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Terroir: Bourgogne x Bordeaux

26 de Março de 2015

Tentar comparar as clássicas regiões francesas de Bordeaux e Bourgogne pode parecer loucura. A ideia aqui é discorrer sobre a diferença intrínseca no conceito de terroir das mesmas. Sabemos que em Bordeaux as propriedades a grosso modo são pelo menos dez vezes maiores em superfície de vinhedos. Além disso, os vinhos bordaleses baseiam-se no famoso corte, talvez o corte mais emblemático no mundo do vinho. Basicamente, estamos falando de três cepas: Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. E é exatamente esse “assemblage” que torna os vinhos bordaleses únicos, com estilo próprio. No esquema abaixo, mostraremos um exemplo típico de um Grand Cru Classé de margem esquerda, na famosa região do Médoc.

Encepamento do Château Lagrange

O esquema acima refere-se ao Château Lagrange, um típico Grand Cru Classé da comuna de Saint-Julien. Este esquema pode ser generalizado para os principais châteaux do Médoc. As porções em verde mais esmaecido são várias parcelas de Cabernet Sauvignon. As porções em vermelho esmaecido são de Merlot, e as duas parcelas em tonalidade diferente são de Petit Verdot, uva pouco cultivada em Bordeaux. Pois bem, no raciocínio bordalês cada parcela de cada uma das uvas são vinificadas separadamente e tratadas a princípio como um vinho individual. Num certo momento, esses vinhos são analisados individualmente e julgados para fazer parte do chamado “Grand Vin”, ou seja, o vinho principal do château. Esse trabalho é extremamente importante e requer uma sensibilidade, uma projeção futura, uma análise do potencial da safra em questão, e finalmente, muita experiência. Uma frase marcante do grande mentor do Château Margaux, Paul Pontallier, enólogo da casa desde 1983, diz o seguinte: “eu só fui entender de fato o que é um Château Margaux, depois de minha décima safra”. Isso mostra a complexidade e a responsabilidade de uma equipe nesta fase de elaboração. Muitas cubas serão rejeitadas para o vinho principal e só depois desta fase, é que se chegará ao blend final com as devidas proporções de cada tipo de uva. É por isso que pessoalmente de uma forma até maldosa, digo que os segundos vinhos de Bordeaux, mais especificamente do Médoc, são o refugo do vinho principal. Exceções como Les Forts de Latour ou Clos du Marquis, segundos vinhos do Château Latour e Château Léoville-Las-Cases, respectivamente, são raros exemplos de regularidade.

No raciocínio borgonhês, neste mesmo château, cada parcela ou mesmo, um pequeno grupo de parcelas, seria um vinho individual até o final do processo. Por exemplo, poderíamos ter dois ou três Cabernets individualizados com etiquetas próprias. Da mesma forma, para as parcelas de Merlot. No caso da Petit Verdot, apenas com duas parcelas, teríamos um vinho varietal, engarrafado individualmente. É interessante notar a importância que o homem tem nos aspectos de terroir, dependendo do raciocínio e filosofia adotados. Ocorre que no pensamento bordalês, o conjunto de parcelas harmonicamente agrupadas produz um vinho mais completo, mais amplo e mais complexo. Tudo é um questão de ponto de vista. É claro que neste pensamento há uma compensação muito maior quanto às irregularidades de cada safra , e os problemas específicos que cada cepa enfrenta em todo o ciclo anual.

Parcelas na Idade Média

Agora partindo para a Borgonha, Clos de Vougeot, propriedade de cinquenta hectares na Côte ded Nuits, é um exemplo bem razoável para uma comparação bordalesa em termos de área plantada, pois as propriedades neste pedaço de terra são de pouquíssimos hectares, muitas com menos de cinco hectares. Além disso, Clos de Vougeot é uma propriedade das mais antigas, de origem monástica. Só após a Revolução Francesa, deu-se toda sua fragmentação, conforme mapa abaixo. Voltando à Idade Média, os monges engarrafavam Clos de Vougeot como vinho único, mesclando com parcimônia todas as parcelas acima delimitadas. Como trata-se de uma colina, as parcelas mais acima no mapa são de maior altitude, que por sua vez, vai diminuindo até às parcelas mais ao sul do mapa. Com isso, em anos mais áridos e secos, as parcelas de menor altitude compensavam os efeitos do déficit hídrico das parcelas mais altas. Por outro lado, em anos mais chuvosos, com excesso de água no solo, a compensação era inversa. Sem dúvida, tratava-se de um pensamento bordalês onde o conjunto das parcelas originando um vinho único, mantinham uma boa regularidade. Provavelmente, o Clos de Vougeot 1845 servido no inesquecível filme Festa de Babette, tenha sido elaborado nos moldes bordaleses, pois o processo pós-revolução ainda estava engatinhando.

