Archive for the ‘França’ Category

Amadeus regendo Montrachet

11 de Novembro de 2018

Foi de fato uma verdadeira sinfonia, a degustação de Montrachets ocorrida num belo almoço no clássico restaurante Amadeus. Comtes Lafon nos metais, Ramonet nos violinos, e DRC ao piano, deram o tom do espetáculo.

Segundo o escritor inglês Hugh Johnson: “Montrachet  not as giant among pygmies, but as a colossus among giants”. Agrega a elegância dos Chevaliers com a densidade dos Bâtards.

montrachet vignoble

http://lefrancbuveur.com/chronique-livre/chronique-livre-mes-incontournables-5-de-5/attachment/dscn2439/

Das propriedades acima, percebemos que Marquis de Laguiche (Joseph Drouhin) e Baron Thénard são verdadeiros latifúndios se comparados aos demais produtores. Ramonet e Lafon com propriedades minúsculas, sem falar em Domaine Leflaive com quase nada em termos de área.

Montrachet Map

http://www.tenzingws.com/blog/2016/1/12/interactive-map-of-le-montrachet-vineyard

Nos dois mapas acima, é bom clicar nos seus respectivos links para uma melhor visualização dos mesmos. A apelação Montrachet tem somente oito hectares de vinhas e está localizada no centro gravitacional dos melhores brancos da Borgonha. Cercada pelos Grands Crus Chevalier-Montrachet, Bâtard-Montrachet, Bienvenues-Bâtard-Montrachet e Criots-Bâtard-Montrachet, suas vinhas são as mais valorizadas, chegando a absurdos 23 milhões de euros o hectare. Este valor pago pelo bilionário François Pinault, proprietário entre outros vinhedos do Chateau Latour em Bordeaux, refere-se à compra de uma parcela em Montrachet de 0,042 ha por um milhão de euros. É só fazer as contas.

Nos mapas acima, percebemos uma linha clara de divisão no meio do vinhedo, dividindo em partes iguais uma parcela para a comuna de Chassagne-Montrachet, chamada também de Le Montrachet, e outra para a comuna de Puligny-Montrachet, chamada simplesmente Montrachet.

Em termos de terroir, essa divisão vai além de uma distinção comunal. Sobretudo pela orientação das vinhas (vide curvas de nível no primeiro mapa) devido às diferentes inclinações do terreno nas respectivas comunas, as vinhas em Chassagne-Montrachet tendem a fornecer uvas mais maduras, proporcionando vinhos mais cheios como os DRCs (Domaine de La Romanée-Conti). Já as vinhas em Puligny-Montrachet, geram uvas com maior acidez, proporcionando vinhos mais elegantes e de maior tensão. É o caso clássico do Montrachet Ramonet.

Como terceira alternativa de terroir, as vinhas no extremo norte da comuna de Chassagne-Montrachet apresentam um terreno mais pedregoso, semelhante a Chevalier-Montrachet na comuna oposta. Isso proporciona vinhos de maior elegância, fugindo um pouco da característica de sua comuna. É o caso dos Montrachet dos produtores Marc Colin e Guy Amiot, de produções diminutas.

img_5280diversas cores em taças Zalto

img_5283esse foi o trio de largada

Sem mais delongas, vamos ao que interessa. Já de inicio, pisando fundo no acelerador. Três Montrachets da bela safra 96, todos altamente pontuados. Reparando direito, tem um intruso no ninho. Contudo, trata-se de Madame Leflaive onde tudo é perdoado. Bienvenues Bâtard Montrachet é um dos Grands Crus mais exclusivos, situado à direita do Grand Cru Bâtard-Montrachet. Este em particular da Madame, deu um banho de elegância nos outros dois. Delicadeza total e um aroma fino de mel de flor de laranjeira. Equilíbrio em boca, fantástico. Já o Montrachet Louis Latour tinha mais densidade em boca com lindos toques de caramelo. Etienne Sauzet, outro grande produtor com 96 pontos nesta safra, estava com a garrafa prejudicada. O pouco que ele apresentou foi nos primeiros instantes na taça, e logo a oxidação deu cabo final a ele. Uma pena!

img_5285vinhos de negociantes?

Neste segundo flight, um parêntese aos produtores acima. Sabemos que tanto Drouhin como Louis Latour são ótimos e tradicionais negociantes na Borgonha, ou seja, muito de suas marcas são vinhos cujas as uvas são compradas de parceiros de confiança ou vinhos que eles compram novos e educam (élevage) em suas adegas próprias. Nada de errado, são bons vinhos a preços competitivos. A origem dos Leroys também foi essa, vinhos de negociantes com o saudoso Henry Leroy, pai de Madame Leroy.

Além dos vinhos de negociante dessas Maisons, elas também possuem alguns vinhos de vinhedos próprios, onde eles têm total autonomia no plantio e vinificação. No caso de Laguiche, é admirável o nível de seu vinho, sobretudo pela quantidade elaborada. Afinal, é o maior vinhedo disparado na apelação Montrachet. O mesmo podemos dizer de Louis Latour com vinhos admiráveis. É bem verdade que não fazem parte do primeiro escalão, mas a qualidade de seus vinhos é incontestável.

Voltando ao flight, pegamos o Laguiche 2003 em plena forma, exuberante, esbanjando fruta e um equilíbrio em boca fantástico. Levando-se em conta o preço, relativamente em conta para a apelação em questão, ganhou de braçada a degustação. Já o Laguiche 89, outra bela safra, estava um pouquinho cansado, embora muito prazeroso ainda. Fica a dúvida, se foi um problema de garrafa, ou se o apogeu deste vinho ocorre ao redor de 15 anos, no caso 2003.

Por fim, o Montrachet Louis Latour 2005 confirma que em vinhos antigos e sobretudo brancos, não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. O 1996 citado a pouco, estava muito mais gracioso que este 2005. São duas grandes safras de padrões equivalentes, mas esta garrafa 2005 não estava em grande forma.

contribuição da confraria

Além dos pratos da Casa (restaurante Amadeus), dois dos confrades forneceram algumas iguarias para o almoço. Um lindo tartufo de Alba para os ovos caipiras de entrada, e preciosas sardinhas trazidas na mala para compor o tradicional cuscuz da casa. Abrilhantaram em muito nosso almoço.

img_5293dupla de elite

Não podemos falar em tropa de elite, pois Montrachet é muito exclusivo e não combina com quantidade, mas estes dois rótulos acima, sobretudo nesta safra perfeita de 2010, mostraram que o futuro pode ser brilhante. Em estilos completamente oposto, cada qual mostrou seu requinte com vinhos lindamente definidos. O Montrachet Lafon talvez seja o único representante da apelação a peitar o Montrachet DRC em termos de opulência. Um vinho denso com corpo de tinto em boca. Macio, equilibrado, e de longa persistência aromática. Já o Montrachet Ramonet, um primor de elegância com uma acidez tensa, vibrante, e de grande delicadeza em boca. Como estilo, se aproxima muito de Madame Leflaive, um dos Montrachets mais exclusivos, de produção diminuta.

img_5295um infanticídio delicioso

Neste último flight, vinhos extremamente jovens, mas de grande exuberância. Mostra toda a força deste grande vinhedo, onde temos a expressão máxima da Chardonnay na Borgonha. Não devemos nos esquecer que esses vinhos são fermentados e amadurecidos em barricas novas de carvalho. Entretanto, o casamento deles com a madeira é perfeito, onde os toques da barrica estão sobejamente integrados à fruta.

Começando pelos Louis Jadot e Drouhin, vinhos de grande potencial e muito bem equilibrados. Jadot com um pouco mais de densidade em boca, e Laguiche mantendo a elegância dos Drouhin. O gran finale ficou mesmo reservado ao todo poderoso DRC, o Montrachet mais caro da apelação. Suntuosidade é o que define este grande branco. Nosso Maestro, matou de cara todos deste último flight, apostando mais uma vez sua preciosa adega no Montrachet DRC. Trazido por ele mesmo, nos brindou mais uma vez com sua imensa generosidade.

Aproveitando o ensejo, meus agradecimentos a todos os confrades pela companhia, pelo papo sempre agradável, e pelo companheirismo de mesa e copo. Que Bacco sempre nos proteja! Saúde a todos!

