Posts Tagged ‘porto tawny’

Menu Dia dos Pais

7 de Agosto de 2015

Data importante em nosso calendário onde além do presente, um belo almoço é obrigatório. Das inúmeras opções nos restaurantes da cidade, vamos citar algumas para um exercício de enogastronomia. A seguir, dois menus com entrada, prato principal e sobremesa. Um com toque francês e o segundo com acento italiano, tão apreciado pelos paulistanos.

Mercearia do Francês – http://www.merceariadofrances.com.br

  • Tartine de Ratatouille com Queijo de Cabra

Entrada que envolve pão, legumes e o queijo de cabra. Versátil na harmonização, podendo pedir vinho branco ou tinto, desde que sejam relativamente leves e joviais. Um Sauvignon Blanc fresco e moderno, um rosé da Provence, por que não?, um tinto com a uva Gamay (Beaujolais), ou até mesmo uma taça de espumante que pode ser a do brinde inicial. Evidentemente, um espumante leve, preferencialmente do método Charmat.

  • Carré de Cordeiro com Risoto de Açafrão e Trio de Cogumelos

Aqui um tinto com Cabernet Franc, Merlot ou Tempranillo, pode acompanhar bem o prato. Como temos cogumelos na receita, um toque de aroma mais evoluído no vinho é sempre bem-vindo. Um Rioja Reserva pode ser uma boa pedida. O Merlot é mais indicado para aqueles que não convivem bem com as sensações de taninos mais presentes. Em termos de textura com o risoto, o Merlot também se sai melhor.

  • Crepe de Doce de Leite com Sorvete de Creme

Sobremesa um tanto complicada para o vinho, sobretudo se o doce de leite for muito prevalente. É uma doçura difícil de ser igualada pela maioria dos vinhos de sobremesa. Como temos sorvete no prato, os vinhos fortificados ganham força neste caso. Talvez um Moscatel de Setubal ou um Jerez Cream (menos doce que o Pedro Ximenez) sejam a melhor solução.

Osteria del Pettirosso – http://www.pettirosso.com.br

  • Vitello Tonnato

Uma entrada clássica do Piemonte com fatias finas de carne fria e uma espécie de maionese de atum. Como há certa acidez, os brancos são mais indicados. Porém, precisam ter personalidade, não podem ser leves. Um Chardonnay de boa textura sem excessos de madeira é uma escolha segura. Os brancos do Piemonte com as uvas Arneis ou Cortese são as pedidas naturais.

  • Spaghetti al Ragu di Scampi (lagostim) e Tomate Fresco

Podemos continuar com o vinho anterior, mas pode ser um bom rosé com frescor. Um rosé italiano de Abruzzo com a uva Montepulciano ou um rosé da Toscana. Um branco com a uva Vermentino é mais uma opção italiana.

  • Paleta de Cordeiro assada a baixa temperatura com Alho, Pesto de Alecrim e Azeite (Spalla d´Agnello Aglio Arrostito e Pesto di Rosmarino)

Elementos como alho e alecrim de grande presença aromática pedem vinhos com a característica  e agradável rusticidade italiana. Um belo Sangiovese, um Brunello di Montalcino, ou um Vino Nobile de Montepulciano, são ótimas opções. Eles possuem força aromática e acidez suficiente para o prato. Os tintos da Campania com a uva Aglianico também devem ser lembrados.

  • Tiramisù

Clássica sobremesa à base de café e mascarpone (queijo cremoso muito delicado). Continuando na Itália, um Vinsanto fechando o almoço é maravilhoso. Passito di Pantelleria é uma opção segura também. Na falta dos italianos, um Porto Tawny resolve o problema.

Enfim, algumas dicas para não errar nos vinhos neste dia. Para grupos onde nem todos tomam vinho, fica difícil pedir várias garrafas durante a refeição. Neste caso, eleja a garrafa para o prato principal, deixando a entrada e a sobremesa para vinhos com opções em taças. É mais democrático, não há desperdício e o bolso agradece. Feliz  dia dos Pais!

Em Grandes Vinhos não há preconceito de cor

24 de Abril de 2015

Mais um encontro memorável entre amigos, e vinhos deslumbrantes. O responsável pelo almoço foi o Barolista e Borgonhês Roberto Rockmann, e que vinhos! Um Chablis inesquecível e um Barolo fora da curva. Mas antes de entrarmos nestes detalhes, vamos nos ater à sequência do almoço. De cara, o champagne abaixo, um belo rosé Laurent-Perrier, uma das especialidades da Maison.

Perlage e vivacidade notáveis

Traindo os belos Jerezes, champagne rosé combina muito bem com os insuperáveis presuntos Pata Negra. Na falta de champagne, um belo Cava Rosé cumpre bem o papel. A acidez equilibra a gordura da iguaria e seus aromas e sabores vão de encontro ao toque frutado do jamon. A sensação refrescante da harmonização prepara o paladar para o seguimento da refeição.

