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Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte II

13 de Outubro de 2014

Continuando o relato da França, após uma viagem de vários “sacrifícios”, chegamos à Borgonha, em Dijon. À noite, fomos jantar no restaurante William Frachot, duas estrelas no guia Michelin, do hotel Chapeau Rouge. Evidentemente, bons pratos, mas foi o menos emocionante de viagem. O serviço de sommellerie deficiente, bem abaixo para um padrão estrelado. Contudo, vamos ao que interessa, os vinhos degustados.

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Charme é tudo que esse vinho tem

Começamos com um Chablis sugerido pelo restaurante que não vale a pena comentar, sobretudo quando o seu vinho sucessor é o Domaine Comtes Lafon Meursault-Charmes Premier Cru 2011. Pessoalmente, meu produtor preferido desta apelação mostrando aromas extremamente elegantes e de uma textura singular em boca. Em seguida, o panorama ficou mais sério. Degustação de três Grands Crus de Vosne-Romanée e um super Premier Cru de Nuits Saint Georges.

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Um autêntico Nuits St Georges

Começando pelo Premier Cru acima, do produtor Prieuré-Roch, o monopólio Clos des Corvées 2008 é vinificado sem desengaço das uvas perfazendo somente três mil garrafas. Vinho de força, personalidade, mas surpreendentemente acessível neste momento. Textura de taninos excelente com bom potencial de guarda.

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Grand Cru ao lado de Vougeot e Musigny

Aqui entramos nos vinhos do Domaine mais famoso, DRC Grands Échézeaux 2002. Grande safra com grande potencial. Degustar vinhos DRC nesta tenra idade (12 anos) é como provar um assado ainda cru. Aromas ainda tímidos, boca fechada com taninos preguiçosos para uma devida polimerização. Sabemos que será grande, mas só o tempo irá comprovar. Quem o tiver na adega, não pense nele por pelo menos dez anos.

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Jardim com menos de um hectare

Este Grand Cru La Romanée Monopole 2006 tem vizinhos ilustres ao seu redor: Romanée-Conti e Richeburg. Para sua idade, safra 2006, apresentou-se surpreendentemente abordável. Aromas finos com toques florais e sous-bois, taninos de ótima textura e acidez refrescante. Evidentemente, vislumbra bons anos de adega. Minha grande dúvida é se sua longevidade é páreo para o próximo vinho, o enigmático e temperamental Romanée-Conti.

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Personalidade multifacetada

Toda vez que degusto este vinho me pergunto: Será que não tenho capacidade para entende-lo?. Os realmente espetaculares, fazendo jus a todo seu glamour foram as duas grandes safras com mais de vinte anos, 85 e 90. Este por exemplo, DRC Romanée-Conti 2006, é um completo infanticídio a tal ponto, que perdeu para seus dois concorrentes. Aroma fechado, boca extremamente equilibrada, taninos bem moldados, mas sem a expansão que faz dele um mito. Com certeza daqui a pelo menos quinze anos, estaremos falando de outro vinho. E assim, perpetua-se a lenda.

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O vinho botrytisado da Borgonha

Para encerrar a brincadeira, provamos o mais famoso e talvez único produtor da Borgonha a fazer um branco doce a partir da uva Chardonnay, Domaine Thévenet. Este vinho de apelação Mãcon Villages, Domaine de La Bongran Cuvée Botrytis 2001,  valeu pela curiosidade, mas não faz frente aos botryitsados clássicos franceses de Sauternes, Vale do Loire (Quart de Chaume e Bonnezeaux) e Alsace (Sélection des Grains Nobles).

Com isso, encerramos nosso primeiro jantar na Borgonha, após um dia cansativo. Amanhã tem mais. Almoço no Marc Meuneau. Ufá!

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Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte I

9 de Outubro de 2014

Depois de um hiato na rotina de nossas publicações, começa aqui o relato de algumas degustações de alto nível com amigos na França. O nome desta série tenta reproduzir as sensações e o glamour de alguns mitos da enologia, sobretudo francesa. A primeira degustação começa já no avião com toda a energia e expectativa do grupo, conforme relato abaixo.

