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Vinhos Fortificados

22 de Janeiro de 2020

Se há um vinho que a França não tem excelência, este é o vinho fortificado. Embora haja o famoso Banylus, vinho que teoricamente combina perfeitamente com chocolate, sem esquecer outros do sul da França, além dos fortificados do Rhône, notadamente o Muscat de Beaumes de Venise, esta especialidade é da Península Ibérica. Espanha e Portugal esbanjam talento quando se trata deste tipo de vinho. Um vinho em que algum momento de sua elaboração é acrescentada aguardente vínica, o que lhe confere características específicas.

vinho do porto tipos

Vinho do Porto

O fortificado mais famoso do mundo nasce talvez na mais bela região vinícola, a região do Douro, no interior de Portugal, caminhando da foz do Douro para o continente até a fronteira espanhola. Um vinho que nasce do acaso, onde os ingleses no afã de transportar o vinho para suas terras, esbarrou no difícil trajeto onde o produto passava por várias dificuldades, culminando na arruinamento do mesmo. Trajeto difícil, demorado, com muita variação de temperatura. O jeito foi colocar um pouco de aguardente no vinho para sobreviver às penosas viagens. Com o tempo, eles perceberam benefícios e aceitação popular do mesmo. Contudo, a transição não foi fácil até chegarem na maneira ideal de fortificação. Isso deveu-se à famosa colheita de 1820, onde as uvas atingiram um tal grau de maturação em que o vinho depois de pronto, teve um açúcar residual considerável, além de alto teor alcoólico. Esta colheita serviu de inspiração, sugerindo um fortificação relativamente no inicio da fermentação. Passado este período de transição, os vinhos do final do século dezenove começaram em grande escala a serem elaborados assim como os conhecemos atualmente. Um vinho de alta graduação alcóolica, por volta dos vinte graus, e com açúcar residual considerável, em torno de pouco mais de cem gramas por litro. 

No esquema acima, temos o LBV e o Vintage como Portos que devem envelhecer em garrafa, tendo pouco contato com madeira em seu amadurecimento. Já os Portos com indicação de idade (10, 20, 30, 40 anos) e o Porto Colheita têm grande contato com madeira, chegando prontos para o consumo, embora possam ser guardados sem problemas.

vinho madeira uvas nobres

as quatro uvas nobres da Ilha da Madeira

Vinho Madeira

Outro belo fortificado português onde a fortificação dá-se em períodos variados ao longo da fermentação. De acordo com as castas nobres, Sercial, Verdelho, Boal e Malmsey (Malvasia), os teores de açúcar são crescentes, respeitando o momento da fortificação do mosto. No caso do Sercial, um excelente aperitivo, muito apropriado a patês de caça, a fortificação dá-se praticamente no final da fermentação, onde os açucares praticamente foram todos fermentados. Portanto, é o que chamamos de Madeira seco. Neste raciocínio, as uvas citadas de maneira crescente são cada vez fortificadas mais cedo, sobrando mais açúcar residual no final do processo. O ápice é o Madeira Malmsey, um vinho com nítida doçura, mas com um frescor deslumbrante, equilibrando a doçura do vinho. Tortas de banana, damasco, e de frutas secas em geral, combinam muito bem com os tipos Boal e Malmsey. Um vinho muito menos difundido mundo afora que o Vinho do Porto, embora sua qualidade e tradição não devam nada a seu rival duriense. 

JMF-Moscatel de Setubal e Roxo

José Maria da Fonseca: referência na denominação

Moscatel de Setúbal

Outro grande fortificado português, é elaborado com as uvas Moscatel de Setúbal, também conhecida como Moscatel de Alexandria, além da Moscatel Roxo, bem mais rara. Sua fortificação ocorre relativamente no inicio da fermentação, deixando considerável açúcar residual. Uma particularidade em sua elaboração é o contato por alguns meses do vinho com as cascas da uvas, fornecendo personalidade e características únicas em termos de aromas e sabores. Os melhores Moscateis podem envelhecer anos a fio, sobretudo aqueles que passam longos períodos de maturação em toneis de carvalho. Os doces portugueses harmonizam muito bem com este tipo de fortificado de uma maneira geral. 

carcavelos

importado pela Adega Alentejana

Carcavelos

Um fortificado quase extinto e esquecido dos arredores de Lisboa. Muito apreciado e divulgado pelo Marques de Pombal, as principais uvas que o compõe são Ratinho, Galego Dourado e Arinto, além das tintas Castelão e Preto Martinho. Um vinho de cor topázio com aromas amendoados, de certa semelhança com o Vinho Madeira. Parece que está havendo um certo renascimento do vinho ainda de forma tímida, reativando vinhas abandonadas, além de novos plantios. De todo modo, um patrimônio português para este tipo de vinho que deve ser preservado tanto quanto possível. 

Há outros fortificados portugueses locais, próprios de cada região, mas os quatro acima descritos são os principais pilares da vitivinicultura portuguesa para vinhos generosos.

jerez oloroso

Bodegas Tradicion: os melhores Jerezes

Espanha

Não há dúvida que o grande fortificado espanhol é o Jerez ou Sherry como prefere os ingleses. Um vinho milenar que passou por várias culturas até os dias de hoje sem perder suas origens. A uva é a Palomino e os grandes Jerezes são secos. Portanto, a fortificação ocorre após o termino da fermentação. A peculiaridade deste vinho é na sua elaboração com a presença ou não de um véu de leveduras chamada de flor que se forma naturalmente quando o vinho estagia em pipas ou Botas, um termo local. Se a formação de flor é intensa e vigorosa dá-se origem ao chamado Jerez Fino, um vinho extremamente seco, estimulante, e um excelente aperitivo para petiscos variados, localmente chamados de Tapas. Se a localidade deste Jerez Fino for a região de Sanlúcar de Barrameda, o Fino toma o nome de Manzanilla. Se a flor não for tão vigorosa e tender a morrer no processo, estamos diante de um Jerez Amontillado, um vinho mais encorpado e complexo. Por fim, pode não haver a formação de flor. Então, o vinho é fortificado e sofre em envelhecimento oxidativo, sem a proteção da flor. Estamos diante de um Jerez Oloroso, mais encorpado ainda e de aromas intensos.

Existem Jerezes doces com os termos Pale Cream, Medium, e Cream, em ordem crescente de doçura. Partem de Jerezes secos onde são acrescentados vinhos doces naturais da região com as uvas Pedro Ximenez ou Moscatel. Não têm o mesmo prestigio que os Jerezes secos acima comentados. 

Por fim, o outro extremo de Jerez, um vinho intensamente doce e untuoso chamado Pedro Ximenez, elaborado com a uva homônima. Essas uvas além de ser colhidas bem maduras, são soleadas em esteiras até virarem passas, aumentando muito a concentração de açucares. A fermentação do mosto é muito lenta e logo há a fortificação. Os vinhos são envelhecidos certo tempo em botas (pipas de madeira). Fazem um contraponto muito interessante com sorvetes de creme, baunilha, ameixas, ou banana, casando bem os sabores e principalmente, tendo um contraste de texturas  e temperaturas bem interessantes. O vinho untuoso cai como uma calda sobre o sorvete.