Dois rótulos para o mesmo prazer

A partir da foto acima, a coisa começa a ficar séria. Na apelação Chablis existe uma hierarquia inquestionável. Os produtores e primos, Dauvissat e Raveneau, são incontestes. Bem depois, puxam a fila três ou quatro bastante confiáveis e finalmente, os duvidosos, inconstantes, que muitas vezes decepcionam a maioria que cria expectativas com o glamour da apelação. O exemplar em questão era o Chablis da direita, safra 2008, um Premier Cru La Forest, decantado vinte e quatro horas antes de sua apreciação. E como fez bem esta decantação! A mineralidade, os tostados de avelã e sua salinidade, eram admiráveis. A sutil maciez advinda de um trabalho bem executado de bâtonnage (revolvimento das borras) lhe dá um acabamento incrível frente à avalanche de acidez em seu primeiro contato. A persistência e o final de boca são indescritíveis. A trouxinha de salmão abaixo casou perfeitamente com a mineralidade do vinho, além do casamento de texturas. Só para encerrar o capítulo Dauvissat, os dois rótulos acima trata-se do mesmo vinho, dependendo do mercado de exportação. Dado importante para uma compra segura.

Pureza de sabores entre vinho e prato

Antes de passarmos ao vinho principal, uma confirmação taxativa sobre a harmonização dos grandes Malt Whisky de Islay com salmão defumado. O alto teor de turfa é responsável por esse casamento. Os aromas medicinais do malte casam perfeitamente com a maresia do peixe. O malte escolhido foi o grande Laphroaig Ten Years Old. Inclusive serviu como Sorbet para limpar o paladar para a próxima etapa.

Mantendo o alto nível, agora entramos no tabernáculo da denominação Barolo. Este é um tinto piemontês que cativa muitos fãs mundo afora com seus produtores preferidos. Contudo, sejam quais forem, ninguém supera os irmãos Conterno, Aldo e Giacomo Conterno, em suas respectivas aziendas. O da foto abaixo degustado com muitas horas de decantação, vem da bela safra 1996 e um vinhedo único denominado Cicala. A cor ainda muito bem conservada, anunciava a impecável forma desta garrafa. Seus aromas eram de uma delicadeza incrível mesclando florais, terrosos, alcaçuz e notas magistralmente defumadas. Boca muito bem equilibrada com taninos de rara textura. Acompanhou magnificamente uma Rabada oferecida pelo anfitrião que ficou à altura do vinho. Simplesmente, um Barolo inesquecível.

Um Barolo de outro planeta

Castelnuovo Berardenga: um terroir único

Para acompanhar a rabada na eventual falta do Barolo, tivemos um toscano Fontalloro 1998 do sul do Chianti Classico, mais especificamente de Castelnuovo Berardenga. A cantina Félsina é extremamente fiel a este terroir. Um 100% Sangiovese em plena forma, mas naturalmente abaixo do monstro piemontês. Seus aromas de cerejas em licor, toques defumados, minerais (terroso) e de funghi, ajudaram a finalizar o prato e principalmente, arrematar um queijo Comté devidamente afinado. Pessoalmente, um dos melhores queijos franceses, originário da região do Jura.

Cores toscanas e piemontesas

A taça acima da esquerda trata-se do Fontalloro com preenchimento de copo mais denso e cor menos evoluída. A taça da direita pertence ao Cicala com cor menos densa no centro da taça e mais atijolada nas bordas. Como as idades dos vinhos são muito próximas (96 e 98), fica patente a quantidade discreta de antocianos nos vinhos piemonteses, perdendo a cor com mais facilidade, embora seus taninos sejam poderosos. Numa degustação às cegas, esse pode ser um dado importante.

Vista Alegre: um 30 anos sempre consistente

Com a tarde caindo, é hora das sobremesas. Várias tortinhas; de maça, pera e banana. O Tawny acima com seus toques a frutos secos, confitados e o característico caramelo, complementou bem os doces citados. É sempre um Porto muito consistente neste estilo com muita tipicidade. Bem equilibrado em álcool e açúcar residual, termina com um final muito agradável e elegante. Presente do doutor César.

Já no começo da noite, chega a hora da conversa na varanda. Como a temperatura estava mais para verão que outono, o drink cubano Mojito entrou em ação com vários Puros de respeito. Bolívar Belicosos, Partagas D4 e H. Upimann nº 2, encerraram a festa calmamente. Agradecimento aos amigos por mais este encontro inesquecível.

A versatilidade do Porto Tawny

15 de Janeiro de 2015

Por diversas vezes, falamos sobre Vinho do Porto nos seus mais variados temas e histórias. Voltando ao tipo Tawny, sabemos que a escala começa no Tawny básico, passando ao tipo Reserva, em seguida aos com declaração de idade (10, 20, 30 e 40 anos) e finalmente, ao excepcional e pouco conhecido Porto Colheita. Neste último, a data da safra e a data de engarrafamento devem constar obrigatoriamente no rótulo. Evidentemente, quanto maior for o espaçamento entre a colheita e o momento de engarrafa-lo, maior sua complexidade devido ao longo tempo da benéfica micro-oxigenação.