Divisão atual com inúmeros produtores

Já no esquema atual, conforme mapa acima, regularidade é o que efetivamente não há numa garrafa de Clos de Vougeot. Com mais de oitenta proprietários nestas terras muradas, a importância do produtor e a localização do vinhedo são pontos cruciais para o sucesso do vinho. Em linhas gerais, os produtores localizados no centro do terreno para cima, ou seja, em altitudes mais acentuadas, levam vantagem em termos de localização. Isso tem a ver com uma melhor insolação, melhor drenagem do terreno e uma composição de solos mais harmônica. Méo-Camuzet, Gros, Hudelot-Noëllat, são produtores confiáveis.

Enfim, aquela velha discussão, vinho varietal ou vinho de corte? micro-terroir como no modelo borgonhês, onde as peculiaridades e sutilezas são levadas a limites extremos, ou macro-terroir como no modelo bordalês, onde o conjunto de parcelas em prol de um único vinho gera resultados mais harmônicos e complexos? Sempre uma questão de ponto de vista!

Montrose x Cos d´Estournel

23 de Março de 2015

A comuna de Saint-Estèphe tem dois astros de primeira grandeza: Château Montrose e Château Cos d´Estournel. Situada na margem esquerda do Gironde, é a última comuna na direção norte. Apesar de não haver nenhum Premier Grand Cru Classé, Saint-Estèphe fornece vinhos firmes na juventude com alto potencial de envelhecimento. Aqui, embora o cascalho seja importante, a presença de argila é mais evidente. Esse fator acaba deixando o vinho mais fechado, menos convidativo quando jovem e de uma acidez mais destacada. Seus taninos são firmes e presentes, pedindo muitos anos em adega.

Cerca de dois quilômetros separam os dois châteaux.

Mais do que a distância acima entre os châteaux, a diferença de altitude  e a distância de cada um do Gironde são aspectos mais importantes. Montrose está mais perto do Gironde e portanto, numa altitude mais baixa, na média doze metros acima do mar. Já Cos d´Estournel, mais longe do rio, encontra-se numa colina a cerca de vinte metros acima do mar. Aliás, Cos no dialeto Gascon quer dizer colina.

Safra clássica de um Montrose

As diferenças não param por aí. Montrose apresenta um solo com mais cascalho e maior proporção de areia em meio argiloso. O cascalho se dando bem no Médoc, pois a calor é refletivo nas uvas nos meses de maturação, além de contar com excelente drenagem, são fatores essenciais para o cultivo da Cabernet Sauvignon. A proporção de Cabernet no corte clássico de um Montrose é de dois terços para um terço de Merlot. Isso faz de Montrose um vinho firme, tânico e de alta acidez.

Montrose: Vinhas que olham o Gironde

Diversas são as  frases que definem o Médoc: “o solo do Médoc muda a cada passo”, “Médoc: um terroir forjado pelo homem”, e  “as melhores vinhas são aquelas que olham o rio”. A primeira frase refere-se ao fator drenagem, extremamente irregular na região, importantíssimo num local cercado por águas. A segunda diz sobre um conjunto de fatores que permitem plantar vinhas de alta qualidade. A floresta de pinheiros a oeste evitando o avanço das dunas e ao mesmo tempo, impedindo a umidade e salinidade do Atlântico. O trabalho de engenheiros holandeses no século dezessete drenando toda a região com as famosas valas, muitas delas divisas de comunas famosas. E por último, a localização das melhores vinhas numa posição privilegiada vigiando o rio. Esta localização tem a ver com o movimento das marés ao longo de milhares de anos depositando e posicionando as camadas mais espessas de cascalhos, item fundamental para melhorar a eficiência de absorção de água no terreno.

Em Cos d´Estournel,  o solo também pedregoso mistura-se numa mescla de argila e calcário. A proporção de Merlot sempre que possível, é ligeiramente maior que Montrose. As fermentações procuram enaltecer a fruta, sem extrações excessivas de taninos. O tempo de amadurecimento em barricas de carvalho é um pouco maior em relação ao Montrose, além da porcentagem de barricas novas também ser prevalente. Na média, 80% de barricas novas em Cos d´Estournel e 60% em Montrose. Todos esses fatores fazem de Cos d ´Estournel um vinho mais macio, mais frutado, e mais aromático em sua juventude, embora possa envelhecer de forma brilhante ao longo dos anos. A safra de 1982 encontra-se em plena forma.

