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Confraria: Espanha em Alto Nível

11 de Dezembro de 2014

Jantar à francesa regado a vinhos espanhóis. Evidentemente, Ribera del Duero e Rioja brilharam à mesa. O desfile  foi extenso, sendo paulatinamente servidos dois a dois. O único branco foi o estupendo Tondônia Gran Reserva 1964. Ainda bem fresco em boca com total harmonia entre madeira e fruta. Bem estruturado, é grande parceiro para os pratos de bacalhau, por exemplo.

Outro ponto interessante foi a comparação das famosas taças Riedel com as taças Zalto´s de origem austríaca não encontradas no Brasil ainda. Seu diferencial, além do belo design, é o peso extremamente leve. Pessoalmente, achei o desempenho da Zalto´s surpreendente. Os aromas eram mais intensos e em boca, o vinho tornava-se mais macio. Entretanto, as opiniões foram diversas sem esquecer que as taças Riedel mantêm um padrão muito alto. Em resumo, valeu a experiência.

L´Ermita: Ícone do Priorato

O encontro começou com o vinho acima, uma double Magnum devidamente decantada. Apesar de seus quinze anos, o vinho ainda está em tenra idade. Contudo, seus aromas são envolventes, extremamente macio em boca e agradavelmente quente, mantendo as características de seu terroir. Foi um dos vinhos que acompanhou o maravilhoso Jamon Joselito, o melhor de todos os Pata Negra, ou seja, uma iguaria soberba da charcuterie. Segue foto abaixo:

O ácio oleico encontrado neste presunto dá origem a uma das gorduras mais saudáveis que são presentes também nos melhores azeites extra-virgens.

A arte da manipulação

Os tintos do jantar privilegiaram a safra de 2004, uma das maiores dos últimos tempos na Espanha. Todos de ótimo nível com destaque para o Pingus e o El Pison. O primeiro, um Ribera del Duero de preços estratosféricos, mostrou potência, concentração e um longo final de boca. El Pison da bodega riojana Artadi, pende mais para elegância, mas com muita profundidade. Características próprias do terroir de Rioja Alavesa. Enfim, duas grandes promessas para vinhos de guarda com notas 100 de Robert Parker.

2004: Talvez o melhor da dinastia

Dois notas 100 lado a lado

Aproveitando a foto acima, os Vegas foram um caso à parte. Primeiramente, um 1965 degustado em Magnum. Brilhante, super elegante e habitualmente inteiro, como se espera de um Vega mesmo com idade. Já o mesmo exemplar em garrafa standard (750 ml), um pouco cansado, com o acetato de etila, próprio desta bodega, confirmando a melhor conservação em magnum e por conseguinte, a longevidade dos grandes vinhos. Já o 1962, um dos nota 100 de Parker, cresceu durante a degustação. Embora já delicioso desde a abertura, após três horas decorridas, portanto, no final do jantar, estava ainda mais exuberante, com aromas exóticos e delicados lembrando um bom Lafite. Realmente, um grande exemplar.

Toda a turma junta

No final da noite, a adega do anfitrião foi invadida e saqueada com duas preciosidades: Château Montrose 1990 e Château Haut-Brion 1989. Dois notas 100 de Parker de primeiríssima grandeza. O Haut-Brion com aquela elegância de sempre, um dos melhores de toda sua série. O Montrose, esse é pessoalmente o melhor do château já degustado. Ainda inteiro, vigoroso, com muita vida pela frente. A maciez e a concentração deste exemplar são notáveis.

Só a garrafa já vale a experiência

Puros incluindo o insuperável Behike (Cohiba)

Terminando a noite, vieram os Puros. Aliás, muito bem conservados e climatizados pelo anfitrião. Foram devidamente acompanhados por belos Cognacs. Paradis, um dos tops da Hennessy e Richard, uma escultura da apelação Grande Champagne, a começar pela linda garrafa. A combinação foi inenarrável. Santé pour tous!

Harmonização: Comida de Boteco

18 de Agosto de 2014

Mais um evento inédito  na ABS-SP, comida de boteco, ou buteco. As duas formas são corretas. Trata-se de estabelecimentos que fornecem comida, bebida e conversa, descompromissadas. E é nesse espírito que o vinho deve encara-los. Aqui a noção de tipologia do vinho é primordial. Não devemos propor vinhos sofisticados com este tipo de comida e neste tipo de ambiente descontraído. É como ir de traje social a um evento de rock and roll. O painel de vinhos abaixo, expressa bem este conceito.

