Archive for the ‘França’ Category

Entre Brancos e Tintos

15 de Fevereiro de 2018

As tonalidades de cores onde se define um vinho rosé são inúmeras. Desde um vin gris quase branco, até um clairet, vinho bordalês da Idade Média quase tinto, os rosés têm cores das mais surpreendentes.

roses cores

nuances variadas

Provavelmente, os primeiros vinhos do mundo eram rosés por uma questão de lógica. As uvas brancas e tintas podiam ser misturadas na fermentação, e não havia um controle preciso da maceração das cascas. Portanto, não havia o vinho branco como conhecemos, calcado em extrema tecnologia, e nem o vinho tinto de cores acentuadas, fruto de uma extração e macerações prolongadas. O esquema abaixo mostra a lenta e progressiva evolução do vinho.

origem do vinho

evolução do vinho

Vin Gris

Trata-se de um rosé bem pálido, fruto de uma maceração bem curta, geralmente com as uvas Pinot Noir e/ou Gamay como no Gris-de-Toul, apelação francesa de Lorraine, ao lado da Alsácia.

No sul da França há também o Gris de gris, elaborado com as uvas Grenache Gris ou Pinot Gris. Vinhos delicados, de cores pálidas.

vin gris

Vin Gris: cores pálidas

Oeil-de-Perdrix

Especialidade suíça da região de Neuchâtel elaborada com Pinot Noir por pressurage direct, extração bem delicada. Este estilo se difundiu na Alemanha e também na Bourgogne. Lembro-me muito bem de um Oeil-de Perdrix do Domaine Dujac, inesquecível.

rose Oeil_de_Lerdix

rosé delicado

O estilo White Zinfandel é a versão americana para este tipo de rosé. Na sua maioria, medíocre.

Tavel

Produto de longa maceração a frio entre 6 e 48 horas. Desta maceração em tanques, resulta o chamado jus de saignée ou jus de goutte que é drenado no processo. Em seguida, as uvas são prensadas dando origem ao jus de presse. A junção deste dois caldos (jus) é que dá origem ao Tavel que em seguida vai ser fermentado. O resultado é um rosé notadamente vivo e colorido. Rosé de corpo e muito gastronômico.

rose tavel

cores mais acentuadas que um Tavel

Clairet

Uma especialidade bordalesa que fica no limite entre um rosé  e tinto pálido. Era o Bordeaux da Idade Média apreciado pelos ingleses, já que na época os tintos finos tinham uma cor mais atenuada, semelhante aos melhores Bourgognes. O termo inglês se diz Claret. A diferença técnica é o tempo de maceração. Duas a três horas para um Rosé, e três a quatro dias para um Clairet pelo método saignée. 

bordeau clairet

quase um tinto leve

São pouco mais de 500 hectares da apelação Bordeaux-Clairet cultivados com as tradicionais cepas bordalesas. Vale pelo menos como curiosidade para sentir o gosto de outros tempos dentro de uma tecnologia moderna.

Tibouren

rose Tibouren

Cepa característica da Provença trazida pelos Romanos. Adaptou-se muito bem a vinhos rosés, fornecendo pouca cor, aromas interessantes para este tipo de vinho, e bom potencial de álcool. Geralmente é mesclado no corte provençal com outra uvas como Grenache, Cinsault, Syrah, entre outras. Destaque para o Clos Cibonne, vinícola provençal que tem na Tibouren, sua uva principal no corte.

vin rosé produção mundial 2015

cerca de 10% dos vinhos tranquilos são rosés

Em uma mesa eclética com várias opções de pratos, o rosé mostra-se muito versátil e gastronômico, adaptando-se a múltiplos sabores.

O vinho é fascinante entre outras coisas por isso. Apenas na tonalidade de cores, fruto de extração mais ou menos extensiva, proporciona estilos sutis e altamente gastronômicos, calcados na história e desenvolvimentos de regiões específicas.

Portanto, antes de julgar a cor de um rosé, atente para sua origem. Um pré-julgamento pode resultar em conclusões equivocadas. Na taça, está sempre a resposta. In vino Veritas!

30 anos de Importação

12 de Fevereiro de 2018

Em 1985 aproximadamente, quando comecei a tomar vinho, o mercado da bebida era extremamente restrito, sobretudo com os importados. O vinho nacional com algum destaque de qualidade tinha marcas como Granja União, Adega Medieval, e Velho do Museu. As marcas mais comerciais vinham da vinícola Aurora e o forte marketing da antiga Almadén. Realmente, fui um herói. Que dureza!

A partir da safra 1999, uma das grandes do vinho brasileiro, um grupo de produtores na serra gaúcha começava a fazer história do moderno vinho nacional. Dentre esse pioneirismo, podemos destacar a vinícola Miolo com seu Lote 43, e a vinícola Pizzato com seu incrível Merlot, ambos da safra 99.

No setor de importados, Cusiño Macul Antigas Reservas reinava absoluto nos anos 80 como grande tinto chileno. Logo chegou Don Melchor para fazer concorrência e o Casa Real da Viña Santa Rita era mais difícil encontrar. Não vou falar daquela aberração da garrafa azul e nem dos tintos portugueses rústicos e duros. O vinho Verde na época é que salvava algumas situações em dias mais quentes acompanhando pescados. Do lado italiano, os Chiantis eram muito fracos em qualidade, embora sempre gastronômicos. Da França, vinhos de negociantes como Barton & Guestier, inundavam o mercado com vinhos insípidos das apelações Bordeaux e Rhône, sobretudo. A Espanha se salvava com bons Riojas sem grandes variedade de marcas. Em resumo, cenário muito diferente da atualidade, onde o Brasil a despeito de preços escorchantes, tem um leque de opções dos mais variados países, produtores destacados em suas respectivas denominações, portfolio diversificado em grandes importadoras, não devendo nada para países de primeiro mundo.

Retrospectiva dos importados

As primeiras grandes importadoras como Maison du Vin, Expand, Silmar, Gomes Carrera, Casa Prata, Aurora, entre outras, trabalhavam como podiam num mercado ainda fechado. Saudades em especial pela Maison du Vin com vinhos impecáveis. Belos Bourgognes, Vega-Sicilia, Trimbach da Alsácia, e bela seleção da África do Sul.

Australianos

A importadora Mistral trouxe o grande nome australiano chamado Penfdolds no final dos anos 80 antes da importadora KMM, especializadas em vinhos australianos, chegar em 1992.

Alentejanos

Em 1998, a Adega Alentejana mostra uma outra face do vinho português através de seu proprietário, Manuel Chical. Vinhos modernos, macios, e de grande aceitação. Sem dúvida, o Alentejo abriu portas para outras regiões portuguesas e para a modernização geral do país no setor vitivinícola.

Nova Zelândia

Em 1999, tivemos a inauguração da Premium Wines, importadora referência nos belos vinhos neozelandeses. Os vinhos brancos, sobretudo o Sauvignon Blanc, ganhou uma nova roupagem e muitos adeptos no consumo desta novidade.

