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Taças Riedel: Malbec

13 de Maio de 2013

Dentre os inúmeros acessórios no chamado serviço do vinho, as taças assumem enorme importância. Costumamos dizer: um vinho servido em taça e temperatura de serviço inadequadas, pode vir a ser uma caricatura de si mesmo. E falando em taças, a cristaleria austríaca Riedel é sinônimo de referência e pioneirismo. Evidentemente, podemos hoje em dia falar de marcas como Spiegelau, a nacional Strauss e a politicamente correta Schott Zwiesel, a qual utiliza na sua fabricação Titânio e não Chumbo. Outra vantagem, é sua notável resistência às manipulações do dia a dia, sobretudo em restaurantes e grandes eventos.

Riedel: o conteúdo determina o continente

A concepção de uma taça Riedel vai muito além da beleza e da estética. Praticamente, é uma obra de engenharia. A altura, o volume, o formato e principalmente o ângulo referente à borda da taça, são de suma importância para o sucesso da degustação. Observem na foto acima, as três taças alinhadas. A da esquerda, é uma taça para vinhos elaborados com a uva Pinot Noir. Seu ângulo de inclinação de borda é acentuado além de ser uma taça mais aberta (diâmetro da circunferência de borda), visando enfatizar a percepção da acidez, já que o vinho em contato com a boca escorre preferencialmente pelas laterais da língua. 

A taça central é a que apresenta o menor ângulo de borda com as laterais praticamente paralelas. Esta taça além de ser utilizada para os tintos de Bordeaux, é adequada para Cabernet Sauvignon e mesmo para tintos com a uva Tannat, todas com taninos bem presentes. Pois bem, este formato faz o vinho correr mais pelo centro da língua, enfatizando o sabor doce e a percepção mais adequada dos taninos em termos de textura.

Os cativantes Malbecs mereceram a atenção da Riedel

Por fim, a taça da direita enfatizada na foto acima, é a mais recente concepção da Riedel. De fato, se repararmos atentamente, seu ângulo de inclinação fica entre as outras duas taças comentadas a pouco. Como os vinhos elaborados com Malbec na Argentina são francos e com taninos dóceis, podemos aumentar um pouco a percepção da acidez sem esquecer sua modesta estrutura tânica, ou seja, seus vinhos não são tão austeros como os Cabernets, e nem tão delicados como os elaborados com a Pinot Noir.

Para aqueles que não têm a nova taça de Malbec, a taça Riedel para a uva Syrah pode substituí-la a contento. Aqui vale um lembrete importante. O Malbec original, francês, embasado na apelação Cahors, normalmente é mais tânico e austero  que seus irmãos argentinos. Portanto, dependendo do vinho e da filosofia do produtor, a taça para Bordeaux (a do meio na primeira foto) pode ser mais adequada.

Em resumo, dependendo da estrutura  e características de cada tipo de vinho, podemos escolher perfeitamente a taça mais adequada. É o princípio Riedel: “O conteúdo determina o continente”. 

Principais Uvas Européias

15 de Abril de 2013

Estudos recentes mostram o panorama atual do vinhedo europeu, destacando-se os principais países como Espanha, França e Itália. O quadro abaixo mostra as principais uvas plantadas em milhares de hectares. 

Uvas espanholas no topo da lista

Para quem já sabia, a uva branca espanhola Airén reina absoluta no vinhedo espanhol, sobretudo nas regiões de La Mancha e Valdepeñas. Embora com produção bem mais modesta que de outros tempos, ainda se presta para vinhos baratos,  para misturas com outras castas, e também para destilação na elaboração de Brandies, inclusive no famoso Brandy de Jerez. Esta uva sozinha apresenta o dobro de área plantada de toda a Alemanha.

Outra espanhola no topo da lista é a onipresente Tempranillo. Com vários sinônimos por toda a Espanha, ganhou fama e prestígio sobretudo nas regiões de Rioja e Ribera del Duero. Nos últimos tempos, ganhou força nas regiões de La Mancha e Castilla y Léon.

A Merlot continua sendo a grande tinta francesa, inclusive na região de Bordeaux, embora a Cabernet Sauvginon tenha sua força. Aliás, estas duas castas bordalesas ganham prestígio na Itália, principalmente na região da Toscana com os famosos e badalados supertoscanos.

