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Mission quase Impossível!

19 de Dezembro de 2018

Muito se fala da reclassificação dos Chateaux em Bordeaux. Afinal, muita coisa mudou do fim do século XIX para cá. Um dos chateaux mais reivindicados para ocupar a posição de Premier Grand Cru Classé é o Chateau La Mission Haut Brion. Embora seja um chateau de Graves, mais especificamente de Pessac-Léognan, fica difícil manter só o Haut Brion, seu rival vizinho, como exceção na lista dos grandes do Médoc.

Nesta degustação que iremos comentar a seguir, fica mais uma vez provado, sua extrema qualidade, tradição, e consistência, safra após safra. As semelhanças de solos e da própria composição do corte bordalês, o deixa em pé de igualdade com o grande Haut Brion, embora a diferença de estilo entre os dois seja marcante. Segundo a crítica especializada, inclusive Parker, La Mission Haut Brion tem um estilo mais potente que seu arquirrival Haut Brion com maior estrutura tânica, sobretudo.

chateau la mission e haut brion

parte do La Mission colada em Haut Brion

Esclarecendo o mapa acima, Chateau La Tour Haut Brion era um chateau independente ligado ao La Mission. E assim, até 2005, sua última safra, foi considerado tradicionalmente como segundo vinho do La Mission. A partir de 2006, deixa de existir La Tour Haut Brion para ser nomeado o Chateau La Chapelle La Mission Haut Brion como segundo vinho do La Mission.

Chateau La Mission Haut Brion

Área de vinhas tintas: 25,44 ha (48% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot e 11% Cabernet Franc). 5000 a 5600 caixa por ano. 100% carvalho novo com 22 meses de maturação.

Área de vinhas brancas: 3,74 ha (63% Sémillon e 37% Sauvignon Blanc). 550 a 650 caixas por ano. 100% carvalho novo de 13 a 16 meses de maturação. Vale lembrar que a partir de 2009 passamos a ter o La Mission Haut Brion Blanc, até então conhecido como Laville Haut Brion.

Feitas as devidas considerações, vamos aos flights degustados, mostrando características de safra e sua evolução em garrafa, principalmente em anos mais antigos. De modo geral, os vinhos surpreenderam muito em termos de conservação e longevidade. A década de 70 por exemplo, apresentou vários anos abaixo da média com notas desanimadores para a maioria dos chateaux. Com exceção da safra 69 com problemas de rolha afundada e entrada de ar na garrafa, além da oxidação do grande 75, os demais apresentaram um desempenho bastante satisfatório.

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La Mission 68, plenamente evoluído, mas sem sinais de oxidação. As safras 72 e 80 apresentaram um pouco mais de extrato e meio de boca, embora também já plenamente evoluídas. O 69 apresentou problemas nesta garrafa, conforme descrito acima. Começo animador!

fazenda sertão la mission 73 77 84flight 2

Um flight que poderia ser catastrófico, mostrou-se com muita consistência, embora com vinhos plenamente evoluídos. O La Mission 73 abaixo da média, mas o 74 surpreendeu pela elegância. O 77 e 84 se portaram muito bem, de acordo com as expectativas das safras. O 74 não aparece na foto.

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No flight acima, muito equilíbrio. Embora sem nenhum grande vinho, eles estavam corretos e plenamente evoluídos. 67 e 70, um pouco abaixo em termos de concentração. O 76 surpreendeu positivamente numa safra crítica. Por fim, o 81 um pouco acima dos outros, mais estruturado e vigoroso.

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É lógico que neste flight, a superioridade da dupla 78 e 85 foi marcante. La Mission 66 ainda com aromas deliciosos, embora bastante frágil nesta altura da vida. La Mission 78 tem uma estrutura impressionante. Parece não sentir o peso da idade com taninos poderosos. Já o 85, mais prazeroso, com menos arestas e aromas de grande finesse com toques terrosos e de estrabaria. Um salto considerável na degustação.