Chateauneuf-du-Pape e Arredores

1 de Novembro de 2018

Em recente degustação na ABS-SP,  tivemos vinhos do Rhône-Sul, em especial, Chateauneuf-du-Pape, uma das mais famosas apelações da França. No quadro abaixo, informações importantes sobre terroir e dados estatísticos.

terroir da apelação

http://www.europeancellars.com/more-than-just-la-crau/

O link acima permite ampliar bem o mapa proposto para melhor visualização. Em primeiro lugar, as treze cepas autorizadas da apelação com amplo domínio de vinhos tintos que por sua vez, é protagonizado em seu famoso corte pela uva Grenache (quase 75% de participação). São 3200 hectares de vinhas repartidas em cinco comunas. Mais de 90% da produção são de vinhos tintos. A França exporta dois terços desta produção. Um dos vinhos franceses mais conhecidos internacionalmente. Os solos são muito variados e podem ser representados por quatro tipos principais: galets roulés (ovos de pata), típicos da região, arenosos, calcários, e grés rouges, uma espécie de arenito. Vamos então, às cinco principais comunas deste complexo terroir.

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Chateauneuf-du-Pape

É a maior área com solos de grande diversidade, mas em sua maioria com as famosas pedras que caracterizam a região. Isso transfere muito calor às vinhas, permitindo uma completa maturação das uvas. Nos setores mais periféricos da comuna há mais ênfase em areia e argila, dependendo de localizações mais específicas. 

Courthézon

Região nordeste da apelação com maior área, depois de Chateauneuf-du-Pape descrita acima. Aqui predomina solos arenosos e de arenito sobretudo, onde o Chateau Rayas reina absoluto. Em meio a um terroir único cercado de bosques, é considerado o Borgonha da apelação com vinhas antigas exclusivamente de Grenache.

Orange

Região norte da apelação com seus solos aluviais vermelhos misturando argila, areia e pedras em proporções variáveis. Terroir do Chateau de Beaucastel, um dos mais emblemáticos da apelação.

Bédarrides

Região a leste da apelação, imediatamente ao sul de Courthézon. Solos parecidos com Orange, de tendência mais arenosa. Tem como chateau emblemático o Domaine du Vieux Telégraphe.

Sourgues

Região sul da apelação com solo parecido a Orange, rico em ferro. Clos des Papes e Chateau Fortia ficam no limite deste terroir.

Quanto aos Chateauneufs degustados, foto acima, o da esquerda apresenta um estilo clássico já com perfil evoluído, no ponto de ser bebido. Esses vinhos baseados em Grenache costumam evoluir relativamente rápido em garrafa, sobretudo quando de uma safra não tão boa como 2012. São vinhos que não devem ser decantados para aeração.

Quanto ao vinho da direita, Domaine Lafond, tem um estilo mais extraído e moderno, com uma aporte mais evidente de madeira. Seu equilíbrio é feito por cima, destacando-se uma boa estrutura tânica, além do nível alcoólico de 15 graus. Um vinho potente, um tanto fechado, necessitando de alguns anos em adega. Deve evoluir bem nesta ótima safra 2015 por pelo menos dez anos.

Apesar da fama da apelação, é bom frisar que Chateauneuf du Pape tem vinhos muito irregulares e muitas vezes de negociantes. Portanto, o prestigio e idoneidade do produtor tem um peso enorme na qualidade dos vinhos, justificando integralmente o glamour entre seus aficionados.

Outras apelações próximas a Chateauneuf-du-Pape podem ser belas alternativas ao astro maior, sobretudo se o preço estiver em jogo. Seguem algumas delas com certas particularidades.

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Gigondas e Vacqueyras

Antigas comunas da apelação Côtes-du-Rhône Villages, adquiriram apelações próprias com o tempo. Gigondas conquistou a apelação em 1971 num terroir único em torno de Dentelles de Montmirail com 1200 hectares de vinhas. Solos com base calcária permeados por argila e areia. A Grenache é amplamente dominante no corte, seguida pelas uvas Syrah e Mourvèdre. Bela alternativa a Chateauneuf-du-Pape, numa ótima relação qualidade/preço.

No caso de Vacqueyras, ganhou status de apelação em 1990 num terroir próximo a Gigondas com 1400 hectares de vinhas. São terrenos mais arenosos e menos acidentados em relação a Gigondas. Continuando a comparação, as uvas amadurecem mais cedo e os vinhos são mais acessíveis na juventude, sem grande estrutura como Gigondas, na maioria dos casos.

Os dois tintos degustados acima, vide foto, demonstram as características de cada uma das apelações. No caso da esquerda, Gigondas 2013, mostra um vinho com taninos evidentes e marcantes. Tem um estilo mais viril, mais masculino, vislumbrando mais alguns anos de guarda para desenvolver aromas e polimerizar taninos.

No caso do Vacqueyras 2015, vinho à direita, mostra muita concentração de frutas escuras, toques florais, evidenciando toda sua juventude. Delicado em boca, mostra taninos sedosos, boa maciez, e álcool relativamente equilibrado. É evidente que merece alguns anos de guarda, embora possa evoluir relativamente rápido em garrafa. Um belo exemplar de boa tipicidade.

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Rasteau

Uma apelação um tanto confusa, pois nasceu como um dos VDN (Vin Doux Naturel) da região com as uvas Grenache de parreiras antigas, gerando um vinho tinto fortificado semelhante ao Banyuls da região de Roussillon. Atualmente, são apenas 22 hectares de vinhas com rendimentos muito baixos.

Mais recentemente, em 2010, esta apelação adquiriu nome próprio dentro da apelação Côtes-du-Rhône Villages, elaborando vinhos tintos secos à base de Grenache, complementada pelas uvas Syrah e Mouvèdre, principalmente.

O vinho acima degustado abriu o painel, mostrando o equilíbrio e franqueza de aromas da bela safra 2015. É um vinho relativamente simples, longe de ser complexo, mas muito equilibrado. Esta vivacidade e juventude são fatores extremamente agradáveis para seu consumo imediato.

Segue abaixo a relação de vinhos degustados com seus respectivos preços e importadoras, essas destacadas em parênteses.

  • Châteauneuf-Du-Pape Clos de L’ Oratoire des Papes 2012 – (Vinci) = R$ 548,02
  • Domaine Raspail-AY Gigondas 2013 – (Premium) = R$363,84
  • Châteauneuf-Du-Pape Roc Epine 2015 – Domaine Lafond – (Tahaa) = R$ 348,50
  • Delas Frères Vacqueyras 2015 – importadora (Grand Cru) = R$ 229,90
  • Rasteau AOC 2015 – M. Chapoutieur – (Mistral) = R$219,97

Vosne-Romanée e seus arredores

27 de Outubro de 2018

Em sua octingentésima edição (800 artigos), Vinho Sem Segredo precisava de uma matéria especial. E nada mais especial que falar dos vinhos de Vosne-Romanée, em particular da família DRC, Domaine de La Romanée-Conti. E lá vamos nós para mais um almoço daqueles. O pessoal estava animado e com sede.

img_5224Hospices de Beaune by Madame Leroy

O começo já foi arrasador, degustação solo de um Mazis-Chambertin da mítica safra 1985. Olha a cor deste vinho na foto. Cor de Borgonha saudavelmente envelhecida. Essa é a terceira vez que o provo, e vinhos antigos são sempre garrafas únicas. A primeira foi esplendorosa e essa não ficou atrás. Tudo que se espera de um fino Borgonha maduro em perfeita harmonia: sous-bois, especiarias, rosas, toques de carne, e outros perfumes. Lógico que Leroy tem um peso enorme na elaboração deste Hospices de Beaune num vinhedo minúsculo e de grande prestígio dentro de Chambertin.

img_5226faltou o Richebourg na foto 

img_52251cores divinas com La Tache à esquerda

Lamentavelmente faltou o Richebourg de mesma safra na foto acima, completamente bouchonné. Mesmo em rolhas tão especiais, o perigo sempre existe. Ano glorioso na Borgonha, esses dois 1996 estavam encantadores, guardadas as devidas diferenças entre si. Evidentemente, Echezeaux era o Grand Cru mais pronto como sempre. Taninos resolvidos, aromas abertos, e muita sensualidade. Já o grande La Tache, uma joia ainda em lapidação com uma estrutura tânica fantástica. Boca ampla, cheio de nuances, e uma persistência aromática daquelas. Deve evoluir seguramente por mais dez anos. Um dos grandes do almoço.

50 anos os separam

Como a comparação é cruel, este Vosne DRC da ótima safra 2009 ficou na rabeira. É um lindo vinho tomado sozinho, sem a presença dos astros maiores. Fruta bem colocada, belo equilíbrio e muita elegância. Ainda um pouco novo, mas extremamente prazeroso. Já o velhinho da direita servido às cegas, deu um trabalho e tanto. Embora com seus quase 60 anos, o vinho tinha uma presença de fruta desproporcional para sua idade, quase sem nenhum toque terciário. Não tinha o sous-bois esperado da Borgonha, nem os toques alcatroados de um Nebbiolo piemontês. Já na boca, taninos ainda poderosos que provavelmente vão morrer com o vinho. Este toque agradavelmente rústico faz dos vinhos de Pommard a menção “Barolos da Borgonha”. Uma bela lição para todos nós. 

uma pausa para as borbulhas!