A Grenache ou Garnacha divide sua fama entre Espanha e França. Belos exemplares espanhóis são elaborados com vinhas velhas, enquanto do lado francês, o Rhône Sul e Languedoc respondem por sua expansão.

A insípida Trebbiano ou Ugni Blanc vem caindo cada vez mais em território italiano. Do lado francês, o firme cultivo está baseado no grande destilado do país, o todo poderoso Cognac.

Dentre as tintas italianas, a Sangiovese continua absoluta não só na Toscana, bem como em toda a Itália Central. Emilia-Romagna e Marche principalmente, são regiões de grande cultivo.

Pinot Noir e Gamay fecham a lista em disputa acirrada não só na Borgonha, berço das duas cepas, como em várias apelações no vale do Loire.

Harmonização: Cordeiro em Crosta de Pistache

3 de Setembro de 2012

Nesta harmonização, além do tenro lombo de cordeiro, temos a crosta de pistache, o molho de carne reduzido e o delicado ravioli de batata. Neste contexto, os componentes decisivos para a escolha do vinho são o molho reduzido e a crosta de pistache, sendo que o ravioli e o próprio cordeiro influenciarão na textura do mesmo, conforme foto abaixo.

Receita de Salvatore Loi

Pode parecer estranho um ravioli com recheio de batata, mas a ideia é servi-lo como guarnição, despertando certa originalidade e surpresa. Na verdade, o recheio leva além das batatas, um pouco de parmesão ralado, mix de ervas e um toque de pimenta do reino.

Para a crosta de pistache, temos salsinha, um pouco de alho, creme de leite fresco, manteiga e evidentemente, pistache triturado. Além do sabor, a crocância faz um contraponto interessante com os demais elementos de maciez do prato.

O molho de carne deve ser concentrado e reduzido com a evaporação de um cálice de vinho branco, finalizando sua textura com um pouco de manteiga.

Por fim, o cordeiro após devidamente selado com um toque de alecrim, é coberto pela crosta de pistache previamente gelada e em seguida, levado ao forno. É importante que o cordeiro seja mal passado, conforme foto acima e apenas devidamente selado, mantendo a devida suculência.

Em resumo, o prato tem personalidade e ao mesmo tempo elegância e textura delicada. O vinho deve acompanhar esta linha mestra, com aromas elegantes, textura macia e taninos bem moldados. A crocância e a suculência da carne equilibraram bem este lado tânico. Um vinho saindo de seu estágio mais jovem e começando a ganhar aromas terciários pode encontrar o ponto ideal entre a tanicidade comedida e maciez esperada. Toques herbáceos e de alguma evolução encontrarão eco nas ervas do prato e no sabores do pistache. Neste sentido, um bordeaux de margem direita com boa presença de Cabernet Franc, parece ser a solução ideal. A complementação da Merlot lhe dará a maciez necessária. As apelações de Saint-Emilion e seus satélites cumprem bem este papel não esquecendo de apelações menos badaladas como Fronsac e Canon-Fronsac.

Como sugestão, a importadora Decanter (www.decanter.com.br) oferece o belo Chateau Tour de Pas St Georges, da apelação homônima, da grande safra de 2005. Encontra-se num bom estágio de evolução, justamente naquela transição acima descrita. É uma das referências da apelação St-Georges St-Emilion.

A propósito, nesta quarta-feira dia 05 de setembro, teremos uma degustação na ABS-SP com o tema cortes da margem direita de Bordeaux. Evidentemente, outras dicas para a harmonização acima.

Degustação Vertical: Critérios

27 de Agosto de 2012

Degustar vinhos é a principal atividade de um enófilo de carteirinha. Sendo assim, as degustações espalham-se ao longo de todo o ano, através de importadoras, lojas especializadas, restaurantes, eventos dirigidos, associações e confrarias. Uma das mais badaladas  é a chamada Degustação Vertical,  que nada mais é do que provar um mesmo vinho em várias safras diferentes. O glamour de uma vertical está associada ao calibre do vinho. Ninguém faz uma vertical séria com vinhos comuns, pois os mesmos não apresentam condições estruturais para um bom envelhecimento.