Os Portos com declaração de idade partem de um conceito um tanto subjetivo. Um 10 anos por exemplo, fala-se numa idade média no valor mencionado no rótulo, ou seja, um 10 anos apresenta diversos Tawnies com idades variadas onde a média perfaz 10 anos. Entretanto, sabemos que esta média não é exatamente aritmética. No fundo é uma média proporcional onde o que realmente vale é o exame sensorial. Traduzindo, a mescla de idades que os mestres de adega, com larga experiência gustativa neste tipo de vinho fazem, vai dar origem a um determinado Porto, o qual submetido à uma análise sensorial (visual, olfativo e gustativo), apresenta características de um Porto com a idade determinada no rótulo. Portanto, por trás de uma declaração de idade, existe muito mais sensibilidade do que uma exatidão cartesiana.

Porto Tawny 10 e 40 anos lado a lado

Deixando um pouco a teoria, a foto acima mostra a versatilidade deste tipo de Porto. Como exemplo, um Porto 10 anos. Embora tenha seus toques oxidativos, a força da fruta vermelha, madura, ainda se faz presente. Isso o torna mais intenso e menos sutil. Essas características vão de encontro com as frutas passificadas como é o caso das tâmaras, mas poderiam ser figos também. Já o marron-glacé, as famosas castanhas cozidas e finamente glaceadas, puxam mais para frutas secas e caramelo. Portanto, os toques bem mais terciários e oxidativos de um Porto 40 anos, caminham de mãos dadas neste tipo de harmonização.

A título de experiência, a famosa Tarte Tatin, ou seja, a torta de maçãs carameladas, pode acompanhar muito bem um Porto 20 anos. Pode ser uma ótima surpresa e alternativa aos belos doces do Loire ou da Álsacia, parceiros clássicos para este tipo de sobremesa.

Tarte Tatin: Clássico francês

Para completar o quadro, um Porto 30 anos com Tiramisù, conforme foto abaixo:

Clássico sem releituras

No fundo, no fundo, mesmo nas chamadas harmonizações clássicas, a sutileza dos elementos envolvidos dão a precisão mágica nas harmonizações, ou seja, nem todo cordeiro combina com Bordeaux; nem todo queijo de cabra combina com Sauvignon Blanc, e assim por diante. É preciso pesquisar bem tanto a comida (receita, ingredientes, técnicas de preparo, etc …) como a bebida, no caso vinhos (safra, estilo do produtor, momento de evolução em garrafa, etc …), para que tudo se encaixe perfeitamente. E é esta perfeição que faz a magia tão difícil de ser alcançada.

Os Grandes Portos: Vintage ou Colheita?

4 de Agosto de 2014

Essa questão mais uma vez ficou sem resposta após bela degustação de Portos na ABS-SP (Associação Brasileira de Sommeliers). Na apresentação foi mostrado os dois lados da moeda, ou seja, o caminho da preservação da cor, o pouco contato do oxigênio na sua elaboração e o envelhecimento em garrafa, em meio redutivo. Do outro lado, a intensa micro-oxigenação  dos vários anos em madeira, culminando em cores e aromas fascinantes.

O painel completo era composto somente de Portos de categoria especial, de produção extremamente reduzida em relação ao volume total anual. O LBV (Late Bottled Vintage) 2007 da Burmester abriu os trabalhos com cores e sabores jovens, vislumbrando muita vida pela frente. Em seguida, começou a série de Tawnies com um belo 10 anos da casa Ramos Pintos da distinta Quinta da Ervamoira, muito bem elaborado e equilibrado. Logo após, o Porto 20 anos da jovem casa Churchill com aromas um pouco tímidos de início que foram se mostrando numa bela evolução na taça. O ponto culminante encerrando a série, foi o excepcional Porto Krohn Colheita 1983. A safra por si só já é muito boa, mas o longo período em barricas (27 anos) lapidou de forma brilhante este não tão admirado estilo de Porto. Para encerrar a festa, um Porto Vintage de Quinta da mais antiga casa inglesa de Portos, a tradicional Warre´s do grupo Symington,  fundada em 1670, bem antes da famosa demarcação da região em 1756. Veja os exemplares na foto abaixo:

Os dois estilos perfilados

O estilo Tawny ou aloirado é bem aceito e conhecido dos apreciadores de Porto. Entretanto, o Porto Colheita, ícone maior desta categoria é pouco conhecido e compreendido. Apesar deste assunto já ter sido explanado em outros artigos deste mesmo blog, vamos enfatizar os pontos principais. Como o próprio nome diz, este Porto nasce de uma única safra expressa no rótulo. Ele deve permanecer em madeira, geralmente pipas de 550 litros, por pelo menos sete anos, conforme legislação vigente. Evidentemente, as grandes casas especializadas nesta categoria obedecem a lei com folga, deixando o vinho por longos anos em madeira, antes de engarrafa-lo. E a grande transformação ocorre neste longo período, onde a lenta e progressiva micro-oxigenação promove mudanças de cores, aromas e texturas, culminando num grande equilíbrio e complexidade. Sua cor torna-se esmaecida, seus aromas etéreos e uma textura sedosa. O pulo do gato neste estilo é a destacada acidez, componente essencial para transmitir frescor, e manter o equilíbrio perfeito frente ao elevado teor alcoólico e de açúcar deste tipo de vinho fortificado. Portanto, além da declaração da safra no rótulo, é obrigatória a declaração da data de engarrafamento do Colheita, o qual pode ter várias partidas engarrafadas ao longo de sua vida, ganhando cada vez mais complexidade com os anos em madeira. Após o engarrafamento, esta categoria de vinho cessa seu período de evolução, podendo ser consumido imediatamente ou guardado para um momento propício. No exemplar abaixo, os vinte e sete anos em madeira fizeram muito bem ao belo Krohn Colheita 1983, engarrafada somente em 2010.

