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Bordeaux 1961: Adagio

21 de Agosto de 2015

Passado o primeiro ato, vamos rumo à apoteose com seis Bordeaux de tirar o fôlego. Na verdade cinco, pois havia um intruso no caminho. Contudo, suas credenciais permitiam tal ousadia. Trata-se do La Chapelle 1961, o Hermitage do século do produtor Paul Jaboulet. Esse não precisa ser convidado.

As duas joias de Saint-Julien

Pessoalmente, os châteaux acima representam o que há de melhor no nobre comuna de Saint-Julien. O primeiro, Léoville Las Cases, é vizinho de comuna do consagrado Latour em Pauillac, tendo muitas vezes esse estilo viril, clássico, e com um poder de longevidade imenso. Mas não se esqueçam, estamos na safra 1961 e suas armadilhas. E desta feita, o château errou a mão. Sua cor é escura, pouco evoluída para a idade, mas os aromas tem toques tostados e herbáceos que incomodam um pouco. Em boca, percebemos uma estrutura tânica de extração em demasia. Tem força, tem poder, mas quiseram fazer parece-lo o que efetivamente não é. Lógico que a comparação com os demais é cruel. Contudo, quem tem uma garrafa desta devidamente adegada, numa degustação solo pode ser fascinante. Agora quem ainda não comprou, compre uma de seu rival que comentaremos a seguir. Este é tiro certo!

Château Ducru-Beaucaillou 1961, que marravilha Claude! Esse é daqueles vinhos que sabe aliar potencia e elegância como poucos. Aromas multifacetados com frutas deliciosas, tostado fino, caixa de charuto, especiarias e uma madeira de cedro que é marca registrada deste Bordeaux. Encorpado na medida certa, muito equilibrado em seus componentes e uma persistência aromática notável que se esvai com muita classe, deixando saudades. Um grande cinquentão!

Bordeaux 61: Aqui está a perfeição

Os detalhes fazem a diferença. Porém, aqui, só no fotochart. Foi sem dúvida, a disputa mais acirrada, cabeça a cabeça. Lindos Bordeaux, maduros, suaves, profundos e inesquecíveis. Não há palavras para esses gigantes. Embora todos os aromas terciários clássicos desta comuna estejam presentes, tais como, trufas, toques terrosos, animais, ervas finas, entre outros, a fruta ainda está presente, o frescor é incrível e os taninos são verdadeiras rolimãs em boca. Mais uma vez pessoalmente, pendi para o Haut-Brion, mas o La Mission valorizou muito esta escolha. Isto é de fato o que se espera de um Bordeaux de longo envelhecimento. Bebe-los agora é a recompensa pela paciência e sabedoria. Nem é preciso dizer: os dois com 100 pontos absolutos de Robert Parker.

Bordeaux e Rhône em vinhos de legenda

Neste grand finale, não dá mais para pontuar. São vinhos fora da curva, incomparáveis. Começando pelo La Chapelle, também 1961. Já impressiona pela profunda cor escura, mostrando o poder de longevidade dos Hermitages. Os aromas que mesclam frutas escuras em geleia, especiarias, defumados, balsâmicos e algo de charcuterie (embutidos), estavam presentes. Em boca, potente, taninos em profusão e um equilíbrio dos grandes vinhos. Pessoalmente, apesar de grande, achei este exemplar um pouco cansado. De fato, o histórico destas garrafas é sempre um mistério que culmina no famoso ditado: “Em vinhos antigos, não existem grandes safras e sim, grandes garrafas”.

E finalmente chegamos ao monumental Chateau Latour 1961. Esse é aquele vinho que você prova e fica sem reação. Silêncio absoluto. É imponente, te cumprimenta à distância, exige um certo protocolo, mas é maravilhoso! Não sei ainda onde ele vai chegar, mas certamente o destino final é o paraíso. Que cor! que aromas maravilhosos do mais autêntico cassis, cedro, minerais como grafite, terroso, toques de cacau, chocolate escuro, e assim vai. A boca é como um bailarino segurando a moça com mão forte, mas transmitindo extrema delicadeza e elegância. E aí você degusta, ele passa, mas ele fica, fica, … Não entenderam? prove uma garrafa. Garanto que até 2040 a magia não acaba.

Um pouquinho de paciência, pois não terminou. Próximo artigo, o grande Latour à Pomerol, Scion e dois Sauternes daqueles. Não percam!

Facetas da Syrah.

2 de Fevereiro de 2015

Aproveitando o gancho da ABS-SP em explorar os vinhos do Rhône, vamos falar um pouco da uva Syrah. É muito comum as pessoas citarem certas características das principais uvas. Contudo, sabiamente o chamado Velho Mundo não trilha este caminho. Para eles, a noção de terroir, onde as castas estão inseridas, é mais importante e mais ampla. Um francês nunca falará que a Pinot Noir apresenta tais e tais características. Ele dirá: Gevrey-Chambertin é assim e Chambolle-Musigny é assado. Questão de terroir, simples assim.

