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Leroy e DRC: a perfeição tem preço

8 de Fevereiro de 2019

Quando falamos da Borgonha em vinhos de alto nível, estamos falando de produtores pontuais, especialistas em suas respectivas comunas, as chamadas referências. Neste sentido, há grandes nomes com pontuações altíssimas na crítica especializada e uma consistência notável em várias safras. Contudo, há duas joias que se destacam dos demais. Domaine de La Romanée-Conti com seis Grands Crus irrepreensíveis e Madame Leroy, sobretudo seus vinhos de Domaine e os assombrosos Auvenay, seu Domaine particular.

Em grande jantar realizado no restaurante Fasano, uma série deles desfilaram para escoltar um menu com trufas negras. Para encorpar o time, alguns outros borgonhas fizeram companhia, além dos dois grandes Barolos da família Conterno: Monfortino e Aldo Conterno Granbussia.

img_5627quebra de hierarquia

Antes dos tintos, um trio de brancos aguçaram as papilas com alguns petiscos de entrada, ainda fora da mesa. A dupla acima mostra claramente que alguns produtores se destacam sobremaneira mesmo em terroirs hierarquicamente inferiores. Como comparar um Meursault com o todo poderoso Montrachet. Este 2010 de Louis Jadot tem 98 pontos e é um dos destaques da safra. Evidentemente um grande vinho, bem equilibrado, toques elegantes de barrica, mas não está no time de cima dos melhores Montrachets. Já o Meursault do Roulot é um vinho mágico. Este em particular é um Monopole chamado Clos des Bouchères 2012 com somente 1,37 hectare de vinhas. Um branco vibrante, um toque cítrico elegante, textura rica em boca sem ser pesado. Final persistente e harmonioso. Somente Coche-Dury para ombreá-lo. 

harmonização divina

Só mesmo o vinho acima para fazer esquecer Roulot. Este Domaine Leroy Corton-Charlemagne 2009 degustado várias vezes é um vinho a ser batido. Moldado pela Madame, tem uma textura rica e intensa. As pitangas, frutas secas, notas finamente tostadas sobressaem na taça. Desde sua entrada em boca com uma acidez refrescante, até sua persistência aromática intensa, é um branco sem defeitos. Tudo nele é rico e magnífico. Acompanhou divinamente o tartar de atum com foie gras (foto acima). 

img_5632longevidade para poucos

Começa a sequencia de tintos de forma arrasadora. Dois DRCs Romanée-St-Vivant antigos com dez anos separando as safras. O de safra 88 estava mais evoluído que seu par mais antigo, a começar pela cor. Este safra é classicamente um ano de taninos mais duros, difíceis de amadurecer plenamente. É um belo vinho, mas sem grandes emoções. Se estivesse sozinho, talvez tivesse brilhado mais. Deu azar pela comparação, pois o Romanée-St-Vivant 78 é um vinho mítico. Felizmente, degustado algumas vezes, é sempre grandioso. Seu aroma é um roseiral cheio de nuances e especiarias finas. A boca é um sonho com taninos de seda. Equilíbrio perfeito e um final de boca grandioso. Ainda encontra-se pleno em seu esplendor. Talvez seja um daqueles vinhos imortais. Segundo o próprio Henri Jayer, seu Richebourg 78  que vale uma pequena fortuna nos leilões, foi seu melhor vinho elaborado. Realmente, uma safra mítica!

img_5636Babette se renderia ao Richebourg

Neste embate de gigantes, surge o melhor Richebourg DRC que já provei, safra 90. Ele estava tão delicado que parecia feito pela Madame Leroy. Um vinho encantador com taninos delicados, aromas de carne, terroso, e especiarias doces. Consegue superar o La Tache 90, tarefa para poucos. Já o Clos Vougeot 90 da Madame, Babette não aprovaria. O vinho estava meio sem graça, sem o charme costumeiro deste Domaine. Pode até ser um problema de garrafa, mas estava meio blasé, embora sem defeitos.