No meio do almoço, um Chef convidado da Liguria devido a Settimana Cucina Italiana, estava na Osteria del Pettirosso, e fez este prato de peixe com legumes, foto acima. A entrada do Cristal 2006 foi providencial para a harmonização, quebrando de forma estratégica a sequência de tintos. Seria redundante falar que o champagne tem alta classe, grande equilíbrio, e persistência aromática notável. Realmente, os paladares foram revigorados para a continuação do almoço.

img_5231um dos mais longevos DRCs

A diferença de um Echezeaux para um Grands Echezeaux é sempre notável, sobretudo na família DRC. Grands Echezeaux é um vinho duro, fechado na juventude, clamando por anos em adega. Esses acima com mais de 30 ou 40 anos, respectivamente, alcançam esse apogeu, entregando muito prazer. Embora 76 não tenha sido um ano esplendoroso, esta garrafa estava divina, competindo seriamente com sua majestade La Tache 96, descrito acima. Um meio de boca bem preenchido e taninos condensados pelo tempo. Já o 86, teoricamente de safra mais nobre, decepcionou um pouco na comparação. Claramente, não tinha a mesma persistência de seu concorrente. De todo modo, um Grands Echezeaux devidamente envelhecido e bem construído. 

tinto com alcachofra!

Os pratos do restaurante Pettirosso foram muito bem executados, valendo a pena citar alguns. A alcachofra frita acima foi muito bem acompanhada pelo velho Pommard do almoço. Sua bela acidez e seu toque adocicado de fruta casou muito bem com os sabores e textura do prato.

risoto e lingua divinos!

O risoto de funghi porcini frescos estava irrepreensível, sobretudo acompanhado pelo La Tache 96 com seus toques terrosos. A lingua magistralmente bem executada tinha sabores e textura impecáveis, acompanhado divinamente o envelhecido Grands Echezeaux 76.

img_5237o infanticídio duplo do almoço

É difícil avaliar DRCs tão novos, ainda com seus primeiros aromas desabrochando. Ainda bem que nenhum deles tinha colocado pijama para dormir, o período de latência que a maioria dos grandes vinhos apresentam. O Romanée-Conti é um poesia com lindos toques florais e uma delicadeza sem fim. Tem muitos anos em adega para se tornar o esperado mito. Já o Romanée-St-Vivant é menos misterioso, mas do mesmo modo ainda muito novo para uma analise mais profunda. O que é extraordinário nestes grandes vinhos é seu equilíbrio harmonioso e uma estrutura incrível para envelhecer longos anos em adega.

Depois desta avalanche, só nos resta agradecer a companhia de todos e tanta generosidade. Que Bacco continue nos protegendo e nos inspirando por novos caminhos. Saúde a todos!

Alcachofra e Vinho

18 de Outubro de 2018

Nesta época do ano, as alcachofras estão no auge e em todo lugar. Despetala-las e depois ficar só com o fundo é sempre uma delicia. E o vinho, será que tem lugar pra ela?

Evidentemente que sim. Basta tomar alguns cuidados, pois a alcachofra tem uma substância chamada Cinarina. Os mais antigos vão lembrar do aperitivo Cynar, ainda existe, mas não é da moçada de hoje em dia. Essa substância pode gerar no vinho um sabor metálico ou um certo amargor, quando não deixa um adocicado diferente na harmonização. O ideal são vinhos de boa acidez e nada de taninos. Portanto, vinhos brancos saem na frente.

Minimizando um pouco o problema, a alcachofra compondo um prato, você tem outros componentes que amenizam este efeito no conjunto. Além disso, a alcachofra cozida e não em conserva, é mais fácil contornar os problemas. Para tanto, vamos a algumas receitas com esta deliciosa flor.

Carciofi-alla-romana

 um clássico da Bota

Carciofi alla Romana

Receita clássica da Italia, trata-se de alcachofras frescas banhadas em água e limão, preferencialmente siciliano, temperadas com alho, hortelã, sal e pimenta. O limão é importantíssimo, neutralizando o efeito da cinarina. Depois, elas são cozidas em azeite e água.

Serve como uma bela entrada, acompanhada de um fresco Sauvignon Blanc ou Pinot Grigio. A acidez e os toques de ervas do vinho formam um belo casamento, mantendo a leveza do conjunto.

risoto de alcachofras e camarões

foto do site Olhar Turistico

Risoto de Camarão com fundos de alcachofra

Pode-se utilizar camarões médios, fundo de alcachofra picado, e caldo de peixe para regar o arroz, além da água. Ervas e especiarias, de acordo com cada receita. A foto acima trata-se de um festival de alcachofras do restaurante Spadaccino na Vila Madalena. O vinho aqui pode ser um pouco mais encorpado, mas deve ser branco. Neste caso, um bom Sémillon da Austrália é uma boa pedida. Se for um Bordeaux branco, corte de Sémillon e Sauvignon Blanc, que não seja muito amadeirado. Um Pessac-Léognan mais elegante como o Chateau Carbonnieux.

pizza-prosciutto-carciofi

outros ingredientes, além da alcachofra

Pizza de Alcachofra

Na foto acima, temos uma pizza com cogumelos, presunto, queijo, além de coração de alcachofra. Podemos muito bem ficar nos brancos, mas há espaço para alguns tintos, sobretudo italianos. Tintos de corpo médio, boa acidez e taninos moderados, como Barberas mais simples, sem passagem por madeira, Chiantis jovens e de boa acidez, Valpolicellas jovens, são ótimas pedidas. Saindo da Itália, Tempranillos Jovens e tintos franceses do Loire, apresentam características apropriadas ao prato.

Outros vinhos

Outras opções para este ingrediente ardiloso dependendo da receita, pode ser um Jerez Amontillado, sempre seco, modernos vinhos brancos gregos, vinhos brancos de Gaillac, região do Sudoeste francês, Vinhos Verdes jovens, modernos, secos e de ótima acidez, como da uva Loureiro, por exemplo.

No caso de vinhos tintos, só devemos utiliza-los se a receita agregar outros componentes que tem a ver mais com tintos, lembrando sempre que devem ser delicados e com baixa tanicidade. Normalmente, as receitas de alcachofras são relacionadas com entradas e pratos leves, bem mais condizentes com os brancos. 

Charuto e suas parcerias

14 de Outubro de 2018

Para alguns, ele é o complemento ideal de uma bela refeição. Para outros, ele é pau pra toda a obra, não importa a hora. Uma de suas características exclusivas, é que o charuto pode ser um prazer estritamente solitário. Nem a terapia tem esse poder, já que obrigatoriamente temos a presença do terapeuta e você precisa conversar com ele. Mesmo o mestre dos terapeutas, Sigmund Freud, fazia terapias com o charuto, no mais amplo sentido do termo. Por outro lado, ele pode ser motivo para belas reuniões e encontros. Enfim, amado por muitos e odiado por outros tantos, é difícil ficar indiferente a ele.

Dito isto, o que acompanha um bom charuto, além da música, leitura, e outras coisas boas da vida. Depende da frequência do fumador, abstinência ou não ao álcool, tipo de álcool: fermentado ou destilado, tempo disponível, compromissos de trabalho, ambiente e clima envolvidos, estação do ano, entre outros fatores.

inúmeras opções

Para simplificar a história, falo por mim, adepto ao charuto gourmet, sempre após as refeições, melhor dizendo, algumas refeições. Como degustador de vinhos, dois a três charutos por semana no máximo, para manter o paladar em dia. Sempre cubanos, a vida é muito curta para tentativas quase sempre frustrantes. 

A primeira coisa que penso após a refeição como bom brasileiro é o cafezinho. Pronto, o start para o charuto. Essa é uma companhia quase unânime entre os fumantes, englobando inclusive os abstêmios. De fato, os aromas e sabores do café bem tirado tem tudo a ver com a fumaça azul.

Como nem só de café vive o homem, há outras coisas além da mais brasileira das bebidas. Mesmo ele, deve ser intensificado no sabor, à medida em que o charuto vai se desenvolvendo na queima, se a pessoa preferir ficar só no café. A propósito, é bom ter em mente que o charuto desenvolve sua queima em três terços, sempre do mais suave para o mais intenso, independente de sua fortaleza.

