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Rosés pelo mundo em números

8 de Novembro de 2015

Em recente estudo realizado pela OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) veremos a seguir alguns números de 2015. A produção mundial de rosés parece estabilizar-se em torno de 24 milhões de hectolitros, aproximadamente 10% da produção mundial de vinhos.

roses 2014

Pouca variação na produção

Dentre os principais produtores mundiais de rosés estão a França, indiscutivelmente, Espanha, Estados Unidos e Itália. Esses quatro países respondem por três quartos da produção mundial de rosés. Só a França, produz 30% do total mundial. O mapa abaixo ilustra a situação.

rose grafico 2014

No topo: França, Espanha, Estados Unidos e Itália

Quanto ao consumo mundial, a França também tem larga vantagem. Mais de 30% dos rosés do mundo são consumidos por lá. Em seguida, Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, puxam a fila.

rose 2014 consumo

França: domínio absoluto

No quesito exportações, A Espanha lidera com larga vantagem em termos de volume, seguida pela Itália, França e Estados Unidos. As exportações mundiais estão em torno de nove milhões de hectolitros por ano. Os quatro primeiros países exportadores do gráfico abaixo (Espanha, Italia, França e Estados Unidos) respondem por 80% do volume mundial exportado.

roses exportação 2014

Espanha comanda as exportações de rosés

Neste final de ano que se aproxima, os rosés são bem versáteis, quer seja pela facilidade de harmonização, quer seja pela conveniência de temperaturas mais elevadas. A mistura de pratos, entradas e várias comidinhas servidas num tempo só, torna os vinhos rosés uma espécie de coringa, agradando os mais diversos paladares e compatibilizações.

Como indicações, a França tem muitas opções. Evidentemente, a Provença é uma dica certeira. Porém, os vales do Rhône e do Loire, mostram diversidades de sabores e de preços. Em linhas gerais, os rosés do Loire são mais leves e delicados, enquanto os rosés do Rhône tendem a ser mais encorpados e gastronômicos.

Do lado italiano, a Toscana tem boas opções, sobretudo na região de Bolgheri, próximo ao litoral tirreno. Abruzzo, no litoral adriático, tem rosés interessantes. O nordeste italiano com as regiões do Veneto, Friuli, e Trentino, apresentam inúmeras opções. Nestas regiões mais frias, os rosés costumam ser mais frescos.

Na Espanha, os rosés de Navarra, região contigua a Rioja, apresentam-se bem equilibrados. Rioja produz praticamente o mesmo volume que Navarra. Em seguida, temos as regiões de La Mancha, Valencia e Catalunha juntas, perfazendo o mesmo volume de Navarra ou Rioja. As uvas mais utilizadas são Garnacha, Bobal e Tempranillo. Os rosés à base de Garnacha tendem a ser mais macios e gastronômicos. Já a Tempranillo, dificilmente é utilizada como varietal. Por se tratar da melhor uva para tintos de longa guarda, os cortes são mais frequentes.

Algumas sugestões:

  • Chivite Gran Feudo Rosado – espanhol da Mistral (www.mistral.com.br)
  • Zaccagnini Montepulciano d´Abruzzo Cerasuolo – italiano da Ravin (www.ravin.com.br)
  • Chateau St-Hilaire Tradition – francês provençal da Premium (www.premiumwines.com.br)
  • Paul Jaboulet Côtes-du-Rhône Rosé – francês do Rhône (www.mistral.com.br)

Entre Amigos …

27 de Setembro de 2015

Oi pessoal! Peço desculpas por tanto tempo fora do ar, mas depois do AVC, uma dor nas costas insuportável. Tentando retomar novamente os artigos, vamos falar do último encontro entre amigos com vinhos de grande expressão.

A brincadeira foi provar às cegas seis tintos irrepreensíveis começando pelo Bordeaux abaixo. Mais uma vez, Mouton 82 esbanja potência e elegância. Taninos ultra polidos, um leque de aromas sensacional e aquela persistência aromática que deixa saudades. Felizmente, tive o prazer de tomar vários, sempre em grande forma. 

mouton 82

1982: Até o carneiro está saltitante

Após um começo triunfante, que tal um La Landonne 1988! Umas das três joias de Guigal, este Côte-Rôtie é fora de série. Deliciosos aromas terciários mesclando fruta madura, especiarias, defumados de rara elegância e até um toque floral. A boca é uma seda com perfeito equilíbrio entre álcool e acidez. Apesar da idade, sua vivacidade é incrível.