Chambertin divino

A baixa da noite aconteceu neste flight acima. Domaine des Chezeaux elaborado pelo Domaine Ponsot estava turvo e com aromas bem estranhos, lembrando um daqueles Barolos rústicos. Pela densidade e concentração, parece ser um grande Chambertin, afinal tem 98 pontos. Contudo, certamente é um problema de garrafa. Fazendo um parêntese, Este Domaine des Chezeaux possui a maior área de vinhas do Grand Cru Griotte-Chambertin. Entretanto, ele delega a vinificação para o Domaine Ponsot com 0,89 hectare, e Domaine Rene Leclerc com 0,68 hectare. Um vinho a ser testado novamente.

Em compensação, Domaine Leroy Chambertin 1990 deu um banho de elegância. Dos Grands Crus do Domaine, só perder em exclusividade para o Musigny. Este Chambertin tem apenas meio hectare de vinhas. Não é o melhor dos Chambertin desta safra, mas a garrafa estava divina. Toda a delicadeza de aroma da Madame com notas de cerejas escuras, florais, madeira finamente tostada, e um fundo mineral sutil. É um vinho que prima mais pela elegância do que pela potência. Final equilibrado e super harmonioso. Um dos destaques da noite.

promessas de adega

Neste penúltimo flight, uma avaliação de longevidade. La Tache é sempre La Tache, um vinho charmoso, elegante, com seus toques orientais de incenso, especiarias finas, e notas terrosas. Embora não seja uma safra grandiosa, 2007 gera vinhos precoces e graciosos. Seu par Echezeaux do excelente Domaine Liger Belair respeitou a hierarquia, embora seja de uma safra brilhante, 2009. Muita fruta no nariz, aromas limpos e de grande pureza com notas florais e de alcaçuz. Em boca, seus taninos são finos, acidez equilibrada e ótima persistência aromática. Um vinho que merece adega por uns dez anos. No caso do La Tache, já está prazeroso, mas evolui com dignidade como é de se esperar de um vinho deste naipe.

img_5639Monfortino numa noite feliz!

No último flight, Barolos de outro planeta. Simplesmente, obras-primas da família Conterno. Aldo Conterno com seu Granbussia 2001 e Giacomo Conterno com o caríssimo Monfortino Riserva 1999. Este Monfortino estava tão elegante que parecia ter sido feito pelo Aldo. O vinho é possante com uma montanha de taninos super bem polidos. Foi o melhor Monfortino que já provei. Longo, persistente, e sem aquela costumeira nota de oxidação e extração excessiva que costuma ter neste mítico Barolo. Já o Granbussia não estava em grande forma, parecia um garrafa um pouco cansada. A próprio cor estava mais evoluída. No entanto, também um grande Barolo, mas sem o brilho costumeiro. As notas confirmam a superioridade do Monfortino com 98 pontos, contra 94 pontos do Granbussia.

trufas e La Mission

Para encerrar a orgia, um bordalês não podia faltar. E ele veio grandioso, La Mission Haut Brion 1998. Um Pessac-Léognan de peso, imponente, taninos densos e finos. Seus aromas de chocolate, couro, estrabaria, e toques de tabaco. Boca harmônica, grandiosa, e de longa persistência. Tem 98 pontos Parker e um dos destaques desta safra. O pessoal nesta altura do campeonato nem deu muita bola pra ele. Ainda bem que não fui na conversa deles. Coloquei o DRC Saint Vivant  1978 logo de cara. Esse eles vão lembrar para sempre.

Quanto ao Fasano, destaque para toda equipe, especialmente o maître Almir Paiva e o competente sommelier Fábio Lima, sempre muito preciso. Todos os pratos do menu com pratos trufados acompanharam bem os vinhos, executados com maestria pelo Chef Luca Gozzani. Destaques para os pratos fotografados pela ordem: ovo crocante com funghi porcini, costeletas de cordeiro com molho do próprio assado, e pastel com queijo taleggio. 