Numa combinação bem eclética, podemos iniciar o charuto com o café, arrematando a refeição. Em seguida, para o segundo terço um vinho fortificado. Digamos, um Porto Tawny, um vinho Madeira, Boal ou Malmsey, por exemplo. No terço final, um bom destilado. Preferencialmente, um Cognac, Rum, ou Malt Whisky, bem de acordo com a potência desenvolvida pelo charuto.

Portos e Madeiras vão bem

 

Para aqueles que não tomam destilados

Sugiro sempre charutos mais suaves como Hoyo de Monterrey. Mesmo no seu terço final, sua potência é mais comedida, encarando bem os vinhos fortificados. Se quiserem começar por cerveja nos primeiros terços, as belgas trapistas são ótimas. Seu caráter adocicado e sua riqueza em especiarias combinam muito bem com os Hoyos.

img_4890elegância e potência em sintonia

 

Para aqueles que só tomam destilados

Aqui, se separam os homens dos meninos. Bebidas mais fortes, Puros mais intensos. Marcas como Bolivar e Partagás são as mais lembradas. Pode-se começar por alguns cocktails como Negroni, Mojito, ou Caipirinhas, bebidas um pouco mais refrescantes de início, em sintonia com as primeiras baforadas mais suaves. Em seguido, tudo que você tiver do melhor arsenal. Runs envelhecidos, Cognacs e Armagnacs nessa ordem de sequência, de acordo com a sutileza do primeiro e a potência do segundo, Malt Whiskies desde de um agradável Speyside até os turfosos de Islay, evidentemente esses últimos para o terço final.

aquele expresso cremoso

 

Para os abstêmios

Além do café, bebidas como chá ou achocolatados caem bem. O chá de maneira geral é um potente neutralizador do charuto, servindo de maneira eficiente em degustação de Puros para limpar o paladar entre um charuto e outro na prova. Os achocolatos sobretudo no terço final, tem mais corpo e sabores condizentes com o charuto. O importante é sempre hidratar-se, pois o charuto resseca a cavidade bucal. Evidentemente, água em qualquer situação é sempre bem-vinda. 

fique com os vinhos para refeições

 

O que não combina

Bebidas secas ou amargas tendem a potencializar algumas características do charuto que são secura e amargor. Portanto, cervejas pelo amargor do lúpulo, e vinhos secos, aqueles que acompanham refeições, devem ser evitados. Os vinhos perdem muito na harmonização, pois são dominados pelo charuto. Mesmo os tintos, por serem ricos em taninos, tendem a ressecar a boca, potencializando a secura dos charutos.

Para aqueles que insistem nessas bebidas, sugiro tintos potentes, macios, frutados e de alta graduação alcoólica. Um belo Primtivo di Manduria, por exemplo. No lado das cervejas, as belgas trapistas saem na frente. Conforme comentário acima, elas são mais frutadas, menos amargas e ricas em especiarias.

fernando behike islayo requinte de um grande tabaco!

 

Considerações finais

De todo modo, são apenas sugestões e experiências vividas. Como dissemos, a disponibilidade de tempo, tamanho do charuto, compromissos pós charuto, tudo isso deve ser avaliado e dosado, além é claro, do gosto pessoal que é soberano. De resto, é relaxar e se divertir.

Farei em breve algumas aulas sobre harmonização dentro de um curso completo de charutos num local super bacana. Darei todas as informações com antecedência. Boas baforadas!

Cabernet Franc: Corte ou Varietal?

4 de Outubro de 2018

Das chamadas castas francesas internacionais, talvez a Cabernet Franc seja a mais injustiçada e menos badalada. Na França, onde seu cultivo é de longe o mais expressivo em termos mundiais, as regiões de Bordeaux e Loire se destacam, embora de forma relativamente discreta. Tanto na margem esquerda, como na margem direira, a Cabernet Franc é minoritária no chamado corte bordalês. Na região do Loire, apelações como Chinon, Bourgueil, e Saumur-Champigny, mostram seu lado varietal.

cheval blanc cabernet francCheval Blanc: alta porcentagem de Cabernet Franc

Bordeaux

Segundo dados oficiais do site bordalês (www.bordeaux.com), o cultivo da Cabernet Franc é praticamente 10% de toda a área de uvas tintas da região. No corte de margem esquerda onde há o predomínio da Cabernet Sauvignon, sua participação é em média de 10 a 15% do total. Já na margem direita, o mais comum é vermos algo como 80% Merlot e 20% Cabernet Franc. Exceções como Chateau Cheval Blanc, Ausone, Angelus e Chateau Lafleur em Pomerol, contam com um blend em torno de 50% em Cabernet Franc. Coincidência ou não, são Chateaux irrepreensíveis. 

É muito comum as pessoas compararem a Cabernet Franc com a Cabernet Sauvignon, dizendo ser a primeira uma uva de menor estrutura e menos expressiva. Na verdade, a participação da Cabernet Franc no corte de margem esquerda é bastante relevante em termos de aroma e elegância. Em boca, fornece frescor e certo equilíbrio em álcool, aparando as arestas da Cabernet Sauvignon. Já na margem direita, procura fornecer mais estrutura e mais nervo combinada à Merlot, cepa geralmente majoritária.

Em termos de clima e solo, a Cabernet Franc gosta do sol em climas mais frescos. Seus solos preferidos são argilo-calcários ou franco-arenosos, preferencialmente com presença de pedras ou cascalho. Afinar um bom ano com as condições acima descritas parece ser os maiores desafios para sua perfeita maturação.

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terroir da Cabernet Franc em azul

Loire

Na junção das sub-regiões de Anjou e Touraine, o clima fica mais ensolarado e menos sujeito ao frio e umidade vindos do litoral a oeste. O solo argilo-calcário em grande parte com algumas variações de sílica e areia, completam o terroir para o bom cultivo da Cabernet Franc poder se expressar nas apelações Chinon, Bourgueil e Saumur-Champigny (vide mapa acima).

Estes tintos no Loire assumem um perfil bastante gastronômico, já que seus componentes são bem equilibrados. Taninos e álcool comedidos, além de uma bela acidez e frescor. Seus aromas são sutis e nada dominantes. Tudo isso em conjunto, permite a combinação com pratos elegantes, dando espaço para a delicadeza e harmonia entre sabores e aromas. Pratos com cogumelos, especiarias e carnes tenras, são ótimas parcerias com esses vinhos.

Além da França

A Cabernet Franc em todo mundo soma em torno de 54 mil hectares de vinhas, sendo aproximadamente 36 mil só na França. Em seguida, Itália, Estados Unidos, Hungria e Chile, são as maiores áreas de cultivo, embora com números bem mais modestos.

Numa escala ainda menor, Argentina, Espanha, e Uruguai, mostram interessantes exemplares, os quais serão comentados logo abaixo. No Brasil como curiosidade, é a décima casta mais plantada com números bastante modestos. Para aqueles que quiserem experimentar um bom Cabernet Franc nacional, a vinícola Valmarino tem exemplares consistentes. O terroir de Pinto Bandeira, local da vinícola, apresenta clima apropriado. O problema é a dificuldade de encontra-los em lojas por São Paulo, por exemplo. Maiores informações: http://www.valmarino.com.br

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 norte da Espanha

Origem

A Cabernet Franc pertence à família das Carmenets como a Cabernet Sauvignon, Merlot, Carmenère, Petit Verdot, entre outras. A marca registrada desta família é o típico aroma de pirazinas (lembra pimentão verde) que seus vinhos exalam, fruto de um inadequado amadurecimentos destas castas. Aliás, a Cabernet Franc deu origem a várias de sua família como a Merlot (Cabernet Franc com Magdeleine Noir), Cabernet Sauvignon (Cabernet Franc com Sauvignon Blanc) e Carmenère (Cabernet Franc com Gros Cabernet).

No entanto, a origem da Cabernet Franc parece ser mesmo basca, num cruzamento natural das uvas Morenoa e Hondarribi Beltza. Esta última cepa elabora alguns vinhos tintos na região basca (norte da Espanha) sob a denominação Txakoli ou Chacoli. No mapa acima, esta região está assinalada em vermelho.