Cor topázio, típica dos grandes Colheitas

Já no outro lado da moeda, o grande rival Vintage da casa Warre´s, Quinta da Cavadinha 1996. Os Vintages bem elaborados, de grandes safras e de grandes casas, parecem ser quase imortais. Reparem a pouca evolução de cor deste exemplar, conforme foto abaixo:

Cavadinha 1996: Vintage de Quinta

Os aromas também não estavam totalmente evoluídos. Com muita fruta escura macerada em álcool, lembrando belos licores, os aromas de fumo, especiarias e chocolate vinham logo em seguida. Em boca, taninos ainda muito presentes, equilibrados com os demais componentes de acidez, açúcar e álcool. Persistente e marcante, vislumbra pelo menos algumas décadas pela frente. Enfrentou muito bem seu companheiro de mesa, o clássico Stilton, queijo azul de origem inglesa.

Lembrete: Vinho Sem  Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

 

Dez dicas para o final do ano

19 de Dezembro de 2013

Final de ano, hora de pensar nas receitas de Natal e Ano Novo. Junto com elas vêm as dúvidas sobre os vinhos e as harmonizações. Já comentamos muito neste mesmo blog as principais harmonizações desta época do ano. Contudo, segue abaixo um guia prático esclarecendo algumas das principais dúvidas.

  • Qual espumante escolher? 

Normalmente escolhemos o tipo Brut, aceito pela maioria das pessoas. É ideal para receber os amigos, acompanhar petiscos, salgadinhos e as primeiras comidinhas. Dependendo do bolso de cada um e do tamanho da festa, podemos optar por nacionais, os Cavas (Espanha), os Proseccos (Itália) ou os franceses (Champagne ou Crémant).

  • Para acompanhar o Tender

Normalmente, as receitas de Tender vão para o lado agridoce. Os toques defumados e esta tendência adocicada casa bem com rieslings alsacianos ou alemãos com doçura compatível ao teor de açúcar da receita. Além disso, os toques minerais do riesling harmonizam-se bem com o defumado da carne. Por ser um prato bastante aromático, o Gewurztraminer da Alsácia também é uma boa alternativa. Espumantes moscatéis é outra ideia interessante.

  • Para acompanhar o Peru de Natal

A carne de peru tende a ressecar, sem falar nos acompanhamentos que reforçam esta característica (arroz com frutas secas e farofa). Portanto, fuja de vinhos tânicos que costumam travar o paladar. O ideal são brancos á base de Chardonnay ou tintos com Merlot que conferem uma certa untuosidade ao prato. Molhos ou acompanhamentos agridoces reforçam essas escolhas.

  • Para o Lombinho do Porco

Outro prato onde a carne costuma ressecar. Vale os mesmos princípios acima citados. Os vinhos podem ser um pouco mais encorpados e com acidez mais presente, mantendo as dicas de brancos e tintos para o peru. Um certo toque de madeira pode enriquecer a harmonização, sem exageros. 

  • Para o Cordeiro

O clássico pernil ao forno com ervas é muito bem escoltado com os tintos bordaleses de margem esquerda. A trama fechada da carne com a devida suculência e os toques herbáceos são um prato cheio para os Cabernets tânicos da nobre região do Médoc. Outros cortes e receitas podem mudar a escolha para a margem direita ou para tintos de outras regiões vinícolas.

  • Para a Leitoa

A leitoa, rica em sabor e gordura, precisa de vinhos de boa acidez. Os espumantes mais estruturados, preferencialmente elaborados pelo método tradicional (tomada de espuma na própria garrafa) costumam fazer bonito. Os tintos bairradinos (famosa região vinícola da Bairrada, próxima à Coimbra) que aliam acidez e taninos são sempre lembrados. Os italianos com as uvas Sangiovese (Toscana) e Barbera (Piemonte) são opções bem interessantes.

  • Para o Bacalhau

A eterna dúvida, tinto ou branco? Os brancos amadeirados e evoluídos com um certo toque de rusticidade são sempre belas escolhas. Já os tintos da península ibérica costumam acomodar-se melhor. Riojas envelhecidos (Reserva ou Gran Reserva) e tintos de muita fruta e taninos dóceis do Alentejo são ótimos companheiros. Evidentemente, particularidades de cada receita podem definir com maior precisão a escolha correta.

  • Para o Panetone

Estamos falando do panetone tradicional, aquele com frutas cristalizadas. Voltando aos espumantes, os doces à base de Moscatel são ideais, formando uma sintonia de sabores muito interessantes. O Asti Spumante é o pioneiro, mas várias ótimas cópias nacionais dão conta do recado.