Argentina

A chegada dos vinhos Catena no Brasil pela Mistral somada à inauguração da importadora Grand Cru em 2002, permitiram que os brasileiros descobrissem a nova e moderna indústria de vinhos argentinos. Até então, os vinhos eram muito tradicionais e obsoletos.

Espanhóis 

Há cerca de 20 anos, chegava ao Brasil uma leva de vinhos espanhóis modernos através da importadora Peninsula. Mesmo em regiões tradicionais como Rioja e Ribera del Duero, produtores inovadores começavam a se destacar com vinhos surpreendentes.

importação de vinho 2015

Chile

Embora o Chile desde sempre mantenha a dianteira no setor de importações brasileiras no quesito vinho, sua penetração e crescimento aconteceu de maneira natural e progressiva. O grupo Concha Y Toro, um dos gigantes mundiais, garante absoluta supremacia no mercado de importados com vinhos bastante diversificados, desde aqueles muito simples e de preços módicos, até grandes ícones como Don Melchor e Carmin de Peumo. A oferta dos mais importantes produtores chilenos é vasta e notadamente pulverizada entre as importadoras brasileiras.

França e Itália

Assim como no caso chileno, França e Itália participam do mercado brasileiro de vinhos de longa data. É bem verdade que na maioria dos casos e sobretudo em termos de volume, a qualidade deixa a desejar com um mar de Lambruscos, Chiantis, Valpolicellas, de péssima qualidade. Do lado francês, não fica por menos, Bordeaux, Rhône e Bourgogne comercializados pelos chamados Négociants, deixam muitos consumidores com má impressão dos vinhos franceses. 

Evidentemente, numa escala minimalista, várias importadoras trazem vinhos sofisticados, premiados, e da mais alta qualidade dentre esses dois países. Para destacar uma só importadora, há muito tempo no mercado, temos a Cellar desde 1995, pinçando produtores artesanais e exclusivos, sob a batuta do expert Amauri de Faria.

Estados Unidos

Muita gente se surpreende quando descobre que os Estados Unidos são o quarto maior produtor mundial de vinhos e está entre os três maiores importadores da bebida. Os grandes produtores americanos estão entre os melhores do mundo, mas seus preços são proibitivos. Os vinhos mais acessíveis também são relativamente caros. Com isso, as importações brasileiras de vinhos americanos foi sempre discreta e sem grandes atrativos. É preciso pesquisar as poucas ofertas interessantes que existem.

alemanha importaçõesescalada da garrafa azul (1993 a 1996)

Alemanha

Depois de tanto tempo, ainda há resquícios da péssima imagem deixada pela garrafa azul. E muitos consumidores participaram deste mico. A Alemanha faz grandes vinhos brancos, sobretudo com a casta Riesling. Há boas ofertas no mercado, mas seu consumo é decepcionante, visto a qualidade e singularidade de seus vinhos. Importadoras como Decanter e mais recentemente Vindame, primam por ótimos produtores.

Uruguai e África do Sul

Países  que sempre tiveram presentes nas importações brasileiras, embora sem grandes destaques. Os vinhos sul-africanos há muito tempo frequentam as prateleiras das principais importadoras e lojas de vinhos. Mesmo no início dos anos 90, importadoras como Expand e Maison du Vin, possuíam um portfolio invejável de grandes produtores premiados da África do Sul. Houve em certos períodos um consumo e interesse do consumidor mais acentuados, mas a longo prazo os vinhos não vingaram como previsto.

O mesmo ocorreu com o Uruguai e seus Tannats. Apesar da proximidade, a produção é pequena e a dependência da casta ícone, restringiu os consumidores a um estilo de vinho robusto, nem sempre muito bem compreendido. Isso tem mudado em tempos mais atuais, inclusive com a aceitação de belos vinhos brancos. Um mercado em ascensão. 

Perspectivas

O Chile parece conquistar seu posto de primeiríssimo lugar, sem riscos. Grupos vinícolas como Concha Y Toro, Viña Santa Rita, e Viña San Pedro, tem grande penetração em nosso mercado nas mais variadas faixas de preço.

Portugal cresce a passos largos com a modernização de seus vinhos nas principais regiões vinícolas do país. Enquanto Alentejo e Douro garantem a qualidade de vinhos com forte  valor agregado, a região de Lisboa busca uma fatia cada vez maior com vinhos de preços altamente competitivos. A história que envolve os dois países, Brasil e Portugal, contribuem para uma aceitação bastante forte e natural.

Argentina e Espanha têm espaço para crescer. Do lado argentino, o desenvolvimento de micro regiões  e um foco maior nas questões de terroir podem despertar cada vez mais o interesse do consumidor. Do lado espanhol, a busca por vinhos mais autênticos trabalhados com baixos rendimentos, geram cada vez mais vinhos interessantes e de preços relativamente competitivos. A versatilidade da Tempranillo nos vários terroirs espanhóis é uma arma poderosa neste objetivo.

Em suma, pelo menos 50% do mercado de importados parece destinados a Chile e Argentina. A outra metade, Espanha e Portugal incomodam cada vez mais os gigantes tradicionais, França e Itália.

 

Liger-Belair e sua nobre vizinhança

7 de Fevereiro de 2018

Dando prosseguimento ao artigo anterior na Maison Laurent (Uma noite com Paul Laurent), chegou a hora dos tintos, e que tintos!

ee58d5a7-dfaf-4e26-a9fb-3f7d22404360.jpgprova do crime

Domaines legendários desfilaram em vários flights em safras memoráveis. Com a orientação do Comte Louis-Michel Liger-Belair, presente no evento, a sequência de legendas será descrita abaixo, começando com duas safras de seu grande ícone, La Romanée Grand Cru com área pouco maior que 0,8 hectare. Ratificando novamente, a reportagem completa sobre o renascimento do Domaine Liger-Belair a partir do novo milênio, segue no link Domaine Liger-Belair: O novo milênio

IMG_4240.jpgsafras bem pontuadas, mas de estilos diferentes

O estilo Liger-Belair segue claramente o caminho da delicadeza, lembrando um Chambolle-Musigny. As duas safras degustadas, ainda muito novas, mostra vinhos bem focados na fruta, nos traços florais e de especiarias. O 2006 é um vinho mais agudo, mais vibrante em acidez, e é essa acidez que permitirá um longo envelhecimento. Toda a finesse de Vosne-Romanée. Já o 2007, é um vinho mais direto, mais aberto em aromas, e mais macio. Tem uma riqueza tânica importante, mas de ótima textura. É sem dúvida, o mais prazeroso para ser tomado no momento.

IMG_4248.jpga essência de um bourgogne envelhecido

Safras antigas sempre serão polêmicas e jamais conclusivas, pois cada garrafa é uma história. A safra 1961 foi de baixos rendimentos e grande concentração, sobretudo para o astro maior, Romanée-Conti. Este exemplar é no mínimo hedonístico no sentido de apreciarmos todos os aromas terciários de um La Tâche envelhecido. As notas de cogumelos, adega úmida, sous-bois, estão todas presentes. Em boca, o ponto alto é o equilíbrio com todos os componentes em harmonia. Falta-lhe aquela expansão dos La Tache memoráveis, mas seu final de boca faz lembrar que em Vosne não existem vinhos comuns.