Andalucia wine map

Andaluzia: no sul da Espanha, terra de Fortificados

Outras denominações

No sul da Espanha, além de Jerez, região mais famosa, temos as denominações Condado de Huelva, Málaga, e Montilla-Moriles, na produção de vinhos fortificados. Condado de Huelva é a menos importante, apenas de interesse local. Já Málaga é famosa por seus Moscatéis e Montilla- Moriles é uma espécie de rival para os vinhos de Jerez. É uma região mais continental e de maior altitude quando comparada à região de Jerez. Aqui a principal uva é a Pedro Ximenez e não a Palomino. Os tipos e estilos são parecido com os vinhos de Jerez com um lado mais frutado e menos oxidativo. No que diz respeito ao Pedro Ximenez vinificado em doce e de forma semelhante ao PX de Jerez, Montilla-Moriles dispõe de melhores exemplares, mais elegantes e equilibrados por uma questão de terroir no que diz respeito ao cultivo da Pedro Zimenez.

marsala vergine

O esquecido Marsala

Do lado italiano, temos o clássico Marsala que já teve seus momentos de glória. Criado no século dezoito na Sicília, o vinho está praticamente esquecido nos dias atuais. Tecnicamente o melhor Marsala é chamado de Vergine, sendo bem seco. O termo Vergine está relacionado no processo de elaboração onde a fortificação dá-se no final sem a maculação do vinho, ou seja, sem adição de mosto cotto e nem mistela. O primeiro termo é o mosto de uvas cozido que fornece várias cores ao vinho dada a proporção do mesmo no vinho. A mistela é um preparado de mosto fresco com aguardente vínica, responsável pelo nível de doçura do vinho. Voltando ao Vergine, este vinho pode ser longamente envelhecido em madeira, ganhando boa complexidade. Lembra em certo ponto o Jerez, porém não tão seco. Existem várias uvas locais brancas e tintas que participam de sua elaboração. Algumas delas são Grillo, Catarratto, Inzolia, Nero d´Avola e Nerello Mascalese. Este fortificado pode ser um bom acompanhamento para a famosa sobremesa Tiramisu, e até mesmo participar da receita.

Os fortificados são vinhos de alta graduação alcoólica, por volta de 20 graus. São vinhos muito interessantes com patês, queijos curados, e pratos de difícil abordagem para os chamados vinhos de mesa. Tente pelo uma menos uma vez  combinar um Porto Tawny de certo envelhecimento ou um Madeira do tipo Boal ou Malmsey com foie gras. É lógico que esta é uma combinação clássica com Sauternes, mas vai ser a enésima vez que você faz isto. Experimente trocar um pouco de açúcar residual por um pouco mais de álcool. Você vai se surpreender!

Mestres da Borgonha

10 de Dezembro de 2019

Todos sabem a importância que um produtor tem na Borgonha, sobretudo em vinhos mais artesanais. Cada uma das principais comunas da Côte d´Or tem suas estrelas, verdadeiros especialistas em determinados terroirs. Entretanto, há um trio praticamente imbatível que pela grandeza de seus vinhos, marcaram seus nomes na história definitivamente. São eles: Henri Jayer, Madame Leroy (Domaine Leroy e Auvenay), e o emblemático Aubert de Villaine (Domaine de La Romanée-Conti). Jayer, talvez o mais talentoso, não perpetuou seu trabalho diretamente após sua morte em 2006, mas os vinhos que ainda restam, são de uma profundidade a toda prova e altamente valorizados em leilões mundo afora.

Neste contexto, num agradável almoço na Osteria del Pettirosso, pudemos analisar lado a lado vários embates entre esses gigantes, numa experiência incrível cheia de prazer e emoções. O terroir da Borgonha foi certamente exaltado no mais alto grau de sofisticação, principalmente a comuna de Vosne-Romanée onde segundo dizem: não existem vinhos comuns …

a escolha de Solfia

Como na Borgonha os vinhos começam pelos brancos, dois domaines excepcionais abriram o almoço com extrema classe, Coche-Dury e Domaine Leflaive. Começando pelo Corton-Charlemagne Coche-Dury é bom lembrarmos a exclusividade deste vinho, apenas um terço de hectare (0,33 Ha). Esta safra 2010 é um dos mais perfeitos dos últimos tempos com 98 pontos. O vinho é de uma mineralidade incrivel, um frescor imenso, e um textura que lembra os grandes Chablis Grand Cru. Foi muito bem com o crudo de lagostins cobertos de ouriço (foto abaixo). Os sabores de maresia se infusionaram à mineralidade do vinho numa explosão de sabores.

pratos muito bem executados

Já num estilo de Beaune, mais denso, o belo Chevalier-Montrachet de Domaine Leflaive, uma de suas especialidades, na safra quente de 2006. São dois hectares de vinhas antigas num trabalho preciso de barricas. O vinho mostra um perfil exuberante em aromas denotando mel, compota de pêssegos, fino tostado, e algo cítrico. Um Chevalier mais denso que o normal, lembrando um pouco o terroir de Batard-Montrachet. De todo modo, uma textura rica e muito expansivo em boca. Foi muito bem com o arancini recheado de burrata (foto acima). Texturas muito harmoniosas de ambos. Pratos talentosos nas mãos do Chef Marco Renzetti.

f42d824a-b0d8-4836-a386-ca95b59263a3e agora José?

Este é um embate muito difícil, pois o DRC Echezeaux é o mais delicado do Domaine, indo de encontro ao estilo Jayer. Por outro lado, esta garrafa do Echezeaux 90 de Henri Jayer estava impecável, muito bem conservada, e pouco evoluída, dificultando ainda mais a decisão. Não que o Echezeaux DRC estivesse com algum problema, mas o Henri Jayer estava perfeito. Ao mesmo tempo que mostrava delicadeza, tinha uma força, um frescor, impressionantes. Dois Echezeaux de livro, mostrando toda a elegância deste terroir.

img_7092a vida não está nada fácil …

Agora mudamos o terroir, mas o nível continua altíssimo. O Richebourg DRC estava muito bem nesta bela safra 2002, mas deu azar de pegar um Richebourg Leroy quase perfeito com 97 pontos, sendo o melhor entre todos os Richebourg deste ano. O vinho explode em cerejas quase em licor, alcaçuz, e finas especiarias. Os dois vinhos apresentam ótimo potencial de guarda, embora no caso do DRC possam haver garrafas melhores. De todo modo, mais uma disputa sensacional.

img_7089evolução dentro do mesmo terroir

É claro que num primeiro momento, o Romanée-St-Vivant 90 parece ser uma escolha óbvia em termos de safra. No entanto, não tinha a mesma exuberância da dupla de Echezeaux de mesmo ano comentada a pouco. Já tinha seus toques de evolução denotando sous-bois, notas florais, e algo terroso, mas sem muita vibração. Já o RSV 2007 embora jovem, tinha muita energia, muita fruta, alcaçuz, e especiarias, vislumbrando uma boa guarda. É uma safra acessível e muito agradável de se tomar jovem. Requer evidentemente, algum tempo de decantação.