Agradecimentos a todos os confrades presentes numa noite muito animada. Os vinhos escolhidos sempre com imensa generosidade ratificaram um jantar inesquecível. Mais uma vez, muito honrado em ser sommelier deste grupo de craques que não tomam vinhos caros para exibição, e sim pelo profundo conhecimento do grupo. 2019 promete, sempre com a proteção de Bacco! Saúde a todos!

Vinhos que curam …

5 de Setembro de 2018

Pelo segundo ano consecutivo, o Hospital Albert Einstein através do AMIGOH, grupo de pessoas ligado ao Hospital sensibilizado pelo combate ao câncer e doenças hematológicas, promoveu um interessante e sofisticado Leilão de Vinhos com a colaboração e presença de Paul Hart e Allan Frishman, principais executivos da Hart Davis Hart, uma das mais prestigiadas Casas de Leilões no cenário internacional.

Não podemos deixar de mencionar o apoio da Américas Amigas, Organização não governamental promotora dos Direitos Humanos. Menção especial também ao casal Ana e João Camargo por todo o envolvimento na capitação e logística de alguns dos mais importantes vinhos presentes nos lotes ofertados.

Além da causa nobre, o evento proporcionou aos participantes a oportunidade da aquisição de vinhos altamente pontuados por lances  de valores competitivos no mercado internacional. Mesmo dentro deste princípio ético, os participantes foram muito generosos na dinâmica do leilão, contribuindo de forma decisiva para os objetivos do evento.

Feitas as devidas considerações, vamos falar de vinhos oferecidos para acompanhar o jantar, além de alguns lotes interessantes que foram arrematados. Nas duas fotos abaixo, alguns caldos que regaram o jantar.

grandes safras em Bordeaux

Embora os dois vinhos da foto acima estejam em tenra idade, vale a experiência para sentir a potência e qualidade das safras 2010 e 2015, super valorizadas no mercado. O Chateau Brane-Cantenac  2010 segue a elegância de Margaux já com alguma evolução, mesmo que timidamente. Com belo potencial de guarda, seus taninos são finos além de um equilíbrio notável. Já o Chateau Pontet-Canet 2015 foi o infanticídio da noite. Um tinto de potência extraordinária no melhor estilo Pauillac. Muita fruta escura lembrando cassis e uma estrutura tânica capaz de vencer longos anos em adega. Apesar de  não estar no pelotão de frente dos grandes Pauillac, é sem dúvida um dos destaques desta bela safra.

destaques em 2014

A safra 2014 não tem o glamour de 2015, mas é bastante equilibrada e de preços menos impactantes. O Chateau Figeac á esquerda, um dos mais destacados na comuna de St Emilion, vizinho do nobre Cheval Blanc, mostra-se já muito agradável, sobretudo após uma boa decantação. Com 94 pontos Parker, tem longevidade prevista pelo menos até 2035, confirmando a boa qualidade da safra.

Quanto ao Montrose 2014, as previsões são ainda mais pretensiosas. Algo como 2050 a 2060 com nota 96 Parker. Um vinho difícil para o momento, tal sua acidez, tanicidade, e austeridade, lembrando um grande Barolo. Dentro do esperado, os grandes da comuna de Saint-Estèphe costumam envelhecer com brilhantismo, revelando sua nobreza com o devido tempo.

img_5065tropa de elite

Falando em Bordeaux, o lote acima foi um dos destaques dos numerosos lotes bordaleses. Um time de respeito unindo várias comunas do Médoc com Chateaux sempre valorizados e muito bem pontuados em suas respectivas comunas. Um lance bem atraente para acirrar a disputa.

