exclusividade para o Musigny. Este Chambertin tem apenas meio hectare de vinhas. Não é o melhor dos Chambertin desta safra, mas a garrafa estava divina. Toda a delicadeza de aroma da Madame com notas de cerejas escuras, florais, madeira finamente tostada, e um fundo mineral sutil. É um vinho que prima mais pela elegância do que pela potência. Final equilibrado e super harmonioso. Um dos destaques da noite.

promessas de adega

Neste penúltimo flight, uma avaliação de longevidade. La Tache é sempre La Tache, um vinho charmoso, elegante, com seus toques orientais de incenso, especiarias finas, e notas terrosas. Embora não seja uma safra grandiosa, 2007 gera vinhos precoces e graciosos. Seu par Echezeaux do excelente Domaine Liger Belair respeitou a hierarquia, embora seja de uma safra brilhante, 2009. Muita fruta no nariz, aromas limpos e de grande pureza com notas florais e de alcaçuz. Em boca, seus taninos são finos, acidez equilibrada e ótima persistência aromática. Um vinho que merece adega por uns dez anos. No caso do La Tache, já está prazeroso, mas evolui com dignidade como é de se esperar de um vinho deste naipe.

img_5639Monfortino numa noite feliz!

No último flight, Barolos de outro planeta. Simplesmente, obras-primas da família Conterno. Aldo Conterno com seu Granbussia 2001 e Giacomo Conterno com o caríssimo Monfortino Riserva 1999. Este Monfortino estava tão elegante que parecia ter sido feito pelo Aldo. O vinho é possante com uma montanha de taninos super bem polidos. Foi o melhor Monfortino que já provei. Longo, persistente, e sem aquela costumeira nota de oxidação e extração excessiva que costuma ter neste mítico Barolo. Já o Granbussia não estava em grande forma, parecia um garrafa um pouco cansada. A próprio cor estava mais evoluída. No entanto, também um grande Barolo, mas sem o brilho costumeiro. As notas confirmam a superioridade do Monfortino com 98 pontos, contra 94 pontos do Granbussia.

trufas e La Mission

Para encerrar a orgia, um bordalês não podia faltar. E ele veio grandioso, La Mission Haut Brion 1998. Um Pessac-Léognan de peso, imponente, taninos densos e finos. Seus aromas de chocolate, couro, estrabaria, e toques de tabaco. Boca harmônica, grandiosa, e de longa persistência. Tem 98 pontos Parker e um dos destaques desta safra. O pessoal nesta altura do campeonato nem deu muita bola pra ele. Ainda bem que não fui na conversa deles. Coloquei o DRC Saint Vivant  1978 logo de cara. Esse eles vão lembrar para sempre.

Quanto ao Fasano, destaque para toda equipe, especialmente o maître Almir Paiva e o competente sommelier Fábio Lima, sempre muito preciso. Todos os pratos do menu com pratos trufados acompanharam bem os vinhos, executados com maestria pelo Chef Luca Gozzani. Destaques para os pratos fotografados pela ordem: ovo crocante com funghi porcini, costeletas de cordeiro com molho do próprio assado, e pastel com queijo taleggio. 

Agradecimentos a todos os confrades presentes numa noite muito animada. Os vinhos escolhidos sempre com imensa generosidade ratificaram um jantar inesquecível. Mais uma vez, muito honrado em ser sommelier deste grupo de craques que não tomam vinhos caros para exibição, e sim pelo profundo conhecimento do grupo. 2019 promete, sempre com a proteção de Bacco! Saúde a todos!

Burgundy Cellar

5 de Fevereiro de 2019

A importação de vinhos no Brasil deveria ter mais Amauris de Faria. Homem refinado com vasta experiência de mesa e copo. Escolhe vinhos para Cellar, sua importadora sem sócios, graças a Deus, como se os escolhessem para beber. Com seu extremo bom gosto, basta este único critério. Se ofende com descontos, pois seus preços são absolutamente justos. Não tem aquela pegadinha infame de por uma gordurinha a mais para dar uma de bonzinho depois. Muito de seus vinhos são como Ferrari. Não se discute preço, apenas se escolhe o modelo.

Num jantar extremamente prazeroso, ele nos brindou com algumas surpresas bem instigantes, saindo do óbvio. Sutilmente, uma pequena aula de Borgonha. Antes porém, nada como um belo champagne para iniciar os trabalhos.

img_5598Blanc de Blancs com estilo

Larmandier-Bernier é um produtor artesanal e biodinâmico com 16 hectares de vinhas na Côte des Blancs, por excelência terroir de Chardonnay. Esta é uma cuvée especial só com vinhedos Grand Cru de idade avançada, entre 50 e 80 anos. O vinho-base, boa parte é vinificado em madeira inerte com longo trabalho sur lies. Este trabalho continua com a prise de mousse, onde permanece nas caves pelo menos sete anos, antes do dégorgement. Portanto, estamos falando de um Blanc de Blancs Millésime. A safra 2009 foi generosa com uma riqueza de fruta extraordinária. Pelas características acima, trata-se de um champagne cremoso, generoso, e altamente gastronômico. Por sua classe e equilíbrio, merece pratos de aves ou frutos do mar com alto refinamento. Uma galinha d´angola (pintade) com creme de morilles seria perfeito.

bela dobradinha!

Em seguida, uma dupla adorável de Borgonhas de apelações mais simples, extremamente indicada para o dia a dia. A apelação Saint-Romain esta fora do circuito das badalações, uma reentrância acima de Auxey-Duresse, próximo a Meursault. Um branco com ótimo poder de fruta, aliado a um trabalho exemplar de barricas. Na ótima safra 2015, um branco muito agradável aromaticamente, bem equilibrado, e com uma persistência surpreendente para um nível de vinho, teoricamente simples. 