algumas das especialidades de Marco Renzetti

Para acompanhar estas maravilhas alguns dos pratos do Pettirosso. O risoto zafferano com tutano, prato extremamente saboroso e absolutamente al dente, bem à maneira italiana. Outro prato interessante foi a fregola com porco preto, tudo num caldo de sabores marcantes. Esse foi melhor com os exemplares mais jovens, mais vigorosos.

jovens e de evoluções diferentes

A diferença entre os dois DRCs acima além do terroir, lieu-dit, são as safras relativamente jovens para este naipe de vinho. Começando pelo Richebourg 2008, estava extremamente evoluído para a idade, mas ao mesmo tempo delicioso, sobretudo nos aromas. Todos os terciários desenvolvidos com sous-bois, mineral, especiarias, toques balsâmicos, notas de café, uma delicia. Em boca, taninos totalmente polimerizados, muito macio, mas não de final muito longo. Houve claramente uma aceleração no processo evolutivo desta garrafa com previsão de apogeu para 2043 na crítica especializada. 

Já no caso do Echezeaux 2011, evolução normal da garrafa com um vinho ainda muito jovem. Não está no topo da lista entre os melhores Echezeaux deste ano, mas é muito saboroso, equilibrado, com notas de frutas vibrantes como cerejas, toques florais e de alcaçuz. Deve evoluir por bons anos em garrafa, embora não tenha estrutura para uma longa guarda como acontece em safras mais destacadas. De todo modo, uma agradável promessa.

Moscato do sul da Itália

No final, tivemos a generosa doçura dos passitos italianos, especialmente este de Pantelleria, ilha pertencente à Sicília, bem próxima da costa africana. O solo é todo vulcânico na ilha com o cultivo da uva Zibibbo, mais conhecida como Moscato di Alessandria. As uvas depois de maduras, são colhidas e soleadas por algumas semanas em pedras vulcânicas, perdendo água e concentrando açúcares. Processo semelhante ao Pedro Ximenez nos vinhos andaluzes. Por sinal, os aromas intensos deste moscato lembram algo do Pedro Ximenez com toques de rapadura e bananada. Em boca, é menos untuoso que o PX, com doçura equilibrada e relativamente expansivo. Foi bem com a delicada Panna Cotta com calda de mel, encerrando o almoço.

Mais uma vez, meus sinceros agradecimentos a todos os confrades, sempre muito generosos. Pode ter sido nosso último encontro do ano, mas com essa turma nunca se sabe. Que 2020 seja repleto de eventos espetaculares como este e que a presença dos confrades seja maciça. Abraço a todos! 

Um passeio pela Toscana

2 de Dezembro de 2019

Num agradável almoço no Ristorantino, Jardins, testamos alguns ícones toscanos, quase exclusivamente Bolgheri, se não fosse o grande Brunello Casanova di Neri. Além disso, alguns outros vinhos compuseram a refeição, abrilhantando ainda mais os astros italianos.

img_7034a nobre evolução de um Ygrec!

Para começar, o grande branco seco do Chateau d´Yquem, chamado Ygrec. Um branco com seus 40 anos e de uma evolução magnífica. É bem verdade que ele não é totalmente seco. A sutileza da apelação Bordeaux Superieur indica um certo açúcar residual que lhe confere uma maciez, traduzida brilhantemente pelo termo moelleux. De fato, o vinho lembra o grande Yquem por alguns toques de Botrytis, aromas finos de especiarias como açafrão, mel, e notas de damasco. Sem nenhum sinal de oxidação, o vinho tem muito equilíbrio e persistência aromática. Foi muito bem com as entradinhas, preparando a boca para os tintos que se seguiriam.

img_7042os maiores de Bolgheri

Embora o trio acima seja a fina flor do terroir de Bolgheri, área litorânea da Toscana, as safras não são de grandes anos para os respectivos vinhos. A começar pelo Ornellaia 2003, uma safra quente onde temos 60% Cabernet Sauvignon, 20% Cabernet Franc, 15% Merlot e 5% Petit Verdot. O vinho é um pouco mais austero pela baixa porcentagem de Merlot no corte. Mostrou-se muito fechado de início com aromas estranhos, lembrando algo ferruginoso. Com o tempo, apareceu algumas notas de cacau e chocolate amargo. O vinho tem bom corpo, mas seus taninos não têm uma textura tão fina. Um vinho um pouco rústico para padrões Ornellaia. 

Seguindo a ordem, o Masseto 96 se destacou no painel. Novamente, não é uma grande safra de Masseto, mas o vinho é macio, elegante, e muito agradável. Não tem a estrutura de taninos que os grandes Massetos costumam ter, por isso, encontra-se num ótimo momento para ser apreciado. É quase uma unanimidade, considerado o melhor Merlot da Itália.

Por fim, o Sassicaia 1994, o mais antigo e evoluído do painel. Foi o primeiro Sassicaia com a nova DOC Bolgheri Sassicaia, uma menção única para o vinho que foi o pioneiro da região. Está totalmente desenvolvido e não se trata de um Sassicaia opulento. É um vinho de corpo médio, taninos resolvidos e uma acidez bastante destacada, destoando do conjunto. Enfim, um pouco aquém dos padrões Sassicaia.

belos pratos do Ristorantino

Acompanhando os vinhos, alguns dos destaque do almoço no Ristorantino. Um belo risoto de faisão e radicchio de Treviso muito bem executado, na cremosidade correta. Além disso, um pappardelle com ragu de pato muito saboroso. O risoto foi muito bem com o Masseto de aromas afinados e o ragu teve força para a masculinidade do Ornellaia 2003.

prato e vinho em harmonia

Fugindo um pouco da Toscana, um dos mais bem pontuados Cabernets de Napa Valley, Colgin IX Estate safra 2014. Na verdade, é um autêntico corte bordalês de margem esquerda com 67% Cabernet Sauvignon, 16% Cabernet Franc, 12% Merlot, e 5% Petit Verdot. O vinho é da AVA Santa Helena e tem 14,9 graus de álcool extremamente bem balanceados por cima. Um belo corpo, macio, taninos finos e presentes, madeira bem colocada com a fruta, e longa persistência aromática. Tem 98+ pontos Parker. Fez um belo par com o carré de cordeiro guarnecido por um ótimo tagliolini na manteiga.

img_7041Cerretalto: ícone da vinícola Casanova di Neri

Voltando à Toscana em alto estilo, temos o Brunello Cerretalto Casanova di Neri em safra extremamente jovem. Cerretalto é um Brunello de vinhedo localizado na propriedade num solo pedregoso rico em galestro, espécie de argila laminar. Isso dá muita estrutura e longevidade ao vinho. Ele passa cerca de 36 meses em botti (grandes toneis de madeira) e mais 24 meses em garrafa, antes da comercialização. Um tinto cheio de frutas, notadamente a cereja, especiarias e elegantes toques defumados. Belos taninos, ótimo frescor e um final bem acabado. Também foi muito bem com o carré acima. Esta vinícola é representada no Brasil pela importadora Clarets (www.clarets.com.br). 

um Pedro Ximenez de categoria!