safras bem didáticas

O foto acima mostra mais uma dupla bordalesa servida no jantar. Aqui sim, vinhos teoricamente envelhecidos e num bom momento de evolução. Começando pelo Cos d´Estournel 1985, um vinho pronto, plenamente evoluído, com todos os aromas terciários de um grande Bordeaux, couro, tabaco, especiarias, chocolate, entre outros. Já o Léoville Las Cases 1986, apenas um ano mais jovem, completamente diferente. Enquanto a safra 85 mostra vinhos acessíveis, bem resolvidos e sedutores, o ano de 1986 marca vinhos de grande estrutura tânica e lenta evolução em adega. É o caso deste Leoville, uma referência da comuna de Saint-Julien. Um vinho quase perfeito com 98 pontos Parker. Denso, ainda um pouco fechado, mas muito equilibrado e com longa persistência aromática. Até por ser vizinho na divisa de comuna com Pauillac, lembra um mini Latour. Previsão de auge em 2050.

img_5067um raro exemplar

O lote acima mostra uma das garrafas mais raras do Leilão, uma Double Magnum Harlan Estate 2013. Seguramente, Harlan Estate e Screaming Eagle disputam entre os Cult Wines mais caros de Napa Valley. De fato, Harlan Estate molda vinhos de alto padrão, aliando a potência californiana com toda a elegância bordalesa. Um tinto de corte bordalês muito bem delineado safra após safra com muito poder de longevidade. Essa safra 2013 é um dos anos perfeitos com 100 pontos Parker.

Bourgogne em alto nível

Mais alguns mimos servidos no jantar da foto acima. Começando pelo grande branco da Borgonha, Le Montrachet personifica a perfeição em Chardonnay. Nesta garrafa em questão, além da bela safra 2015, estamos diante de uma produção diminuta do Domaine Blain-Gagnard, um dos mais exclusivos deste famoso vinhedo dividido em muitas parcelas. O vinho tem um riqueza extraordinária de frutas, especiarias, flores, tudo bem emoldurado por toques elegantes  de barricas francesas. Delicioso no momento, embora possa ser guardado por anos em adega.

Seu par tinto é da comuna de Chambertin, Côte de Nuits. Domaine Ponsot é um dos produtores  mais sérios e artesanais, atuando sobretudo na comuna de Morey-St-Denis. Neste exemplar de 2014, Chapelle-Chambertin, um dos Grands Crus da comuna homônima, o vinho ainda se mostra em tenra idade. Com toques de cerejas e violetas, os aromas ainda são tímidos. Contudo, sua acidez e estrutura tânica permitem uma longa trajetória de evolução. Mostra-se muito equilibrado e fino. Tinto de alta costura.

img_5069Saint-Emilion Classe “A”

Mais um lote muito interessante (foto acima), retratando a elite de Saint-Emilion, a chamada margem direita de Bordeaux. Com vinhos altamente pontuadas em safras diversas e de grande destaque, três exemplares distintos, porém complexos e de boa guarda em adega. Chateau Valandraud é um dos pioneiros e mais exclusivos “vins de garage”.

Enfim, foram pouco mais de 50 lotes de primeira linha com preços e estilos de vinho variados, contemplando paladares e preferências dos mais diversos. O mais importante foi o sucesso do Leilão como evento raro em nosso país. Os recursos arrecadados certamente terão destinos bem definidos no combate permanente e progressivo contra o câncer.

Mais uma vez, agradecimentos a todos os envolvidos pela causa e a todos os presentes no evento, contribuindo cada qual a ser modo para um bem comum, a cura contra o câncer. Aguardamos ansiosos pelos próximos leilões!

Liger-Belair e sua nobre vizinhança

7 de Fevereiro de 2018

Dando prosseguimento ao artigo anterior na Maison Laurent (Uma noite com Paul Laurent), chegou a hora dos tintos, e que tintos!

ee58d5a7-dfaf-4e26-a9fb-3f7d22404360.jpgprova do crime

Domaines legendários desfilaram em vários flights em safras memoráveis. Com a orientação do Comte Louis-Michel Liger-Belair, presente no evento, a sequência de legendas será descrita abaixo, começando com duas safras de seu grande ícone, La Romanée Grand Cru com área pouco maior que 0,8 hectare. Ratificando novamente, a reportagem completa sobre o renascimento do Domaine Liger-Belair a partir do novo milênio, segue no link Domaine Liger-Belair: O novo milênio