Voltando à Syrah, mostraremos a seguir, alguns exemplares degustados com características particulares. Um deles é um vinho brasileiro, mais especificamente Paulista, da vinícola Guaspari. Os demais são apelações clássicas do vale do Rhône.

Syrah de cores intensas

O Syrah acima é elaborado no interior paulista, numa região serrana de Espirito Santo do Pinhal. Em sua elaboração, a maceração das cascas no processo de fermentação é intensa, cerca de vinte dias, além de várias délestages (processo que concentra  o mosto durante a fermentação). Além disso, o vinho estagia em barricas de carvalho francês por vinte e quatro meses. O resultado é um vinho de cor intensa, bastante concentrado e com boa carga de madeira. Tinto potente, bem ao estilo Novo Mundo.

Alain Graillot: Referência na apelação

Familia Chave: Hermitage de respeito

Já os dois vinhos acima são de apelações contíguas localizadas no Rhône Norte, onde a casta Syrah é protagonista para os tintos. Conforme mapa abaixo, percebemos a nobre apelação Hermitage, localizada em Tain l´Hermitage, cercada a leste, norte e sul por uma série de vinhedos sob a apelação Crozes-Hermitage. O solo de estrutura granítica e a perfeita exposição solar da colina faz de Hermitage um dos tintos franceses mais reverenciados. São vinhos densos, profundos, ricos em taninos e portanto, de grande longevidade. Evidentemente, são austeros na juventude, pedindo bons anos em adega. Apesar de escuros e densos, são vinhos elegantes, com traços minerais e muito equilibrados, sem jamais serem pesados.

Na apelação Crozes-Hermitage, o terroir é mais diverso. Dependendo da localização do vinhedo (norte, leste ou sul) e da composição dos solos, teremos variações importantes na concepção dos vinhos, sem contar com a personalidade e seriedade do produtor. Em linhas gerais, são menos densos, menos complexos e mais prontos para serem tomados jovens, em comparação com a imponente apelação Hermitage. Produtores como Alain Graillot imprimem personalidade e profundidade em seus tintos. Não são vinhos encorpados, mas guardam muito equilíbrio, aromas e sabores elegantes, e muito gastronômicos. Admitem com tranquilidade uma média guarda em adega (por volta de dez anos).

Crozes-Hermitage: Grande extensão de vinhedos

Por fim, os vinhos abaixo mostram apelações antagônicas em estilo, fruto das condições de seus respectivos terroirs. Na apelação Cornas, um pouco a sul de Hermitage, na margem oposto do rio Rhône, as vinhas encontram-se num anfiteatro muito bem orientadas com relação à insolação. A Syrah neste local experimenta um amadurecimento intenso, tornando-se num vinho poderoso e concentrado. Esta potência tira-lhe de certa forma, a classe facilmente encontrada no majestoso Hermitage. Contudo, produtores como Auguste Clape podem lapidar muito bem este diamante bruto e transforma-lo no devido tempo, em algo refinado. Com as devidas ressalvas, este estilo é o que mais se aproxima em concentração de nosso exemplar nacional, citado a pouco.

Cornas: Syrah profundo e concentrado

No vinho abaixo, sob a apelação Côte-Rôtie, localizada bem ao norte da apelação Hermitage, na outra margem do Rhône, encontramos toda a elegância da Syrah. As vinhas são cultivadas em escarpas altas, de grande declive, mas com as benesses do vento Mistral. Portanto, temos amadurecimento em sintonia com a bem-vinda amplitude térmica. Os solos diferenciam-se basicamente nas chamadas Côte Blonde (aloirado) e Côte Brune (solo mais escuro). A encosta de solo mais claro gera vinhos mais delicados e elegantes por conta de uma mistura de ardósia, calcário e micaxisto e areia. Já os solos mais escuros, ricos em ferro e com alguma proporção de argila, fornecem mais força ao vinho, digamos assim, uma certa virilidade. Apesar de um pouco fechados quando novos, envelhecem em adega com muita propriedade. É muito comum, produtores com vinhas nesses dois terroirs misturarem os vinhos formando um assemblage bem característico da apelação. Para completar a elegância desses caldos, é permitido adicionar um pouco de Viognier, casta branca famosa desta região, ao blend, gerando notas florais no conjunto, além de um frescor bem agradável.

Côte-Rôtie: A elegância da casta Syrah

O exemplar acima, já com alguns anos de evolução, mostra-se equilibrado, aromas elegantes e sabores sutis, mesclando um lado frutado com toques de evolução, incluindo especiarias e notas balsâmicas.

Enfim, sempre a França com muita sutileza nos ensinando a lidar com as peculiaridades de cada porção de terra, de cada climat, partindo de uma casta dominante e típica da região. No caso, a nobre Syrah, ora protagonista no chamado Rhône Norte, ora coadjuvante, no chamado Rhône Sul. Nos dois casos, sua presença enriquece essas apelações famosas, e serve de inspiração para as demais regiões vinícolas mundo afora.

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte V

22 de Outubro de 2014

Agora deixando a Borgonha, e partida para Bordeaux. Chegando em Bordeaux, fomos almoçar em Saint-Emilion no Château Troplond-Mondot (pronuncia-se “Trolon-Mondô). Belo restaurante com menu bem executado. Estamos falando da margem direita de Bordeaux.