Passando ao tinto, estamos falando de um Borgonha genérico elaborado e engarrafado pelo produtor, Michel Magnien, especialista nas comunas de Morey-St-Denis e Chambertin. Portanto, estamos falando de uvas da Côte de Nuits, a melhor área da Borgonha para Pinot Noir. Novamente a safra 2015 com seu esplendor de frutas. Um tinto delicado, elegante, e muito bem equilibrado em todos os quesitos. Por 160 reais, não vale a pena se arriscar em aventuras perigosas na ofertas de Pinot Noir sem expressão.

harmonização divina!

Aqui, o ponto alto do jantar com belos pratos na Trattoria Fasano. Este carpaccio de Namorado com temperos delicados e flor de sal, combinou maravilhosamente com o Chablis Grand Cru do vinhedo Les Preuses 2016 do Domaine Fèvre. São somente 4500 garrafas por safra de uma área de vinhas de 2,3 hectares, plantadas entre 1950 e 1973. O vinho tem um mix de aço inox com barricas de extremo refinamento. A mineralidade aflora tanto nos aromas, acompanhando lindos toques florais, como na salinidade em boca. Agudo, incisivo, com um frescor notável. Bela pedida para este verão insolente. 

img_5603Sancerre de estilo próprio

Neste último branco, Alphonse Mellot mostra um estilo próprio, sobretudo nesta cuvée Edmond. Os vinhedos somam seis hectares com idade entre 40 e 87 anos, em solos de marga pedregoso e subsolo Kimmeridgiano, o mesmo solo de Chablis com fosseis marinhos, também chamado de Virgule. É um Sancerre trabalhado em barricas de diferentes idades e tamanhos com longo contato sur lies. Portanto, trata-se de um Sancerre macio, com nuances de madeira, e sabores refinados. Um Sancerre feito à moda borgonhesa. Por ser muito gastronômico, fica ideal com ostras gratinadas e temperos sutis.

sutilezas à mesa

Passando agora aos tintos, toda a sutileza da Côte de Nuits no terroir de Vosne-Romanée. Este Premier Cru Les Beaux Monts fica na parte alta entre os Grands Crus Richebourg e Echezeaux. O vinhedo de solo pedregoso tem alta densidade com dez mil pés por hectare. As uvas são vinificadas parcialmente com engaço e o amadurecimento é feito em barricas 50% novas, de 15 a 18 meses. O resultado é um vinho elegante e sedutor. Taninos refinados e um equilíbrio perfeito entre álcool e acidez. Acompanhou divinamente esta costeleta à milanesa com tagliolini na manteiga de sálvia (foto acima). 

0a86f97d-9e30-4000-8675-f18a775b0671o brilho de um Grand Cru

Passando a régua, um brilhante Grand Cru de Vosne-Romanée, um Richebourg da ótima safra 2005. O que impressiona neste vinho é sua prontidão com todos os terciários de um Borgonha envelhecido de grande classe. Sous-bois, ervas finas, notas de caça, especiarias delicadas, e outros aromas maravilhosos. Thibault Liger-Belair possui este vinhedo na parte histórica, original,  da área de Richebourg. São apenas meio hectare de vinhas plantadas entre 1931 e 1936. A vinificação é feita parcialmente com engaço (30%) e o trabalho com madeira, extremamente criterioso. São 18 a 24 meses em barricas, sendo 60% novas. Pela cor (foto acima), percebemos a riqueza deste tinto com quase quinze anos de vida. Equilíbrio, elegância e longa persistência, resumem bem sua essência e complexidade. Um belo fecho de refeição!

Enfim, acho que o desfile de vinhos acima definem bem os critérios de Amauri de Faria. Seu amor pela França, sua paciência em garimpar preciosidades no mosaico bourguignon, conhecendo os atalhos onde pode-se perder facilmente, acaba sendo tarefa para poucos que ele não delega a ninguém. Sempre um privilégio partilhar de sua companhia. Que Bacco continue te iluminando!

California Dreams

3 de Fevereiro de 2019

Em mais uma reunião da confraria, o almoço no ótimo restaurante de carnes Varanda Grill, foi regado com alguns cult wines de Napa Valley. Parte deles, como Cabernet Sauvignon puro, e os demais como cortes bordaleses. Nas duas versões, os americanos mostram que entendem do assunto, cumprindo bem a função de digerir a fibrosidade de alguns cortes nobres com seus poderosos e finos taninos.

 

uma festa para bons taninos!

Os cortes acima, miolo de alcatra e fraldinha, entre outros que desfilaram, mostraram ótima suculência para abrandar taninos, um dos componentes do vinho de maior conflito em harmonizações.

Antes porém, uma pausa para refrescar este impiedoso verão. Chardonnay e Sauvignon Blanc americanos.

img_5616uvas bem interpretadas com tipicidade

O Chardonnay à esquerda, pertence à região da Costa Central, beirando o litoral californiano, a sul de Napa Valley, a caminho de Los Angeles. Região de altitude em Santa Bárbara que compreende as AVAs: Santa Rita Hills, Santa Ynes Valley, e Santa Maria Valley. Trabalham muito bem as uvas Chardonnay e Pinot Noir. Neste exemplar, o vinho passa 10 meses em barricas com baixa porcentagem de madeira nova. A fruta está bem presente, o vinho tem frescor e equilíbrio. Os aromas são elegantes, lembrando algo da Borgonha.