  • Para as Frutas Secas

Não só as frutas em si (nozes, avelãs, amêndoas, etc…), mas tortas e bolos com esses mesmos ingredientes, pedem um vinho do Porto ou um Madeira, ambos fortificados. Preferencialmente, escolha os Portos de estilo Tawny, com aromas e sabores mais sintonizados com este tipo de fruta. Os Madeiras podem ser desde os mais secos como Sercial e Verdelho, sobretudo se as frutas forem servidas como aperitivo, ou os mais doces, Boal e Malmsey, para finalizar a refeição.

  • Para as Rabanadas

Na mesma linha da dica precedente, os fortificados portugueses são combinações clássicas. Contudo, prefira Portos mais simples, portanto menos concentrados no estilo Tawny. Um Madeira Boal pode ser perfeito com o açúcar das rabanadas sem exagero. Late Harvests com toques abaunilhados e de especiarias podem ser boas alternativas, tomando cuidado para não serem untuosos demais.

De resto, é curtir o momento com os amigos e testando novas opções de harmonização com muito humor e divertimento. Afinal, estamos sempre aprendendo, mesmo nos momentos mais descontraídos. 

Grande abraço, Boas Festas a todos que acompanharam Vinho Sem Segredo durante este ano. Feliz 2014!

Last Dinner on the Titanic

26 de Setembro de 2013

Normalmente, jantares memoráveis terminam com um final feliz, reconfortante e prazeroso. Não foi o caso do último jantar do fatídico Titanic no ano de 1912, em sua viagem inaugural e infelizmente, única. Evidentemente, as refeições eram preparadas de acordo com a classe social. O jantar mais requintado desta noite foi “The First-Class Menu Private” com a sequência de dez pratos, conforme foto abaixo:

Jantar para terminar no céu

Os pratos, muito bem escolhidos eram da clássica cozinha francesa, fortemente repaginados pelo grande Chef françês da época, Auguste Escoffier, o qual se tornaria uma lenda entre os melhores de todos os tempos. Um dos pratos do menu é o Consommé Olga, mostrado na foto abaixo:

Titanic Consommé OlgaPrato requintado à base de caldo de vitela acompanhado de vieiras

Seguindo o menu a risca, vamos à sequência de pratos:

  • Primeiro prato: Ors d´Hoeuvrers Oysters (foto acima)

Se for Ostras à Rússia, complica um pouco a harmonização, pois entra vodka na composição do molho que é incorporado às ostras frescas. Neste caso, é melhor um Champagne Brut Nature Blanc de Noirs para enfrentar este potente sabor do destilado.

  • Segundo prato: Consommé Olga

Este prato tem um sabor enfático, porém delicado do caldo de vitela. As vieiras dão requinte ao prato com sabor marinho, pois são colocadas cruas com o caldo quente em cima. O Jerez ou Sherry seria um acompanhamento clássico. Contudo, um Madeiro Sercial, o mais seco em estilo e com certa salinidade pode ser uma bela escolha.

  • Terceiro prato: Poached Salmon with Musseline Sauce

Este salmão é escalfado num molho com água, vinho branco, louro, cebola e pimenta. Após este cozimento no líquido, o salmão é disposto no prato e coberto com molho Musseline à base de gemas, manteiga, suco de limão, endro (aneto) e creme de leite. Um belo Riesling alemão Kabinnet do Mosel com seu caráter elegante garante uma harmonização à altura do prato, combatendo a gordura do molho com sua habitual acidez.

  • Quarto prato: Saute of Chicken Lyonnaise

Neste prato de frango, o mesmo é preparado à milanese, com farinha  aromatizada ao tomilho. Ele é rapidamente selado e levado ao forno para cozimento. Na própria frigideira que selou o frango, é adicionado cebola , alho, tomilho e vinho branco para o déglaçage. Após esta operação, acrescente massa de tomate e açúcar. Neste caso, um borgonha tinto da Côte de Beaune fará boa parceria com o prato. Pode ser um Volnay ou Savigny-Lès-Beaune.

  • Quinto prato: Lamb Mint Sauce (foto acima)

Cordeiro com Bordeaux é uma escolha óbvia e tradicional. No entanto, temos um molho à base de menta com um certo caráter agridoce. Neste molho, além da hortelã, temos aceto balsâmico, açúcar, um pouco de vinagre e mostarda no tempero de cordeiro. Com isso, o molho fica mais vibrante, exigindo um vinho vigoroso, mais jovem e de bom frescor. Um Cabernet Sauvignon de Coonawarra (região australiana comentada em artigo especial neste mesmo blog) com um toque de menta no aroma seria bastante apropriado.

  • Sexto prato: Punch Romaine (foto acima)

Aqui temos um descanso para o paladar. Punch Romaine é um cocktail que funciona como sorbet. É feito à base de champagne ou espumante, vinho branco, gelo, suco de laranja, suco de limão, rum branco e cascas de laranja finamente descascada. Um bom intervalo para continuar a sequência de pratos.

  • Sétimo prato: Roast Squab & Cress

Novamente uma ave. Desta vez, pombo assado em cama de agrião refogado. O molho do assado envolve vinho Madeira e bacon. Aqui podemos pensar de novo num Borgonha tinto, não da Côte de Beaune, e sim da Côte de Nuits. Um Chambertin pode ter a textura e a força necessária para o prato. Preferencialmente, envelhecido por pelo menos dez anos.