O toque final do almoço foi o potente e macio Alvear Pedro Ximenez Solera 1927 com 98 pontos Parker. Embora tenhamos Pedro Ximenez na região de Jerez, os melhores tradicionalmente vêm de Montilla-Moriles, denominação de origem situada em região montanhosa e mais continental que Jerez. O termo Solera, muito comum nestes vinhos fortificados do sul da Espanha, sinaliza um sistema onde os lotes engarrafados são sistematicamente repostos por vinhos mais jovens de acordo com sua posição nas criaderas, sistemas superpostos de barricas onde o nível mais baixo, no chão, é denominado Solera. A menção 1927 indica que o vinho mais antigo da solera é desta data com reposição periódica, de acordo com as sacas sucessivas ao longo do tempo. Evidentemente, após décadas de solera, a quantidade de vinho desta data é bastante irrisória. De todo modo, é um vinho bastante denso em boca, francamente doce, mas com um frescor que não o deixa enjoativo. A cor do vinho é bem escuro, um marron profundo. Os aromas intensos se misturam entre rapadura ou mel de engenho, figada, e bananada. O açúcar residual passa dos 400 g/l, podendo chegar a 600 g/l. O elevado teor alcoólico, pois é um vinho fortificado, além da bela acidez, dá um contraponto bastante interessante. Foi muito bem com a mousse de chocolate amargo, guarnecida por um sorvete de baunilha artesanal. Final arrebatador!

Só me resta agradecer aos confrades pela boa mesa, ótimos vinhos e a companhia divertida de sempre nesta que é das últimas degustações de 2019. Que o Ano Novo nos traga ótimos momentos como este e outros tantos que se seguiram ao longo do ano. Abraço a todos!

Margaux e seu super Deuxième

30 de Julho de 2019

Quando falamos de segundos vinhos de Bordeaux, sabemos que normalmente a diferença para o Grand Vin é notável, pois em última análise, o segundo vinho é a rejeição do vinho principal. Contudo, há exceções como o Les Forts de Latour, segundo vinho do Chateau Latour, sempre muito bem pontuado e com alta consistência. Nesta linha de raciocínio, devemos incluir o Pavillon Rouge de Margaux, pois sua qualidade lado a lado com o Grand Vin é marcante e incontestável. Foi o que aconteceu num belo almoço no Ristorantino, coordenado pela excelente sommelière Juliana Carani, mulher do mestre Manoel Beato.

bela harmonização

Como sempre de início, um branquinho para fazer a boca. Seguindo o script, um belo Bordeaux blanc do Chateau Pape Clément safra 2010. Seu blend é composto de 50% Sauvignon Blanc, 40% Sémillon, e 10% Sauvignon Gris. O vinho é fermentado e amadurecido em barricas francesas com o devido bâtonnage (revolvimento das borras). Seu nariz é rico em frutas amarelas como pêssegos e ameixas, notas de pâtisserie, manteiga, baunilha e mel. Boca de certa untuosidade dada pela presença da Sémillon e o trabalho de barrica. Final longo e com aromas de certa evolução. Não convém guarda-lo por muito tempo, pois já é delicioso no momento. Foi muito bem com um Cacio e Pepe (foto acima) bem delicado do menu proposto.

img_6416flight surpreendente

Neste primeiro flight, o mais surpreendente do almoço, a maioria da mesa confundiu o Pavillon com o Grand Vin de 100 pontos. Diante do fato, dá pra ver o nível deste segundo vinho. É bem verdade que esta garrafa de Pavillon Rouge, além da safra excepcional, veio diretamente do Chateau, um diferencial importante. Tanto a longevidade como a complexidade deste segundo vinho são notáveis e surpreendentes. Prova disso, que a nota deste Pavillon Rouge 90 pelo Parker é de 86 pontos, sendo considerado um vinho velho em seu patamar final de evolução. Avaliação totalmente contrária desta garrafa degustada. 

Um pouco de história …

A história do segundo vinho do Chateau Margaux, Pavillon Rouge, começa no final do século XIX e a primeira menção deste nome data de 1908. Entre as décadas de 30 e final de 70, o vinho não foi elaborado, tendo seu ressurgimento em 1978. Segundo o próprio Chateau, a produção do Grand Vin corresponde a 40% do total das vinhas, enquanto o Pavillon Rouge fica com 50% do total. Atualmente, existe um terceiro vinho que fica com os 10% restantes. Donde se conclui que boa parte das vinhas é dedicada ao segundo vinho, fugindo daquele critério básico de elabora-lo a partir somente da rejeição de lotes do Grand Vin. Portanto, é um segundo vinho diferenciado com bom poder de longevidade.

flight extremamente didático

Na comparação entre as safras 95 e 96 segundo o mestre Beato, os 95 geralmente são vinhos um tanto duros e inrustidos. Já os 96 são vinhos femininos, acessíveis, e muito prazerosos de serem provados. Isso ficou absolutamente claro nas taças, sendo o 96 um vinho de 100 pontos, o vinho do almoço como unanimidade.

Vale dizer que o 95 cresceu muito na taça com tempo, provando que ele precisa de tempo de adega para sua perfeita evolução, além de longa decantação para prova-lo no momento. O Margaux 96 já é delicioso, mas deve evoluir por décadas ganhando seus lindos toques terciários. O risoto de pato (foto acima) acompanhou muito bem este par de vinhos.

um intruso no ninho

Seria um flight clássico a disputa dos Margaux 82 e 83 se não fosse a presença do Pavillon Rouge 2009 novamente. É claro que ficou fácil de aponta-lo no páreo já que era extremamente jovem. Contudo, no mesmo nível de qualidade dos demais vinhos com grande concentração de sabor. Bela harmonização com costeletas de cordeiro à milanesa e lentilhas du Puy (foto acima).

Para minha surpresa, confundi as safras 82 e 83 com percepções totalmente contrárias as que sempre me recordaram em outros momentos. A safra 83 costuma ser elegante, delicada, e até um pouco misteriosa, sendo este ano muito bem avaliado para a apelação Margaux. Já o Margaux 82 sempre me pareceu um vinho duro, muito masculino para os padrões do Chateau. Diante do fato, o único que realmente apontou com convicção as taças corretas foi nosso Presidente, sempre nos surpreendendo em degustações às cegas. Aliás, agradecimentos especiais  a ele pelo vinhos selecionados, especialmente estes Pavillons maravilhosos ex-chateau, divinamente bem conservados. Uma verdadeira aula!