Safras enfileiradas de um mesmo vinho

Neste sentido, a responsabilidade da ordem dos vinhos aumenta  de acordo com a importância do vinho degustado. A idéia é sempre não ofuscar o vinho seguinte da sequência, respeitando as características intrínsecas às safras. O comodismo de degustar em ordem cronológica crescente ou decrescente e mesmo até às cegas, formando uma sequência aleatória, pode comprometer seriamente a degustação, penalizando vinhos elegantes e delicados, sobretudo.

Para evitar estas situações, é necessário um conhecimento prévio e histórico do vinho em questão e as características principais e particularidades de cada safra. Nos grandes vinhos é comum termos safras mais potentes, diferenciadas, apesar da idade dos mesmos. A precocidade de algumas safras é um fator extremamente importante na ordem dos vinhos. A estrutura tânica, bem como a característica de latência de determinadas safras, apontam para uma decantação mais prolongada afim de avaliarmos melhor o vinho, mesmo ainda não atingindo seu platô ideal.

Como exemplo, vamos pensar numa degustação vertical de um grande Château de Bordeaux entre as safras de 1976 e 1985. São vinhos antigos, evoluídos, com mais de 30 anos. Salvo alguma particularidade de alguns châteaux específicos, vamos tentar montar uma sequência lógica entre as safras. Sabemos que 76, 77, 79, 80 e 84 não foram grandes safras. Portanto, estes vinhos devem estar decadentes, ou extremamente evoluídos e frágeis. As safras de 78, 81 e 83 foram relativamente boas, mas sem o brilho dos anos míticos. Já as safras de 85 e principalmente 82 foram acima da média, com alguns vinhos espetaculares. Portanto, para que possamos usufruir e valorizar todos os detalhes e nuances de cada safra, respeitando suas peculiaridades, poderíamos começar com o primeiro grupo de vinhos bem delicados, seguido pelas safras de 78, 81 e 83, com um pouco mais de extrato e riqueza aromática, culminado com as safras de 85 e 82 nesta sequência. Apesar de 82 ser uma safra mais antiga, sua riqueza e singularidade sobrepujam até mesmo o belo ano de 85.

Em resumo, o importante é proporcionarmos condições ideais de uma degustação em conjunto, sem que qualquer uma das safras seja prejudicada sensorialmente, em detrimento de uma sequência mal elaborada. É como se você pudesse degustar cada safra isoladamente, tendo as mesmas sensações ou impressões de degustá-la numa sequência, ou seja, sem interferências dos vinhos antecedentes.

Terroir Barsac: Château Climens

6 de Agosto de 2012

Neste mesmo blog, já falamos em outras oportunidades sobre os vinhos de Sauternes, a região de Bordeaux, a influência da Botrytis Cinerea na elaboração de vinhos doces, e alguns outros assuntos correlacionados. Contudo, desta feita trataremos de um terroir específico na região de Sauternes denominado Barsac. O château abaixo está para esta comuna, assim como Yquem está para Sauternes.

A safra 2001 na região foi excepcional

Os châteaux Climens e Gilette (este da comuna de Preignac) são tecnicamente dois grandes rivais do todo poderoso Yquem, embora a fama e glamour deste último, seja inquestionável. Falaremos oportunamente, das peculiaridades do Château Gilette.

Detalhes geográficos de comunas famosas

Dentro do mágico território bordalês dos grandes vinhos botrytisados, apelações satélites como Sainte-Croix-du-Mont, Loupiac, Cérons e Cadillac, foram abordadas na série Bordeaux em cinco partes, neste blog.

A região de Sauternes, a mais famosa neste tipo de vinho, é desmembrada em cinco comunas clássicas, conforme mapa acima do lado esquerdo, ou seja, Barsac, Sauternes, Fargues, Preignac e Bommes. Notem que o rio Ciron, um importante afluente do Garonne, corta a região, separando a comuna de Barsac à esquerda, das demais comunas à direita. Outra peculiaridade, é que Barsac possui denominação própria, conforme rótulo acima do Château Climens, Appelation Barsac Controlée. As outras comunas são englobadas na apelação Sauternes. Contudo, a grande diferença de Barsac para as demais comunas em termos de terroir está na geologia, referente à formação de seus respectivos solos.