Duas safras memoráveis

Pela acidez e tanicidade dos tintos de Saint-Estèphe, se comparássemos aos vinhos de Barolo, Montrose seria um Serralunga d´Alba e Cos d´Estournel seria um La Morra.

Enfim, o Médoc tem seus mistérios como toda grande região vinícola. Alguns ainda por descobrir, outros parcialmente desvendados, tentado explicar as sutilezas desses caldos bordaleses que há séculos encantam apreciadores mundo afora.

Chateau Montrose x Sassicaia

13 de Março de 2015

Quer mais uma degustação ousada? A proposta acima é instigante, França versus Itália. Sassicaia, o pioneiro dos Supertoscanos, sacudiu o mundo no início dos anos 70. Um sonho do Marquês Mario Incisa della Rocchetta, apaixonado pelos vinhos bordaleses e com amizades nobres como Barão Éric de Rothschild, proprietário do mítico Château Lafite. O Marquês acreditava piamente que a região de Bolgheri, próxima ao mar Tirreno, e com solo pedregoso (Sassicaia vem de um dialeto local relacionado a pedras), era extremamente propício às castas bordalesas. No início da saga, as primeiras mudas de Cabernet foram trazidas do nobre Château acima. Como todo início, não foi nada fácil. Vinhas novas, métodos de cultivo e vinificação ainda experimentais, não animaram muito nas primeiras colheitas sendo as cobaias, familiares e amigos. Em certa ocasião, Piero Antinori, primo do Marquês, provou o vinho e vislumbrou seu potencial. Chamou então seu enólogo Giacomo Tachis, uma espécie de Émile Peynaud da Itália, para lapidar aquele diamante bruto. O sucesso não tardou a chegar, com críticos ingleses embasbacados diante de um simples Vino da Tavola. O caldo era muito sofisticado para humilde denominação. E assim foi criado o termo Super Tuscans.

O assemblage do Sassicaia é praticamente Cabernet Sauvignon (85%) com uma pequena porcentagem de Cabernet Franc (15%). É amadurecido em barricas de carvalho francês por 24 meses. Um modelo clássico bordalês de margem esquerda. Como todo italiano, seus taninos e sua acidez são firmes e presentes na juventude. Projetado como vinho de guarda, é um tanto difícil sua apreciação quando jovem. Contudo, envelhece maravilhosamente por décadas, de acordo com a potência da safra. O 1985 da foto abaixo, continua esplêndido.

A melhor safra: Nota 100

A descrição e características acima vão bem de encontro com o estilo Montrose, um Saint-Estèphe clássico e austero no juventude. Esta comuna, bem ao norte do Médoc, apresenta uma proporção maior de argila que as demais comunas famosas como Pauillac, Saint-Julien e Margaux. Este solo mais frio faz com que o vinho seja mais duro, com taninos mais firmes, e acidez mais presente. Estes fatores faz de um Montrose um dos vinhos mais longevos e gastronômicos da margem esquerda. A foto abaixo, mostra um dos maiores Montroses da história.

Apesar de jovem, outro nota 100

O Assemblage de Montrose prevê em média, dois terços de Cabernet Sauvignon, quase um terço de Merlot, e uma pitada de Cabernet Franc. O vinho amadurece entre 16 e 18 meses em barricas francesas, sendo em média 40% novas. Montrose faz parte da elite de Saint-Estèphe juntamente com o Château Cos d´Estournel, embora os estilos sejam bem diferentes.

Quanto ao Sassicaia, da famosa Tenuta San Guido, começou humilde como um Vino da Távola até atingir a Denominação de Origem Bolgheri Sassicaia em 1994, diferenciando-se dos demais tintos sofisticados de Bolgheri como por exemplo, o grande Ornellaia.

Para esta degustação às cegas com dois ou três exemplares de cada lado, é imperativo uma decantação de pelo menos duas horas para os vinhos, sobretudo se forem jovens, ou seja, menos de dez anos de safra.

As Peculiaridades Bordalesas

29 de Dezembro de 2014

Almoço entre amigos e vinhos bordaleses. Que bela combinação! Foram dois margem esquerda das comunas de Pessac-Léognan e Margaux, respectivamente. E fieis representantes desses terroirs. O tinto da foto abaixo mostra ainda no rótulo a antiga apelação Graves, a qual foi em seu setor mais nobre detalhada como Pessac-Léognan em 1987. Trata-se da porção norte de Graves entre as cidades homônimas da apelação (Pessac, cidade colada a Bordeaux e Léognan, um pouco mais ao sul). Na hierarquia deste terroir temos os Châteaux Haut-Brion e La Mission Haut-Brion na frente do pelotão. Logo em seguida, Château Pape Clément na versão tinto em minha modesta opinião.