Licoroso e seleção de queijos

Para finalizar o almoço, mais um nota 100 na parada. Bem ao estilo PX (Pedro Ximenez), este licoroso de Jerez à base de Moscatel. Um vinho untuoso, de extrema presença em boca, e de longa persistência aromática. Trata-se de uma Cuvée especial denominada Toneles. Falando um pouco sobre o processo de elaboração, essas uvas são colhidas maduras e postas para solear em esteiras durante algumas semanas, tornando-se quase passas. O mosto rico em açucares e ácidos é posto para fermentar de maneira muito lenta. A fortificação acontece no início da fermentação, deixando no produto final cerca de 420 g/l de açúcar residual. O vinho apesar de doce, tem um equilíbrio muito bom devido a uma acidez de 10 g/l, a qual lhe confere um belo frescor, não o deixando enjoativo. 

Além da potência do vinho em si, sua alta complexidade aromática dá-se pelo sistema Solera de partidas muito antigas, podendo chegar a cem anos, ou seja, à medida que vão sendo sacados alguns lotes de vinho para o engarrafamento, vinhos novos são repostos na Solera para serem “educados” pelos mais antigos. É uma maneira contínua de renovar o sistema, mantendo a lenta evolução dos vinhos. Nestas soleras antigas, as sacas são muito criteriosas em partidas diminutas, pois os vinhos que serão repostos precisam ter alta qualidade equivalente ao nível da solera.

Enfim, um vinho que impactou a todos por sua potência e equilíbrio. Bom parceiro para charutos, como disse um dos confrades, além de queijos curados (foto acima) e geleias. Pode ser surpreendente por contraste com sorvetes de ameixa, banana, ou outras frutas passas. 

Agradecimentos a todos os confrades pela companhia, generosidade e boa conversa. Margaux é sempre um tema apaixonante, provando mais uma vez sua elegância e personalidade única. Que Bacco nos guie por caminhos sempre surpreendentes!

Jerez e seus Tesouros

11 de Outubro de 2018

Quando falamos de Jerez no mundo do vinho, falamos quase de um fóssil, algo em extinção, sobretudo no Brasil. De fato, em dados recentes, a Andaluzia região que inclui o Jerez, é a oitava região espanhola em produção com algo em torno de 1.200.000 hectolitros anuais, ou seja, 120 milhões de litros. Destes, 32 milhões são de Jerez (consumo interno e exportação), 12 milhões na Espanha e 20 milhões exportados para diversos países. Reino Unido, Holanda, Alemanha, e Estados Unidos, são os principais países importadores da bebida. O Brasil nem aparece na lista como país importador. Uma pena, pois os Jerezes, sobretudo o Fino e a Manzanilla são um dos melhores aperitivos do mundo.

Fino e Manzanilla

Essa foi uma das questões numa prova de certificação realizada recentemente na ABS-SP, qual da diferença entre os dois. Numa comparação simplória, é mais ou menos a diferença do chopp para cerveja. O primeiro é mais leve, mais frágil, pois não é pasteurizado. Já o segundo, não tem o mesmo frescor, mas aguenta bem mais a estocagem. Exatamente por isso, a Manzanilla é quase toda consumida na própria Espanha com as tradicionais tapas. Menos de 10% da produção é exportada.

Para o Fino, a situação se inverte. Quase o dobro do que é consumido na Espanha é exportado. Na verdade, Fino e Manzanilla se desenvolvem sob a flor, uma camada de leveduras que protegem o vinho da ação do oxigênio. Por uma questão de terroir, Manzanilla é elaborada na região litorânea de Sanlúcar de Barrameda, tendo um aspecto salino em seu sabor.

Jerez estatisticas 2017todos os tipos de Jerez

(favor ampliar a visualização)

Nos chamados Jerezes secos, pouco manipulados, a exportação é mais tímida. Em compensação, os Jerezes adocicados no processo como Pale Cream, Medium, e Cream, têm alta aceitação nos mercados externos, sobretudo e inglês. Já os Jerezes naturalmente doces como Moscatel e Pedro Ximenez, suas exportações são equilibradas com o mercado interno espanhol.

jerez VORS e VOS

números em litros (2017)

V.O.R.S e V.O.S

Da produção total de Amontillados, Olorosos, e Pedro Ximenez, uma parcela ínfima dessas categorias são destinadas aos Jerezes especiais com as denominações VOS e VORS com grande tempo de solera.

No caso do VOS (Vino Optimo Seleccionado) ou (Very Old Sherry) são soleras com mais de 20 anos (idade média dos vinhos) onde o caráter evidentemente oxidativo se faz presente. São partidas de vinhos especiais, altamente selecionados, que irão sempre revigorar a solera, mediante sacas criteriosamente programadas. Para cada  litro de solera sacada, deve haver 20 litros de vinho reposto nas criadeiras.

No caso do VORS (Vinum Optimum Rare Signatum) ou (Very Old Rare Sherry) são soleras com mais de 30 anos (idade média dos vinhos) com os mesmos critérios de qualidade do VOS. Apenas aumenta em 10 anos o tempo de solera. Para cada litro sacado da solera, 30 litros de vinho deve ser reposto nas criadeiras, garantindo assim a continuidade do sistema.

Para se ter uma ideia da exclusividade destas categorias, sua produção somadas (VOS + VORS) não chega a meio por cento da produção total das categorias envolvidas (Amontillado, Oloroso, Pedro Ximenez, Palo Cortado, Medium, e Cream). Esta ínfima porcentagem ainda cai pela metade se considerarmos a produção total de Jerez por ano. Vide quadro acima.

Numa degustação exclusiva, degustamos alguns exemplares raros destas categorias de uma das mais reputadas bodegas jerezanas, Bodegas Tradicion. Vamos a eles.

Fino Tradicion (solera  de 10 a 12 anos – acidez 4,01 g/l)

Um Fino totalmente fora da curva com Solera extremamente prolongada de 10 a 12 anos. Uma cor suavemente mais carregada em relação a um Fino padrão. Seus aromas são de grande complexidade denotando frutas exóticas como carambola e notas de maracujá, cogumelos, toques medicinais e de amêndoas. Com a evolução na taça, apareceram notas florais (jasmim) e de maças cozidas. Em boca, apresentou corpo médio, bem seco, embora macio, e com incrível frescor. Muito equilibrado em relação ao álcool e de uma persistência aromática bastante expansiva. Lembra bem o estilo Manzanilla Pasada, um clássico de Sanlúcar de Barrameda. Bela harmonização com um prato de massa com botarga. 

Amontillado Tradicion VORS 30 Años ( solera de 45 anos – acidez 7,93 g/l)

Um âmbar claro luminoso com alguns sedimentos já surpreende neste Amontillado com 45 anos de Solera, bem acima dos rígidos padrões para a categoria VORS. Novamente, alta complexidade aromática com notas de fino caramelo, torrefação, frutas secas, toques medicinais e evolução aromática para patisserie. Aqui encontramos resquícios de uma crianza biológica, seguida de longo estágio oxidativo. Em boca, é mais encorpado que o vinho anterior, mais untuoso e macio, embora com belo frescor. Novamente, o equilíbrio se faz presente com agradável calor do álcool e uma discreta nota salgada. Muito persistente em boca, prolongando todas as sensações descritas por via retronasal. Difícil descreve-lo por completo. Convidado de honra para a Festa de Babette.

