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Descorchados: Impressões Finais

16 de Abril de 2017

Prosseguindo com o evento Descorchados, não foi possível degustar todos os vinhos. Na verdade, faltaram muitos. De qualquer modo, dando uma última pincelada, vamos aos comentários finais.

Espumantes brasileiros

Além obviamente da Cave Geisse, vinícola comentada em artigo anterior, temos de destacar os espumantes da vinícola Décima, Pizzato e Casa Valduga, com vinhos bem equilibrados e uma linha ampla de escolhas. Pizzato e Décima, nem sempre são vinhos fáceis de encontrar. Já a Casa Valduga, tem normalmente uma distribuição mais pulverizada.

Argentina

Como falar da Argentina sem falar em Catena. Esta vinícola pioneiramente colocou o país no mapa dos grandes vinhos do mundo. Além disso, ao longo do tempo não se acomodou, continuou e continua trazendo belas novidades como os dois brancos abaixo.

descorchados catena brancos

a expressão do terroir

A foto acima mostra dois brancos do vinhedo Adrianna, uma espécie de Grand Cru argentino no Valle de Uco, mais especificamente em Gualtallary a 1450 metros de altitude. São duas parcelas de pouco mais de dois hectares cada uma, lado a lado com solos morfologicamente formado por pedras diversas. O vinho da esquerda, White Bones, apresenta na composição de solo, fósseis marinhos junto ao calcário, transmitindo uma particular mineralidade. Já o da direita, é rico em pedras calcárias ovaladas, também aportando mineralidade. Embora os dois passem por barricas francesas e tenham o mesmo trabalho de bâtonnage, White Bones é mais gracioso, flutua mais em boca, pendendo para um estilo mais feminino. Do outro lado, White Stones mostra mais densidade, embora com equilíbrio fantástico. Questão muito mais de gosto pessoal do que preconizar superioridade de um, ou de outro. Esses brancos foram pontuados acima de 95 pontos, safra 2013 para ambos.

descorchados nicolas catena

Um dos grandes Cabernets argentinos

Muita gente toma este vinho pensando tratar-se de um Malbec. Ledo engano, aqui temos 80% Cabernet Sauvignon e 20% Malbec de quatro vinhedos distintos e mais de 200 micro vinificações. O Cabernet em sua maioria vem de Agrelo dando força e estrutura. Já o Malbec e parte do Cabernet vem de Valle de Uco dos distritos de Gualtallary, Villa Bastias e La Consulta com altitudes entre 1000 e 1400 metros. Estas parcelas transmitem um frescor incrível ao vinho. A fermentação em barricas de carvalho francesas, além do amadurecimento nas mesmas por 24 meses amaciam e integram os taninos de uma maneira muito harmoniosa com a fruta. Persistente, estruturado e com grande poder de guarda. Um clássico.

destaques no Valle de Uco

O vinho da esquerda é um Malbec bem temperado com Cabernet Sauvignon (25%) e Cabernet Franc (5%) na zona de Altamira, pela bodega Chakana. Os Cabernets lhe dão a estrutura sem tirar a essência da Malbec e o incrível frescor deste terroir frio do Valle de Uco. Fruta com vibração. No vinho da direita, Ayni, topo de gama da vinícola, é um Malbec mastigável com muita estrutura e frescor. Seu solo em Altimira apresenta calcário ativo, refletido de maneira inequívoca no caráter do vinho. 95 pontos pelo guia Descorchados.

descorchados enemigo

referência em Cabernet Franc

Com 85% Cabernet Franc e 15% Malbec, este tinto honra a tradição de Agrelo, zonal alta do rio Mendoza. Com poucos meses em toneis grandes de madeira, apenas para micro-oxigenar  o vinho, este tinto apresenta toda a elegância da Cabernet Franc com a graciosa fruta da Malbec. O talento do enólogo Alejandro Vigil é refletido em todos seus vinhos por sua paixão, sobretudo pela Cabernet Franc.