IMG_4245.jpga elegância em plena maturidade

A vantagem de provar este vinho é perceber sua plena maturidade numa safra sem grandes destaques. Clos de Bèze é o lado mais feminino de seu grande rival Le Chambertin. Nas mãos de Rousseau é que percebemos a importância do produtor nas safras menos badaladas. Aromas elegantes, taninos justamente extraídos, valorizando a delicadeza da fruta. Não é muito longo, mas seu equilíbrio é notável. Ótimo momento para ser abatido, já atingindo a maioridade. 

IMG_4259.jpgum pódio de campeões

A safra 1991 é sempre subestimada quando comparamos com 1990. Entretanto, há muitos exemplos de grandes surpresas, inclusive no La Tache 1991. Este exemplar especificamente, não se tratava das melhores garrafas. Entretanto, dava para perceber todo seu extrato e potencial, embora um pouco cansado. As melhores garrafas atingem 97 pontos, superando o próprio La Tache 1990. Mesmo assim, a força deste La Tache é impressionante com uma bela estrutura tânica. Seus aromas terciários já se impondo sobre a fruta, revela um final harmonioso, embora sem grande expansão.

Quanto aos dois Chambertins, temos uma diferença de quase uma década. Mais uma vez, 1990 não é aquele paraíso que imaginamos. Um vinho muito bem equilibrado, distinto, já com boa evolução em garrafa, mas falta-lhe algo para ser um dos grandes. Tanto é verdade, que outros Grands Crus do próprio Rousseau nesta safra, tiveram desempenho melhor. Não chegará perto do estupendo 1985, mas tirando as comparações, um Chambertin de livro.

Quanto ao 1999, este sim, tem punch e vigor para romper décadas. Um poder de fruta incrível, tenso em boca, e um extrato fabuloso. É preciso decanta-lo por pelo menos duas horas. Seus taninos ainda potentes, mas de extrema qualidade, pede carnes  consistentes como pato, por exemplo. Daqueles que provamos do Rousseau, é o que tem maior potencial de guarda.

3ba6cc11-f457-49fc-9df1-b97ac69ff267.jpgpoulet de bresse diretamente da França

Os tintos mais evoluídos da noite com aromas terciários notáveis, escoltaram muito bem um dos belos pratos do jantar, Poulet de Bresse aux Morilles. A ave com as perninhas escuras veio diretamente da França preparada nesta receita clássica, envolvendo creme de leite e os delicados cogumelos Morilles.

IMG_4251.jpglendas da Borgonha

Aqui entramos no ápice do jantar com quatro vinhos da safra 1985 de arrasar quarteirões. A maioria dos Echezeaux a princípio, não seria páreo para um Chambertin de Rousseau. Contudo, estamos falando de Henri Jayer, uma lenda da Borgonha. Este bruxo onde põe a mão vira ouro. Um vinho extremamente elegante, raçudo, que tem profundidade. Está delicioso para ser bebido no momento, mas sem nenhum sinal de cansaço.  

Agora, para tudo, tirem as crianças da sala. Estamos diante do maior Chambertin da história, este magnifico 1985 de Armand Rousseau, talvez só superado pelo mítico 1972. Um show de aromas, equilíbrio, texturas. Seus aromas terciários de caça se fundem magnificamente a frutas como cerejas escuras imersos em uma cadeia longa de taninos que parecem rolimãs. Suntuoso e inesquecível.

Clos de La Roche Históricos!

Novamente, a apoteose. Dois dos maiores Clos de La Roche da história de seus respectivos produtores, Dujac e Ponsot. Daria tudo para prova-los separadamente, pois a comparação é sempre cruel. Dujac, numa apresentação de gala com todos os adereços a que tem direito. Seus aromas de couro, notas empireumáticas, sous-bois, e uma boca aliando com perfeição a força desta apelação numa textura extremamente sedosa.

E finalmente, chega o grande vinho da noite, pelo menos pessoalmente. Um monstro chamado Ponsot. A força deste vinho, sua cor inacreditavelmente jovem, a vivacidade de suas frutas escuras, uma avalanche de taninos absurdamente polidos, e a mais pura sensação de alcaçuz emoldurando o conjunto. Dizem que  a safra 1971 é lendária, mas superar este exemplar é quase surreal. Apesar de extremamente prazeroso, ainda pode evoluir por pelo menos 15 anos, revelando quem sabe, seus mais profundos segredos. Enfim, uma aula de Clos de La Roche.

IMG_4261.jpguma década de evolução

Seguindo em frente, dois Chambertins classicamente duros, característica das safras 1988 e 1998. Na mais antiga, de 1988, os anos lhe fizeram bem. Taninos mais polimerizados, aromas mais desenvolvidos, mas um vinho de muita força. Vinho que pode ser guardado ainda, além de ser muito gastronômico. Harmonizou muito bem com o pato servido no jantar por sua estrutura rica. O de safra 1998 segue a mesma linha. Embora dez anos mais jovem, proporcionalmente é bem acessível, visto que apresenta uma estrutura menos portentosa que seu par. Certamente, terá uma trajetória mais curta quanto ao envelhecimento.

IMG_4260.jpga hierarquia prevalece

Aqui, um flight desigual, tanto na questão hierárquica, como na relevância das safras. A safra 1989 para o DRC Richebourg não teve o mesmo esplendor de 1988. Mostra-se um vinho amável, acessível, mas com uma estrutura um tanto frágil. Contudo, a prontidão e desenvolvimento de seus aromas e sabores o tornam muito prazeroso. Os toques terrosos e de cogumelos ficaram muito bem o Poulet de Bresse aux Morilles do jantar.

Por fim, sua majestade Romanée-Conti 1988. É impressionante a juventude deste vinho com seus 30 anos de vida, só comparável ao Ponsot Clos de La Roche acima descrito. Este vinho tem uma sobriedade quase irritante. Seu aroma tem sempre algo de misterioso, mas as rosas, a especiaria, a fruta bem colocada, estão lá. O que tem de potência no Clos de La Roche, sobra em elegância neste exemplar. A boca é harmoniosa, profunda, e persistente. Dá para ver na foto, que o Richebourg ficou meio intimidado …

fcabcab2-ad2b-4f2f-816f-f1760c603af0.jpgClimens 1929, o melhor da História

Em meio ao caos financeiro em Nova Iorque no ano de 1929, nascia o melhor Climens de toda sua história com 100 pontos. Chateau Climens é o rei de Barsac, região contígua a Sauternes, onde se elabora os vinhos botrytisados mais elegantes da região. Só a emoção de provar uma garrafa desta idade com as marcas do tempo, é motivo de sobra para contemplação. Pela cor âmbar escuro, lembra os grandes Tokaji Eszencia envelhecidos. A diferença marcante é a textura mais delgada deste Climens, sobretudo por conter bem menos açúcar residual que seu rival húngaro. De todo modo, os aromas e sabores de mel caramelado, damascos, cítricos cristalizados, e algo de curry, permeiam seu vasto espectro aromático, próprio dos vinhos imortais.  

