Archive for the ‘entradas’ Category

Comemoração entre Amigos

13 de Janeiro de 2016

Como é bom você poder escolher as pessoas que vão comemorar seu aniversário! Aquelas que estão sempre juntas a você em qualquer situação. Os laços ficam mais fortes e nesses momentos de alegria aproveitamos cada instante para gravarmos na memória. Este é o verdadeira sentido da vida, bons relacionamentos.

larmandier

Chardonnay de pura elegância

Na recepção, não poderia faltar um autêntico Blanc de Blancs, champagne elegante, estimulante, abrindo os trabalhos com muita alegria. Patê de ricota com tomate-seco, salada de folhas com queijo de cabra e molho à base de iogurte, acompanharam perfeitamente as borbulhas de um Larmandier-Bernier, importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br).

buçaco branco

Um dos seletos brancos longevos

A entrada tinha que ser contida, pois o prato de resistência era uma moqueca com frutos do mar (peixe, lula e camarões). O duelo de acompanhamento deu-se entre um Sancerre branco (Sauvignon blanc do Loire) e um belo Buçaco branco com as uvas Maria Gomes, Bical e Encruzado. Este exemplar da safra 2005 é ainda uma criança. Seus aromas cítricos e resinosos, além da acidez, são notáveis. Daqui a dez, quinze, vinte anos, esses sabores vão se fundir, surgindo sensações incríveis. Este vinho criado no grande hotel Bussaco (grafia usada para o hotel), fica entre a Bairrada e o Dão, e por conseguinte, as uvas das duas regiões são mescladas. Tem estágio em madeira inerte. É trazido pela Mistral (www.mistral.com.br).

mellot generation

Sancerre excêntrico

moqueca frutos do mar

moqueca “paulista”

Voltando ao Sancerre, Alphonse Mellot molda brancos macios, baseados em longo trabalho sur lies e passagem por madeira. Uma filosofia perigosa onde qualquer exagero pode beirar a vulgaridade. Não é o caso deste exemplar, Cuvée Génération XIX safra 2012.  São vinhas com mais de 80 anos, plantadas em alta densidade (dez mil pés/hectare), em solo pedregoso de origem argilo-calcária. Sua elaboração envolve um trabalho de bâtonnage entre 10 e 12 meses em madeira inerte. Vinho macio, multifacetado em aromas e uma textura bem apropriada para a moqueca. Bom duelo com o Buçaco, mas neste momento, mais de acordo com o prato. Outro exemplar da competente importadora Cellar (www.cellar-af.com.br). Vale também ressaltar que esta moqueca puxa para um estilo mais capixaba com pequenas modificações. Portanto, não vai dendê.

madeira malmsey

A casa mais antiga da Madeira

torta de nozes

O presente de minha amada

Encerrando os trabalhos à mesa, uma torta de nozes recheada com marron-glacê e cobertura de suspiro. Bela cena para a entrada de um Madeira. Neste caso, um Cossart-Gordon Malmsey 5 Years Old da importadora Decanter (www.decanter.com.br). Seus aromas empireumáticos (caramelo), defumados, balsâmicos e de frutas secas, foram de encontro ao prato. Um belo fecho de refeição. Só para lembrar, 5 anos significa que o vinho mais jovem do blend tem esta idade.

h. upmann la casa

Ring 52: fumo complexo

Já fora da mesa, cafés, chás, e destilados, fizeram companhia aos Puros. Bolivar Belicosos (companheiro fiel do doutor Cesar Pigati) e H. Upmann Royal Robustos de fluxo agradável, enevoaram o ambiente. O embate para ambos foi o consistente Bourbon Wild Turkey (whiskey americano) e o estonteante Ron Zacapa Gran Reserva Solera 23. Brilharam sobretudo no terço final. Este tamanho de H. Upmann é levemente maior que um Robusto, porém com uma bitola avantajada, o que permite uma mistura de fumos mais complexa.

ron zacapa 23Sabores e intensidade notáveis

A propósito, este rum guatemalteco merece detalhes sobre sua elaboração. Nesta solera, participam runs com idade entre 6 e 23 anos no blend. Daí, a designação no rótulo. A solera é uma complexa mistura de barricas envolvendo whiskey americano, jerezes secos e Pedro Ximenez. A maturação ocorre a 2300 metros de altitude, completando este belíssimo terroir.

Champagne e Bourgogne à mesa

7 de Janeiro de 2016

Champagne talvez seja o vinho mais gastronômico por seu ecletismo. Tem boa acidez, álcool comedido, e não se sobrepõe aos pratos, mantendo revigorado o paladar. Os dois senões são: carnes vermelhas e comidas rústicas, pesadas, já que trata-se de um vinho com certa aristocracia. Num almoço oferecido por um grande amigo, pudemos comprovar mais uma vez esta versatilidade.

jacquesson

Cuvées numeradas

É bem verdade, que tratava-se de um champagne acima da média, o espetacular Jacquesson Extra-Brut Cuvée 738. Esta cuvée baseia-se no ano de 2010, sendo que 33% do blend são vinhos de reserva. Na sua composição, temos 61% de Chardonnay, fornecendo elegância, 39% entre Pinot Noir e Pinot Meunier, proporcionando estrutura ao conjunto. O resultado é um champagne de grande frescor, cremoso, profundo e muito persistente. Acompanhou muito bem as entradas de funghi e patinhas de caranguejo com molho tártaro. E se quiséssemos, podia ir mais longe à mesa.

clos des lambrays

vinho com muita história

O vinho acima apesar de muita tradição, só foi promovido a Grand Cru em 1981. Sua história começa no século quatorze onde monges beneditinos cultivavam vinhas numa parcela chamada “Cloux des Lambrey”. Durante a revolução francesa as terras foram divididas em 74 proprietários. Com o tempo, a propriedade volta a um domínio familiar sendo que em 1996, o casal Günter e Ruth Freund assume o domaine com muitos investimentos no vinhedo.