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Branco de margem direita

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A delicadeza de Pessac-Léognan

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À sombra do grande Yquem

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Pessac-Léognan de estrutura

Para dar início aos trabalhos, um quarteto muito  bem representado dos brancos bordaleses, vinhos de uma certa maneira subjugados frente ao enorme destaque dos tintos. De início, Jean Luc Thunevin Blanc nº 1 2009. Muito agradável, mas o menos complexo do painel. Madeira bem casada com a fruta e final fresco. O segundo trata-se de um branco bem elegante, Château Carbonnieux 2011. Aromas sutis, toques florais e textura delicada em  boca. Sempre um bom início de refeição. O terceiro vinho, o branco seco do Château d´Yquem, “Y” , Ygrec 2008. Elaborado com proporções semelhantes de Sémillon e Sauvignon Blanc, é um vinho marcante, com boa presença em boca e bastante gastronômico. Por último, um grande Pessac-Léognan, Domaine de Chevalier 2007. Um dos melhores de Bordeaux, apresenta ótima estrutura para envelhecimento. Bom corpo, textura macia e boa evolução de aromas. Fechou com chave de ouro esta série.

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Não estava em sintonia com os demais

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Chateauneuf-du-Pape de exceção

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Um dos melhores bouchonné

Na sequência de tintos, vamos abordar os três não bordaleses em primeiro lugar. Começando pelo Masseto 2001, foi o tinto que destoou no painel. É claro que se tomado individualmente, trata-se de um belo toscano baseado na casta Merlot. Contudo, diante dos bordaleses que virão a seguir, não há termo de comparação. Em seguida, um Chateauneuf-du-Pape fora de série do mítico produtor Henri Bonneau Réserve des Celéstins, uma cuvée especial de sua cave. Aromas lembrando o sul da França como garrigue (vegetação típica da Provence), ervas, especiarias e toques balsâmicos. Boca sedosa e extremamente longo. Por último, o que deveria ser talvez o vinho da viagem, o lendário Hermitage Paul Jaboulet La Chapelle 1961, estava bouchonné. Uma pena, mas sua cor, estrutura, e potência de taninos impressionaram.

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Concorrente à altura do astro Petrus

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Le Pin: Produção minúscula

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Petrus: Sempre misterioso

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Haut Brion em suas grandes safras

Enfim, chegou a vez dos bordaleses. E que vinhos, que safras! Uma sequência de 1990 inesquecíveis. Começando  pelo Château Lafleur 1990, um Pomerol de rara beleza. Boa evolução de aromas lembrando um toque terroso, cogumelos, ameixas escuras e chocolate. O mais pronto da trilogia. Em seguida, o minúsculo Chateau Le Pin 1990. Muita estrutura de taninos, ainda um pouco fechado, dando a certeza que uma boa decantação só trará benefícios. Muita vida pela frente. Por fim, o Chateau Petrus 1990. Uma criança ainda. Este é o Romanée-Conti de Bordeaux. Vinho misterioso, que não se revela facilmente. Apesar de seus mais de vinte anos, muitos segredos a serem desvendados. Um das grandes safras deste tinto. Realmente, não tinha como o Masseto ficar pequenininho.

Para não ficarmos só na margem direita, que tal para finalizar um Haut Brion 1989, um dos cem pontos de Parker. Safra histórica para esta estupenda propriedade de Pessac-Léognan. Uma maravilha já acessível, mas sem nenhum sinal de cansaço. Nos aromas, o característico toque animal, trufas, toques terrosos, algo de café, de chocolate, envolvidos em taninos sedosos. Um verdadeiro Premier Grand Cru Classe. Bravo!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Arroz de Pato: Que Marravilha!

11 de Agosto de 2014

Voltando aos pratos do grande Chef Claude Troisgros no programa Que Marravilha!, vamos abordar a complexa receita do Arroz de Pato. Dá trabalho, mas vale a pena quando temos uma boa turma disposta a pratos saborosos. A foto abaixo e o link para o vídeo, ajudam na elaboração.

http://gnt.globo.com/programas/que-marravilha/videos/3315758.htm

O primeiro passo é fazer a marinada, temperar o pato e deixa-lo um bom tempo na geladeira para incorporar o tempero. Em seguida, assar o pato, desfiar a carne e separar os ossos para fazer o caldo. Tudo isso deve ser feito com antecedência. Continuado, preparar os cogumelos e reservar o respectivo caldo para ser acrescentado no caldo de pato. Neste último, teremos os miúdos do pato, o pescoço, vinho tinto e nosso caldo de cogumelos, além dos temperos. Próximo passo, fazer o arroz, puxado na gordura do pato com paio ou chouriço. Cozinhe o arroz no caldo que acabamos de mencionar. Por último, vamos preparar as frutas secas (macadâmia ou amêndoas, por exemplo), azeitonas, ervilhas, os cogumelos, adicionando o pato desfiado e o arroz já cozido. Na montagem  do prato, acrescente as castanhas portuguesas cozidas que podem fazer parte do prato, ou mera decoração.