Chile

Neste passeio pelo Chile, o vale do Maule teve um destaque especial, mostrando seu clima bem temperado e um patrimônio precioso de vinhas antigas. Um clássico destas terras é seu Sauvginon Blanc Laberinto, foto abaixo.

descorchados laberinto sauvignon blanc

aromas selvagens

Este Sauvignon Blanc sempre mostrou bela acidez e toques marcantes de ervas, evidenciando um lado mais selvagem no vinho. Não há interferência de madeira e seu contato sur lies confere mais complexidade ao conjunto. Seu par tinto, um Pinot Noir da mesma região, é outro destaque na foto abaixo.

boa expressão da casta

Apesar de latitudes diferentes, Maule e Colchagua são vales relativamente frescos elaborando esses equilibrados tintos com a difícil Pinot Noir. Laberinto faz um vinho mais nervoso com esse lado selvagem, mas bem dosado com a barrica. Já o Casa Silva mantem a elegância da vinícola com fruta bem expressiva, frescor interessante e madeira na medida certa. Não são vinhos de alta complexidade, mas cumprem bem o papel de fazer um Pinot equilibrado, o que já é um grande mérito.

Carmenère: varietal e corte

Finalizando, esses dois tintos de alta pontuação. Os dois trabalham com a uva Carmenère, mas de maneiras diferentes. Maquis Viola, o da esquerda, é elaborado no Valle de Conchagua, terroir muito propicio para esta casta, complementado por 15% de Cabernet Franc. Um Carmenère de destaque bem trabalhado em barricas francesas, respeitando a maturação ideal desta indomável casta.

A apoteose fica para o Almaviva 2014, o melhor e mais clássico tinto chileno, de alta categoria e de respeito internacional. Um vinho que ronda sempre a casa dos 95 pontos, independente da safra. Para não deixa-lo muito afrancesado, a ideia da vinícola é sempre mesclar este tremendo Cabernet Sauvignon com uma boa dose de Carmenère, além de pitadas de outras cepas. A Carmenère acaba dando a personalidade chilena desejada. O vinho é magistralmente educado em barricas francesas novas, nunca invasivas. Além de tudo, envelhece bem por uns bons dez anos pelo menos.

Como última observação, o destaque apenas para os espumantes brasileiros, pode dar ao público menos informado que o Brasil só faz este tipo de vinho. Embora os espumantes sejam realmente nossa grande bandeira, atualmente temos tintos que mereceriam destaque, sobretudo com a casta Merlot. Sem entrar em marcas específicas, temos pelo menos um vinho de categoria internacional chamado Sesmarias (vinícola Miolo). Um blend feito na região da Campanha de alta classe, equilibrado, podendo ser comparado a muitas feras do Chile e Argentina, evidentemente às cegas. No mais, a América do Sul segue firme seu caminho em melhorar seus vinhos, definir terroirs, e descobrir novos rumos. A liderança de Chile e Argentina é indiscutível e merecida.

Considerações da Serra Gaúcha

31 de Maio de 2015

É sempre bom atualizar o panorama do vinho nacional, especialmente da serra gaúcha, embora os vinhos de altitude da serra catarinense tenham continuamente boas novidades. O Brasil ainda está no fatídico consumo de dois litros per capita por ano, sendo que deste total, o consumo de vinhos finos (viníferas) ronda a marca de 700 ml (quase uma garrafa) per capita por ano. Não sei se vou viver para chegarmos a um número diferente.

O Rio Grande do Sul responde por cerca de noventa por cento do total de vinho produzido, sendo que oitenta por cento deste vinhos são elaborados por uvas não viníferas com grande predominância da uva Isabel. Felizmente, o mercado atual vem dando uma ótima solução para estas uvas com o crescimento exponencial na produção de suco de uva de ótima qualidade. É sem dúvida, uma bela solução para continuar os vinhedos de grande produção conduzidos pelo sistema de latada, bastante arraigado na viticultura durante várias gerações na serra gaúcha.

Salas de degustações modernas nas principais vinícolas

Para aqueles que não querem perder tempo na procura de bons vinhos finos, apresentamos a seguir algumas dicas e diretrizes na busca do que vale a pena ser provado.

Os espumantes que são a grande bandeira do vinho nacional com significativa aceitação pelo mercado doméstico, de fato mostram boa regularidade. Aqueles produzidos pelo método Charmat (segunda fermentação em tanques) têm um porto seguro na idônea Chandon do Brasil. Capitaneada pelo experiente Philippe Mevel, apresentam uma espumatização perfeita, sempre com um toque elegante e bem acabado, fruto de extremos cuidados em todas as fases de produção, desde o trabalho de campo até os detalhes na cantina. Toda a linha mostra um ótimo padrão, satisfazendo gostos dos mais variados.

No que diz respeito ao método tradicional (champenoise), Casa Valduga, Pizzato, e Miolo, oferecem exemplares bem feitos nos mais variados tempos sur lies (contato com as leveduras). Atualmente, não podemos deixar de mencionar a vinícola Cave Geisse localizada em Pinto Bandeira, setor da serra gaúcha propicio para este tipo de vinho. Uma região de maior altitude, boa amplitude térmica, fornecendo um bom suporte de acidez (frescor) aos vinhos.