O vinho da direita é um belo Sauvignon Blanc do histórico vinhedo Eisele, propriedade de Araujo Estate. Como curiosidade eles trabalham com um clone exótico de Sauvignon Blanc denominado “Musque”. O vinho tem um mix de aço inox, barricas usadas e uma pequena porcentagem de novas. Como estilo, fica no meio termo entre um Sancerre do Loire e um Bordeaux blanc. Fresco e muito instigante.

img_5614históricos vinhedos de Napa

O vinho da esquerda é do histórico vinhedo Eisele em Calistoga, extremo norte de Napa Valley. Pela lei americana, um vinho com mais de 85% de uma determinada uva é considerado varietal e pode colocar o nome da uva no rótulo. Neste caso, temos 93% Cabernet Sauvignon, 4% Cabernet Franc, e 3% Petit Verdot. O vinho passa 22 meses em barricas francesas, sendo 75% novas. Vinho de muita estrutura, sem sinais de decadência e com boa vida ainda em adega. 92 pontos Parker.

Enfim, o primeiro 100 pontos do almoço, Abreu Madrona Ranch 1997. Talvez o melhor Abreu de toda a história. Tinto complexo, elegante, cheio de nuances. Madrona Ranch é um vinhedo histórico da AVA Santa Helena, mesclando uvas bordalesas. Neste corte temos 50% de Cabernet Sauvignon, 35 a 40% de Cabernet Franc, o que explica a elegância do vinho, e uma pequena porcentagem de Merlot e Petit Verdot. O vinho passa 24 meses em barricas francesas novas. Um Bordeaux de primeira classe. Foi páreo duríssimo para o Dominus 1994, que será comentado a seguir.

img_5613200 pontos na mesa

O ponto alto do almoço. Se existe perfeição em Napa Valley, ei-la aqui. Harlan Estate é um corte bordalês de alta classe. Com cerca de 80% Cabernet Sauvignon, e o restante com Merlot e Cabernet Franc, é um autêntico margem esquerda. Esse da safra 97 é um dos mais perfeitos Harlans. Tem potência e elegância num nível absurdo. É profundo e de longa persistência. Enquanto o Abreu descrito acima encontra-se no auge de sua evolução, este Harlan ainda tem chão pela frente, embora já delicioso.

Já o vinho da esquerda, é a perfeição num Cabernet Sauvignon puro. A safra 97 foi uma das históricas da vinícola boutique Screaming Eagle com produção limitadíssima. A potência e a montanha de taninos que esse vinho apresenta consegue ter a mesma dimensão na textura cremosa de seus taninos. Um tinto impactante que tem força para te esmagar, mas no entanto te dá um abraço carinhoso. Espetacular!

img_5615estilos opostos

Este foi sem dúvida, o painel mais contrastante em termos de estilo de vinho. Dominus 94 é um vinho praticamente perfeito com 99 pontos Parker. O ícone dos cortes bordaleses de Napa com 70% Cabernet Sauvignon e o restante entre Merlot e Cabernet Franc. Um vinho inteiro, cheio de charme e elegância. Embora com um pouco mais de estrutura que o Abreu 97 acima comentado, ainda tem alguns anos para atingir o pleno apogeu. Os vinhedos da Dominus estão na AVA Yountville, divisa de comuna com Oakville.

Já o Colgin Herb Lamb 1994 foi o vinho menos evoluído do painel com um rubi profundo na tonalidade de cor. Um Cabernet austero, potente, e bem casado com a madeira. Precisa de decantação, pois de início pareceu um pouco fechado. Aguenta fácil mais uns dez anos em adega, mostrando o potencial de longevidade destes grandes tintos de Napa. 96 pontos Parker. Os vinhedos da Colgin estão na AVA Santa Helena.

img_5617sete anos depois …

Não é foto repetida não. Foi mais um flight desta estupenda dupla de tintos sete anos mais nova com a safra 2004. Não temos mais 200 pontos na mesa, mas o nível continua altíssimo. Este Screaming Eagle 2004 tem 97+ pontos de Parker. A novidade é que apesar de ainda ser um Cabernet Sauvignon em sua essência (85%), temos um pouco de Merlot e Cabernet Franc. A profundidade de sabor e a elegância de taninos continuam notáveis. Evidentemente pela juventude, ainda tem bons anos em adega.

Passando ao Harlan Estate 2004, um monstro engarrafado com 98 pontos Parker. É de uma riqueza e elegância excepcionais. Fica difícil julga-lo neste momento, mas seu equilíbrio, estrutura de taninos, seu poder de fruta, são arrasadores. Seu apogeu ainda está longe, mas será um dos grandes Harlans memoráveis.

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AVA Oakville

O mapa acima mostra a AVA (American Viticultural Area) de  Oakville, uma espécie de Denominação de Origem americana. Assim como temos as comunas de  St-Estèphe, Pauillac, St Julien e Margaux em Bordeaux,  em Napa temos Rutherford, Oakville, Santa Helena e Stag´s Leap. A atenção especial a Oakville vem do fato de ser o distrito que abriga as vinícolas Harlan e Screaming Eagle em lados oposto do vale. Harlan Estate do lado esquerdo do mapa, junto ao conjunto de montanhas Mayacamas, tem um solo aluvial, bem drenado, proporcionando vinhos elegantes e com bom potencial de guarda. Já o lado leste de Screaming Eagle, junto as montanhas Vaca, tem um solo mais pesado de origem vulcânica e um clima mais quente, proporcionando vinhos de grande caráter e potência. Acho que isso explica bem a diferença destes dois ícones americanos, embora grandiosos em seus respectivos estilos.

img_5612join venture famosa de Napa

Opus One foi uma jogada de mestre do carismático Robert Mondavi, unindo-se ao Baron Rothschild para produzir um dos mais icônicos tintos de Napa Valley. Este 2007 provado é um dos melhores de todas as safras já produzidas. Ainda jovem, tem uma boa trama tânica, bem equilibrado, e bem dosado nos seus 19 meses de barricas francesas novas. Tem 95 pontos Parker e é composto de 79% Cabernet Sauvignon, 8% Merlot, 6% Cabernet Franc, 6% Petit Verdot e 1% Malbec.