Em recente degustação, pudemos avaliar alguns exemplares  com Cabernet Franc, tanto em corte, como em pureza.

boa relação qualidade/preço

(importadoras Decanter e Vinci)

No flight acima, dois exemplares por volta de cem reais. O da esquerda, um espanhol da Catalunha, denominação Pla de Bages (vide mapa acima em vermelho). Um corte inusitado de Cabernet Franc (60%) e Tempranillo (40%). Duas uvas que se respeitam muito, originando toques de frutas frescas, especiarias e um leve tostado, provavelmente pela breve passagem por madeira. Um vinho fácil de ser bebido, servindo como aperitivo e pratos leves de entrada. Já o exemplar da direita, um Cabernet Franc 100% do Uruguai com passagem por barricas francesas. Um tinto de corpo médio com nariz elegante, lembrando um Bordeaux nos aromas. Um vinho macio, de persistência aromática mediana, mas bastante honesto para seu preço. O Uruguai costuma ter bons exemplares desta cepa, sobretudo de algumas videiras antigas.

semelhança de estilos

(importadoras Grand Cru e World Wine)

Não é fácil encontrar no Novo Mundo exemplares de Cabernet Franc com estilo Vale do Loire nas apelações clássicas de Chinon, Bourgueil, ou Saumur-Champigny. O da foto acima à esquerda, trata-se de um Cabernet Franc argentino do Valle de Uco, mais especificamente de Guatallary, zona fria e de grande altitude (1350 mts) com solo calcário. Um vinho de grande pureza aromática lembrando framboesas, toques florais e de pimenta. Um vinho macio e de tanicidade delicada. No vinho à direita, um típico Chinon do ótimo produtor Pierre Breton. O perfil aromático é muito semelhante  e também um ótimo equilíbrio gustativo. A diferença em boca está na tanicidade mais acentuada do Chinon, vislumbrando alguma guarda em adega. Um embate interessante, mostrando mais uma vez a força do terroir nos vinhos de Novo Mundo.

corte bordalês em ação 

(ambos da importadora Mistral)

Neste ultimo flight, dois cortes bordaleses com participação um pouco mais acentuada da Cabernet Franc em 25%, lembrando que a maioria dos Bordeaux ficam em média entre 10 e 15% de Cabernet Franc. Neste Bordeaux à esquerda da ótima safra 2015 temos um vinho equilibrado, aromas típicos de frutas escuras, especiarias, ervas, e um toque de couro. Taninos dóceis e bem resolvidos. À direita, um corte bordalês italiano do ótimo produtor da Lombardia, Ca´del Bosco com a mesma proporção de Cabernet Franc. Embora um ano mais velho, safra 2014, o vinho parece menos pronto que o bordalês com taninos bem aparentes e em maior quantidade. Embora ainda possa evoluir em garrafa, seus taninos apresentam textura um pouco rugosa. Só o tempo dirá se a evolução aromática compensará a devida polimerização destes taninos. Um vinho interessante, mas com o dobro de preço do exemplar bordalês.

Enfim, alguns ensaios provando vinhos que fogem à nossa rotina. Para aqueles que tiverem a sorte e o bolso para voos mais ousados, seguem alguns exemplares de rara complexidade: El Enemigo Aleanna Guatallary e Pulenta Estate Gran Cabernet Franc (argentinos), Morlet Family (americano), Matarocchio da Tenuta Guado al Tasso (italiano) e Alzero da vinícola Quintarelli (italiano do Veneto). Por último, o melhor Cabernet Franc do Loire dos irmãos Foucault, Clos Rougeard. Um vinho de longa guarda sob a apelação Saumur-Champigny. Nas palavras de Charles Joguet, grande produtor de Chinon: Há dois sois no Loire, um que brilha para todos, e outro que brilha para os irmãos Foucault. Resta conferir …

Hermitages e os LaLaLas

29 de Setembro de 2018

Um dos tintos mais históricos da França, Hermitage ou Ermitage esculpido no granito em tinto e branco é um dos maiores vinhos de guarda na acepção da palavra. Já bem conhecido dos Romanos, era também apreciados pelos Tsars russos, na corte de Louis XIV, por Alexandre Dumas, e tantos outros.

Por sua incrível potência, fortificava os vinhos bordaleses do século dezoito com a expressão “hermitager”. Aliás, as duas grafias estão corretas. Ermitage, grafia original, foi modificada no século dezenove devida à intensa comercialização do vinho pelos ingleses, os quais apresentavam enorme dificuldade fonética em pronuncia-lo. Acrescentado o H, tudo ficou mais fácil para falar.

montagne hermitagecolina de Hermitage

O terroir de Hermitage tem muita similaridade com o Douro, região portuguesa do Vinho do Porto. Relevo extremamente montanhoso e íngreme em sub-solo granítico. Os rendimentos são muito baixos, gerando vinhos de enorme concentração onde a Syrah assume um caráter potente para os tintos.

Os brancos de Hermitage são elaborados com as uvas Marsanne e Roussanne, e são tão longevos quanto os tintos. A propósito, eles são até meio sem graça, se tomados jovens. Além de brancos e tintos, há um raro Vin de Paille, branco doce elaborado com uvas secadas em esteira, concentrando açúcares e sabores. Jean-Louis Chave em safras excepcionais, faz um raro Vin de Paille com menos de mil garrafas por safra, devido a ínfimos rendimentos pelo processo de elaboração.

Feitas as devidas considerações, vamos aos belos vinhos de um almoço, comemorando o aniversário de um querido confrade.

img_5136o ápice em Champagne

Felizmente, a confraria adotou o Dom Perignon P3 para abrir os trabalhos. Este 1970 já foi descrito recentemente, mas vale a pena comenta-lo de novo. Um champagne de longo trabalho em adega, ficando 25 anos sur lies (sob ação das leveduras). Isso lhe garante uma maciez e cremosidade incríveis, além de alta complexidade aromática. Aromas de pâtisserie, parecendo que estamos entrando numa confeitaria. Espetacular!

Chateau-Grillet: a sublimação da Viognier

O primeiro prato e a harmonização ficaram muito bons. Um spaghetti com molho de Botarga  (ovas de peixe), muito bem executado pelo Chef romano Marco Renzetti da Osteria del Pettirosso. O branco acima é um dos maiores clássicos franceses elaborado no Rhône-Norte. São vinhas de Viognier plantadas em solo extremamente escarpado de micaxisto. Um vinhedo histórico desde a época romana de apenas 3,5 hectares. Foi classificado como um dos cinco melhores vinhedos da França em termos de branco por Curnonsky, Princípe do Gastrônomos, no século passado.

Este 2001 degustado, não tinha sinais da idade. Um vinho fresco, brilhante, e de cor pouco evoluída. Os aromas são exóticos com toques minerais, de erva-doce, mel, e frutas delicadas. Em boca, macio, belo equilíbrio, e sabores tropicais como banana e jaca. O vinho estagia por 18 meses em barricas, as quais se integram perfeitamente ao conjunto. Um branco de exceção e exótico!

img_5144difícil bater esta dupla de Hermitages

Finalmente chegamos a eles, Hermitages nas duas grafias. Não foi exatamente nesta ordem, mas vamos comentar primeiro os Hermitages por uma questão didática. O La Chapelle 1990 impressionou pela potência e ótima conservação da garrafa. O vinho ficou cerca de cinco horas decantado, revelando-se a cada momento na taça. Uma força impressionante de aromas e taninos em profusão. Os toques defumados e de azeitonas foram se abrindo em meio a frutas escuras. Longa persistência e muita vida pela frente. Pelo menos, mais vinte anos com certeza. Previsão de auge para 2040, segundo Parker. Evidentemente, 100 pontos.

Agora o vinho da direita, foi um sério candidato a vinho do almoço, e o preferido de nosso aniversariante com toda a razão. Cuvée Cathelin é a cereja do bolo de mestre Jean-Louis Chave, referência absoluta na apelação Hermitage. Só é elaborado nas melhores safras dando preferência aos vinhedos de Les Bessards, um terroir dos mais respeitados dentro da apelação. Nesta cuvée, Chave utiliza uma porcentagem maior de barricas novas. Este 1990 é a primeira safra de Cathelin e já com 100 pontos. O vinho é de um requinte extremo com notas florais, de alcaçuz, geleia de frutas escuras, e uma harmonia em boca sem fim. Numa sintonia fina, é o Borgonha dos Hermitages, tal a delicadeza e sedosidade em boca. Uma maravilha para ser tomado no momento, embora sua longevidade vá até 2050. Um presente para todos!

bela harmonização

Encerrando os Hermitages, mais um 100 pontos, Chapoutier Le Pavillon 1990, talvez o melhor da história deste tinto. Um vinhedo de apenas quatro hectares de vinhas centenárias com baixíssimos rendimentos. Um tinto extremamente macio, a despeito de uma bela estrutura tânica  de textura extremamente sedosa. Os aromas de frutas e especiarias explodem na taça. Um perfil totalmente contrário ao La Chapelle de mesma safra, bem mais pronto e sedutor. A combinação com a Lingua (foto acima) do Chef Marco Renzetti foi espetacular em termos de textura e sabores.