Vinhos na faixa de R$ 50,00

O primeiro deles foi um espumante nacional (uvas Chardonnay e Pinot Noir) elaborado pelo método tradicional (tomada de espuma na própria garrafa) com contato sur lies (sobre as borras) por doze meses. Vinho leve, de muito boa acidez, e certa maciez advinda da elaboração. O segundo vinho é curiosamente um branco chileno do  vale de Elqui, elaborado com a uva Pedro Ximenez. Mostrou-se fresco, frutado e com um toque floral. Sua textura era ligeiramente mais espessa que a do espumante. Já o terceiro, o último branco, vinha do Alentejo (castas Arinto e Antão Vaz). Elaborado pelo craque Paulo Laureano (foi responsável por muito tempo pelo excepcional Mouchão), é um branco de corpo, boa textura e leve toque de madeira. No campo dos tintos, o primeiro também é um vinho do Alentejo (uvas Aragonês, Syrah, Trincadeira). Elaborado por outro mestre português, Antônio Saramago, com o curioso nome de Ilógico. É um vinho fresco, relativamente leve e de baixa tanicidade. Por último, um tinto de Ribera del Duero (uva Tempranillo) de bom corpo chamado Embocadero. Bem equilibrado, persistente, mas de notável tanicidade. O desafiante prato de petiscos está exposto abaixo:

Comidinhas gordurosas

Agora chegou a hora da verdade. Começando pela empadinha, é o único salgadinho da noite que não utiliza a técnica de fritura. Contudo, apesar de ser assada, sua massa é extremamente gordurosa. Aliada a um recheio leve e de certa acidez (palmito), o espumante saiu-se muito bem, limpando de forma eficiente a sensação gordurosa. O segundo vinho, o chileno Pedro Ximenez, também foi um bom parceiro, mas sem o brilhantismo do espumante. Os demais vinhos não emocionaram.

Passando agora para o bolinho de bacalhau, temos um outro cenário. O lado gorduroso continua, mas o sabor é bem  mais marcante e textura mais espessa. Aqui, o branco alentejano brilhou. Tinha corpo, persistência e frescor, suficientes para encarar o prato. O primeiro tinto não saiu-se mal, mas não havia sintonia de sabores.

Seguindo o sacrifício, passemos agora ao croquete de carne. A textura é semelhante ao petisco anterior, mas o recheio evoca outros sabores no vinho. Evidentemente, é um terreno mais para tintos. De fato, o primeiro tinto (Ilógico) foi o melhor, com corpo, acidez e força, compatíveis com o prato. O branco alentejano até tinha estrutura para o bolinho, porém faltava a sintonia de sabores.

Finalizando a experiência, experimentamos a coxinha. Além de grande, a proporção de massa e carne estava desbalanceada. Normalmente, há mais massa em relação ao recheio do que provamos no evento. Levando este fator em consideração, o branco chileno saiu-se melhor. Tinha textura compatível e sabores convergentes para a delicadeza do recheio (frango). Numa proporção de massa maior, o branco alentejano leva vantagem. Já o espumante não tinha textura para o prato, com a mousse sendo destruída pelo efeito massudo do petisco. 

Notem que eu não mencionei em nenhum momento o último tinto, o espanhol mais encorpado e tânico. De fato, seu corpo e principalmente, sua notável estrutura tânica, foram grandes barreiras na harmonização. Os taninos não encontraram espaço na harmonização, pois não havia suculência nos petiscos. Mesmo com o bolinho de carne, o vinho passou por cima. Embora seja um belo tinto, o mesmo precisa de pratos mais estruturados. E como sempre falamos, taninos geralmente são mais problemas que soluções.

De todo modo, valeu a experiência. Para esses tipos de petiscos, o melhor é trabalharmos com vinhos relativamente simples, frutados, de boa acidez, e de sabores e aromas não dominantes. Além disso, prestarmos atenção às texturas. Por exemplo, nesta experiência, vinhos como Chablis e Pouilly-Fumé, apesar de terem os requisitos acima, apresentam texturas muito delgadas em relação aos pratos. De resto, é testarmos com critério outras alternativas.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Arroz de Pato: Que Marravilha!