Em Barsac, o subsolo predominantemente calcário, apresenta várias fissuras, proporcionando uma drenagem excelente. A parte mais superficial, é composta de argila, areia e óxido de ferro, dando um aspecto avermelhado. O calcário além de fornecer finesse, agrega mineralidade e alto índice de acidez nas uvas, proporcionando vinhos equilibrados e elegantes. Numa comparação genérica com os vinhos de Sauternes, Barsac molda vinhos com maior frescor, transmitindo uma sensação menos untuosa que seu concorrente.

Em particular, Château Climens localiza-se próximo aos rios Ciron e Garonne a vinte metros acima do nível do mar, uma das mais altas da região conhecida como Haut-Barsac, com exposição sudeste. Essas condições proporcionam um ataque precoce da Botrytis Cinerea com ótimo nível de atuação, antecipando sempre a colheita no château com relação a seus concorrentes. A facilidade da botrytisação é um dos motivos para que Climens seja um varietal de Sémillon (100%), dada a afinadade desta cepa com o nobre fungo. A forte presença de fósseis marinhos no subsolo calcário indica a existência de mar no local em outras eras geológicas, transmitindo uma mineralidade adicional, além da destacada acidez. Tudo isso é potencializado pela proximidade da rocha-mãe, já que o solo é relativamente raso. Esses fatores são extremamente importantes para o belo equilíbrio de um vinho 100% Sémillon. Normalmente, em muitos châteaux, uma certa proporção de Sauvignon Blanc é necessária para garantir o frescor do vinhos.

Os châteaux Coutet e Doisy-Daëne são belas referências em Barsac, após o soberano Climens. Estes châteaux como todos os bordeaux, não têm exclusividade em importadoras, mas Doisy-Daëne elaborado pelo mestre Denis Dubourdieu, é importado pela Casa Flora (www.casaflora.com.br).

Harmonização: Carré de cordeiro

3 de Outubro de 2011

Num primeiro momento, Cordeiro e Bordeaux parece ser uma combinação perfeita e quase insubstituível. Entretanto, estamos falando de forma muito genérica sobre dois mundos com várias facetas. Bordeaux como já vimos em artigos anteriores em cinco partes, possui várias apelações desdobradas em inúmeros produtores, os quais elaboram vinhos de estrutura e corpo diferenciados. Já o cordeiro, dependendo do corte e dos vários tipos de preparo, apresenta as mesmas diferenciações no produto final.

Nosso assunto hoje é o carré de cordeiro, apresentado magnificamente pelo mestre István Wessel no vídeo abaixo:

Simplicidade: chave das melhores receitas

No vídeo acima, percebemos que os bons pratos são simples, sem muitos rebuscamentos e ingredientes desnecessários. Os temperos básicos são o sal (apenas para realçar sabor), alho, pimenta e alecrim, além do vinho e azeite. A carne é relativamente macia, sem muita fibrosidade e com certo teor de gordura em volta. O sabor é de personalidade, mas elegante. Portanto, se pensarmos em bordeaux, o vinho não precisa ser tão tânico, mas deve ter boa acidez por conta da gordura presente no conjunto. O alecrim realça o sabor dos Cabernets, reverberando seu natural toque herbáceo. Um bordeaux de corpo médio, boa acidez e tanicidade moderada é dado pelo corte com boa proporção de Cabernet Franc. Daí a escolha por vinhos da margem direita com boa proporção desta uva, como o Chateau Figeac, por exemplo, um dos mais destacados da comuna de Saint-Emilion. O toque da pimenta também vai de encontro  às características desta uva. Uma bela alternativa são alguns Cabernet Franc uruguaios de parreiras antigas. Apresentam corpo adequado, elegância e tipicidade. Bodegas Castillo Viejo da importadora World Wine (www.worldwine.com.br). Não é  à toa que o cordeiro uruguaio é um dos melhores do mundo.