IMG_4240.jpgsafras bem pontuadas, mas de estilos diferentes

O estilo Liger-Belair segue claramente o caminho da delicadeza, lembrando um Chambolle-Musigny. As duas safras degustadas, ainda muito novas, mostra vinhos bem focados na fruta, nos traços florais e de especiarias. O 2006 é um vinho mais agudo, mais vibrante em acidez, e é essa acidez que permitirá um longo envelhecimento. Toda a finesse de Vosne-Romanée. Já o 2007, é um vinho mais direto, mais aberto em aromas, e mais macio. Tem uma riqueza tânica importante, mas de ótima textura. É sem dúvida, o mais prazeroso para ser tomado no momento.

IMG_4248.jpga essência de um bourgogne envelhecido

Safras antigas sempre serão polêmicas e jamais conclusivas, pois cada garrafa é uma história. A safra 1961 foi de baixos rendimentos e grande concentração, sobretudo para o astro maior, Romanée-Conti. Este exemplar é no mínimo hedonístico no sentido de apreciarmos todos os aromas terciários de um La Tâche envelhecido. As notas de cogumelos, adega úmida, sous-bois, estão todas presentes. Em boca, o ponto alto é o equilíbrio com todos os componentes em harmonia. Falta-lhe aquela expansão dos La Tache memoráveis, mas seu final de boca faz lembrar que em Vosne não existem vinhos comuns.

IMG_4245.jpga elegância em plena maturidade

A vantagem de provar este vinho é perceber sua plena maturidade numa safra sem grandes destaques. Clos de Bèze é o lado mais feminino de seu grande rival Le Chambertin. Nas mãos de Rousseau é que percebemos a importância do produtor nas safras menos badaladas. Aromas elegantes, taninos justamente extraídos, valorizando a delicadeza da fruta. Não é muito longo, mas seu equilíbrio é notável. Ótimo momento para ser abatido, já atingindo a maioridade. 

IMG_4259.jpgum pódio de campeões

A safra 1991 é sempre subestimada quando comparamos com 1990. Entretanto, há muitos exemplos de grandes surpresas, inclusive no La Tache 1991. Este exemplar especificamente, não se tratava das melhores garrafas. Entretanto, dava para perceber todo seu extrato e potencial, embora um pouco cansado. As melhores garrafas atingem 97 pontos, superando o próprio La Tache 1990. Mesmo assim, a força deste La Tache é impressionante com uma bela estrutura tânica. Seus aromas terciários já se impondo sobre a fruta, revela um final harmonioso, embora sem grande expansão.

Quanto aos dois Chambertins, temos uma diferença de quase uma década. Mais uma vez, 1990 não é aquele paraíso que imaginamos. Um vinho muito bem equilibrado, distinto, já com boa evolução em garrafa, mas falta-lhe algo para ser um dos grandes. Tanto é verdade, que outros Grands Crus do próprio Rousseau nesta safra, tiveram desempenho melhor. Não chegará perto do estupendo 1985, mas tirando as comparações, um Chambertin de livro.

Quanto ao 1999, este sim, tem punch e vigor para romper décadas. Um poder de fruta incrível, tenso em boca, e um extrato fabuloso. É preciso decanta-lo por pelo menos duas horas. Seus taninos ainda potentes, mas de extrema qualidade, pede carnes  consistentes como pato, por exemplo. Daqueles que provamos do Rousseau, é o que tem maior potencial de guarda.

3ba6cc11-f457-49fc-9df1-b97ac69ff267.jpgpoulet de bresse diretamente da França

Os tintos mais evoluídos da noite com aromas terciários notáveis, escoltaram muito bem um dos belos pratos do jantar, Poulet de Bresse aux Morilles. A ave com as perninhas escuras veio diretamente da França preparada nesta receita clássica, envolvendo creme de leite e os delicados cogumelos Morilles.