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Neste primeiro grupo de vinhos degustados, podemos começar pelo Vieux Chateau Certan 1990, um dos tintos entre os melhores do seleto grupo de Pomerol, embora não haja ainda uma classificação oficial para esta apelação. Um vinho muito bem pontuado, mas que não estava em sua melhor forma. De qualquer modo, muito agradável, apesar de haver garrafas melhores. Aliás, um ditado que vai ser recorrente neste artigo é: ¨Em vinhos antigos, não existem grandes safras. Existem grandes garrafas¨.

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Em seguida, fomos para Pauillac com o belo Chateau Latour 1982. Um dos grandes desta safra e muita estrutura em boca. Nariz ainda um pouco fechado e taninos abundantes. Vai evoluir por algumas décadas e mesmo em seu apogeu, permanecerá por longo tempo.

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Os dois tintos foram precedidos pelo Champagne Cristal 2002 e pelo trio de ferro dos brancos de Beaune: Corton Charlemagne Coche-Dury, Ramonet Bienvenue Batart Montrachet e DomaineMichel Niellon Chevalier Montrachet, todos Grand Crus.

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Produtor excepcional

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Vinho raro do Ramonet

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Muita vida pela frente

O champagne Cristal dispensa comentários, sobretudo numa safra relevante como 2002. Bienvenue do Ramonet é um vinho raro e neste exemplar mostrou um toque cítrico sensacional. Já o Corton Coche Dury estava aberto e extremamente cativante enquanto o Chevalier de Michel Niellon mostrava-se introspectivo. Só após algum tempo, seus aromas e sabores desabrocharam.

Enfim, para um início de viagem, nada mal. No próximo artigo, chegada à Borgonha, Dijon, Côte de Nuits.

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Gamay ou Pinot Noir?

26 de Setembro de 2014

O título deste artigo é culpa do amigo Roberto Rockmann, alucinado por borgonhas. A safra não tem desculpa. 2009 foi uma das melhores dos últimos tempos. A proposta desta vez era encontrar o Pinot Noir da Côte d´Or, mais especificamente de Beaune, entre dois Gamays de grande prestígio, no seleto grupo dos Crus de Beaujolais. Produtores especialistas em suas apelações, Moulin à Vent e Fleurie. Os trabalhos foram abertos com o delicado e macio Auxey-Duresses do produtor Montille, gentilmente oferecido por outro grande amigo, doutor Cesar Pigati. Safra 2005, no mesmo nível de 2009. Apesar de seus nove anos, está em plena forma para uma apelação Villages. Todos os tintos acima citados foram degustados às cegas e são importados pela primorosa Cellar (www.cellar-af.com.br) do expert Amauri de Faria.

Auxey-duresses 2005

Estilo entre Meursault e Puligny-Montrachet

O primeiro vinho degustado entre os tintos foi o Beaune Premier Cru. A cor e os aromas sugeriam esta apelação. Sua coloração esmaecida e seus aromas terrosos, sous-bois e um fundo floral, credenciavam-no a um autêntico Pinot Noir da Borgonha. Foram os taninos mais finos da degustação, embora os demais fossem de alta qualidade. Bom momento para ser tomado, mas ainda vislumbrando bons anos em adega. O Domaine Fargues é super artesanal. Este vinhedo “Les Aigrots” fica ao lado do reputado Clos des Mouches que por sua vez, faz divisa com Pommard. A parcela do domaine é menos de um hectare de vinhas. As uvas são vinificadas de forma clássica com maceração delicada em cubas de madeira. Sua passagem por barricas é sutil tendo no máximo 30% de madeira nova. Aliás, a perfeita integração com a madeira, além da imperceptível presença do álcool, foram recorrentes em todos os vinhos.

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Cores e aromas da Côte d´Or

Beaune premier cru

A foto confirma a descrição acima

O segundo tinto deu trabalho. Inicialmente, muito fechado em aromas, boca tensa, taninos firmes, mas de grande potencial. Um pequeno infanticídio para o momento. Trata-se de um grande Moulin-à-Vent do Domaine Gay-Coperet. Um vinho amadurecido durante nove meses em toneis de carvalho de Tronçais, uma das melhores florestas da França. Os aromas de frutas escuras, leve floral, um toque tostado muito sutil e taninos presentes em abundância eram o seu perfil. Pelo menos, mais cinco anos em adega. Degustá-lo, preferencialmente decantado.