Pensando em outras possibilidades, um Chinon, Saumur-Champigny ou Bourgueil do Vale do Loire, pode ser uma bela escolha, contanto que sejam vinhos estruturados como o Domaine des Roches Neuves de Thierry Germain, importado por Cave Jado (www.cavejado.com.br). Todas essas apelações baseiam-se na casta Cabernet Franc.

O abuso de alguns dos ingredientes pode ser determinante para a escolha do vinho. Por exemplo, aqueles que gostam de bastante alho, convém escolher Cabernets italianos, que além de terem boa acidez, conservam uma certa rusticidade no bom sentido da palavra. Franceses da Provença também podem dar certo.

Se o abuso for para o lado da pimenta, procure por vinhos mais jovens e frescos. Caso a opção for por bordeaux relativamente envelhecidos, não abuse da pimenta e nem do alho. Guarnecido por um arroz com amendôas laminadas e tostadas, a harmonização ganhará um toque especial.

Enfim, mesmo as harmonizações clássicas têm suas nuances, conforme o grau de precisão que nos propomos a dar às mesmas. Por isso, adicionar ou inventar molhos e ingredientes, podem ser grandes armadilhas na combinação vinho e comida.

Château Gruaud Larose

29 de Agosto de 2011

Cada uma das comunas do Médoc, a chamada margem esquerda de Bordeaux, elege ao longo do tempo, seus mais destacatos Grands Crus Classés. Em Saint-Julien,  os Châteaux Ducru-Beaucaillou, Léoville-Las-Cases e Gruaud Larose, formam o trio de ferro dos melhores deuxièmes desta comuna. A consistência destes vinhos mostra de forma enfática a regularidade de Saint-Julien apesar de na média, não serem tão brilhantes como Pauillac.

Gran Vin e seu Segundo Vinho

São 82 hectares de vinhas plantadas em terreno pedregoso (graves) com densidade de dez mil pés por hectare. A idade média é de 45 anos com evidente predomínio de Cabernet Sauvignon (57%), seguido por Merlot (30%), Cabernet Franc (8%), Petit Verdot (3%) e Malbec (2%). O vinho amadurece por cerca de dezoito  meses em barricas de carvalho, sendo 5O% novas. O segundo vinho, Sarget de Gruaud Larose, é elaborado desde 1979. A composição do vinho e o tempo de barrica apresentam pequenas variações de safra para safra.

Comuna de Saint-Julien vizinha à Pauillac

Na degustação da ABS-SP em 24 de agosto de 2011, ficaram reforçadas minhas impressões sobre Gruaud Larose. Embora seja um Bordeaux elegante, típico e bem equilibrado, exceto em safras muito especiais como 61, 82 e 90, por exemplo, onde é grandioso, eu o coloco numa categoria abaixo dos dois grandes vinhos de Saint-Julien, já citados no trio de ferro acima.

As safras degustadas na ABS de 2006, 2005 e 2004, estão num patamar abaixo da grande dupla de Saint-Julien (Ducru-Beaucaillou e Léoville Las Cases). Mesmo a safra de 2005, claramente superior às demais, não apresenta a profundidade dos grandes de Bordeaux. Que fique bem claro; é um vinho muito bem feito, equilibrado e elegante, mas num rigor bordalês, estamos falando de vinhos quase perfeitos. E este, não é o caso.

As impressões de Robert Parker ficam refletidas em suas notas, abaixo de 90 pontos para as três safras. Ele pode ser questionado  em quaisquer outros vinhos e regiões, mas para Bordeaux, não há ninguém tão imparcial e justo como Parker.  

Vinho em destaque: Chateau Palmer

4 de Abril de 2011

Um comentário numa revista de enogastronomia de grande circulação chamou-me a atenção sobre o Chateau Palmer 2002. Segundo a revista, este foi um dos cem melhores vinhos degustados em 2010, tendo ficado na terceira colocação. O comentário sucinto diz o seguinte:

“Um grande francês clarificado com claras de ovos e que não passa por filtração”

Indignado, acho que o Chateau Palmer no mínimo, merece um post para aqueles que só tiveram a oportunidade de conhecê-lo através deste brilhante comentário.

Muita semelhança arquitetônica com  o Chateau Pichon Baron

Chateau Palmer, troisième Grand Cru Classé de Bordeaux (classificação de 1855), é considerado quase como uma unanimidade, o segundo melhor vinho da comuna de Margaux (situada no Médoc, margem esquerda), depois evidentemente do grande Chateau Margaux.