Para os vinhos brancos, a grande casta é a Chardonnay, normalmente com passagem por barricas. Casa Valduga, Salton e sobretudo as vinícolas Pizzato e Miolo, sobressaem neste estilo de vinho. Sauvignon Blanc é sempre uma casta complicada com um ou outro destaque bem pontuais. As demais castas ou cortes geralmente não apresentam grandes atrativos. Como exceção, a Miolo mostra um interessante Viognier e Alvarinho (casta portuguesa da região dos vinhos verdes), ambos fermentados em barricas de carvalho.

No setor de tintos, o destaque fica para uva Merlot, embora a Tannat surpreendentemente apresente bons resultados. Três Merlots de destaques são: Salton Desejo, Pizzato DNA 99 e o ótimo Miolo Terroir. Muitos dos cortes mesclam uvas de variedades e regiões de origem bastante diversificadas, sem nenhum termo de comparação com exemplares europeus. Um tinto de corte já consagrado é o Quinta do Seival Castas Portuguesas da vinícola Miolo.

Principais regiões vinícolas

Serra Gaúcha

Principal região vinícola do Rio Grande do Sul e também do Brasil. Região úmida, com pluviosidade ao redor de 1700 mm/ano e altitudes entre 600 e 800 metros. A principal casta vinífera é a Chardonnay, enquanto as tintas disputam terreno entre a Cabernet Sauvignon e Merlot. Pelas condições de terroir a Merlot sai na frente. A casta Tannat surpreendentemente mostra bons resultados também.

Campos de Cima da Serra

Região de altitude (900 a 1000 metros acima do nível do mar) Com grande amplitude térmica. Neste contexto, uvas brancas como Chardonnay e Sauvignon Blanc apresentam boas perspectivas. A casta tinta Pinot Noir acompanha este caminho. Embora as condições não favoreçam aparentemente, as uvas Cabernet Sauvignon e Merlot são cultivadas. A grande referência deste corte é o vinho RAR da vinícola Miolo.

Campanha

Região limítrofe com o Uruguai, está a aproximadamente 500 quilômetros a sul da serra gaúcha. Região de clima seco e altitudes de 250 metros na média. Essas condições propiciam o bom cultivo das uvas tintas como Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat (uva ícone do Uruguai) e castas portuguesas. Aliás o Quinta do Seival Castas Portuguesas já é um clássico da vinícola Miolo. É uma região ainda a ser explorada com grande potencial.

Serra do Sudeste

Inserida como um prolongamento da Campanha a leste, este região guarda algumas semelhanças com o terroir da Campanha, embora com altitudes mais elevadas (450 metros acima do nível do mar). Chove menos em relação à serra gaúcha e variedades tintas amadurecem muito bem com destaque para a casta Tannat. Entres as brancas, Sauvignon Blanc e Alvarinho (casta portuguesa da região do Minho) se destacam.

Serra Catarinense

Um parêntese deve ser feito nesta região catarinense de grande altitude. Estamos falando em mais de mil metros, num limite entre 1200 e 1300 metros acima do nível do mar. Esta altitude compensa com folga a diferença de latitude desfavorável em relação à serra gaúcha. A amplitude térmica (diferença de temperaturas entre o dia e a noite) é notável na região e a dificuldade de maturação de cepas de ciclo tardio é imensa. Os vinhos brancos acabam se destacando com belos Chardonnays e Sauvignon Blanc. No campo das tintas, a casta Pinot Noir apresentam um promissor potencial, gerando vinhos elegantes e delicados.

Pericó: Rosé com toques provençais

Vale a pena comentar sobre a filosofia de implantação de vinhedos nesta localidade. Ao contrário da serra gaúcha com uma região de longa tradição no cultivo da vinha, empresários com grande poder de investimento, contrataram equipes de campo e enologia com profundos conhecimentos e uma visão mais moderna no assunto. Com isso, os antigos costumes e vícios que não cabem mais num mundo moderno foram naturalmente neutralizados, partindo de um panorama mais contemporâneo. É claro que a região ainda está por ser desbravada, conhecida, mas com os conhecimentos atuais de vitivinicultura fica mais fácil e rápido atingir os objetivos. Neste sentido, uma das vinícolas de destaque é a Pericó. Seus vinhos surpreendem pelo frescor, originalidade e equilíbrio. Só para citar alguns exemplos, temos um belo Sauvignon Blanc de clima frio mostrando grande tipicidade, frescor e persistência aromática. No seguimento de rosés, um vinho  de difícil elaboração, a Pericó mostra um exemplar de estilo provençal, fugindo dos padrões do Novo Mundo onde os rosés de sangria são a tônica. Por último, um belo Pinot Noir de altitude com elegância, frescor e bom acabamento. Chega até sugerir um caráter europeu, lembrando borgonhas de categorias mais simples. Belo trabalho do enólogo Jefferson Nunes.