Já o Opus One 1997 é um vinho pronto, muito agradável no momento, bem equilibrado, tendo todos os terciários de um corte bordalês. Embora seja um dos grandes de Napa, não foi páreo para o time de cima como Harlan e Screaming Eagle. Este exemplar tem 88 pontos Parker. Opus One pertence à AVA Oakville.

 

garrafa magnum e bife de tira

Este tinto apresentado em Magnum, foi dos menos empolgantes do painel. Hundred Acre é uma das vinícolas boutique mais badaladas na atualidade, pertencente à AVA Santa Helena. Este Cabernet Sauvignon do vinhedo Ark safra 2007 não despertou paixões, embora bastante macio e pronto para ser apreciado. Faltou um pouco mais de estrutura e classe para chegar ao nível dos demais. Como curiosidade, valeu a experiência, mostrando que devemos ter cuidado em separar o joio do trigo. Muitas vezes a publicidade e o influente lobby do vinho fala mais alto que a verdade na taça.

Enfim, fica mais uma vez ratificado que os cult wines de Napa são vinhos de grande prestígio, de grande poder de longevidade, a despeito de preços estratosféricos como Harlan e Screaming Eagle. A diversidade de marcas e estilos enriqueceu o painel, mostrando que a confraria voltou com força total para 2019. Agradecimentos a todos pela generosidade, a boa conversa, e o entusiasmo por sempre estarmos presentes e compartilhando histórias. Que Bacco nos proteja!

 

1945, o ano da Vitória!

19 de Janeiro de 2019

Só os vitoriosos nascem em 45, final da segunda guerra mundial, ano de criação da ONU, última safra do Romanée-Conti de parreiras pré-filoxeras com pouco mais de 600 garrafas elaboradas, além do maior dos Moutons elaborados até hoje.

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hoje é dia de maldade!

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Double Magnuns enfileiradas

Um dos confrades, nosso Professore, assim chamado carinhosamente, é um desses vitoriosos com uma carreira brilhante e muita história para contar e nos ensinar. Num almoço memorável, talvez na mais bela cobertura dos Jardins, desfilaram várias Double Magnuns de grandes Chateaux, inclusive uma 1945 em sua homenagem.     

Jamón de Bellota com Jacques Selosse

Começando a farra, uma seleção dos melhores Lieux-Dits de Jacques Selosse,  enólogo e proprietário que revolucionou a região de Champagne como produtor individual de destaque. Na cola dele, vieram outros tantos que fazem sucesso atualmente. Ele está para a excelência de produtor individual na região, assim como Gravner está para os vinhos laranjas. Resumindo, referência absoluta.

Jacques Selosse servidos:

  • Initial (champagne de entrada da Maison. Um Blanc de Blancs de muita pureza e frescor).
  • Lieu-Dit Les Carelles (um Blanc de Blancs de Mesnil sur Oger, o suprassumo da Côte de Blancs de extrema mineralidade).
  • Lieu-Dit Mareuil sur Aÿ (um Pinot Noir delicado e elegante).
  • Selosse V.O. (Version Originale, um blanc de Blancs de estilo oxidativo com safras mais antigas)

Tudo isso para entreter os convivas, acompanhando um Jamón cirurgicamente cortado in loco com a devida técnica espanhola. A peça tinha 60 meses de cura, tempo suficiente para sabores e aromas perfeitamente desenvolvidos. Um autêntico Pata Negra!

um dos Lieux-Dits

Já à mesa, seguiu-se um lauto almoço, numa sequência de pratos e vinhos muito bem arquitetada. Somente formatos Double Magnum de grandes safras e chateaux.

Doisy-Daëne 2001 – 95 pts com Foie Gras

A safra dispensa comentários, uma das históricas na região de Sauternes. Este produtor remete inexoravelmente ao professor Denis Dubourdieu, falecido recentemente, uma das maiores autoridades em vinhos bordaleses, sobretudo. A propriedade é da família. Com vinhedos localizados em Barsac, por questões de solo, elabora Sauternes delicados e de muita elegância. Um acompanhamento quase covarde com foie gras de entrada e bolo de pistache com creme ingles e ninho de caramelo na sobremesa. Não tinha como dar errado.

Montrachet Henri Boillot 2009 com Robalo, bottarga e champignos

Ele não é proprietário de vinhas nesta apelação, mas Henri Boillot faz um Montrachet elegante, de acordo com suas raízes em Puligny-Montrachet. Esta safra precoce e generosa mostra fruta exuberante e um trabalho notável com a barrica. Perfeita harmonia e equilíbrio. O robalo com bottarga e champignons complementou muito bem os sabores do vinho.

 Gruaud-Larose 1945 – 96 pts e trufas negras

Este chateau é um dos destaques na histórica safra de 1945 com vinhos memoráveis e altamente disputados em leilões mundo afora. O vinho estava um pouco cansado, mas sem nenhum defeito. Um nariz nobre de Bordeaux evoluído onde o tabaco, finos tostados e toques balsâmicos, se destacavam. Um tinto de 74 anos que mostra claramente tratar-se de uma safra excepcional e de um extrato fabuloso. Uma bela homenagem a nosso aniversariante e anfitrião. O tagliolini com trufas negras frescas só valorizou ainda mais o vinho. Ponto alto do almoço!