landonne 88

Um Côte-Rôtie fora da curva

O vinho abaixo é a decepção mais esperada às cegas,  o rei Petrus. Não dá nem para reclamar da safra 89, normalmente abordável, mesmo na juventude. É que Petrus é chato mesmo. Para um Merlot, é austero demais, tânico demais, fechado demais. O certo mesmo era ter uma apelação própria: appellation Petrus Controlée. Um vinho de futuro imenso, cor intensa ainda rubi. Os aromas são concentrados, a boca firme com uma estrutura tânica para poucos. Um dia ele desperta de seu longo sono para mostrar todo seu esplendor.

petrus 89

Petrus 89: grande safra e muita paciência

Continuando a saga, outro clássico de 1982 em Bordeaux, Château La Mission Haut-Brion, o grande rival do único Premier de Graves na classificação de 1855. Vinho hedonista, com aromas terciários incríveis e muito bem dosados. Em boca, uma seda com taninos abundantes e polidos. Muito equilibrado entre seus componentes, persistência longa e um final delicioso. Pratos com trufas e cogumelos são a pedida ideal.

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Um clássico de Graves nesta safra

Finalmente, um tinto do Novo Mundo. Este californiano da bela safra de 1997 baseado em Cabernet Sauvignon é o topo de linha da vinícola Abreu, seu vinhedo mais famoso, Madrona Ranch. Praticamente um Bordeaux da California. Elegante, denso, maduro, fazendo jus à excelente safra de 97. Talvez seja o mais pronto a ser bebido, mas com um bom potencial de guarda ainda.

abreu 97

Safra 1997: 100 pontos

Para fechar a série, outro 100 pontos, Château Latour 1982. Um Pauillac de grande estrutura com muita vida pela frente. Os aromas de cassis, caixa de charutos, ervas, toques animais, confirmam a autenticidade de sua comuna. Cor intensa, vinho de bom corpo, elegante e imponente, taninos sólidos, muito equilíbrio e um final de boca que só os grandes vinhos são capazes de proporcionar.

latour 82

Um dos grandes Latours de toda a história

600 pontos

600 pontos perfilados

Após a perfeição, somente ela para dar continuidade ao evento. Acompanhando belos puros, dois Portos para beber de joelhos em seus estilos mais nobres. O Vintage abaixo se não bastasse ser um Noval da mítica safra de 1963, tinha o requinte de ser um Nacional (parreiras pré-filoxera). Um vinho imortal. Cor ainda sadia, jovial. Aromas de grande complexidade com frutas em compota, toques florais, minerais, de especiarias, defumados, enfim, difícil descreve-lo.

nacional 63

Nacional 1963: perfeição nos detalhes

Para terminar, lembram do Scion? um Porto Colheita excepcional da Casa Taylor´s?  Pois bem, a Graham´s também tem seus tesouros. Algumas barricas foram encontradas nas antigas adegas da família Symington constatando a data de 1882. Trata-se de um Colheita de grande permanência em madeira, beneficiando-se das benesses da micro oxigenação. Um equilíbrio fantástico, assim como sua persistência aromática interminável.

ne oublie

Embalagem impecável de acordo com o conteúdo

A linda embalagem acima é o resultado final do engarrafamento de somente 656 decanters numerados, cuidadosamente confeccionados em cristal, emoldurado com um belo colar em prata num estojo em legitimo couro ingles. O nome desta joia: “Ne Oublie”.

ruby e tawny

Ruby e Tawny: dois caminhos de sucesso

As taças acima mostram bem os caminhos traçados por estes dois gigantes. A taça da esquerda (Noval Nacional) parte de um Porto com pouco contato em madeira, apostando num longo envelhecimento em garrafa, ambiente redutivo (ausência de oxigênio). Já a taça da direita (Graham´s Ne Oublie), ocorre o inverso. Longo envelhecimento em pipas de madeira com longa e constante micro oxigenação.

Para não estragar o dia, resolvemos parar na perfeição. Tem horas que não vale a pena arriscar. Que outros vinhos do Olimpo possam nos deleitar. Abraço a todos os confrades!

Amigos descontraídos, Vinhos sérios: Parte II

2 de Abril de 2015

Após o belo almoço DRC do artigo passado, só o desejo de provar um Romanée-Conti poderia continuar a saga. Em Petit Comitê, seguimos à casa de outro confrade onde outras surpresas estavam reservadas. Logo que chegamos, o confrade responsável pela fera chegou com a garrafa do mito 1998. Como gentilezas não têm limites, ele trouxe também um Petrus 2001 para a adega do anfitrião.

Mais um pequeno infanticídio

A princípio, na minha opinião, um Romanée-Conti não deve ser tomado com menos de 20 anos de safra, e em alguns casos até mais. Contudo, não deixa de ser uma experiência interessante, nem que seja para tentar vislumbrar seu potencial de guarda. A cor predominantemente rubi, denota sua junventude. Os aromas apesar de extremamente elegantes, ainda são tímidos, tanto pelo vinho em si, como pela característica da safra. Em boca, um equilíbrio fantástico, taninos finíssimos a resolver, e final harmonioso. Estimo seu auge daqui uns dez anos.