Clos des Lambrays é constituído de 8,7 hectares, propriedade grande para padrões borgonheses. Suas vinhas têm em média 40 anos com alta densidade de 10 a 12 mil pés/hectare e rendimento de 30 hectolitros/hectare. Nessas dimensões, o terroir é dividido em três partes: meix rentier, les larrets e les bouchots. O primeiro são terras mais argilosas e pesadas. O segundo tem excelente exposição solar e drenagem, enquanto que o terceiro é bem protegido dos ventos do norte. Neste contexto, combina-se finesse, elegância, com estrutura e corpo.

A produção é grande para um Grand Cru, entre 30 e 40 mil garrafas por safra. A vinificação envolve uma boa extração com trabalho constante de pigeage. O amadurecimento dá-se em barricas de carvalho por dezoito meses, sendo metade novas.

codorna assada

Codorna: um clássico para borgonhas

Babette já mostrava o caminho: codorna com Clos de Vougeot. Quem sou eu para contraria-la! Esta da foto acima preparada no forno, acompanhada de arroz puxado no próprio molho é um clássico do restaurante Tatini, fundado em 1954. Continua em plena atividade como os tradicionais “concorrentes” La Casserole e Freddy. Seu atendimento com os réchauds pelo salão é um espetáculo à parte. Fruto do trabalho sem tréguas de Mário Tatini, patriarca e alma deste restaurante, moldou uma geração de garçons à sua maneira, ampliando muito seus conhecimentos à mesa e não apenas, em servir e retirar pratos. Seu filho Frabizio, dá prosseguimento à saga com conhecimento e elegância.

Voltando ao tinto, a harmonização comprovou-se muito boa. A delicadeza da codorna com ervas casou perfeitamente com a elegância do vinho. Seus aromas terciários, além das especiarias, alcaçuz e sous-bois foram de encontro aos sabores do prato. Tinto de bom corpo, taninos macios e final persistente. Bom momento para ser apreciado.

Outros tintos do domaine são um Premier Cru Les Loups e um comunal Morey-St-Denis, perfazendo em média quinze mil garrafas por safra. Evidentemente, são cuvées que não estão à altura de um Grand Cru. Além disso, o domaine elabora um Fine des Lambrays no mesmo processo feito em Cognac. “Fine” é o brandy mais sofisticado da Borgonha. Envelhece por sete anos em carvalho da floresta de Tronçais. É engarrafado sem redução de álcool com graduação de 49° graus. São pequenas partidas de vinho, próprias para destilação. Os vinhos são trazidos pela importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Enfim, quando Champagne e Bourgogne estão à mesa, a companhia e a comida devem estar à altura. E estavam …

Foie Gras: Variações

27 de Dezembro de 2015

Falar que foie gras combina com Sauternes é chover no molhado. Além de muitas pessoas não gostarem desta combinação clássica, outros vinhos podem ser surpreendentes. Não há nada de errado tecnicamente na harmonização consagrada, mas a riqueza de textura tanto do vinho como do prato, acaba saturando um pouco o paladar, sobretudo na hipótese provável de seguir uma sequencia de pratos. Pessoalmente, nesta linha de raciocínio, prefiro a combinação com Tokaji 5 puttonyos ou um Pinot Gris Vendange Tardive da Álsacia, saindo um pouco da mesmice. Lembrando que tanto na Hungria como na Alsácia, temos excelentes foie gras.

Para surpreender, que tal um champagne safrado, maduro, de uma cuvée especial com bons anos em adega. Pode ser um Dom Pérignon, um Krug, um Bollinger RD. Os aromas de evolução destes champagnes combina perfeitamente com o sabor do foie gras. Contudo, a textura em boca é que surpreende. A maciez efervescente do champagne aliada a sua habitual acidez, rechaça de modo muito agradável a gordura do foie gras, deixando um final limpo e fresco.

No caso de um patê de foie gras, pode ser servido um belo Jerez Oloroso. A riqueza de sabor de ambos (prato e vinho) se completam perfeitamente. O lado macio do vinho rico em álcool sintoniza bem com a textura do patê. Aliás, vários patês, sobretudo de caça, vão muito bem com Jerez Oloroso. Vale a pena provar.

Outra combinação que pode surpreender com foie gras é um Porto Tawny 20 anos, um Colheita com bons anos em casco, ou um Madeira Malmsey. Aqui trocamos um pouco o álcool pelo açúcar, ou seja, nos vinhos fortificados não há tanta doçura como nos Sauternes. Essa falta de “doçura” é compensada pelo teor alcoólico. A combinação não perde nada em riqueza de texturas, porém não há um açúcar residual tão evidente. Quanto aos aromas, esses vinhos fortificados vão muito bem com o sabor do prato. No foie gras grelhado incluindo frutas como a maçã, os sabores destes fortificados combinam perfeitamente.

Por fim, para um Filetto alla Rossini com trufas laminadas, os Riojas Gran Reserva são ótimos, preferencialmente os de estilo tradicional. Pode ser um Rioja Alta 904 ou se o bolso permitir, um 890. Os aromas balsâmicos, empireumáticos (café, cevada), de especiarias e frutas em compota, são sensacionais com o sabor do prato. A acidez do vinho corta magistralmente a gordura do prato, revigorando o paladar a cada garfada.