moulin à vent domaine gay-coperetEstrutura e profundidade

moulin à vent 2009

A cor confirma as impressões acima

O último tinto era o instigante Fleurie do Domaine Chignard. Balançou entre um Beaujolais e um Beaune. A cor tinha intensidade intermediária, respeitando a hierarquia do imponente Moulin-à-Vent. Embora com boa estrutura tânica, sua acidez, seu frescor, eram prevalentes. Aroma mais delicado e menos sisudo que seu parceiro de apelação. Aqui a delicadeza não tem nada a ver com fragilidade. Pelo contrário, este vinhedo (Les Mories) de oito hectares de vinhas antigas, com mais de sessenta anos e altamente adensadas (cerca de dez mil pés por hectare), tornam este vinho profundo e com belo extrato. Pode já ser degustado com prazer, mas alguns anos em adega devem lhe fazer bem. Seus treze meses em toneis antigos foram perfeitos para uma correta micro-oxigenação.

Fleurie chignard

Elegante e profundo

Fleurie 2009

Cor didática para um Cru de Beaujolais

Como sempre, uma degustação extremamente prazerosa. Evidentemente, as provocações do jornalista Roberto geram algumas discussões, mas tratando-se de Borgonha, é algo inevitável. Que venham mais provocações doutor Roberto! Afinal, o aprendizado é sempre bem-vindo e o bate-papo não tem preço.

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El Enemigo: Argentino de peso

22 de Setembro de 2014

Coincidentemente, mais um argentino em nosso mercado. Eu sei que este assunto está saturado, mas as exceções devem ser destacadas. É o caso da bodega El Enemigo, do competente enólogo Alejandro Vigil, o qual tem uma ligação muito forte com premiadíssima Catena.

O primeiro fato que chama a atenção é que nenhum vinho dos cinco degustados passou desapercebido. Digo isso porque normalmente numa degustação de produtor, um ou mais vinhos podem ser indiferentes ou tecnicamente com algum problema. Portanto, neste caso, o palestrante tem notável talento em seu métier. Os vinhos abaixo são importados pela Mistral (www.mistral.com.br) .

Os vinhos da noite

O primeiro vinho da noite, o único branco da degustação, trata-se de um Chardonnay do Valle de Uco, mais especificamente, Tupungato, num vinhedo de solo calcário entre 1400 e 1500 metros de altitude. Tanto a amplitude térmica (diferença de temperaturas entre o dia e a noite), como o solo calcário, fornecem um belo suporte de acidez ao vinho. A vinificação é feita em barricas francesas parcialmente novas com uma peculiaridade. Há um véu de leveduras sobre a superfície do vinho, protegendo-o da oxidação. Processo semelhante aos vinhos de Jerez nos estilos Fino e Manzanilla. O vinho permanece amadurecendo em barricas por doze meses. Na degustação, mostrou-se muito mais ser um vinho europeu do que do chamado Novo Mundo. Sua cor sem evolução, apresentava-se brilhante num bonito amarelo-palha. Os aromas, muito elegantes, mesclavam como rara maestria, fruta e madeira. Final equilibrado e marcante.

Lembrando em certos aspectos um Côtie-Rôtie

O vinho acima abriu a sessão dos tintos. Novamente, muito elegante, com notas de frutas maduras e um instigante toque floral. Na boca, pessoalmente, poderia ter um pouco mais extrato, embora fosse muito bem equilibrado. O frescor neste e nos demais vinhos foi uma constante. O blend tem Syrah (93%) e Viognier (7%). Esta pequena porcentagem de uva branca procura temperar o vinho, enaltecendo seus aromas e sabores.

O segundo tinto, trata-se de um Bonarda. Como já comentamos, esta uva foi sempre descriminada na Argentina por participar de cortes de vinhos baratos e sem expressão. Neste caso, estamos falando de um Bonarda de vinhedos centenários, onde a concentração e a expressão de seu terroir são destacados. O vinho matura em antigos tonéis de carvalho. Mostrou-se com ótima intensidade de cor, aromas concentrados de frutas, toques defumados e notas animais (estrebaria). Bom corpo, bem equilibrado, taninos presentes e de boa textura. Final longo e bem acabado.

O penúltimo vinho é um Malbec típico do Valle de Uco com uma acidez notável. Além da Malbec, há algumas pitadas de Cabernet Franc (6%) e Petit Verdot (5%). Os vinhedos localizam-se a mais de 1400 metros de altura em solos pedregosos e calcários. Vinificação com longa maceração e amadurecimento em barricas francesas (70% novas) por catorze meses. Vinho de bela coloração, sem qualquer sinal de evolução. Seus aromas remetem a toques florais, de fruta concentrada, e especiarias. Madeira muito bem casada ao conjunto. Taninos firmes, presentes, mas de alta qualidade. Bom corpo, belo equilíbrio e final bem delineado. Na sua faixa de preço (R$ 114 reais), um dos melhores do mercado.