11 de Agosto de 2014

Voltando aos pratos do grande Chef Claude Troisgros no programa Que Marravilha!, vamos abordar a complexa receita do Arroz de Pato. Dá trabalho, mas vale a pena quando temos uma boa turma disposta a pratos saborosos. A foto abaixo e o link para o vídeo, ajudam na elaboração.

http://gnt.globo.com/programas/que-marravilha/videos/3315758.htm

O primeiro passo é fazer a marinada, temperar o pato e deixa-lo um bom tempo na geladeira para incorporar o tempero. Em seguida, assar o pato, desfiar a carne e separar os ossos para fazer o caldo. Tudo isso deve ser feito com antecedência. Continuado, preparar os cogumelos e reservar o respectivo caldo para ser acrescentado no caldo de pato. Neste último, teremos os miúdos do pato, o pescoço, vinho tinto e nosso caldo de cogumelos, além dos temperos. Próximo passo, fazer o arroz, puxado na gordura do pato com paio ou chouriço. Cozinhe o arroz no caldo que acabamos de mencionar. Por último, vamos preparar as frutas secas (macadâmia ou amêndoas, por exemplo), azeitonas, ervilhas, os cogumelos, adicionando o pato desfiado e o arroz já cozido. Na montagem  do prato, acrescente as castanhas portuguesas cozidas que podem fazer parte do prato, ou mera decoração.

VEJA A RECEITA: ARROZ DE PATO

Como fazer a marinada:
Ingredientes:
Tomilho, louro e alecrim picados (a gosto)
Pimenta-do-reino branca e preta (a gosto)
2 colheres (sopa) de alho picado
½ pimenta dedo-de-moça picada
Flor de sal (para decorar)
200ml de azeite extravirgem
1 colher (sopa) de urucum

Modo de preparo:
Misture tudo e reserve.

Como preparar o pato:
Ingredientes:
1 pato de 3kg
Alecrim, tomilho e louro (a gosto)
Sal e pimenta-do-reino branca moída na hora (a gosto)

Modo de preparo:
Abra o pato em dois, pelo peito. Descole a pele dos peitos e das coxas. Insira a marinada com a mão entre a pele e a carne. Acrescente alecrim, tomilho e louro no centro do pato e feche. Coloque o pato dentro de um saco de assar, feche e deixe marinar na geladeira durante 6 horas. Asse dentro do saco de assar durante 3 a 4 horas, a 110ºC, com o peito para baixo. Retire o saco de assar e desfie a carne sem pele. Guarde os ossos para o caldo e reserve também a gordura.

Como fazer os cogumelos:
Ingredientes:
150g de funghi porcini seco
8 cogumelos de Paris grandes
4 cogumelos shitake

Modo de preparo:
Ferva água e coloque os cogumelos de Paris e os shitakes para cozinhar durante 5 minutos. Retire e coloque os funghi porcini, deixando cozinhar durante 10 minutos. Retire e reserve.

Como fazer o caldo:
Ingredientes:
1 cenoura
1 cebola
2 talos de aipo
Ossos, pescoço, fígado, asas e moela do pato
Zimbro picado
500ml de vinho tinto português
½ pimenta dedo-de-moça fatiada
Tomilho, louro e alecrim (a gosto)
Flor de sal (a gosto)

Modo de preparo:
Esquente bem uma panela com azeite. Coloque os ossos, o pescoço, o fígado, as asas e a moela de pato com os legumes e as ervas para tostar nessa panela. Deglacear com vinho tinto e cobrir com o caldo de cogumelos, temperando com um pouco de flor de sal. Junte com a pimenta dedo-de-moça e o zimbro. Deixe cozinhar 20 a 30 minutos e depois, peneire.

Como fazer o arroz:
Ingredientes:
1 colher (sopa) de gordura do pato guardada
300g de chouriço espanhol em rodelas.
½ cebola picada fina
1 cebola em cubos
3 xícaras de arroz parboilizado
Sal, pimenta-do-reino (a gosto)

Modo de preparo:
Numa panela de barro, refogue o chouriço na gordura de pato. Junte as cebolas e deixe suar mais. Coloque o arroz e deixe tostar um pouco. Cubra com o caldo de cogumelos, ferva e cozinhe até ficar al dente, durante 15 minutos.