Preços estratosféricos

Este é um dos americanos mais caros e mais badalados de Napa Valley. O terroir não poderia ser melhor, a sub-região  de Oakville, situada entre Rutherford e Stag´s Leap. O corte bordalês é baseado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon. A safra é relativamente nova de 2006 com 98 pontos Parker. Vinho potente, cor concentrada e aromas um tanto fechados. Em boca, muito macio, taninos ultra-finos e persistência longa. Um estilo moderno, mas muito bem delineado. Longos anos de adega pela frente. Essa é uma das provas que os americanos estão muito à frente em relação a outros países do Novo Mundo quando se trata de vinhos topo de gama.

Safra surpreendente: 94 pontos (RP)

Esta é uma bela compra para os bordaleses de margem esquerda da pouco badalada safra de 2006. Com 94 pontos de Parker, mostrou-se muito agradável para o momento com toda a tipicidade de um grande Saint-Esthèphe. Cor pouco evoluída, mas aromas relativamente abertos, com toques de frutas escuras (notadamente o cassis), toques de torrefação, especiarias e ervas finas. Em boca, muito receptivo, macio, e com um balanço de componentes digno de um Grand Cru Classé. Final agradável e extremamente elegante.

Potência e Elegância no mais alto nível

Como cantava Nara Leão, o barquinho vai, a tardinha cai …, e mais um tinto de tirar o fôlego. Simplesmente, Amarone Dal Forno Romano safra 2006. Um estilo moderno, superconcentrado, muito mais do que se espera de um Amarone. Para se ter uma ideia da concentração deste tinto, o vinhedo sofre um forte adensamento de vinhas, chegando a ultrapassar mais de 13000 pés por hectare. Como essas uvas são colhidas supermaduras e posteriormente, sofrem o processo de appassimento, os rendimentos são baixíssimos. De 100 kg de uvas faz-se apenas 15 litros de Amarone. Além disso, o proprietário não deixa por menos, utiliza 100% de barricas novas. Diz ele: se o vinho não aguentar a barrica, é porque ele não está à altura da mesma. E de fato, a madeira reina em plena harmonia. Cor quase impenetrável, aromas potentes de frutas em geleia, alcaçuz, especiarias, café, e um defumado inebriante. Em boca, extremamente macio, um veludo, taninos bem dóceis, e um bom suporte de acidez. Pode ser tomado com prazer, mas evolui por muitos anos de adega. Um de seus parceiros clássicos é o queijo Grana Padano, o qual foi provado e confirmado com esta garrafa.

Um Corton-Charlemagne de Exceção

O nosso confrade do Romanée-Conti não estava para brincadeiras. Como se não bastasse ter trazido a fera, não deixou por menos no branco. E que Branco! Um preciosíssimo Corton-Charlemagne 2009 de Madame Leroy de produção extremamente limitada. Um dos melhores brancos da Borgonha que provei, unindo potência e elegância como poucos. Frutas como pêssego, damasco, o famoso pão com manteiga na chapa, o tostado lembrando frutas secas secadas ao forno (amêndoas), toques florais, e vai por aí afora. Já era noite, mas este monumental branco levantou o ânimo e nos reavivou. Fantástico!

A costumeira elegância Dom Pérignon

Com a chegada da noite ninguém é de ferro, sobretudo com um Dom Pérignon Rosé 2003. Para uma bela harmonização, que tal comida japonesa de alta qualidade e esmero. Foi um sucesso, principalmente com os pratos que envolviam atum. A acidez, a elegância e frescor deste champagne são pontos-chaves para um casamento perfeito. Se um Dom Pérignon já é exclusivo, um Rosé de produção baixíssima nem se fala. Além do mais, a safra 2003, um tanto calorosa, foi ideal para o perfeito amadurecimento da Pinot Noir, uva importante neste estilo de vinho. E assim terminamos o dia, a noite, e os sonhos …

Uma das sensações da Borgonha

Só para encerrar o artigo, esqueci de comentar o Borgonha acima degustado no final do almoço, após os DRCs. Um Vosne-Romanée exclusivíssimo do Domaine Prieuré-Roch,  o qual seu proprietário, Henry-Frédéric Roch, assinou muitas safras de Romanée-Conti. Este exemplar denominado Le Clos Goillotte da safra 2006 parte de vinhas com mais de quarenta anos, situadas a cinquenta metros dos limites do vinhedo La Tâche. A produção não passa de duas mil garrafas/ano. Um vinho de estilo mais moderno e muito abordável na juventude. Aromas abertos, francos, frutas deliciosas, toques florais, defumados e de especiarias, muito bem integrado à madeira. Para quem não tem paciência de esperar anos em adega, é uma boa pedida.