Por fim, a estrela do time. O ícone Gran  Enemigo. O corte é surpreendente. Dependendo da safra, gira em torno de 80% de Cabernet Franc, complementada pelas uvas Petit Verdot, Malbec e às vezes, Cabernet Sauvignon. Os vinhedos em Tupungato atingem 1470 metros de altitude com alta densidade (em torno de onze mil pés por hectare). A exceção é a Petit Verdot plantada em Agrelo (Luján de Cuyo). O vinho amadurece em barricas de carvalho (35% novas) por dezoito meses. Vinho de guarda, grande concentração de cor. Deve ser obrigatoriamente decantado por algumas horas. Seus aromas refletem a pureza de frutas escuras, um toque mineral esfumaçado, ervas e notas balsâmicas. Na boca, encorpado, macio, fresco (ótima acidez) e taninos abundantes de rara textura. Final longo e expansivo.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Rádio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

R.J. Viñedos: Uma bodega familiar

17 de Setembro de 2014

Os vinhos argentinos cada vez mais inundam nosso mercado com as mais variadas opções. Neste terreno minado, é preciso separar o joio do trigo. É o caso da bodega Raul Joffré (RJ) destinada  a suas quatro filhas. Já dissemos em outras oportunidades os dois melhores terroirs de Mendoza: Valle de Uco e Zona Alta de Mendoza, emblematizada por Lújan de Cuyo e Maipú, onde muitas vezes encontramos vinhas antigas. Valle du Uco é uma zona relativamente nova, mas muito promissora, pois as altitudes podem atingir mais de 1300 metros, provocando com frequência a bem-vinda amplitude térmica (diferença de temperaturas entre o dia e a noite), e por conseqûencia, mantendo um ótimo frescor nas uvas com elevados níveis de acidez.

Início dos trabalhos

No caso desta bodega, os vinhedos situam-se em Valle de Uco com plantações de Malbec, Bonarda, Merlot, Cabernet Sauvignon, entre outras variedades. O início da degustação teve como vinho de entrada um Merlot de uma linha relativamente básica com apenas seis meses em madeira para 15% do vinho, ou seja, 85% do mesmo permanece em aço inox. Tinto de boa fruta, bom equilíbrio e evidentemente, sem complexidade. Pelo preço, R$ 48,00 a garrafa, é uma bela opção para eventos onde o consumo é elevado.

Bonarda: Bela surpresa da degustação

A uva Bonarda sempre teve um conotação negativa para vinhos de alta gama na Argentina. De origem italiana, sempre foi cultivada com altos rendimentos, para misturas de vinhos baratos e de grande volume. Neste caso, estamos falando de vinhas com cerca de sessenta anos de idade, plantadas no belo terroir de Agrelo, Lújan de Cuyo. Vinificação cuidadosa com longa maceração, o vinho é amadurecido em barricas de carvalho francês por dez meses.

Apresentou-se com uma cor jovem de muito boa intensidade. Os aromas, bem mesclados com a madeira, mostra fruta de muita pureza, aromas terrosos, de tabaco, ervas e notas de chocolate. Boa persistência aromática com taninos bem moldados. Ótima opção para fugir da mesmice dos Malbecs. Neste preço, R$ 75,00 a garrafa, talvez seja o melhor Bonarda argentino.

RJ Distinto: O ícone da bodega

Aqui estamos falando de um vinho de guarda. Apesar de quase dez anos (safra 2005), mostra-se ainda muito jovem. É imprescindível uma boa decantação. As vinhas antigas perfazem apenas um hectare. O blend favorece a guarda mesclando Malbec (40%), Cabernet Sauvignon (30%) e Merlot (30%). Vinificação pouco intervencionista com longa maceração das cascas. O vinho amadurece em barricas francesas novas por dezoito meses.