IMG_4251.jpglendas da Borgonha

Aqui entramos no ápice do jantar com quatro vinhos da safra 1985 de arrasar quarteirões. A maioria dos Echezeaux a princípio, não seria páreo para um Chambertin de Rousseau. Contudo, estamos falando de Henri Jayer, uma lenda da Borgonha. Este bruxo onde põe a mão vira ouro. Um vinho extremamente elegante, raçudo, que tem profundidade. Está delicioso para ser bebido no momento, mas sem nenhum sinal de cansaço.  

Agora, para tudo, tirem as crianças da sala. Estamos diante do maior Chambertin da história, este magnifico 1985 de Armand Rousseau, talvez só superado pelo mítico 1972. Um show de aromas, equilíbrio, texturas. Seus aromas terciários de caça se fundem magnificamente a frutas como cerejas escuras imersos em uma cadeia longa de taninos que parecem rolimãs. Suntuoso e inesquecível.

Clos de La Roche Históricos!

Novamente, a apoteose. Dois dos maiores Clos de La Roche da história de seus respectivos produtores, Dujac e Ponsot. Daria tudo para prova-los separadamente, pois a comparação é sempre cruel. Dujac, numa apresentação de gala com todos os adereços a que tem direito. Seus aromas de couro, notas empireumáticas, sous-bois, e uma boca aliando com perfeição a força desta apelação numa textura extremamente sedosa.

E finalmente, chega o grande vinho da noite, pelo menos pessoalmente. Um monstro chamado Ponsot. A força deste vinho, sua cor inacreditavelmente jovem, a vivacidade de suas frutas escuras, uma avalanche de taninos absurdamente polidos, e a mais pura sensação de alcaçuz emoldurando o conjunto. Dizem que  a safra 1971 é lendária, mas superar este exemplar é quase surreal. Apesar de extremamente prazeroso, ainda pode evoluir por pelo menos 15 anos, revelando quem sabe, seus mais profundos segredos. Enfim, uma aula de Clos de La Roche.

IMG_4261.jpguma década de evolução

Seguindo em frente, dois Chambertins classicamente duros, característica das safras 1988 e 1998. Na mais antiga, de 1988, os anos lhe fizeram bem. Taninos mais polimerizados, aromas mais desenvolvidos, mas um vinho de muita força. Vinho que pode ser guardado ainda, além de ser muito gastronômico. Harmonizou muito bem com o pato servido no jantar por sua estrutura rica. O de safra 1998 segue a mesma linha. Embora dez anos mais jovem, proporcionalmente é bem acessível, visto que apresenta uma estrutura menos portentosa que seu par. Certamente, terá uma trajetória mais curta quanto ao envelhecimento.

IMG_4260.jpga hierarquia prevalece

Aqui, um flight desigual, tanto na questão hierárquica, como na relevância das safras. A safra 1989 para o DRC Richebourg não teve o mesmo esplendor de 1988. Mostra-se um vinho amável, acessível, mas com uma estrutura um tanto frágil. Contudo, a prontidão e desenvolvimento de seus aromas e sabores o tornam muito prazeroso. Os toques terrosos e de cogumelos ficaram muito bem o Poulet de Bresse aux Morilles do jantar.

Por fim, sua majestade Romanée-Conti 1988. É impressionante a juventude deste vinho com seus 30 anos de vida, só comparável ao Ponsot Clos de La Roche acima descrito. Este vinho tem uma sobriedade quase irritante. Seu aroma tem sempre algo de misterioso, mas as rosas, a especiaria, a fruta bem colocada, estão lá. O que tem de potência no Clos de La Roche, sobra em elegância neste exemplar. A boca é harmoniosa, profunda, e persistente. Dá para ver na foto, que o Richebourg ficou meio intimidado …

fcabcab2-ad2b-4f2f-816f-f1760c603af0.jpgClimens 1929, o melhor da História

Em meio ao caos financeiro em Nova Iorque no ano de 1929, nascia o melhor Climens de toda sua história com 100 pontos. Chateau Climens é o rei de Barsac, região contígua a Sauternes, onde se elabora os vinhos botrytisados mais elegantes da região. Só a emoção de provar uma garrafa desta idade com as marcas do tempo, é motivo de sobra para contemplação. Pela cor âmbar escuro, lembra os grandes Tokaji Eszencia envelhecidos. A diferença marcante é a textura mais delgada deste Climens, sobretudo por conter bem menos açúcar residual que seu rival húngaro. De todo modo, os aromas e sabores de mel caramelado, damascos, cítricos cristalizados, e algo de curry, permeiam seu vasto espectro aromático, próprio dos vinhos imortais.  