DRC Romanée-Saint-Vivant 1983 – coelho com risoto

Num almoço desses tinha que aparecer um DRC, preferencialmente pronto e evoluído. Este Romanée-Saint-Vivant 1983 cumpriu bem a missão. Taninos estruturados e resolvidos, boca macia, e os aromas de um grand Vosne-Romanée. Toques terrosos, de sous-bois, e de flores secas, permeavam a taça. Um demonstração de força e elegância muito bem balanceadas. Um saboroso coelho com risoto tinha a força exata para o vinho.

Chateau Ducru-Beaucaillou 1982 – 96 pts e Kobe Beef

Referência da comuna de Saint-Julien, Ducru-Beaucaillou prima pela elegância e altivez. Lembrado por Parker como Lafite de Saint-Julien, este 82 estava um espetáculo. Provalvemente pelo formato (double magnum), ainda tinha taninos a resolver. Uma estrutura de boca fantástica com taninos finos, acidez vibrante, e longa persistência final. Bem adegado, ainda vai longe e ratifica porque 1982 é uma das maiores safras do século XX. Um tenro Kobe Beef enalteceu a nobreza do vinho.          

Petrus 1976 – 92 pts em double magnum

Passando a régua, um Gran Finale com o maior de Pomerol, rei Petrus na mesa safra 1976. Mais do que uma safra notável, o segredo de tomar um bom Petrus é ele estar evoluído, maduro, sem a sisudez que lhe é peculiar. Algo terroso e de trufas, um lado mineral importante, e taninos bem delineados, formaram um belo conjunto deste mito bordalês. 

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Porto Croft Vintage 1960 – duas garrafas, duas histórias

Com uma bela seleção de queijos, um Vintage maduro se fez presente, Croft 1960. No alto de seus 58 anos, o Vintage se transforma em algo gracioso, perdendo aquele poder e potência da juventude. Seus aromas são mais etéreos, toques florais aparecem, e a boca incrivelmente sedosa. Aquela geleia de frutas da juventude muda para frutas em licor. Coisas que só a idade e o tempo são capazes de transformar. Vale a nota da diferença entre garrafas. Uma mais evoluída que a outra, mostrando que em vinhos antigos não existem garrafas iguais.

fecho de ouro

Para os mais insistentes, um Havana ao cair da tarde encerrando as conversas. Marc DRC 1991, uma Grappa de luxo, como diriam os italianos. O figurado H. Upmann Reserva, um tabaco envelhecido do excepcional terroir de Vuelta Abajo, Cuba, estava à altura da Eau-de-Vie.

Todas as bênçãos do mundo ao nosso aniversariante, anfitrião impecável, e daqueles amigos que a gente não esquece. Vida longa com muitas comemorações como esta. Em nome de todos os presentes, agradecimentos eternos. Viva 1945!

Verão na Borgonha

12 de Janeiro de 2019

Começando os trabalhos no Ano Novo, a confraria se reuniu em temperaturas altas no restaurante Bela Sintra, Jardins. Clamando por vinhos mais refrescantes, é dada a largada com três Chablis de estilos diferentes, mostrando uma faceta única da Chardonnay no extremo norte da Borgonha.

tudo que se espera de um Chablis

Chablis não é fácil porque não é óbvio. É como a Gisele Bündchen. Sua beleza não está em traços perfeitos, mas sim num conjunto de olhar e personalidade marcantes. É isso, Chablis é cortante, mineral, agudo, sem rodeios, e um grande parceiro de ostras e frutos do mar in natura. Raveneau e Dauvissat são ortodoxos, personificam este estilo sem concessões. Este Grand Cru da foto acima da estupenda safra 2002 tem 98 pontos com louvor e pelo menos mais dez anos em adega. Uma aula de Chablis.

outros estilos

Continuando na rota dos Grands Crus, mais dois Chablis de estilos diferentes. Billaud-Simon à esquerda, excelente produtor, faz um Chablis puro, floral, com mineralidade, mas sem o impacto de Raveneau. Ele é mais macio, mais condescendente, mais fácil de gostar. Muito equilibrado, tem um público cativo. Já Drouhin à direita, um Chablis bem mais redondo, um toque de barrica, mais aromático, acidez mais atenuada, lembrando um pouco, um branco de Beaune. Tem seus adeptos, mas foge de sua essência.

IMG_5529terroirs distintos, mas fascinantes

Deixando Chablis, vamos ao sul da Côte d´Or, em busca dos brancos de Beaune. Um embate extremamente didático de um grande produtor numa bela safra como 2010. Comtes Lafon faz Meursault à perfeição com um didatismo de livro. Na comparação, já a cor é mais rica que o Montrachet. Seus aromas são mais óbvios e intensos. Em boca, a opulência da comuna, a maciez, os toques amendoados e amanteigados, quase gorduroso. Já o grande Montrachet, muito mais tenso, mais reservado, dono de uma acidez altiva e um equilíbrio dos grandes vinhos. Ainda em evolução, será certamente um dos grandes Montrachets desta safra. Por hora, Meursault-Charmes é realmente um charme e sedução. Não há vencedores.

pratos entre vinhos

Entre uma conversa e outra, alguns pratos do almoço escoltando os vinhos. A salada de bacalhau com grão-de-bico ficou bem apropriada para a dupla de brancos de Comtes Lafon (Montrachet e Meursault), enquanto o ensopado de cordeiro com arroz do próprio molho acompanharam bem os bordadeses (Margaux e Pauillac). Vinhos comentados abaixo.