  • Oitavo prato: Cold Asparagus Vinaigrette

Este prato consiste em cozinhar os aspargos na água ou vapor e em seguida dispô-lo numa travessa e cobrir com um molho à base de alho, cebola, vinagre de vinho tinto, mostarda, azeite, suco ded limão e pimenta. Por cima, ovos cozidos fatiados. Neste caso, ovos e aspargos são ingredientes difíceis com vinho. Um bom Sauvignon Blanc do Novo Mundo, jovem e fresco, pode dar conta do recado. A sugestão é um sul-africano da região de Constantia, distrito pertencente à cidade do Cabo.

  • Nono prato: Patê de Foie Gras Celery

Este patê de foie gras é guarnecido com aipo (também conhecido como salsão, bastante perfumado). É evidente que um Sauternes ou algum dos clássicos vinhos botrytisados (franceses ou alemães) são companhia perfeita para o prato. Contudo, como teremos um Tokaji na sequência, conforme descrição abaixo, uma bela alternativa é um Porto Tawny, preferencialmente com declaração de idade de vinte anos.

waldorf-pudding

  • Décimo prato: Waldorf Pudding (foto acima)

Esta clássica sobremesa da época é composta por maças levemente caramelizadas com açúcar e manteiga, forrando posteriormente uma forma untada. O creme que será introduzido na forma é feito com leite, gemas de ovos, noz moscada, baunilha e uma mistura de uvas passas, gengibre e suco de limão. A forma é levada ao forno médio em banho-maria. Depois de desenformado, a torta é servida gelada com um molho leve à base de baunilha. Um Sauternes ou um Tokaji 5 Puttonyos (vinho húngaro de sobremesa, rival à altura dos vinhos doces bordaleses) será perfeito.

Vale a pena lembrar que o quarto, quinto e décimo (sobremesa) pratos  tinham duas ou mais opções de escolha. Não comentaremos neste artigo as mesmas para não ficar muito longa a dissertação.

Depois de todo esse pecado da gula, restaram aos “felizardos” rezar um Pai Nosso antes do fim trágico. O comandante do navio que o diga, “a pressa é inimiga da perfeição”.

Caminhos da Enogastronomia

11 de Julho de 2013

Em artigo recente, falei de algumas combinações clássicas que estão sendo esquecidas em certas publicações, mas também comentei que a prospecção de novas harmonizações não devem ser descartadas, sempre dentro de um raciocínio lógico que inclui em última análise o chamado bom senso. Para dar alguns exemplos, vamos ao primeiro deles:

Foie Gras Grillé aux Pommes

A peça de foie gras crua cortada em pedaços e posteriormente levemente grelhada é um prato de grande refinamento, acompanhado pelo clássico vinho doce de Sauternes. Entretanto, podemos eventualmente mudar este cenário para um Porto Tawny com declaração de idade ou melhor ainda, um grande Colheita (há vários artigos neste blog sobre vinho do Porto). A combinação com vinho de Sauternes também já foi comentada em artigos deste blog. A mudança fundamental para o vinho do Porto é basicamente trocar álcool por açúcar (componentes do vinho). Para aqueles que incomodam-se com a evidente doçura e untuosidade (alto nível de glicerol) de um autêntico Sauternes, podem optar pelo Porto, menos doce e untuosidade mais comedida. Ele continua ter a mesma presença e força aromática do Sauternes, mas o açúcar residual sensivejmente menor é compensado pelo álcool, já que trata-se de um vinho fortificado. E por que a escolha Tawny e não Ruby? 

Primeiramente, os Tawnies tem um componente de acidez mais relevante que os Rubies e taninos mais polimerizados e menos evidentes. Os aromas terciários do Tawny com toques empireumáticos (caramelo), além de frutas secas e frutas em calda (laranja, cidra, damascos) têm muito mais a ver com os aromas do prato. É uma bela experiência com Tawnies preferencialmente de 20 anos de idade declarada ou um Colheita equivalente. Temperatura de serviço em torno de catorze graus. 

Culinária Japonesa

O segundo exemplo é a consagrada harmonização entre espumantes, champagnes, com a comida japonesa. De fato, a leveza, o frescor, a textura, são fatores importantes neste casamento. Ocorre que originalmente, a bebida indicada e continua sendo, para acompanhar estes pratos é o saquê (bebida elaborada com a fermentação de arroz, atingindo teor alcoólico em torno de dezesseis graus). A velha máxima vale aqui também: pratos locais com bebidas locais.

No mundo do vinho, o que mais se aproxima do saquê é tradicional vinho de Jerez, especialmente os da categoria Fino. Dentro desta especialidade, a Manzanilla é ainda mais indicada, sobretudo com sashimis. Ele apresenta o mesmo frescor dos espumantes, com uma personalidade bastante própria. Seu teor alcoólico é semelhante ao saquê, e os preços podem ser convidativos. Servi-los gelados, em torno de oito graus, mesma temperatura recomendada aos espumantes.