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Este flight só não se equiparou com o anterior porque o La Mission 75 estava oxidado, uma pena. A safra 79 bastante agradável, mas a dupla 82 e 83 se destacaram para encerrar a degustação. O La Mission 82 foi o mais próximo do monstruoso 78 com muita estrutura e vigor. Seus taninos são de uma textura incrível. O La Mission 83 embora delicioso e muito bem equilibrado, foi eclipsado pelo 82 bem a seu lado. De todo modo, um belo vinho.

IMG_5434o rival chegou para o almoço

Para enfrentar 20 safras de La Mission, o rival Haut Brion precisou apresentar-se no formato Imperial com a safra inquestionável de 1998. Apesar de mais jovem do que a média degustada dos La Mission, o vinho estava esplendoroso com 99 pontos Parker. No momento, tem muita fruta, muitos taninos finíssimos, e todo o perfil aromático dos grandes Haut Brion. Mesmo com 20 anos de idade, tem vigor de sobra para mais 20 anos em adega. Sem dúvida, será um dos grandes Haut Brion da história deste belíssimo Chateau.

recordando Babette …

No preâmbulo do almoço, foi servido um autêntico Caviar Beluga, impecavelmente fresco, fazendo par e à altura do champagne Cristal 2009, nota 95+ Parker. Aromas e texturas se fundiram perfeitamente, num final limpo e de grande frescor. Não sei o caviar, mas o champagne melhorou muito em relação ao filme …

fazenda sertao la mission 66 a 75La Mission Ato 1

Acima e abaixo, fotos da turma. Muito interessante esta experiência de uma vertical longa, passando pelas décadas de 60 ,70, e 85. Os vinhos foram decantados perto do momento da degustação, exceto safras como 75, 78, 82 e 85, abertas com mais antecedência, devido ao vigor das mesmas.

fazenda sertao la mission 76 a 85La Mission Ato 2

Fechamos o ano em alto estilo, confirmando o viés francófilo desta turma. Safras garimpadas com muita dedicação e conhecimento, procurando garrafas de ótimo estado e procedência segura. O nível de vinho nas garrafas surpreendeu positivamente e não tivemos nenhum bouchonné. 

um fantasma apareceu!

No apagar das luzes, eis que surge um Madeira 1880. Que elegância, que equilíbrio, que profundidade. Um Terrantez, uva praticamente extinta na ilha, provando que esses vinhos são realmente imortais. Eu não acredito em bruxas, mas elas existem …

Agradecimentos sinceros pela presença e generosidade de todos ao longo do ano, e em especial ao anfitrião, que nos recebeu com muito carinho, cuidando de todos os detalhes. Que venha 2019 com muita força, capaz de superar um ano tão intenso como 2018. Boas Festas a todos!

Degustação Vertical: Critérios

27 de Agosto de 2012

Degustar vinhos é a principal atividade de um enófilo de carteirinha. Sendo assim, as degustações espalham-se ao longo de todo o ano, através de importadoras, lojas especializadas, restaurantes, eventos dirigidos, associações e confrarias. Uma das mais badaladas  é a chamada Degustação Vertical,  que nada mais é do que provar um mesmo vinho em várias safras diferentes. O glamour de uma vertical está associada ao calibre do vinho. Ninguém faz uma vertical séria com vinhos comuns, pois os mesmos não apresentam condições estruturais para um bom envelhecimento.

Safras enfileiradas de um mesmo vinho

Neste sentido, a responsabilidade da ordem dos vinhos aumenta  de acordo com a importância do vinho degustado. A idéia é sempre não ofuscar o vinho seguinte da sequência, respeitando as características intrínsecas às safras. O comodismo de degustar em ordem cronológica crescente ou decrescente e mesmo até às cegas, formando uma sequência aleatória, pode comprometer seriamente a degustação, penalizando vinhos elegantes e delicados, sobretudo.

Para evitar estas situações, é necessário um conhecimento prévio e histórico do vinho em questão e as características principais e particularidades de cada safra. Nos grandes vinhos é comum termos safras mais potentes, diferenciadas, apesar da idade dos mesmos. A precocidade de algumas safras é um fator extremamente importante na ordem dos vinhos. A estrutura tânica, bem como a característica de latência de determinadas safras, apontam para uma decantação mais prolongada afim de avaliarmos melhor o vinho, mesmo ainda não atingindo seu platô ideal.