Sem palavras para os agradecimentos, foram momentos mágicos onde a conversa fluiu solta em meio a uma gastronomia de alto nível, bem de acordo com os mais sagrados caldos da Côte de Nuits.

Se este for o tom do ano 2018, os Deuses do vinho estarão a postos para realizar os mais intangíveis desejos. Abraços a todos!

Uma noite com Paul Laurent

5 de Fevereiro de 2018

Lembrando do filme Meia-Noite em Paris, eu e alguns confrades nos sentimos transportados para um três estrelas na França em plena capital paulistana. Estamos falando da escola Laurent Suaudeau, onde o mestre incorporou por alguns momentos a magia de Paul Bocuse numa linda homenagem. Em poucas palavras, deu para perceber sua admiração e seu respeito pelo mito francês que nos deixou recentemente.

eb66f5cf-246d-42f7-a06f-fb481f17e6af.jpgO mestre em ação

A mesa montada classicamente com cadeiras confortáveis e espaço de um metro quadrado por pessoa, mostra de cara os detalhes dos lautos jantares. Pode parecer ousadia, mas somente o mestre Laurent para reproduzir a contento alguns dos pratos servidos no L´Auberge du Pont Collonges, quartel general de Bocuse em Lyon, como Quenelles de Brochet, Poisson en Croute, e Le Poulet de Bresse aux Morilles. Realmente, um sonho.

Até aqui não falamos de vinhos, mas este preâmbulo é absolutamente necessário para contextualizar  uma série de obras-primas que desfilaram ao longo da noite, entre brancos e tintos. Começando pelo brancos, vamos aos comentários e harmonizações.

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Domaine Leroy e suas joias

O início da festa com dois Corton-Charlemagne de Domaine Leroy dá o tom do que vem pela frente. Um abre alas com as safras 2000 e 2009. Este 2009, degustado algumas vezes, mostra o poder dos grandes brancos com uma estrutura monumental. Necessariamente, precisa ser decantado por duas horas. Já o da safra 2000, plenamente evoluído, mostrou ao longo da degustação, inúmeras facetas aromáticas. Embora sem o mesmo brilho do 2009, um Corton deste quilate revela toda a classe de um autêntico Grand Cru.

Clássicos de Paul Bocuse

O peixe em massa folhada e a quenelle com molho de crustáceos foram alguns dos pratos que escoltaram esses belos brancos. A precisão na execução e os sabores de grande delicadeza e profundidade, valorizaram sobremaneira os brancos borgonheses ao longo do jantar.

IMG_4247.jpgnível de Grand Cru

Seguindo a dupla acima, sem se intimidar, entra na avenida o Meursault-Perrières 2001 do Roulot. Premier Cru só no rótulo, porque a classe e profundidade deste branco o eleva a outro patamar. Roulot consegue manter a típica textura cremosa dos grandes Meursaults, mas ao mesmo tempo aflora no vinho uma tensão vibrante e perfeitamente equilibrada. Um dos gênios da apelação.

lagosta e foie gras fresco

O prato da esquerda é o clássico Homard à L´Armoricaine, lagosta tenra no molho do próprio crustáceo. Ao lado, um foie gras fresco, cozido pelo próprio Mestre. Sabores e texturas divinas, escoltando os brancos de exceção.

IMG_4257.jpg 300 pontos na mesa

O dia era mesmo de homenagens. Nada melhor para lembrar de Madame Leflaive do que três safras gloriosas de seu inconfundível Chevalier-Montrachet. O da safra 1989 era o mais pronto e o menos esplendoroso. Chevalier tem sempre o lado elegante dos Montrachets com solo caracteristicamente pedregoso e de maior altitude nesses terrenos sagrados. Madame consegue fazer desta apelação o que alguns não conseguem em seus Montrachets. O da safra 2002 ainda é uma promessa. Um vinho ainda tenso, cheio de vibração, mas com extrato fabuloso. Por fim, a obra-prima da safra 1992, o melhor dela de todos os tempos. Ainda em plena forma, tem a magia dos grandes vinhos. Aromas que vão de frutas exóticas, mel, e especiarias raras, a um laivo tostado sensacional. Boca ampla, persistente, culminando no silêncio total.

390fbbc0-14d1-4096-9772-8113fe1bcbc1.jpgfinalizando com queijos

Por ordem de Louis-Michel Liger-Belair, outro homenageado da noite e felizmente entre nós, essa trilogia “Leflaiviana” acompanhou o final do jantar num serviço impecável de queijos à francesa. Todos vindos da França à base de leite cru, seguiu-se o Comte, Epoisses, e Mont d´Or. Harmonização certeira, mostrando que este cenário é claramente para grandes brancos.

Calma que os tintos estão chegando. No próximo artigo, lendas da Borgonha entrarão em cenas nas mais badaladas safras. Aguardem!

Para aqueles ansiosos por uma prévia, o artigo sobre Liger-Belair já se encontra disponível no link Domaine Liger-Belair: O novo milênio

 

 

 

 

 

Três amigos e quatro brancos

3 de Fevereiro de 2018

O título acima resume três grandes amigos compartilhando brancos de exceção e produção limitadíssima. Tudo aconteceu num agradável almoço no restaurante Amadeus com atendimento quase exclusivo da chef Bella Masano. Entre vários mimos, mini pasteizinhos de camarão, mini lulas chapeadas com cogumelos, ostras frescas of course, e dois pratos para comer de joelhos: mexilhões ao vapor e cuscuz de camarão e sardinha.

Vinotheque: o primeiro da história

Para começar a brincadeira, degustamos o primeiro Vinotheque Cristal 1995, recentemente lançado no mercado. A filosofia é parecida com as plenitudes do champagne Dom Pérignon. Neste caso, pequenos lotes do Cristal 1995 foram deixados em contato sur lies por dez anos. Normalmente, o Cristal Vintage passa de cinco a seis anos sur lies. Após esta dezena de anos e o dégorgement, este Vinotheque descansa mais dez anos em adega, antes de ser lançado no mercado. A ideia é proporcionar ao cliente a experiência de provar um champagne maduro e de alta complexidade. De fato, é uma maravilha. O que mais me encanta neste champagne é sua feminilidade e delicadeza. A mousse é abundante sem ser agressiva, estando perfeitamente integrada na massa vínica. A dosagem final do licor de expedição fica entre 8 e 10 gramas por litro de açúcar, conferindo uma maciez extra ao champagne. A textura é cremosa e os aromas de pralina são marcas registradas com toque de pâtisserie. Um champagne de gourmandise como dizem os franceses. Com os mini pasteis de camarão, sabores e texturas se entrelaçaram.

Neste lançamento, foram elaboradas 60 garrafas em branco e 30 garrafas em rosé, ambas da safra 1995 com preços a partir de 900 euros o exemplar.