O importante nas tentativas de combinação é observar certos requisitos. O vinho não pode ser simples, pela tipologia de um prato requintado. É preciso ter acidez e textura na escolha do vinho, combatendo a gordura e equilibrando a sensação de untuosidade. Aromas de certa evolução no vinho são bem-vindos com os sabores do prato.

MasterChef: Harmonizações

25 de Dezembro de 2015

Nesta época do ano todo mundo fica ligado num menu especial para o Natal e Réveillon. Aproveitando o sucesso do programa MasterChef, resolvi harmonizar alguns vinhos com os pratos testados e mostrados nesta edição. Havia na verdade dois menus, mas achei melhor mesclar alguns pratos de ambos, priorizando a facilidade tanto na execução dos mesmos, como nos preços e dificuldade de encontrar alguns ingredientes. Portanto, segue menu abaixo com duas entradas, dois pratos e uma sobremesa.

  • Cuscus Marroquino
  • Salada de Bacalhau com Grão de Bico
  • Ravioli de Lagostim e Damasco
  • Pernil de Cordeiro com Figos Glaceados
  • Bolo de Nozes

Vamos imaginar para este menu uma mesa com oito pessoas onde cada um pode escolher a dedo seus convidados. Neste contexto, podemos pensar em quatro garrafas de vinhos com uma média de meia garrafa por pessoa. Acho prudente esta medida, equilibrando bem a quantidade de comida e bebida.

sempre consistente

  • Cuscus Marroquino
  • Cava Brut Reserva

Este espumante espanhol pode perfeitamente ser servido na recepção dos convidados, com alguns canapés, e passar à mesa com a primeira entrada. Para isso, ele tem o frescor e leveza fora da mesa e ao mesmo tempo, faz um belo par com o cuscus e uma série de frutas secas e temperos que dão crocância ao prato.

Cava Raventós ou Gramona. Respectivamente, importadora Decanter e Casa Flora.

http://www.decanter.com.br e http://www.casaflora.com.br

  • Salada de Bacalhau com Grão de Bico
  • Alvarinho Palacio da Brejoeira

Os sabores do bacalhau e a textura do grão de bico casam perfeitamente com as características deste branco. Casta nobre da região do Minho, norte de Portugal, seus aromas são frescos e cítricos. Em boca, sua textura delicada e sua bela acidez combatem bem a gordura do peixe e o lado cremoso do prato, além de manter o paladar aguçado para os pratos subsequentes.

Alvarinho da importadora Vinci. http://www.vinci.com.br

Rosé de referência

  • Ravioli de Lagostim e Damasco
  • Chateau de Pibarnon Rosé

Um rosé provençal da apelação Bandol com as uvas Mourvèdre (2/3)  e Cinsault (1/3).  O método de elaboração de rosé para a Cinsault é de pressurage direct, mais delicado, enquanto para a Mourvèdre temos o método Saignée, com mais extração. As uvas são vinificadas  juntas e mantidas em cubas por seis meses após a vinificação. O resultado é um rosé gastronômico com toda a estrutura da Mourvèdre, mas mantendo o frescor e poder de fruta da Cinsault. Os sabores cítricos, minerais e de especiarias do vinho formam um conjunto harmonioso com o prato. Outro ponto importante é o crescimento escalonado de estrutura e textura dos vinhos para chegar enfim ao último prato principal.

Rosé da importadora Zahil. http://www.zahil.com.br

  • Pernil de Cordeiro com Figos Glaceados
  • Rioja Luis Cañas Reserva Seleccion de la Familia

Tinto baseado na Tempranillo com vinhas de pelo menos 45 anos. Passa dezoito meses em barricas novas de carvalho francês e americano. Taninos polidos, frutas maduras, toques defumados e de especiarias. Elementos importantes para harmonização com um bom assado. Tem maciez e poder de fruta para os legumes e figos glaceados de acompanhamento. Neste tinto temos a elegância do terroir de Rioja Alavesa.

Tinto da importadora Decanter

  • Bolo de Nozes
  • Porto Tawny Quinta da Romaneira 10 Year Old

Casa do Porto distinta com Tawnies bem elaborados. Muito equilibrado e elegante, tem estrutura e sabores compatíveis com a sobremesa. Seus aromas a frutas secas, especiarias e toques balsâmicos são típicos e envolventes. Assim como o espumante de entrada, ele pode perfeitamente sair da mesa e acompanhar belos Puros com uma boa conversa. Boas Festas!

Quinta da Romaneira é importado pela Casa Santa Luzia. http://www.santaluzia.com.br

Harmonizações: Borgonha à mesa

21 de Dezembro de 2015

Pessoalmente, uma das maiores diversões é testar, confirmar, uma boa ou má harmonização nas inúmeras situações que nos envolvemos. Às vezes, premeditadamente, outras, verdadeiras surpresas que o dia a dia nos pregam. Desta feita, um almoço entre amigos, nos deparamos com dois embates abaixo descritos.

camarões molho de baunilhaCamarões ao molho de baunilha

Pela foto acima, percebemos um prato delicado. Trata-se de um leito de carpaccio  pupunha regado ao azeite de oliva com camarões grelhados ao molho de baunilha e creme de leite. São texturas delicadas que pedem um vinho com a mesma similaridade, mantendo a harmonia. Os sabores delicados do camarão e do creme de leite aromatizado com baunilha não podem ser ofuscados por um vinho potente. Evidentemente, estamos falando de vinho branco. E branco da Borgonha. Nas famosas comunas da Côte de Beaune, Puligny-Montrachet tem esta linguagem. Textura e aromas delicados, além dos toques de barricas extremamente sutis em sintonia com os aromas de baunilha do prato.