Safra 1985: Antiga apelação Graves

Aliada à predileção por este château, vem a safra de 1985, safra esta que também sou suspeito em falar. Não tirando o posto de 1982 que foi monumental, o ano 85 normalmente mostra vinhos sedutores, equilibrados e de uma sutileza impar. Este 85 provado, mostra com propriedade os aromas terciários de um grande Bordeaux com uma evolução bem trabalhada. Os toques minerais com uma faceta terrosa, a famosa caixa de charutos (cedar box), além de frutas e nuances de caça, estavam presentes em seus aromas e sabores. O equilíbrio em boca é notável com todos os elementos integrados, ou seja, álcool na medida certa, acidez refrescante e taninos totalmente polimerizados e de grande qualidade. Neste nível é impossível não gostar de Bordeaux.

Alguns dados técnicos

51% Cabernet Sauvignon, 46% Merlot, 2% Petit Verdot e 1% Cabernet Franc. A alta porcentagem de Merlot no corte fornece maciez ao conjunto e uma certa precocidade em sua evolução.

São 53 hectares de vinhas com idade média de 27 anos e densidade de plantio em torno de 7300 pés/hectare. O vinho é fermentado em cubas de madeira com maceração de 30 a 40 dias. Posteriormente, é amadurecido por 18 meses em barricas de carvalho. Evidentemente, não são todas novas e por conseguinte a harmonia entre madeira e fruta é total.

Château Pape Clément pertence à classificação de Graves desde 1959 (daí a inscrição Grand Cru Classe)  e sua história começa no século catorze com o Papa Clément V. A recente safra de 2010 tem cem pontos de Robert Parker, prometendo ser uma das grandes de toda a história do château.

Château Palmer: à sombra do grande Margaux

A segunda parte do almoço coube ao impecável Château Palmer 1995, um Troisième Grand Cru Classé de 1855. Não fosse o espetacular Château Margaux, Palmer seria com folga o primeiro na hierarquia deste terroir. Apesar de seus 94 pontos de Parker, está longe de seu apogeu, vislumbrando o ano de 2030. Com certeza, esta garrafa provada pode esperar tranquilamente o ano de 2020. A cor é densa, nem de longe denunciando seus quase vinte anos. Os aromas após quase duas horas de decantação ainda eram tímidos, mas mostrando grande categoria. Fruta escura concentrada, toques delicados de couro (pelica) e nuances de sous-bois, misturando terra e cogumelos. Bom corpo, elegante, taninos de rara textura, equilibrado e persistência aromática expansiva. Naturalmente, falta ainda desabrochar mais aromas e uma perfeita integração de seus elementos. Muita paciência e tudo se resolverá. É o preço da perfeição.

Alguns dados técnicos

51% Merlot, 40% Cabernet Sauvignon e 9% Cabernet Franc. A leve predominância da Merlot aporta a tal feminilidade atribuída à comuna de Margaux. São 55 hectares de vinhas em solos pedregosos (graves) plantadas em alta densidade, cerca de dez mil pés/hectare. O tempo de amadurecimento em barricas de carvalho não é exato e nem divulgado. Contudo, a porcentagem de barricas novas fica no máximo entre 45 e 60%.

Palmer localiza-se em Cantenac, setor diferenciado da comuna de Margaux, a menos de um quilômetro do grande Château Margaux. Esses dois belos châteaux mantêm a mesma distância em relação ao Gironde, onde as camadas de cascalho são mais espessas.

Concluindo, um belo fecho de 2014. Dois tintos com presença marcante de Merlot, mas com propostas, terroirs e fases de evolução bem diferentes. O primeiro, uma obra acabada com uma marca fiel de sua origem. O segundo, uma promessa muito bem encaminhada, desenhada num lindo caminho que os grandes Margaux sempre trilham.

Boas Festas! e que 2014 não deixe saudades.

Chateau Calon-Ségur

15 de Maio de 2014

Em mais um almoço com o amigo Cesar Pigati, grande companheiro da boa mesa, dividimos uma garrafa de um Grand Cru Classé de Bordeaux. Trata-se do tradicional Troisième Château Calon-Segur safra 1996, uma das melhores das últimas décadas para o tinto em questão. De fato, o vinho estava num bom momento para consumo, embora tenha longa vida pela frente, pelo menos mais dez anos. Seus discretos 12,5 graus alcoólicos foram perfeitamente equilibrados com a habitual acidez de um Saint-Estèphe, de solo mais argiloso, além de uma estrutura tânica invejável. Taninos polidos, ainda não totalmente polimerizados, mas perfeitamente casados com a suculência e gordura de um belo carré de cordeiro.

