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A fumaça sobre o império de Bordeaux

12 de Agosto de 2026

Até 30 de julho, os incêndios já haviam consumido 115 mil hectares de floresta na França neste verão, um número que posiciona a tragédia como a pior desde 1949. Bombeiros cavaram mais de cem quilômetros de trincheiras. Mais de 200 mil pessoas chegaram a ser retiradas de casa desde o início da crise. Uma das regiões de vinho mais famosa do mundo, Bordeaux, está no epicentro das queimadas.

A fumaça de madeira em combustão basta para danificar o vinho, mesmo sem o fogo alcançar a videira: libera fenóis voláteis que a casca da uva absorve à distância, compostos que se prendem a açúcares da fruta e ficam escondidos até a fermentação soltá-los de novo. “Um vinho que a princípio não cheira a fumaça pode desenvolver, aos poucos, odores de chaminé, durante a fermentação ou até no envelhecimento”, disse Eric Serrano, diretor do Institut Français de la Vigne et du Vin, ao Financial Times dias atrás. “É uma bomba-relógio.”

Em 2022, outro incêndio na Gironde queimou mais de 20 mil hectares de floresta perto de vinhedos, e os piores temores não se confirmaram: testes posteriores encontraram níveis desprezíveis de compostos de fumaça na maioria das uvas, e o gosto de fumaça amplamente temido não apareceu no vinho engarrafado. A comparação inevitável é a Napa Valley de 2020, quando dezenas de vinícolas optaram por não engarrafar a safra, avaliando que o risco à reputação superava o risco real ao paladar. Bordeaux ainda não sabe em qual dos dois precedentes vai cair.

Os incêndios são mais um problema em uma extensa lista que tem perturbado o sono dos produtores de uma região outrora símbolo da riqueza do solo francês. Na metade do século XIX, Napoleão III encomendou aos corretores de vinho de Bordeaux uma classificação dos melhores châteaux para expor na na Exposição Universal de Paris, aberta em 15 de maio de 1855.

Os corretores ranquearam sessenta e um châteaux tintos pelo preço de venda e pela reputação comercial, divididos em cinco níveis de qualidade. Vinhos brancos doces de Sauternes e Barsac entraram em dois níveis à parte. A hierarquia praticamente não mudou desde então. Em cento e setenta e um anos, uma única revisão formal: em 1973, o Château Mouton Rothschild subiu de segundo para o primeiro posto do ranking, depois de décadas de pressão do barão Philippe de Rothschild. Fora isso, o mapa de prestígio desenhado às pressas para impressionar o mundo em 1855 ainda segue de pé.

O que Napoleão III organizou por decreto, tem sido desafiado pelos tempos modernos. O mercado de vinhos finos de Bordeaux perdeu quase um quinto do valor nos últimos cinco anos, segundo o índice Liv-ex Bordeaux 500. As exportações francesas de vinhos e destilados caíram, em 2025, ao menor volume em pelo menos vinte anos. Bordeaux responde por cerca de 10% do mercado de vinhos francês. “Tensões geopolíticas, conflitos comerciais, flutuações cambiais e perda de confiança do consumidor”, resumiu o presidente da federação francesa de exportadores do setor, Gabriel Picard.

O principal banco da região, o Crédit Agricole, relata que aproximadamente 1.200 propriedades — quase 25% dos cerca de 4.000 produtores remanescentes em Bordeaux — estão em renegociações de reestruturação de dívidas, segundo a Wine Spectator. Haveria um excedente de cerca de 150 milhões de garrafas por ano. Os franceses já não consomem os rótulos mais baratos nos supermercados como antes, e os preços do vinho a granel despencaram para níveis muito baixos: o preço médio obtido pelos produtores por um barril de 900 litros gira em torno da metade do seu custo de produção.

Entre agosto de 2023 e maio deste ano, cerca de 21 mil hectares foram arrancados só na Gironde, em programas subsidiados ou voluntários. A área de vinhedo da própria região encolheu de 115 mil para 85 mil hectares em poucos anos. Em setembro do ano passado, a família Guinaudeau, do Château Lafleur, em Pomerol, anunciou que deixaria de vinificar dentro das regras da apelação (a mesma hierarquia erguida em 1855), alegando que o sistema trava práticas essenciais, como a irrigação, diante do que chamaram de “anormalidade climática” sentida desde 2003.