puligny boillotLes Combettes: divisa com Meursault

No vinho acima, o Premier Cru Les Combettes faz divisa com a apelação Meursault. Isso se reflete no terroir onde os aromas do vinho têm a delicadeza de Puligny, mas a textura em boca lembra um Meursault. Os brancos de Jean-Marc Boillot são elaborados classicamente com fermentação em barricas, passam pelo processo de bâtonnage e amadurecem cerca de dez meses em carvalho, sendo somente 30% novo. Este exemplar com seus nove anos, esbanja vivacidade com toques florais, cítricos delicados como limão siciliano, e finas especiarias. Textura macia e equilíbrio dos grandes vinhos.

escaolpe e ratatouilleEscalopes de entrecôte e ratatouille

Normalmente, quando falamos em borgonhas, pensamos em aves como elemento de harmonização. Neste caso, trata-se de escalopes de entrecôte. A carne em si, contrafilé, tem uma trama um tanto fibrosa, porém o corte em bifes fininhos ajuda a quebrar um pouco esta rigidez. O molho com cogumelos, um demi-glacê elaborado pela Chef Roberta Sudbrack, tem a delicadeza e o refinamento que o vinho exige. No caso, um Richebourg, Grand Cru vizinho ao mítico Romnaée-Conti. Por fim, a ratatouille com seus legumes finamente grelhados enriquece o acompanhamento. Os cogumelos são elementos que vão muito bem com vinhos envelhecidos e toques minerais, especialmente aquelas notas terrosas.

richebourg af grosA tradição da família Gros

Anne Françoise Gros é um dos ramos desta tradicional família, sobretudo na comuna de Vosne-Romanée. Sua parcela na nobre apelação Richebourg é de apenas 60 ares (0,6 ha), cerca de seis mil metros quadrados, um terço da área do Romanée-Conti, ou seja, uma produção anual baixíssima de 2400 a 3000 garrafas. No caso dos Grands Crus como este, o vinho amadurece 100% em barricas novas. Neste exemplar de 2003, as notas de especiarias, ervas, temperos exóticos, são marcantes, remetendo ao gengibre, noz moscada, alcaçuz, entre outros. A madeira não se percebe. Está totalmente integrada ao conjunto.

Nestes dois exemplos, percebemos que o tema central é a delicadeza dos pratos e dos vinhos. Isso é fundamental, sobretudo quando se trata de vinhos da Borgonha. Esta região exige uma cozinha refinada, de temperos e molhos sutis. E quanto mais subimos na escala de classificação (comunal, premier cru e grand cru), maior a preocupação em não errar, não exagerar, sob pena de ofuscar sutilezas de certos tesouros que não podemos desfrutar com tanta frequência. 

Restaurante Attimo: Menu Degustação

16 de Dezembro de 2015

Localizado em Vila Nova Conceição, o restaurante Attimo preserva a cozinha italiana com alguns toques de modernidade. Este é um dos projetos de Marcelo Fernandes, restaurateur também do Kinoshita, Clos, e Mercearia do Francês. O menu e a carta de vinhos mostram propostas interessantes, tanto para os clientes mais conservadores, como para os de certa ousadia. Abaixo, segue uma sugestão de menu com entrada, uma massa, carne e sobremesa.

Salada-de-hortalicas-Credito-GulaMia

  • Salada de hortaliças, legumes tostados, azeitonas pretas, avelãs e mel
  • Harmonização: De Martino Chardonnay Quebrada Seca Single Vineyard 2011

Este Chardonnay, apesar de passar por barricas, mostra um frescor incrível, aliando vivacidade com maciez. Medianamente encorpado, não afronta esta entrada de textura delicada. As hortaliças e azeitonas ficam bem equilibradas pela acidez do vinho, enquanto os legumes tostados e avelãs vão de encontro aos sabores do mesmo. O leve toque de mel é compensado pela maciez do vinho e sua fruta tropical. Este novo terroir de Limari, bem ao norte do Chile e junto ao oceano Pacífico, apresenta grande amplitude térmica, equilibrando acidez com maturidade do fruto.

Ravioli-de-camarao-Creditos-GulaMia

  • Raviolini de camarão com molho de limão siciliano, favas frescas e rúcula
  • Domaine Sorin Terra Amata Côtes de Provence 2012

Massa delicada tanto no recheio, como no molho de limão. Uma boa pedida é este rosé da Provence com seus aromas únicos e muito gastronômico. A acidez do vinho segura o molho de limão, sua textura combina bem com as favas e por último, seu frutado maduro equilibra bem o leve amargor da rúcula.

bela apresentação

  • Língua de boi, purê de batata e marsala
  • Falesco Montiano 2010

Este é um prato clássico que poucos restaurantes tentam ousar em seu cardápio. Carne delicada, de textura macia, inclusive no seu acompanhamento, purê de batatas. Experimente este Merlot italiano em pureza da quase desconhecida região de Lazio. Falesco é uma vinícola de muito prestigio e este é seu vinho ícone. Tinto de presença, mas sempre muito delicado, e elegantemente amadeirado por barricas francesas.