Olorosos Tradicion VORS 30 Años (solera de 45 anos – acidez 8,17 g/l)

Vejam que a cor acima é levemente mais acentuada em relação ao Amontillado. Para um Oloroso de longa Solera oxidativa por 45 anos, sua cor é surpreendentemente nova e muito pouco evoluída. Os aromas de caramelo, torrefação e frutas secas, se intensificam ainda mais em relação ao Amontillado, acrescidos com notas de fumo e tâmaras. O mais encorpado do painel, notável untuosidade, mas com belo frescor. Agradavelmente quente e com persistência aromática sem fim. Um Oloroso de rara elegância, lembrando em muito um Palo Cortado, um dos Jerezes mais distintos e raros nos vários tipos deste fortificado milenar. Grande pedida para patês de caça ou terrine de campagne.

Pedro Ximenez Tradicion VOS 20 Años (solera de 22 anos – acidez 4,57 g/l)

Outro vinho de extrema distinção para os padrões comuns de Pedro Ximenez. A cor é densa parecendo um óleo velho de motor. Os aromas são intensos recordando compota de figo, bananada, rapadura, alcaçuz e mel de engenho. Em boca, muito encorpado, xaroposo, e extremamente persistente. Seu ponto alto é o incrível frescor, dada sua alcoolicidade e notável quantidade de açúcar residual. Grande pedida para harmonizar com chocolate amargo e sorvetes cremosos como baunilha e de ameixas. Queijos cremosos e curados também dão um belo contraste.

Enfim, todos vinhos de exceção, fugindo dos padrões normais para seus respectivos tipos e estilos. Reservados a momentos especiais onde as pessoas e pratos devem ser escolhidos a dedo. Todos os vinhos são importados com exclusividade pela importadora Vinissimo (www.vinissimostore.com.br). 

Harmonização: Comida de Boteco

18 de Agosto de 2014

Mais um evento inédito  na ABS-SP, comida de boteco, ou buteco. As duas formas são corretas. Trata-se de estabelecimentos que fornecem comida, bebida e conversa, descompromissadas. E é nesse espírito que o vinho deve encara-los. Aqui a noção de tipologia do vinho é primordial. Não devemos propor vinhos sofisticados com este tipo de comida e neste tipo de ambiente descontraído. É como ir de traje social a um evento de rock and roll. O painel de vinhos abaixo, expressa bem este conceito.

Vinhos na faixa de R$ 50,00

O primeiro deles foi um espumante nacional (uvas Chardonnay e Pinot Noir) elaborado pelo método tradicional (tomada de espuma na própria garrafa) com contato sur lies (sobre as borras) por doze meses. Vinho leve, de muito boa acidez, e certa maciez advinda da elaboração. O segundo vinho é curiosamente um branco chileno do  vale de Elqui, elaborado com a uva Pedro Ximenez. Mostrou-se fresco, frutado e com um toque floral. Sua textura era ligeiramente mais espessa que a do espumante. Já o terceiro, o último branco, vinha do Alentejo (castas Arinto e Antão Vaz). Elaborado pelo craque Paulo Laureano (foi responsável por muito tempo pelo excepcional Mouchão), é um branco de corpo, boa textura e leve toque de madeira. No campo dos tintos, o primeiro também é um vinho do Alentejo (uvas Aragonês, Syrah, Trincadeira). Elaborado por outro mestre português, Antônio Saramago, com o curioso nome de Ilógico. É um vinho fresco, relativamente leve e de baixa tanicidade. Por último, um tinto de Ribera del Duero (uva Tempranillo) de bom corpo chamado Embocadero. Bem equilibrado, persistente, mas de notável tanicidade. O desafiante prato de petiscos está exposto abaixo:

Comidinhas gordurosas

Agora chegou a hora da verdade. Começando pela empadinha, é o único salgadinho da noite que não utiliza a técnica de fritura. Contudo, apesar de ser assada, sua massa é extremamente gordurosa. Aliada a um recheio leve e de certa acidez (palmito), o espumante saiu-se muito bem, limpando de forma eficiente a sensação gordurosa. O segundo vinho, o chileno Pedro Ximenez, também foi um bom parceiro, mas sem o brilhantismo do espumante. Os demais vinhos não emocionaram.

Passando agora para o bolinho de bacalhau, temos um outro cenário. O lado gorduroso continua, mas o sabor é bem  mais marcante e textura mais espessa. Aqui, o branco alentejano brilhou. Tinha corpo, persistência e frescor, suficientes para encarar o prato. O primeiro tinto não saiu-se mal, mas não havia sintonia de sabores.

Seguindo o sacrifício, passemos agora ao croquete de carne. A textura é semelhante ao petisco anterior, mas o recheio evoca outros sabores no vinho. Evidentemente, é um terreno mais para tintos. De fato, o primeiro tinto (Ilógico) foi o melhor, com corpo, acidez e força, compatíveis com o prato. O branco alentejano até tinha estrutura para o bolinho, porém faltava a sintonia de sabores.

Finalizando a experiência, experimentamos a coxinha. Além de grande, a proporção de massa e carne estava desbalanceada. Normalmente, há mais massa em relação ao recheio do que provamos no evento. Levando este fator em consideração, o branco chileno saiu-se melhor. Tinha textura compatível e sabores convergentes para a delicadeza do recheio (frango). Numa proporção de massa maior, o branco alentejano leva vantagem. Já o espumante não tinha textura para o prato, com a mousse sendo destruída pelo efeito massudo do petisco. 

Notem que eu não mencionei em nenhum momento o último tinto, o espanhol mais encorpado e tânico. De fato, seu corpo e principalmente, sua notável estrutura tânica, foram grandes barreiras na harmonização. Os taninos não encontraram espaço na harmonização, pois não havia suculência nos petiscos. Mesmo com o bolinho de carne, o vinho passou por cima. Embora seja um belo tinto, o mesmo precisa de pratos mais estruturados. E como sempre falamos, taninos geralmente são mais problemas que soluções.

De todo modo, valeu a experiência. Para esses tipos de petiscos, o melhor é trabalharmos com vinhos relativamente simples, frutados, de boa acidez, e de sabores e aromas não dominantes. Além disso, prestarmos atenção às texturas. Por exemplo, nesta experiência, vinhos como Chablis e Pouilly-Fumé, apesar de terem os requisitos acima, apresentam texturas muito delgadas em relação aos pratos. De resto, é testarmos com critério outras alternativas.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Sorvete e Vinho

13 de Fevereiro de 2014

Em verões quentes como o nosso, não há quem não tenha pelo menos pensado em consumir sorvetes em profusão, embora seja um produto calórico. Ao contrário de países europeus onde o consumo per capita anual de sorvetes é muito maior que o brasileiro, só nos lembramos deles quando a temperatura aumenta. Neste contexto, existe harmonização entre sorvete e vinho? É o que veremos a seguir.