Sem mais delongas, agradeço mais uma vez aos confrades que proporcionaram momentos inesquecíveis com boa conversa e belos vinhos. Se esqueci de algum outro detalhe, é porque o inevitável abuso do álcool não permitiu. Grande abraço, e até as próximas!

Rotina de um Sommelier

26 de Janeiro de 2015

Nem tudo são flores na rotina de um sommelier, mesmo num evento sofisticado, envolvendo grandes vinhos. É preciso começar cedo, bem antes do glamour de uma grande noite. O aniversário de dois grandes amigos inspirou este texto, mostrando algumas peculiaridades no trabalho de bastidores.

Double Magnum La Grande Dame 1990

Os vinhos escalados para o jantar foram o champagne da foto acima, Jeroboam DRC 2011 (Domaine de La Romanée-Conti), o californiano Opus One 1999 Imperial (seis litros), outra Imperial do Château Margaux 1990 e mais alguns Portos para o final da noite.

Começando pelos tintos, a abertura das duas Imperiais. Trabalho meticuloso, pois o saca-rolhas de alavanca fartamente utilizado pelos sommeliers não funciona neste caso devido ao diâmetro do gargalo destas garrafas. Foi utilizado um saca-rolhas em T de espiral larga, procurando abranger o maior diâmetro possível para esta largura de rolha. Para o Château Margaux foi perfeito, mas nem tanto para o Opus One. A rolha deste último partiu, deixando um terço ainda na garrafa. Posicionando o saca-rolhas  inclinado em relação ao eixo do gargalo, o pedaço foi retirado com sucesso. Neste momento, vinhos perfeitos, sem nenhuma surpresa desagradável.

Esse vinhos estavam na adega dentro de suas caixas de madeira, na posição horizontal. Lembram daquele artigo deste blog onde mencionamos a importância do cesto de vinhos para a abertura e decantação da garrafa? Pois bem, o difícil é achar um cestinho para uma Imperial. Daí, o cavalete, um outro instrumento importante da sommellerie, conforme foto abaixo.

Eis a engenhoca para manter a garrafa deitada

Pois bem, as garrafas foram mantidas deitadas no cavalete com uma inclinação suficiente para permitir a abertura das mesmas, sem perturbar os sedimentos depositados na parede ao longo do eixo. Portanto, a abertura das garrafas foi feita no cavalete. A decantação de cada uma das garrafas se deu através de uma manivela que verte sutilmente o líquido em vários decantadores. O sistema é muito suave, permitindo as sucessivas paradas para a troca dos decantadores. Ao final, com auxilio de uma vela, visualizamos os sedimentos. Por sinal, bem mais na garrafa do Margaux.

Após toda esta decantação, a prova dos vinhos nos dá uma ideia do tempo de aeração. No caso do Opus One, o vinho é mais novo e mais robusto. Tem muita força, cor ainda intensa, mostrando que um certo arejamento lhe fará bem. Já o Château Margaux, estava menos rebelde. Com a elegância que lhe é peculiar, mostrava uma trama tânica muito bem moldada e taninos de uma textura impar. Os aromas já muito sedutores e uma cor pouco evoluída. Mas não se deixe enganar, os aromas terciários ainda irão se desenvolver lentamente, garantindo prazer por décadas. Um leve arejamento lhe fez bem, eliminando alguns aromas redutores.

Este foi a estrela da noite

Decantação feita, é hora de voltar o vinho para as garrafas, utilizando um funil. Evidentemente, as garrafas devem ser totalmente limpas com água mineral, não deixando vestígios de borra. Essa volta é interessante, pois o vinho será servido ao longo do jantar, preenchendo de tempo em tempo os decantadores novamente. Tudo funciona muito bem, além do charme da operação.

Mesa de serviço preparada

Até agora falamos dos tintos, mas o Montrachet DRC 2011 foi um completo infanticídio. É bem verdade que a decantação da Jeroboam (quatro litros e meio) horas antes do evento foi benéfica ao vinho, liberando mais aromas. Contudo, todo seu potencial só será desenvolvido através de longos anos em adega.

Privilégio de abrir  a garrafa nº 2

Parte da Jeroboam DRC em dois decantadores

Conjunto de taças do jantar

A foto acima mostra o conjunto de taças que irão acompanhar o jantar. O copo colorido para água dá um charme ao conjunto, além de evitar confusões com os vinhos. A taça bojuda para o Montrachet, a bordalesa menor para o Opus One e finalmente, a bordalesa Riedel linha Sommelier para o excepcional Margaux.