surpresa de maçã

  • Surpresa de Maçã
  • Terrazas Single Vineyard Petit Manseng 2010

Esta sobremesa resume-se num bolo de pão-de-ló, maçã verde, maracujá, sorvete de baunilha e crocante de coco. Para esta harmonização, um vinho argentino singular. Trata-se de um colheita tardia da bodega Terrazas elaborado com a uva Petit Manseng. Originária do sudoeste francês, mais especificamente da apelação Jurançon, aclimatou-se muito bem neste vinhedo argentino a mil metros de altitude com grande amplitude térmica. Há um perfeito balanço entre doçura e acidez e aromas muito delicados. A textura do bolo combina perfeitamente com o vinho. A maçã verde e o maracujá equilibram a acidez, enquanto a baunilha e o crocante de coco casam-se bem com os toques delicados de barricas francesas, nas quais o vinho é amadurecido. Belo fecho de refeição.

http://www.restauranteattimo.com.br

Rua Diogo Jácome, 341 – Vila Nova Conceição – SP

Entre um gole e outro

11 de Agosto de 2015

Mais um almoço entre amigos, belos vinhos, pratos e boa conversa. A vida não precisa muito mais que isso. Um dia ensolarado, aguardando a enogastronomia. Para iniciar, dois brancos acompanhando um prosciutto San Daniele com kiwi (quiuí no bom português) e melão, conforme fotos abaixo.

Clássico dos Alvarinhos

O consistente Palácio da Brejoeira mostrou-se com uma cor citrina, aromas florais, frutas brancas delicadas e boa mineralidade. A harmonização com o presunto foi positiva com a boa acidez do vinho combatendo o sal e a gordura do mesmo. Os sabores delicados de vinho e prato também deram as mãos. Com as frutas juntas, o kiwi saiu-se melhor. O lado cítrico da fruta foi mais favorável ao vinho. Como alternativa aos brancos do Friuli, combinação clássica deste presunto, este português cumpriu muito bem seu papel.

Gaja: a habitual elegância

Esse é um dos brancos de Gaja, gênio do Piemonte, elaborado com Sauvignon Blanc. Sua vinificação engloba um bom trabalho de bâtonnage e leve passagem por barricas, tornando o vinho macio e com boa complexidade aromática. Contudo, é difícil identifica-lo pela casta com os descritores aromáticos mais clássicos. Não importa, é um vinho de personalidade, equilibrado e muito bem acabado. Seu grande trunfo na harmonização foi com o melão e o presunto juntos. A sutil doçura da fruta casou bem com os aromas e a textura do vinho, culminando numa ótima delicadeza em boca. Enfim, uma bela entrada com bom exercício de harmonização.

Arroz de Pato: estrela da mesa

A foto acima mostra nosso prato de resistência, um belo e delicado arroz de pato. Sua surpreendente delicadeza acabou influenciando a harmonização com um embate de dois grandes tintos entre França e Itália. Um Bordeaux de Saint-Estèphe e um Barolo do inimitável Aldo Conterno.

A incrível longevidade dos Bordeaux

Os tintos de Saint-Estèphe possuem alta capacidade de envelhecimento. Sua acidez e estrutura tânica permitem comprovar esta característica. E este exemplar acima é considerado um Cru Bourgeois, hierarquia abaixo dos famosos Grands Crus Classés. Com seus 27 anos, a cor está predominantemente rubi com discretos traços alaranjados de borda. Aroma elegante, denotando ervas finas, frutas escuras, toques terrosos e defumados. Muito bem equilibrado, taninos presentes com boa polimerização e um final firme e longo. Se impôs um pouco sobre o prato, pedindo sabores mais intensos. Nada que comprometesse o conjunto. Este 1988 pode manter-se tranquilamente por mais cinco anos neste platô de evolução. Viva este solo sagrado!

Colonnello: um dos crus da trilogia

Agora, passemos ao tabernáculo do Barolo, Poderi Aldo Conterno. Colonnello é um de seus Crus formando a trilogia com os vinhedos Cicala e Romirasco. Este em questão, trata-se do lado mais feminino, mais elegante, de seu mentor. De fato, esta delicadeza camuflando um força extraordinária, principalmente por sua estrutura tânica, foi o grande trunfo para a harmonização com o prato. Seus taninos delicados e sua bela e refrescante acidez combateram de forma brilhante a gordura e a textura do arroz de pato. Os toques minerais do vinho, defumados e um resinoso elegante, aliaram-se perfeitamente aos sabores do pato permeados no arroz. Mais uma vez, vinhos italianos à mesa são praticamente imbatíveis nas harmonizações. Eles sempre dão um jeito de se amoldarem à comida, valorizando-a e por consequência, virando as estrelas naturalmente.

Produtor e safra excepcionais

O que falar do vinho acima? Safra histórica e uma casa do Porto de alta reputação. É neste patamar de 38 anos de idade que você começa ter a real dimensão do que são os Portos Vintages. A cor sem aquele aspecto retinto, dá lugar a um rubi com certa transparência e limpidez impressionantes. Os aromas tornam-se elegantes, sutis, longe daquela potência dos primeiros vinte anos de vida. Toques florais, de ervas, especiarias. O lado balsâmico, mineral e de todos os empireumáticos (chocolate, café, caramelo, …). Em boca, a fusão do álcool, taninos e acidez é harmoniosamente amalgamada, num final longo, limpo e interminável. Esse vinho é tudo isso e mais um pouco. Foi escoltado por pães-de-mel caseiros com cardamomo, passas e nozes. A Dolce Vita!

Zacapa: a sublimação de um grande rum

Após muitas taças, garfadas, conversas, risadas, vamos à varanda para os cafés e chás. Um suave brisa vai direcionar o espirito dos Puros que virão a seguir. Por sinal, deve ser algo de alto calibre, à altura do destilado na foto acima, o espetacular rum guatemalteco Zacapa. Neste caso, foi escolhido um Partagás E2 bitola 54. Charuto de grande força aromática, fluxo intenso e sabores marcantes.