IMG_5530não é fácil peitar Rousseau!

Sem dúvida, a disputa mais surpreendente do almoço, já entrando nos tintos da Borgonha. A safra 2015 dispensa comentários com praticamente 200 pontos na mesa. O Chambertin estava mais jovem na cor com lindos reflexos violáceos. Um nariz delicado, floral, confirmando na boca taninos sedosos e uma estrutura delicada. Tudo indicava ser um Vosne-Romanée. Enquanto isso, La Romanée à direita, mais evoluído em cor e nariz, já com alguns aromas complexos, algo terroso mais marcante. Boca mais potente que seu oponente com taninos presentes, embora muito finos. Longa persistência e com muito a evoluir, mostrou de fato porque é um nota 100. Desbancou Rousseau quase que por nocaute.

A propósito, La Romanée tem alcançado notas altíssimas nas últimas safras, tentando desbancar o mito Romanée-Conti, literalmente seu vizinho. Sua área de vinhas de menos de um hectare, um verdadeiro jardim, é praticamente a metade de seu oponente. Uma briga de titãs!

IMG_5533hierarquia e safra são importantes!

O fecho do almoço tinha que ser bordalês em outra disputa extremamente didática. Do lado de Pauillac, Duhart-Milon 2001, um Grand Cru Classé fora do primeiro escalão. Tendo em conta uma safra mais precoce, este tinto tinha todo os terciários de Pauillac desenvolvidos com tabaco, ervas, e toques animais no aroma. Boca bem resolvida com taninos totalmente polimerizados. Já o grande Margaux, mostra que a evolução de Premier é bem mais lenta, sobretudo na sisuda safra de 1986. Um tinto que beira a perfeição, mas ainda está longe dela. Precisa de mais tempo em garrafa para desenvolver aromas e amaciar taninos. No momento, sua decantação é obrigatória. 

a complexa rotulagem alemã

Na hora da sobremesa, um Riesling alemão apareceu para compor o quadro. Normalmente, a doçaria portuguesa é bem carregada no açúcar, dificultando um pouco a harmonização. Entretanto, a Sericaia do Alentejo, um pudim delicado à base de leite e ovos, é muito bem executada no Bela Sintra, e seu açúcar residual é bem mais comedido. Foi uma das chaves para uma boa harmonização com o vinho, o qual tem açúcar residual perceptível, mas sem exageros, sobretudo por sua incrível acidez para contrabalançar. 

Markus Molitor é um dos mais respeitados produtores do Mosel com um código próprio na cápsula de seus vinhos. A cápsula branca indica um vinho mais seco ou menos doce, a cápusla esverdeada com um nível acima de açúcar, e finalmente a cápsula dourada, definitivamente doce. Mas as armadilhas não param por aí. Neste rótulo acima de cápsula branca, teoricamente menos doce, existe outra classificação de um a três asteriscos (***), indicando crescente nível de maturação da uva e consequentemente de açúcares. Realmente, é difícil entender os alemães. Para completar, Auslese é um grau de doçura intermediária entre o Kabinett e Trockenbeerenauslese.

IMG_5536uma das grandes eaux-de vies!

Passando a régua, uma linda homenagem de Manoel Beato a mim com este Bas-Armagnac maravilhoso datado com minha safra de 1959. Para completar, depois de longa tempo em madeira, foi engarrafado em 1987, ano de nascimento de minha única filha, para comercialização. Só o lado emocional, já vale a experiência. Contudo, sendo o mais técnico possível, é uma aguardente primorosa em seus aromas, profundidade, e equilíbrio. Coisas que só tempo molda à perfeição. Obrigado amigo!

Enfim, está dada a largada 2019 em busca dos melhores vinhos. Que a frequência dos confrades seja a mais intensa possível, aumentando nossos números ano a ano. Obrigado a todos pelo carinho e generosidade, vislumbrando grandes encontros em breve. Saúde a todos!

Vosne-Romanée e seus Mistérios

24 de Dezembro de 2018

Encerrando o ano, alguns tintos de Vosne-Romanée com a assinatura DRC. E para ficar tudo em casa, um Corton-Charlemagne Domaine Leroy abrindo os trabalhos. O vinho safra 2011 estava maravilhoso com frutas exóticas como caju, bem casadas com toques tostados e de frutas secas. A produção destes vinhos é irrisória. Este Corton possui uma área de vinhas antigas de apenas 0,4325 ha, ou seja, menos de meio hectare. Isso é exclusividade!

entradinhas com o branco

Para falarmos dos DRCs, vamos recordar os vinhedos no mapa abaixo. Se o mapa da Borgonha fosse um alvo, os Grands Crus abaixo seriam a mosca. Aqui existe a conjunção perfeita do terroir: as melhores altitudes, as melhores composições de solo, as melhores declividades do terreno, entre outros fatores imponderáveis. O centro gravitacional de todos eles é o mítico Romanée-Conti.

IMG_5460a mosca do alvo

Os vinhos da foto abaixo, início da degustação, são de vinhedos que ficam à direita do mapa acima na comuna de Flagey-Echezeaux, mostrados no mapa abaixo. Sutilezas do mosaico bourguignon. 

Os vinhos degustados beiram a perfeição com notas acima de 95 pontos na estupenda safra de 1990. O Echezeaux é sempre o mais amável dos Grands Crus do Domaine. Muita elegância, taninos dóceis, e os aromas de rosas e sous-bois. Já o Grands-Echezeaux, sempre mais sisudo, mais austero, com acidez alta, precisando de tempo em taça. Seu terroir bem mais restrito que Echezeaux em área, fica no limite superior das vinhas de Clos de Vougeot, em terras mais altas. O Domaine possui cerca de 40% de toda a apelação Grands-Echezeaux, ou seja, pouco mais de 3,5 hectares.