chateau calon segurImponente como a foto

A história do Château remonta o século XVIII quando o marquês Nicolas-Alexandre de Ségur era proprietário dos Châteaux Lafite, Mouton e Latour, chamado por Luis XV de “Príncipe das vinhas”. Seu casamento unindo-se à família Gasqueton permitiu a posse de mais uma propriedade, denominando-a de Calon-Ségur. Calon era o nome dado a embarcações na idade média para a travessia do Gironde de uma margem à outra. O afeto pelo château era de tal maneira que proferiu a seguinte frase: “Faço os vinhos de Lafite e Latour, mas meu coração está em Calon”. Esta declaração é perpetuada em seu rótulo na forma de um coração envolvendo seu nome. Não confundi-lo com o Château Phelan-Ségur, este um Cru Bourgeois também de prestígio.

calon segur 1996A cor surpreendente de um Bordeaux na maioridade 

A foto acima traduz bem a lenta evolução dos grandes tintos de Bordeaux. Este com seus dezoito anos mal apresenta um leve indício atijolado nas bordas, sugerindo ainda bons anos de guarda. Um grande Saint-Estèphe pede longa guarda, pois na juventude é um tinto de taninos firmes e acidez insolente. Só o tempo é capaz de domar e integrar devidamente estes componentes. Sua composição segue a linha clássica do corte medoquino: 65% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot e 15% Cabernet Franc. As vinhas têm em média quarenta anos de idade e o vinho amdurece em barricas de carvalho por vinte e quatro meses, sendo de 30 a 50% novas.

Na elite desta apelação (comuna de Saint-Estèphe) temos os Châteaux Montrose e Cos d´Estounel. O primeiro de estilo mais tradicional, enquanto o segundo tem seu exotismo, inclusive em sua arquitetura. Mas como disse o Marquês, temos sempre um lugar no coração para um belo Calon-Ségur. Santé!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Terroir: Cognac x Bordeaux

29 de Abril de 2014

Vendo o mapa abaixo, a primeira pergunta a fazer: Como regiões tão próximas podem elaborar bebidas tão diversas? A resposta são as condições inerentes a cada um dos terroirs.

Bordeaxu e Cognac: latitudes próximas

Embora estejamos falando de latitudes bastante próximas, as condições litorâneas e de solo são bem diversas. De fato, em Cognac a influência marítima é direta sobre o continente, tornando a ar frio e salino. Além disso, os solos em Cognac são fortemente calcários a partir do centro da apelação, perdendo radialmente esta característica até a borda com as sub-regiões de Bons Bois e Bois Ordinaires. Nestas condições, o cultivo de uvas brancas com destacada acidez é evidente, dando origem a vinhos ácidos e magros, pré-requisitos indispensáveis para boas eaux-de-vie (aguardentes). Aqui estamos diante do melhor destilado de vinhos na sua forma bruta. Aliado a outras condições de terroir, como manejo da destilação, amadurecimento em carvalho de Limousin e critérios próprios de assemblage, este diamante bruto é devidamente lapidado ao longo tempo nas caves.

Grande Champagne: solo calcário no melhor terroir de Cognac

Neste terroir de Cognac o amadurecimento das uvas é dramático. O melhor a fazer é cultivar uvas brancas relativamente neutras como a Ugni Blanc, mais conhecida localmente como Saint-Emilion. Na Itália assume o nome de Trebbiano. Este vinho neutro e magro é tudo que uma aguardente de qualidade precisa.

Saint-EstèpheMédoc: comuna de Saint-Estèphe

Na região imediatamente abaixo, separada pelo estuário do Gironde, temos a nobre região de Bordeaux, mais especificamente, o Médoc. Este terroir forjado pelo homem, tratou de proteger o continente com uma floresta de pinheiros à beira-mar dos ventos salinos do Atlântico. Na verdade, o florestamento com pinheiros foi para impedir o avanço das dunas sobre o continente. A protecão dos ventos veio como consequência. Além disso, as principais comunas do Médoc (desde Saint-Estèphe até Margaux) foram devidamente drenadas por engenheiros holandeses no início do século dezessete, aflorando um solo bastante pedregoso, os famosos “graves”. Some-se a isso a influência da massa de água do rio Gironde, regulando as temperaturas, e teremos o melhor terroir do mundo para o cultivo de Cabernet Sauvignon, cepa protagonista no famoso corte bordalês de margem esquerda. O solo aqui também se modifica com camadas alternadas de argila, calcário e areia. De fato, a Cabernet Sauvignon, cepa de maturação tardia, encontra no Médoc seu ciclo de maturação alongado, acumulando lentamente açúcar, polifenóis, sobretudo os taninos, componentes fundamentais para a incrível longevidade deste grandes tintos.