Voltando á nossa joia acima, este Gran Reserva X.O. é o máximo em refinamento da casa. Vejamos alguns detalhes: o canavial encontra-se a 350 metros de altitude em solo vulcânico. A extração deste néctar leva-se em conta apenas a primeira prensagem chamada “miel virgen”. Há um trabalho lento e minucioso de fermentação com leveduras especialmente cultivadas. Após a destilação, o envelhecimento do produto dá-se a 2300 metros de altitude num sistema de soleras de alta complexidade. A idade média dos runs neste blend varia de 6 a 25 anos, amadurecidos em tonéis antigos de Cognac. Com todo respeito aos grandes Cognacs, Armagnacs e Malt Whisky, este rum ombreia-se neste grupo. A cor está descrita na foto. Os aromas são intensos e altamente complexos, mesclando mel, pâtisserie, baunilha, caramelo, chocolate, entre outros. Em boca, uma bela untuosidade, com a acidez equilibrando bem os açúcares e álcoois. Sua presença no palato, sua potência e persistência foram decisivas para uma harmonização espetacular com nosso Partagas.

Agradecimentos aos amigos e companheiros de copo, já aguardando nosso próximo encontro. Como fiel gladiador lhe saúdo amigo: Ave César!

Menu Dia dos Pais

7 de Agosto de 2015

Data importante em nosso calendário onde além do presente, um belo almoço é obrigatório. Das inúmeras opções nos restaurantes da cidade, vamos citar algumas para um exercício de enogastronomia. A seguir, dois menus com entrada, prato principal e sobremesa. Um com toque francês e o segundo com acento italiano, tão apreciado pelos paulistanos.

Mercearia do Francês – http://www.merceariadofrances.com.br

  • Tartine de Ratatouille com Queijo de Cabra

Entrada que envolve pão, legumes e o queijo de cabra. Versátil na harmonização, podendo pedir vinho branco ou tinto, desde que sejam relativamente leves e joviais. Um Sauvignon Blanc fresco e moderno, um rosé da Provence, por que não?, um tinto com a uva Gamay (Beaujolais), ou até mesmo uma taça de espumante que pode ser a do brinde inicial. Evidentemente, um espumante leve, preferencialmente do método Charmat.

  • Carré de Cordeiro com Risoto de Açafrão e Trio de Cogumelos

Aqui um tinto com Cabernet Franc, Merlot ou Tempranillo, pode acompanhar bem o prato. Como temos cogumelos na receita, um toque de aroma mais evoluído no vinho é sempre bem-vindo. Um Rioja Reserva pode ser uma boa pedida. O Merlot é mais indicado para aqueles que não convivem bem com as sensações de taninos mais presentes. Em termos de textura com o risoto, o Merlot também se sai melhor.

  • Crepe de Doce de Leite com Sorvete de Creme

Sobremesa um tanto complicada para o vinho, sobretudo se o doce de leite for muito prevalente. É uma doçura difícil de ser igualada pela maioria dos vinhos de sobremesa. Como temos sorvete no prato, os vinhos fortificados ganham força neste caso. Talvez um Moscatel de Setubal ou um Jerez Cream (menos doce que o Pedro Ximenez) sejam a melhor solução.

Osteria del Pettirosso – http://www.pettirosso.com.br

  • Vitello Tonnato

Uma entrada clássica do Piemonte com fatias finas de carne fria e uma espécie de maionese de atum. Como há certa acidez, os brancos são mais indicados. Porém, precisam ter personalidade, não podem ser leves. Um Chardonnay de boa textura sem excessos de madeira é uma escolha segura. Os brancos do Piemonte com as uvas Arneis ou Cortese são as pedidas naturais.

  • Spaghetti al Ragu di Scampi (lagostim) e Tomate Fresco

Podemos continuar com o vinho anterior, mas pode ser um bom rosé com frescor. Um rosé italiano de Abruzzo com a uva Montepulciano ou um rosé da Toscana. Um branco com a uva Vermentino é mais uma opção italiana.

  • Paleta de Cordeiro assada a baixa temperatura com Alho, Pesto de Alecrim e Azeite (Spalla d´Agnello Aglio Arrostito e Pesto di Rosmarino)

Elementos como alho e alecrim de grande presença aromática pedem vinhos com a característica  e agradável rusticidade italiana. Um belo Sangiovese, um Brunello di Montalcino, ou um Vino Nobile de Montepulciano, são ótimas opções. Eles possuem força aromática e acidez suficiente para o prato. Os tintos da Campania com a uva Aglianico também devem ser lembrados.

  • Tiramisù

Clássica sobremesa à base de café e mascarpone (queijo cremoso muito delicado). Continuando na Itália, um Vinsanto fechando o almoço é maravilhoso. Passito di Pantelleria é uma opção segura também. Na falta dos italianos, um Porto Tawny resolve o problema.

Enfim, algumas dicas para não errar nos vinhos neste dia. Para grupos onde nem todos tomam vinho, fica difícil pedir várias garrafas durante a refeição. Neste caso, eleja a garrafa para o prato principal, deixando a entrada e a sobremesa para vinhos com opções em taças. É mais democrático, não há desperdício e o bolso agradece. Feliz  dia dos Pais!

Amigos e Enogastronomia

23 de Julho de 2015

Comida combinando com vinhos e bons amigos é um cenário perfeito e extremamente prazeroso. Sempre que é possível vale a pena. Para isso, é só pensarmos nos pratos e buscar vinhos que teoricamente tenham uma sinergia, componentes com afinidades. Foi o que aconteceu neste final de semana.