IMG_5449sutilezas de terroir

Embora os nomes sejam parecidos e os vinhedos contíguos, Echezeaux e Grands-Echezeaux apresentam grandes diferenças de terroir e estilos. Depois do Grand Cru Clos Vougeot, Echezeaux é o maior Grand Cru em área com pouco mais de 35 hectares, dividido em 11 parcelas e vários proprietários. 

IMG_5461as várias parcelas de Echezeaux

Os vinhos abaixo são do mesmo vinhedo e mesma safra, porém procedências diferentes. Embora não seja uma safra tão antiga, já se percebe claramente o quão importante é o histórico das garrafas e sua real legitimidade. Uma delas estava maravilhosa, só perdendo para o vinho do almoço, La Tache 85, que comentaremos a seguir. A outra garrafa foi decepcionante, sem mostrar complexidade e até um certo desequilíbrio. Enfim, o bom St Vivant com seus toques florais, terrosos, e de torrefação, encantaram os confrades.

IMG_5454duas garrafas, dois destinos

O Richebourg 90, foto abaixo, sempre se mostra um pouco misterioso, mas com uma estrutura fantástica de taninos. Um certo toque de couro, de carne, permeia seus aromas. Foi um belo parceiro para um dos pratos do almoço, o clássico Bollito Misto, especialidade de carnes cozidas de origem piemontesa, magistralmente executada pelo restaurante Gero. É só não abusar da mostarda de Cremona na harmonização.

bollito misto

A foto abaixo já diz tudo, um dos maiores vinhedos sobre a Terra. Servido às cegas, já nos aromas mostra que estamos diante de uma obra-prima. A complexidade, a delicadeza, a harmonia de seus aromas, faz deste La Tache na estupenda safra 85, um dos grandes borgonhas de todos os tempos. Boca harmoniosa, expansiva, super bem balanceada. Fica difícil tomar algo depois deste néctar. Acho que o 99 pode supera-lo com o devido tempo. Por hora, este 85 reina absoluto. 

IMG_5448a perfeição existe!

Após um vinho deste naipe, a sobremesa não podia cair de nível. Aliás, as sobremesas. Sim, porque existiam dois grandes vinhos para encerrar as conversas, fotos abaixo. O primeiro, o grande Yquem 1953, safra rara, homenageando um dos confrades. Os Yquems antigos sempre ganham um caramelo gostoso e algo de marron-glacê, perdendo um pouco a potência e ganhando complexidade. Foi muito bem com o pudim de pistache, compartilhando aromas e sabores. As texturas cremosas de ambos também casaram bem. Propositalmente, não houve calda no pudim, deixando a doçura e a untuosidade do vinho fazer este papel.

IMG_5457embate de gigantes!

O vinho da direita é um raro Trockenbereenauslese alemão de Rheinhessen com uvas quase extintas, Huxelrebe e Sieger. A primeira, Huxelrebe, é uma uva branca de alta acidez, propícia a este tipo de vinho. A segunda, Sieger, também conhecida como Siegerrebe é uma uva rosada, parente da Gewurztraminer, muito aromática. Restam poucos hectares na Alemanha com o cultivo destas duas uvas “old school”. 

O vinho totalmente evoluído, apresenta um cor quase negra, lembrando um Pedro Ximenez ou aqueles Tokaji Eszencia bastante antigo. No aroma lembra um pouco o Pedro Ximenez com intensos aromas de figada e bananada. Em boca, é bem menos untuoso, mas com altíssima acidez. Aí sim, lembrando um grande Tokaji. Enfim, um vinho raro, altamente equilibrado, e com persistência bastante expansiva em boca. Foi muito bem com um folhado de bananas do restaurante Gero, reverberando todos seus sabores maravilhosos.

sobremesas sincronizadas

Aproveitando o fim de tarde maravilhoso, uma pausa para os Puros, fechando as últimas conversas. Em cena, o Cohiba Maduro 5, um charuto de grande fortaleza, não indicado para iniciantes. Para refrescar e não propriamente harmonizar, um refrescante Fitzgerald, drink clássico à base de Gim com toques cítricos e leve amargor (angostura).

acompanhamento refrescante

Como último almoço do ano, não poderia ser melhor, tanto vinhos, como companhia. Agradecimentos a todos pela imensurável generosidade e espírito de companheirismo desta confraria, fechando com chave de ouro o ano de 2018. Que 2019 seja tão prazeroso e ainda mais desafiador. Saúde a todos e Boas Festas!

Petrus: a Chave para o Paraíso

1 de Dezembro de 2018

Não está explícito, mas o rótulo mostra a chave do céu. Degustar Petrus é sempre um momento de tensão onde a disputa (esplendor x expectativa) ganha proporções monumentais. De fato, um dos Bordeaux mais caros da história, valendo milhares de dólares uma garrafa, se espera sempre fogos de artifício. 

Embora Petrus seja elaborado quase exclusivamente com uvas Merlot, seu terroir proporciona vinhos de grande estrutura de taninos, capazes de envelhecer por décadas, sobretudo nas grandes safras. É um tinto geralmente fechado na juventude que lentamente vai adquirindo evolução em garrafa. Seu apogeu ocorre com pelo menos dez, quinze anos de safra. Nos grandes anos, esse tempo pode facilmente dobrar.