Voltando aos tintos, sempre que comparo os grandes Bordeaux a outros vinhos de mesmo perfil, lembro da famosa degustação de Paris (1976). Quando novos, dependendo da safra e do château, até posso admitir a supremacia dos norte-americanos. Porém, com o devido tempo de evolução em garrafa, e aqui falamos em mais de vinte anos de safra, a diferença é brutal. Com todo o respeito ao Opus One, um dos melhores californianos, sendo a Califórnia com folga, a região dos melhores tintos do Novo Mundo, a comparação é cruel. A elegância, o equilíbrio, a textura em boca, e o final extremamente bem acabado do Margaux 1990 deixa qualquer tinto desconcertado. A diferença entre as respectivas taças é muito menor do que a percepção sensorial mostra. Seguem abaixo, alguns dados técnicos dos vinhos.

Opus One 1999 84% Cabernet Sauvignon, 7% Merlot, 5% Cabernet Franc, 3% Malbec, 1% Petit Verdot. 17 meses em barricas francesas novas. Primeira safra em 1979. Chateau Margaux 1990 Propriedade de 262 ha. 80 ha de vinhas. 18 a 24 meses em barricas novas. 130 mil garrafas. Primeira safra listada de 1771 em seu site oficial. Normalmente, temos 75% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, e o restante entre Cabernet Franc e Petit Verdot.

Portanto, vida longa aos aniversariantes e amigos presentes! Quanto aos Portos no final do jantar, após o café e charutos, já é uma outra história para o próximo artigo.

California Wine Regions: Parte V

13 de Março de 2014

O chamado Vale Central ou Inland Valleys é o que efetivamente faz da California, e por que não dizer dos Estados Unidos, uma das maiores potências vinícolas do mundo. É muito vinho a ser produzido, vendido e consumido. Aqui está instalado o império da Gallo Winery, a maior vinícola do mundo. Veremos a seguir, as quatro principais AVAs desta vasta região, conforme mapa abaixo:

Vales de frutas e vinhedos

O condado de Lodi e Delta possui vinhedos de maior altitude em relação às demais regiões do vale Central. As castas tintas Cabernet Sauvignon e principalmente, a Zinfandel de vinhas antigas, fazem a fama da região.

Madera County mais ao sul, é um condado de clima quente com quinze mil hectares de vinhas plantadas. Vinhos de sobremesa, incluindo o estilo Porto, são os destaques da região.

Sacramento Valley é uma região pouco produtiva e sem grandes atrativos. Em compensação, San Joaquim Valley possui mais de sessenta mil hectares de vinhas. A qualidade não é seu forte, mas os vinhos têm preços competitivos e muitos deles, agradáveis para o dia a dia.

Sierra Foothills

Esta é uma região de altitude que fica a leste do vale Central. Abriga cinco condados (Amador, Calaveras, El Dorado, Nevada e Placer). Os vinhedos podem atingir mais de setecentos metros de altitude, sendo um dos mais altos de toda a Califórnia. A Zinfandel de vinhas antigas é o grande destaque local, mas Syrah e Sangiovese também têm seus atrativos.

Southern California e Far North California

Os extremos sul e norte da Calfornia, respectivamente mencionados acima, não são regiões de destaque. No sul, o clima é muito quente para as vinhas. O grande diferencial é quando você alia a altitude para arrefecer o calor. Neste sentido em San Diego, há vinhedos com mil e trezentos metros de altitude com a uva Cabernet Sauvignon. Velhas vinhas de Zinfandel ainda são preservadas e vinhos fortificados no estilo Porto também são tradicionais. Dos quatro condados do sul (Cucamonga, Los Angeles, San Diego e Temecula), somente este último goza dos benefícios das brisas do Pacífico. Uvas do Rhône e alguns varietais italianos podem ter sucesso neste clima. 

Far North California é uma região ainda muito incipiente para as vinhas. É muito mais uma promessa que realidade. Há somente três condados na área: Trinity County, Humboldt County e Siskiyou County. O clima frio de um modo geral tem muito mais a ver com o Oregon, do que a própria Califórnia. 

Com este artigo finalizamos os vinhos da Califórnia, complementados pelos artigos sobre Napa Valley. Pessoalmente, acho que esses vinhos estão entre os mais destacados do chamado Novo Mundo, onde seus melhores exemplares costumam fazer frente aos grandes vinhos europeus. Os Estados Unidos continuará sendo pelo menos a médio prazo, a grande referência fora da Europa em termos de qualidade, produção, importação, exportação e consumo de vinhos.

