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Entre Brancos e Tintos

15 de Fevereiro de 2018

As tonalidades de cores onde se define um vinho rosé são inúmeras. Desde um vin gris quase branco, até um clairet, vinho bordalês da Idade Média quase tinto, os rosés têm cores das mais surpreendentes.

roses cores

nuances variadas

Provavelmente, os primeiros vinhos do mundo eram rosés por uma questão de lógica. As uvas brancas e tintas podiam ser misturadas na fermentação, e não havia um controle preciso da maceração das cascas. Portanto, não havia o vinho branco como conhecemos, calcado em extrema tecnologia, e nem o vinho tinto de cores acentuadas, fruto de uma extração e macerações prolongadas. O esquema abaixo mostra a lenta e progressiva evolução do vinho.

origem do vinho

evolução do vinho

Vin Gris

Trata-se de um rosé bem pálido, fruto de uma maceração bem curta, geralmente com as uvas Pinot Noir e/ou Gamay como no Gris-de-Toul, apelação francesa de Lorraine, ao lado da Alsácia.

No sul da França há também o Gris de gris, elaborado com as uvas Grenache Gris ou Pinot Gris. Vinhos delicados, de cores pálidas.

vin gris

Vin Gris: cores pálidas

Oeil-de-Perdrix

Especialidade suíça da região de Neuchâtel elaborada com Pinot Noir por pressurage direct, extração bem delicada. Este estilo se difundiu na Alemanha e também na Bourgogne. Lembro-me muito bem de um Oeil-de Perdrix do Domaine Dujac, inesquecível.

rose Oeil_de_Lerdix

rosé delicado

O estilo White Zinfandel é a versão americana para este tipo de rosé. Na sua maioria, medíocre.

Tavel

Produto de longa maceração a frio entre 6 e 48 horas. Desta maceração em tanques, resulta o chamado jus de saignée ou jus de goutte que é drenado no processo. Em seguida, as uvas são prensadas dando origem ao jus de presse. A junção deste dois caldos (jus) é que dá origem ao Tavel que em seguida vai ser fermentado. O resultado é um rosé notadamente vivo e colorido. Rosé de corpo e muito gastronômico.

rose tavel

cores mais acentuadas que um Tavel

Clairet

Uma especialidade bordalesa que fica no limite entre um rosé  e tinto pálido. Era o Bordeaux da Idade Média apreciado pelos ingleses, já que na época os tintos finos tinham uma cor mais atenuada, semelhante aos melhores Bourgognes. O termo inglês se diz Claret. A diferença técnica é o tempo de maceração. Duas a três horas para um Rosé, e três a quatro dias para um Clairet pelo método saignée. 

bordeau clairet

quase um tinto leve

São pouco mais de 500 hectares da apelação Bordeaux-Clairet cultivados com as tradicionais cepas bordalesas. Vale pelo menos como curiosidade para sentir o gosto de outros tempos dentro de uma tecnologia moderna.

Tibouren

rose Tibouren

Cepa característica da Provença trazida pelos Romanos. Adaptou-se muito bem a vinhos rosés, fornecendo pouca cor, aromas interessantes para este tipo de vinho, e bom potencial de álcool. Geralmente é mesclado no corte provençal com outra uvas como Grenache, Cinsault, Syrah, entre outras. Destaque para o Clos Cibonne, vinícola provençal que tem na Tibouren, sua uva principal no corte.

vin rosé produção mundial 2015

cerca de 10% dos vinhos tranquilos são rosés

Em uma mesa eclética com várias opções de pratos, o rosé mostra-se muito versátil e gastronômico, adaptando-se a múltiplos sabores.

O vinho é fascinante entre outras coisas por isso. Apenas na tonalidade de cores, fruto de extração mais ou menos extensiva, proporciona estilos sutis e altamente gastronômicos, calcados na história e desenvolvimentos de regiões específicas.

Portanto, antes de julgar a cor de um rosé, atente para sua origem. Um pré-julgamento pode resultar em conclusões equivocadas. Na taça, está sempre a resposta. In vino Veritas!