VEJA A RECEITA: ARROZ DE PATO

Como fazer a marinada:
Ingredientes:
Tomilho, louro e alecrim picados (a gosto)
Pimenta-do-reino branca e preta (a gosto)
2 colheres (sopa) de alho picado
½ pimenta dedo-de-moça picada
Flor de sal (para decorar)
200ml de azeite extravirgem
1 colher (sopa) de urucum

Modo de preparo:
Misture tudo e reserve.

Como preparar o pato:
Ingredientes:
1 pato de 3kg
Alecrim, tomilho e louro (a gosto)
Sal e pimenta-do-reino branca moída na hora (a gosto)

Modo de preparo:
Abra o pato em dois, pelo peito. Descole a pele dos peitos e das coxas. Insira a marinada com a mão entre a pele e a carne. Acrescente alecrim, tomilho e louro no centro do pato e feche. Coloque o pato dentro de um saco de assar, feche e deixe marinar na geladeira durante 6 horas. Asse dentro do saco de assar durante 3 a 4 horas, a 110ºC, com o peito para baixo. Retire o saco de assar e desfie a carne sem pele. Guarde os ossos para o caldo e reserve também a gordura.

Como fazer os cogumelos:
Ingredientes:
150g de funghi porcini seco
8 cogumelos de Paris grandes
4 cogumelos shitake

Modo de preparo:
Ferva água e coloque os cogumelos de Paris e os shitakes para cozinhar durante 5 minutos. Retire e coloque os funghi porcini, deixando cozinhar durante 10 minutos. Retire e reserve.

Como fazer o caldo:
Ingredientes:
1 cenoura
1 cebola
2 talos de aipo
Ossos, pescoço, fígado, asas e moela do pato
Zimbro picado
500ml de vinho tinto português
½ pimenta dedo-de-moça fatiada
Tomilho, louro e alecrim (a gosto)
Flor de sal (a gosto)

Modo de preparo:
Esquente bem uma panela com azeite. Coloque os ossos, o pescoço, o fígado, as asas e a moela de pato com os legumes e as ervas para tostar nessa panela. Deglacear com vinho tinto e cobrir com o caldo de cogumelos, temperando com um pouco de flor de sal. Junte com a pimenta dedo-de-moça e o zimbro. Deixe cozinhar 20 a 30 minutos e depois, peneire.

Como fazer o arroz:
Ingredientes:
1 colher (sopa) de gordura do pato guardada
300g de chouriço espanhol em rodelas.
½ cebola picada fina
1 cebola em cubos
3 xícaras de arroz parboilizado
Sal, pimenta-do-reino (a gosto)

Modo de preparo:
Numa panela de barro, refogue o chouriço na gordura de pato. Junte as cebolas e deixe suar mais. Coloque o arroz e deixe tostar um pouco. Cubra com o caldo de cogumelos, ferva e cozinhe até ficar al dente, durante 15 minutos.

Como preparar os legumes:
150g de noz de macadâmia
Cogumelos fatiados (porcini, Paris e shitake)
2 dentes de alho picados
Salsa picada
15 azeitonas pretas portuguesas (sem caroço)
300g de ervilha fresca
Cebolinha picada (a gosto)
Sal e pimenta-do-reino (a gosto)

Modo de preparo:
Toste as macadâmias no azeite e reserve. Puxe no azeite quente os cogumelos cozidos e tempere. Coloque o alho, a salsa e a cebolinha e deixe suar mais. Junte o pato desfiado, as ervilhas e as azeitonas.

Toque final:
Ingredientes:
20 castanhas portuguesas já cozidas
Folhas de salsa
Azeite extravirgem

Modo de preparo:
Misture os legumes e a macadâmia tostada com o arroz. Verifique os temperos e enforme. Desenforme no prato e regue com azeite. Decore com as folhas de salsa e castanhas portuguesas.

Depois de todos esses procedimentos, ingredientes e temperos diversos, vamos aos vinhos. A primeira opção natural é sempre pelos vinhos regionais. Como a receita é do norte de Portugal, os vinhos do Douro são os mais lembrados. De fato, são vinhos de bom corpo, sabores acentuados, frescor no ponto para o lado gorduroso do prato, e taninos presentes para a suculência do mesmo. A passagem por madeira e uma certa evolução aromática (aromas terciários) com alguns anos de adega, encontra eco nos sabores defumados e tostados, além da presença dos cogumelos e das frutas secas. Os tintos do Dão podem ser a segunda opção. Embora tenham bom frescor, tendem a ser mais elegantes e sutis, talvez carecendo de alguma potência para os sabores do prato. Já os tintos alentejanos, costumam ter corpo para a harmonização, mas faltam-lhes o frescor, tornando o conjunto um pouco pesado.

Saindo de Portugal, o vizinho ibérico, Espanha, tem em Ribera del Duero seu maior aliado. São vinhos de corpo e com bom frescor. Já o lado de Rioja, acaba tendo as mesmas considerações da região portuguesa do Dão, exceto os Riojas mais modernos, de mais corpo e potência.