É uma pena que o mercado brasileiro tenha uma oferta tão pequena dos vinhos californianos. O preço, sem dúvida nenhuma, é o maior empecilho para conhecermos melhor produtores e vinícolas importantes, desfrutando destas maravilhas.

Lembrete: Vinho Sem Segredo fala hoje na rádio bandeirantes (FM 90,9) sobre vinho no restaurante. Sempre às terças e quintas em dois horários.

California Wine Regions: Parte IV

6 de Março de 2014

Dando prosseguimento imediatamente ao sul da Costa Norte californiana, temos cerca de quinhentos quilômetros de litoral denominado Costa Central, terminando um pouco antes de chegar a Los Angeles. São nove condados com diversas AVAs importantes. Vamos a seguir, às mais importantes.

Central Coast: principais AVAs

Livermore Valley

São dois mil hectares de vinhas onde o destaque é Sauvignon Blanc. No século XIX foram trazidas mudas do Château d´Yquem e desde então, o estilo deste Sauvignon Blanc local é o mais próximo de Graves, região bordalesa pelos famosos brancos. Outra curiosidade, é que cerca de oitenta porcento do Chardonnay da Califórnia parte de clones geneticamente desenvolvidos na região.

Monterey

Este condado com dezesseis mil hectares de vinhas abrange nove AVAs. A AVA homônima Monterey apresenta alta produção, superando Napa Valley. Evidentemente, a qualidade não acompanha toda esta quantidade. Uma AVA de categoria é Santa Lucia Highlands, região montanhosa beneficiando-se das frias brisas do Pacífico. Pinot Noir e Chardonnay têm grande destaque. Aqui encontra-se o vinhedo Mer Soleil, um branco de grande impacto da vinícola Caymus.

San Luis Obispo County

A maior AVA deste condado é Paso Robles com dezesseis mil hectares de vinhas. O clima relativamente quente é favorável à Zinfandel e uvas que fazem o estilo Rhône. Já Edna Valley num clima mais influenciado pelo Pacífico, produz belos Chardonnays com um frescor cítrico a lima. Por último, Arroyo Grande, também de clima frio, elabora interessantes Chardonnays e Pinot Noir.

Santa Barbara County

Esta área ficou famosa com o filme Sideways onde o ator protagonista era apaixonado pela Pinot Noir. Com isso, um quarto do cultivo de vinhas é destinado a esta nobre cepa. O condado abrange quatro AVAs (Santa Maria Valley, Santa Ynez Valley, Santa Rita Hills e Happy Canyon of Santa Barbara), sendo as duas últimas de menor importância.

A influência do Pacífico é decisiva para um clima relativamente frio para padrões californianos, muitas vezes mais frio que a Côte d´Or na Borgonha, alongando o ciclo de maturação da uvas, sem o risco de chuvas. Pinot Noir e Chardonnay de destacada acidez com bom balanço. Uvas do Rhône como Syrah, Viognier e Roussanne, são destaques neste cenário.

Santa Cruz Mountains

Voltando ao norte da Central Coast, este condado montanhoso é de clima frio. Com vinhedos mais antigos que Napa Valley, eles são mais espaçados e em menor número. O mais famoso é sem dúvida o vinhedo Monte Bello da vinícola Ridge. Seu sedutor Cabernet Sauvginon envelhece maravilhosamente, sendo páreo duro para os mais afamados Bordeaux. Uvas como Chardonnay e Pinot Noir são também destaques.

O condado a leste de Santa Clara não tem o mesmo brilho. Trabalha com muitas varietais, tintas e brancas, mas ainda é uma promessa.

California Wine Regions: Parte III

27 de Fevereiro de 2014

Ainda dentro da Costa Norte, vamos abordar em detalhes o condado de Sonoma com vinte e quatro mil hectares de vinhas em treze AVAs. Dentre as principais uvas francesas, Chardonnay e Pinot Noir destacam-se no cenário. O mapa abaixo mostra as principais AVAs:

Sonoma: AVAs famosas como Russian River e Alexander Valley

Sonoma County conta com 24000 hectares de vinhas, sendo 29% Chardonnay, 22% Cabernet Sauvginon, 18% Pinot Noir, 14% Merlot, 9% Zinfandel e 4% Sauvignon Blanc e 4% outras. As quatro maiores AVAs de Sonoma County são: Russian River, Alexander Valley, Dry Creek e Sonoma Valley, as quais serão comentadas a seguir.

Russian River

Se há um lugar onde os vinhos elaborados com Pinot Noir se aproximam da Borgonha, este lugar é Russian River, sobretudo pelos produtores Rochioli e Williams Selyem. A influência da neblina marítima contribui muito para as condições climáticas ideais (relativamente frias) quanto ao cultivo da Pinot Noir. Os brancos à base de Chardonnay também costumam ser bastante elegantes. Em resumo, pode ser considerada a Borgonha da Califórnia com as devidas ressalvas.