A cor não denota a idade, vislumbrando muita vida pela frente. Os aromas elegantes remetem a frutas maduras, madeira elegante e jamais invasiva, notas balsâmicas, de ervas e especiarias. Boca sedosa com um belo equilíbrio (agradavelmente quente). Vinho expansivo, taninos finos e um prazeroso final. Realmente, um vinho “distinto”. Para aqueles que estão acostumados aos tops argentinos (R$ 320,00 a garrafa), é uma instigante experiência.

Os vinhos são importados pela importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) e apresentam diversas linhas e muitas opções entre varietais e blends.

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Atualidades: Consumo de vinho

11 de Setembro de 2014

Não é de hoje que Luxemburgo, pequeno país encravado no centro da Europa, lidera o ranking do consumo de vinho per capita mundial. É bem verdade que este consumo vem caindo ano a ano, uma tendência global. Entretanto, há países tradicionais como Itália e Espanha, onde esta queda é bem acentuada, sobretudo na Espanha, fora da lista abaixo dos quinze primeiros.

O leste europeu tem relevância

A queda é mais acentuada ao longo dos anos na França, Itália, e menos em Luxemburgo. Já países como Áustria, Suíça, e Bélgica, o consumo é relativamente estável. Por fim, no leste europeu, Croácia e Eslovênia, entre outros estão aumentando gradativamente seu consumo de forma consistente, efeito indireto nas mudanças políticas nesta região.

O consumo na Espanha despencou

O trio de ferro acima em termos de produção mundial vem mostrando sinais constantes de declínio no consumo interno há alguns anos. Apesar da forte tradição vinícola nestes países, a ênfase na exportação, a diminuição de vinhos baratos e de baixa qualidade em detrimento de vinhos mais bem elaborados e consequentemente mais caros, são alguns dos fatores nesta queda de consumo. Além disso, a própria situação econômica da Europa e a diversidade de bebidas alcoólicas e não alcoólicas, formam novos hábitos hoje em dia e agregam esses valores nas gerações futuras. Mesmo a oferta de vinhos dos países do chamado Novo Mundo não provoca o efeito desejado. Muitas vezes esses vinhos são consumidos apenas como curiosidade. A Espanha talvez por ser um país mais quente  na média, comparado aos outros dois (França e Itália), é mais um motivo para esta queda acentuada. Embora, não haja efetivamente, uma relação lógica entre temperatura e consumo de vinhos, o fator psicológico fala mais alto.

Os maiores importadores estão animados

Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, incrementam seu consumo desde de 1997 de forma estável. Um pouco mais enfático no Reino Unido e relativamente discretos nos demais. Vale ressaltar o aumento nos Estados Unidos. Aparentemente, um aumento discreto, porém a enorme população do país gera números absolutos bem relevantes. Exceto o Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos além de produzirem vinhos, são grandes importadores da bebida.

Só para encerrar, nosso Brasil continua emperrado nos dois litros anuais per capita, atrás de Peru, Paraguai, Bósnia, Letônia, entre outros países surpreendentes. Isso tudo com um agravante. Concentração no sudeste. Bem de acordo com todas as desigualdades e contrastes do país.

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Spielmann Estates: Malbecs diferenciados

8 de Setembro de 2014

Dos inúmeros Malbecs que inundam nosso mercado, alguns diferenciam-se por seus vinhedos antigos, plantados em zonas nobres de Mendoza, e com uma vinificação cuidadosa. É o caso da vinícola Spielmann Estates  com assessoria do competente enólogo Pepe Galantes, responsável por muitos anos pelos vinhos da renomada Catena.

Canal Flores: Primeiro degrau da vinícola

Spielmann Estates trabalha apenas com três vinhos partindo de videiras antigas à base de Malbec. Apesar do caráter varietal, ou seja, ampla presença da Malbec, o vinho é sabiamente complementado com Cabernet Sauvignon e uma pitada de Syrah. O corte enriquece o conjunto, principalmente no que tange à estrutura do vinho e por consequência sua longevidade. Além disso, os vinhedos localizam-se em Perdriel (Lújan de Cuyo), zona alta do rio Mendoza, partilhando de nobre vizinhança (vinhedos Achaval Ferrer, Catena e Viña Cobos). Outra particularidade é a chamada micro-vinificação, feita em pequenos tanques ou pequenas barricas, onde a interação das cascas com o mosto durante a fermentação é mais intensa e eficiente, extraindo mais cor, sabores, aromas, pela riqueza dos polifenóis (antocianos e taninos presentes na casca da uva).