Champagne e Espumantes

5 de Fevereiro de 2015

O tema acima foi a última brincadeira na ABS-SP onde cinco espumantes foram misturados a um único champagne, provocando a curiosidade e testando conhecimentos dos presentes. Os vinhos eram de origem diversa quanto às castas, países e regiões. Entretanto, todos passavam pelo Método Tradicional, ou seja, segunda fermentação na própria garrafa. Seguem abaixo os vinhos e comentários, degustados nesta ordem.

Gramona: Referência em Cavas

Os Cavas na versão branca sempre partem de uvas brancas. Portanto, trata-se de um Blanc de Blancs. Estilo delicado, corpo médio, bastante fresco, e mousse agradável. Seus toques cítricos e minerais instigam o paladar, proporcionando um final bem acabado e vivo. Contudo, neste Reserva falta profundidade, um meio de boca mais preenchido. Bem agradável para um aperitivo.

Valduga: Tradição em espumantes

Este exemplar nacional parte de uma proposta ousada. Um contato sur lies (sobre as leveduras) extremamente prolongado, sessenta meses cravado no rótulo. O aroma de frutas tropicais é bem típico de nossos espumantes. Em boca é macio, mas sem a vivacidade do exemplar anterior. Tem bom ataque, mas falta-lhe persistência. Parece que sua estrutura não condiz com tal tempo de envelhecimento.

Vertice: Espumante de prestígio

Este português da região do Douro não esclarece devidamente seu procedimento de elaboração. Com muita pesquisa, há indícios que o vinho-base tem passagem por barricas, pelo menos parcialmente. Nos aromas isso fica evidente, lembrando de certa maneira um Rioja branco fermentado em barricas com as clássicas notas de coco. Tem um corpo de médio para bom, boa acidez, mas uma adstringência desagradável, além de certo amargor. Não apresenta um perfil de champagne. Embora com grande prestígio na mídia, prefiro os clássicos Murganheira de Lamego.

Domaine Huet: Vouvray de gente grande

Este certamente foi o exemplar que ficou mais longe de champagne em estilo. A cor tinha nítidos traços dourados, destoando dos demais vinhos. O aroma era intenso com notas de mel, maracujá, marmelo e algo resinoso lembrando cera de abelha ou favo. A boca era dominada pela maciez, embora tivesse um bom suporte de acidez. Mousse bem discreta e um leve açúcar residual, comum neste tipo de vinho. A casta é Chenin Blanc da famosa apelação Vouvray.

Champagne Barnaut: Maison artesanal

Aqui sim, podemos pensar em Champagne. O estilo é mais encorpado, mais estruturado. Afinal, trata-se de Blanc de Noirs, ou seja, 100% Pinot Noir. Em boca, a acidez é marcante e sua mousse, intensa. Os aromas de panificação, torrefação e frutas secas estão presente. Muito equilibrado, persistente e de final bem acabado.

Ferrari: o nome já diz tudo

Embora Franciacorta seja a região mais prestigiada, Ferrari é um nome de exceção na região de Trento, nordeste da Itália. Normalmente, seus espumantes são do tipo Blanc de Blancs, ou seja, delicados, elegantes, mas profundos e com estilo. É o que este exemplar mostrou. Aromas de frutas secas, florais, minerais, formando um belo conjunto. Muito vivaz em boca, mousse agradável e de grande qualidade. Persistente, fresco e de notável sutileza. O único que fez frente de verdade ao legítimo Champagne.

Pessoalmente, os únicos espumantes que podem enfrentar os Champagnes são Cavas especiais com longo tempo sur lies e da mesma forma, alguns espumantes de Franciacorta. Contudo, esses poucos exemplares custam tanto ou mais  que os próprios Champagnes, ou seja, entre a cópia e o original, não há dúvida na escolha.