Agora chega de MiMiMi, e vamos de LaLaLa, a Santíssima Trindade do mestre Guigal. Mudamos agora de apelação. Estamos em Côte-Rôtie, outra margem do rio Rhône mais ao norte. A uva continua Syrah, mas pode haver uma pitada de Viognier, a mesma branca do Chateau-Grillet. Guigal nesses vinhos consegue a magia de integrar 48 meses de barricas novas em vinhos extremamente complexos e de rara elegância.

img_5143200 pontos na mesa!

Este La Turque 1988 estava um negócio!. Um vinho pronto com todos os aromas terciários de um Côte-Rôtie. Trufas, caça, toques balsâmicos, especiarias, tudo muito harmonioso. Em boca, uma sedosidade e equilíbrio sem fim. Não tem como tirar ponto deste vinho. Notas 100 para ele em várias safras é o que não falta. Espetacular!. A combinação deste La Turque com risoto de funghi porcini fresco foi uma covardia (foto abaixo).

a cor de um Guigal de 30 anos!

Para varia, outro nota 100. Desta feita, La Landonne 1988 com esta cor linda da foto acima. Este é 100% Syrah, enquanto La Turque tem uma pitada de 7% de Viognier. Esta cor escura mesmo com 30 anos, deve-se à presença de óxido de ferro no terroir desta vinha na Côte Brune. Bem menos evoluído que o La Turque de mesma idade, além de taninos mais possantes. Previsão de auge para 2030.

mais 200 pontos na mesa!

O pessoal estava animado, e dá-lhe mais LaLaLa com dois vinhos teoricamente perfeitos, sobretudo o La Turque 1985. Na hierarquia dos 100 pontos, Parker coloca o La Turque 85 acima do 88. Degustando lado a lado os dois, percebemos que o 85 apesar de mais velho, está menos evoluído que o 88, com previsão de auge para 2030. Ele tem mais fruta e menos aromas terciários desenvolvidos, mas com certeza, será brilhante com mais alguns anos. O melhor La Turque de toda a história!

Agora o vinho da esquerda, La Mouline 2003 (não dá para ver a safra) foi o infanticídio do almoço. Muitos da mesa ficaram um pouco decepcionados com ele, mas o vinho ainda é muito novo. La Mouline é a cuvée com maior porcentagem de Viognier (11%), além das vinhas atingirem 75 anos de idade. É mais um nota 100 como todos os outros. Seus aromas são ricos em frutas e especiarias. Os aromas terciários ainda são pouco desenvolvidos e seus taninos precisam ser domados pelo tempo. Para quem tem paciência, será mais um grande La Mouline com toda a delicadeza que lhe é peculiar. O mais feminino da trilogia. Previsão de auge para 2030.

img_5142verdadeiros clássicos de Pessac-Léognan

Como a confraria é fiel aos bordaleses, não poderia faltar uma dupla como da foto acima dos eternos rivais e vizinhos de parede. Este La Mission 1982 estava um espetáculo sem nenhum sinal de decadência. Pelo contrário, taninos finos e abundantes, garantindo ainda uma bela guarda. Os aromas terrosos, de chocolate, couro, ervas, são maravilhosos e bem típicos de Graves. Pela potência e vigor, eu até o confundi com o brilhante Haut Brion 89, um nota 100 incontestável. Contudo, esta garrafa não era das melhores. Achei-o meio sem vigor, um pouco cansado, sem o esplendor do outras garrafas. Mesmo assim, um belo vinho, com aromas elegantes e boca harmoniosa. Fim de degustação para os tintos …

o lado doce de Bordeaux

Finalizando o almoço, uma dupla de Yquems separados por 34 anos. Como o almoço era nota 100, não podia faltar o Yquem 2001, uma das safras mais badaladas do novo milênio. Ainda muito jovem, mesmo na cor, mas com uma estrutura fabulosa. Untuoso, harmonioso, e um belo frescor dos grandes Yquems. Já seu parceiro de foto, um Yquem 1967 com rótulo prejudicado, mas um vinho inteiraço. Evidentemente, com todas as notas de um Yquem evoluído com 51 anos. Aromas de caramelo escuro, mel resinoso, e notas de pâtisserie. O Yquem 2001 parecia dizer ao companheiro: eu serei você amanhã!

cremosidade elegante

Acomapanhando os Yquems, duas ótimas sobremesas do Pettirosso, Panna Cotta com mel e o clássico Tiramisu. A cremosidade de ambas garante a harmonização com os vinhos por textura. Evidentemente, o Tiramisu com notas empireumáticas (café) conversa melhor com o Yquem 67. Já a Panna Cotta com este mel delicado, faz a ponte para os vibrantes e puros aromas do Yquem 2001. Belo fecho de refeição!.

Fico até sem palavras para os agradecimentos diante de tantos vinhos esplendorosos. Encontro memorável, bem à altura do aniversariante. Missão quase impossível para os próximos aniversários. Que Bacco nos proteja! Saúde a todos!

Cabernet Franc em Pomerol

16 de Setembro de 2018

Seus vinhos são elegantes e longevos, mas a Cabernet Franc não costuma ser protagonista nos cortes bordaleses, mesmo na chamada margem direita dominada pela Merlot. Entretanto, quatro exemplos incontestáveis de vinhos consagrados pela história, refletem a importância desta cepa capaz de expressar-se com muita personalidade, conforme o contexto da situação.

Chateau Angelus, Chateau Cheval Blanc, Chateau Ausone, e Chateau Lafleur, apresentam altas proporções de Cabernet Franc em seus cortes, moldando tintos com personalidade diferente, de acordo com o respectivo terroir. O Cascalho em solo arenoso no extremo oeste de St Emilion, gera vinhos elegantes e sutis como Cheval Blanc. Já o calcário próximo à cidade de St Emilion, molda tintos mais viris, de grande mineralidade, como Ausone. Por fim, os solos pedregosos e argilosos de Lafleur geram vinhos densos, ricos em taninos, um tanto fechados na juventude, capazes de envelhecer por décadas em adega. Em todos os casos, a Cabernet Franc proporciona a estrutura e elegância ao blend, contando sempre com a redondez da Merlot. Lafleur acaba sendo neste grupo o único representante de Pomerol.

Foi neste contexto, que fizemos uma vertical de Lafleur de safras com perfis distintos, contanto um pouco a história deste grande tinto que muitos o comparam ao rei Petrus por sua austeridade na juventude e incrível capacidade de vencer o tempo. Num dos trechos do ótimo site (www.thewinecellarinsider.com), é dita a frase: “Lafleur is the one wine in Pomerol that not only rivals Petrus, it can even be better in certain vintages!”.

Chateau Lafleur possui cerca de 4,5 hectares de vinhas, aproximadamente um terço da área do Petrus, ficando a menos de um quilômetro de distância. Seu solo contem muitas pedras em meio a areia e argila em três configurações geológicas. Neste cenário, Cabernet Franc (50%) e Merlot  (50%) dividem a área de plantio com muitas videiras antigas. A média de idade é de 40 anos, mas há muitas vinhas centenárias que venceram a histórica geada de 1956. Isso gera mostos altamente concentrados com rendimentos baixíssimos por parreira. O vinho tem discreta passagem por madeira nova, entre 25 e 50% no máximo de barricas novas, conforme a safra. Por exemplo, a mítica safra de 82 onde o vinho tem 100 pontos, não há mais que 10% de barricas novas. A propósito, este vinho foi feito pelo enólogo do Petrus, Jean-Claude Berrouet. Christian Moueix, dono do Petrus, tem enorme respeito por este Chateau. É só prestar a atenção no rótulo do Dominus, sua propriedade em Napa Valley.