Como preparar os legumes:
150g de noz de macadâmia
Cogumelos fatiados (porcini, Paris e shitake)
2 dentes de alho picados
Salsa picada
15 azeitonas pretas portuguesas (sem caroço)
300g de ervilha fresca
Cebolinha picada (a gosto)
Sal e pimenta-do-reino (a gosto)

Modo de preparo:
Toste as macadâmias no azeite e reserve. Puxe no azeite quente os cogumelos cozidos e tempere. Coloque o alho, a salsa e a cebolinha e deixe suar mais. Junte o pato desfiado, as ervilhas e as azeitonas.

Toque final:
Ingredientes:
20 castanhas portuguesas já cozidas
Folhas de salsa
Azeite extravirgem

Modo de preparo:
Misture os legumes e a macadâmia tostada com o arroz. Verifique os temperos e enforme. Desenforme no prato e regue com azeite. Decore com as folhas de salsa e castanhas portuguesas.

Depois de todos esses procedimentos, ingredientes e temperos diversos, vamos aos vinhos. A primeira opção natural é sempre pelos vinhos regionais. Como a receita é do norte de Portugal, os vinhos do Douro são os mais lembrados. De fato, são vinhos de bom corpo, sabores acentuados, frescor no ponto para o lado gorduroso do prato, e taninos presentes para a suculência do mesmo. A passagem por madeira e uma certa evolução aromática (aromas terciários) com alguns anos de adega, encontra eco nos sabores defumados e tostados, além da presença dos cogumelos e das frutas secas. Os tintos do Dão podem ser a segunda opção. Embora tenham bom frescor, tendem a ser mais elegantes e sutis, talvez carecendo de alguma potência para os sabores do prato. Já os tintos alentejanos, costumam ter corpo para a harmonização, mas faltam-lhes o frescor, tornando o conjunto um pouco pesado.

Saindo de Portugal, o vizinho ibérico, Espanha, tem em Ribera del Duero seu maior aliado. São vinhos de corpo e com bom frescor. Já o lado de Rioja, acaba tendo as mesmas considerações da região portuguesa do Dão, exceto os Riojas mais modernos, de mais corpo e potência.

Italianos da região toscana podem ter sucesso na harmonização, sobretudo um autêntico Brunello di Montalcino em estilo mais clássico, com algum envelhecimento em garrafa. Dos tintos sulinos, um bom Taurasi (tinto com a uva Aglianico) da Campania é uma opção interessante. Embora a latitude não favoreça, a altitude dos vinhedos imprimem boa amplitude térmica, culminando em vinhos de boa acidez.

Do lado francês, as melhores opções são do sul do Rhône. Tintos da apelação Vacqueyras ou Gigondas costumam apresentar boa estrutura e uma certa rusticidade, no bom sentido da palavra, para o prato em questão. Os tintos do norte como Côte Rôtie e Hermitage podem ter algumas inconveniências. O primeiro é muito elegante para o prato, e o segundo, muito tânico e estruturado. Já os tintos provençais calcados na cepa Mourvèdre como a apelação Bandol, por exemplo, podem ser bem interessantes.

Para o Novo Mundo, as opções de tintos com corpo e estrutura são fartas, mas a falta de frescor  na maioria deles costuma ser o maior inconveniente. Malbecs ou cortes argentinos das zonas mais altas de Mendoza podem ser interessantes, por exemplo, Valle de Uco (Tupungato). Alguns Syrahs do Chile em zonas mais temperadas com boa amplitude térmica (Vales de Elqui e Leyda) são outras opções. Tintos de corte bordalês da Nova Zelândia, sobretudo da Ilha Norte (Hawke´s Bay), é mais uma bela alternativa. Do lado australiano, Shiraz ou Cabernet de Coonawarra, são vinhos de presença e bom frescor, fugindo dos padrões clássicos deste país.

Depois de tudo isso, resta testar as opções, ou seja, razões não faltarão para inúmeras repetições desta saborosa receita. Para aqueles que desejam evitar a complexidade da receita, os bons restaurantes portugueses facilitam o trabalho em busca da melhor harmonização. Bom apetite!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Principais Uvas Européias

15 de Abril de 2013

Estudos recentes mostram o panorama atual do vinhedo europeu, destacando-se os principais países como Espanha, França e Itália. O quadro abaixo mostra as principais uvas plantadas em milhares de hectares. 