Como exemplo, vamos pensar numa degustação vertical de um grande Château de Bordeaux entre as safras de 1976 e 1985. São vinhos antigos, evoluídos, com mais de 30 anos. Salvo alguma particularidade de alguns châteaux específicos, vamos tentar montar uma sequência lógica entre as safras. Sabemos que 76, 77, 79, 80 e 84 não foram grandes safras. Portanto, estes vinhos devem estar decadentes, ou extremamente evoluídos e frágeis. As safras de 78, 81 e 83 foram relativamente boas, mas sem o brilho dos anos míticos. Já as safras de 85 e principalmente 82 foram acima da média, com alguns vinhos espetaculares. Portanto, para que possamos usufruir e valorizar todos os detalhes e nuances de cada safra, respeitando suas peculiaridades, poderíamos começar com o primeiro grupo de vinhos bem delicados, seguido pelas safras de 78, 81 e 83, com um pouco mais de extrato e riqueza aromática, culminado com as safras de 85 e 82 nesta sequência. Apesar de 82 ser uma safra mais antiga, sua riqueza e singularidade sobrepujam até mesmo o belo ano de 85.

Em resumo, o importante é proporcionarmos condições ideais de uma degustação em conjunto, sem que qualquer uma das safras seja prejudicada sensorialmente, em detrimento de uma sequência mal elaborada. É como se você pudesse degustar cada safra isoladamente, tendo as mesmas sensações ou impressões de degustá-la numa sequência, ou seja, sem interferências dos vinhos antecedentes.

O Mito Vega-Sicilia: Parte II

22 de Março de 2012

A foto abaixo faz parte de uma vertical de Vega com muitas das melhores safras deste grande vinho. Por ordem cronológica, os anos foram: 1942, 1964, 1967, 1968, 1970, 1975, 1982, 1989, 1991, 1994, 1998, 2000 e um Reserva Especial com a mescla das safras 91, 94 e 98.

As safras de 1975, 1989 e 1998

A degustação foi conduzida em quatro módulos, começando com os mais evoluídos, seguidos dos mais maduros, continuando com os mais emblemáticos e finalizando com os mais jovens. Como sempre, muita polêmica quanto às safras, com alguns preferindo os mais jovens, mais modernos e mais robustos. Outros, reverenciando o estilo tradicional de safras mais antigas, com elegantes toques oxidativos.

Pessoalmente, a degustação agradou bastante, provando que o Vega é um dos grandes vinhos do mundo, tendo lugar cativo nas melhores adegas. A safra 1942 com setenta anos foi o Vega mais elegante e um dos mais expansivos em boca. Não é a toa que é a preferida de Parker com 98+ pontos. Alguns sinais da idade, mas ainda bastante prazerosa.

Outro destaque foi a safra de 1968 com 98 pontos de Parker. Ainda bastante robusta pela idade, com taninos presentes, vigor surpreendente, merece lugar de destaque entre todos os Vegas. A safra de 1970, degustada há muitos anos, voltou a impressionar mais uma vez. Vinho hedonista, aromas de torrefação, madeira integrada, macio, muito equilibrado e finamente bem acabado.

A safra de 1967, sem nenhuma referência na literatura, inclusive de Parker, surpreendeu favoravelmente. Não é potente, nem muito expansivo, mas esbanja elegância com extremo equilíbrio e final muito bem delineado. Uma grata surpresa.

Os Vegas mais novos, principalmente a partir de 1991, ainda são adolescentes, com uma vinificação mais moderna, taninos mais marcados, e mais potentes, porém sem perder a elegância. Demonstram um futuro promissor.

Todas essas considerações além de pessoais, envolvem a experiência, o gosto pela pluralidade dos vinhos e o respeito por ícones que mexem com o imaginário dos apaixonados por vinho. Portanto, as opiniões sobre estas safras sempre têm um fundo de incerteza e subjetivismo. Afinal, em safras antigas, não existem grandes anos. Existem grandes garrafas!


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