Para entender melhor este intrincado terroir, favor acessar link deste blog Petrus e a Argila Azul

Além do link, o vidéo abaixo ajuda elucidar o assunto.

Numa degustação memorável na Trattoria Fasano, algumas raras garrafas de Petrus envelhecido desfilaram pelas taças em cinco flights didaticamente escolhidos, mostrando vários estilos e períodos diferentes de evolução.

img_5372uma década de evolução

Embora 11 anos os separem, o 88 tem cores mais intensas na taça. Parece menos evoluído, com muita mineralidade, e uma montanha de taninos. Deve ser obrigatoriamente decantado por duas horas. Talvez a nota um pouco menor que o 99 de Parker deva-se a uma excessiva extração na vinificação. Já o 99 mais jovem, é muito mais prazeroso. Seus taninos são dóceis e sedosos. Muita fruta no aroma, num momento ótimo para ser apreciado. Um belo começo com esse 99 surpreendendo a todos.

img_5373a complicada década de 70

Este flight mostra claramente o quão longevo são os grandes terroirs como Petrus. Vinhos de anos complicados, já envelhecidos, mais de 40 anos, e ainda assim deliciosos e interessantes. O 76 segue o estilo do prazer como 99. Ainda com fruta, maciez em boca, e aromas delicados. Sem nenhum sinal de decadência. É muito melhor provar um Petrus plenamente evoluído de uma safra pouco badalada do que tomar uma grande safra ainda com aromas e sabores fechados. Já o 73, um ano complicado para Bordeaux, Petrus foi o vinho da safra. Estava um pouco turvo na taça, mas com uma força extraordinária para sua idade. Bastante terciários no aroma e um final de boca relativamente seco, denotando que a fruta já está indo embora. Melhor tomar, não há porque esperar.

img_5375só o devido tempo para aproximá-los

Quase 20 anos entre as safras, demonstra claramente que Petrus precisa de tempo em adega. Este 98 à esquerda, é um mamute, um vinho quase perfeito (98 pontos Parker), mas que precisa de longo tempo em adega para domar esta montanha de taninos. Muita fruta concentrada no aroma, além de notas de café e chocolate escuro. Previsão de apogeu para 2040. Quem viver, verá!

Já o 82 é puro deleite. Aromas terciários dos grandes Bordeaux e boca macia com taninos aveludados. Falta talvez um pouco mais de concentração das grandes safras, mas sua elegância compensa. Mesmo na margem direita, Petrus não foi dos mais expressivos na mítica safra 82. Está num momento ótimo para ser apreciado e foi para muitos, o vinho mais prazeroso do almoço.

img_5377200 pontos na mesa!

Aqui, só jogando a moeda para cima, cara ou coroa. Dois monstros engarrafados, demonstrando que Petrus nas grandes safras molda vinhos indestrutíveis. São 200 pontos incontestáveis, mas que precisam de décadas em adega para revelarem tudo que sabem. Vai ser uma tortura espera-los. Talvez o 89 seja mais prazeroso no momento. Parece ser mais macio, mais dócil. Já o 90 tem mais frescor, mais austeridade, mas impressiona muito por sua estrutura. Seu apogeu está prevista para 2054. Prova-los agora significa decanta-los por horas para conseguir arrancar alguns segredos. Tecnicamente, um flight perfeito!

alguns dos pratos para o desfile bordalês 

Entre um flight e outro, pappardelle com ragu de pato e polpettone com batatas ao forno, foram algumas das delicias servidas na Trattoria Fasano num serviço sempre atencioso. 

a turma toda e as rolhas impecáveis

Um dos confrades mostrou sua habilidade em abrir vinhos antigos. Rapidez e eficiência que poucos sommeliers profissionais demonstram na prática.

img_5383aqui se separam os homens dos meninos

Um final apoteótico. Dois velhinhos em plena forma, mostrando claramente que idade não tem limites. Um com quase 50 anos, outro com pouco mais de 50 anos. Duas extraordinárias safras de Petrus com praticamente 100 pontos cada uma, e sendo as duas, os melhores vinhos das respectivas safras em Bordeaux.

Os estilos são totalmente diferentes, mas igualmente encantadores. O 75 é um vinho mais viril, cheio de taninos, ao estilo 88 comentado acima. Estava um pouco turvo na taça, mas com uma estrutura espetacular, embora haja melhores garrafas. Mesmo assim, um grande vinho. Já o 64, o mais velhinho, tem um vigor espetacular com muita elegância. Segue o estilo do 99, mas com mais extrato e estrutura. Nenhum sinal de decadência e com muita fruta nos aromas, embora seus terciários sejam maravilhosos. Além disso, a safra de nosso querido Beato. Não podia terminar melhor!

doçura e amargor sublimes!

Calma, ainda falta a sobremesa e o costumeiro Yquem para encerrar a festa bordalesa. Mas nosso maestro não ia trazer qualquer Yquem. Tinha que ser algo especial como a safra 83, superior a 82 no que diz respeito a Sauternes. O que tem diferente neste 83 é sua agradável acidez, frescor, o que o torna muito mais equilibrado em açúcares. Fez par perfeito com o Tiramisu da casa. Aliás, um dos melhores da cidade. Embora não seja uma harmonização clássica, este  Yquem e este tiramisu em particular, tinha uma sintonia em níveis de açúcar, além dos lado cítrico do vinho complementar bem o sabor do cacau.

Esta confraria se supera a cada evento. Depois do paraíso, não conheço outros caminhos. Mas desses confrades, não podemos duvidar de nada. O imponderável sempre acontece. Obrigado a todos vocês mais uma vez pela companhia e incrível generosidade. Que Bacco nos proteja sempre!