Sem palavras para os agradecimentos, foram momentos mágicos onde a conversa fluiu solta em meio a uma gastronomia de alto nível, bem de acordo com os mais sagrados caldos da Côte de Nuits.

Se este for o tom do ano 2018, os Deuses do vinho estarão a postos para realizar os mais intangíveis desejos. Abraços a todos!

Sommellerie: Um novo Campeão Mundial – Parte I

24 de Abril de 2016

Paolo Basso, brilhante sommelier, um verdadeiro bailarino no salão, entrega seu cedro agora ao jovem suéco Jon Arvid Rosengren. Não que não tenha sido justo, mas esta final de certo modo, lembrou o título de Enrico Bernardo na Grécia onde mais uma vez, Gérard Basset à época, ficava novamente na fila. O francês David Biraud, parece seguir o mesmo caminho. Embora sua atuação tenha tido momentos notáveis, talvez o cumprimento do tempo em algumas provas, possa ter lhe custado caro. De toda forma, é um sommelier diferenciado, podendo perfeitamente fazer parte da elite dos campeões mundiais. Dito isto, vamos às provas finais.

O campeão sueco ao centro

Embora o tempo de cada etapa fosse bem reduzido, exigindo grande preparo dos finalistas, as etapas foram muitas, totalizando mais de uma hora por candidato, e testando seus nervos ao limite. De início, um serviço à mesa com champagne e um coquetel clássico, Dry Martini. Até aqui nada de mais, se não fosse um pequeno detalhe no pedido da mesa para ser servido um champagne Extra-Brut que não havia em nenhum dos quatro baldes disponíveis no salão. Uma situação para irritar o sommelier logo de cara e fazê-lo perder a concentração no serviço. Todos perceberam o inconveniente e arrumaram uma solução de momento. Quanto ao Dry Martini, apesar de um clássico dos clássicos, todos mostraram conhecimento em sua execução com pequenos detalhes diferenciais em cada candidato. A única candidata mulher, a irlandesa Julie Dupouy,  diferenciou-se dos demais ao preparar o coquetel antes de servir o champagne, tendo o cuidado de servir todas as bebidas ao mesmo tempo aos convivas, evitanto constrangimentos no brinde inicial. É o mesmo cuidado que se tem à mesa ao servir pratos variados com tempos de execução diferentes, simultaneamente para todos iniciarem ou continuarem a refeição. Quanto à execução do coquetel, David Biraud mostrou sutileza ao pingar algumas gotas de vermute (Noilly Prat), lembrando que o Dry Martini deve ter apenas a sombra da garrafa. Detalhe de conhecedor …

Partindo agora para a segunda mesa com seis convivas e uma seleção de vinhos de tirar o fôlego. Aqui o sommelier tem a oportunidade de mostrar todo seu conhecimento e versatilidade nas combinações de vinhos diferentes em estilos, uvas, regiões e categorias. Os vinhos sugeridos foram:

  • Harlan Estate 1997

Um dos grandes tintos do Napa Valley de excelente corte bordalês e safra espetacular (100 pontos). Num ótimo momento para ser provado, embora seu platô vá até 2030.

  • Gaja Barbaresco Sori San Lorenzo 1997

Uma das três joias de Angelo Gaja (as outra duas são Sori Tildin e Costa Russi) de excelente safra. São Barbarescos de extrema elegância. Quaisquer safras, são esplendorosos.