Uvas espanholas no topo da lista

Para quem já sabia, a uva branca espanhola Airén reina absoluta no vinhedo espanhol, sobretudo nas regiões de La Mancha e Valdepeñas. Embora com produção bem mais modesta que de outros tempos, ainda se presta para vinhos baratos,  para misturas com outras castas, e também para destilação na elaboração de Brandies, inclusive no famoso Brandy de Jerez. Esta uva sozinha apresenta o dobro de área plantada de toda a Alemanha.

Outra espanhola no topo da lista é a onipresente Tempranillo. Com vários sinônimos por toda a Espanha, ganhou fama e prestígio sobretudo nas regiões de Rioja e Ribera del Duero. Nos últimos tempos, ganhou força nas regiões de La Mancha e Castilla y Léon.

A Merlot continua sendo a grande tinta francesa, inclusive na região de Bordeaux, embora a Cabernet Sauvginon tenha sua força. Aliás, estas duas castas bordalesas ganham prestígio na Itália, principalmente na região da Toscana com os famosos e badalados supertoscanos.

A Grenache ou Garnacha divide sua fama entre Espanha e França. Belos exemplares espanhóis são elaborados com vinhas velhas, enquanto do lado francês, o Rhône Sul e Languedoc respondem por sua expansão.

A insípida Trebbiano ou Ugni Blanc vem caindo cada vez mais em território italiano. Do lado francês, o firme cultivo está baseado no grande destilado do país, o todo poderoso Cognac.

Dentre as tintas italianas, a Sangiovese continua absoluta não só na Toscana, bem como em toda a Itália Central. Emilia-Romagna e Marche principalmente, são regiões de grande cultivo.

Pinot Noir e Gamay fecham a lista em disputa acirrada não só na Borgonha, berço das duas cepas, como em várias apelações no vale do Loire.

Harmonização: Fraldinha com Ervas

15 de Novembro de 2012

Fraldinha, também chamada de vazio no sul do país, é uma carne nobre que está na moda. É saborosa, baixo teor de gordura e relativamente barata dentre os cortes mais badalados. Esta receita, dada abaixo pelo craque Istvan Wessel, leva uma taça de vinho tinto e muitas ervas frescas aromáticas.

Bela receita de frigideira

Para a harmonização, a primeira dica já é dada pela receita que incorpora vinho tinto. A despeito deste fato, carne vermelha sempre pede vinho tinto, embora alguns “experts” insistam em vinho branco. Pode não comprometer, mas garanto que fica bem sem graça a suposta combinação.

Voltando ao nosso vinho tinto, alguns fatores precisam ser considerados. A presença das ervas traz um sabor marcante ao prato, enquanto o alho e a cebola, principalmente em quantidades mais exageradas, pedem vinhos com certa rusticidade no bom sentido da palavra. A carne em si, apresenta baixo teor de gordura, boa fibrosidade e suculência, sobretudo se elaborada ao ponto. Portanto, a acidez do vinho não precisa ser marcante, mas a tanicidade é bem-vinda, já que os taninos são enxugados pela salivação induzida. Neste contexto, vinhos do mediterrâneo são as primeiras opções. Pode ser o provençal Bandol, elaborado com a uva Mourvèdre. Tintos do Languedoc baseados em Syrah e Carignan. Um tinto italiano sulino com a uva Aglianico (Campania e Basilicata têm bons exemplares). Um toscano com predomínio de Sangiovese (seu sabor combina muito bem com ervas), complementado com Cabernet Sauvignon (tanicidade) e Merlot (quebrando um pouco a acidez da Sangiovese). Tempranillo da região espanhola de Toro (vizinha à Ribera del Duero) com rusticidade adequada. Enfim, vinhos de boa tanicidade, acidez moderada e um toque de especiarias e ervas.

Do Novo Mundo, um bom Cabernet Sauvignon ou Carmenère chilenos, um Tannat uruguaio menos impactante cortado com Merlot. Cortes bordaleses da África do Sul ou um idiossincrático Cabernet Sauvignon australiano de Coonawarra, são também boas opções.

Corte correto: contras as fibras

De qualquer modo, a receita é deliciosa, prática e permite muitas opções de harmonização. Cada um certamente, encontrará seu vinho favorito. Bon appétit!

Outras harmonizações igualmente deliciosas envolvendo cortes de carne estão neste mesmo blog. Procure por contra-filé e também carré de cordeiro .