À mesa, estas duas regiões atendem à mais refinada gastronomia. Os brancos bordaleses são surpreendentes e relativamente pouco conhecidos. Os tintos dispensam comentários, assim como os brancos doces, botrytisados, entre os melhores do mundo. Para finalizar qualquer refeição, o melhor dos brandies, o inimitável Cognac em suas várias categorias. Neste mesmo blog, há artigos específicos sobre essas duas grandes regiões (Bordeaux e Cognac).

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes FM 90,9  às terças e quintas-feiras. Pela manhã no programa Manhã Bandeirantes e à tarde no Jornal em Três Tempos.

Refeição Britânica: Champagne, Bordeaux e Porto

20 de Março de 2014

Almoço entre amigos é sempre muito bom, sobretudo quando há afinidades enogastronômicas. É o que acontece nos encontros com os médicos Cesar Pigati e Sylvio Gandra, companheiros de copo de longa data.

Pichon PauillacPichon-Longueville: Um dos grandes de Pauillac

Neste último almoço, seguimos a tradição inglesa. Inciamos os trabalhos com champagne Pol Roger (of course), dando sequência a um bordeaux tinto e finalizando com Porto Vintage.

Pichoin 99Pichon 99: Halo de evolução após quinze anos

Começando pelo bordeaux, era o grande Château Pichon-Longueville ou Baron de Pichon-Longueville, safra 1999, um Pauillac de bela evolução. Como todo margem esquerda, a uva majoritária no corte é a austera Cabernet Sauvignon, a qual mostrou-se perfeitamente domada após quinze anos de safra. A previsão de Parker estava certa, encontrando-se neste momento no auge de sua plenitude. Aromas terciários elegantes com frutas escuras, tabaco, couro, cedro, chocolate e ervas finas, marcas registradas de um autêntico Pauillac. A boca acompanha o nariz, macio, expansivo e taninos sedosos. Corpo médio, extremamente elegante e um final equilibrado, próprio dos grandes vinhos.

Porto e charutoTaylor´s Vintage: Engarrafado após dois anos de safra

O arremate final, um Porto Vintage, um Taylor´s Port, e que Taylor´s! Um dentre os maiores do século passado, o monumental 1994, cem pontos para vários críticos importantes. Desta feita, o remorso foi menor, após alguns infanticídios cometidos anteriormente. Apesar da riqueza de seu aroma, encontra-se ainda numa fase primária, mesmo decorridos vinte anos. Muita fruta em compota, especiarias, incenso e um fundo mineral. Deve evoluir por pelo menos mais trinta anos. Na boca, surpreende pela sedosidade, embora sua trama tânica seja portentosa. O equilíbrio é notável com seus vinte graus de álcool em perfeita harmonia balanceada pela acidez e taninos. Final de boca extremamente expansivo. Foi acompanhado à altura pelos puros Partagás Pirâmide P2 (sério concorrente do famoso Montecristo de mesma bitola) e pelo exótico Bolivar Belicosos (um Pirâmide de dimensões mais discretas).

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Rádio Bandeirantes FM (90,9) nas terças e quintas nos programas Manhã Bandeirantes e à tarde no Jornal em Três Tempos.

Os números de Bordeaux em 2012

17 de Março de 2014

É sempre bom atualizarmos os números de Bordeaux, a maior região vinícola da França, com folga. São sessenta apelações de origem em mais de cento e dez mil hectares de vinhas. Suas exportações  em euros respondem por cerca de 44% dos vinhos tranquilos franceses. Esses e outros números estão disponíveis no link abaixo, junto ao mapa de Bordeaux.

http://www.bordeauxpresse.com/upload/article/Essentielenchiffres.pdf

clique no link acima

As uvas tintas dominam amplamente a região com 89% da superfície plantada. A Merlot é de longe a tinta mais cultivada com 63% , seguida pela Cabernet Sauvignon com 25%, Cabernet Franc com 11%, e apenas 1% de outras tintas (Malbec e Petit Verdot, sobretudo). 

É fácil explicar o domínio da Merlot, principalmente levando em conta apelações mais genéricas e portanto, de maior produção. É uma uva de maturação relativamente precoce, sujeita a um menor risco de chuvas na colheita e além disso, molda vinhos fáceis de beber, com muita fruta e maciez agradável.

Quanto à superfície das principais apelações bordalesas, percebemos que as sub-regiões de Médoc, Graves, Pomerol e Saint-Émilion, as mais nobres de Bordeaux, não chegam a 30% do total da área plantada. Os grandes châteaux que realmente fazem a fama da região nestas apelações com muito boa vontade chegam a 10% da superfície bordalesa.