Italianos da região toscana podem ter sucesso na harmonização, sobretudo um autêntico Brunello di Montalcino em estilo mais clássico, com algum envelhecimento em garrafa. Dos tintos sulinos, um bom Taurasi (tinto com a uva Aglianico) da Campania é uma opção interessante. Embora a latitude não favoreça, a altitude dos vinhedos imprimem boa amplitude térmica, culminando em vinhos de boa acidez.

Do lado francês, as melhores opções são do sul do Rhône. Tintos da apelação Vacqueyras ou Gigondas costumam apresentar boa estrutura e uma certa rusticidade, no bom sentido da palavra, para o prato em questão. Os tintos do norte como Côte Rôtie e Hermitage podem ter algumas inconveniências. O primeiro é muito elegante para o prato, e o segundo, muito tânico e estruturado. Já os tintos provençais calcados na cepa Mourvèdre como a apelação Bandol, por exemplo, podem ser bem interessantes.

Para o Novo Mundo, as opções de tintos com corpo e estrutura são fartas, mas a falta de frescor  na maioria deles costuma ser o maior inconveniente. Malbecs ou cortes argentinos das zonas mais altas de Mendoza podem ser interessantes, por exemplo, Valle de Uco (Tupungato). Alguns Syrahs do Chile em zonas mais temperadas com boa amplitude térmica (Vales de Elqui e Leyda) são outras opções. Tintos de corte bordalês da Nova Zelândia, sobretudo da Ilha Norte (Hawke´s Bay), é mais uma bela alternativa. Do lado australiano, Shiraz ou Cabernet de Coonawarra, são vinhos de presença e bom frescor, fugindo dos padrões clássicos deste país.

Depois de tudo isso, resta testar as opções, ou seja, razões não faltarão para inúmeras repetições desta saborosa receita. Para aqueles que desejam evitar a complexidade da receita, os bons restaurantes portugueses facilitam o trabalho em busca da melhor harmonização. Bom apetite!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Hermitage e Porto Vintage

18 de Julho de 2013

Há tempos estou para escrever este artigo, sempre prospectando os fatores de terroir. Apesar de serem duas regiões clássicas europeias distantes entre si, vale a pena compará-las e discutir o fator humano que as fizeram elaborar vinhos aparentemente tão diferentes. A montanha de Hemitage em certa fotos assemelha-se bastante com a região do Douro, sobretudo por seu relevo íngreme. Vamos então, citar alguns pontos em comum destes dois grandes terroirs:

  • Relevo íngreme e subsolo granítico
  • Regiões de clima continental
  • Vinhos potentes e de longo envelhecimento
  • Elaboração do vinho a partir de vários vinhedos
  • Tanicidade destacada a ser domada pelo tempo

Colina de Hermitage: semelhança com o Douro

A região do Douro foi escolhida pelos ingleses no século dezessete para suprir o fornecimento de vinhos franceses, devido a várias guerras entre os dois países. Como o transporte deste vinho rústico duriense era extremamente demorado não só pela distância, mas principalmente pela dificuldade do relevo e inexistência de estradas, optou-se pela fortificação, dando mais resistência ao produto. Maiores detalhes, favor verificar neste mesmo blog artigos sobre Vinho do Porto em várias partes.

O importante nesta história é a perspicácia do homem como fator humano do chamado terroir, interferindo num estilo de vinho e marcando-o profundamente através da tradição. Recentemente, os vinhos de mesa do Douro ganharam notoriedade por conta novamente de uma mudança de mentalidade, ou seja, o fator humano mudando os rumos de uma região e trazendo novas opções de consumo.

Cores intensas: Porto (acima) e Hermitage (abaixo)

Já a região de Hermitage (apelação francesa no chamado Rhône do Norte), sempre optou por vinhos de mesa robustos, encorpados e em certa época, misturado aos vinhos de Bordeaux de safras problemáticas para darem mais corpo e estrutura aos tintos bordaleses. Se fosse o caso, este vinho poderia ser perfeitamente fortificado, tornando-se quem sabe, numa das mais autênticas cópias do grande fortificado português. 

Paisagem duriense

Enfim, a semelhança que deve ser observada entre estes dois grandes tintos é a potência e o poder de longevidade dos mesmos. A peculiaridade pouco comum desses dois vinhos partirem de um grupo de vinhedos é também notável. Os melhores Hermitages como Chave e La Chapelle (do produtor Paul Jaboulet) provêm de um maior número de vinhedos ou como os franceses preferem, climats (Méal, Bessards, Greffieux, Baumes, entre outros). Do lado do Porto, os melhores Vintages, os chamados clássicos, provêm também de várias parcelas (quintas) das melhores casas de Porto. Nos dois casos, cada parcela apresenta características distintas onde a mistura ou assemblage das mesmas geram vinhos mais equilibrados e complexos, melhorando o conjunto. Só para citar um exemplo, o belíssimo Porto Taylor´s Vintage provém das quintas de Vargellas, Terra Feita e Junco. Cada qual com características distintas, formando um todo harmonioso.