Premier Cru Les Gouttes: menos de mil garrafas

Seguindo em frente, passamos aos brancos de Madame Leroy de sua reserva particular, Domaine d´Auvenay. Degustar um Auvenay já é um privilegio imenso, mas poder comparar duas safras distintas lado a lado, é ser “chic no úrtimo”. O vinho em questão era o Meursault Premier Cru Les Gouttes, safras 2009 e 2007. A concentração e finesse desses vinhos são admiráveis. Estamos falando de lotes com menos de mil garrafas por safra. A comparação foi bem didática, mostrando com clareza a característica das safras. No caso de 2009, é uma safra gorda para os brancos. Eles são untuosos, densos, macios, e ricos em sabor. Muito agradáveis para beber já. Falando de 2007, trata-se de safra clássica e também muito prazerosa. Contudo, percebe-se claramente uma textura mais delgada e uma acidez mais altiva, mais cortante, puxando mais para elegância do que potência.

sabores incríveis

Aqui um dos pontos altos do almoço, mexilhões cozidos em seu próprio caldo com vinho branco, ervas e temperos provençais, o clássico Moules à la Vapeur. O frescor, o ponto de cozimento e a delicadeza do tempero, estavam perfeitos. Mexilhões de textura macia, quase doces na boca, uma maravilha. Com os Meursaults, ficou divino. O clássico camarão gigante da casa perfeitamente empanado, servido em ninho de batatas fritas com os três molhos (abacaxi, tamarindo, e vinagrete), foi outra harmonização certeira. A gordura e a crocância do camarão foram contrastadas pela acidez e mineralidade do vinho.

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 o frescor dos ingredientes saltam aos olhos

Finalmente, o prato de resistência, esse maravilhoso cuscuz de camarão, palmito, ervilhas frescas, e sardinhas. Um prato de verão que tem sustância e uma umidade refrescante para esta estação do ano. Aqui, champagne e os brancos do almoço se refastelaram sem cerimônias.

os reverenciados Goldkapsel

Para fechar o trio de exclusividades, partimos para um Auslese alemão do produtor Markus Molitor, um Gold Capsule safra 2014. Na classificação de doçura nos vinhos alemães de predicado (QmP), o termo Auslese apresenta as versões Trocken, halbtrocken e Sweet. Em se tratando de cápsula dourada, a versão é sempre doce, balanceada por uma alta acidez num equilíbrio divino. Outro detalhe do rótulo alemão são as estrelas gravadas no rótulo. No caso, são três depois da palavra Auslese, indicando o mais alto nível de maturação das uvas. Bockstein é um dos vinhedos mais famosos da região do Saar, uma das mais frias da Alemanha, onde a exposição e declividade do terreno são cruciais para um perfeito amadurecimento dos frutos. Markus Molitor é uma das estrelas do Mosel, local dos Rieslings mais elegantes do mundo. Seus terrenos de ardósia possuem inclinação acentuada de 80% de declividade, maximizando a exposição solar.

IMG_4226.jpgSfraciatelli, abacaxi, e coco em versões

Decifrado o rótulo, o vinho tinha uma elegância ímpar, sustentado por uma acidez marcante, sem ser agressiva. O açúcar residual perfeitamente balanceado e um teor de álcool discretíssimo de 7,5° graus. As sobremesas de coco da foto acima, bem como o sfraciatelli (doce siciliano de frutas secas e castanhas), ficaram muito bem acompanhadas pelo vinho com açúcar na medida certa.

hora da fumaça azul

Agora já fora da mesa, o merecido descanso após o sacrifício, jogando conversa fora. A postos, Behike 52 e Hoyo de Monterrey Serie Le Hoyo. O primeiro,  um Petit Robusto topo de gama da linha Cohiba, ring 52. O segundo, um Robusto Extra de ring 54 e ótimo fluxo. É como comparar Bordeaux e Bourgogne. A Casa Hoyo de Monterrey prima pela elegância, delicadeza, aromas etéreos ricos em especiarias. Já o Behike, toda a potência de um cubano com toques terrosos e de couro. Os dois maravilhosos, cada qual em seu estilo.

desce macio e reanima

Nos mesmos moldes dos Puros, os destilados se contrastaram, sendo grandes em seus respectivos estilos. O rum guatemalteco Zacapa é um show de maciez e corpulência com um final quase doce, rico em baunilha. Foi muito bem com o Behike 52, sobretudo no terço final, num final avassalador. Já a elegância, aromas etéreos, deste Armagnac Darroze safrado de 1972, permanecido em pipas de carvalho por 40 anos (engarrafado em 2012), deram as mãos ao Puro Serie Le Hoyo, um respeitando as sutilezas do outro. Vale dizer, que este Armagnac não precisou ser retificado com água para baixar seu teor alcoólico, visto que o longo período de envelhecimento em cascos, cumpriu a missão naturalmente. Os Armagnacs ainda contam com este privilégio de safras antigas, fato muito mais raro  em seu concorrente direto, o nobre Cognac. Vale ressaltar que Bas-Armagnac mencionado no rótulo é o melhor terroir desta apelação. Equivale à melhor porção em Cognac, chamada de Grande Champagne.

Resta apenas agradecer a companhia e generosidade dos amigos em longas horas de puro prazer sensorial no sentido epicurista. O ano 2018 promete!

Domaine Liger-Belair: O novo milênio

30 de Janeiro de 2018

As estrelas na Borgonha passam por altos e baixos, mesmo na comuna mais sagrada de Vosne-Romanée. Fatores econômicos, políticos e sobretudo de sucessão nas famílias, podem interferir sobremaneira no destino de grandes Domaines. Estamos falando aqui da família Liger-Belair, proprietária do minúsculo vinhedo La Romanée com pouco mais de oito mil metros quadrdados (0,8452 ha), situado  logo acima do mítico vinhedo Romanée-Conti.

la romanee marco

vinhedo histórico

Sua história começa com o império romano no ano de 92 DC. O vinhedo vai se firmando até o ano de 312 DC. Na idade média, começo do século VI, sua reputação segue com os monges. A partir do ano 1098 com a criação da abadia de Cîteaux, o prestígio só aumenta chegando no período moderno no ano 1700. O século dezenove é marcado por várias pragas entre elas, o míldio e a filoxera. Em 1815, o vinhedo é adquirido por Liger-Belair, general do Império, e proprietário de outros nobres vinhedos como o antigo La Tâche, La Tâche Gaudichottée. Verificar artigo na íntegra. Em 1827 é criada a apelação de origem La Romanée.

Até a segunda guerra mundial, o vinho é vendido em barricas a diversos negociantes. De 1950 a 1966, o vinho é negociado exclusivamente pela Maison Leroy. De 1967 a 1975, a Maison Bichot passa a comandar o negócio sob o nome Bouchard ainé & fils. Por questões matrimoniais, a família Liger-Belair volta a participar do negócio, e entre os anos 1976 e 2001, ainda temos o nome Bouchard Père & Fils nos rótulos do Grand Vin.