1970: o tricampeonato no México

Como já virou tradição na confraria, iniciamos os trabalhos com um Dom Perignon P3, nada mau!. Este conforme o contrarrótulo, passou 25 anos sur lies. Portanto, recebeu a rolha definitiva em 1995. Mesmo assim, já se passaram mais de 20 anos arrolhado. Ainda com borbulhas num sentido mais frisante, porém com um vinho-base de alta qualidade. Os sabores cítricos, mel, frutas secas, e brioche, explodiam na boca. Mousse ultra delicada e bastante expansivo em boca. Quase 50 anos muito bem vividos!

img_5096safras bem distintas

Na foto acima, além de 96 não ser uma grande safra para o Chateau, a garrafa estava prejudicada. No mínimo, uma leve oxidação. Os aromas terciários já estavam bem desenvolvidos, mas o final de boca era seco, praticamente sem fruta. Em compensação, o Lafleur 95 estava um deslumbre, embora extremamente novo. Ele tem 96 pontos Parker com previsão de apogeu em 2040. O que mais impressiona neste vinho é sua estrutura tânica. Taninos em profusão de textura notavelmente polida. Muita expansão em boca e um equilíbrio fantástico. Merece ser decantado por pelo menos duas horas.

img_5097safras abordáveis

Flight de vinhos muito agradáveis, já praticamente prontos para serem apreciados. A safra 97 mais precoce, tem seus terciários bem fundido com a fruta, um vinho macio, mas sem grande persistência. Já o Lafleur 99 tem mais estrutura. Também já muito agradável, mas tem alguns anos para envelhecer. Taninos polidos e um belo equilíbrio. Os dois acompanharam bem o Stinco de cordeiro desossado com polenta, foto abaixo.

img_5095cozinha clássica e precisa

Abaixo, o flight mais esperado com o estupendo Lafleur 82. Os dois vinhos são bem pontuados e estão próximos de seus respectivos apogeus. Os aromas terciários do 88 são encantadores com toques de terrosos, de torrefação e algo de couro. O Lafleur 82 tem todos esses terciários, mas ainda uma fruta vibrante lembrando compota de ameixas. Em boca, continua a superioridade em relação ao 88 com mais expansão e taninos ainda presentes, embora de textura irrepreensível. De fato, características de um verdadeira nota 100.

img_5098o flight mais esperado

Devido a um confrade desavisado, tivemos que provar um La Fleur-Petrus 1970. Ele confundiu o nome do vinho nesta degustação, mas ninguém reclamou. Novamente 70 abrindo e fechando o almoço. O vinho estava divino com todos aqueles terciários maravilhosos do Bordeaux: couro, tabaco, especiarias, torrefação e um fundo mineral. Totalmente resolvido, estava em plena forma. Este Chateau está tão perto do Petrus como o Lafleur, mas seu corte de uvas segue a tradição de Pomerol, 80% Merlot e 20% Cabernet Franc. Estilo bem distinto de seus vizinhos com muita sensualidade da Merlot.

img_5099velhinho em plena forma

Nessa altura do campeonato, o pessoal ainda estava com sede. Não teve jeito, tivemos que abrir uma Double Magnum de Lafleur 1990. Não estava tão pronta como o 82, mas muito mais acessível que o 95. Embora seu apogeu esteja previsto para 2040, este exemplar com 97+ pontos Parker estava bem agradável no momento. Seus taninos são de seda e um equilíbrio fantástico em boca. Ainda pode desenvolver certos aromas, mas seus terciários bem mesclados com a fruta já são deliciosos. Acompanhou muito bem o contrafilé ao ponto assado em forno josper do restaurante Parigi. Aliás, um belo serviço de vinho e mesa.

os taninos agradeceram o ponto da carne

Como ninguém é de ferro, chegou a hora da sobremesa. Em mais uma tradição da confraria, Porto Vintage tem que ser 1963. Um belo Taylor´s devidamente decantado e com os aromas e sabores condizentes de um Porto com mais de meio século. Neste estágio, os taninos estão resolvidos e os aromas plenamente desenvolvidos. Acompanhou divinamente o tiramisu da casa “comme il faut”.

olha a cor deste 63!

Estava difícil de sair da mesa, pois sua majestade Yquem pede passagem. A safra de 90 é praticamente perfeita com um vinho complexo e de longa guarda. Esta garrafa em questão já estava relativamente evoluída com seus deliciosos aromas de mel resinoso, compota de damascos, figos, e toques de curry. Seu equilíbrio entre álcool, açúcar e acidez é notável. Acompanhou bem a clássica tarte tatin do Parigi.

a sublimação da doçura

Ainda deu tempo para mais um dedo de prosa com um Jurançon, famoso vinho doce do sudoeste francês com a uva Petit Manseng colhida tardiamente. Neste exemplar da foto abaixo, temos o mestre do Loire, Didier Dagueneau, com seu fabuloso Les Jardins de Babylone safra 2004.

img_5106mais uma joia da França

Este é um vinhedo de apenas três hectares com a uva Petit Manseng de difícil cultivo e amadurecimento. Elas são colhidas perfeitamente maduras com ótimos níveis de acidez e açúcar. O vinho mostra deliciosas notas de mel, de frutas cítricas, Gran Marnier, e um frescor muito agradável equilibrando perfeitamente o açúcar. Sem nenhum sinal de decadência, tem fôlego para mais alguns anos em adega. 

Por fim, restam os agradecimentos a todos os confrades pela enorme generosidade, além da conversa sempre animada. O tema foi extremamente didático e criativo, já que Lafleur não é dos vinhos mais badalados, se comparado a outras estrelas de Pomerol. Que Bacco sempre nos proteja e nos guie para novas descobertas! Saúde a todos!

Efeito Premox

10 de Setembro de 2018

Todos sabemos que os melhores vinhos brancos secos do mundo estão na Borgonha, sobretudo os ligados a um nome mágico chamado Montrachet. É lógico que Rieslings alemães, alguns brancos do Loire, do Rhône, podem entrar nesta briga, mas a Chardonnay na Borgonha assume apelações fantásticas como Corton-Charlemagne, Chevalier-Montrachet, Batard-Montrachet, assim como o inimitável Chablis.

Um das características destes vinhos é envelhecer com propriedade, embora em tenra idade já sejam deliciosos. Contudo, a condição de guarda é uma das razões que os diferenciam da maioria de outros Chardonnays. É exatamente este ponto o motivo de nosso artigo. Por que Borgonhas tão jovens já parecem oxidados e sem estrutura para envelhecer em adega?

Esse fato tem ocorrido nos últimos anos mesmo com produtores de destaque como Domaine Leflaive, Coche-Dury, e Domaine Leroy, por exemplo. Brancos de prestígio e preços nas alturas decepcionando consumidores fieis que jamais acreditariam em tal fato se eles mesmos não fossem as principais vítimas.

Para tentar elucidar o fato, vamos falar do efeito Premox (Premature Oxidation). Sabemos que os brancos da Borgonha são fermentados e amadurecidos em barricas de carvalho, tendo um certo contato com o oxigênio em sua construção como vinho. Esses fatores em linhas gerais contribuem para uma certa resistência à oxidação e portanto, permitindo a eles uma longa guarda em adega.

Os efeitos Premox provavelmente têm explicação no vinhedo e na cantina, sendo praticamente descartados os problemas de vedação e conservação do vinho. Segundo especialistas como Dra Valérie Lavigne de Bordeaux que estuda o efeito Premox em vinhos brancos há mais de dez anos, alguns fatores de campo e de cantina atuam no problema, sobretudo quando somados, contribuindo para uma vida relativamente curta do vinho.

wine folly massal-selection-clonal-selection-vines-preferência pela seleção massal

Fatores de campo (vinhedo)

  • baixos rendimentos das vinhas somados ao estresse hídrico, potencializado em anos secos, podem baixar os níveis de nitrogênio no solo reduzindo a presença de uma substância chamada glutationa presente nas uvas, responsável por combater a oxidação.
  • seleção clonal x seleção massal. A seleção clonal é feita em laboratório detectando certos tipos de parreiras com produção baixa e resistência a doenças de forma destacada. A seleção massal é praticada de longa data na viticultura, selecionando algumas parreiras naturalmente e tentando replica-las no vinhedo em meio a outras parreiras de características diferentes. Nesta ultima técnica natural a concentração de taninos (substância antioxidante) nas uvas é notavelmente superior.
  • níveis excessivos de maturação das uvas, aumentando o teor de açúcar e diminuindo a acidez natural. Desta prática resulta a frase: três semanas a mais no vinhedo rouba um década ou mais na adega.

batonnage wine follyas borras protegem o vinho

Fatores de cantina (vinificação)

  • prensagem delicada das uvas (prensas pneumáticas) extraem menos material corante das uvas, inclusive taninos (antioxidantes).
  • intervalo relativamente longo entre a fermentação alcoólica e a malolática pode contribuir para o Premox, período em que o vinho fica menos protegido de fatores oxidativos.
  • não abrir mão da técnica de bâtonnage que consiste em deixar o vinho em contato com as borras (leveduras mortas), aumentando assim sua resistência a processos oxidativos.
  • utilizar o SO2 (dióxido de enxofre) de forma coerente e precisa nas várias etapas de vinificação. É um poderoso antioxidante e bactericida. 
  • maior porcentagem do carvalho novo na vinificação pode aumentar a resistência contra a oxidação.

Mediante os fatores acima citados, problemas como vedação das garrafas e armazenamento inadequado só potencializam a questão. No entanto, sozinhos não são determinantes no efeito Premox.

premox 1988-oxidation

as várias tonalidades de cores nos Borgonhas

Um dos aromas característicos do Premox é algo que lembra Sherry ou Jerez, advindos do Sotolon, substância derivada do acetaldeído, uma espécie de oxidação dos álcoois do vinho. Seus aromas podem lembrar mel, curry e amêndoas. 