Outra coincidência relevante é a crescente individualização dos vinhedos. Atualmente, está em voga os chamados Hermitages de vinhedo e também, os chamados Portos de Quinta. A idéia é mostrar certas pecualiridades de terroir que compõem as melhores quintas de cada Casa. A Taylor´s por exemplo, engarrafa o espetacular Quinta de Vargellas, famosa por proporcionar aos vintages o caracteristico aroma de violetas. Mas a grande quinta em toda a região é o mítico Quinta do Noval Nacional, elaborado em certos anos sob rendimentos mínimos com parreiras pré-filoxera. A qualidade é magistral, contudo os preços são proibitivos. Quanto aos Hermitages de vinhedo, a Maison Chapoutier tem um ótimo grupo de vinhos, com destaque especial para o L´Ermite.

Château-Grillet: A apoteose da Viognier

10 de Junho de 2013

No artigo comentado sobre o estupendo vinhedo francês, Coulée de Serrant, foram mencionados outros grandes brancos da França. Dentre eles, o Château-Grillet, ainda não devidamente comentado “comme il faut”. Assim como Coulée de Serrant, este grande branco calcado na exótica cepa Viognier, goza de apelação própria num vinhedo de apenas 3,8 hectares. Portanto, Château-Grillet está para a apelação Condrieu no Rhône Norte, assim como Coulée de Serrant está para a apelação Savennières no Loire, ou seja, um enclave dentro da apelação mais genérica.

File:Chateau Grillet.JPG

Garrafa discreta, no atípico estilo alsaciano

Só para nos situarmos, seguem abaixo as principais apelações do chamado Rhône Norte, onde os tintos predominam. Outra apelação famosa por grandes brancos, é Hermitage, baseado nas uvas Marsanne e Roussanne. Normalmente, os vinhos elaborados com a casta Viognier são para ser tomados relativamente jovens, sobretudo pela baixa acidez natural. É o que acontece com a grande maioria dos vinhos sob a apelação Condrieu. Contudo, Château-Grillet parece ser uma exceção. Além do mais, sua elaboração engloba passagem por barricas, proporcionando maior estrutura ao vinho.

Principais apelações do Rhône Norte

A foto abaixo, mostra um vinhedo escarpado, lembrando um pouco a região do  Douro, onde as vinhas são plantadas em socalcos (muros de pedra para a contenção do terreno). As declividades podem ultrapassar os cinquenta por cento, lembrando também os vinhedos do Mosel na Alemanha.

Vinhedo imponente plantado em socalcos

Quanto ao solo (esquema abaixo), temos um subsolo rochoso à base de granito. O solo propriamente dito baseia-se em mica, areia grossa misturada com quartzo e granito decomposto em forma de pedras. Segundo os terroiristas, esta incrível mineralidade é a grande responsável pela longevidade deste vinho, muito mais que componentes como acidez, por exemplo. As vinhas apresentam densidade de pelo menos oito mil pés por hectares, gerando um rendimento em torno de 37 hectolitros por hectare.

Subsolo de base granítica

O vinhedo foi adquirido recentemente (2011) por François Pinault, proprietário do grandioso bordalês Château Latour (Pauillac), até então nas mãos da família Neyret-Gachet. Além do vinho, são produzidos no château duas eau-de-vie: Fine du Château-Grillet e Marc du Château-Grillet. Como já vimos em artigos anteriores, Fine refere-se ao destilado produzido a partir do vinho descartado para o Grand Vin, e Marc é o destilado a partir do bagaço das uvas na elaboração do Grand Vin, semelhante à grappa (italiana). Favor verificar artigo intitulado “Destilados: Marc e Fine Bourgogne.

Vinho e Gastronomia

O vinho, evidentemente, mostra as principais características da Viognier: aromas florais, pêssegos, damascos, mel, e alguns toques cítricos suaves. No envelhecimento, amêndoas e trufas se fazem presentes. Em boca, é um vinho sedoso, macio, acidez moderada, bela mineralidade, e expansivo, necessitando de decantação. Na juventude, faz boa parceria com peixes e carnes brancas acompanhadas de molho agridoce. Já com bons anos em adega, é companheiros de pratos requintados á base de trufas.

O vinho no Brasil pode ser encontrado na importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) da ótima safra de 2009. Para aqueles que podem adquiri-lo no exterior, os preços são bem mais atraentes, além de safras já envelhecidas, dificilmente encontradas em nosso país.

A busca pela caixa perfeita

30 de Julho de 2012

Todos nós ao longo dos anos, temos oportunidade de provar vinhos únicos, vinhos que se diferenciam dos demais por apresentarem equilíbrio notável, aromas e sabores raros, persistência aromática acima da média, e principalmente por serem provados na hora certa, no lugar certo e com as pessoas certas. São momentos mágicos e frequentemente nos pegam de surpresa. Geralmente, quando criamos espectativas superlativas, esses momentos não acontecem, ao contrário, é quando estamos desprevenidos que os grandes vinhos revelam-se.

Passados pouco mais de vinte e cinco anos em degustações, começo a pensar na caixa perfeita, aquelas doze garrafas que marcaram para sempre a memória gustativa, nomes muitas vezes relevantes que conquistaram respeito e prestígio não por acaso, mas fruto de um terroir diferenciado que é manifestado em vinhos singulares. Evidentemente, não são garrafas vitalícias, insubstituíveis, mas que pelo menos momentaneamente devem ser lembradas e descritas.