Como entrada, foi servido um patê campagne com o vinho abaixo. A textura do vinho casou perfeitamente com a textura do patê, além da força aromática de ambos se contrabalançarem. Num outro patê com trufas, o vinho sobrepujou um pouco o prato, faltando também acidez para equilibrar a gordura mais evidente do que no patê anterior. Detalhes que são devidamente avaliados com a confrontação lado a lado.

Vinho de certa evolução

Independente da boa harmonização, temos que fazer um parêntese para este Condrieu. O produtor Georges Vernay é referência nesta apelação. Embora o Château Grillet seja o “the best”, este exemplar também apresenta grande profundidade. Com uvas 100% Viognier, as mesmas partem de vinhas com mais de 50 anos. São apenas dois hectares desta cuvée exclusiva (Les Chaillées de L´Enfer) produzindo anualmente não mais que oito mil garrafas. O vinho ganha muito com a decantação, desabrochando aromas de mel, flores e marron-glacê. Seus 15° de álcool são perfeitamente equilibrados. A textura macia se faz com fermentação em barricas e amadurecimento sur lies (sobre as leveduras) com bâtonnage entre 12 e 18 meses, dependendo da safra. De modo algum a barrica confere uma presença invasiva. Persistência aromática destacada. Enfim, um belo início.

Clos de L´Olive: Chinon de terroir

Partindo agora para o prato principal, uma bacalhoada de forno. E aí a clássica pergunta: tinto ou branco. Como sabemos que os tintos são mais desafiadores, vamos a eles. O vinho acima é um Cabernet Franc de vinhedo único (Clos de L´Olive) da bela safra de 2005. Neste terroir frio para uvas tintas, a qualidade da safra  no Loire assume papel preponderante, pois a perfeita maturação dessas uvas elimina  toques herbáceos desagradáveis e seu consequente amargor. Com dez aninhos de safra, seus taninos encontraram uma perfeita polimerização com textura extremamente agradável. Aliada a uma bela acidez, esses fatores foram fundamentais na harmonização. Fruta madura com frescor, toques florais e de ervas, além de notas de cogumelos, foram os aromas que permearam este tinto em perfeito equilíbrio. Contudo, mais outra frase clássica: ninguém é insubstituível! Vamos falar da estrela do almoço, o vinho abaixo.

Garrafeira Paulo da Silva

Toda vez que estamos diante de um vinho maduro, de certa idade (45 anos), a dúvida sobre sua correta evolução se faz presente. Este é um Garrafeira 1970 elaborado na região litorânea de Colares, próxima à capital portuguesa. Na garrafa, apenas a safra. Um singelo caderninho é anexado no gargalo da garrafa com um feixe elástico informando algumas notas interessantes, conforme fotos abaixo. Nesta safra foram elaboradas somente 24.500 garrafas. Paulo da Silva é neto do fundador de grande respeito na região, senhor Antônio Bernardino da Silva Chitas.

Colares Chitas: Uva Ramisco

Os vinhos de Colares, assim como o fortificado Carcavelos, praticamente na mesma região, são joias portuguesas em vias de extinção. Infelizmente, a especulação imobiliária fala mais alto. O nosso Garrafeira vem desta região, mas com um blend de uvas especificadas no caderninho abaixo. São elas: Malvasia (uva branca), Tinta Meúda (a mesma Graciano encontrada em Rioja), Santarém (a famosa Castelão) e Trincadeira (uva do Alentejo, mas com o nome de Tinta Amarela no Douro). Todas elas plantadas no famosos chãos de areia, cavados em depressões para fugirem dos fortes ventos. Normalmente, esses vinhos tem na acidez seu grande componente de envelhecimento. Seus taninos precisam ser amansados pela idade onde também, seus aromas de evolução ganham uma riqueza impressionante.

13% de álcool: suficientes para um grande vinho

A harmonização com o bacalhau foi espetacular. A acidez do vinho equilibrando a gordura do prato com a total polimerização dos taninos foram pontos-chaves. Os aromas de evolução, resinosos, balsâmicos e de ervas secas casaram perfeitamente com o sabor do bacalhau, sempre com um toque oxidativo devido a seu preparo. Certamente, prato e vinho juntos ganharam outra dimensão. Voltando ao Chinon, os pimentões e as azeitonas da bacalhoada combinaram mais com seu lado frutado. Experiência válida com os dois tintos, mas o garrafeira talvez tenha sido a melhor combinação de tinto com bacalhau, pessoalmente.

Grande destaque nesta categoria

Como sobremesa, um bolo de maça com passas e nozes, escoltado por um Porto Quinta da Romaneira 10 Year Old. Esta primeira categoria de Porto em idade, alia de forma admirável um lado mais frutado com os devidos toques de oxidação. Portanto, tanto a maça como as frutas secas, são complementos harmônicos com o vinho.

Wild Turkey: Bourbon de personalidade

Encerrando o encontro no terraço, chegamos ao Puros com o Bourbon acima, após um excelente café. Fumaças exaladas pelos ótimos Bolívar Belicosos e o piramidal Partagás P2. A força deste Whiskey com seus toques de baunilha, caramelo e casca de laranja, fechou a refeição em grande estilo.

Aos amigos, restou a saudade e boas lembranças, esperando novas surpresas em encontros futuros. Sáude a todos!