  • Penfolds Grange 99

O grande Shiraz do hemisfério sul com degustações históricas que marcaram o Novo Mundo. Vinho de grande estrutura e longevidade.

  • Domaine Ponsot Clos Saint Denis Grand Cru Vieilles Vignes 1945

Domaine extraordinário em Morey Saint Denis com vinhos profundos e longevos. A safra da vitória é histórica e extremamente rara.

  • Egon Müller Riesling Auslese 2009

O grande Riesling alemão; mineral, duro como o aço. A graduação de açúcar de um Auslese quebra um pouco esta austeridade. Vinho de longuíssima guarda. Perdura por décadas.

  • Klein Constantia Vin de Constance 2000

O mais emblemático e histórico vinho doce sul-africano elaborado com a uva Muscat (Muscat de Frontignan). Maciez e equilíbrio notáveis. Comercializado em garrafas de estilo único de 500 ml.

garrafa exótica: um dos vinhos de Napoleão

Para não alongar o assunto, vou comentar as sugestões de David Biraud com ótimas dicas e classicismo. Para o Harlan Estate 97, corte bordalês, sua indicação foi carne vermelha crua com suculência, uma espécie de carpaccio com toques defumados e de ervas, equilibrando bem os taninos ainda presentes, além dos aromas do vinho. Em seguida, para o Barbaresco Sori San Lorenzo 97, Biraud propõe um pombo com foie gras em molho de cerejas escuras, realçando os aromas de evolução da Nebbiolo e dando um charme num toque sutil de amargor. Para o tinto australiano, Grange 99, sua sugestão recai para um cordeiro grelhado com alecrim e guarnecido com vegetais (tian). A ideia é provocar o lado rico em especiarias da Shiraz. Para o último tinto, o raríssimo Ponsot Clos St Denis 1945, um prato de caça (ave) com molho de vinho tinto, exacerbando os aromas terciários desta preciosidade. Entrando nos vinhos brancos, nada melhor que fechar uma excelente refeição com queijo. A sugestão de um velho Comté (o grande queijo do Jura) com o branco alemão, Egon Müller Riesling Auslese 2009, foi de grande originalidade. A força do queijo e seus ricos sabores  vão de encontro com a estrutura do vinho, mineralidade, além da acidez e doçura do mesmo, contrapondo a gordura e salinidade do queijo. Ponto alto da harmonização. Por fim, o doce e elegante Vin Constance 2000, casa perfeitamente com  o abacaxi caramelizado (Victoria Pineapple) acompanhado por pain perdu (pão amanhecido, no caso brioche, finamente tostado).

Para completar, Biraud sugeriu de entrada como aperitivo, um champagne Moët & Chandon Vintage 1988 com a mesma evolução e complexidade dos demais vinhos. Como não havia espumantes entre a seleção de vinhos, não deixa de ser um belo começo para ativar e agraciar as papilas. Quanto à decantação, os tintos poderiam ser decantados com exceção do velho Borgonha. Neste caso, pela eventual fragilidade do tinto, seria mais prudente servi-lo diretamente na taça.

Centurion: categoria máxima

Finalizando o serviço nesta mesa de alta complexidade, foi perguntado a Biraud sobre a harmonização de um café expresso Grand Cru acompanhado de chocolate escuro trufado, sugerindo um licor ou destilado. Biraud novamente mostrou originalidade e conhecimento ao recomendar o clássico vinho Commandaria. É um vinho fortificado da idade média, na época das Cruzadas, elaborado com as uvas locais Mavro (tinta) e Xynisteri (branca) da ilha de Chipre. Raro e pouco conhecido atualmente, seus sabores e estrutura combinam perfeitamente com o café sugerido, pois apresenta textura compatível, sabores empireumáticos e de frutas secas. O Commandaria sugerido é de categoria máxima, chamado Centurion com no mínimo 20 anos de envelhecimento (foto acima). É também um ótimo casamento com a clássica torta austríaca Sacher Torte. Biraud também especificou um café guatemalteco na harmonização.

Próximo artigo, mais mesas e provas. Está só começando!


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