Alexander Valley

Região mais quente que Russian River, com belos exemplares de Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnays maduros, Zinfandel (a típica casta norte-americana) e Sauvignon Blanc. O Cabernet da vinícola Silver Oak é um dos destaques da região.

Dry Creek Valley

Pensar em tomar um grande Zinfandel de vinhas velhas é pensar no terroir de Dry Creek Valley. São vinhos concentrados, cheios de sabor e belos companheiros com pratos de caça guarnecidos com molhos de frutas vermelhas. Os Cabernets encorpados também são destaques. 

Sonoma Valley

Esta é a região limítrofe com Napa Valley separada pela cadeia de Montanhas Mayacamas. Seu clima é relativamente frio com chuvas moderadas. A boa influência fria de Los Carneros, imediatamente ao sul do vale, fornece condições para belos Chardonnays bem equilibrados.

Dispersão da neblina pela famosa ponte

O esquema acima mostra a entrada do nevoeiro pela Golden Gate, invadindo as baías de San Francisco e San Pablo. Esta última, porta de entrada para a AVA Los Carneros. A foto abaixo ilusta o esquema.

Golden Gate: fenda estratégica para o famoso nevoeiro

Los Carneros

Além das quatro AVAs citadas, não poderíamos deixar de falar em Los Carneros, AVA importante que divide-se entre Sonoma e Napa Valley defronte à Baía da San Pablo. A influência direta de todo o nevoeiro do Pacífico provoca um clima relativamente frio, muito propício ao cultivo das cepas Chardonnay e Pinot Noir. O Chardonnay se sai melhor, quase sempre com uma acidez destacada. Já a Pinot Noir, apesar de bons exemplares, não tem o mesmo nível de Russian River.

Com isso, finalizamos os principais pontos da Costa Norte, partindo no próximo artigo para a Costa Central, imediatamente ao sul de São Francisco.

California Wine Regions: Parte II

24 de Fevereiro de 2014

Tendo como base nosso mapa abaixo, vamos explorar a nobre sub-região de North Coast, abrigando os excepcionais condados de Sonoma e Napa Valley. A região de Napa foi esmiuçada numa série de artigos neste mesmo blog intitulada Napa Valley (Partes I, II, III e IV).

North Coast: influência oceânica

Ampliando um pouco o mapa da Costa Norte californiana, observamos os condados de Mendocino e Lake no esquema abaixo. Evidentemente, os mesmos não têm a notoriedade de Sonoma e Napa, mas elaboram vinhos bem feitos em suas especialidades.

Mendocino e Lake: sem as brisas do Pacífico

Lake County

São três mil e duzentos hectares de vinhas distribuídos em cinco AVAs (Benmore Valley, Clear Lake, Guenoc Valley, High Valley e Red Hills Lake County). Clear Lake, o maior lago da Califórnia é fator moderador de temperatura, mantendo noites frias e arrefecendo o forte calor no verão. Sauvignon Blanc na AVA homônima é um dos destaques da região. As AVAs High Valley e Red Hills produzem bons tintos à base de Cabernet Sauvignon, Zinfandel e Merlot em altas colinas de solos vulcânicos.

Anderson Valley e a famosa neblina (fog)

Mendocino County

São dez AVAs distribuídas em pouco mais de seis mil hectares de vinhas. Região protegida da influência do Pacífico por uma cadeia de montanhas que podem chegar a novecentos metros de altitude. Exceto sua AVA mais famosa, Anderson Valley, é capaz de sugar as brisas frias do Pacífico através do rio Navarro, fazendo deste local um destaque para a Pinot Noir, castas brancas como Gewurztraminer e Riesling, além de bons vinhos-bases na elaboração de espumantes. Não é à toa que Maison Roederer (Cristal) tem raízes neste vale. A vinícola Eike Vineyards é uma bela referência para Pinot Noir.

Bons tintos baseados em Cabernet Sauvignon e Zinfandel vêm da AVA Redwood Valley. A parcial influência marítima prolonga a estação de amadurecimento das uvas, gerando vinhos finos e complexos.

Terroir da costa californiana

Nos condados de Sonoma e Napa é fundamental a compreensão do terroir acima, mostrando a influência benéfica e refrescante das neblinas que adentram pelo continente. De fato, a fria corrente marítima da Califórnia provoca ventos gelados na faixa litorânea. Os mesmos em contato com o ar quente do continente formam as famosas neblinas. Qualquer fenda no continente é capaz de sugar o nevoeiro, refrescando as vinhas e promovendo notável amplitude térmica. Em Sonoma, o rio Russian (Russian River) é uma das fendas importantes. Entretanto, a mais destacada encontra-se na baía de San Pablo através do ponte Golden Gate. Por esta fenda, a neblina inunda a famosa AVA de Los Carneros e propaga-se pelos condados de Sonoma e Napa, dissipando seus efeitos ao longo do continente.