Começando pelo vinho-base da vinícola, Canal Flores, já estamos num ótimo nível, partindo de videiras centenárias de Malbec. O corte é complementado com 10% Cabernet Sauvignon e 5% Syrah. O rendimento é próximo de 1,5 quilos de uva por parreira, enquanto o amadurecimento é feito em barricas de carvalho francês, sendo 76% novas, por 12 meses. O exemplar provado apresentava cor intensa, ótima concentração de frutas e madeira bem casada. Estrutura tânica marcante, sugerindo alguns anos de guarda.

O grande vinho da bodega chama-se Viñedo 1910. O nome já diz tudo. Vinhas centenárias com rendimento de 750 gramas de uvas por parreira. Alta concentração de sabores, complementada por 15% Cabernet Sauvignon.  O vinho amadurece por 14 meses em barricas de carvalho francês novas. Tinto de guarda, com taninos de rara textura. Seus componentes ainda não perfeitamente integrados, merecem uns bons anos de adega. Decantação obrigatória por pelo menos um hora e meia.

O último tinto finalizando o trio, trata-se do Icono ou Mitos. Um corte balanceado de Malbec (67%), Cabernet Sauvignon (22%) e Syrah (11%). Rendimentos baixíssimos em torno de meio quilo de uvas por planta. Pela potência e concentração, o vinho passa 14 meses em barricas francesas novas. Num estilo sutilmente moderno, prima pela intensidade de aromas e grande presença em boca. Deve beneficiar-se com bons anos de guarda. Se tomado jovem, deve ser aerado em decanter de base larga por pelo menos duas horas.

Esta degustação foi gentilmente oferecida pela jornalista Arlene Colucci, diretora da agência Gabinete de Comunicação (www.gabinete.com.br) no restaurante Chef Rouge, o qual dispõe dos vinhos acima citados.

Prato de javali escoltado por Canal Flores

Em resumo, mais uma bela opção diferenciada num mercado inundado por bons Malbecs, mas em sua maioria, de certa padronização. Os pedidos podem ser feitos diretamente com a vinícola, já comercializados no Brasil, pelo site http://www.spielmannestates.com a preços atraentes, frente à qualidade dos mesmos. Atualmente, Canal Flores sai por R$ 95 reais cada garrafa e o ótimo Viñedo 1910 por R$ 180 a unidade.

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Queijos Azuis: A sublimação das texturas

4 de Setembro de 2014

Não é a primeira, nem a última vez, que a ABS-SP aborda o tema: Queijos Azuis x Vinhos Botrytisados. Também não é primeira vez que o assunto é comentado neste blog. O fato é que trata-se de umas das mais perfeitas harmonizações clássicas. Os contrates entre doce e salgado, além da acidez do vinho combatendo a gordura do queijo, a similaridade de texturas tem papel crucial e pouco abordado nos inúmeros comentários de eventos enogastronômicos.

Queijos azuis: sabores marcantes

Pela foto, é possível notar a textura de cada um dos queijos. Por ordem crescente de cremosidade, temos o Gorgonzola (número 3, o queijo da frente), o Roquefort (queijo número 1) e por fim, o Saint Agur (número 2), ao lado do Roquefort.

É bom esclarecermos que os chamados vinhos botrytisados são elaborados a partir do ataque benéfico do fungo Botrytis Cinerea ainda com as uvas na parreira. Esse ataque entre outras consequências, produz um aumento considerável do glicerol, proporcionando uma untuosidade e maciez extremamente particulares nesta categoria de vinho. Os exemplos mais clássicos e citados são os Sauternes (região bordalesa) e os Tokajis (região famosa da Hungria). Este ponto ficou  bastante claro  nesta degustação, conforme vinhos abaixo:

Painel diversificado

Os vinhos botrytisados de famosas regiões como Loire na França com as apelações Quarts de Chaume e Bonnezeaux, ou alguns da Alsace sob a apelação Seléction de Grains Nobles com as uvas Riesling e Pinot Gris principalmente, não apresentam normalmente textura compatível para enfrentar queijos azuis muito cremosos com Roquefort ou Saint Agur. Da mesma forma, os destacados austríacos da específica região de Burgenland ou distintos Trockenbeerenauslese alemães, apresentam as mesmas características mencionadas acima.