De 2002 a 2005, há um período de transição onde as duas famílias engarrafam o vinho, Liger-Belair e Bouchard Père & Fils. A partir de 2006, somente Liger-Belair no rótulo.

Comparação inevitável

Tanto pela proximidade, como pela excelência do vinhedo, a comparação com o astro maior Romanée-Conti é inevitável. A idade média das vinhas de La Romanée é de 50 anos. A produção gira em torno de 4000 garrafas por safra e rendimento fica por volta de 35 hectolitros por hectare.

Por seu solo menos argiloso e menos profundo, La Romanée tende a ser mais delicado na comparação com Romanée-Conti. Topograficamente, o vinhedo apresenta uma inclinação mais acentuada (12%) e sujeita a maior erosão. Além disso, sua vinificação sem engaço (éraflée), contribui para acentuar esta delicadeza.

la romanee mapa

parcelas diminutas

Depois da retomada da família no novo milênio, Domaine Liger-Belair está em grande fase com vinhos bem focados e definidos. Embora La Romanée seja a joia da coroa, os demais vinhedos da propriedade primam também por áreas diminutas e um patrimônios de vinhas antigas inestimáveis. Estamos falando de parreiras entre 50 e 80 anos em boa parte dos vinhedos. A expressão do terroir é notável . 

Pelo mapa acima, um dos mais prestigiados é o Premier Cru Aux Reignots, logo acima do imponente La Romanée. Um terço de suas vinhas chegam a 80 anos. A produção é de pouco mais de 3000 garrafas por safra. Les Petits Monts, logo acima, não fica atrás. Vinhas de 50 anos e produção de ínfimas 600 garrafas, é um dos mais valorizados atualmente. Mesmo o mais simples de seus vinhos com o perdão da palavra, é um Vosne-Romanée de apelação comunal com vinhas entre 40 e 60 anos de idade. A produção é de Grand Cru, menos de 3000 garrafas. Outro comunal de alto nível é o Lieu-dit La Colombière com vinhas entre 60 e 80 anos. No mínimo, nível de Premier Cru.

bourgogne monopole

Grandes Monopólios da Borgonha

Os cuidados no vinhedo são de maneira natural e pouco intervencionista. Os baixos rendimentos visam uvas de grande concentração, expressando fielmente o terroir. As uvas são colhidas rapidamente, chegando na cantina para um trabalho minucioso de triagem, antes de começar a fermentação. As leveduras são naturais e a fermentação visa extrair aromas e polifenóis sem exageros, de acordo com as características de cada safra.

Enfim, Domaine Liger-Belair parece se consolidar entre os grandes de Vosne, tarefa nada fácil no tabernáculo borgonhês. Tradição, savoir-faire, e terroir, não faltam nesta história. Maiores informações: http://www.liger-belair.fr

Mude a cor de seu vinho!

12 de Janeiro de 2018

Por que consumir vinho rosé? Porque ele é versátil, é gastronômico, e é mais uma opção além de tintos e brancos. Mas rosé não é só uma nuance de cor. Precisa saber fazer rosé. Precisa de propostas e terroir adequados ao estilo. Assim como nos espumantes a referência é Champagne, no mundo dos rosés a referência é Provence. Novamente a França nos ensinando o caminho.

vin rose consumação 2015

 consumimos menos de um por cento no ranking mundial

O rosé provençal é leve, fresco, charmoso. Tem balanço, equilíbrio, e personalidade. É líder no setor de rosés franceses, pois regiões como Loire e Rhône também elaboram este tipo de vinho. A uva deve estar suficientemente madura para não transparecer traços herbáceos negativos, e nem um frutado demasiado, perdendo o equilíbrio. Portanto, o ponto de colheita é um dos segredos deste vinho. Para isso, uvas e climas adequados são fundamentais.

vin rosé produção mundial 2015

cerca de 10% dos vinhos tranquilos são rosés

Na cantina, temos basicamente dois caminhos: o rosé de pressurage ou o rosé saignée. Pressurage é o processo mais delicado onde se obtêm os rosés mais elegantes e sutis. É uma leve prensagem antes do inicio da fermentação, deixando as casca em contato por breve tempo. O método saignée pressupõe já um início de fermentação onde a cor é extraída com mais intensidade. Normalmente, perde um pouco a delicadeza, mas pode ser muito gastronômico por possuir mais corpo e estrutura. 

vin rosé exportação volume 2015

a liderança mundial espanhola em termos de volume

Numa ordem de prioridade, os rosés provençais são praticamente imbatíveis e não custam tão caro assim. Atualmente, entre 100 e 150 reais, há ótimos exemplares. Até mesmo por menos de 100 reais, pode-se encontrar algo interessante, pesquisando um pouco. Caso o bolso esteja mais cheio, prove um dos rosés do Domaines Ott. Delicados ao extremo, é importado pela Clarets. Se  quiser continuar na França, o caminho natural segue para os vales do Loire e do Rhône. No primeiro, os vinhos tendem a ser mais leves e delicados, enquanto os do Rhône costumam ser mais encorpados e gastronômicos, sobretudo o famoso Tavel. Uma região pouco difundida, mas que vale a pena provar são os rosés do sudoeste francês, principalmente na região de Gaillac. Alain Brumont tem um belo exemplar na importadora Decanter da região de Ténarèze, região do Armagnac, vizinha a Gaillac. Mesclando Tannat, Merlot, e Syrah, este rosé acompanha muito bem embutidos, jamon serrano, e uma bela pizza de calabresa artesanal com toques de erva-doce.  

vin rose exportação valor 2015

exportação em valores, França e Itália se equilibram

Ainda em território francês, vale a pena provar o rosé bordalês de Denis Dubourdieu, Le Rosé de Floridene, importado pela Casa Flora. Muito mais pelo produtor do que propriamente pela região.

Fora da França, as regiões espanholas de Navarra e Rioja elaboram belos rosés. As duas juntas respondem por cerca de 45% dos vinhos rosados espanhóis. Um belo rosé elaborado por Julián Chivite com a casta Garnacha, o Gran Feudo Rosado sai por menos de 100 reais na Importadora Mistral. As tradicionais bodegas de Rioja costumam fazer rosados bem interessantes. Aqui no Brasil, Viña Tondonia e CVNE são representadas pela importadora Vinci.

Partindo para a Itália, temos a versão rosé do Montepulciano d´Abruzzo chamada Cerasuolo. A importadora Ravin traz o produtor Zaccagnini com vinhos sempre bem equilibrados.  

Voltando aos franceses, os rosés provençais chegam a 42% da produção anual das apelações francesas (AOC) para este tipo de vinho. Eles também respondem por 89% da produção total na região provençal, sendo o restante, 7% de tintos e 4% de brancos.  

Enogastronomia

Uma infinidade de pratos podem acompanha-los. Temperos mais pronunciados, pimentas, ervas, especiarias, alho, são bons parceiros para este tipo de vinho. Bem mesclados em tortas, pizzas, bruschettas, com atum, frango, ou embutidos, é a receita ideal de harmonização.