Harmonização: Feijão-Tropeiro

17 de Setembro de 2012

Prato substancioso da cozinha interiorana de São Paulo, Goiás e Minas Gerais, implantado pelos bandeirantes no desbravamento destas  terras em busca de riquezas. Ingredientes que podiam ser levados nas viagens a cavalo sem grandes preocupações e cuidados.

Recompensa após longa jornada

Baseado em feijão (não o preto), farinha de mandioca, lombo de porco, torresmo, linguiça e muito tempero (ervas, cebola, alho, …), é um prato para o trabalho duro. Acompanhamentos como arroz branco e ovos são bem tradicionais.

Para a harmonização, vinhos de bom corpo, boa acidez e passagem por madeira, são belos parceiros para este tipo de prato. Bom corpo porque o prato tem volume e sabor marcante, acidez para combater a gordura dos ingredientes, e sabores amadeirados para fazer eco aos toques defumados da carne de porco. Estamos falando de tintos, mas se a opção for branco, o clássico Chardonnay com amadurecimento em barrica pode fazer frente ao prato. Evidentemente, não um fino borgonha. Qualquer bom Chardonnay do Novo Mundo cumpre bem a missão.

Voltando aos tintos, penso num bom Barbera Barricato, com acidez e toques empireumáticos adequados. Um Shiraz do Novo Mundo não muito dominador, com seus toques defumados e de especiarias, além da rica fruta. E por que não um Tempranillo de Ribera del Duero? ou melhor ainda de Toro, com a rusticidade na medida certa para este prato campestre. Vinhos vigorosos, sem grandes sofisticações, de bom frescor e adequadamente marcados pela madeira, são as armas adequadas para este substancioso prato. Para ficar bem brasileiro, os bons Merlots da serra gaúcha podem impressionar a contento estrangeiros que queiram conhecer nossa enogastronomia.

Harmonização: Queijo Manchego

9 de Julho de 2012

O mais emblemático queijo espanhol produzido em boa parte de La Mancha, região central e árida da Espanha. Juntamente com o Roquefort (França) e Serra da Estrela (Portugal), forma a trilogia dos mais famosos queijos de leite de ovelha. Evidentemente, as condições de terroir permitem uma textura mais rija em La Mancha, região seca e árida, e mais cremosa, na fria e úmida região de altitude em Serra da Estrela, já comentada em recente artigo anterior.

Selo de origem com a figura de Don Quixote

Dentro de uma área de aproximadamente quatro milhões e meio de hectares, compreendida nas províncias de Albacete, Ciudad Real, Cuenca e Toledo, um enorme rebanho de ovelhas da raça manchega, adaptada há séculos neste clima inóspito, fornece a matéria-prima ideal para elaboração deste prestigioso queijo enquadrado na categoria DOP (Denominacíon de Origen Protegida) desde 1996. Maiores detalhes, consultar site do Conselho Regulador (www.quesomanchego.es).

Depedendo do processo de cura, o queijo adquire sabores e textura diversos e consequentemente, harmonizações distintas. Começando pelo Manchego Fresco, maturado somente por duas semanas, é produzido em quantidades mínimas e dificilmente encontrado fora de sua região de origem. Já o Manchego Curado, o de maior produção, matura entre três e seis meses geralmente, lembrando um delicado aroma de nozes. Por fim, o intenso Manchego Viejo, maturado entre um e dois anos, com aromas mais pungentes e picantes.

Zona Amparada de la D.O.

 

 

 

 

 

 

 

 

Zona de Produção

Para o Manchego Fresco, dificilmente encontrado, um Rioja Blanco baseado na uva Viura (também conhecida como Macabeo) pode ser interessante. Até a categoria Crianza, onde o vinho tem um contato relativamente curto com a madeira (geralmente seis a oito meses), o vinho apresenta força e acidez suficientes para enfrentar o queijo e sua gordura mais evidente e levemente cremosa. Um Chardonnay com leve passagem por madeira surte o mesmo efeito.

No caso do Manchego Curado, se a opção for ainda um branco, podemos optar por um Rioja Reserva ou Gran Reserva, observando a calibragem de aromas e sabores entre vinho e queijo. Neste caso, a preferência são por tintos de categoria Reserva ou Gran Reserva tanto de Rioja, como de Ribera del Duero. O importante é que o vinho tenha força suficiente e taninos bem moldados. Opções de outros países como Itália, Portugal ou França; podem ser Chianti Clássico Riserva, Douro Reserva ou Bandol envelhecido (tinto marcante da Provença), respectivamente. Uma outra bela opção é um Jerez Amontillado ou um raro Manzanilla Pasada (Manzanilla com notas oxidativas). A importadora Mistral (www.mistral.com.br) tem um ótimo da Bodega Hidalgo.