Quanto à degustação propriamente dita, o primeiro vinho na sequência da foto acima, o austríaco do ótimo produtor Alois Kracher (importadora Mistral – http://www.mistral.com.br), foi o que mais sofreu diante dos queijos. Embora as compatibilizações entre todos os queijos e os vinhos degustados estejam longe de serem desagradáveis, numa sintonia fina as afinidades ficam mais abaladas. O grande problema do primeiro vinho é sua delicadeza perante aos queijos. Em resumo, faltou textura e potência de aromas e sabores frente aos queijos. Já o segundo vinho, o sul-africano Nederburg (importado pela Casa Flora- http://www.casaflora.com.br), foi o que mais agradou no cômputo geral. Principalmente com os queijos Roquefort e Gorgonzola, sua potência e presença de açúcar foram componentes essenciais na harmonização. Já com o queijo Saint Agur, de sabor mais suave, a textura de ambos foi o ponto de união entre ambos.

Continuando na sequência, o terceiro vinho, Tokaji 5 Puttonyos (importadora Casa Flora), é bem diferente dos clássicos Tokajis antes da modernização na região. Embora seu equilíbrio fosse perfeito, com acidez refrescante, açúcar e álcool comedidos, tornou-se um tanto delicado para a harmonização. Com o Saint Agur saiu-se melhor, enfatizando a falta de textura para a cremosidade do queijo.

Por último, o quarto vinho, o Sauternes Château Les Justices do mesmo produtor do mítico Château Gilette (importadora Decanter – http://www.decanter.com.br), mostrou-se com relativa untuosidade e com o álcool dominando o equilíbrio frente a seus componentes de acidez e açúcar. A combinação com o Roquefort é clássica. Sua untuosidade e doçura foram fundamentais na harmonização. Já a textura cremosa do Saint Agur e sua delicadeza de sabor ficaram um ponto abaixo. Com o Gorgonzola, a potência do queijo ficou um pouco acima, só sendo perfeitamente combatida pelo sul-africano acima mencionado.

É evidente que essas considerações são pessoais, dando margem a inúmeros argumentos e discussões. Entretanto, queijos de uma maneira geral, costumam impor uma série de dificuldades para a perfeita harmonizações com vinhos, sobretudo queijos potentes como esses que foram testados.

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Os Atuais Números da Itália

1 de Setembro de 2014

Os números mais recentes da Itália, o grande protagonista no cenário mundial juntamente com a França, trazem algumas confirmações nas tendências vinícolas deste país. De forma positiva, a produção de vinhos DOC e IGT vem tomando força nos últimos anos, achatando cada vez mais a produção dos chamados “Vino da Távola”, conforme quadro abaixo:

A qualidade tende a imperar

Outro fator positivo é o equilíbrio da produção de vinhos nas três grandes sub-regiões do pais, ou seja, Norte, Centro e Sul. Das vinte regiões vinícolas italianas, o Vêneto cada vez mais assume a liderança na produção, embora Sicília e Puglia tenham ainda sua importância. Em outros tempos, essas duas regiões sulinas eram verdadeiras máquinas de produção de vinhos. Em sua maioria, de qualidade duvidosa. Felizmente, a tendência da qualidade em detrimento da quantidade parece ter sido entendida pelos produtores do Mezzogiorno. Outro destaque, é a grande produção da Emília-Romagna, região de transição entre o norte e centro italianos. Por fim, Toscana e Piemonte apresentam produções semelhantes, sempre com alta qualidade em seus vinhos, bem acima da média das demais regiões, conforme quadro abaixo:

Grande equilíbrio em produção entre o Norte e Sul italianos

Notem as baixíssimas produções no Valle d´Aosta e Luguria. De fato, as dimensões das respectivas áreas aliadas a relevos extremamente acidentados, limitam muito o incremento da produção. Em particular, no Valle d´Aosta temos ainda o clima alpino. Praticamente, junto aos Alpes, as temperaturas são extremas para as vinhas.

No restante, percebemos uma certa estabilização das demais regiões desde 2008, embora Sicília, Sardegna e Emília-Romagna, deem sinais de pequeno mais consistente crescimento.

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La Valpolicella Classica: Allegrini

28 de Agosto de 2014

As principais regiões vinícolas do mundo, sobretudo as europeias, têm sempre um grupo de produtores que são suas respectivas referências. Na Itália, especificamente no Vêneto, sob a região demarcada do Valpolicella Classico, Allegrini é uma destas referências. Localizado no vale Fumane, um dos três clássicos vales, além de Marano e Negrar, a vinícola apresenta um portfolio de vinhos muito além dos Valpolicellas e Amarones. As condições geográficas e climáticas deste vale geram os vinhos mais robustos da região por receber mais luz solar. O solo é predominantemente calcário.