Rosés pelo mundo em números

8 de Novembro de 2015

Em recente estudo realizado pela OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) veremos a seguir alguns números de 2015. A produção mundial de rosés parece estabilizar-se em torno de 24 milhões de hectolitros, aproximadamente 10% da produção mundial de vinhos.

roses 2014

Pouca variação na produção

Dentre os principais produtores mundiais de rosés estão a França, indiscutivelmente, Espanha, Estados Unidos e Itália. Esses quatro países respondem por três quartos da produção mundial de rosés. Só a França, produz 30% do total mundial. O mapa abaixo ilustra a situação.

rose grafico 2014

No topo: França, Espanha, Estados Unidos e Itália

Quanto ao consumo mundial, a França também tem larga vantagem. Mais de 30% dos rosés do mundo são consumidos por lá. Em seguida, Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, puxam a fila.

rose 2014 consumo

França: domínio absoluto

No quesito exportações, A Espanha lidera com larga vantagem em termos de volume, seguida pela Itália, França e Estados Unidos. As exportações mundiais estão em torno de nove milhões de hectolitros por ano. Os quatro primeiros países exportadores do gráfico abaixo (Espanha, Italia, França e Estados Unidos) respondem por 80% do volume mundial exportado.

roses exportação 2014

Espanha comanda as exportações de rosés

Neste final de ano que se aproxima, os rosés são bem versáteis, quer seja pela facilidade de harmonização, quer seja pela conveniência de temperaturas mais elevadas. A mistura de pratos, entradas e várias comidinhas servidas num tempo só, torna os vinhos rosés uma espécie de coringa, agradando os mais diversos paladares e compatibilizações.

Como indicações, a França tem muitas opções. Evidentemente, a Provença é uma dica certeira. Porém, os vales do Rhône e do Loire, mostram diversidades de sabores e de preços. Em linhas gerais, os rosés do Loire são mais leves e delicados, enquanto os rosés do Rhône tendem a ser mais encorpados e gastronômicos.

Do lado italiano, a Toscana tem boas opções, sobretudo na região de Bolgheri, próximo ao litoral tirreno. Abruzzo, no litoral adriático, tem rosés interessantes. O nordeste italiano com as regiões do Veneto, Friuli, e Trentino, apresentam inúmeras opções. Nestas regiões mais frias, os rosés costumam ser mais frescos.

Na Espanha, os rosés de Navarra, região contigua a Rioja, apresentam-se bem equilibrados. Rioja produz praticamente o mesmo volume que Navarra. Em seguida, temos as regiões de La Mancha, Valencia e Catalunha juntas, perfazendo o mesmo volume de Navarra ou Rioja. As uvas mais utilizadas são Garnacha, Bobal e Tempranillo. Os rosés à base de Garnacha tendem a ser mais macios e gastronômicos. Já a Tempranillo, dificilmente é utilizada como varietal. Por se tratar da melhor uva para tintos de longa guarda, os cortes são mais frequentes.

Algumas sugestões:

  • Chivite Gran Feudo Rosado – espanhol da Mistral (www.mistral.com.br)
  • Zaccagnini Montepulciano d´Abruzzo Cerasuolo – italiano da Ravin (www.ravin.com.br)
  • Chateau St-Hilaire Tradition – francês provençal da Premium (www.premiumwines.com.br)
  • Paul Jaboulet Côtes-du-Rhône Rosé – francês do Rhône (www.mistral.com.br)

Vinho Rosé: o começo de tudo

18 de Outubro de 2015

Falar de rosé no mundo é falar de França. E falar de França, é falar de Provence, seu grande vinho emblemático. A produção mundial de vinho rosé beira os dez por cento, ou seja, mais de 22 milhões de hectolitros. Deste total, a França responde por 28%, seguido da Itália com 20%, Estados Unidos com 15% e Espanha com 10%. Só aqui temos mais de 70% da produção mundial de vinho rosé.

Dos rosés franceses com apelação de origem (AOC), 35% são da Provence, 18% do Loire e 12% do Rhône, conforme gráfico abaixo. Estes rosés, grande parte é consumido na própria França que detém 36% do consumo mundial, seguida pelos Estados Unidos 13%, Alemanha 7% e Reino Unido 6%.