Por fim, o potente Manchego Viejo pede vinhos de muita personalidade. Jerez Oloroso pode ser sublime. Outros fortificados da península ibérica cumprem bem a missão a exemplo de um Madeira Verdelho ou um Porto Tawny 20 anos. Se a opção for por tintos, reserve os mais potentes com bom grau de envelhecimento, como os grandes Amarones.

 

O Mito Vega-Sicilia: Parte II

22 de Março de 2012

A foto abaixo faz parte de uma vertical de Vega com muitas das melhores safras deste grande vinho. Por ordem cronológica, os anos foram: 1942, 1964, 1967, 1968, 1970, 1975, 1982, 1989, 1991, 1994, 1998, 2000 e um Reserva Especial com a mescla das safras 91, 94 e 98.

As safras de 1975, 1989 e 1998

A degustação foi conduzida em quatro módulos, começando com os mais evoluídos, seguidos dos mais maduros, continuando com os mais emblemáticos e finalizando com os mais jovens. Como sempre, muita polêmica quanto às safras, com alguns preferindo os mais jovens, mais modernos e mais robustos. Outros, reverenciando o estilo tradicional de safras mais antigas, com elegantes toques oxidativos.

Pessoalmente, a degustação agradou bastante, provando que o Vega é um dos grandes vinhos do mundo, tendo lugar cativo nas melhores adegas. A safra 1942 com setenta anos foi o Vega mais elegante e um dos mais expansivos em boca. Não é a toa que é a preferida de Parker com 98+ pontos. Alguns sinais da idade, mas ainda bastante prazerosa.

Outro destaque foi a safra de 1968 com 98 pontos de Parker. Ainda bastante robusta pela idade, com taninos presentes, vigor surpreendente, merece lugar de destaque entre todos os Vegas. A safra de 1970, degustada há muitos anos, voltou a impressionar mais uma vez. Vinho hedonista, aromas de torrefação, madeira integrada, macio, muito equilibrado e finamente bem acabado.

A safra de 1967, sem nenhuma referência na literatura, inclusive de Parker, surpreendeu favoravelmente. Não é potente, nem muito expansivo, mas esbanja elegância com extremo equilíbrio e final muito bem delineado. Uma grata surpresa.

Os Vegas mais novos, principalmente a partir de 1991, ainda são adolescentes, com uma vinificação mais moderna, taninos mais marcados, e mais potentes, porém sem perder a elegância. Demonstram um futuro promissor.

Todas essas considerações além de pessoais, envolvem a experiência, o gosto pela pluralidade dos vinhos e o respeito por ícones que mexem com o imaginário dos apaixonados por vinho. Portanto, as opiniões sobre estas safras sempre têm um fundo de incerteza e subjetivismo. Afinal, em safras antigas, não existem grandes anos. Existem grandes garrafas!

O Mito Vega-Sicilia: Parte I

19 de Março de 2012

Existem certos vinhos que dispensam apresentações. Estão acima até mesmo, da própria denominação de origem, fator chave para disciplinar os vários terroirs em regiões européias. Hugh Johnson em seu famoso Atlas, menciona a correlação e importância do Vega-Sicilia para Ribera del Duero, assim como Biondi-Santi para Montalcino, na Toscana.

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Uma das minhas safras preferidas

 Tudo que Ribera del Duero amealhou nestas últimas décadas, principalmente em seu trecho mais nobre denominado a “milha de ouro” (vide artigo neste blog – Terroir: Ribera del Duero), tem como lastro o famoso e mítico Vega-Sicilia, um vinho para heróis, lembrando mais uma vez o escritor inglês acima mencionado.

 A história deste mito é riquíssima e controversa, principalmente quanto às primeiras safras. Oficialmente em seu site, fala-se em 1917. Mas acima disto, estão os detalhes deste terroir, desde as vinhas muito antigas e bem trabalhadas, até o requinte em sua vinificação e amadurecimento. Os espanhóis que dominam a arte da barrica, no grande Vega superam-se, provocando uma lenta micro-oxigenação e por conseguinte, fornecendo condições para um prolongado envelhecimento em garrafa.