Nos mais variados buffets espalhados pela cidade como Rascal, por exemplo, uma garrafa de rosé passeia com tranquilidade por várias daquelas entradinhas, presuntos, pimentões com azeite e alho, e assim por diante.

É um vinho de praia, de verão, bem refrescante, acompanhando vários pescados e frutos do mar servidos em restaurantes. Um camarão a provençal é uma combinação ótima. Entradas frias com carnes bem temperadas como carne louca por exemplo, é outra pedida certa. Até um vitello tonnato entra na brincadeira.

Enfim, siga os franceses, maiores produtores, exportadores e consumidores de rosés do mundo. Quem sabe daqui alguns anos, o Brasil passa entrar nas estatísticas, ao menos como consumidor.

Comunas e Estilos

8 de Janeiro de 2018

Quando tentamos traçar um paralelo entre as regiões francesas de Bordeaux e Bourgogne é sempre algo muito mais contrastante do que semelhante. Tudo que cerca esses dois terroirs são conceitos muito diferentes, além de solos, climas e uvas. Um dos únicos pontos em comum é que são vinhos igualmente divinos, que envelhecem bem, e atinge uma complexidade difícil de parear com outras regiões vinícolas. Evidentemente, estamos falando do que há de melhor nestes respectivos terroirs. Assim sendo, as mais nobres sub-regiões de cada um destes terrenos estão exemplificadas no mapa abaixo: Médoc em Bordeaux e Côte de Nuits em Bourgogne.

correlação de estilos

As principais comunas dessas regiões fornecem vinhos distintos e de muita personalidade. O estilo particular de cada comuna permite fazer uma analogia entre as duas regiões. A intensidade, sabor, aroma, e textura, não são os mesmos, mas há uma linha mestra que permite a comparação. Senão, vejamos.

Margaux e Chambolle-Musigny

São comunas que afloram sobretudo a elegância. Portanto, textura e aromas delicados, escondendo com sutileza a força e profundidade desses vinhos. Quando nos deparamos com os respectivos astros maiores, a comparação faz ainda mais sentido. Um grande Chateau Margaux possui uma estrutura fabulosa, capaz de vencer décadas em garrafa, sempre envolto em muita elegância. O Grand Cru Le Musigny é outro vinho monumental que segue o mesmo caminho, profundo e elegante. São vinhos com discrição, que precisam ser descobertos e apreciados com atenção e paciência.

Saint-Julien e Morey-Saint-Denis

O ponto em comum entre essas comunas é a imprecisão de estilos de seus vinhos. Saint-Julien, colada em Pauillac, tenta ter a mesma força com vinhos muito equilibrados. Às vezes, o estilo pende para Margaux. Da mesma forma, os tintos de Morey-Saint-Denis procuram ter a força de Chambertin com alguma delicadeza de Chambolle-Musigny. De toda a forma, ambas comunas fazem vinhos de grande consistência e longevidade.

Pauillac e Gevrey-Chambertin

Duas comunas de grande prestígio e com o maior número de Grands Crus em seus respectivos terroirs. Pauillac tem três dos cinco primeiros de Bordeaux. Gevrey-Chambertin possui nove Grands Crus, liderados pelos espetaculares Chambertin e Clos de Bèze. Outros vinhos logo abaixo do primeiro escalão procuram manter o alto nível dos grandes astros. Já os demais vinhos de cada uma das comunas ficam sensivelmente abaixo da perfeição. De fato, são terroirs muito distintos, de difícil replicação.   

Saint-Estèphe e Nuits-Saint-Georges

Comunas que não possuem Grands Crus em seus repectivos terroirs. Saint-Estèphe tem vinhos longevos e de muita distinção, mas falta-lhes um certo refinamento que os difere de um Pauillac, por exemplo. Nuits-Saint-Georges segue o mesmo caminho. Embora seja uma comuna relativamente extensa, os tintos produzidos mais perto de Vosne-Romanée tendem a ser mais delicados, mas falta-lhes finesse, a elegância suprema de Vosne. Pessoalmente, prefiro a autêntica rusticidade de um Gouges ou Faiveley. São mais verdadeiros e envelhecem muito bem.

Vosne-Romanée

Aqui não há comparação. Aqui não temos vinhos comuns. São tintos que aliam profundidade e elegância sem paralelos. Isso fica potencializado quando nos deparamos com produtores como Domaine de La Romanée-Conti, Domaine Leroy, e Henri Jayer. A Pinot Noir toma outra dimensão, gerando vinhos de alta complexidade e enorme longevidade. Do trio mágico acima, os DRCs costumam ser menos lapidados. Precisam de muito tempo em garrafa para mostrarem o que são. Agora, a alta costura dos vinhos de Madame Leroy e Jayer são indescritíveis. Eles imprimem uma elegância extrema, parecendo ser quase frágeis, mas com uma profundidade soberba.

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duas obras-primas sem paralelos

Para não ficar em cima do muro, um grande Vosne em algum momento de sua evolução apresenta uma intersecção com um belo Lafite envelhecido, o mais borgonhês de todo o Médoc. Lafite, sempre é um tinto discreto, misterioso, difícil de se mostrar quando novo. Contudo, quando envelhece, seus aromas etéreos lembrando flores e cedro, além da textura delicada, alguma coisa da Borgonha parece dançar pela taça.

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delicadeza bordalesa com traços borgonheses    

Enfim, apenas um pouco de filosofia comparando duas pequenas porções de terreno onde os maiores tintos do planeta se expressam. O dia em que cair a última gota de chuva e for removido o último estrato geológico na terra, ainda não se saberá porque a França é a indiscutível mestra dos vinhos.  Hugh Johnson!  

 

 

Obrigado, Maestro

4 de Janeiro de 2018

Iniciando 2018, Vinho Sem Segredo agradece a todos seus seguidores, sempre ávidos e em busca da boa mesa, dos bons vinhos, e de alguma fumaça azul. O ano que se foi há pouco, teve grandes momentos enogastronômicos, mas um disparadamente mereceu destaque, inclusive internacional. Reveja artigo neste blog, Quando o céu é o limite!

Recordando o evento numa mesa exclusiva para dez pessoas, John Kapon, um dos presentes, e um dos maiores degustadores e conhecedores de vinhos raros, habituado a grandes eventos, postou em seu site http://www.ackerwines.com, sua análise, e sobretudo sua enorme satisfação de participar no Brasil de um almoço com vinhos deste quilate. O link abaixo, detalha suas impressões. Muitos desses vinhos estão na sua lista do ano de 2017.

marcos flight john kapon

Obrigado, Maestro – Acker Merrall & Condit

Todo mundo idealiza uma degustação de vinhos excepcionais, vinhos de sonhos, que dificilmente estarão reunidos ao mesmo tempo, num mesmo evento. Neste caso, os vinhos e safras são irrepreensíveis. Senão vejamos, recordar sempre é bom.