O sorvete é um daqueles ingredientes ditos ardilosos, ou seja, de difícil harmonização. O maior problema está na baixa temperatura do produto, deixando as papilas gustativas anestesiadas. Com isso, a percepção dos sabores do vinho fica prejudicada. Portanto, para combater este efeito da temperatura, normalmente buscamos vinhos mais alcoólicos, preferencialmente os fortificados (Porto, Jerez, Madeira, Moscatel de Setúbal, entre outros). Se aliarmos a textura cremosa dos sorvetes à base de leite, podemos ter resultados satisfatórios.

Sorvetes de massa

Seguindo este raciocínio, podemos indicar como boas harmonizações os sorvetes de creme, baunilha, ameixa e banana, com o Jerez Pedro Ximenez, ou também aqueles produzidos em Málaga, região próxima a Jerez, todas no sul da Espanha. As texturas do sorvete e vinho acomodam-se bem, embora haja um certo predomínio do vinho. Os sabores sim, complementam-se e fundem-se agradavelmente. Já os sorvetes de massa à base de frutas vermelhas e escuras (mirtillo, framboesa, amora, cereja, entre outras) podem ir bem com Portos de estilo Ruby, caminhando até o LBV (Late Bottled Vintage). Outra alternativa clássica seria o fortificado francês, Banyuls, elaborado com a uva Grenache. Aliás, este vinho como também o Porto, acompanham bem os sorvetes à base de chocolate.

Bela harmonização com Porto

Sorvetes que envolvam  calda de caramelo ou adição de frutas secas (amêndoas, caju, avelãs, …) podem ser acompanhados por Porto do estilo Tawny e vinhos da Madeira, preferencialmente Boal ou melhor ainda, Malmsey. Outro fortificado português de grande prestígio é o Moscatel de Setúbal, que apresenta doçura suficiente para esta harmonização. Se houver um toque cítrico e confitado no sorvete, lembrando os belos doces mineiros (casca de laranja, cidra ou limão), estes Moscateis são imbatíveis.

Vinhos da Madeira e bananas: harmonização clássica

Agora abordando um outro campo, para os sorvetes à base de frutas que não envolvam leite em sua elaboração, podemos partir para vinhos mais delicados. No campo dos cítricos e de ervas frescas como o manjericão, por exemplo, os moscateis mais leves como o Moscato d´Asti podem fazer boa parceria. É bem verdade, que falta um pouco de corpo para estes vinhos, mas a união de sabores na harmonização é bastante satisfatória. Esta falta de corpo pode ser compensada com certos Late Harvests (colheita tardia) mais delicados. O Concha Y Toro Late Harvest do vale de Maule é um bom exemplo (VCT Brasil – fone: 3132-9180). Vinhos delicados do vale do Loire como Vouvray Moelleux com a uva Chenin Blanc ou vinhos alemães do Mosel com graduação de açúcar suficiente para o sorvete podem ser boas alternativas. Uma boa indicação são as expressões nos rótulos alemães: Spätlese ou Auslese, na ordem crescente de doçura.

De resto, é só curtir o verão!

Moscatel de Setúbal: Trilogia dos Fortificados

30 de Setembro de 2013

Falo de trilogia em Portugal, pois o singular fortificado da Carcavelos está praticamente extinto, uma lástima. Portanto, ao lado do Vinho do Porto, e do Madeira (corre o risco de extinção num futuro próximo), este belo Moscatel é um dos tesouros da terrinha.

Moscatel Roxo Envelhecido

Embora hajam outros Moscatéis nas clássicas regiões européias, o Moscatel de Setúbal apresenta um terroir distinto, principalmente quanto a seu modo de vinificação. Na França por exemplo, temos o Muscat Beaumes de Venise (mais delicado) no sul do Rhône, e o Rivesaltes no extremo sudoeste (próximo à região do Banyuls). Na Itália, o famoso Moscato di Pantelleria (ilha homônima no extremo sul italiano) e na Espanha, os drámaticos Pedro Ximenez e Moscatéis (bastante denso e com uma doçura interminável). Todos os exemplos acima tratam-se de vinhos fortificados e comentado em artigos específicos neste mesmo blog.

Denominações de Origem: (https://vinhosemsegredo.files.wordpress.com/2013/09/88ed7-regioesdemarcadas.jpg) – clique ampliando a imagem

Conforme mapa acima, a denominação de origem Moscatel de Setíbal, ao sul de Lisboa, oferece um solo argilo-calcário com boa presença de areia e influência da brisa atlântica. As uvas permitidas são naturalmente a Moscatel de Setúbal, trazida do Egito oito séculos antes de Cristo e conhecida como Moscatel de Alexandria. Os aromas do vinho lembram basicamente cascas e flores de citrinos (notadamente a laranja), mel, tâmaras e uva passa.

Outra casta permitida e superior à própria Moscatel de Setúbal é o Moscatel Roxo. Seu cultivo é mais difícil, os grãos são pequenos e com uma coloração de tom rosado e extrema doçura. Seus aromas remetem à ginja (espécie de cereja mais ácida que a habitual) e a figo, entre outros.

Em termos de vinificação, o grande diferencial é a maceração pelicular (contato com as cascas) na fermentação do mosto, após as uvas serem prensadas com alto grau de açúcar. Depois de algum tempo de fermentação, o vinho é fortificado com aguardente vínica especificada, segundo normas da legislação. Posteriormente, o vinho permanece em contato com as cascas aproximadamente por seis meses. As cascas são prensadas durante o inverno e todo este contato, enriquece o vinho com aromas, texturas e polifenóis. Nos melhores Moscatéis, a próxima e última etapa é o envelhecimento em pipas de carvalho usadas, por longos anos (normalmente o mínimo são dois anos). Nesta etapa, as cascas são separadas do vinho. Normalmente, os vinhos são mesclados de acordo com as safras pelo sistema Solera (semelhante ao vinho de Jerez). Maiores detalhes sobre este procedimento, favor consultar artigos sobre Jerez neste mesmo blog.

Quanto à legislação, Moscatel de Setúbal ou Moscatel Roxo precisam usar pelo menos 85% de uvas Moscatel. Existe a menção Superior em alguns rótulos. Para isso o vinho deve ser submetido à uma prova técnica e precisa ter pelos menos cinco anos de idade. As indicações de idade de 10, 20, 30 ou 40 anos são permitidas, desde que o vinho mais novo do lote tenha a idade mencionada. Quanto ao teor de açúcar, os vinhos com até 20 anos de idade declarada devem ter pelo menos 280 gramas por litro de açúcar residual. Já os vinhos acima de 20 anos de idade declarada devem conter pelo menos 340 gramas de açúcar residual.