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Premox: apelações nobres

No painel acima, Meursault-Perrières 2008 e Meursault-Genevrières 1995, completamente oxidados (premox). Na foto seguinte, Louis Jadot Chassagne-Montrachet 2007, também oxidado. Experiências do passado.

Na foto abaixo, um dos grandes vinhedos de Madame Leflaive, les Pucelles. Muitas decepções na safra 1999.

premox puligny montrachet

cuidado com a safra 1999, alto risco premox

Para aqueles que apostam nos grandes brancos da Borgonha como vinhos de guarda capazes de vencer longos anos em adega, prefiram os anos clássicos de boa safra, onde as condições de campo parecem ser mais seguras. Evitem anos muito quentes com grande estresse hídrico, capazes de iludirem os mais desavisados com seus aromas sedutores quando muito novos, quebrando o encanto em pouco anos de vida. Como exemplo de anos recentes, os brancos borgonheses 2009 mostram claramente vida mais curta, comparados aos brancos de 2010, uma safra clássica.

O assunto é polêmico e vasto à medida em que as experiências se sucedem e mais especialistas lançam novas teses. Para aqueles que possuem várias garrafas ou caixas de determinados vinhos de mesma safra, convém monitora-los de tempo em tempo e observar o fenômeno pessoalmente, se for o caso. De todo modo, novas técnicas de cultivo e vinificação solucionam determinados problemas, a despeito de vez por outra, aparecerem alguns efeitos colaterais.

Que os Borgonhas continuem dando muitas alegrias a que os têm e conserva. Por enquanto, o saldo histórico deste tipo de vinho é amplamente favorável, confirmando seus lugares cativos nas melhores adegas do mundo.

Vinhos que curam …

5 de Setembro de 2018

Pelo segundo ano consecutivo, o Hospital Albert Einstein através do AMIGOH, grupo de pessoas ligado ao Hospital sensibilizado pelo combate ao câncer e doenças hematológicas, promoveu um interessante e sofisticado Leilão de Vinhos com a colaboração e presença de Paul Hart e Allan Frishman, principais executivos da Hart Davis Hart, uma das mais prestigiadas Casas de Leilões no cenário internacional.

Não podemos deixar de mencionar o apoio da Américas Amigas, Organização não governamental promotora dos Direitos Humanos. Menção especial também ao casal Ana e João Camargo por todo o envolvimento na capitação e logística de alguns dos mais importantes vinhos presentes nos lotes ofertados.

Além da causa nobre, o evento proporcionou aos participantes a oportunidade da aquisição de vinhos altamente pontuados por lances  de valores competitivos no mercado internacional. Mesmo dentro deste princípio ético, os participantes foram muito generosos na dinâmica do leilão, contribuindo de forma decisiva para os objetivos do evento.

Feitas as devidas considerações, vamos falar de vinhos oferecidos para acompanhar o jantar, além de alguns lotes interessantes que foram arrematados. Nas duas fotos abaixo, alguns caldos que regaram o jantar.

grandes safras em Bordeaux

Embora os dois vinhos da foto acima estejam em tenra idade, vale a experiência para sentir a potência e qualidade das safras 2010 e 2015, super valorizadas no mercado. O Chateau Brane-Cantenac  2010 segue a elegância de Margaux já com alguma evolução, mesmo que timidamente. Com belo potencial de guarda, seus taninos são finos além de um equilíbrio notável. Já o Chateau Pontet-Canet 2015 foi o infanticídio da noite. Um tinto de potência extraordinária no melhor estilo Pauillac. Muita fruta escura lembrando cassis e uma estrutura tânica capaz de vencer longos anos em adega. Apesar de  não estar no pelotão de frente dos grandes Pauillac, é sem dúvida um dos destaques desta bela safra.

destaques em 2014

A safra 2014 não tem o glamour de 2015, mas é bastante equilibrada e de preços menos impactantes. O Chateau Figeac á esquerda, um dos mais destacados na comuna de St Emilion, vizinho do nobre Cheval Blanc, mostra-se já muito agradável, sobretudo após uma boa decantação. Com 94 pontos Parker, tem longevidade prevista pelo menos até 2035, confirmando a boa qualidade da safra.

Quanto ao Montrose 2014, as previsões são ainda mais pretensiosas. Algo como 2050 a 2060 com nota 96 Parker. Um vinho difícil para o momento, tal sua acidez, tanicidade, e austeridade, lembrando um grande Barolo. Dentro do esperado, os grandes da comuna de Saint-Estèphe costumam envelhecer com brilhantismo, revelando sua nobreza com o devido tempo.

img_5065tropa de elite

Falando em Bordeaux, o lote acima foi um dos destaques dos numerosos lotes bordaleses. Um time de respeito unindo várias comunas do Médoc com Chateaux sempre valorizados e muito bem pontuados em suas respectivas comunas. Um lance bem atraente para acirrar a disputa.

safras bem didáticas

O foto acima mostra mais uma dupla bordalesa servida no jantar. Aqui sim, vinhos teoricamente envelhecidos e num bom momento de evolução. Começando pelo Cos d´Estournel 1985, um vinho pronto, plenamente evoluído, com todos os aromas terciários de um grande Bordeaux, couro, tabaco, especiarias, chocolate, entre outros. Já o Léoville Las Cases 1986, apenas um ano mais jovem, completamente diferente. Enquanto a safra 85 mostra vinhos acessíveis, bem resolvidos e sedutores, o ano de 1986 marca vinhos de grande estrutura tânica e lenta evolução em adega. É o caso deste Leoville, uma referência da comuna de Saint-Julien. Um vinho quase perfeito com 98 pontos Parker. Denso, ainda um pouco fechado, mas muito equilibrado e com longa persistência aromática. Até por ser vizinho na divisa de comuna com Pauillac, lembra um mini Latour. Previsão de auge em 2050.

img_5067um raro exemplar

O lote acima mostra uma das garrafas mais raras do Leilão, uma Double Magnum Harlan Estate 2013. Seguramente, Harlan Estate e Screaming Eagle disputam entre os Cult Wines mais caros de Napa Valley. De fato, Harlan Estate molda vinhos de alto padrão, aliando a potência californiana com toda a elegância bordalesa. Um tinto de corte bordalês muito bem delineado safra após safra com muito poder de longevidade. Essa safra 2013 é um dos anos perfeitos com 100 pontos Parker.

Bourgogne em alto nível

Mais alguns mimos servidos no jantar da foto acima. Começando pelo grande branco da Borgonha, Le Montrachet personifica a perfeição em Chardonnay. Nesta garrafa em questão, além da bela safra 2015, estamos diante de uma produção diminuta do Domaine Blain-Gagnard, um dos mais exclusivos deste famoso vinhedo dividido em muitas parcelas. O vinho tem um riqueza extraordinária de frutas, especiarias, flores, tudo bem emoldurado por toques elegantes  de barricas francesas. Delicioso no momento, embora possa ser guardado por anos em adega.

Seu par tinto é da comuna de Chambertin, Côte de Nuits. Domaine Ponsot é um dos produtores  mais sérios e artesanais, atuando sobretudo na comuna de Morey-St-Denis. Neste exemplar de 2014, Chapelle-Chambertin, um dos Grands Crus da comuna homônima, o vinho ainda se mostra em tenra idade. Com toques de cerejas e violetas, os aromas ainda são tímidos. Contudo, sua acidez e estrutura tânica permitem uma longa trajetória de evolução. Mostra-se muito equilibrado e fino. Tinto de alta costura.

img_5069Saint-Emilion Classe “A”

Mais um lote muito interessante (foto acima), retratando a elite de Saint-Emilion, a chamada margem direita de Bordeaux. Com vinhos altamente pontuadas em safras diversas e de grande destaque, três exemplares distintos, porém complexos e de boa guarda em adega. Chateau Valandraud é um dos pioneiros e mais exclusivos “vins de garage”.

Enfim, foram pouco mais de 50 lotes de primeira linha com preços e estilos de vinho variados, contemplando paladares e preferências dos mais diversos. O mais importante foi o sucesso do Leilão como evento raro em nosso país. Os recursos arrecadados certamente terão destinos bem definidos no combate permanente e progressivo contra o câncer.

Mais uma vez, agradecimentos a todos os envolvidos pela causa e a todos os presentes no evento, contribuindo cada qual a ser modo para um bem comum, a cura contra o câncer. Aguardamos ansiosos pelos próximos leilões!