Os altos preços dos famosos vinhos doces da região (principalmente Sauternes e Barsac) são justificados pela baixíssima produção. A área cultivada desses vinhos representam somente um porcento do total. Se levarmos em conta somente os grandes châteaux para este tipo de vinho, a área cultivada é irrisória. 

As exportações bordalesas são lideradas em volume pela China, Alemanha e Bélgica, respectivamente. Já em termos de valores, Reino Unido, China e Hong-Kong, assumem a ponta, respectivamente.

O impacto, a notoriedade e a visibilidade dos vinhos franceses no mundo são calcados sobretudo nas regiões de Bordeaux e Champagne. Os números traduzem melhor este glamour. A cada segundo são abertas dez garrafas de champagne no mundo e vinte e três garrafas de vinhos bordaleses. Em qualquer língua esses nomes (Bordeaux e Champagne) não precisam de tradução, é pura magia. 

Lembrete

Vinho Sem Segredo na Rádio Bandeirantes FM (90,9) às terças e quintas, no Manhã Bandeirantes e no Jornal em Três Tempos.

Dez dicas para o final do ano

19 de Dezembro de 2013

Final de ano, hora de pensar nas receitas de Natal e Ano Novo. Junto com elas vêm as dúvidas sobre os vinhos e as harmonizações. Já comentamos muito neste mesmo blog as principais harmonizações desta época do ano. Contudo, segue abaixo um guia prático esclarecendo algumas das principais dúvidas.

  • Qual espumante escolher? 

Normalmente escolhemos o tipo Brut, aceito pela maioria das pessoas. É ideal para receber os amigos, acompanhar petiscos, salgadinhos e as primeiras comidinhas. Dependendo do bolso de cada um e do tamanho da festa, podemos optar por nacionais, os Cavas (Espanha), os Proseccos (Itália) ou os franceses (Champagne ou Crémant).

  • Para acompanhar o Tender

Normalmente, as receitas de Tender vão para o lado agridoce. Os toques defumados e esta tendência adocicada casa bem com rieslings alsacianos ou alemãos com doçura compatível ao teor de açúcar da receita. Além disso, os toques minerais do riesling harmonizam-se bem com o defumado da carne. Por ser um prato bastante aromático, o Gewurztraminer da Alsácia também é uma boa alternativa. Espumantes moscatéis é outra ideia interessante.

  • Para acompanhar o Peru de Natal

A carne de peru tende a ressecar, sem falar nos acompanhamentos que reforçam esta característica (arroz com frutas secas e farofa). Portanto, fuja de vinhos tânicos que costumam travar o paladar. O ideal são brancos á base de Chardonnay ou tintos com Merlot que conferem uma certa untuosidade ao prato. Molhos ou acompanhamentos agridoces reforçam essas escolhas.

  • Para o Lombinho do Porco

Outro prato onde a carne costuma ressecar. Vale os mesmos princípios acima citados. Os vinhos podem ser um pouco mais encorpados e com acidez mais presente, mantendo as dicas de brancos e tintos para o peru. Um certo toque de madeira pode enriquecer a harmonização, sem exageros. 

  • Para o Cordeiro

O clássico pernil ao forno com ervas é muito bem escoltado com os tintos bordaleses de margem esquerda. A trama fechada da carne com a devida suculência e os toques herbáceos são um prato cheio para os Cabernets tânicos da nobre região do Médoc. Outros cortes e receitas podem mudar a escolha para a margem direita ou para tintos de outras regiões vinícolas.

  • Para a Leitoa

A leitoa, rica em sabor e gordura, precisa de vinhos de boa acidez. Os espumantes mais estruturados, preferencialmente elaborados pelo método tradicional (tomada de espuma na própria garrafa) costumam fazer bonito. Os tintos bairradinos (famosa região vinícola da Bairrada, próxima à Coimbra) que aliam acidez e taninos são sempre lembrados. Os italianos com as uvas Sangiovese (Toscana) e Barbera (Piemonte) são opções bem interessantes.

  • Para o Bacalhau

A eterna dúvida, tinto ou branco? Os brancos amadeirados e evoluídos com um certo toque de rusticidade são sempre belas escolhas. Já os tintos da península ibérica costumam acomodar-se melhor. Riojas envelhecidos (Reserva ou Gran Reserva) e tintos de muita fruta e taninos dóceis do Alentejo são ótimos companheiros. Evidentemente, particularidades de cada receita podem definir com maior precisão a escolha correta.

  • Para o Panetone

Estamos falando do panetone tradicional, aquele com frutas cristalizadas. Voltando aos espumantes, os doces à base de Moscatel são ideais, formando uma sintonia de sabores muito interessantes. O Asti Spumante é o pioneiro, mas várias ótimas cópias nacionais dão conta do recado.