Como curiosidade histórica, a grande fama e complexidade destes vinhos ocorreu por acaso. Eram chamados vinhos de “Roda” ou de “Torna Viagem”. Esse processo decorria do transporte das pipas de vinho depositadas nos lastros do navios na época áurea da navegação portuguesa, nos séculos XV e XVI nas viagens para o Brasil e Índia com seis meses de duração. As pipas de vinho então passavam duas vezes pela linha do Equador sob condições severas de temperatura, balanço do navio, e muitas vezes em contato com a água do mar. Este procedimento acelerava o processo de evolução do vinho, ganhando uma complexidade extra. As poucas garrafas que ainda restam destas épocas são disputadíssimas nos principais leilões de vinho. A última viagem mantendo estes procedimentos deu-se no ano de 1900. Os reis Ricardo II da Inglaterra e Luís XIV da França, o Rei Sol, eram grandes apreciadores da bebida.

Dentre os produtores, José Maria da Fonseca é a grande referência com exemplares antigos realmente singulares. Lembro-me de ter provado um de seus Moscatéis da colheita de 1900, engarrafada na década de noventa para uma degustação especial. Foi um dos poucos vinhos que não dei nota, pois seria uma ofensa submetê-lo a qualquer teste. São um daqueles vinhos imortais em que o tempo só o engrandece.

Referente à gastronomia, esses vinhos acompanham muito bem chocolate, sobretudo se houver aromas de laranja envolvidos. Doces portugueses à base de ovos, torta de banana, e queijos curados (porque não um queijo de ovelha de Azeitão).

Harmonização: Banana Tatin

23 de Agosto de 2012

Se acharem muito chique o título, pode ser torta de banana. É deliciosa do mesmo jeito, e o sorvete de creme, complementa muito bem. A receita leva açúcar, manteiga, canela e massa folhada.

Toda a vez que uma sobremesa tiver como ingrediente principal ou mesmo relevante a banana, os belos vinhos da ilha da Madeira cairão muito bem. Evidentemente, aqueles com maior teor de açúcar residual, ou seja, Boal e preferencialmente, Malmsey. Há uma sinergia de sabores muito interessante. O mesmo se passa com sobremesas onde o abacaxi é componente importante. Ver artigos sobre o vinho Madeira em cinco partes neste mesmo blog.

Requinte e simplicidade ao mesmo tempo

Os Madeiras do tipo Malmsey (Malvasia), os mais doces, geralmente adéquam-se melhor, pois as sobremesas com bananas tendem a ter açúcar mais acentuado. Além disso, os toques empireumáticos deste tipo de vinho ganham eco no lado caramelado desta torta, em particular. O sorvete de creme, sempre bem enfrentado por vinhos fortificados, refresca a harmonização, permitindo a percepção de sabores sutis, além dos já citados e que evidentemente, são dominantes.

Outros fortificados como Porto, Moscatel de Setúbal, e alguns Jerezes doces, podem chegar a bom termo, mas o algo mais, a cereja do bolo, são os belos Madeiras. Pedro Ximenez, o mais doce fortificado de Jerez e também muito famoso em Málaga, tem afinidade com as bananas. Contudo, torna-se muito dominante na harmonização. Como curiosidade, um fortificado praticamente extinto em Portugal, chamado Carcavelos, é o substituto imediato para esta harmonização. Este vinho, ainda elaborado nos arredores de Lisboa, enfrenta a feroz expansão imobiliária, perdendo terreno literalmente a passos largos.

Alguns Madeiras disponíveis no mercado:

Jerez: Parte V

6 de Outubro de 2010

Neste último post, vamos abordar rapidamente os vinhos doces de Jerez, que não são meus preferidos, mas têm seu mercado cativo.

Primeiramente, os chamados Generosos de Licor. Foi uma criação para o mercado inglês principalmente, em três categorias: Pale Cream, Medium, e Cream. Devem ser servidos entre 12 e 14ºC, respeitando corpo e intensidade aromática, ou seja, Pale Cream um pouco mais fresco que o intenso Cream.

Pale Cream é o mais leve dos três citados, elaborado a partir de um Fino ou Manzanilla, com adição de mosto concentrado retificado. Isto significa que o mosto é de uva Palomino com uma pequena adição de aguardente vínica. Seu teor de açúcar residual deve ficar entre 45 e 115 gramas por litro. Pode ser interessante para certos pratos da cozinha chinesa com molhos agridoces.

A categoria Medium parte de um Amontillado, onde é adicionado  vinho doce natural (Pedro Ximénez ou Moscatel), que veremos mais adiante. Tem aromas com predomínio de toques oxidativos, sendo mais encorpado que o Pale Cream.

Por último, a categoria Cream. Este é obtido a partir de um Oloroso, com adição de vinho doce natural. Tem caráter fortemente oxidativo, é o mais untuoso e encorpado, além de açúcar residual entre 115 e 140 gramas por litro. Pode acompanhar muito bem crema catalana (crème brûlée na versão espanhola).

Partindo de um Fino e um Amontillado, respectivamente

Dulces Naturales

São Jerezes extremamente doces e untuosos com açúcar residual entre 180 e 500 gramas por litro. Os varietais são elaborados com Moscatel de Alexandria e a famosa Pedro Ximénez.

Em qualquer um dos casos, essas uvas são colhidas e soleadas em esteiras por algumas semanas, perdendo água e concentrando açúcares. O mosto praticamente não é fermentado, pela própria concentração acentuada de açúcares, sendo então fortificado (encabezado) com aguardente vínica. A solera para cada uma das uvas é sempre em crianza oxidativa. Não há corte entre as uvas. São sempre varietais.

Devem ser servidos em torno de 14ºC e acompanham sobremesas bem doces, sorvetes, chocolates e queijos azuis de sabores  acentuados. Costumamos dizer: se estes vinhos não aguentarem um determinado prato, não precisam perder tempo com mais nada. A diferença básica entre um Pedro Ximénez e um Moscatel, é neste último encontrarmos alguma nota floral e também cítrica. Contudo, potência e untuosidade são muito semelhantes. Podem ser também excelente companhia para charutos potentes com toques achocolatados, como um Vegas Robaina Unico (formato semelhante ao Montecristo nº 2).

Com relação ao Pedro Ximénez, cabe uma observação pouco comentada e também pouco conhecida. Os grandes Pedro Ximénez, salvo as devidas exceções, não estão em Jerez, e sim, na denominação Montilla-Moriles, região relativamente próxima. Meu amigo Juan da importadora Península (www.peninsula1.com) tem belos exemplares desta maravilha.

Moscatel de solera especial

Ufa! Chegamos ao fim sobre o mundo Jerez. Na verdade, um mundo interminável, com muitos segredos ainda não revelados. Agora, depois destes cinco posts, é possível olhar para a figura abaixo, e achá-la menos confusa do que normalmente parece.

Fluxograma complexo na produção de Jerez

É importante que cada um de nós, que gostamos de vinhos diferentes e originais, que saiam da mesmice do dia a dia, possamos valorizar e divulgar os grandes vinhos de Jerez, talvez o maior tesouro vitivínicola da Espanha.

Maiores informações, consultar site oficial www.sherry.org,  bastante abrangente e completo, satisfazendo outras curiosidades não mencionadas nesta série de posts.


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