Risoto de Abóbora com Carne Seca

Este terceiro exemplo também já foi comentado neste blog como uma das mais surpreendentes harmonizações. Trata-se de um prato regional elaborado com técnica italiana (efeitos da globalização). Portanto, aqui não existe ainda uma harmonização clássica. Contudo, um Tokaji três Puttonyos elaborado de maneira tradicional (característica oxidação) é algo que vale a pena experimentar. O vinho tem personalidade para a carne seca e seu toque oxidado casa-se muito bem com o sabor da carne. A acidez combate bem a eventual gordura e a doçura do vinho é perfeita com o toque adocicado da abóbora.

A bela opção para quem não abre mão de um tinto são os vinhos de Rioja elaborados pela escola tradicional, sobretudo Reserva e Gran Reserva. Os taninos costumam ser bem domados e acidez é o ponto alto de seu equilíbrio. Os aromas levemente oxidados, as frutas em compota e seus toques empireumáticos e de baunilha equilibram a sutil doçura do prato. O eventual excesso de sal, se houver (a carne deve ser devidamente dessalgada), não incomoda a leve tanicidade do vinho. O corpo do vinho também é bem adequado à textura do risoto.

Enfim, é isso. Podemos sempre procurar novas alternativas, descobertas, calcadas nos verdadeiros princípios da enogastronomia baseada em atitudes de bom senso. Sempre é bom lembrar que estas experiências devem ser testadas previamente para que seus convidados e amigos não sirvam de cobaias. 

Páscoa e Chocolate

25 de Março de 2013

Os ovos de Páscoa, por mais tentadores e atraentes que sejam, dificilmente harmonizam com vinho. Esse assunto já foi comentado neste blog sob o título “Harmonização: Vinho e Chocolate”. Dois fatores contribuem para o problema, pois estamos falando de chocolate ao leite. A doçura é demasiada e a textura untuosa também. Entretanto, quando aumentamos a porcentagem de cacau, os chamados chocolates escuros ou amargos, as possibilidades de harmonização são bastante ampliadas. Normalmente, os vinhos fortificados apresentam força e doçura compatíveis com a harmonização.

Sendo um pouco mais específico, muitos chocolates escuros são combinados com diversos ingredientes tais como: frutas secas, frutas cítricas, frutas vermelhas, caramelo, entre outros. É o caso da foto abaixo.

Chocolates com alta porcentagem de cacau

Quando as frutas secas estiverem presentes, normalmente amêndoas e avelãs, os vinhos da ilha da Madeira e Portos no estilo Tawny combinam muito bem. Quanto maior a porcentagem de cacau, menos açúcar exige-se do vinho. Geralmente, um Madeira Boal ou Malmsey dá conta do recado. No caso do Porto Tawny com declaração de idade, os chamados 20 anos (twenty years old) parecem ser ideais. Esses vinhos naturalmente evocam aromas de frutas secas, torrefação e especiarias que vão de encontro aos aromas do chocolate.

Se o recheio for de frutas vermelhas ou escuras, Portos no estilo Ruby caem muito bem. Os chamados LBV (Late Bottled Vintage) apresentam ótima relação qualidade/preço. Quinta do Noval, Fonseca e Taylor´s são casas irrepreensíveis. O famoso francês VDN (Vin Doux Naturel) Banyuls no estilo Rimage (espécie de estilo Ruby na nomenclatura local) são altamente indicados. A opção italiana do Veneto, Recioto della Valpolicella (versão doce do Amarone) também não pode deixar de ser lembrada, principalmente com porcentagens de cacau acima de oitenta. Estes estilos de vinho lembrando frutas vermelhas formam um elo de ligação perfeito com o chocolate.

Por fim, se o recheio admitir frutas cítricas (normalmente a laranja), o fortificado português Moscatel de Setúbal tem tudo a ver com os toques citrinos. Alternativas como o francês Muscat Beaumes de Venise e alguns vinhos de Colheita Tardia (Late Harvest) à base de moscatel, desde que tenham boa doçura e untuosidade, podem ser considerados.

Nesta Páscoa, deixe os ovos com a meninada e parta para harmonizações mais instigantes com chocolates escuros, a não ser que sejam ovos como da foto acima. São menos doces e apresentam propriedades antioxidantes. A saúde agradece.

Harmonização: Queijo Manchego

9 de Julho de 2012

O mais emblemático queijo espanhol produzido em boa parte de La Mancha, região central e árida da Espanha. Juntamente com o Roquefort (França) e Serra da Estrela (Portugal), forma a trilogia dos mais famosos queijos de leite de ovelha. Evidentemente, as condições de terroir permitem uma textura mais rija em La Mancha, região seca e árida, e mais cremosa, na fria e úmida região de altitude em Serra da Estrela, já comentada em recente artigo anterior.

Selo de origem com a figura de Don Quixote

Dentro de uma área de aproximadamente quatro milhões e meio de hectares, compreendida nas províncias de Albacete, Ciudad Real, Cuenca e Toledo, um enorme rebanho de ovelhas da raça manchega, adaptada há séculos neste clima inóspito, fornece a matéria-prima ideal para elaboração deste prestigioso queijo enquadrado na categoria DOP (Denominacíon de Origen Protegida) desde 1996. Maiores detalhes, consultar site do Conselho Regulador (www.quesomanchego.es).