Finesse ou elegância são as palavras de ordem para esta comuna, personificadas no Chateau Palmer. O solo típico dos grandes vinhedos do Médoc originam-se nas croupes (pequenas elevações ou ondulações de terreno pedregoso). O plantio da Cabernet Sauvignon apresenta leve predominância em relação à Merlot, complementadas por pequenas parcelas de Petit Verdot. Na badalada safra 2009 o corte foi de 52% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot e 7% Petit Verdot.

A elevada densidade de plantio (10.000 pés por hectare) aliada à idade das vinhas, aprofundam suas raízes,  gerando uvas de grande concentração e muita personalidade.

Os 55 hectares da propriedade são repartidos em 42 parcelas. Cada parcela é vinificada separadamente, gerando vários tanques de fermentação de Cabernet Sauvignon, Merlot e Petit Verdot. Terminada toda a vinificação, chega o grande momento do assemblage. Olhos atentos, narizes afiados e paladares rigorosos entram em ação para conceber o chamado “Grand Vin”. Tudo que foi rejeitado, ficará para a seleção do chamado segundo vinho (assunto já tratado separadamente em artigo passado), no caso, Alter Ego.

Concebido o Grand Vin, é hora de educá-lo, refiná-lo, através do amadurecimento em barricas de carvalho. Aqui, mais uma lição de consciência e humildade, sempre buscando um vinho equilibrado e harmonioso. Portanto, dependendo da safra, a proporção de barricas novas fica entre 50 e 60%, de acordo com o extrato do vinho, mantendo em primeiro lugar sua essência.

Palmer 2002: 94 pontos de Parker

Este é o Chateau Palmer, um Margaux de raça, equilibrado, estruturado, capaz de envelhercer por longos anos nas boas safras. Muito bem avaliado nas principais revistas especializadas.

A colagem, operação que visa dar maior limpidez ao vinho, de fato, é feita com claras do ovos levemento batidas, mas isso não é um privilégio do Palmer. Voltando ao comentário, faltou dar a receita: seis claras por barrica.

Vinhos: Critérios de Pontuação

24 de Fevereiro de 2011

Robert Parker, o crítico mais temido em Bordeaux, foi o pioneiro em dar números aos vinhos, sacramentando a escala de 50 a 100 pontos. Portanto, a nota máxima seria o vinho perfeito. Parker pode ser discutível em vários aspectos mas Bordeaux, ele conhece como ninguém. Já provou praticamente todas as safras do século passado dos principais châteaux da região. Portanto, é bastante rigoroso com os Crus Classés, pois sabe exatamente aonde um grande bordeaux pode chegar.  Normalmente, suas notas podem ser aumentada em dois ou três pontos por degustadores amadores.

Sabemos que um vinho não se resume a números. Entretanto, não podemos viver de filosofia e subjetivismos. As pessoas gostam de opiniões mais palpáveis. O que muita gente não entende, são os critérios para pontuar vinhos. É muito comum, amadores que pela primeira vez, preenchem uma ficha de degustação, darem notas extremamente baixas para os vinhos degustados. Realmente, os adjetivos descritos nas fichas confundem os degustadores menos experimentados.

Outra noção pouco compreendida pelas pessoas é a progressão não inteiramente linear das notas, ou seja, até uma certa pontuação, temos um acréscimo de nota razoavelmente linear. Contudo, para notas mais altas, esta progressão passa a ser exponencial. Resumindo, um vinho de 100 pontos é qualitativamente muito melhor (muito mais que o dobro) do que um vinho de 50 pontos. Realmente, a diferença é abissal.

Ficha de Degustação: existem inúmeros tipos

Examinando a ficha acima, percebemos que os aspectos visuais, olfativos e gustativos, numericamente, vão aumentando de importância. É bom ressaltarmos o aspecto olfativo na degustação pois implicitamente, ele está inerente ao aspecto gustativo por via retronasal. Passemos então, a esclarecer as principais faixas de pontuação na análise dos vinhos:

  • 50 a 59 pontos

        Com o conhecimento técnico-científico da atualidade, é inaceitável vinhos dentro desta pontuação. São vinhos grosseiros, desprezíveis, que não merecem ser provados.