Harmonização: Comida de Boteco

18 de Agosto de 2014

Mais um evento inédito  na ABS-SP, comida de boteco, ou buteco. As duas formas são corretas. Trata-se de estabelecimentos que fornecem comida, bebida e conversa, descompromissadas. E é nesse espírito que o vinho deve encara-los. Aqui a noção de tipologia do vinho é primordial. Não devemos propor vinhos sofisticados com este tipo de comida e neste tipo de ambiente descontraído. É como ir de traje social a um evento de rock and roll. O painel de vinhos abaixo, expressa bem este conceito.

Vinhos na faixa de R$ 50,00

O primeiro deles foi um espumante nacional (uvas Chardonnay e Pinot Noir) elaborado pelo método tradicional (tomada de espuma na própria garrafa) com contato sur lies (sobre as borras) por doze meses. Vinho leve, de muito boa acidez, e certa maciez advinda da elaboração. O segundo vinho é curiosamente um branco chileno do  vale de Elqui, elaborado com a uva Pedro Ximenez. Mostrou-se fresco, frutado e com um toque floral. Sua textura era ligeiramente mais espessa que a do espumante. Já o terceiro, o último branco, vinha do Alentejo (castas Arinto e Antão Vaz). Elaborado pelo craque Paulo Laureano (foi responsável por muito tempo pelo excepcional Mouchão), é um branco de corpo, boa textura e leve toque de madeira. No campo dos tintos, o primeiro também é um vinho do Alentejo (uvas Aragonês, Syrah, Trincadeira). Elaborado por outro mestre português, Antônio Saramago, com o curioso nome de Ilógico. É um vinho fresco, relativamente leve e de baixa tanicidade. Por último, um tinto de Ribera del Duero (uva Tempranillo) de bom corpo chamado Embocadero. Bem equilibrado, persistente, mas de notável tanicidade. O desafiante prato de petiscos está exposto abaixo:

Comidinhas gordurosas

Agora chegou a hora da verdade. Começando pela empadinha, é o único salgadinho da noite que não utiliza a técnica de fritura. Contudo, apesar de ser assada, sua massa é extremamente gordurosa. Aliada a um recheio leve e de certa acidez (palmito), o espumante saiu-se muito bem, limpando de forma eficiente a sensação gordurosa. O segundo vinho, o chileno Pedro Ximenez, também foi um bom parceiro, mas sem o brilhantismo do espumante. Os demais vinhos não emocionaram.

Passando agora para o bolinho de bacalhau, temos um outro cenário. O lado gorduroso continua, mas o sabor é bem  mais marcante e textura mais espessa. Aqui, o branco alentejano brilhou. Tinha corpo, persistência e frescor, suficientes para encarar o prato. O primeiro tinto não saiu-se mal, mas não havia sintonia de sabores.

Seguindo o sacrifício, passemos agora ao croquete de carne. A textura é semelhante ao petisco anterior, mas o recheio evoca outros sabores no vinho. Evidentemente, é um terreno mais para tintos. De fato, o primeiro tinto (Ilógico) foi o melhor, com corpo, acidez e força, compatíveis com o prato. O branco alentejano até tinha estrutura para o bolinho, porém faltava a sintonia de sabores.

Finalizando a experiência, experimentamos a coxinha. Além de grande, a proporção de massa e carne estava desbalanceada. Normalmente, há mais massa em relação ao recheio do que provamos no evento. Levando este fator em consideração, o branco chileno saiu-se melhor. Tinha textura compatível e sabores convergentes para a delicadeza do recheio (frango). Numa proporção de massa maior, o branco alentejano leva vantagem. Já o espumante não tinha textura para o prato, com a mousse sendo destruída pelo efeito massudo do petisco. 

Notem que eu não mencionei em nenhum momento o último tinto, o espanhol mais encorpado e tânico. De fato, seu corpo e principalmente, sua notável estrutura tânica, foram grandes barreiras na harmonização. Os taninos não encontraram espaço na harmonização, pois não havia suculência nos petiscos. Mesmo com o bolinho de carne, o vinho passou por cima. Embora seja um belo tinto, o mesmo precisa de pratos mais estruturados. E como sempre falamos, taninos geralmente são mais problemas que soluções.

De todo modo, valeu a experiência. Para esses tipos de petiscos, o melhor é trabalharmos com vinhos relativamente simples, frutados, de boa acidez, e de sabores e aromas não dominantes. Além disso, prestarmos atenção às texturas. Por exemplo, nesta experiência, vinhos como Chablis e Pouilly-Fumé, apesar de terem os requisitos acima, apresentam texturas muito delgadas em relação aos pratos. De resto, é testarmos com critério outras alternativas.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.