  • Para as Frutas Secas

Não só as frutas em si (nozes, avelãs, amêndoas, etc…), mas tortas e bolos com esses mesmos ingredientes, pedem um vinho do Porto ou um Madeira, ambos fortificados. Preferencialmente, escolha os Portos de estilo Tawny, com aromas e sabores mais sintonizados com este tipo de fruta. Os Madeiras podem ser desde os mais secos como Sercial e Verdelho, sobretudo se as frutas forem servidas como aperitivo, ou os mais doces, Boal e Malmsey, para finalizar a refeição.

  • Para as Rabanadas

Na mesma linha da dica precedente, os fortificados portugueses são combinações clássicas. Contudo, prefira Portos mais simples, portanto menos concentrados no estilo Tawny. Um Madeira Boal pode ser perfeito com o açúcar das rabanadas sem exagero. Late Harvests com toques abaunilhados e de especiarias podem ser boas alternativas, tomando cuidado para não serem untuosos demais.

De resto, é curtir o momento com os amigos e testando novas opções de harmonização com muito humor e divertimento. Afinal, estamos sempre aprendendo, mesmo nos momentos mais descontraídos. 

Grande abraço, Boas Festas a todos que acompanharam Vinho Sem Segredo durante este ano. Feliz 2014!

Bordeaux: Château Pape Clément

31 de Outubro de 2013

pape clement2003: Safra atípica

O mais antigo vinhedo de Bordeaux, com mais de setecentas colheitas, uma história que começou em 1305. Seu mais ilustre proprietário, Pape Clément, dá o nome ao château. Atualmente, seu dono é Bernard Magrez, apaixonado por vinhos e proprietário de vários châteaux espalhados pelo mundo.

Este artigo foi inspirado num almoço com meu grande amigo, doutor César Pigati, bordalês de carteirinha, onde dividimos o vinho abaixo (foto) na polêmica safra de 2003. Este château tem evoluído muito desde a ótima safra de 1998, colecionando com facilidade notas acima de 90 pontos. Nesta safra degustada, Parker julgá-o com notas entre 93 e 94 pontos. Concordo com esses números e não daria menos que 92 pontos.

pape clement livro

Almoço seguido de Porto e o incenso dos “Puros”

O vinho realmente é macio, dado sua baixa acidez com relação à média de outros anos em Bordeaux. Taninos densos, bem delineados, muita fruta, o característico toque terroso (mineral), cogumelos, especiarias e ervas finas. Realmente, apesar de estar na margem esquerda, Pessac-Léognan apresenta um terroir diferenciado, tendo algo de Saint-Émilion, margem direita. Daí a necessidade de uma classificação específica, a famosa classificação de Graves em 1959, separada dos Grans Crus Classés do Médoc.

pape clementVizinhança de grandes châteaux

Pessoalmente, considero Pape Clément como terceiro vinho na hierarquia de Graves, atrás somente das feras Haut-Brion e La Mission Haut-Brion. O grande enólogo do século XX em Bordeaux, professor Émile Peynaud, tinha especial carinho por este chãteau e foi seu consultor após a segunda grande guerra mundial. O vídeo abaixo conta um pouco da hístória do chateau.

http://youtu.be/_JY3wGU0tfw

O vinhedo possui área de 53 hectares, sendo 51% Cabernet Sauvignon, 46% Merlot, 2% Petit Verdot e 1% Cabernet Franc. As vinhas têm idade média de 27 anos e a densidade do vinhedo é de 7300 pés por hectare. O solo mescla as famosas graves (pedras), argila e areia. A filosofia de trabalho é orgânica com tração animal (cavalos) nos vinhedos. A vinficação tem longa maceração (30 a 40 dias) com redimentos de 37 hectolitros por hectare. O amadurecimento dá-se em barricas de carvalho novas por dezoito meses.

Safras como 1998, 2005 e 2010, estão entre as mais destacadas. Curiosamente, um 2002 acima da média com 92 de Parker. Talvez, o melhor de Graves neste ano.

Château Pape Clément possui um segundo e terceiro vinhos, Le Clémentin du Château Pape Clément e Le Prélat du Château Pape clément, respectivamente. Da mesma forma acontece com os brancos, sendo o Grand Vin de qualidade destacada. Um assemblage de Sauvignon Blanc e Sémillon em parte iguais com fermentação em barricas e posterior bâtonnage (movimentação das borras períodicas na massa vínica). 

Enfim, um vinho abençoado pelo Papa e uma das pedidas certas quando falamos em grandes châteaux em Bordeaux.