 A área de plantio soma em torno de 250 hectares de vinhas com idade distintas de 30, 60 e algumas com mais de 100 anos. O replantio é criterioso, sendo somente as vinhas mais antigas e perfeitamente adaptadas ao terroir, destinadas à elaboração do grande vinho. As podas são severas e o rendimento por parreira muito baixo, em torno de 22 hectolitros por hectare.

 Um Vega passa em média 10 anos na bodega, com sucessivas passagens por barricas de idades, tipos e tamanhos diferentes, buscando sempre uma perfeita integração entre vinho e madeira, culminando num longo envelhecimento em garrafa por pelo menos três anos antes da comercialização. Além de possuir sua própria tanoaria, a madeira de carvalho americano é escolhida e tratada com muito cuidado, com secagem natural por pelo menos três anos. Modernamente, o Vega passa menos tempo em madeira e mais em garrafa, sendo a participação de barricas francesas um fator marcante.

 A modernidade também trouxe modificações no corte do vinho. Nas safras mais antigas, a Tinto Fino (nome local da Tempranillo) participava em média com 70%, a Cabernet Sauvignon (20%) e outras uvas como Malbec, Merlot, Garnacha e a branca local Albillo, completavam o corte em porcentagens variáveis. Atualmente, o Vega-Sicilia Único apresenta 80% com Tinto Fino e 15 a 20% com Cabernet Sauvignon.

 Todas essas modificações são feitas de forma lenta e gradual, preservando sempre a essência deste grande terroir. Os vinhos atuais são mais robustos e menos oxidativos, respeitando o gosto atual. Contudo, sem perder sua classe e elegância. A propósito, nos Vegas mais antigos temos como marca registrada, uma pontinha de acidez volátil por conta dos métodos de vinificação e amadurecimento da época. Nosso grande Hugh Johnson resolveu o problema sentenciando: “Quando um vinho é tão soberbo quanto este, dane-se a acidez volátil!”.

Harmonização: Contrafilé

26 de Setembro de 2011

Já comentamos em artigos anteriores a harmonização de carnes vermelhas com vinho tinto (vide artigo sobre churrrasco, por exemplo). É uma harmonização clássica e quase intuitiva. Entretanto, hoje vamos especificar dois cortes famosos de carne bovina, extremamente apreciados em churrascarias e restaurantes especializados. Conforme fotos abaixo, a primeira é o bife ancho (corte argentino) ou a bisteca do contrafilé. A segunda é o bife de chorizo (corte argentino) ou centro do contrafilé.  

Cortes de uma mesma peça

Na verdade, são cortes de uma mesma peça chamada contrafilé, só que em extremidades opostas. Portanto, são carnes diferentes quanto à textura, teor de gordura e fibrosidade, proporcionada pela musculatura e irrigação sanguínea do animal. Ambas ficam muito boas feitas numa frigideira de fundo espesso, além evidentemente da grelha ou churrasqueira.

O bife de chorizo, parte mais próxima do traseiro do animal, é uma carne mais compacta, menos gordurosa e menos macia que o bife ancho, porém igualmente saborosa. Aqui podemos pensar em tintos com maior estrutura tânica, que deve agir com mais propriedade frente à suculência e fibrosidade da carne. Vinhos com as castas Cabernet Sauvignon, Tannat e Petit Verdot são extremamente apropriados.

No caso do bife ancho, uma carne com mais gordura, inclusive gordura marmorizada, é mais macio. Com isso, podemos continuar com vinhos relativamente tânicos, porém com um componente de acidez mais presente, frente à gordura intrínseca da carne. Neste caso, tintos italianos com base na casta Sangiovese (Toscana) ou Tempranillos de Ribera del Duero, podem harmonizar muito bem. Supertoscanos, Brunellos e belos Chiantis Classicos como Castello di Ama (importadora Mistral) e Fontodi Vigna del Sorbo (Mistral) são grandes pedidas. Aqui não valem os Chiantis simples, por faltar corpo e estrutura. A propósito, estes são também as casamentos clássicos da famosa Bistecca alla Fiorentina, que apresenta componentes de harmonização semelhantes ao Bife Ancho.

O importante é percebermos que quando o teor de gordura intrínseca à carne aumenta, há necessidade de maior acidez do vinho, sem que os taninos sejam tão evidentes.

Veja a aula do grande István Wessel no vídeo abaixo:

 http://mais.uol.com.br/view/690617