Depedendo do processo de cura, o queijo adquire sabores e textura diversos e consequentemente, harmonizações distintas. Começando pelo Manchego Fresco, maturado somente por duas semanas, é produzido em quantidades mínimas e dificilmente encontrado fora de sua região de origem. Já o Manchego Curado, o de maior produção, matura entre três e seis meses geralmente, lembrando um delicado aroma de nozes. Por fim, o intenso Manchego Viejo, maturado entre um e dois anos, com aromas mais pungentes e picantes.

Zona Amparada de la D.O.

 

 

 

 

 

 

 

 

Zona de Produção

Para o Manchego Fresco, dificilmente encontrado, um Rioja Blanco baseado na uva Viura (também conhecida como Macabeo) pode ser interessante. Até a categoria Crianza, onde o vinho tem um contato relativamente curto com a madeira (geralmente seis a oito meses), o vinho apresenta força e acidez suficientes para enfrentar o queijo e sua gordura mais evidente e levemente cremosa. Um Chardonnay com leve passagem por madeira surte o mesmo efeito.

No caso do Manchego Curado, se a opção for ainda um branco, podemos optar por um Rioja Reserva ou Gran Reserva, observando a calibragem de aromas e sabores entre vinho e queijo. Neste caso, a preferência são por tintos de categoria Reserva ou Gran Reserva tanto de Rioja, como de Ribera del Duero. O importante é que o vinho tenha força suficiente e taninos bem moldados. Opções de outros países como Itália, Portugal ou França; podem ser Chianti Clássico Riserva, Douro Reserva ou Bandol envelhecido (tinto marcante da Provença), respectivamente. Uma outra bela opção é um Jerez Amontillado ou um raro Manzanilla Pasada (Manzanilla com notas oxidativas). A importadora Mistral (www.mistral.com.br) tem um ótimo da Bodega Hidalgo.

Por fim, o potente Manchego Viejo pede vinhos de muita personalidade. Jerez Oloroso pode ser sublime. Outros fortificados da península ibérica cumprem bem a missão a exemplo de um Madeira Verdelho ou um Porto Tawny 20 anos. Se a opção for por tintos, reserve os mais potentes com bom grau de envelhecimento, como os grandes Amarones.

 

Harmonização: Foie Gras

6 de Dezembro de 2010

Todo mundo sabe que Sauternes combina com foie gras (literalmente fígado gordo), fígado este, que pode ser de ganso (oiel) ou pato (canard), nas preparações mais sofisticadas. De fato, o vinho botrytizado adquire características específicas para a harmonização em questão: intensidade e requinte de sabores de ambos, o contraste entre doce e salgado, acidez do vinho combatendo a gordura do prato, e por fim, a similaridade de texturas. Neste último item, cabe a observação da untuosidade de ambos, provocada por agentes externos. No caso do vinho, um dos efeitos colaterais é a produção excessiva de glicerol frente ao ataque do fungo Botrytis Cinerea. Já no caso do fígado, a alimentação induzida de cereais (milho) conhecida como gavage, provoca excesso de gordura no mesmo (anomalia conhecida como Esteatose Hepática), tornando-o claramente gorduroso.

Peça inteira de Foie Gras

O foie gras entier como na foto acima, é a base para todos os tipos. Evidentemente, neste estado virgem, nas mãos de quem sabe manipulá-lo e prepará-lo, apresenta textura e sabores inigualáveis, conforme receita abaixo.

Foie Gras com mostarda em grãos e cebolas glaceadas

Fugindo um pouco da harmonização óbvia, poderíamos pensar em alternativas com vinhos fortificados, por exemplo. Para algumas pessoas, a harmonização tradicional pode se tornar um tanto cansativa pelo excesso de untuosidade do conjunto, além de causar problemas de readaptação do palato na sequência da refeição.

A idéia é trocar parte do açúcar por um incremento de álcool, componentes que estão do mesmo lado da balança. Experimente um Porto Tawny ou um Madeira Verdelho com patê de foie gras. A doçura é bem mais comedida, compensada pela força do álcool. Os sabores se completam, com o vinho fornecendo notas balsâmicas e oxidativas ao conjunto.

No caso de uma fatia de foie gras grelhado com molhos de frutas e certa doçura, o vinho precisa ser calibrado. Os Portos no estilo Tawny devem ser mais jovens como um 10 anos, por exemplo. Podem ser de estilo Ruby, no caso de frutas vermelhas. Os Madeiras precisam ser do tipo Boal ou Malmsey para fazerem frente ao açúcar do molho. Se o molho envolver frutas cítricas como a laranja, os moscatéis podem entrar em ação. Particularmente, acho os de Sétubal um pouco pesados para este caso, mas um Beaumes-de-Venise ou um Muscat de Rivesaltes, podem ser surpreendentes.

Enfim, a enogastronomia nos permite certas aventuras, fugindo do tradicional. Porém, sempre fundamentadas em princípios lógicos, buscando alternativas que possam repensar conceitos.