Caixa do Século: Wine Spectator

Este tema já foi explicitado recentemente com a famosa caixa do século XX da Wine Spectator. São vinhos e escolhas respeitáveis, mas muitos deles, não tive oportunidade de degustar, sobretudo as safras específicas. Dentro deste contexto, cada qual pode montar sua caixa, levando em conta experiência e gosto pessoais. Sendo assim, aqui vai a minha até o presente momento. Numa escala de pontuação pessoal, são todos vinhos entre 96 e 100 pontos, intervalo próximo à perfeição. Vide artigo neste blog: Critérios de Pontuação.

  1. Angelo Gaja dos seus três magníficos vinhedos (Costa Russi, Sori Tildin e Sori San Lorenzo). Qualquer um dos três em inúmeras safras são vinhos irrepreensíveis. Lembro-me da frase um grande degustador francófico: “Esses vinhos são tão bons, que nem parecem italianos”.
  2. Etienne Guigal Côte Rôtie de um de seus três vinhedos mágicos (La Landonne, La Moline e La Turque). São vinhos que conquistaram inúmeras vezes os cem pontos de Parker. Apesar de mais de quarenta meses em carvalho, o equilíbrio e finesse são notáveis.
  3. Chateau Mouton-Rothschild 1982. Já provei vários 82 de peso, mas este é para beber de joelhos. Como ainda não provei o 1945, fico com esta safra que alia potência e finesse no mais alto nível.
  4. Chateau Margaux 1983. Safra particularmente especial para a comuna, suplantando inclusive a própria safra de 82. Soberbo, misterioso e com muita vida pela frente.
  5. Porto Taylor´s Vintage 1994. Em todas as oportunidades, um completo infantícidio. Contudo, não estarei vivo para ver seu esplendor. Quem sabe, amparado por uma bengala.
  6. Domaine Trimbach Riesling Clos Sainte-Hune. A perfeição em Riesling no estilo seco, absolutamente mineral. Tenha paciência em guardá-lo e estará diante de uma obra-prima.
  7. Champagne Salon ou Krug Clos de Mesnil. Aqui existe um empate técnico. No fotochart, Salon por uma cabeça. Para quem gosta do estilo Blanc de Blancs, não há nada perto dessas maravillhas.
  8. Vega-Sicilia Unico safra 1970. Degustado com consistência em duas oportunidades e épocas bem distintas. Continua uma maravilha, fazendo deste mito o maior tinto da Espanha.
  9. Williams Selyem Russian River Pinot Noir. Enfim, um representante do Novo Mundo. Não é o melhor Pinot Noir do mundo, mas engana qualquer aficionado pela Borgonha no mais alto nível.
  10. Henri Jayer Cros Parantoux 1988. Degustado recentemente, conseguiu aliar delicadeza e personalidade sem que o tempo suplantesse seu frescor. Uma maravilha!
  11. Hermitage Paul Jaboulet Aîné La Chapelle 1990. Com todo respeito a Jean-Louis Chave, ainda não provei um Hermitage com a grandiosidade de La Chapelle. Um vinho monumental, com uma estrutura tânica invejável e extremamente longevo.
  12. Domaine Huet Vouvray Le Clos du Bourg Première Trie. Aqui está a delicadeza levada ao extremo. Chenin Blanc de rara pureza, aparentemente frágil, mas com uma estrutura e longevidade inacreditáveis. Além de Le Clos du Bourg, seus outros dois vinhedos são impecáveis: Le Haut-Lieu e Le Mont.

Revelados os personagens, inúmeras injustiças, faltas, esquecimentos e principalmente, dúvidas. Certamente, não é a caixa perfeita, mas são vinhos jamais indiferentes, que passam desapercebidos. São vinhos que tocam, mesmos os mais insensíveis.

Vale do Rhône: Parte X

4 de Junho de 2012

Neste último artigo, falaremos dos números atuais do Rhône. Segundo nosso site oficial (www.rhone-wines.com), a colheita de 2010 mostra os seguintes dados abaixo:

Dê um zoom no mapa acima

O Vale do Rhône é atualmente o segundo maior vinhedo da França. Em 2010, foram elaborados mais de dois milhões e oitocentos mil hectolitros de vinho numa área  de quase setenta e quatro mil hectares. A maior apelação de longe, é Côtes-du-Rhône. Com praticamente hum milhão e quatrocentos mil hectolitros, responde por quase metade de todo o vinho produzido no Vale do Rhône, conforme gráfico abaixo:

Vale do Rhône – Produção total: 2.833.154 hectolitros

Notem no gráfico acima que a apelação Côtes-du-Rhône Villages tem produção bem menor. Chamamos de principais apelações, aquelas mais famosas como Hermitage, Côte-Rôtie, Cornas, entre outras. Dentre estas, destaquei a apelação Châteauneuf-du-Pape com a maior produção entre as chamadas principais apelações, com somente três porcento de todo o total produzido.