No fim de novembro do ano passado, o Ministério de Agricultura da França anunciou um fundo de 130 milhões de euros para um plano de erradicação definitiva de vinhedos que se estenderá pelos anos de 2026 e 2027. A medida visa reequilibrar a oferta diante de uma queda acentuada na demanda, particularmente por vinhos tintos. A crise ainda atinge um sistema secular de venda: o sistema de comercialização “en primeur”, um dos pilares da economia vinícola de Bordeaux e que influenciou o mundo todo.

Nesse modelo, vinhos das principais vinícolas são vendidos antes de estarem prontos e engarrafados, com decisões de compra baseadas em degustações de amostras direto do barril. Durante anos, o modelo funcionou para compradores e vendedores: o comprador era recompensado por assumir o risco da evolução do vinho ao obter um preço melhor do que o da garrafa pronta, enquanto os châteaux garantiam fluxo de caixa para financiar o trabalho da safra seguinte. Com um novo consumidor e estoques altos, a lógica mudou. “Qual é o sentido de comprar en primeur se o vinho estará mais barato daqui a cinco anos?”, questionou Laura Taylor, da loja britânica de vinhos Private Cellar, a David Williams, da The Observer.

Entre a fumaça das florestas em chamas e a poeira dos vinhedos arrancados por tratores financiados pelo estado, Bordeaux descobre que sua reputação secular já não basta para blindá-la das forças combinadas do clima e do mercado. Fica a pergunta se a crise e as queimadas terão algum impacto sobre o acordo União Europeia e Mercosul, lembrando que a França sempre foi um dos maiores opositores da negociação.

Vinho em destaque: Chateau Palmer

4 de Abril de 2011

Um comentário numa revista de enogastronomia de grande circulação chamou-me a atenção sobre o Chateau Palmer 2002. Segundo a revista, este foi um dos cem melhores vinhos degustados em 2010, tendo ficado na terceira colocação. O comentário sucinto diz o seguinte:

“Um grande francês clarificado com claras de ovos e que não passa por filtração”

Indignado, acho que o Chateau Palmer no mínimo, merece um post para aqueles que só tiveram a oportunidade de conhecê-lo através deste brilhante comentário.

Muita semelhança arquitetônica com  o Chateau Pichon Baron

Chateau Palmer, troisième Grand Cru Classé de Bordeaux (classificação de 1855), é considerado quase como uma unanimidade, o segundo melhor vinho da comuna de Margaux (situada no Médoc, margem esquerda), depois evidentemente do grande Chateau Margaux.

Finesse ou elegância são as palavras de ordem para esta comuna, personificadas no Chateau Palmer. O solo típico dos grandes vinhedos do Médoc originam-se nas croupes (pequenas elevações ou ondulações de terreno pedregoso). O plantio da Cabernet Sauvignon apresenta leve predominância em relação à Merlot, complementadas por pequenas parcelas de Petit Verdot. Na badalada safra 2009 o corte foi de 52% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot e 7% Petit Verdot.

A elevada densidade de plantio (10.000 pés por hectare) aliada à idade das vinhas, aprofundam suas raízes,  gerando uvas de grande concentração e muita personalidade.

Os 55 hectares da propriedade são repartidos em 42 parcelas. Cada parcela é vinificada separadamente, gerando vários tanques de fermentação de Cabernet Sauvignon, Merlot e Petit Verdot. Terminada toda a vinificação, chega o grande momento do assemblage. Olhos atentos, narizes afiados e paladares rigorosos entram em ação para conceber o chamado “Grand Vin”. Tudo que foi rejeitado, ficará para a seleção do chamado segundo vinho (assunto já tratado separadamente em artigo passado), no caso, Alter Ego.

Concebido o Grand Vin, é hora de educá-lo, refiná-lo, através do amadurecimento em barricas de carvalho. Aqui, mais uma lição de consciência e humildade, sempre buscando um vinho equilibrado e harmonioso. Portanto, dependendo da safra, a proporção de barricas novas fica entre 50 e 60%, de acordo com o extrato do vinho, mantendo em primeiro lugar sua essência.

Palmer 2002: 94 pontos de Parker

Este é o Chateau Palmer, um Margaux de raça, equilibrado, estruturado, capaz de envelhercer por longos anos nas boas safras. Muito bem avaliado nas principais revistas especializadas.

A colagem, operação que visa dar maior limpidez ao vinho, de fato, é feita com claras do ovos levemento batidas, mas isso não é um privilégio do Palmer. Voltando ao comentário, faltou dar a receita: seis claras por barrica.