Continuamos no próximo artigo com Sonoma County.

California Wine Regions: Parte I

20 de Fevereiro de 2014

Iremos falar de vinhos americanos a partir deste artigo, explorando os vinhos californianos. A razão é muito simples, noventa porcento dos vinhos produzidos neste país vêm deste estado localizado na costa oeste, junto ao Pacífico. Como os Estados Unidos são o quarto maior produtor de vinhos do mundo, a Califórnia sozinha produz mais que qualquer país do chamado Novo Mundo. Vejam alguns números recentes abaixo:

  • 3.540 vinícolas
  • 543.000 acres (aproximadamente 220.000 hectares de vinhas)
  • US$ 19,9 bilhões de dólares (vendas nos Estados Unidos)
  • 211,9 milhões de caixas de 12 garrafas (vendas nos Estados Unidos)
  • US$ 1,39 bilhões de dólares (exportações)
  • 51 milhões de caixas de 12 garrafas (exportações)

O mapa abaixo mostra as principais sub-regiões da Califórnia, seu relevo montanhoso e a proximidade do Pacífico. O chamado Vale Central é o maior responsável pelos números acima. Evidentemente, a qualidade fica em segundo plano.

Os  badalados condados de Sonoma e Napa na Costa Norte

No mapa abaixo, mais alguns condados famosos como Santa Bárbara e Santa Ynes no sul da Costa Central. O Pacífico banha cerca de mil e trezentos quilômetros de costa californiana desde o Oregon a norte, até o México, ao sul. Cada uma destas sub-regiões é dividida em condados (county), e estes por sua vez, são divididos em AVAs (American Viticultural Areas), uma espécie de Denominação de Origem européia. Atualmente, são cento e onze AVAs em todo o estado.

Califórnia e os estados limítrofes 

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Clique no endereço acima e vejas detalhes de todas as AVAs nos vários condados californianos.

O esquema abaixo mostra aspectos do terroir californiano sob a influência do oceano, sobretudo nas sub-regiões da costa. A alta temperatura e a insolação no continente chocam-se com as brisas frias do oceano nesta região, formando as famosas neblinas à noite, que serão dissipadas no dia seguinte, à medida em que sol volta a brilhar forte.

Próxima parada: Costa Norte (North Coast) com os condados de Lake, Los Carneros, Mendocino, Sonoma e Napa Valley. Seus badalados vinhos fazem a fama deste grande estado.

Estados Unidos: Importador ou Exportador?

8 de Abril de 2013

Aqui no Brasil, sempre ouvimos falar que os Estados Unidos consomem todo vinho que produz, além de ser um dos maiores importadores mundiais de bebidas, não só vinho. Juntamente com o Reino Unido e Alemanha, forma o chamado trio de ferro da importação mundial. De fato, este país é o quarto maior produtor de vinhos do mundo e também grande importador da bebida, mas exporta de forma significativa e evidentemente, não é para o Brasil. Por isso, temos a falsa ideia de que as exportações americanas são quase insignificantes. Para mudar esta visão, dê uma olhada nas tabelas abaixo:

Exportações mundiais em bilhões de euros

Sabemos que os três grandes países europeus (França, Itália e Espanha) são os maiores exportadores mundiais, seguidos por Austrália e Chile. Contudo, vejam os Estados Unidos em sexto lugar com bastante consistência de crescimento ano após ano. E para onde vai este vinho? Como já dissemos, não é para o Brasil. Seus grandes clientes são Europa e Canadá, principalmente, seguidos por Hong Kong e Japão, conforme tabela abaixo:

Valores em milhões de dólares

Um aspecto comparativo importante a ser considerado entre Europa e Canadá é a grande diferença do preço médio por garrafa. Os canadenses buscam rótulos mais sofisticados, de melhor qualidade, e portanto mais caros. Para valores semelhantes de exportação, os europeus compraram cerca de 228 millhões de litros em 2012, enquanto os canadenses apenas 76 milhões de litros. Num grau maior de sofisticação está Hong Kong, com apenas 17 milhões de litros. Japão e China mantêm valores médios intermediários entre Europa e Canadá.

Brasil no fim da fila

Países como Colômbia e República Dominicana estão a frente do Brasil, sem dizer que o pouco que vem para cá é extremamente caro. Para quem quiser se aventurar nos vinhos californianos, a importadora Smart Buy Wines tem boas ofertas, sendo uma das únicas especializadas no assunto (www.smartbuy.com.br).