Do pouco rosé provençal exportado, mais da metade vai para os Estados Unidos (27,6%) e Bélgica (23%).

rosés frança

historia do vinho

História e Evolução do Vinho

Na milenar história do vinho, conforme esquema acima, os vinhos claros sempre tomaram conta do cenário. Evidentemente, o termo rosé não era empregado, mas o aspecto lembrava muito essas cores rosadas, alaranjadas e as várias tonalidades assumidas pelo rosé. Isso é mais ou menos intuitivo de conceber, pois em épocas remotas a técnica de vinificação era rudimentar e pouco dominada. Portanto, as macerações eram relativamente curtas e os vinhos eram tomados normalmente jovens. Além disso, era muito comum fermentarem juntas, uvas brancas e tintas. Não havia o conceito de envelhecimento do vinho, sobretudo antes da existência da garrafa e da rolha. Este gosto antigo chamava esses vinhos como vinhos de prazer. Os vinhos de cores mais acentuadas, semelhantes ao que conhecemos hoje, eram denominados vinhos de alimentação, destinados a trabalhadores braçais, gente rude, de pouca educação. Eram frutos de macerações longas, prensagens grosseiras, elaborados com pouco cuidado. Os termos usados para esses vinhos eram vin nourriture e vinum rubeum.

Na Idade Média vários quadros onde o vinho aparece, notamos uma cor que nos lembra os vinhos rosés. Na época, chamado de Vinum Clarum ou Claret. A foto abaixo ilustra este fato.

vinum clarum

Vinum Clarum

A partir do século XIII com a ascensão dos vinhos de Bordeaux, esses vinhos claros foram chamados na região de “Clairets”, sobretudo por ingleses e Holandeses, grandes apreciadores e compradores deste produto. Até o século XVII, a produção de Clairet era avassaladora, chegando a mais de 80% da produção total em Bordeaux.

Só em 1642 no vinhedo de Argenteuil, redondezas de Paris, Ile de France, é que aparece o termo “rosé” pela primeira vez. Para distinguir seu vinho claro dos demais, Bordeaux cria uma espécie de apelação denominada Bordeaux-Clairet.

A partir do século XVIII com a chegada de vez da garrafa de vidro, rolha, os esclarecimentos de Louis Pasteur sobre a oxidação dos vinhos, é que surge o conceito de envelhecimento dos mesmos. Nesta época começa a tomar força macerações mais longas, melhor domínio da vinificação e os chamados “vins rouges” entram em cena. O gráfico acima mostra bem esta ascensão. Com isso, há um declínio dos vinhos rosés, reduzindo a 10% seu consumo. A Provence, longe de modismos, continua a dar preferência a seus vinhos claros. É bom lembrar que esta região francesa foi a primeira a ser conquistada pelo império romano e consequentemente, a adotar vinhas em seu território.

A tentação de misturar vinho branco com vinho tinto criando um “vinho rosé” no aspecto visual sempre foi repudiada. Só em 2009 a União Europeia proibiu esta prática, definindo o vinho rosé como fruto de uvas tintas com certa maceração das cascas para a devida extração de cor. Curiosamente, só uma região francesa e por sinal, uma das mais badaladas, é possível a obtenção do rosé  pela mistura de vinho branco e vinho tinto. É a nobre região de Champagne.

vin rose tonalidades

as várias tonalidades de rosé

Pressurage Direct

Este é o método de obtermos os rosés mais delicados, elegantes e autênticos. Não é por acaso, que a grande maioria dos rosés provençais adotam este sistema. São prensas pneumáticas ultra delicadas que separam o mosto das cascas com a devida maceração para obterem cores como as da foto acima. Os toques florais, cítricos e de ervas estão sempre presentes. Após a obtenção da devida cor, o processo de fermentação segue como num vinho branco. Vale salientar que a maturação das uvas tintas para elaboração de rosés é muito particular. A uva deve conservar um bom nível de acidez a despeito  de sua maturação fenólica incompleta, já que os taninos não participam deste jogo. Terroir como a Provence é perfeito para esta situação. 

À mesa, os rosés são muito versáteis combinando com pimentões, alho, ervas de todo tipo, legumes, e outros pratos de difícil harmonização. É o vinho ideal para acompanhar os buffets self-service espalhados pelas grandes cidades, onde uma profusão de comidinhas é colocada no mesmo prato de uma só vez. 


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