  • 60 a 69 pontos

São vinhos abaixo da média, notadamente desequilibrados. Percebe-se a falta de cuidado na elaboração dos mesmos, com objetivos puramente comerciais.

  • 70 a 79 pontos

Ainda estamos numa faixa muito pouco atraente. Consumidores deste tipo de vinho não estão preocupados com qualidade e provavelmente visam única e exclusivamente o preço, que nem sempre é atraente. São vinhos sem caráter e extremamente instáveis.

  • 80 a 89 pontos

Aqui já entramos numa faixa bem mais agradável, com preços muitas vezes interessantes. São vinhos de boa qualidade, honestos, demonstrando algumas vezes, identidade própria, e não tão comerciais. É bem verdade, que muitos vinhos caros enquadram-se nesta faixa de notas relativamente linear. Portanto, dois ou três pontos de diferença, pode ter justificativa no preço.

  • 90 a 95 pontos

Esta faixa são para poucos. Aqui é possível constatar a presença de um terroir diferenciado. Vinhos mais complexos e de personalidade, às vezes difíceis de serem avaliados. Há também o outro lado da moeda, na força do marketing de alguns vinhos que tentam mostrar o que não são. Muito cuidade nesta faixa!

  • 96 a 100 pontos

Aqui entramos no terreno das obras de arte. Portanto, o preço é altamente discutível. Claramente, estamos falando de terroirs diferenciados e na sua grande maioria, com grande potencial de guarda. A pontuação é bastante pessoal e cada ponto está em escala exponencial. A perfeição está muito próxima. O exemplo abaixo mostra um bordeaux perfeito com nota 100 de Parker, consistentemente degustado. Segundo Parker, é um vinho para chegar com fôlego a seu centenário, ou seja, 2082. Realmente, é beber de joelhos!

Mouton 82: Potência e Elegância em alto nível

Degustação às cegas: Existem Experts?

21 de Fevereiro de 2011

Degustar às cegas é sempre um ato de humildade, principalmente quando temos um intruso na degustação, chamado Chateau Reignac. Um Bordeaux Supérieur que não se intimidou com mitos como Petrus, Margaux, Lafite, Cheval Blanc, entre outros, conforme vídeo surpreendente abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=ptXx_1lPwG8

A degustação realizada em Paris por François Mauss, reuniu um grupo altamente qualificado de degustadores, entre os quais, Olivier Poussier (melhor sommelier do mundo em 2000) e Michel Bettane (crítico de vinhos reputado na França). Aliás a cena com Bettane, mostra bem sua “humildade”, quando argumenta que o Petrus tomado com Christian Moueix (proprietário do château) é perfeito. Nós pobres mortais, temos que pagar mil e quinhentos euros na França para tomar algo suspeito.

Outra cena que confirma a impressão digital de um Haut-Brion mesmo às cegas, é quando Olivier percebe os aromas de trufa e defumado num vinho ainda relativamente novo (todos os vinhos são da safra de 2001), mostrando o toque de Brettanomyces já classicamente incorporado neste grande terroir.

O intruso foi da safra de 2001

Mais uma comprovação que desmistifica os chamados “experts”, onde supostamente podem adivinhar qualquer tipo de vinho, são os concursos mundiais de sommelier. Profissionais extremamente preparados para este tipo de prova, demonstram na prática o baixo índice de acerto sobre os vinhos provados às cegas. No último concurso realizado no Chile em 2010, apenas Gerard Basset foi capaz de apontar com precisão um dos vinhos na prova final. É bem verdade que, quanto maior o conhecimento, maiores as possibilidades em confundir os inúmeros tipos e estilos de vinhos.

Chateau Reignac***

Segundo vinho de Reignac

 Para aqueles que querem conhecer maiores detalhes do Chateau Reignac, localizado na porção norte de Entre-Deux-Mers, comuna de Saint-Loubès, próxima à margem esquerda do rio Dordogne,  acessar site: www.reignac.com. A comercialização no Brasil fica por conta de Castel Studio no site www.castelstudio.com.