Logo de cara, um trio de Krugs envelhecidos. Para muitos, o melhor champagne. Mesmo que você não concorde, é uma Maison de prestígio e qualidade irrefutáveis. Em seguida, um trio de Montrachets. Novamente, produtores como DRC e Ramonet da bela safra 1999 dispensam apresentações.

Passando aos tintos, Richebourgs DRC e Domaine Leroy safra 1988 mostraram a delicadeza e poder de envelhecimento destes Grands Crus. Pulando para o Rhône, quatro tintos de sonhos com safras maravilhosas. Primeiramente, o embate de Chateauneufs. Chateau Rayas e Henri Bonneau, ambos 1990, deram um show de expressão da casta Grenache. Em seguida, no Rhône Norte, Hermitages La Chapelle e Jean-Louis Chave de outra excepcional safra 1978. Momento, raro de provar essas preciosidades de Syrahs envelhecidos numa apelação que exige esse tempo em garrafa. A finalização se deu com dois Pauillacs de primeiro escalão, Mouton e Latour da safra 1959, felizmente meu ano. Decididamente, uma safra de Mouton daquelas inesquecíveis. E olha que bater um Latour 59 é quase uma missão impossível. De fato, a decisão foi no fotochart.

Como é difícil finalizar um almoço desse nível após desfile de vinhos encantadores. É claro que o anfitrião pensou em tudo, e o final tinha que ser arrebatador. Um trio de vinhos de sobremesa, de vinhos doces, ou melhor ainda, de néctares. O que falar de um Yquem 1921, um Porto Colheita Krohn 1900, e um Taylor´s Single Harvest 1863, pré-filoxera. Para escolher o melhor, só no palitinho. 

2018 promete, mas vai ser difícil superar este almoço. Contudo, se tratando do “Maestro”, nada é impossível. Ele conhece o caminho das pedras …

Falando agora de novidades, acaba de entrar na rede o site http://www.pisandoemuvas.com do meu grande amigo Roberto Rockmann. Fanático pelos vinhos da Borgonha, suas postagens são detalhistas sobre o assunto. Ele é capaz de esmiuçar cada um dos 640 Climats Premiers Crus, por exemplo. Além disso, têm vídeos, entrevistas, e belas dicas de enogastronomia.

Feliz 2018 a todos!

 

Espumantes à mesa

27 de Dezembro de 2017

Na passagem do ano, os espumantes são inevitáveis, nem que seja para brindar. Mas como já dissemos, eles vão muito além do brinde. Se bem escolhidos, acompanham com competência as mais diversas receitas. Para exemplificar, vamos a três pratos que podem perfeitamente encerrar o ano de maneira surpreendente. 

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Bacalhau de forno e uma cuvée sofisticada

Não importa a receita, é um prato de sabores marcantes que agrada inclusive os carnívoros. Aqui, o espumante precisa ter presença, estrutura. Se você simpatiza com o vinho nacional, vá de Victoria Geisse Cuvée Sofia em garrafa Magnum, o melhor espumante brasileiro. Ele tem frescor, complexidade, estrutura, para acompanhar qualquer receita de bacalhau. São 48 meses de contato sur lies, fornecendo textura e sabores de acordo com o prato. Importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

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Leitão assado com um belo Cava 

Os portugueses já sabem o caminho. Nada como um belo espumante para limpar a gordura do prato e harmonizar os sabores crocantes da pele pururucada. Neste caso, vá de Cava Gramona Imperial, um Gran Reserva com 60 mesese sur lies. Complexidade, acidez vibrante, textura magnifica, e um final com aromas tostados, bem de acordo com os sabores do prato. Importadora Casa Flora (www.casaflora.com.br). Se você não abre mão dos portugueses, a pedida é Murganheira, o melhor de Portugal. Importadora Epice (www.epice.com.br). 

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Risoto de Carne Seca com Abóbora

Pode ser o risoto tradicional com a técnica italiana, ou um arroz de forno com carne seca e abóbora. Aqui um vinho laranja ou um Tokaji 3 Puttonyos  de estilo tradicional são parceiros perfeitos. Como estamos falando de espumantes, vamos ser tão exóticos quanto o prato. Vá de champagne Jacques Selosse Exquise Blanc de Blancs Sec, lembrando que o termo Sec quer dizer algo de açúcar residual. Um champagne de Gourmandise, pleno de sabores, aromas, e mineralidade. O lado moelleux do vinho casa perfeitamente com a doçura da abóbora e se contrapõe ao toque salgado da carne seca. A acidez da bebida contrasta com a gordura do prato, enquanto seus sabores marcantes casam-se perfeitamente com a riqueza de sabores do prato. Uma harmonização ousada e inesquecível.     

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belas opções para o risoto

Gravner é simplesmente  o pai  dos vinhos laranjas. São vinhos fermentados em ânforas com as cascas e tudo que tem direito. Passa alguns meses neste contato intenso e posteriormente, estagia cerca de seis anos em botti (grandes toneis eslavônios). Pela cor do decanter, dá pra ter uma ideia da criança. Um vinho mastigável e cheio de aromas.

Como o risoto da foto era relativamente delicado, o Franciacorta Ca´del  Bosco Vintage 2003 deu conta do recado. Com predomínio de Chardonnay, o blend é complementado com Pinot Bianco e Pinot Nero. Passa 48 meses sur lies antes do dégorgement. Já com toques de envelhecimento, o vinho base tem estrutura para encarar o prato. Seus toques tostados e de frutas secas como damascos, casam perfeitamente com os sabores do risoto.

combinação para fechar o almoço

Encerrando o almoço, este chocolate escuro com flor de sal complementou muito bem o Madeira Malmsey 10 anos da Blandy´s. A doçura de ambos foi bem balanceada, mas o ponto alto foi o contraponto da acidez do vinho como o toque salino do chocolate. 

embate de gigantes

Zacapa XO é um rum guatemalteco espetacular. Cheio de aromas e sabores, tem um lado quase doce e um final extremamente agradável e untuoso. Por outro lado, Talisker 10 anos é um Single Malt poderoso e de grande austeridade. Num estilo absolutamente distinto, sua persistência aromática é notável. Mesmo com toda a riqueza  do rum, Talisker ainda consegue supera-lo em potência, tendo um final arrebatador com o trio de cubanos abaixo, sobretudo os potentes Partagas Salomones e Cohiba Behike 56.

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um trio de respeito

O que dizer desta trinca maravilhosa!. Ainda com o restinho de Madeira, iniciamos a fumaça azul com Bolivar Belicosos, Partagas Salomones, e Cohiba Behike 56. Evidentemente em potência, o Belicosos está num nível abaixo, mas de uma elegância ímpar. O Behike mantem esta elegância, ganhando força e potência.  Já o Salomones, um duplo figurado com ring 57 é um verdadeiro canhão de sabores e aromas. O rum de modo geral, acompanhou bem os três charutos, mesmo em seus respectivos terços finais. Contudo, no caso do Salomones, só mesmo o Talisker deu conta do recado.

Bela maneira de encerrar 2017. Feliz Ano Novo a todos!