As chamadas outras apelações incluem as seis últimas apelações citadas no último post (Vale do Rhône: Parte IX), destacando-se em produção, Costières de Nîmes, Luberon e Ventoux.

A porcentagem na elaboração de vinhos tintos em todo o Vale do Rhône é de 80%, ficando os rosés com 14% e os brancos com 6%. Evidentemente, conforme a apelação e os vários grupos de apelações, essas porcentagens variam um pouco, mas não há dúvida  que trata-se de uma região fundamentalmente de tintos.

Por hora, fazemos uma pausa neste importante vale, retomando o assunto em ocasiões e artigos oportunos.

Vale do Rhône: Parte III

10 de Maio de 2012

Nesta terceira parte, falaremos do imponente Hermitage. Um vinho poderoso, de grande estrutura e apto a longo envelhecimento. Outrora, reforçou os vinhos bordaleses, chamados de Clarets, fornecendo mais força e vigor. É um dos mais antigos vinhos franceses, mencionado na antiga Roma por Plinio, o Velho.

A majestosa montanha de Hermitage ao longo do Rhône

Passando pelas encostas da Côte-Rôtie, o rio Rhône segue seu curso na direção sul percorrendo aproximadamente 50 quilômetros. Neste ponto, o rio muda de direção a leste, formando um pequeno braço, antes de retornar seu caminho ao sul. Exatamente neste braço (vide foto acima), está a espetacular montanha de Hermitage, com vinhedos escarpados, voltados para a direção sul e protegidos dos fortes ventos. Na verdade, é um grupo de vinhedos contíguos, cada qual com suas pecualiaridades de solo e altitude. Nomes como Le Méal, Les Bessards, Les Gréffieux, às vezes são vinificados e engarrafados separadamente. Contudo, os grandes Hermitages são mesclas dos vários vinhedos onde a somatória das características individuais, enriquece o conjunto. Neste raciocínio, os maiores nomes da apelação ficam por conta de Jean Louis Chave e Paul Jaboulet Aîné com seu espetacular La Chapelle. Estes produtores detêm parcelas num maior número de vinhedos, gerando vinhos mais estruturados e complexos. São importados pela Mistral (www.mistral.com.br). Delas Frères da importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) e Marc Sorrel da importadora Premium (www.premiumwines.com.br) são também belas referências.

Chave: Grandes vinhos em grandes safras

Hermitage

Apelação com pouco mais de 130 hectares em sub-solo granítico e solos variados de xisto, pedras e micaxisto, conforme terroirs específicos, já mencionados acima.

Os tintos são elaborados com Syrah e eventualmente até 15% de Roussanne e Marsanne, brancas locais. Essas mesmas uvas brancas compoêm o Hermitage branco, que pode ser surpreendente. Muitas vezes um vinho meio sem graça na juventude, mas que pode evoluir de forma magnífica por longos anos.

Os rendimentos destes vinhos são bastante baixos, não passando dos 30 hectolitros por hectare. Os Côtie-Rôtie também obedecem este preceito.

Não tenha pressa em abrí-los. Um grande Hermitage pode evoluir por décadas. O La Chapelle 1961 está na caixa do século da Wine Spectator como um dos maiores vinhos de todos os tempos.

Vale do Rhône: Parte II

7 de Maio de 2012

Nesta segunda parte, vamos começar detalhar o chamado Rhône do Norte com duas apelações fantásticas: Côte-Rôtie e Hermitage. Outras serão mencionadas e comentadas, mas nada se compara a estes dois grandes vinhos baseados na casta Syrah.

As dramáticas encostas da Côte-Rôtie

Quando o rio Rhône caminha em território francês na direção norte sul passando pela cidade de Vienne, temos a oeste uma série de encostas de origem granítica extremamente íngremes. Aqui começa a famosa apelação Côte-Rôtie. Literalmente, encosta tostada, devido à perfeita incidência solar em relação à inclinação da montanha.

Côte-Rôtie

Apelação de 230 hectares em solos de xisto com base granítica. O relevo acidentado apresenta altitudes entre 180 e 325 metros com declividades muitas vezes acima de 60%. A uva dominante é a Syrah com permissão de no máximo 20% da branca local Viognier. Na prática, ou é 100% Syrah, ou 5 a 10% da exótica branca.

Dois terroirs famosos são denominados Côte de Brune e Côte de Blonde. O primeiro, com um solo argiloso mais escuro devido à presença de óxido de ferro. O segundo, de solo mais claro com presença de calcário e sílica.

São vinhos elegantes, estruturados e longevos. Em comparação com o rival Hermitage, é considerado um vinho feminino pela sutileza de seus aromas e sedosidade em boca.

Eis a trilogia dos cem pontos

Produtores de destaque: Étienne Guigal, sobretudo pelas três pérolas acima: Côte-Rôtie La Turque, La Mouline e La Landonne. Estão seguramente entre os melhores de toda a França e consequentemente, do mundo. Outro grande produtor é  René Rostaing, importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br). Já o produtor Vidal-Fleury é trazido pela Vinea (www.vinea.com.br).