Vinhedo Podere Palazzo dela Torre

O primeiro vinho fora dos padrões clássicos é o acessível Palazzo dela Torre, uma mistura de técnicas do Valpolicella e Amarone. O vinho passa por duas fermentações de acordo com a sequência de duas colheitas distintas. Apresenta-se sob a denominação Veronese IGT (Indicazione Geografica Tipica). Trata-se de vinhedos de pouco mais de 26 hectares onde ocorre a primeira colheita no início de setembro destinada ao appassimento, como se fosse elaborar um Amarone. As uvas são predominantemente Corvina, que fornece estrutura ao vinho, complementadas com Rondinella, outra uva autóctone (própria da região) e uma pitada de Sangiovese (onipresente em toda a Itália). A idade média da vinhas chega a quarenta anos, a qual fornece uma boa expressão deste terroir. Posteriormente, no final de setembro, colhe-se o restante das uvas para serem imediatamente vinificadas na intenção de se elaborar um Valpolicella Classico. Ao final desta fermentação, adiciona-se ao vinho aquelas uvas que foram colhidas para appassimento, as quais perderam água e concentraram  açúcar. Portanto, dá-se uma segunda fermentação ao vinho. Finalmente, o vinho é amadurecido em barricas de carvalho francês de segundo uso (para não marca-lo em demasia pela madeira) por quinze meses. É um vinho de bom corpo, aromas e sabores marcantes, fazendo um meio de campo entre um Valpolicella e um Amarone. Acompanha muito bem massas de sabores mais intensos, bem como carnes guarnecidas por risotos, especialmente os de funghi porcini.

Ótima relação Custo/Benefício

Vinhedo La Grola: Sant´Ambrógio di Valpolicella

Sob a mesma denominação do vinho anterior, Veronese IGT, os vinhedos em torno de 30 hectates estão localizados em Sant´Ambrogio di Valpolicella, um terroir a sul de Fumane, próximo ao rio Adige. A proporção de Corvina aumenta para cerca de 80%, embora misture-se Corvinone (uma variação da Corvina numa versão menos tânica). Complementa-se com pequenas parcelas de Oseleta (uva autóctone) e Syrah. Os vinhedos têm media de idade de 25 anos e o solo é composto de argila, calcário, com boa pedregosidade. A vinificação é feita em aço inox com intensa maceração e remontagens. O vinho amadurece por cerca de 16 meses em barricas de carvalho francês de segundo uso (novamente a preocupação de não marcar muito a madeira). Vinho mais encorpado que o anterior, acompanhando bem os assados clássicos como cabrito e cordeiro.

La Poja: Pequeno vinhedo de 2,65 Ha

Este é o grande vinho da vinícola fora dos padrões clássicos sob a denominação mais uma vez, Veronese IGT. Trata-se de um pequeno vinhedo plantado em 1979 na região de Sant´Ambrogio di Valpolicella com uvas 100% Corvina. La Poja pronuncia-se La Poia. O solo deste pequeno pedaço de terra é diferenciado com grande predominância de calcário, sobretudo em forma de pedras. Este fator fornece elegância e frescor, além da natural estrutura tânica da Corvina. A colheita é feita tardiamente para a plena maturação das uvas. A vinificação é intensa com longa maceração e finalizada com temperaturas mais altas (em torno de trinta graus) para uma melhor extração de taninos. O vinho com essa estrutura passa vinte meses em barricas francesas novas de Allier antes do engarrafamento. Este é o vinho mencionado no livro de Enrico Bernardo (A arte de degustar o vinho) para representar o Veneto. Ele sugere pelo menos duas horas de decantação e pode ser servido com Pombo Assado e Recheado, acompanhado de Risoto de Rabanetes de Treviso. Vinho de grande mineralidade, expressando a força de seu terroir.

Alguns destes vinhos foram degustados na ABS-SP, incluindo Amarones e Valpolicellas. A vinícola possui vinhedos em Montalcino (Toscana), produzindo ótimos Brunellos,  os quais foram bem avaliados nesta mesma degustação. Estes vinhos são importados atualmente pela Inovini (www.inovini.com.br).

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.