Amigos descontraídos, Vinhos sérios: Parte I

31 de Março de 2015

Mais um encontro descontraído entre amigos em torno dos míticos DRCs (Domaine de La Romanée-Conti). Um show do terroir Saint-Vivant frente às feras de Richebourg e La Tâche. A comida sob a batuta da grife Fasano estava deslumbrante. Os vinhos, já de certa idade, deram trabalho com suas  rolhas fragilizadas pelo tempo. Nem tudo são flores, mas o serviço compensou. A recepção dos convivas foram com frios e queijos acompanhados pelos DRCs: Échezeaux 87, Richebourg 98 e Richebourg 2007. Evidentemente, o mais abordável via de regra é o Échezeaux. Sem grandes segredos, se mostra sempre sedutor. Os Richebourgs, muito jovens, ainda tem um longo caminho a percorrer em adega.

O início em alto nível deu o tom do que vinha pela frente. O Montrachet DRC 2007 escoltou brilhantemente a Terrine de Foie Gras e Figos Assados. Branco potente, amplo, com todo o esplendor deste terroir sagrado. Evidentemente, com muita vida pela frente, mas delicioso com seu frescor da juventude.

Terrine impecável

Montrachet DRC: menos de 4000 garrafas

Seguindo em frente, veio a Polenta com Ragu de Linguiça de Javali e Porcini Fresco. Outra bela harmonização com vinhos envelhecidos da safra 1992, um Saint-Vivant e um La Tâche. Saint-Vivant em seu esplendor andou de mãos dadas com o prato. La Tâche, sempre grande, um dos melhores vinhedos sobre a terra (Hugh Johnson). Este ainda tem coisas a mostrar. Esperemos pelo menos mais cinco anos. Aí sim, ele vai confirmar porque é o segundo na hierarquia DRC.

Saint-Vivant: O Allegro Andante do DRC

Falando em Saint-Vivant, o 1982 gerou dúvidas quanto à sua evolução. Alguns acharam certos toques de oxidação. Pessoalmente, achei-o deliciosamente evoluído com notas de cacau, chocolate, ervas finas. Algo como um Lindt 70% Cacau. De fato, sua cor notadamente atijolada, chamou a atenção. Enfim, não entrou na brincadeira. O mesmo ocorreu com o Saint-Vivant 1974.

Um prato irretocável

Continuando o sacrifício, o terceiro prato foi um Raviolini de Cotecchino na Manteiga e Sálvia com Redução de Vinho e Mostarda de Cremona. A harmonia de sabores era incrível. Desta feita, um Saint-Vivant 86, e dois La Tâche, um 87 e um 2002. Novamente, Saint-Vivant surpreendendo. As safras 86 e 87 já se encontram num bom momento evolutivo, sendo 86 um pouco mais tânica. 2002 é muito boa para os tintos, mas para um La Tâche, precisamos um pouco mais de paciência.

Ribeye Kobe: Sabores em harmonia

No último ato, um Ribeye Kobe Cozido à Baixa Temperatura ao Molho Marsala com Mousseline de Mandioquinha e Mix de Brotos, muito bem executado. Para escolta-lo um belo pelotão DRC: Romanée-Saint Vivant 83 e 78, La Tâche 86 e 90, e Richebourg 70. Os velhinhos 70 e 90 com boa evolução em taça, taninos resolvidos e lindos aromas terciários, embora o La Tâche 90 posso ainda mostrar algo mais com o tempo. O Saint-Vivant 83 e La Tâche 86 um pouco abaixo, com vitória do Saint-Vivant, muito provavelmente pela superioridade da safra. Agora o Saint-Vivant 78 é um caso à parte, relatado abaixo.

 

Safra esplendorosa

No vinho acima, tudo o que você imaginar de aromas terciários da Pinot Noir no mais alto nível estavam aqui. Notas de adega úmida, sous-bois, minerais terrosos, as rosas, alcaçuz, e outros tantos inumeráveis. A cor evoluída, atijolada, e taninos perfeitamente resolvidos. Boca ampla, e persistência notável. Uma das grandes safras históricas da Borgonha e dos vinhos DRC. Se o preço não for problema, o prazer está garantido.

Assortimento de Queijos

Bem, agora para arrematar o almoço, um seleção de queijos. escoltado por um Porto Vintage. E que Porto, que safra! Um Taylor´s 1977, safra esta comparada a 63 e 94. A cor ainda com nítidas notas rubi, aroma com compota de frutas escuras, além dos esperados toques terciários, mesclando minerais, chocolate, especiarias, entre outros. Acompanhou muito bem tanto o clássico queijo Serra da Estrela, como o Gorgonzola Dolce.

Sobremesa de deixar nas nuvens

O Gran Finale nos foi brindado com um Zabaione Frio com frutas do Bosque Frescas. Para acompanhar, nada mais, nada menos, que um Yquem 2001, nota cem com louvor de qualquer crítico. Evidentemente, ainda jovem. Vai evoluir por décadas, sem um previsão precisa de seu apogeu. Contudo, seu frescor e sua untuosidade fez um belo par com o prato. Notas de Botrytis, favo de mel, cítricos, e um equilíbrio notável entre álcool e acidez. Persistência interminável.

Agora um mimo antes do café, um Bas-Armagac Francis Darroze safra 1952. Para quem não sabe, é bem mais fácil encontrar um Armagnac safrado do que um Cognac. Além disso, Bas-Armagnac é a melhor sub-região deste belo destilado do sudoeste francês. Equivale ao nobre terroir de “Grande-Champagne” em Cognac. Caloroso, maduro, persistente e belo equilíbrio  de álcool frente ao seu extrato. A tentação de um Puro é imediata.

Pensa que parou aqui a brincadeira? De jeito nenhum. Um dos confrades não queria terminar o dia sem um Romanée-Conti. Mas isso é conversa para o próximo artigo. Ufa, haja fígado!